Ele cobrava para salvar pessoas, mas o destino era o forno
📌 No auge da Segunda Guerra Mundial, em Paris, o Dr. Marcel Petiot oferecia uma rota de fuga segura para aqueles que fugiam da perseguição nazista. Mas o que parecia ser a salvação era, na verdade, uma armadilha mortal. Neste vídeo, mergulhamos na mente sombria de um dos serial killers mais prolíficos e manipuladores da história, conhecido como "Doutor Satã".Descubra como ele operava, as descobertas horripilantes feitas em sua mansão e o julgamento que parou a França.Eu diria que pelo seu modus operandi e o contexto do caso, ele é um dos serial killers mais cruéis da história. -------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
- O Doutor Satã: Marcel PetiotMarcel Petiot · Segunda Guerra Mundial · Paris ocupada pelos nazistas · Rede de fuga Flytox · Crimes e modus operandi
- Padrão de Feminicídio ClássicoO nome em código Flytox · O modus operandi do Dr. Eugênio · A injeção de veneno e a sala isolada · O destino dos pertences das vítimas
- A descoberta macabra no casarãoFumaça e cheiro incomum · Intervenção policial e dos bombeiros · Evidências no porão
- A carreira médica e a escritaFormação acelerada em medicina · Atuação em Villeneuve-sur-Rion · Envolvimento com narcóticos e abortos clandestinos · O desaparecimento de Louisette de Lavaux
- A fuga e a manipulação de PetiotPetiot se apresenta como irmão do dono · Falsa alegação de trabalho da resistência · Polícia francesa libera Petiot
- A investigação da Gestapo e a prisão de PetiotSuspeita da Gestapo sobre a rede · Infiltração de informantes · Prisão e tortura dos intermediários · Prisão de Petiot pela Gestapo
- Justificativas da GuerraConsultório e reputação médica em Paris · Emissão de atestados falsos de invalidez · Montagem da rede Flytox
- O contexto da Paris ocupadaVida sob ocupação nazista · Mercado clandestino de fuga · Ameaça aos judeus
- Infância e juventudeSinais de comportamento violento e antissocial · Diagnóstico de doença mental · Serviço militar e surtos
- Julgamento Cláudio Castro
Meu desejo é parar de achar que existe um jeito certo de ser mãe. A gente entende que cada gestação é única e que cada fase pede cuidados diferentes. Por isso, Nestlé Materna desenvolveu uma linha completa de suplementos para acompanhar você em toda a jornada da maternidade. Desde o apoio à fertilidade para mulheres que estão planejando a gestação até linhas exclusivas com vitaminas e minerais para cuidados na gestação e no perpério. Nestlé Materna, com você, do seu jeito.
Pronto pra sentir a energia de Nescau? Então entre no jogo com Ana Castelli e Pedro Sampaio, o maior feat do ano. Chama a galera e dá o play, que eu quero ver você jogar. E se prepara que esse hit não vai sair da sua cabeça. Vem, que é agora ou nunca. Nescau, energia que dá jogo.
Esse é talvez o mais cruel dos assassinos. Muita gente pagou fortunas pra ele na esperança de escapar dos horrores nazistas. Acabaram caindo nas mãos do próprio diabo. Presta bem atenção nessa história. Na manhã de uma segunda-feira de março de 1944, uma fumaça preta e grossa começou a sair da chaminé de um casarão.
no número 21 de uma rua elegante de Paris. Era um prédio de três andares, com um pátio interno e um antigo estábulo nos fundos. O tipo de lugar que antigamente pertencia à nobreza francesa. Mas naquela manhã, o que saía dali não era uma fumaça de lareira.
Era algo diferente. O cheiro grudava na garganta, descia pro estômago. Os vizinhos fecharam as janelas, esperaram um, dois, três, cinco dias de fumaça e ninguém apareceu pra resolver aquilo. No sábado, um dos vizinhos atravessou a rua e bateu naquela porta.
Ninguém atendeu. Tinha só um bilhete pregado ali. O dono avisava que estaria fora por um mês. O vizinho então ligou para a polícia. Dois policiais chegaram. E os moradores da rua contaram que o dono da casa era um médico. Que morava em outro endereço.
a uns 3 quilômetros dali. Contaram também que nos últimos meses tinham visto uma coisa estranha lá. Gente chegava naquela casa de noite, às vezes com malas, e depois ninguém mais via esse povo saindo de lá. Um homem aparecia regularmente com uma carroça puxada por cavalos, sempre de madrugada. Os policiais ligaram para o tal médico, suposto dono da casa. Ele atendeu.
e disse para esperarem que ele estava indo até lá com as chaves da casa. Meia hora se passou, uma hora e nada. E a fumaça continuava. Os policiais ficaram preocupados com o incêndio e chamaram os bombeiros.
Uma equipe então chegou e como ninguém abria a porta, um bombeiro subiu pela fachada e entrou por uma janela do segundo andar. Ele desceu até o porão, seguindo o cheiro. Então ele parou. Tinha um forno a carvão aceso, saindo de dentro desse forno como se estivesse acenando.
Tinha um braço humano carbonizado. No chão, em volta, pedaços de corpos em diferentes estágios de decomposição. Sacos de lona empilhados, cheios de fragmentos de ossos. Uma banheira de cal virgem com restos humanos parcialmente dissolvidos. E no ar, aquele cheiro que os vizinhos sentiam há dias era.
carne queimando. Enquanto os bombeiros e os policiais ainda tentavam processar o que eles estavam vendo, um homem parou na frente da casa. Chegou de bicicleta verde, empurrando ela no meio da multidão de curiosos. Era magro, pálido, barbeado, usando um sobretudo cinza escuro, sem chapéu na cabeça.
Suava muito. Tinha uns 40 e poucos anos, olhos escuros, quase pretos e uma calma que não combinava em nada com aquela situação. Ele disse que era irmão do dono da casa. Os policiais levaram ele até o porão. O homem olhou para os restos humanos espalhados no chão, olhou para o forno e disse, sem alterar o tom, isso é grave, minha cabeça pode estar em jogo.
Aí, ele fez uma coisa insólita, ele olhou para os policiais e perguntou, vocês são franceses? Os policiais acharam a pergunta até ofensiva, claro que eram franceses, e o homem com aquela voz firme explicou, aquilo ali era trabalho da resistência, aqueles corpos eram de alemães e de traidores.
colaboracionistas que mereciam morrer. E se a polícia entregasse aquela informação para os nazistas, ele e muita gente boa ia acabar fuzilados. Era 1944, Paris estava ocupada pelos alemães. A resistência francesa era tratada como causa sagrada. Um dos policiais, chamado Tessier, fez uma continência para o homem e disse que não ia mencionar a visita quando os superiores chegassem.
aconselhou o sujeito até a fugir e o homem subiu na bicicleta verde e foi embora, pedalando tranquilamente pelas ruas de Paris. Aquela foi a pior decisão que a polícia francesa tomou em décadas. Eu sou Marcos Campos e essa é uma história que se passa numa Paris sitiada pelos nazistas, onde as pessoas gastavam fortunas para fugir dos horrores da guerra dos nazistas e acabavam caindo nas mãos de algo tão ruim quanto.
Nós vamos conhecer essa história que é pra lá de peculiar. Como uma falsa rota de fuga pra América do Sul matou dezenas de pessoas sem ninguém desconfiar. O que a polícia encontrou naquele porão além dos corpos? E quem era de verdade o tal homem da bicicleta verde? É o que a gente vai desvendar juntos no episódio especial de hoje. Só já faz o ritual do engajamento e vamos aos fatos.
Pra entender o que aconteceu naquele casarão, a gente precisa voltar um pouco e entender o que era Paris sob a ocupação nazista. Quando a Alemanha nazista invadiu e derrotou a França, o país inteiro mudou da noite pro dia. Paris, a cidade dos cafés e bulevares, da liberdade, virou uma cidade de toque de recolher, delações e muito medo. Soldados alemães patrulhavam as ruas.
A polícia de segurança nazista, os informantes e a colaboração do regime de Vick faziam Paris parecer uma cidade onde qualquer conversa podia virar denúncia. E pra quem era judeu, a situação foi ficando cada vez mais desesperadora. Principalmente a partir de 1942, as prisões e deportações se tornaram uma ameaça concreta. Muita gente sabia, ou pelo menos desconfiava, que ser levado podia significar nunca mais voltar. Nesse cenário...
surgiu um mercado clandestino de fuga. Redes de contrabando, rotas secretas pela Espanha, Portugal, documentos falsificados. Para quem tinha dinheiro, existia uma chance, pequena, arriscada, mas existia, de escapar daquela Europa ocupada e a chegar, por exemplo, na América do Sul, onde países como a Argentina recebiam imigrantes.
Muitas dessas rotas eram legítimas, operadas por membros reais da resistência francesa que arriscavam a própria vida para salvar judeus e perseguidos políticos. Outras eram golpes de oportunistas que cobravam fortunas e sumiam com o dinheiro. Mas, como sempre tem mais, não é?
tinha uma rota que era diferente de todas as outras. Nessa rota, a pessoa pagava, entregava tudo o que tinha e simplesmente sumia da face da terra. Sem rastro, sem carta, sem corpo. E como Paris estava em guerra, como gente desaparecia todo dia, presa pela força policial nazista, deportada, fuzilada, ninguém achava estranho que mais uma família tivesse sumido.
Era só mais um nome numa lista infinita de desaparecidos. Essa rota tinha até um nome em código, Flytox. E Flytox não era um nome aleatório, era o nome de uma marca popular de inseticida, daqueles sprays usados pra matar moscas e mosquitos, sabe? E o nome combinava de forma macabra com aquela operação clandestina, uma rede que prometia salvar pessoas, mas que terminava...
A rede Flytalks era comandada por um homem que se apresentava como o doutor Eugênio. Ninguém sabia o nome real dele. E essa era a ideia. Ele operava através de três intermediários, digamos, que circulavam por bares, comunidades judaicas e círculos clandestinos de Paris, oferecendo algo irresistível, passagem segura para a Argentina, via Portugal, com todos os documentos inclusos.
O preço? 25 mil francos por pessoa. Uma fortuna na época, dinheiro suficiente inclusive pra arrancar de uma família praticamente tudo o que ela ainda tinha.
Mas, para quem estava fugindo dos nazistas, o dinheiro era o menor dos problemas. A vida valia muito mais. Os intermediários instruíam as vítimas a levar tudo de valor que tivessem. Dinheiro, joias, casacos de pele, ouro, diamantes. Diziam que iam precisar disso na nova vida.
E aí encaminhavam as pessoas até uma casa discreta numa rua elegante de Paris, perto do Arco do Triunfo. Quando a vítima chegava, o doutor Eugênio a recebia pessoalmente. Ele era muito educado, articulado, transmitia segurança.
Ele explicava que o governo argentino exigia que todo imigrante fosse vacinado antes de entrar no país. Fazia sentido? Ninguém questionava isso. E aí, ele aplicava uma injeção. Só que aquilo não era vacina. Segundo a acusação e a versão mais aceita do caso, aquilo era veneno.
geralmente descrito como cianeto. O ponto é que depois daquela vacinação, as vítimas não saiam mais vivas da casa. A vítima era levada para uma sala construída sob medida no porão da casa. Essa sala era isolada.
trancada por fora e não oferecia uma saída fácil por dentro. Tinha ganchos metálicos nas paredes e tinha um detalhe que os investigadores descreveram como uma das coisas mais sinistras da casa. Um olho mágico instalado na parede, usado para observar do lado de fora o que estava acontecendo lá dentro. E depois que a vítima morria...
O doutor Eugênio recolhia todas as suas posses, o dinheiro, as joias, até a roupa, e se livrava do corpo. No começo, ele jogava os restos no rio Sena, mas quando os alemães aumentaram o patrulhamento nas margens, ele passou a dissolver os corpos em cal virgem.
queimá-los no forno do porão. Só pra você entender o volume do que acontecia ali, quando a polícia finalmente revistou a casa inteira, encontrou 72 malas, 655 quilos de objetos pessoais, 1760 peças de roupa, casacos de lã, vestidos, saias, bolsas, ternos masculinos, pares de sapatos.
E no meio de tudo isso, um pijama infantil, que pertencia a uma criança chamada René Neller, que tinha ali desaparecido junto com os pais, isso porque a família inteira tinha procurado o doutor Eugênio, achando que ia começar uma vida nova na Argentina. Vai vendo.
Agora, quem era o monstro por trás desse homem? De onde ele veio? E como alguém chega ao ponto de montar uma operação dessas? O verdadeiro nome por trás do Dr. Ején era Marcel Petit. Ele nasceu em 1897 em Osser, uma cidade pequena no centro-norte da França. Desde a infância, ele já mostrava sinais de...
Alguma coisa fora do comum. Ele foi expulso de várias escolas por comportamento violento e antissocial. Tem até relatos de que ele disparou a arma do pai dentro da sala de aula. Na adolescência, ele foi pego roubando uma correspondência de uma caixa de correio. E quando levaram ele para uma avaliação psiquiátrica, o diagnóstico foi de doença mental.
Com cerca de 19 anos, ele se alistou no exército francês durante a Primeira Guerra Mundial. Ele foi ferido e exposto a gás durante uma batalha. E ele começou a ter surtos. Ele foi mandado para casas de repouso, onde foi preso por roubar cobertores do exército, morfina, carteiras de outros soldados e até fotografias. Em dado momento, segundo os registros militares, ele teria colocado uma granada dentro de um tubo de uma batalha.
e posto o pé na frente da abertura para ser dispensado do serviço por causa do ferimento. Ele conseguiu uma aposentadoria por invalidez. Depois da guerra, o Petiot entrou num programa acelerado de educação para veteranos.
Ele fez a faculdade de medicina inteira em oito meses e se formou em dezembro de 1921. Se instalou então numa cidadezinha chamada Villeneuve-sur-Rion, onde ele começou a atender pacientes e ao mesmo tempo abastecer o mercado clandestino de narcóticos e a realizar abortos clandestinos. Em algum momento da vida nessa cidade,
o Petiot começou a se envolver com pessoas ao redor dele de um jeito cada vez mais perigoso. Em 1926, ele teve um caso com uma mulher chamada Louisette de Lavaux, filha de uma paciente idosa dele. Ela sumiu em maio daquele ano. Os vizinhos contaram para a polícia que tinham visto o Petiot carregando um baú para dentro do carro.
A polícia investigou, não encontrou provas suficientes e encerrou o caso como uma fuga voluntária. Muitos pesquisadores consideram Louisette a primeira vítima dele. Só que em vez de ficar quieto depois desse episódio, o Petiot fez o contrário. Concorreu a prefeito e ganhou. Sabe como? Pagou um cara para tumultuar o debate eleitoral do adversário que perdeu o controle da plateia.
Uma vez no cargo, Petiot desviou dinheiro público, fraudou contratos e ligou a rede elétrica da cidade direto na própria casa dele, para não precisar pagar a conta de luz. Ele foi suspenso do cargo em 1931 e antes de ser oficialmente expulso, se mudou para Paris. Em Paris, ele montou um consultório na Rue de Lecomartin.
E construiu ali uma reputação médica usando credenciais falsas. Ele atendia muita gente pobre, de graça, o que lhe dava ali uma imagem de benfeitor. E nos bastidores, ele continuava prescrevendo narcóticos e realizando abortos ilegais. Em 1936, ele recebeu autoridade para emitir atestado de óbito. Naquele mesmo ano, ele foi internado brevemente por cleptomania. Aí...
Veio a grande guerra, e a guerra foi para um homem como Petiot a oportunidade perfeita. Enquanto milhões de pessoas sofriam sob a ocupação nazista, o Petiot viu lucro. Primeiro, passou a emitir atestados falsos de invalidez para franceses, que eram convocados para o trabalho forçado na Alemanha. O que, em tese, pode até ser considerado um ato de resistência, mas a partir de 1942, com seus três intermediários, Raul Fourier,
E René Gustave Nesondé, ele montou a rede Flytox que eu já comentei, e começou a matar sistematicamente. A Gestapo, por mais estranho que possa parecer, acabou sendo a primeira a desconfiar da rede de Petitio, ou o doutor Eugène. Eles não suspeitavam que era um esquema de assassinato, achavam que era uma operação real da resistência que estava ajudando judeus a escapar. Em 1943, um agente da Gestapo, chamado...
Robert Iodekum forçou um prisioneiro chamado Ivan Dreyfus a se infiltrar na rede. Dreyfus entrou e nunca mais foi visto. Quando essa abordagem falhou, a Gestapo mandou um outro informante, que conseguiu se infiltrar com sucesso e identificou aqueles três intermediários do Petiot. Eles foram presos e torturados. Sob tortura...
Confessaram que o doutor Eugène era Marcel Petiot, só que eles não tinham informação nenhuma sobre a resistência, porque nunca fizeram parte dela. Mesmo assim, ficaram presos por oito meses sob suspeita de ajudar judeus a fugir. O próprio Marcel Petiot foi preso pela Gestapo em maio de 1943.
ficou detido até janeiro de 44. Algumas versões apontam que a libertação dele teria envolvido influência ou dinheiro, mas o fato central é que os alemães não conseguiram provar que ele fazia parte de uma rede real de resistência.
E é aí que entra a cena que a gente viu lá no começo do episódio. Dois meses depois de sair da prisão da Gestapo, a fumaça começou a sair da chaminé lá da casa da Rue Le Sué. Petiot, o homem da bicicleta verde, lembra? Conseguiu convencer dois policiais franceses, no meio de um porão cheio de cadáveres, de que tudo aquilo era trabalho patriótico.
Depois que Petiot pedalou para longe daquela casa, as coisas começaram a andar. O comissário Jorge Vitor Massu, um veterano de 33 anos da polícia, com mais de 3 mil prisões no currículo, assumiu o caso e fez uma varredura completa na casa. Encontrou estruturas preparadas para lidar com os restos humanos.
A sala isolada com o olho mágico, a banheira com o cal virgem, catalogou tudo. Os sapatos, os vestidos, as malas, os ternos, o pijaminha do menininho. Na mesma noite, o comissário Massuo recebeu uma ligação urgente na casa dele. Ele saiu da cama, vestiu sobretudo e atravessou Paris no escuro do toque de recolher. Já passava de uma e meia da manhã.
E Massu ainda estava no local trabalhando quando chegou um telegrama da sede da polícia. Dizia o seguinte, Ordem das autoridades alemãs, prender Petiot, lunático perigoso. E é aqui que a história toma um rumo que parece ficção. Para os policiais franceses, o fato de a ordem de prisão ter vindo dos alemães era, na verdade, um ponto a favor do Petiot. Na lógica da época, se os nazistas queriam prender alguém, significava que esse alguém era inimigo dos nazistas, ou seja,
um herói da resistência. A polícia, que já tinha liberado Petiot horas antes, agora arrastava os pés para procurá-lo. Quando finalmente foram até o apartamento dele, na Rue de Comartén, o lugar estava vazio. Petiot, a esposa e o filho tinham sumido. Em vez de montar uma caçada, os investigadores interrogaram os...
Pedreiros que tinham reformado a casa lá da chaminé sinistra. E assim, eles prenderam o irmão Maurício, que confessou ter entregue a cal virgem a pedido do Marcel Petiot. Prenderam os três intermediários também, mas de Marcel, nenhum sinal. Petiot ficou foragido por sete meses.
Deixou a barba crescer, mudou de nome várias vezes e se escondeu na casa de amigos e também de um paciente, dizendo que a gestapo estava atrás dele por ter matado colaboracionistas. E aí fez a coisa mais audaciosa da vida dele, que pra um homem que já tinha convencido policiais a ignorar um porão ch...
cheio de cadáveres, não era talvez dizer muito. Em agosto de 1944, durante a libertação de Paris, com a resistência saindo das sombras e as forças francesas livres entrando na cidade, Petiot adotou o nome de Henri Valéry.
Se alistou nas forças francesas do interior, a milícia da resistência e virou capitão. Não um capitão qualquer, capitão de contra-espionagem e interrogatório de prisioneiros. Sabe aquela sensação de estar assistindo um filme em que o vilão está sentado ao lado da polícia?
ajudando na investigação, talvez dele próprio e ninguém percebe. Pois é, Petiot fez isso na vida real. Só que a uma escala muito maior, ele estava literalmente dentro do sistema que deveria estar caçando ele, e a coisa ficou ainda mais absurda. Em setembro de 44,
O jornal Resistance publicou uma reportagem acusatória sobre Petiot com o título Petiot Soldado do Reich. O que qualquer pessoa sensata faria era ficar quieto, mas Petiot, operando como Capitão Valéry, não resistiu e mandou uma carta longa escrita à mão para o jornal, se defendendo e alegando ser herói da resistência. A polícia analisou a caligrafia.
E confirmou que era ele mesmo E agora, eles tinham a certeza que não tinham antes Petiot estava vivo em Paris Então eles circularam a carta pelas forças policiais E não demorou muito pra alguém conectar a caligrafia e o rosto do capitão Valéry Com o homem mais procurado da França E aí vem o detalhe mais surreal de toda essa história
Segundo os registros da investigação, quando a polícia montou uma nova equipe de busca para encontrar Petiot, o próprio Petiot, sob a identidade de Henri Valéry, foi convocado a participar da operação. Ele foi escalado para caçar ele mesmo.
No dia 31 de outubro de 1944, sete meses depois de ter pedalado para longe daquele porão, daquela casa dos horrores, Petiot foi reconhecido numa estação de metrô de Paris. Quando os policiais revistaram ele, encontraram uma pistola, 31.700 francos e 50 documentos de identidade com sete nomes diferentes.
O julgamento de Marcel Petiot começou em março de 1946, no Palácio da Justiça de Paris. Ele enfrentava 135 acusações criminais, incluindo 27 homicídios. Do outro lado, tinha uma equipe de promotores públicos e 12 advogados civis contratados por famílias das vítimas. A imprensa transformou o caso num circo.
Notícias chegaram na Suíça, na Bélgica, na Escandinávia, e Petiot, ele transformou o tribunal num palco. Defendido pelo famoso advogado René Floriot, que tentou pintá-lo como um herói da resistência, Marcel Petiot tomou as rédeas da própria defesa, interrompia o juiz, debochava dos promotores, interrogava as testemunhas como se fosse ele o promotor. E quando o juiz Marcel Lezé chamou a atenção dele, por ficar...
Fazendo uns rabiscos ali, meio que desdenhando do julgamento durante os depoimentos, o Petiot respondeu que estava ouvindo, mas que aquilo ali não lhe interessava muito. A estratégia dele era simples e descarada, admitir ter matado 19 dos 27 homicídios pelos quais era acusado e disse que eram todos alemães e traidores da França.
Disse que fazia parte de um total de 63 inimigos que ele tinha eliminado a serviço da pátria. Quando perguntaram sobre a família Neller, aquela do pijaminha do menino, lembra? Petiot disse que tinha ajudado essa família a fugir com identidades falsas e que eles não tinham entrado em contato porque eram...
ingratos. O promotor do PAN mencionou o pijama do menino René encontrado lá na casa dos horrores. O Petiot, sem se abalar, disse que o garoto tinha dormido com ele na última noite antes da fuga e que a família deixou para trás porque não queria carregar roupa suja com as iniciais bordadas.
poderia contradizer os documentos falsos. Quando perguntaram sobre um judeu chamado Joaquim Guskinov, que tinha desaparecido com 500 mil francos em dinheiro, com cinco casacos de zibelina e também uma quantidade enorme de ouro e diamantes, o Petiot disse que ele estava vivo e bem na América do Sul. Os promotores perguntaram por que não conseguiam encontrá-lo e Petiot deu um sorriso e disse que a América do Sul era um...
Continente gigante, grande. No quinto dia de julgamento, juízes e jurados visitaram a casa da chaminé. Enquanto Petiot passava por um corredor de policiais e vizinhos hostis, ele olhou em volta e soltou. Que retorno peculiar ao lar, não acham? A defesa tentou apresentar grupos de resistência que teriam trabalhado com Petiot, mas os grupos que ele citou não existiam. Nenhum líder da resistência conhecia o Petiot como membro ativo.
As organizações que ele descreveu em detalhes eram fictícias. E quando os promotores mostraram que ele tinha lucrado mais de 200 milhões de francos com os pertences das vítimas dele, equivalente a milhões de dólares, a tese de patriotismo desmoronou. O tribunal condenou Marcel Petiot por 26 dos 27 assassinatos, pena de morte por guilhotina.
A execução, marcada para maio de 1946, atrasou alguns dias por um problema técnico. O mecanismo de liberação da lâmina estava com defeito. Quando finalmente chegou o dia 25 de maio, os guardas foram buscar o Petiot na cela às 4h45 da manhã. Ele estava lá dormindo de costas, com as mãos algemadas sobre o peito e as pernas acorrentadas, cruzadas. Ele vestia um pijama preto de presidiário e estava em sono profundo.
Acordaram ele, disseram as palavras que a tradição mandava dizer. Tenha coragem, seja bravo. Chegou a hora. Petiot abriu os olhos e encarou o grupo em volta dele. O pescoço dele foi raspado, a camisa cortada para expor a nuca. Ele pediu um cigarro. O advogado, Floreau, deu um dos seus. E o Marcel Petiot fumou.
Depois ele abraçou o capelão, se virou para o advogado e pediu que se alguém publicasse alguma coisa sobre o caso dele depois da sua morte, que incluísse foto das vítimas, para que talvez alguém em algum lugar se lembrasse de tê-las visto vivas depois das datas em que ele teria matado elas.
Diz que isso provaria sua inocência. Ele beijou o Florio três vezes no rosto. Levaram ele para o pátio. A guilhotina estava montada. Ele olhou por cima do ombro para os homens que tinham vindo assistir. Todos vestiam seus melhores ternos e ficavam afastados por causa do sangue que podia espirrar. Petiot sorriu e disse.
Não olhem, senhores, não vai ser bonito. Segundos depois, a lâmina caiu. Esse era Marcel Petiot, o homem que prometia salvação para famílias inteiras angustiadas, fugindo do horror da guerra. E era ele mesmo o horror do qual elas estavam fugindo.
O mais assustador de tudo é que Petiot não agiu sozinho nem escondido. Ele operou sob o nariz de vizinhos, policiais, informantes e até da Gestapo. E depois conseguiu se enfiar dentro do próprio ambiente que deveria estar caçando criminosos e colaboradores.
Todo mundo olhou pra ele em algum momento, ninguém viu o que ele era. Ou talvez ninguém tenha querido ver. A casa da chaminé foi demolida no início dos anos 50 e substituída por um prédio novo. Os mais de 200 milhões de francos que ele roubou das vítimas nunca foram encontrados. E eu agradeço imensamente a sua companhia, um beijo do ruivo e até o próximo episódio.