5 Crimes que o Brasil Tentou "Apagar" (A Verdade Oculta)
📌 O que acontece quando quem deveria investigar é justamente quem precisa ser investigado? Neste vídeo especial, mergulhamos em 5 casos reais que a justiça brasileira, por décadas, tentou deixar no esquecimento. De laudos forjados a confissões sob tortura, entenda os bastidores sombrios de crimes que até hoje clamam por respostas.00:00 - Introdução: O silêncio que incomoda 02:14 - Caso PC Farias: O tesoureiro que sabia demais 10:50 - Irmãos Naves: O maior erro judiciário do Brasil 20:49 - O Mistério de Aracelli: 50 anos sem justiça 28:06 - Escola Base: Como um delegado destruiu 6 vidas inocentes 36:05 - As Mães de Acari: Quando o Estado se torna o agressor 42:57 - Conclusão: Quem paga a conta da injustiça?O canal Marcos Campos traz hoje um dossiê sobre True Crime Brasil e os maiores erros da nossa história criminal. Analisamos casos como o de Paulo César Farias (PC Farias), a terrível injustiça contra os donos da Escola Base em São Paulo e o desaparecimento dos 11 de Acari. Histórias que mostram que, muitas vezes, a verdade está enterrada sob camadas de influência e poder.Qual dessas histórias mais te impactou? Comente abaixo. Se você gosta de investigações detalhadas e história, inscreva-se e ative o sininho.#TrueCrimeBrasil #CasosReais #MarcosCampos #Investigação #Mistério #Justiça #EscolaBase #PCFarias #Aracelli-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- Morte de PC FariasCrime passional vs. execução · Contaminação da cena do crime · Laudo forjado · Paulo César Farias · Susana Marcolino · Fortunato Badam Palhares · George Sanguinetti · Luiz Vasconcelos
- Irmãos Naves: Erro JudiciárioCondenação por assassinato inexistente · Tortura e confissão forçada · Reaparecimento do suposto morto · Sebastião Naves · Joaquim Naves Rosa · Benedito Pereira Caetano · Francisco Vieira dos Santos · João Alame Filho
- Mistério de AraceliAbuso, morte e corpo desfigurado · Investigação obstruída e mortes · Absolvição dos acusados · Araceli Cabreira Sanches Crespo · Paulo Constantin Relau · Dante Brito Michelini · Dante de Barros Michelin · José Homero Dias · José Louzeiro · Walmart Bermudes
- Desaparecimento de Lauren GiddingsSequestro e desaparecimento de jovens · Grupo de extermínio 'Cavalos Corredores' · Luta das mães por justiça · Assassinato de líder do movimento · Condenação do Brasil pela Corte Interamericana · Edmeia da Silva Eusébio · Sheila da Conceição
- Escola e proteção de criançasAcusação de abuso infantil sem provas · Linchamento midiático · Destruição de vidas inocentes · Edélcio Lemos · Gerson de Carvalho · Ikushiro Shimada · Maria Aparecida Shimada · Maurício Monteiro Alvarenga · Paula Mirrim Alvarenga · Saulo Nunes · Mara Nunes
Morre assassinado Paulo César Farias, o PC, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor. É mais uma morte na sucessão de tragédias que acompanharam o impeachment de Collor. Junho de 1996 ficará marcado pra sempre na história criminal do Brasil como a data de um dos crimes com mais pontas soltas da nossa investigação.
E essa história começou assim. Na noite de 22 de junho de 1996, um sábado, uma mulher de salto alto e unhas pintadas de vermelho entrou numa locadora de vídeos em Maceió. Ela olhou as prateleiras, passou pelos lançamentos e escolheu uma fita específica. O nome do filme era O Assassino, um thriller sobre um homicídio misterioso
onde a polícia tenta descobrir se o caso foi ou não um crime passional. Ela voltou pro carro com a sacola plástica, dirigiu até uma casa de praia no litoral norte da cidade e encontrou o namorado dela. Os dois jantaram com o irmão dele e a namorada do irmão também. Depois do jantar, os convidados foram embora. A casa ficou quieta. Na manhã seguinte, quando a porta daquele quarto foi aberta, os dois estavam mortos na cama. Um tiro no peito de cada um. Uma arma na mão.
E aquele filme que ela tinha escolhido na locadora, bom, ia se tornar um detalhe que ninguém conseguiu explicar. Eu sou Marcos Campos e esse é um vídeo diferente, especial dos vídeos padrão aqui do canal. Hoje a gente vai entrar em 5 casos que a justiça brasileira, olha, eu acho que queria que você esquecesse.
Cinco histórias onde a investigação desandou, onde a cena do crime foi totalmente contaminada, onde testemunha sumiu, de laudo foi forjado, onde quem deveria investigar era justamente quem talvez precisasse ser investigado. O que essas investigações esconderam? Por que casos que tinham tudo pra ser resolvido simplesmente travaram? E quando o Estado se torna um problema, quem sobra pra cobrar a conta?
Pois é, se você curte esse tipo de conteúdo, já deixa seu like, se inscreve aqui no canal. Vários conteúdos especiais como esse estão sendo preparados. Recado dos dados, vamos aos fatos.
Pra entender o que aconteceu naquela casa de praia, a gente precisa voltar no tempo. Fernando Collor de Melo foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto em 1989. E por trás daquela campanha vitoriosa, tinha um nome. E um nome que pouca gente conhecia na época. Mas que movimentava uma fortuna nos bastidores.
O nome dele é Paulo César Farias, conhecido como PC Farias. O PC era o tesoureiro da campanha do Collor. Só que tesoureiro era um título bonito para o que ele realmente fazia. O PC operava um esquema de arrecadação...
Ilegal que desviava dinheiro de empresários, empreiteiras e contratos públicos. Segundo estimativas da Polícia Federal, o Caixa 2 dele movimentou algo em torno de 1 bilhão de dólares. Galera, 1 bilhão de dólares na época, isso aí era grana suficiente pra comprar um país pequeno, tá? Em 1992, o próprio irmão do Collor, o Pedro Collor, foi a público e detonou tudo isso. Diz que o PC era o testa de ferro do presidente e que o dinheiro corria solto ali.
Uma CPI foi instaurada e o escândalo explodiu. O resultado foi o impeachment do Collor, o primeiro da história do Brasil. Em junho de 93, PC foi condenado a quatro anos de prisão por sonegação fiscal. Ele teria deixado de recolher mais de um milhão e meio de dólares em impostos da Brasiljet, empresa de táxi aéreo em que era sócio do piloto Jorge Bandeira de Melo.
Acontece que o PC, mesmo condenado, não parou. E, mais importante, ele continuava sabendo de tudo. Nomes, valores, destinos de cada centavo, quem recebeu, quem pagou, quem mandou pagar. Ele era uma caixa preta ambulante. E muita gente poderosa sabia disso.
Aí o PC faz uma coisa digna de filme, caríssimos. Em julho de 1993, cerca de três semanas depois de ter a prisão preventiva decretada, ele foge do país. PC fugiu do país para escapar à prisão. Passou pela Argentina, Inglaterra e foi parar na Tailândia, onde acabou reconhecido por brasileiros e preso em novembro do mesmo ano. Quando ele saiu da cadeia...
Ele começou a namorar uma mulher chamada Susana Marcolino. O romance foi intenso e rápido. Seis meses separaram a saída dele da prisão e o que aconteceu naquela madrugada de domingo. E é aí que a gente chega na noite de 22 de junho de 1996.
Susana e PC jantaram com o irmão dele, o Augusto Farias, e também a namorada do Augusto. Os seguranças da casa disseram que, depois que os convidados foram embora, eles ouviram o casal discutindo no quarto. Em algum momento da madrugada, os seguranças disseram ter ouvido um estampido. Ou estampidos. Ninguém fez nada apesar disso. Na manhã seguinte, 23 de junho, os corpos foram encontrados na cama. Cada um com um tiro no peito. A arma, um revólver, estava na mão da Susana.
E aí começa, talvez alguns vão dizer, o circo. A versão oficial que surgiu nas primeiras horas foi direta demais. Crime passional seguido de suicídio. Susana teria atirado no PC durante uma briga e depois se matado. Pronto, caso resolvido, encerrado, não é? Eu estou convencido que foi um crime passional.
Para dar peso a essa versão, foi enviado a Maceió um grupo de 11 peritos, liderados pelo legista Fortunato Badam Palhares, da Unicamp. Badam Palhares era um nome famosíssimo na criminalística brasileira. E o laudo dele bateu com a versão da polícia. Susana matou o PC enquanto ele dormia e em seguida se suicidou. Crime passional sem mais.
A nossa conclusão é que Suzana matou o PC e se suicidou. Não há possibilidade, pelos elementos levantados, de existir uma terceira pessoa envolvida nesse caso. Só que essa versão começou a ruir quase que imediatamente.
O primeiro problema, a cena do crime. Antes de qualquer perícia formal, dezenas de pessoas entraram naquele quarto. Vizinhos, curiosos, conhecidos, gente ligada a PC. Contaminou tudo. Objetos foram mexidos, o ambiente foi completamente contaminado. Qualquer vestígio que pudesse contar o que realmente aconteceu ali foi comprometido antes de ser registrado e analisado. No Brasil, o que se faz é respeitar o local de crime. O local de crime tem que ser isolado.
A gente só pode examinar o local do crime se ele tiver em preservação total. Porque tudo que tá ali vai ser relacionado ao crime. Mas sempre tem um mas, não é? O problema da cena do crime era só o começo. Segundo problema, o colchão. Porque o jardineiro da casa, um homem chamado Leonino, confirmou depois em depoimento que queimou o colchão onde os corpos foram encontrados.
Disse que o chefe da segurança de PC, um sujeito chamado Flávio, mandou ele fazer a limpeza porque estava com mau cheiro. Para você ter ideia, o colchão era a peça central de uma cena de crime com dois mortos e alguém mandou meter fogo nele. Se o material tivesse sido preservado, o que o senhor faria com ele? Nós íamos colher o material aí para poder fazer, avaliar, por exemplo, se todas as manchas realmente eram sangue dela.
Terceiro problema, Susana era mais baixa que o PC e o legista alagoano George Sanguinetti, que fez uma perícia independente dez meses depois, apontou que a trajetória do tiro que matou o PC seria incompatível com o ângulo que Susana teria conseguido fazer, dada a diferença de altura entre os dois.
Sanguinetti disse que o tiro que matou o PC foi de um profissional, um disparo único preciso sem hesitação e que Suzana não teria condições de ter sido a autora por essa razão. Então o que nós precisamos? Demonstrar que realmente Suzana tinha 1,67m e não 1,57m. E infelizmente nós esquecemos de anotar isso no nosso lado.
Tem um quarto problema aí. E esse é bem pesado, tá? Badam Palhares, o legista que liderou a perícia oficial e cravou a tese do crime passional, foi acusado anos depois de ter recebido grana pra produzir aí então um laudo falso. Essa acusação veio do próprio ex-governador de Alagoas, Geraldo Bulhões, durante a CPI do narcotráfico em 1999. A CPI descobriu que Badam Palhares movimentou cerca de 2,7 milhões de reais entre 1995 e 1999. E aí entra o elemento...
Na hipótese de isso ter mesmo acontecido, o que sobra desse laudo? O promotor Luiz Vasconcelos não aceitou a versão oficial. Ele continuou investigando. Levantou evidências de uma terceira pessoa na cena do crime, ou terceira, quarta e quinta, não é? Vai saber. O que eu tenho hoje é a versão do suicídio, do homicídio com suicídio. Esta versão implica juridicamente em ativamento.
Também denunciou quatro ex-seguranças do PC. Adeildo dos Santos, Reginaldo Correia, Josemar dos Santos e José Geraldo da Silva. Todos eles, detalhe, continuavam empregados pela família Farias mesmo depois da morte do patrão.
O caso foi parar no STF, que negou o último recurso da defesa dos seguranças em 2011 já e mandou os quatro pro júri popular. E foi aí que veio mais uma reviravolta. Em maio de 2013, quase 18 anos depois das mortes, aconteceu o julgamento. Os jurados reconheceram que PC e Susana foram de fato assassinados, ou seja, os dois mortos por alguém descartaram oficialmente a tese de crime passional e suicídio.
Só que, mesmo reconhecendo que houve homicídio duplo, o júri absolveu os quatro réus. Absorção por clemência, ninguém pagou pelo crime. A arma usada sumiu do fórum de Maceió junto com outras armas que estavam sob custódia da justiça. O celular da Suzana, que desapareceu da cena do crime naquela manhã, nunca foi encontrado. E tudo isso é no mínimo insólito, não é? E sabe aquele filme que abriu o episódio onde a Suzana alugou na locadora e foi pra casa pra fazer jantar e tudo mais? O assassino.
thriller sobre um homicídio onde a polícia investiga se foi ou não um crime passional. Os que defendem a tese de suicídio dizem que ela já estava planejando o que ia fazer. Já os que defendem a tese de execução dizem que é coincidência demais. Ou que alguém plantou esse detalhe depois. PC Farias foi enterrado com os segredos dele. A Suzana foi...
enterrada com a versão que costuraram pra ela. O perito principal foi acusado de forjar o laudo, a arma do crime sumiu, o colchão foi queimado e ninguém, absolutamente ninguém foi responsabilizado. Talvez a pergunta que fica é, quando a vítima sabe demais e as provas somem rápido demais, o que sobra além de um silêncio que não parece ser natural? Meu desejo é que respeitem o espaço de uma mulher que está aprendendo a ser mãe.
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Julho de 1952. Um homem caminha por uma estrada de terra no interior de Minas Gerais, perto de uma cidadezinha chamada Nova Ponte. Ele não anda rápido, as pernas não respondem como antes. O corpo carrega marcas que nenhuma roupa esconde. Sequelas de anos de tortura numa cela sem luz. O nome dele é Sebastião Naves. E ele acabou de receber um telegrama que precisou pedir pro filho ler.
Porque ele é analfabeto. O telegrama dizia uma coisa impossível. O homem que ele supostamente matou 15 anos atrás estava vivo. Morando na fazenda do pai, a menos de 100 quilômetros de onde o Sebastião passou 8 anos preso por um assassinato.
que nunca aconteceu. Sebastião invadiu o quarto onde o primo dormia, abraçou ele e disse uma frase que resume tudo, graças a Deus você está vivo. Vamos para Araguari para todos verem que meu irmão e eu somos inocentes.
Só que o irmão dele, o Joaquim, já tinha morrido, destruído pelas sequelas da tortura e nunca soube que o morto estava vivo. Mas pra entender como dois homens inocentes foram condenados por matar alguém que não morreu, a gente precisa voltar a 1937.
Araguari, interior de Minas Gerais, região do Triângulo Mineiro, uma cidade pacata, religiosa, onde todo mundo se conhece. Os irmãos Sebastião José Naves, de 32 anos, e Joaquim Naves Rosa, de 25, eram trabalhadores simples que compravam e revendiam cereais. Joaquim era sócio de um primo deles, um comerciante chamado Benedito.
Pereira Caetano. O Benedito era ambicioso, pegou o dinheiro emprestado da família, comprou uma safra enorme de arroz, achando que o preço ia subir e o preço despencou. Desesperado então, ele vendeu tudo com prejuízo, ficou devendo mais do que tinha. E na madrugada de 29 de novembro de 1937, o Benedito pegou os últimos 90 contos de réis que tinha e desapareceu de Araguari. Ele sumiu no trem das 5 da manhã sem avisar ninguém.
E o Berendito? Sumiu. Sumiu como, ué? Não dormi em casa. Quando os irmãos Naves perceberam que o primo tinha sumido e que ele tava carregando uma boa quantia de dinheiro, fizeram a coisa certa. Foram até a delegacia e comunicaram o desaparecimento. Queriam ajudar a encontrar o Berendito. Só que ir até a delegacia foi o pior erro da vida deles.
Nas primeiras semanas, o caso ocorreu sob responsabilidade de um delegado civil sem maiores problemas. Acontece que em 22 de dezembro de 1937, o delegado foi substituído. E quem assumiu foi um sujeito que ia destruir a vida de duas famílias inteiras. O primeiro-tenente Francisco Vieira dos Santos.
O Chico Vieira. Chico Vieira era um militar autoritário vindo de Belo Horizonte que desconhecia o que significava devido processo legal. Em questão de dias, ele ouviu os boatos que corriam pela cidade, estudou o caso e chegou sozinho a uma conclusão. Os irmãos Naves tinham matado o primo pra ficar com o dinheiro, sem prova nenhuma, sem corpo, sem arma, sem testemunha.
Só com a convicção de um homem que decidiu que sabia a verdade antes de investigar qualquer coisa. No dia 29 de dezembro, um mês depois do desaparecimento do Benedito, o Chico Vieira mandou prender o Sebastião e o Joaquim. E aí começou o inferno.
Durante meses, o Chico Vieira e os seus homens submeteram os irmãos a uma rotina de tortura que é difícil até de descrever sem sentir o estômago dar uma revirada. Espancamentos diários, privação de água, comida e luz, celas subterrâneas úmidas e imundas, sem nenhum contato com o mundo de fora. Em um dos episódios mais cruéis, o delegado mandou levar os dois para um campo aberto, amarrou eles em árvores e lambuzou os corpos com um...
para que fossem atacados por abelhas e formigas enquanto ouviam tiros e ameaças de morte. Mesmo com tudo isso, os irmãos não confessaram. Aí Chico Vieira fez algo que mostra exatamente o tipo de homem que ele era. Mandou prender as esposas, os filhos e a mãe dos irmãos.
A dona Ana Rosa Naves, uma senhora de 66 anos, foi jogada numa cela. As esposas dos irmãos foram torturadas e, segundo relatos do processo, violentadas sexualmente. O leite da mulher de Sebastião secou por causa do sofrimento e o bebê do casal morreu. Os irmãos Naves viram...
Tudo isso acontecer. Viram a mãe presa, viram as esposas humilhadas, souberam da morte do bebê. E foi aí que, destruídos, eles fizeram o que Chico Vieira queria desde o começo. Confessaram um crime que não tinham cometido. Joaquim cedeu primeiro, em 12 de janeiro de 1938. Sebastião confessou depois, em 3 de fevereiro. A esposa de Joaquim, torturada, disse ao delegado o que ele queria ouvir. E os irmãos mataram Benedito com uma corda. Jogaram o corpo no rio.
Não era verdade, evidentemente. Ela disse aquilo porque não aguentava mais ver a família sofrendo. Mas, como sempre tem um mas, não é? Tinha um detalhe que qualquer pessoa com bom senso enxergaria. Não existia corpo, não existia arma, não existia o dinheiro supostamente roubado. A única prova era a confissão, arrancada na base de muita tortura contra duas famílias inteiras. A mãe dos irmãos, a dona Ana, mesmo depois de tudo que sofreu, nunca confessou.
Quando foi colocada em liberdade, vigiada, ela fez uma coisa que mudou o rumo dessa história. Ela procurou um advogado chamado João Alame Filho. O João, no começo, não acreditou nela. Assim como toda a cidade, ele achava que os irmãos eram culpados. A opinião pública manipulada pelo delegado já tinha condenado os naves antes de qualquer julgamento.
Só que quando o advogado Alame Filho viu o estado físico da dona Ana, as marcas de tortura no corpo de uma senhora de quase 70 anos já, ele mudou de lado. Passou a acreditar de incrédulo, ele passou a um defensor. E Chico Vieira tentou impedir a defesa de todas as formas. Quando o advogado conseguiu um habeas corpus assinado por um juiz, o delegado simplesmente não cumpriu. Ele deu uma certidão falsa sobre o paradeiro dos presos, dizendo que eles já tinham sido soltos.
quando, na verdade, continuavam sendo torturados nos porões da delegacia. Os irmãos Naves foram a julgamento duas vezes, nas duas o júri popular os absolveu. Duas vezes o povo de Araguari olhou para os fatos e disse não tem prova, não tem corpo, esses homens são inocentes. Só que na época do Estado Novo, o Tribunal de Justiça podia reformar o veredito do júri.
Coisa que não pode mais hoje. E foi exatamente o que aconteceu. O tribunal condenou os irmãos a 25 anos e 6 meses de prisão por um assassinato sem corpos, sem armas, sem dinheiro, que era o mais importante nessa história toda, afinal de contas essa seria a motivação, em prova, baseado numa confissão arrancada à força de dois homens que viram a mãe, as esposas e os filhos serem torturados na frente deles.
Depois de oito anos e três meses de prisão, não é? Os irmãos foram soltos em liberdade condicional por bom comportamento. Joaquim saiu destruído. As sequelas da tortura tinham arruinado a saúde dele. Ele foi morar num asilo pra se tratar. Em maio de 1948, Chico Vieira morreu de derrame cerebral em Belo Horizonte. Três meses depois, em agosto, Joaquim Naves morreu no asilo. Morreu doente.
indigente, carregando no corpo as marcas de um crime que nunca existiu e sem saber que a prova definitiva da inocência dele viria quatro anos depois disso. Em julho de 1952, Benedito Pereira Caetano, o morto, apareceu vivo em Nova Ponte, na fazenda do pai, 15 anos depois de ter desaparecido. Me mate, primo. Avô, não me mate. Sebastião fica frente a frente com Benedito e tem uma reação surpreendente.
Você tá vivo, primo? Ele tava usando outro nome, José Alves Gomes, conhecido como José Goiano, disse que tinha fugido de Araguari com vergonha das dívidas, que foi assaltado por três homens que levaram dinheiro e que foi vivendo de cidade em cidade sem saber de nada o que tinha acontecido com os primos dele.
Quando a notícia chegou a Araguari, a mesma população que, influenciada pelo delegado, tinha aceitado a culpa dos irmãos Naves, agora queria linchar Benedito. O delegado da época teve que prender Benedito pra proteger ele da multidão. E tem um detalhe que é de arrepiar, tá? Toda a família do Benedito, menos ele, tinha morrido num acidente de avião anos antes.
quando estavam sendo levados a Araguari para prestar depoimento sobre o desaparecimento do filho. Em 1953, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais fez a revisão criminal e declarou os irmãos Naves oficialmente inocentes. O juiz que os condenou disse depois, arrependido, uma frase que ficou na história do direito brasileiro. Quero que Deus me tome as contas.
Mas a indenização, bom, ela demorou, tá? Sete anos de luta na justiça até o Supremo Tribunal Federal, em 1960, confirmar o direito da família. Sebastião Naves morreu em 1963 sem ter recebido um centavo. Dona Ana morreu em 63 aos 97 anos. O advogado, João Alame Filho, escreveu o livro que documentou tudo.
e morreu em 93. Dois irmãos que foram até a delegacia pedir ajuda pra encontrar um primo desaparecido e saíram de lá condenados por um assassinato que nunca aconteceu. Um caso sem corpo, sem arma, sem prova, onde a única evidência foi uma confissão arrancada depois que o delegado torturou as esposas e os filhos e a mãe idosa deles, até que a dor fosse maior do que a verdade.
Araceli tinha oito anos quando foi raptada, agredida e morta. Um caso até hoje cercado de mistério. Uma história que ficou sem solução. 18 de maio de 1973, uma sexta-feira. Uma menina de oito anos saiu do colégio São Pedro, no bairro da Praia do Suá, em Vitória, no Espírito Santo. A mãe dela, uma boliviana chamada Lola, tinha pedido à escola que liberasse a filha mais cedo de beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats beats
por causa do horário do ônibus que levava ela de volta pra casa, na cidade vizinha de Serra. A menina se chamava Araceli Cabreira Sanches Crespo. Era a segunda filha de um eletricista espanhol e da Lola. Tinha nascido em São Paulo, mas a família se mudou pro Espírito Santo porque a Araceli, ainda bebê, sofria com a poluição de Cubatão. Viviam numa casa modesta na rua São Paulo, no bairro de Fátima, em Serra. Naquela sexta-feira, Araceli não entrou no ônibus.
Um adolescente que estava num bar perto do cruzamento das avenidas Ferreira Coelho e César Hilal, a poucos minutos da escola, contou à polícia que viu a menina brincando com um gato ao lado do estabelecimento em vez de embarcar no ônibus. Foi a última vez que a Araceli foi vista com vida.
Uma história difícil de reconstituir, porque as pessoas têm medo de falar, ou se dizem, e até estão, proibidas. Quando a noite chegou e a Araceli não apareceu, o pai, o Gabriel, saiu atrás dela. Distribuiu fotos da filha para todos os jornais de Vitória. Pensou que podia ser sequestro. E durante semanas, a polícia não conseguiu apontar um suspeito.
Pra você ter uma ideia do nível de desespero, em junho, um suposto sequestrador ligou pra família pedindo 50 mil cruzeiros pra liberar a Araceli. A família aceitou pagar. O sujeito disse que ligaria de novo pra combinar a entrega, mas nunca ligou. A pista era falsa. A imprensa capixaba começou a pressionar. Jornalistas pediram que a polícia local buscasse ajuda com a polícia de Guanabara ou com a inteligência do exército. Amigos da família ofereceram uma recompensa de 20 mil cruzeiros por qualquer informação, mas...
Seis dias depois do desaparecimento, em 24 de maio, o corpo de uma criança foi encontrado num matagal atrás do hospital infantil de Vitória. Estava em avançado estado de decomposição, desfigurado por ácido. A perícia apontou que a menina tinha sido drogada com barbitúricos.
violentada sexualmente e morta por asfixia e teve o corpo desfigurado depois. O pai da Araceli foi ao local com a imprensa. Inicialmente, reconheceu o corpo como sendo da filha. No dia seguinte, ele voltou atrás e disse que não era ela. As autoridades disseram que o estado psicológico da família não permitia um reconhecimento confiável. No fim, a identificação foi confirmada.
E aqui é onde o caso entra no território que dá nome a esse vídeo. Tudo apontava para dois nomes. Paulo Constantin Relau e Dante Brito Michelini. Conhecido como Dantinho. Os dois pertenciam a famílias poderosas do Espírito Santo. Os Michelini eram latifundiários com conexões no governo militar. Os Relau tinham uma influência equivalente. Paulo e Dantinho eram conhecidos na cidade como usuários de drogas, segundo a principal versão da investigação.
Paulo Uelau teria raptado Araceli depois da aula e levado ela para o bar Franciscano na praia de Camburi, um estabelecimento que pertencia ao Dantinho. Ali a menina teria sido drogada, violentada e mantida em cárcere. Só que investigar famílias poderosas...
Não era lá tão simples? Ainda não é? Imagine naquela época. E foi exatamente isso que aconteceu. O sargento José Homero Dias era policial que estava mais perto de fechar as investigações. Ele estava prestes a finalizar o trabalho quando foi assassinado. Tiros nas costas. Depois da morte dele, o caso ficou esquecido por um bom tempo. Aqui talvez esteja um dos elos principais dessa corrente criminal, não é? O sargento que estava investigando...
Foi morto e ele não foi o único. Segundo José Louzeiro, jornalista e autor do livro-reportagem Araceli, Meu Amor, publicado em 1976, o caso produziu 14 mortes ao longo dos anos, desde testemunhas até pessoas que tentaram ajudar a desvendar o crime. O próprio Louzeiro disse que quase virou mais uma vítima, enquanto investigava o caso em Vitória. Ele foi alertado por um funcionário do hotel onde estava hospedado, hotel que pertencia à família Relau.
de que ele corria risco de morte ali. A partir daí, Louzero passou a preencher ficha num hotel e dormir em outro. O livro dele acabou sendo censurado pelo governo militar a pedido dos advogados dos acusados. Mas a parte mais insólita de tudo é o corpo da Araceli.
Ele ficou quase três anos no serviço médico legal, esperando o sepultamento. Três anos. Uma menina de oito anos de idade, morta da forma mais brutal possível, e o corpo dela ficou três anos largado num necrotério. Em agosto de 1977, quatro anos depois do crime, o promotor Walmart Bermudes finalmente denunciou três pessoas. Paulo Elal, Dantinho...
E o pai de Dantinho, o Dante de Barros Michelin. Em 1980, o juiz Hilton Sili condenou Paulo e Dantinho a 18 anos de reclusão, cada um, e Dante, o pai, a 5 anos. Como condenado tem os acusados, Paulo Constantin Lau e Dante Brito Michelin. Ao cumprimento cada um, dá pena ter que 18 anos de reclusão e multa de 18 mil cruzeiros.
Só que a sentença foi anulada pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo. O caso foi reaberto, passou para o juiz Paulo Copolillo, que produziu um relatório de 70 páginas. Em 1991, absolveu todos os réus por falta de provas. Falta de provas num caso em que o investigador que mais estava perto de reunir todas as provas...
Achar os suspeitos, os acusados O principal investigador foi assassinado Onde testemunhas morreram Onde o jornalista que tentou cobrir o caso Quase foi morto e teve o livro censurado Onde o corpo da vítima ficou 3 anos num necrotério Onde os acusados tinham conexões com o governo
Ninguém nunca foi punido pela morte de Araceli. E tem um detalhe que dói até hoje em Vitória. Uma das avenidas mais importantes da cidade carrega o nome da família de um dos acusados. Vereadores já tentaram mudar o nome, mas não conseguiram. Em 2000, o Congresso Nacional transformou o dia 18 de maio, o dia em que Araceli desapareceu, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Foi a única coisa que restou do caso Uma data no calendário Justiça? Nenhuma Em 2026, mais de 50 anos depois do crime Dantinho, Dante de Brito Michelini Foi encontrado morto, decapitado e carbonizado no Espírito Santo A polícia ainda investiga as circunstâncias
Araceli tinha só oito anos. Saiu da escola numa sexta-feira, brincou com um gatinho na calçada em vez de pegar o ônibus. Nunca mais voltou pra casa. O pai distribuiu fotos. O corpo apareceu desfigurado. O policial que investigava foi morto. As testemunhas foram morrendo. O jornalista ameaçado. O livro censurado. Os acusados absolvidos. E a avenida, com o nome da família deles, continua lá.
A fachada da pré-escola base na região central de São Paulo pode esconder uma agência que alugava crianças para fotos e vídeos pornográficos.
Março de 1994. Uma escola de educação infantil no bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo. Era um lugar pequeno, de classe média, com crianças de 3 e 4 anos. Os donos eram o casal Ikushiro e Maria Aparecida Shimada. Ele de origem japonesa e ela à frente da direção da escola.
Os dois tinham construído a escola do zero e viviam daquilo. O motorista da Kombi que levava as crianças se chamava Maurício Monteiro Alvarenga, casado com uma das professoras, a Paula Mirrim Alvarenga. Numa manhã qualquer daquele março, duas mães, Lúcia e Cleia, notaram o que elas descreveram como comportamentos estranhos nos filhos. Foram até a sexta delegacia de polícia da Zona Sul e prestaram queixa.
A acusação que elas fizeram era gravíssima. Segundo elas, os donos da escola, o motorista e um casal de pais de outro aluno, Saulo e Mara Nunes, estariam levando crianças de 4 anos pro apartamento desse casal, onde supostamente as crianças assistiam a filmes pornográficos e eram abusadas sexualmente.
Um filho seu é levado a fazer uma coisa, você não sabe. Ele conta e ele chorou. Foram tiradas fotos eróticas de adultos com ela. Gravíssima. E como a investigação provaria depois, completamente falsa. Só que, entre a acusação e a prova de que era falsa, seis vidas foram destruídas de uma forma que não tem conserto.
E o tio tirou foto? Tindo! Essa tia aí ela ficava pelada. E o tio tirou foto? Essa tia aí ela ficava pelada.
O delegado responsável pelo caso se chamava Edélcio Lemos. É aqui que tudo descarrilha de vez. Edélcio fez o que um delegado nunca deveria fazer. Antes de concluir a investigação, antes de qualquer prova concreta, ele deu uma entrevista à Rede Globo afirmando que a história era provavelmente verdadeira. Disse com todas as letras que havia grande possibilidade de as acusações serem reais.
Um beijo, um abraço, uma colocação até numa posição erótica não deixa vestígios. O que não diz que ela não tenha ocorrido. O senhor está convencido de que houve práticas luminosas?
Isso já está provado. Duas irresponsabilidades gigantescas, né? De quem fala e de quem publica. Pra você ter ideia do que isso significou, o delegado de polícia, a autoridade oficial do caso, foi à televisão nacional e basicamente condenou seis pessoas antes de investigar. Sem laudo conclusivo, sem prova material, sem sequer ter ouvido os acusados formalmente. E a mídia fez o resto, não é? O que se seguiu foi um linchamento público.
Todos os grandes veículos, Globo, SBT, Folha de São Paulo, Estadão, Revista Isto É, Editora Abril, cobriram o caso como se a culpa já estivesse provada. Os acusados eram chamados de criminosos. As reportagens omitiam um detalhe crucial. A polícia tinha feito uma busca e apreensão surpresa no apartamento do casal Saulo e Mara, onde supostamente os abusos aconteciam, não é? E não tinham encontrado absolutamente nada, nenhuma fita, nenhuma evidência, nada.
Só que essa informação de que a busca não achou nada, simplesmente não apareceu nas reportagens. Será que por medo já de saber o tamanho da merda que tinha acontecido, a narrativa já estava montada. Os donos da escola eram monstros.
O motorista era cúmplice de monstro. O casal de pais fornecia o apartamento. O público comprou e a reação foi violenta. A escola foi invadida de madrugada. Um grupo de moradores do bairro entrou no lugar, depredou tudo, picharam as paredes, destruíram móveis e materiais, jogaram bombas caseiras dentro do...
prédio, as aulas foram suspensas, o policial que fazia segurança no local simplesmente saiu, os invasores escondiam o rosto, mas davam entrevistas para os mesmos jornalistas que tinham alimentado essa fúria. E os acusados, Ikushiro Shimada, sofreu um infarto. Eu tive problema de saúde, tive infartado por causa desse caso, minha esposa de tratamento psiquiátrico, completamente impedido de...
qualquer tipo de trabalho. Os seis tiveram que se esconder, perderam tudo. A escola, a renda, a reputação, a vida social. Eram reconhecidos na rua como abusadores de crianças. Ninguém queria chegar perto. Funcionários foram agredidos. Enquanto isso, a investigação real, aquela que deveria ter sido feita antes de qualquer manchete, seguia sem encontrar nenhuma...
Pelo fato de não achar nada depois de meses, o delegado Edélcio Lemos foi afastado do caso. Outros delegados assumiram. Um deles, Gerson de Carvalho, fez o que Edélcio deveria ter feito desde o começo. Investigou com um método, sem pressão de câmera. O senhor vai fazer assim? Perfeitamente. O senhor vai pedir um psicólogo pra conversar com os que? Dentro do possível, eu consegui um psicólogo pra me acompanhar nos...
nas perguns das crianças. Em junho de 1994, três meses depois do início do circo, Gerson de Carvalho declarou todos os acusados oficialmente inocentes. Depois de muito sofrimento, prisão e humilhação, a justiça verificou e proclamou que todos eram inocentes. O inquérito foi arquivado. Inocentes, todos. Seis pessoas que tiveram a vida destruída por um crime que nunca existiu.
Mas a retratação da imprensa, quando veio, não chegou nem perto do tamanho da acusação. A justiça condenou o governo de São Paulo a pagar uma indenização a dois donos e um motorista da escola base. Eles perderam tudo depois de serem acusados de abuso sexual de crianças. O delegado responsável pela divulgação das falsas denúncias, Edélcio Lemos, também terá que pagar uma indenização de 10 mil reais às três vítimas.
Os veículos não disseram que os acusados eram inocentes. Disseram que o inquérito foi encerrado por falta de provas. Pra quem tinha lido Escolinha do Sexo, na capa do jornal, falta de provas não significava inocência, não é? Significava que tinham escapado.
E as consequências para os inocentes foram permanentes. Paula, a professora, nunca mais conseguiu trabalhar na educação. Em todo lugar que ela ia, era reconhecida como a professora que abusou de criança. Ela e Maurício se divorciaram. Maria Aparecida Shimada, dona da escola, morreu de câncer em 2007. O marido dela, o Iko Shiro, morreu de infarto em 2014. Já tinha sofrido o primeiro em 1994, quando o caso estourou. Os dois morreram antes de receber todas as indenizações que a justiça determinou.
A justiça depois condenou o Estado de São Paulo e os veículos de imprensa a pagar indenizações. A Fazenda Pública foi condenada a pagar R$ 250 mil para cada um dos donos da escola. O STJ também determinou que o delegado Edelcio Lemos ressarciça os cofres públicos pelo que o Estado pagou, porque, segundo a decisão da ministra Eliana Calmon, não foi a imprensa que causou o estrago principal, foi a conduta irresponsável do delegado, que fez acusações levianas e, no final, não foi a imprensa que causou o estrago principal.
antes de qualquer prova. Para dimensionar tudo isso, todos os grandes jornais paulistas da época, só um se recusou a entrar na histeria. O Diário Popular publicou uma nota pequena nas páginas internas e parou por aí. Todos os outros embarcaram na acusação sem prova em manchetes.
Seis pessoas inocentes, uma escola destruída, carreiras acabadas, casamentos desfeitos, dois mortos antes de receber o que a justiça mandou pagar e tudo começou porque um delegado foi à televisão dar entrevista antes de concluir o próprio trabalho, antes de verificar se a denúncia fazia sentido. Mas eu te pergunto, essa indenização que foi fixada é suficiente? Seria, né? Porque eles nem receberam suficiente pra refazer tudo que foi destruído?
A chacina de Acari ocorreu em 1990. Policiais militares, integrantes de um grupo de extermínio, sequestraram 11 jovens, moradores da comunidade de Acari, e exigiram resgate. Ninguém sabe até hoje o paradeiro das vítimas.
26 de julho de 1990, uma quinta-feira. 11 jovens da favela de Acari, zona norte do Rio de Janeiro, estavam passando o dia numa chacra em Magé, na Baixada Fluminense. A maioria era adolescente. Estavam fazendo o que qualquer grupo de jovens faz num dia de folga.
matando o templo num sítio longe da rotina do morro. Por volta das 23 horas, um grupo de aproximadamente seis homens encapuzados chegou no local. Se identificaram como policiais, invadiram a chacra, renderam todo mundo e retiveram os 11 jovens. Ameaçaram de morte, exigiram dinheiro e joias. Depois, fizeram...
contato com os familiares pedindo resgate. As famílias desesperadas juntaram o que tinham. Segundo dona Laudicena, a única testemunha do caso já falecida, os sequestradores negociaram por cerca de uma hora. Depois disso, levaram os 11 jovens embora. Wallace, Edio, Luiz Henrique, Viviane, Cristiane, Moisés, Edson, Luiz Carlos, Hudson, Rosana, Antônio Carlos. Nenhum deles foi visto novamente. Nenhum corpo foi encontrado até hoje.
Eles tinham dito para os pais que passariam aqui o fim de semana, mas não voltaram para casa na segunda-feira. Na quinta-feira, dia 26, seis homens armados e usando capuzes entraram na casa e levaram os garotos em dois automóveis. Mas quem eram esses homens encapuzados? Afinal, a investigação apontou para um nome que diz...
Tudo sobre o que estava acontecendo nas periferias do Rio de Janeiro naquela época. Os cavalos corredores. Era um grupo de extermínio formado por policiais militares do 9º Batalhão da PM de Rocha Miranda. Policiais que fora do expediente e às vezes dentro dele também, executavam moradores de favela por encomenda, por dinheiro ou simplesmente porque podiam. E a investigação? Bom, é aí que esse caso entra no vídeo.
As famílias dos 11 jovens fizeram o que qualquer família faria, não é? Foram atrás, procuraram a polícia, procuraram o governo, procuraram a justiça e não encontraram nada. Nem os filhos, nem resposta, nem vontade de investigar. Só que essas mães não aceitaram o silêncio. Elas se organizaram, começaram a ir juntas às delegacias, aos fóruns, às redações de jornal. Batiam de porta em porta, todas elas. Gritavam o nome dos filhos em todo lugar que podiam. Elas ficaram conhecidas como as mães de Iacari.
e se tornaram um dos primeiros movimentos organizados de familiares de vítimas de violência do Estado no Brasil. A líder do grupo era a Edmeia da Silva Eusébio, mãe do Luiz Henrique, um dos desaparecidos. A Edmeia era a voz mais forte ali, e que não cansava, e que não recuava. Ela fez o que nenhuma investigação oficial conseguiu.
quis. Ela levantou informações por conta própria, identificou policiais envolvidos, denunciou publicamente a participação dos cavalos corredores no sequestro dos garotos e levou essas denúncias à justiça. E o que aconteceu com Edmeia por ter feito isso? Em 15 de janeiro de 1993, menos de três anos depois do desaparecimento dos jovens, Edmeia e sua sobrinha Sheila da Conceição foram assassinadas a tiros na estação de metrô da Praça 11 no centro do Rio de Janeiro.
Edmeia tinha acabado de visitar um preso no presídio Hélio Gomes, no bairro do Estácio, atrás de mais informações sobre o paradeiro do filho. Ela foi morta no estacionamento da estação de metrô por volta das 5h30 da tarde. A sobrinha que estava junto morreu também.
E a investigação do assassinato de Edmeia? Bom, a mesma história, não é? O inquérito tramitou durante décadas. Em 2019 já, sete acusados foram pronunciados pra ir a um júri popular. Em 2024, os policiais acusados foram absolvidos. Ninguém foi condenado por matar a mãe que ousou cobrar justiça pelo filho. Mas sempre tenho mais.
A investigação dos 11 desaparecidos teve um destino ainda pior. O inquérito foi aberto, se arrastou por anos e em 2011 foi arquivado. Motivo oficial? Ausência de suporte probatório mínimo. 21 anos investigando e a conclusão foi, não temos provas suficientes. A ação de indenização que os familiares moveram contra o estado do Rio.
E pra você entender o que significa prescrever, nesse contexto, as famílias demoraram tanto lutando na justiça que a justiça disse que tinha passado o prazo pra pedir reparação. Os 11 jovens desapareceram, ninguém achou os corpos, ninguém investigou direito. A mãe que cobrou foi assassinada e no fim, o Estado disse que o prazo pra reclamar tinha vencido.
As mães de Akari não desistiram, no entanto. Levaram o caso para fora do Brasil. Com a ajuda de organizações como o Projeto Legal Crioula e a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, apresentaram o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 2006.
Em dezembro de 2024, 34 anos depois do desaparecimento, a corte interamericana condenou o Brasil. A sentença é clara. Os 11 jovens de Akari foram desaparecidos forçadamente por agentes do Estado. O Brasil não realizou uma investigação séria. As mães que buscaram justiça receberam tratamento discriminatório pautado segundo a corte, pelo racismo e pela discriminação ligada ao local onde moravam. Duas delas foram assassinadas.
A corte determinou que o Brasil continue investigando, busque os corpos, faça um ato público de reconhecimento, crie um espaço de memória em Acari e pague indenizações, tipifique o crime de desaparecimento forçado na lei brasileira e elabore um estudo sobre milícias e grupos de extermínio no Rio de Janeiro. Em setembro de 2025,
O Conselho Nacional de Justiça determinou que os cartórios emitissem as 11 certidões de óbito dos 11 jovens. 35 anos depois do desaparecimento, as famílias finalmente receberam um documento que reconhece que os filhos delas foram mortos. Na certidão, a causa da morte está registrada como não natural, violenta, causada por agente do Estado brasileiro no contexto do desaparecimento forçado. Duas das mães ainda estavam vivas quando o documento chegou.
E essa é a história de 11 jovens que foram levados de uma chacra onde estavam, sei lá, se divertindo, fazendo um churrasco, por homens encapuzados que se diziam policiais, que eram policiais. A mãe que lutou por respostas foi assassinada na estação de metrô. O inquérito foi arquivado por falta de provas. A indenização prescreveu que o Brasil precisou ser condenado por um tribunal internacional para que 35 anos depois alguém reconhecesse oficialmente que aqueles jovens existiram e foram mortos.
Cinco casos, cinco formas diferentes de a investigação falhar. Esse Farias morreu num quarto onde as provas foram destruídas antes da perícia e o perito principal foi acusado de forjar o laudo. Os irmãos Naves passaram um inferno, oito anos presos por um assassinato que nunca aconteceu e o morto apareceu vivo 15 anos depois. Araceli, uma menininha de oito anos, foi assassinada por...
gente poderosa demais pra ser punida. E o policial que tentou investigar levou um tiro nas costas. Na escola base, o delegado destruiu seis vidas inocentes porque preferiu dar entrevista antes de conduzir o seu trabalho. Em Akari, onze jovens foram levados por policiais. A mãe que cobrou justiça foi executada e o Brasil precisou ser condenado pra reconhecer o que aconteceu. Cinco histórias, em todas elas a mesma pergunta. Quando quem deveria proteger é justamente o problema? Quem sobra pra cobrar a conta?
É isso, pessoal. Esse foi o especial 5 casos que provavelmente a justiça quer que você esqueça. Comenta aqui qual dessas histórias mais impactou você. Não se esquece de se inscrever. Vários episódios especiais como esse estão sendo construídos. Ative seu sininho, deixa um like, um comentário, se torne membro, se puder. Ajuda demais nesse tipo de produção. Obrigado pela companhia, um beijo do ruivo e até o próximo episódio.
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