Episódios de Vamos aos Fatos

O Investigador Disse que Ela Confessou. Mas nem os Assassinos Confirmam Isso

27 de abril de 202624min
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📌 Em dezembro de 1989, o filho de Debra Milke foi encontrado morto no deserto do Arizona com três tiros na cabeça. Dois dias depois, ela foi presa. Meses depois, condenada à morte. A única prova contra ela: a palavra de um detetive que se trancou sozinho numa sala com ela por trinta minutos, sem câmera, sem gravador, sem testemunha — e destruiu as anotações logo depois. Ela passou 22 anos no corredor da morte. Os dois homens que de fato levaram a criança ao deserto nunca a apontaram como mandante no tribunal. Esse é o caso Debra Milke.-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br📲 Me acompanhe nas redes sociais: @eusoumarcoscampos-------✅ Torne-se membro e tenha acesso a conteúdos exclusivos:https://www.youtube.com/channel/UC7-cLW-2p0fXAjCT_LxDSOg/join▶️ Maratone todos os casos aqui:https://youtube.com/playlist?list=PLkjuwXVZkeMidSQ536aKEAK_iaG90I5ZL&si=mqyFPRLUJLiNT-wW⚠️ Aviso importante:Todo o conteúdo deste canal é baseado em informações públicas, investigações oficiais e reportagens jornalísticas. O objetivo é informar, refletir e promover debates construtivos — sempre com respeito às vítimas, às famílias e à complexidade dos fatos apresentados.

Participantes neste episódio1
M

Marcos Campos

HostJornalista
Assuntos1
  • Caso Debra MilkeConfissão do detetive · Seguro de vida · Condenação injusta · Histórico do detetive · Libertação de Debra
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Em dezembro de 1989, uma mulher passou a noite inteira acordada esperando notícia do filho que tinha sumido num shopping. No dia seguinte, a polícia bateu na porta para dizer que o menino tinha sido encontrado, mas morto no deserto. Três tiros na cabeça. Dias depois, essa mulher foi presa, meses depois, julgada, e então passou mais de duas décadas no corredor da morte, aguardando a execução.

Só que tem uma parte nessa história que inquieta, digamos, porque a única coisa que colocou essa mulher presa e depois no corredor da morte foi a palavra de um único homem, sem nenhuma gravação, sem testemunha, sem uma assinatura, nada além da memória de um detetive que se trancou sozinho numa sala com ela por 30 minutos e depois destruiu as próprias anotações.

E esse detetive, eu vou te contar, tinha um histórico aí, viu? Que a promotoria supostamente conhecia há anos, só que escondeu do júri. Mas tem muitos detalhes aí. Eu sou Marcos Campos e essa história levanta uma pergunta que o sistema jurídico americano ainda não conseguiu responder direito, tá? Quantas outras Deboras existem? Pessoas que passaram décadas num corredor da morte por causa de uma confissão que talvez nunca tenha acontecido. Mas calma, que...

Tudo indica que pode ser isso, mas como eu disse, tem outras coisinhas aí. O caso é complexo e no final você vai me dizer se ela é ou não inocente. Combinados? Recado dos dados. Vamos aos fatos.

Bom, pra entender o que aconteceu naquele dezembro que abriu o caso, você precisa primeiro entender quem era a Deborah Milk, lá em 1989. Bom, ela nasceu em Berlim Ocidental, em 10 de março de 64. O pai dela era um americano que estava servindo na Força Aérea dos Estados Unidos. A mãe era alemã.

Em 1965, quando a Deborah tinha menos de 8 anos, a família voltou para os Estados Unidos. Ela então cresceu lá, terminou o ensino médio, fez faculdade, enfim, se criou ali. Em 1984, ela se casou com um cara chamado Mark Milk. Em 1985, então, nasceu o único filho do casal, o Christopher Conan.

Milk. Em 1988, já três anos depois, o casamento deles acabou em divórcio. O Mark, na verdade, era um cara meio complicado, dependente químico, com passagem até pela prisão. A Deborah tinha até uma ordem restritiva pra controlar ali as ações do Mark. Ele não poderia ver o filho quando ele quisesse e tal. Então ela queria que o Christopher vivesse longe disso, né? Dessa vida instável do pai.

Assim, com 25 anos de idade, agora ela estava sozinha com uma criança de 4 anos, trabalhando numa seguradora, tendo essa abundância de grana, mas ela estava juntando dinheiro apesar disso pra ela poder alugar um apartamento pra ela. Apesar desse começo de vida de mãe totalmente instável, a Debra tinha planos. Enquanto a Debra juntava sua grana ali pra enfim ter alugar o apartamento dela, ela e o filhinho Christopher...

estavam morando junto com um cara, dividindo um apartamento, na verdade, com um homem chamado James Stiers. Ele era um veterano de guerra do Vetinã, que ela conheceu por intermédio da irmã, lembrando que eles eram de família militar e tal, não é? Então, isso aí era um arranjo prático, sem nada voltado para romantismo, nada sexual. A Débora estava ali de favor na casa do cara, e segundo ela...

Ela bancava parte do aluguel ali, em troca, o amigo aí cuidava do Christopher nos momentos que ela tava trabalhando e tal. O plano dela era que depois do Natal daquele ano lá, ela sairia lá da casa do cara, né, com os planos, pra casa dela, enfim. Em agosto de 1989, no entanto...

Os três se mudaram juntos, continuaram morando juntos em outro lugar. Não me pergunte por quê, porque eu não achei a razão disso. Sei lá o que aconteceu. Eu sei que em setembro de 89, semanas depois dessa mudança, a Débora foi contratada em um outro emprego lá.

E ela conseguiu um seguro de vida. Um plano, um benefício ali que a empresa ajudava a ter. O valor dessa policy aí era de 5 mil dólares. A gente tá falando de quase 40 anos, né, galera? Então, assim, o beneficiário dessa policy é ela mesma como mãe do Christopher. Tava atrelado aí ao Christopher. O James Stiers, um amigo aí, sabia da existência dessa policy.

Olha, temos aqui, eu diria, o elo principal que vai conduzir o fio da meada desse caso nos próximos 20 anos de acontecimentos. Vai vendo. O James Lynn Steers, não sei como pronuncia, tinha 41 anos lá em 1989.

Como eu disse, ele era um veterano de guerra do Vietnã, não é? E um cara problemático também. Na verdade, ele tinha problemas financeiros sérios e também tinha uma amizade com um cara esquisito, de longa data, já um cara chamado Roger Scott, um homem que, conforme os próprios documentos do tribunal depois, não tinha emprego fixo, vivia de favores. Ou seja, não parece, narrando assim, que a junção de tudo isso vai gerar coisa boa, não é? E olha, não gerou mesmo, viu?

Lembra da introdução do caso, quando eu disse que uma mãe estava lá aflita esperando notícias do filhinho que tinha se perdido no shopping? Então, veja o que segundo a promotoria teria acontecido naquele dia lá. E olha, a teoria da promotoria é construída a partir dos interrogatórios do próprio Roger Scott e do James Stiers, tá? Relembrando aqui o James, amigo da Debra, e o Roger, amigo do James. Fechou aí? E essa teoria da promotoria é a seguinte.

Em algum momento antes de dezembro de 89, James e Deborah teriam conversado sobre o seguro de vida do Christopher, atrelado ao filhinho dela, o Christopher. O James teria então proposto um plano, e Deborah teria concordado com esse plano. James então teria combinado com o Roger, amigo dele, que os dois levariam o menino até o deserto.

E James atiraria nele Em troca, Roger receberia uma quantia em dinheiro E o James ficaria com parte do seguro de vida Dos 5 mil dólares Gente, segundo consta em algumas fontes Esse Roger receberia 250 dólares Pra fazer o que os dois fizeram juntos Tirar a vida de uma criança de 4 anos Essa é a versão da acusação O que o processo nunca conseguiu provar de forma independente É o elo entre essa versão O que esse livro não entrou?

E Deborah Milk. Por quê? Explico. Porque nem James, nem o Roger, nunca, nos próprios julgamentos deles depois, apontaram a Deborah como um mandante num tribunal. E a única pessoa que disse que ela tinha a ver com toda essa história aí, teria, inclusive, confessado, foi um detetive chamado Armando Saldete. Mas calma, que eu já falo desse cara pra vocês. Tem muito...

pano pra manga pra falar dele, tá? Segura aí. Primeiro, vamos voltar lá pra aquele sábado de dezembro de 1989, quando a criancinha inocente ia dar um passeio. Era 2 de dezembro de 1989, semanas antes do Natal, não é? Christopher tinha 4 anos. Na véspera desse dia, ele tinha visitado o Papai Noel no shopping Metro Center, em Phoenix, no Arizona. Ele gostou tanto que ele pediu pra voltar o James Stairs.

Ontas, não morava junto ali, de boa. Ele pegou o carro da Debra, naquela manhã, e disse pro Christopher, pro menininho, que eles iam pro shopping de novo, pra ver o Papai Noel, e saíram. A Debra, então, teria ficado em casa, lavando roupa, fazendo só rotina ali. E o que aconteceu depois, e que eu vou contar pra vocês, saiu dos próprios depoimentos dos envolvidos, ok? James Steyers, ou Steyers, passou pelo apartamento do Roger Scott, amigo dele.

Pegou ali o cara e os três, o James, o Roger e o pequeno Christopher, saíram de rolê pela cidade, almoçaram juntos, fizeram algumas paradas lá. Tudo dentro da normalidade, mas por pouco tempo. Depois, o James dirigiu o carro até uma ravina no deserto, ao norte de Phoenix, um lugar totalmente isolado, sem testemunhas. E foi lá que os dois canalhas, traiçoeiros, covardes, assassinaram o Christopher com três tiros na cabeça.

De tarde então nesse mesmo dia, como se nada tivesse acontecido, ou de repente eu tava pensando, talvez tivesse acontecido como planejado, não é? Não sei, depois vocês me dizem o que acho. Bom, o James ligou então pra casa lá da Debra, onde eles viviam todos juntos, e disse que o Christopher tinha sumido pelo shopping.

Ele perdeu o garoto no shopping. Debra, então, apavorada, ligou pra polícia imediatamente e logo a polícia de Phoenix começou uma investigação de criança desaparecida. O James foi ao shopping, ajudou ali nas buscas, enfim, tava participativo. Nessa noite ainda, Debra ficou acordada o tempo todo esperando alguma notícia. No dia seguinte, 3 de dezembro, a polícia prendeu o Roger Scott. Depois de mais de 14 horas de interrogatório, ele acabou confessando. Ele disse que sabia onde o Christopher estava.

que o menino estava morto. Roger Scott então levou a polícia até a tal Ravina lá no deserto. Que vale um parênteses, não é, galera? Nesse momento aí da investigação, os dois que foram os últimos que estiveram com o Christopher, claro que eles foram ouvidos primeiro pela polícia, né? Parece-me que o Roger aí, já na primeira noite de interrogatório, já confessou. O corpo do Christopher foi encontrado naquele dia mesmo, quatro anos de idade, galera, três tiros na cabeça numa vala de terra seca no deserto do Arizona. É muita maldade, né?

James Stiers, o amigo, foi processado em seguida, tá? Os dois foram julgados separadamente depois, conforme a investigação foi avançando, eles tinham confessado, né? Por assassinato em primeiro grau e sentenciados à morte. E até onde se sabe, eles permanecem até hoje no corredor da morte, tá? Depois de tanto tempo. Com os dois homens presos, então, à época, a polícia voltou a atenção.

Pra Debra, havia uma coisa que incomodava os investigadores. O tal seguro de vida. Uma mãe contrata uma pólice de 5 mil dólares ali, em parceria talvez com a empresa que ela trabalhava, não sei como é que foi direito isso aí, pro filhinho dela, semanas antes dele ser morto pelo colega que morava junto.

Estranho, né? Coincidência. Pode até ser, mas era o tipo de detalhe que não pode passar despercebido e não passou e precisava de uma explicação. Então entrou em cena o detetive Armando Saldete Jr. Lembra que eu já disse esse nome agora há pouco, né?

Então, o Saudade tinha 20 anos de carreira na polícia de Phoenix. Era conhecido como um interrogador habilidoso, metódico, persistente. Colegas diziam que ele tinha o dom de fazer pessoas falarem. Ele mesmo disse numa entrevista concedida ao Phoenix News Times, anos depois, veja, minha crença é que todo mundo não importa o crime e vai dizer a verdade. Você só precisa dar a elas a oportunidade.

Aguenta aí que daqui a pouco vocês vão me dizer alguma coisa sobre isso. Quando Debra se apresentou pra prestar depoimento dela, o detetive Saldete estava de folga naquele dia, mas ele fez questão de ir até lá. Ele queria interrogá-la. Então ele colocou a Debra numa sala fechada e ficou com ela lá 30 minutos. Sem câmera, sem gravador, sem advogado, sem nada. Sem testemunha, só os dois.

Um superior de Saldate, segundo relatos do processo, chegou a perguntar se ele ia gravar um interrogatório. Saldate disse que a Debra tinha recusado. A Debra confirmou que recusou mesmo a gravação. É uma das poucas coisas, inclusive, que os dois concordam. Ela alega que recusou porque Saldate disse que a gravação era opcional e ela não entendeu, na verdade, a implicação daquilo naquele momento. Talvez com ansiedade, com medo, frustrada, com choque, né?

A perda do filho e tal. Saldate alega, no entanto, que a recusa foi deliberada e que ela entendeu sim perfeitamente o que estava acontecendo.

Três dias depois disso, Saudade apresentou um relatório escrito de sete páginas, descrevendo ali o que tinha acontecido naqueles 30 minutos de interrogatório. Nele, ele afirmava que Deborah Milk tinha confessado espontaneamente que planejou o assassinato do próprio filho com o James Stiers, que ela queria o dinheiro do seguro, e que achava que o Christopher ia crescer igual ao pai, um viciado, um criminoso, que o menino era um inconveniente pra ela. Saudade escreveu que ela disse o seguinte,

Só decidi que seria melhor para o Christopher morrer. Ele também escreveu que ela tinha renunciado voluntariamente ao direito de ter um advogado presente no interrogatório ali. Depois de escrever o tal relatório, o Saudete destruiu as anotações originais que fez durante o interrogatório.

Tudo muito esquisito e insólito, não acham? A Débora negou absolutamente tudo isso. Diz que nunca confessou nada, que Saudete pegou frases ditas num contexto de luto e desespero e distorceu o sentido. E fabricou o resto. Que ela nunca abriu mão do direito ao advogado. Que Saudete simplesmente agiu como se esse direito não existisse.

Que ele era um cara imenso, intimidador, com um olhar penetrante e que ela ficou com muito medo. Bom, complicado, né? Literalmente a palavra de um contra o outro. Eu diria que na verdade essa é a cerne desse caso aqui, que é um dos mais controversos da história. Mas contando até aqui, já antecipa seu comentário e me diz o que você acha. Bom, tempos depois disso então...

A promotoria ofereceu um acordo pro Roger Scott, o amigo do... amigo da Deborah. Vocês lembram, né? Então, o acordo seria 21 anos de prisão em vez de pena de morte em troca de testemunho contra a Deborah Milk. Scott aceitou o acordo, mas quando chegou a hora do julgamento da Deborah, ele não falou nada diretamente no tribunal. Nem o James. Os dois ficaram calados.

Nenhum dos dois homens, que de fato foi comprovado que levaram o Christopher ao deserto e mataram o garoto, acusaram a Deborah de nada diante do júri. A única evidência direta contra ela era a palavra do detetive Saudade. E aí tá um outro elo muito gigantesco desse caso, porque eles não usaram, né?

Depois a gente tem mais coisas, mais detalhes, depois vocês vão ligar tudo e você vai falar assim, caramba, mas era a única forma de ter um caminho para seguir e eles não, mas segurei. O julgamento da Deborah Milky, galera, aconteceu em 1990, tá? O promotor construiu o caso em cima de dois pilares, o seguro de vida de 5 mil dólares e a suposta confissão ao detetive. O promotor pintou Deborah como uma mãe que via o filho como um obstáculo, um estorvo.

Para uma vida melhor, uma mulher jovem que queria se livrar da criança, que de repente prendia ela ao ex-marido. A defesa tentou desconstruir a confissão. Deborah subiu ao banco das testemunhas e negou cada palavra que o detetive Saudete tinha atribuído a ela. Disse que nunca tinha feito mal ao filho e que Christopher era tudo para ela. Mas Deborah tinha um problema sério antes mesmo de o julgamento começar.

Ela não tinha grana, dinheiro. A representação jurídica que recebeu nos primeiros anos foi precária. São detalhes importantes sobre Saudade que poderiam ter mudado o curso do julgamento. Todos esses detalhes nunca foram descobertos, apresentados pela defesa dela. Não porque não existiam, tá galera? Mas porque a defesa não tinha recurso pra investigar a fundo.

mexer ali no vespeiro, não é? Olha, digamos que um advogado de defesa feroz ia deitar e rolar nesse caso, não é? Bom, diante de tudo isso, então, o júri teve que escolher naquele momento ali, acreditar no detetive com 20 anos de carreira, um cara habilidoso no interrogatório, ou acreditar numa mãe que estava sendo acusada de mandar matar o próprio filho para ficar com o seguro de vida. O júri escolheu o detetive. Em 18 de janeiro de 1991, Deborah Mill, que foi sentenciada à morte, com 26 anos de vida, ela entrou no corredor da morte feminino do Arizona.

Uma das apenas quatro mulheres que ocupavam aquele espaço no estado naquele momento. Mas, como acontece às vezes, não é? Tem um caroço nesse anguio, eu acho que eu nem preciso falar. O que o júri não sabia, e o que a promotoria nunca contou a eles...

É o plot. Segura essa. Armando Saldete, o detetive habilidoso, tinha um histórico. Olha, tem a ver com habilidade. Não é um rumor, galera. Não é uma acusação sem fundamento, tá? É um histórico documentado com datas, números de processos e descrições detalhadas que o próprio escritório do promotor conhecia e guardou em segredo durante todo o julgamento. Saldete tinha sido suspenso por um tempo, só pra vocês terem uma ideia de suas funções.

Depois ele ter abordado uma motorista numa blitz e propôs pra ela ali, ó. Se tá...

Com as regularidades aqui, eu posso fazer vista grossa, mas em troca, né? Sabe, né? Então, depois de mentir sistematicamente para os seus superiores sobre o que tinha acontecido, ele só parou de negar quando ele foi submetido a um polígrafo e o resultado foi desfavorável. Mas foram só cinco dias de suspensão e ele voltou a trabalhar. E não acaba aí não, claro. Em quatro casos distintos, juízes tinham anulado confissões ou indiciamentos porque concluíram que Saudete tinha mentido sob juramento. Em outros quatro...

Confissões foram suprimidas porque ele tinha violado os direitos constitucionais dos suspeitos durante o interrogatório. Num desses casos, ele interrogou uma pessoa que estava sofrendo de uma fratura no crânio. O homem estava tão desorientado que não sabia o próprio nome, não conseguiu dizer o ano, não sabia quem era o presidente naquele momento.

As perguntas básicas que eles fazem pra saber se a pessoa tá orientada ou não. O saudete interrogou ele mesmo assim e produziu uma confissão, entre aspas. Em outro, ele interrogou um suspeito aí num quarto de hospital, com um homem conectado a um soro ali, medicamento, alternando entre consciência e inconsciência. O saudete disse à enfermeira que ela não podia administrar analgésicos ao paciente, aquele paciente especificamente, enquanto ele ainda não tivesse terminado de falar com ele.

E esse, galera, era o homem cuja palavra tinha colocado a Deborah Milk, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou, esse livro que esse livro não entrou,

No corredor da morte. O Tribunal de Apelações, anos depois, descobriu tudo isso após pesquisadores da defesa passarem mais de 7 mil horas vasculhando processos judiciais à procura do nome de Saudete. 7 mil horas para encontrar o que a promotoria já tinha e não entregou. Aqui eu diria que tem mais um elo, né? Porque, tipo assim...

Se ela de fato confessou, quando você olha o histórico podre do cara, aí você fica do lado dela e fala assim, vou acreditar nela porque ela tá falando que não confessou. Agora, se ela não confessou de fato e aí você olha o histórico do cara, você fala, pô, ela não confessou mesmo. Só que tem as... Por que que os caras fariam aquilo, não é?

Bom, a defesa chegou a intimar os registros de Saudade, falando dele ainda, durante o julgamento original. O Estado pediu ao tribunal para bloquear essa intimação. O tribunal acatou parcialmente. Os registros mais comprometedores nunca chegaram ao júri. Por mais de 22 anos, Deborah Milk acordou toda manhã no corredor da morte no Arizona sob a acusação de ter matado ou mandado matar o próprio filho.

Ela, claro, entrou com recursos, perdeu, entrou com mais recursos, os tribunais estaduais mantiveram a condenação repetidamente. Sem dinheiro, com representação precária nos primeiros anos ali, o processo foi avançando lentamente pelos tribunais federais. Deborah se tornou um caso relativamente conhecido nos círculos de ativismo contra condenações injustas, uma das mulheres mais mencionadas quando se fala em erros do sistema de pena de morte americano.

Mas condenações injustas são difíceis de reverter, viu? Muito difíceis, eu diria. O sistema não gosta de admitir muito que errou, sabe? Especialmente em casos de homicídio. Mas sempre tem um mas, não é? Em março de 2013, mais de 22 anos depois da condenação, um painel de três juízes do Tribunal de Apelações dos Estados Unidos reverteu a condenação da Deborah Mill, que por unanimidade, a decisão tinha...

tinha 60 páginas. Era devastadora. Esse grupo de juízes concluiu que a promotoria tinha ficado inconstitucionalmente em silêncio sobre um tesouro de evidências de impugnação contra a principal e praticamente única testemunha do caso. A corte afirmou que Saudade tinha uma história documentada de mentiras no exercício das suas funções e que os jurados nunca souberam disso.

e teriam sabido se a promotoria tivesse cumprido sua obrigação constitucional de entregar esse material à defesa. O juiz-chefe dessa comissão, o Alex Kuzinski, num parecer recorrente, foi ainda mais direto. Ele escreveu que Saudete transformou a sala de interrogatório numa caixa preta, sem deixar nenhuma prova objetivamente verificável do que aconteceu lá dentro. E disse que a suposta confissão, se é que foi obtida de alguma forma, foi extraída ilegalmente.

O tribunal encaminhou o caso ao Departamento de Justiça para investigação de violações de direitos civis por parte de Saldate e do escritório do promotor do condado de Maricopa. Em setembro de 2013, Deborah Milk foi liberada mediante fiança de 250 mil dólares depois de mais de 22 anos presa. Uma tornozeleira eletrônica foi colocada nela ali porque, tecnicamente, ela ainda era ré, aguardando a decisão judicial sobre um possível novo julgamento.

O promotor Bill Montgomery chamou a decisão desse grupo de juízes de exagerada e disse que um assessor jurídico irritado tinha escrito a opinião sem ler o processo inteiro. Ele anunciou que ia buscar um novo julgamento de Deborah. Mas aí eu pergunto, o que adianta ler o processo inteiro se o processo inteiro está maculado? Bom, em março de 2015, a Suprema Corte do Arizona bloqueou o novo julgamento, entendendo que havia ali conduta processual flagrante no caso original, o que somado às proteções de duplo julgamento...

mais fortes ali do estado, tornava qualquer novo processo inviável. Em 23 de março de 2015, a juíza Rosa Mross, do Tribunal Superior do Condado de Maricopa, arquivou todas as acusações contra a Debra Milk, definitivamente sem possibilidade de reabertura. E nesse momento, a Debra deixou o tribunal sem demonstrar alegria, tá? Ela disse, não sinto felicidade, eu sinto é um alívio. Saudete, nunca foi processado criminalmente, por incrível que pareça.

O prazo legal federal para processar as infrações dele já tinha expirado. Em 2015, Deborah entrou com uma ação civil contra a cidade de Phoenix e o condado de Maricopa, pedindo ali indenização pelos 23 anos na que ela passou presa. A ação alegava que as autoridades tinham escondido evidências que a inocentariam e que a própria polícia teria destruído o dossiê pessoal de Saudete.

O processo avançou por anos, em 2017, durante o andamento do processo civil. Aí tem um ponto muito estranho e insólito nessa história. A Debra foi lá pra terra natal dela, né, Alemanha, e ela destruiu esses documentos. Eram caixas inteiras de material relacionado ao caso, incluindo um diário pessoal dela, onde ela escreveu ali logo depois da condenação. Registro que ela havia acumulado durante os anos de prisão. Material que sua mãe tinha reunido ao longo de décadas de recursos.

Além disso, ela e seus advogados removeram um site e páginas de redes sociais que tinham sido criados para divulgar o caso dela ao público. Por que ela fez isso? Você deve estar se perguntando. Eu também não sei. Essa é uma pergunta que nunca teve resposta pública. Ela nunca deu uma explicação sobre isso.

O que a juíza federal concluiu nos registros do processo civil é que esses documentos, especialmente o diário escrito logo após a condenação, eram exatamente os que teriam abordado a questão central do caso, o que realmente aconteceu naquele interrogatório com o Saldete. Ao destruí-los, ela retirou do processo a única fonte de registro pessoal e contemporâneo da sua própria versão. Deborah Milk nunca recebeu um centavo sequer pelas duas décadas que ela passou presa.

No corredor da morte, melhor dizendo, a decisão judicial destacou que ao destruí-los, ela meio que prejudicou ativamente o próprio curso do seu processo. Para quem passou mais de duas décadas sendo possivelmente vítima de um sistema que escondeu evidências, destruir evidências no próprio processo de indenização, uma escolha meio esquisita e que custou tudo, não é? E digamos, convenhamos, melhor dizendo, incompreensível isso, não é?

James Stiers e Roger Scott continuam no Corredor da Morte lá no Arizona. Ninguém discute que foram eles que levaram o pequeno Christopher naquele carro pra passear, mas foram com ele ao deserto e atiraram três vezes na cabeça da criança naquele sábado de dezembro, onde o menininho achava que tava indo ver o Papai Noel. O que ficou sem resposta definitiva é mais simples e talvez mais perturbador do que qualquer teoria, tá? O que de fato aconteceu naqueles 30 minutos numa sala fechada sem câmera, sem gravação, sem testemunha, com as notações destruídas logo depois.

Uma mulher diz que nunca confessou nada. Um detetive com um histórico documentado de mentiras sob juramento diz que ela confessou sim. Os únicos dois homens que poderiam corroborar alguma coisa, os que de fato mataram a criança, não apontam ela como mandante no tribunal. Eu acho que essa é a parte que mais confunde a gente, não é? Afinal de contas, se os dois homens ganhariam algo com a morte da criança, alguma relação eles teriam que ter com a mãe.

A criança, vocês não acham? Porque não tinha nenhuma outra ligação ali. Se não for isso, qual seria a outra razão? Maldade? E olha, foi justamente essa grande interrogação que embasou toda a acusação do caso. Eles falavam que ela teria que ter uma ligação com eles. Apesar de tudo isso, de fato ela ficou presa. O sistema acreditou no detetive. E depois, quando ela tentou provar que tinha sido vítima desse sistema, ela destruiu as provas que ela mesma tinha guardado.

Se esse caso não é insólito, eu não sei qual é. O pequeno Christopher Milk teria hoje 40 anos de idade. Abruzidos, deixem aqui pra mim seus comentários. Tô curioso pra saber o que vocês pensam sobre tudo isso. Definitivamente um dos casos mais insólitos, mais controversos que eu já contei por aqui. Obrigado pela sua companhia, um beijo do Ruivo e até o próximo episódio.

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