Episódios de DEPOIS DO CORTE

NOSSA MENTE - EP4 | Nossa mente, nosso corpo

19 de setembro de 202654min
0:00 / 54:11

NOSSA MENTE é a terceira temporada do podcast DEPOIS DO CORTE, e tem como tema a saúde mental. 

Neste episódio, mergulhamos na relação entre saúde mental e o nosso corpo físico. O quando estar bem emocionalmente reflete no nosso organismo e vice-versa.

NOSSA MENTE é um projeto cultural que inclui documentários, conteúdos transformadores, ação educativa, além deste podcast.

Uma produção Deusdará Filmes em parceria com Fronteiras do Pensamento, patrocínio Aché Laboratórios por meio da Lei Rouanet Incentivo a Projetos Culturais e realização Ministério da Cultura, Governo Federal.

Este episódio foi produzido em parceria com a AudioDocs.

Saiba mais em nossamente.org

Participantes neste episódio7
L

Leonardo Branche

HostDocumentarista
M

Mônica Herculano

Co-hostNutricionista
M

Marli Alvarenga

EntrevistadoMédica da família e comunidade
D

Deise Ferreira da Silva Rosa

EntrevistadoAdministradora de empresas
L

Lídia Lopes Gomes

EntrevistadoPsicóloga e psicanalista
F

Fernanda Simongini Plácido

EntrevistadoAdministradora de Empresas
C

Camila Munhoz

EntrevistadoPsicóloga e psicanalista
Assuntos6
  • A relação entre saúde mental e o corpo físicosinais do corpo para emoções·impacto do estresse no corpo·interação cérebro-corpo
  • Atividade física como pilar da saúde mental e bem-estarsilenciar a mente e focar no presente·medicina do estilo de vida·redução de riscos de doenças
  • Transtornos alimentares e seus fatores multifatoriaiscausas genéticas e familiares·influência da mídia e redes sociais·fatores desencadeantes e mantenedores
  • A importância da nutrição e a perda da relação emocional com a comidabenefícios da alimentação natural·impacto da microbiota na saúde mental·comensalidade e cultura alimentar
  • A atividade física como ferramenta para lidar com desafios da vidaexperiência de viver o treino e o erro·lidar com intempéries e imprevistos·desenvolvimento de resiliência e autoconhecimento
  • Fome emocional e o uso da comida para gerenciar emoçõesperda da capacidade de identificar prazer·comida como conforto e alívio·dificuldade de sair do ciclo vicioso
Transcrição76 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Eu sou Fernanda Simongini Plácido, eu tenho 43 anos, eu sou formada em Administração de Empresas, mas desde que meu filho nasceu em 2015 eu não trabalho mais. Tive essa oportunidade, fiquei em casa. 27 anos depois de ter parado de nadar, eu voltei pra uma competição em piscina. E daí isso foi muito fenomenal, porque tipo assim, eu falei, cara, olha que louco, você resgata assim a si próprio. Aí fiz, né, as provas do mar. Aí você quer melhorar, você quer ir bem, e você vê que aquilo te faz bem.

Então são 2 anos que eu comecei a me dedicar de verdade para natação. E aí eu percebi que eu posso, como se eu tivesse materializado a capacidade de me autossuperar.

?Voz B

Olá, meu nome é Leonardo Branche, eu sou documentarista e este é o Depois do Corte, o podcast da Deus Dará Filmes. Cada temporada aprofunda e traz novas perspectivas para os nossos documentários. Esse é o 4º episódio da 3ª temporada. Nele, estamos explorando o universo da saúde mental, temática do filme Nossa Mente. Nos episódios anteriores, falamos sobre o que é saúde mental, sobre diagnósticos, ansiedade e depressão. Exploramos os limites entre a saúde e a doença mental.

Afinal, o que é o comportamento normal e o que é a loucura nos dias atuais? Quem define esses limites? Como reconhecê-los em nós mesmos? Agora vamos nos aprofundar na relação entre mente e corpo, o quanto um corpo saudável pode ajudar nas questões de ordem mental e o quanto a saúde mental interfere na saúde física. Oi, Moni, beleza? Deixa eu te falar, ó, eu curti bastante essa ideia de trazer a Fernanda para dialogar aqui com especialistas e tal.

A Fernanda não é só uma personagem do filme, né? Ela, a gente construiu junto assim, a partir das próprias reflexões dela, das próprias inquietações, das coisas que ela vem vivendo, a gente foi construindo e costurando uma série de assuntos que são importantes para a gente dialogar com a sociedade, né? Então acho muito interessante trazer para o corpo, né, para a vida, as questões aqui, né? Senão a gente fica— o mental é um lugar perigoso que a gente fica ali no mundo da imaginação, né? Eu acho que trazer para o corpo é bem interessante, né?

?Voz C

Com certeza, ela trouxe isso muito para o filme, né? E acho que a gente pode refletir aqui no podcast também. Então a gente traz ela no começo, né, do episódio, né, se apresentando e tal, naquelas sonoras iniciais. E aí E acho que no decorrer a gente também pode colocar alguns depoimentos de algumas das amigas dela, né, que fazem, elas formam esse grupo, as Paquitas Geriátricas, que o nome é ótimo. Elas estão muito ligadas nessa coisa da atividade física e acho que elas podem também falar sobre essa influência nessa relação com a saúde mental.

?Voz B

Mas antes de ouvir essas histórias, vamos entender como o corpo físico está relacionado diretamente à saúde mental.

?Voz E

Eu entendo saúde mental como uma coisa da complexidade que é ser humano, estar nesse mundo permeado pelas nossas emoções e sensações, e como isso faz relação com o nosso corpo físico também.

?Voz B

Essa é a Carla Vinhal, médica da família e comunidade.

?Voz E

Tem gente que, por exemplo, se sente muito nervoso e o estômago dói. Tem pessoas que o cabelo cai. Tem gente que vai para uma coisa de uma ação, eu roubo a unha, ou outra pessoa que não consegue dar vazão de alguma forma às suas emoções e ela vai fazer um consumo mais aumentado de bebida alcoólica ou de substâncias recreativas. Tem gente que não encontra forma de vazão e esteve sujeito a um ambiente estressor violento e vai reproduzir violências doméstica, sexual, física, como uma forma que não é a mais adequada dentro de sociedade como a gente tem, de regras, padrões de convivência, mas que talvez aquela forma como o sujeito conseguiu dar vazão de alguma maneira, até porque talvez ele não foi acolhido e não aprendeu de outra maneira.

Eu diria que o nosso corpo, ele sabe dar sinais e a gente tá desaprendendo a escutar. E eu acho que isso tem muita relação com as formas de vida contemporâneas que a gente tem assumido, né? Então, Jornada de trabalho muito extensa, precarização de relações e vínculos de trabalho, a dinâmica de uma cidade, por exemplo, se a gente gasta 5 minutos para ir para o trabalho ou se eu fico 2, 3 horas no transporte público, que tempo que me sobra para olhar para o meu corpo e entender qual é essa normalidade dele, qual é esse padrão com que eu sinto que ele funciona bem, né?

E se eu tenho acesso também a direitos básicos que faça com que esse corpo possa ali produzir as defesas que ele sabe. Tem pessoas, por exemplo, que começam com uma alteração de humor. Eu me sinto mais chorosa, mais deprimida, isso não acontecia com tanta frequência. Ou às vezes mulheres cis, outras pessoas com útero vão perceber mudanças do parâmetro da menstruação. Um ciclo que se alarga, uma menstruação que atrasa, um fluxo que vem aumentado.

Outras pessoas vão perceber a pele com manchas, lesões. Então toda vez que eu fico muito nervosa eu fico vermelha na pele inteira. Parece que a minha pele sente como eu tô reagindo, como esse estresse tá acontecendo, como essa dinâmica de vida tá sendo imposta. Então, a gente tem ali um corpo que funciona para produzir as suas eliminações, fazer os processos de filtração dos rins, da respiração através dos pulmões, da gente eliminar o que não é mais útil, que passou pelo processo de digestão, de metabolismo, e a gente vai ter uma coisa que é essa produção de saúde pelo meio.

?Voz F

A gente gostaria de não fazer essa diferenciação entre saúde física e mental, porque se você fala saúde física e mental, você vai para um negócio no passado, na filosofia, chamava dualismo, que existe um corpo E existe uma mente que ou andam paralelamente ou não tem nada a ver uma coisa com a outra, o que não é verdade.

?Voz B

Esse é o Taqui Cordaz, psiquiatra especialista em distúrbios alimentares. Ele coordena a equipe multidisciplinar do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.

?Voz F

Doença mental não acomete só o seu cérebro, você tem alterações corporais, você tem inflamação para tudo quanto lado. Se você tem uma doença física, você vai levar certamente alterações bioquímicas cerebrais. Se você tem uma depressão, você tem mais chance de ter infarto, derrame, obesidade. Hoje a gente entende as doenças psiquiátricas como muito ligadas a inflamações cerebrais que vão para o corpo todo. Então, indivíduos que têm obesidade e depressão, a obesidade tem um processo inflamatório em todos os os órgãos, que é crônico.

Transtorno psiquiátrico, se você começar a medir aquelas coisas que se mede, media no COVID, PCR, questões inflamatórias, você vai ver que tem uma inflamação pelo corpo todo. Então você tem, sem dúvida nenhuma, uma interação cérebro-corpo que não dá para dizer que doença mental é de uma outra ordem que não doença física.

?Voz B

Há 33 anos, o Taqui criou o Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da USP. Esse foi o primeiro centro especializado no tratamento desse tipo de transtorno no Brasil. Inicialmente era chamado de Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares, o que deu origem à sigla ABULIM, como o programa é conhecido até hoje. O ABULIM trata pessoas com diagnósticos como anorexia, anorexia, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar.

?Voz F

Há 30 e poucos anos atrás, as nutricionistas eram nutricionistas de dieta ou trabalhavam em hospital. Hoje se criou uma linha de pesquisa e uma linha de atuação em nutrição que é trabalhar com nutrição comportamental, que é o termo que o pessoal deu.

?Voz B

A nutrição comportamental é uma abordagem integrativa, ela combina princípios da nutrição com conhecimento sobre comportamento e psicologia. A ideia é promover hábitos alimentares saudáveis e sustentáveis. São levados em conta fatores emocionais, psicológicos, sociais e culturais, além dos fisiológicos. Com isso, ela busca entender por que comemos, as emoções em torno do ato de comer, e não só o que comemos.

?Voz F

Se você quiser trabalhar com anorexia, bulimia, compulsão alimentar, estude tudo, cara. Porque 90% dessas pessoas têm depressão, exercício físico compulsivo, TOC, transtorno bipolar é muito frequente.

?Voz G

As causas dos transtornos alimentares são várias, tá? Ela é multifatorial. Então tem desde questões genéticas, Tem questões de desenvolvimento, tem questões de relação familiar, de coisas que são escutadas em casa, né? Então, a relação com o corpo, com a comida, essa valorização que é dada na família. Tem a ver com comentários de colegas na escola, com fatos que aconteceram na vida que marcaram, sei lá. Morte de pai ou mãe, ou separação, ou mudança de cidade, de escola, né? Então ela é multifatorial.

?Voz B

A nutricionista Adriana Cachane é coautora do livro Nutrição e Psiquiatria. No episódio anterior, ela falou sobre como as pessoas com ansiedade e depressão se relacionam com a comida. Agora ela volta para a gente ampliar e aprofundar.

?Voz G

Tem a ver com a mídia, com redes sociais, né, que é um tema tão contemporâneo, tem a ver para quem já tem a genética para isso, para quem já tem lá uma sementinha para isso. Então, por exemplo, uma pessoa que não tá nem aí para o corpo, que não tem nenhuma questão alimentar, sei lá, ela pode ver a blogueira que for, a mensagem que for nas redes sociais, que não entra nela. Mas tem pessoas que já estão mais sensibilizadas e nessas sim o impacto pode ser gravíssimo.

Então assim, a blogueira que viu na internet o comentário de um amigo que falou, ai, ela é gordinha, ela come demais, uma dieta. Por que não? Às vezes um profissional da saúde que falou a palavra errada, falou da forma errada, que por exemplo você chega com colesterol alto na consulta e o médico fala, ah, também você tá acima do peso, fala de uma forma inadequada e isso desencadeia. Então existem fatores desencadeantes e existem também fatores mantenedores.

?Voz B

Você pode falar um pouco mais sobre esses dois fatores?

?Voz G

Um fator desencadeante é uma dieta, algum comentário. Agora, um fator mantenedor Ele pode ser a imagem corporal negativa, que é um fator hiperimportante nos transtornos alimentares, né? Ele é tipo o centro dos transtornos alimentares. Você ter uma insatisfação corporal, né, ou uma distorção da imagem corporal, que são coisas diferentes. A insatisfação é não gostar do seu corpo. A distorção é se ver maior do que ele é, ou às vezes menor.

Um homem que se vê magrinho, que queria tá mais forte, né, como se fala, crescer, né? Então você tem essa distorção da imagem. Então isso são fatores mantenedores. Uma dieta inadequada é um fator mantenedor, porque você vai ficando desnutrido, você vai tendo pouco nutriente para melhorar sua cognição, para melhorar seus entendimentos, para melhorar o trabalho psicológico, né, com a terapia. Se você não tem nutriente, muitas vezes a medicação não funciona, né?

Então você precisa estar se alimentando adequadamente. Então você pega uma moça com anorexia nervosa, por exemplo, que não tá se alimentando, né? Falta nutriente ali. Ou você pega uma moça com— eu tô falando moça, mas hoje em dia tá crescendo cada vez mais o número de transtornos alimentares em homens. Você pega uma pessoa com bulimia nervosa ela vai pôr para fora todos os nutrientes que ela acabou de consumir. Então você fica desnutrido e todo o trabalho da equipe multiprofissional, ela não vai adiantar se não tiver bem alimentado.

Então alimentação é muito importante. É importante a microbiota estar bem, porque se a microbiota não está boa, como que você vai absorver os nutrientes?

?Voz B

Microbiota é o conjunto de microrganismos como bactérias, fungos e vírus que habitam diversas partes do nosso corpo, como o intestino, a pele e as mucosas. Eles auxiliam na digestão, no metabolismo, no sistema imunológico e na proteção contra a invasão de microrganismos nocivos.

?Voz G

Se a microbiota não tá boa, eu sinto distensão abdominal, eu tenho transtorno alimentar, como que eu fico? Vou me olhar no espelho e vou achar, né, vou ver aquela barriga maior, vou me sentir pior do que eu já tava me sentindo. Então, a microbiota estar boa é importante. Isso não só nos transtornos alimentares, em todas as questões de saúde mental.

?Voz B

Para equilibrar a microbiota, é importante adotar um estilo de vida saudável, incluindo uma dieta rica em fibras, frutas e vegetais. Mas hoje em dia, com tantas demandas, muita gente acaba recorrendo aos alimentos ultraprocessados, E também os suplementos vitamínicos para compensar a falta de tempo ou mesmo vontade de cozinhar. A Carla Vinhal nos alertou sobre isso.

?Voz E

Esse ritmo que a gente tem visto imposto às nossas vidas faz a gente pensar que tá tudo bem se eu não fizer nenhuma atividade física, se eu não conseguir me alimentar de nada que seja uma comida mais natural, menos processada. Se eu tomo todas as minhas vitaminas em dia. Isso não é verdade. O benefício que a gente tem, ele não é o mesmo do que quando obtido por uma alimentação natural em comparação com alimentos que são enriquecidos ou cápsulas.

Então não é negar a importância dela para as pessoas que têm esse benefício, né? Um idoso desnutrido que por alguma condição não tem tanto apetite, ele vai comer menos e ele precisa da suplementação. Uma pessoa que passou por uma cirurgia bariátrica e ela modifica a capacidade de absorção dela a partir de uma cirurgia que teve uma outra finalidade. Então, para essas pessoas, eu preciso pensar na suplementação, mas não de forma banalizada como essa ideia do nutricionismo tem imposto, que a gente vai preocupar com micro e macronutrientes, né, a proteína, o carboidrato, a vitamina D, a vitamina B12, mas eu esqueço de colocar uma fruta, às vezes mesmo tendo o privilégio de poder ter fruta todos os dias em casa.

?Voz B

Você acha que tivemos uma perda da relação mais emocional com a comida?

?Voz E

Exato. Qual é a fruta, por exemplo, que eu lembro de eu comendo com a minha avó no quintal dela? Qual é o cheiro, o sabor do feijão que a minha tia fazia quando eu ia na casa dela? Qual é a comida de domingo da família, dos almoços, jantares comemorativos ou de aniversário ou de Natal ou de alguma outra coisa? A gente vai perdendo isso, inclusive a possibilidade de socializar. Que é cozinhar junto, fazer uma compra junto, discutir o cardápio, o que que faz sentido ali para aquela família.

Pode ser o churrasquinho do final de semana, pode ser a salada de frutas com gelatina. Então, o que que é que faz sentido, não só do ponto de vista da gente olhar de micro e macronutrientes, mas culturalmente dentro, por exemplo, de uma alimentação que vai nutrir não só organicamente, fisicamente, esse corpo, mas emocionalmente também, né? Ou quando isso tá descompensado, que é o que a gente chama de fome emocional.

?Voz I

Desde que o homem dominou o fogo, né, você passou a comer em torno do fogo com as pessoas, né, um ato social. O nome comensalidade inclusive, né, tem a ver com isso, né, comer junto. Então a gente tem isso como construção aí da vida do ser humano.

?Voz B

Essa é a Marli Alvarenga, nutricionista e pós-doutora em nutrição. Ela é cofundadora do Instituto Nutrição Comportamental.

?Voz I

Outra coisa também interessante do ser humano, que os estudos antropológicos, sociológicos trazem, é que só os humanos têm cozinha. Nenhum bicho tem cozinha. Então, o humano, ele transformou, né, aquilo comestível, né, todo numa outra coisa. E aí, isso é feito com cultura. Que é o que a gente fala também, né? Nós temos um monte de coisas que são comestíveis do ponto de vista biológico: carne de cachorro, inseto, etc. E aí quem define se isso é comida ou não é a cultura da pessoa, porque nem tudo, é uma frase que eu amo dos sociólogos também, nem tudo que é biologicamente digerível é culturalmente comestível.

Então você aprende isso com a sua cultura. Mas também, né, no passado os nossos hábitos alimentares sempre foram um pouco mais dados pela cultura. Da nossa família, da nossa cidade, do nosso grupo, dizendo então quais são as festas, quais são as celebrações, que comida você come em cada ocasião, e moldados ali então idealmente por um pai e uma mãe que vão ensinando a comer.

?Voz B

Mas os nossos hábitos alimentares foram mudando com o passar do tempo e essa relação cultural também.

?Voz I

Então as pessoas não comem mais junto, as famílias não comem mais junto. Você não tem muitas vezes esse aprendizado mais tão de perto com a comida. As pessoas não cozinham mais, as pessoas não sabem mais de onde vem a comida. E aí você começa a ficar olhando cada vez mais, inclusive aí é uma crítica até para os profissionais: eu preciso de um expert para me dizer o que eu posso comer. O mundo se tornou mais complexo mesmo, mas as pessoas comem desde sempre e não tinha nutricionista, não tinha esse expert para te dizer o que comia.

?Voz G

Comer faz parte da vida, né? Faz parte desses momentos bons, essas recordações que você vai levar a marmita para casa da tua mãe no Dia das Mães, porque você não vai comer lasanha porque lasanha tem glúten, porque tem carne vermelha, porque, né, isso não faz o menor sentido. Saúde mental é estar bem, né? Poder vivenciar aquele momento com a tua mãe, sei lá, com teus filhos, com os teus irmãos, guardar recordações dessa refeição que vocês fizeram junto.

Isso é saúde mental. Então eu, como nutricionista, tenho que ensinar a pessoa a saber comer essa lasanha e ficar bem em ter comido essa lasanha, sem culpa, e saber voltar para alimentação normal depois. Porque também tem gente que, ah, então já que eu comi lasanha Então hoje o dia já tá perdido mesmo, então já vou jantar pizza. Não, né? Ao contrário, você já comeu lasanha, vamos se acalmar, tá tudo bem você comeu a lasanha, mas vamos deixar a pizza para outro dia. Na semana que vem você come pizza.

?Voz B

Agora há pouco, a Carla Vinhal comentou sobre a chamada fome emocional. Seguimos com ela para entender melhor sobre isso.

?Voz E

Todos nós temos fome emocional e fome física, mas algumas pessoas, às vezes quando a gente fala em comer transtornado, que é eu vou perdendo a capacidade de identificar isso, de valorizar isso, muito imposto pelas dietas da moda, por um padrão estético de magreza acentuada, pela pressão estética ou pela gordofobia que tá permeada nas mídias, por exemplo, e eu vou perdendo esses sinais, eu não reconheço mais o que me dá prazer.

Então, ou eu como muito uma coisa que eu acho gostosa, perdendo a noção de quando isso inclusive me causa desconforto, né? Parece que eu tô empanzinada, pesada, a digestão tá difícil porque eu comi uma quantidade muito grande de alimento de uma vez só. Ou, por exemplo, quando eu me privo disso, de prazeres, porque eu acho que eu tô muito feia, muito acima do meu peso, eu tenho algum tipo de distorção da minha imagem, da minha percepção corporal.

?Voz I

Chama atenção da gente hoje também, vai vendo umas coisas geracionais. Isso que eu te falei do uso da comida para lidar com questões emocionais, alguns pesquisadores têm, estão dizendo inclusive que isso é mais potente agora na geração Z, que essa geração da incerteza, ele já não sabe se vai ter mundo, se vai ter planeta, se vai ter emprego. E aí parece ainda usar a comida de uma maneira maior ainda para gerenciar emoções. E aí o meu programa é ficar eu e a minha comida, né?

Muitas vezes de maneira exagerada, mas normalmente é uma comida que a gente chama de mais hiperpalatável, é mais rica em açúcar e gordura, muitas vezes ultraprocessada, pacotes de coisas que viram a minha companhia, o meu conforto, meu alívio do tédio, porque a comida é prazerosa. E de novo, vira um prazer muito acessível, é mais barato do que vários outros prazeres. Eu posso fazer no conforto do meu lar, eu posso fazer sozinho se eu não tiver companhia, e ela é legal, enquanto algumas outras coisas que poderiam me aliviar são ilegais.

?Voz B

E vicia, né? E sair desse círculo é muito difícil.

?Voz I

Claro, a gente trabalha algumas coisas nutricionais, mas às vezes eles querem assim: será que tem um alimento que vai me tirar essa vontade de comer isso? Uma dieta que vai melhorar essa vontade? Ou já que eu gosto de ficar beliscando, vendo série, a noite inteira, que tipo de coisa eu belisco para não ser isso? Na verdade, o comportamento precisaria cessar. É claro que se ele beliscar tomatinho é melhor do que salgadinho de pacote, mas normalmente ele nem quer o tomatinho cereja.

Mas mesmo que eu desenhe para ele uma estratégia, vamos fazer isso, agora você vai comer tomatinhos, etc., não adianta eu botar no papel uma prescrição para ele, porque isso envolve eu trabalhar a vida dele. Ele vira para mim e diz muitas vezes, eu comprei o tomatinho, que seja, que você falou, e a cenourinha baby, para ter essas alternativas. Mas você não sabe, a minha vida tá tão ruim, meu dia foi horroroso, eu cheguei e falei, dane-se, sentei no sofá, abri meu pacote.

E aí amanhã eu penso de novo, o que que eu vou fazer com a minha alimentação, porque a minha vida tá muito difícil. E aí a gente precisa acolher isso, mas também entrar numa coisa que, vamos ver então que prazer, como eu vou lidar com a comida assim para que seja um prazer? Mas não fazer este uso, né, que seria um uso inadequado da comida e que pode gerar excesso de peso, problemas clínicos.

?Voz E

E aí a gente precisa de cuidado também, né, de um olhar que em geral vai precisar ser multiprofissional, de olhar para esse corpo, para essa história, para essas crenças, para essas exposições e aprendizados que a gente foi tecendo ao longo da vida que talvez contribuíram para a gente produzir uma forma de adoecimento que não seja o mais legal, porque esse corpo às vezes é isso, ele tá dando sinais de que ele não tá funcionando bem a partir daquelas intervenções que a gente tá sendo capaz de oferecer a ele.

?Voz C

Léo, aqui a gente tá chegando mais ou menos na metade do episódio, mas como a gente ainda não entrou na questão da atividade física, eu deixaria para trazer a Fernanda e as Paquitas geriátricas práticas ainda mais para frente, porque o foco com elas não foi alimentação, mas no final os especialistas falaram bastante sobre isso, que eu acho ótimo.

?Voz B

Vamos seguir então falando sobre a questão da alimentação, trazendo agora para conversa a psicóloga e psicanalista Fernanda Lopes.

?Voz D

Tem uma fala que é muito comum, que é para quem trabalha na área, Dieta, ela é um comportamento de risco, mas não significa que você fazer uma dieta necessariamente você vai desenvolver um transtorno alimentar. Mas todo mundo que desenvolve um transtorno alimentar começou com uma dieta, começou na ideia de ter alguma gerência sobre aquele corpo. Então eu vou determinar de que formato vai ser aquele corpo. Só que o formato que esse corpo vai ser, ele não veio do nada.

As pessoas não querem ser magras, e aí vamos dizer, as mulheres não querem ser magras aleatoriamente. Na época que eu comecei a estudar isso, tinha uma propaganda de iogurte que chamava assim: 0% de gordura, 100% de felicidade. Então tem todo um fomento de que a magreza é felicidade, de que a magreza te dá um lugar de poder, de que você é mais bonita. E aí, se a gente botar junto a pauta racial, então ferrou, né?

?Voz B

E afeta da mesma forma homens e mulheres?

?Voz D

Você tem vários pontos que vai incidir nas mulheres de uma maneira diferente. Os homens envelhecem, a gente não envelhece. Quando a gente tá pensando nos transtornos alimentares, assim, a gente tem momentos onde isso fica ainda mais forte, né? Que é se eu pensar ali nessa passagem da adolescência, por exemplo, que o corpo muda e que eu tô procurando um lugar de existência num grupo, que eu quero ser valorizada. A gente tem meninos que vão sofrer transtornos alimentares, mas é uma...

Frequência muito menor, né? Muito menor. E quando sofrem pressão estética, a pressão estética para os meninos no geral, para os homens no geral, é sobre ser forte.

?Voz B

E com tantos estímulos, né, como diferenciar o que é uma escolha pessoal de estilo de vida do que é um transtorno de fato?

?Voz D

Eu acho, e tô falando 100% baseada em achismo, que nos dias de hoje a gente não tem ninguém que não tenha um comer transtornado. Onde que a gente separa o transtorno da escolha Sem levar em consideração o quanto que a gente tá escolhendo e o quanto que a gente tá escolhendo, estão escolhendo por nós, né? Eu realmente faço o lanche com whey protein porque é mais saudável, porque eu gosto do gosto, ou porque nos últimos tempos é isso que se lancha para eu ser uma pessoa saudável?

?Voz B

E tem os chamados vilões também, né?

?Voz D

Tem os vilões, é, né? O comer transtornado é quando eu transformo uma comida num vilão. Ela deixa de ser só comida pra ser um vilão ou um mocinho. Ultimamente a gente tem uma primazia da proteína, certo? A comida tem que ser proteica, o whey protein, a barrinha de proteína. Ninguém come mais chocolate, a gente come barrinha de proteína. Então, quando isso tem um— isso não vem do nada. Isso tem a ver com o momento histórico, com as questões do mercado, com o que que tá sendo plantado, o que que não tá sendo plantado, com agronegócio.

?Voz B

A próxima temporada do podcast Depois do Corte será sobre comida, ou a falta de, e entre os assuntos que vamos abordar tá justamente a influência do mercado e das grandes indústrias no que chega à nossa mesa. Te convido então a assinar nosso canal aqui na sua plataforma de áudio para ser avisado assim que for ao ar.

?Voz I

O transtorno alimentar é uma doença multicausal. A pessoa precisa ter predisposição hereditária e se somar fatores psicológicos, familiares, ambientais, né? Assim, não é uma coisa que uma pessoa escolhe ter, né? Não é um fator só.

?Voz B

Voltamos a ouvir a nutricionista Marli Alvarenga.

?Voz I

Os estudos que mostram aumento da incidência desses quadros comparado ao século passado vão falar desse impacto do ambiente. Então você vive num ambiente que te oferece muita comida, te diz ao mesmo tempo que você tem que ser magro e sarado, te dá esse monte de discursos que você fica perdido e não sabe o que comer. Então você vê umas pessoas que embarcam num perfeccionismo. Então eu fico tão perdida com comida que às vezes eu escolho uma regra, uma dieta, uma tendência alimentar.

Então vou ser vegano, eu vou ser paleo, eu vou seguir uma filosofia Para ver se— porque eu não sei direito o que que é bom. E muitas pessoas também falam do quanto é difícil escolher o que comer. Chegam para o nutricionista assim: eu quero que você ponha para mim no papel tudo que eu devo comer, é assim, porque é muito difícil escolher. Mas a gente tem que escolher, tem um mínimo que a gente tem que escolher. Alguém pode te ajudar como um guia.

E essa é a proposta quando A gente trabalha, né, olhando pro comportamento alimentar como um todo com os meus pacientes. Então eles não saem com uma dieta, meus pacientes que vêm do psiquiatra, né, com uma dieta no sentido mistura isso mais isso ou não mistura isso mais aquilo, quase como se fosse um feitiço que isso vai resolver. Eles saem com diretrizes. Vamos organizar a sua casa, vamos organizar a sua compra, vamos eventualmente não ter o aplicativo no seu celular porque ele tá sendo um problema.

Mas aí eu sou um guia para ele, né, assim, e aí ele tem que fazer algumas escolhas.

?Voz B

Mas mesmo sabendo fazer as escolhas, a grande maioria dos brasileiros acaba não tendo uma estrutura para colocar em prática, porque isso demanda ir fazer compra, cozinhar, arrumar cozinha, e depois de todo o trabalho.

?Voz I

Para a média das pessoas, imagina que eu faço um cardápio desse, daí eu chego em casa no final do dia, sou eu que tenho que fazer, eu abro a geladeira, não tem metade dos ingredientes do que você me falou. Aí eu tenho, de repente você me pôs lá que tinha que ser cebola com rabanete. Eu abro a minha geladeira e tem berinjela com chuchu. Por que que não pode trocar? Por que que não pode ser outra coisa? Então esse gerenciamento dá muito trabalho, gerenciamento da alimentação mesmo dá trabalho, vira mais um motivo de estresse.

Então eu tenho uma super oferta de comida, eu tenho uma vida cada vez mais corrida, agitada, com pouco tempo para cozinhar, para preparar, etc. E aí as pessoas ficam perdidas muitas vezes nesse caminho com a comida, o que traz para elas É mais um sofrimento mental. Eu tenho já uma paciente hoje me trazendo essa demanda, então contando a vida dela e dizendo que ela veio porque ela quer tirar esse food noise. Ela falou assim, eu vivo com um barulho aqui na minha cabeça o tempo inteiro.

Você não podia comer isso, você devia comer aquilo, você vai engordar, você não pode engordar. Ah, mas eu quero, mas eu não posso. É o tempo inteiro, ela vive assim o tempo inteiro. Aí já tem uma série de estresses da vida, e aí ela transformou a comida em mais um estresse.

?Voz B

Tudo isso também tá relacionado à chamada ditadura do bem-estar.

?Voz I

Eu tenho que estar bem, eu tenho que ser super produtivo, eu tenho que estar malhado, ser jovem o tempo todo, ser magro, né? E eu tenho um mercado que me vende milhões de estratégias para isso, do emagrecimento, do embelezamento, do não envelhecimento e tudo mais. E aí muitas pessoas entram numas também de querer seguir uma dieta perfeccionista que muitas vezes também é vendida nas mídias sociais, às vezes vendida com falsas promessas também, né?

A dieta que desintoxica, a dieta anti-inflamatória, coisas que absolutamente não tem comprovação científica. E eu tento fazer da comida às vezes uma ração, tá? Eu tenho que comer isso aqui tudo pesado. A mania que as pessoas têm hoje de ficar pesando tudo que come, que é uma loucura também, né? Nessa sociedade do controle também, que faz parte dessa sociedade do cansaço, que acha que vai controlar tudo e que pode controlar tudo, quando a gente não pode, na verdade, né?

A gente manejar aí todos esses pratinhos. E aí, quando eu tento fazer essa coisa perfeccionista de, na verdade, estereotipando, mas eu devia jantar batata-doce com frango porque é isso que dizem que é saudável e fit, aí eu corro um risco maior ainda muitas vezes de descambar para um excesso, porque eu não consigo comer só isso, que é sem graça. Aí, já que eu não faço a dieta, também eu entro no R$8,80. Então a conversa de, mas seu dia foi pesado, você queria uma coisa mais gostosa, você não precisa jantar batata-doce com frango, mas o que que você pode fazer que é mais gostoso?

Uma comfort food, uma massa gostosa. Ah, você não quer comer a comida de todo dia, você quer pedir um japonês? O que que você quer fazer de mais gostoso? Dá para fazer uma coisa mais gostosa sem ser uma coisa de Pé na Jaca, como o pessoal também gosta de dar esses nomes para comida.

?Voz H

Meu nome é Bibiana Caldeira Monteiro, tenho 49 anos e sou fisioterapeuta. Meus pais sempre incentivaram a gente fazer algum tipo de atividade física. Quando criança, eu fazia principalmente a natação e balé, que é o que eu tinha disponível na cidade do interior. Depois, mais tarde, procurei outras danças, E fui buscando sempre diversificar, né, com alongamento, musculação. Musculação é uma que eu não gostava e depois eu fui pegando gosto, fui desenvolvendo.

Mas a natação é mais a minha base, né? Sempre gostei, sempre que eu tive oportunidade, mas não fazia tão frequentemente. Depois do convite da Fernanda, né, de nadar no mar, me senti empolgada com esse novo desafio. Para começar a fazer. Eu acredito que um dos bons benefícios, né, além da questão biológica, fisiológica, né, que eu tanto estudo na faculdade, quando eu faço exercício eu percebo que eu consigo silenciar um pouco a minha mente, eu consigo prestar atenção, estar ali, né, inteira, principalmente porque eu sempre busco algum desafio maior onde eu tenha que Sempre transpor, né, tá num nível de atividade maior do que eu consigo.

E essa necessidade de atenção me tira das preocupações do dia a dia. E quando veio o desafio de nadar no mar, achei bastante empolgante e foi bem interessante a experiência, né, a primeira principalmente, porque eu percebi que eu precisava focar, estar ali prestando atenção nos meus movimentos, na respiração, para dar conta E foi muito bom.

?Voz B

Vamos falar um pouco agora sobre atividade física. A prática da atividade física é um dos 6 grandes pilares da medicina do estilo de vida. Além disso, fazem parte da lista alimentação saudável, sono restaurador, manejo do estresse, controle do uso de substâncias tóxicas e as conexões sociais. A medicina do estilo de vida é uma abordagem que usa mudança de comportamento para prevenir, tratar e reverter doenças crônicas.

?Voz I

Se eu sou seu psiquiatra, eu não posso falar só da sua saúde mental e de medicação. Eu preciso saber como você come, como você dorme, você faz exercício, como são seus relacionamentos. Eu sou nutricionista, eu preciso perguntar como é que tá sua saúde mental, mas, né, você tá muito estressado, você tá cuidando disso, você dorme direito, você se exercita. É amarrar tudo isso junto porque as coisas se interligam.

?Voz C

Meu nome é Deise Ferreira da Silva Rosa, tenho 41 anos. E sou administradora de empresas. Eu comecei a praticar atividade física ainda na infância, fiz capoeira, fiz jazz, experimentei vários esportes assim até os meus 16 anos, que aí eu comecei a trabalhar e acabei tendo que parar. Acho que eu fiquei um bom tempo sem praticar assim atividade física. Depois eu voltei a fazer musculação, nessa época não gostava muito, me encontrei em um período da vida assim na yoga e acabei seguindo bastante tempo.

Fiz na época que eu tava grávida, depois acabei parando, né, para conciliar a maternidade, né, nessa vida da rotina ali de trabalho, maternidade e tudo mais. E aí fiquei um tempão sem me exercitar, acabei tendo que voltar a praticar atividade física, que é o que eu faço hoje. Faço musculação no mínimo 5 vezes por semana, tem semanas que eu consigo ir todos os dias. E hoje eu gosto bastante, apesar de ter começado por uma questão de saúde mesmo, uma necessidade, né, de saúde física.

Eu comecei a perceber o quanto a atividade física ela era muito importante para mim em termos de saúde mental. Eu sou uma pessoa bastante ansiosa, Tenho diagnóstico mesmo de ansiedade crônica e para mim me exercitar é como se fosse um processo terapêutico diário. Então, além da terapia que eu faço lá semanal, né, da análise, eu tenho o exercício físico como uma terapia diária. Então é algo que eu faço de tudo para tentar manter essa rotina de exercícios, porque eu percebo que dentro da minha realidade, da minha vida, é algo que me faz um bem assim danado. E que eu faça um esforço gigante para cuidar que isso sempre aconteça.

?Voz B

Vários dos nossos entrevistados para o filme Nossa Mente, para essa temporada de podcast também, não só recomendam atividade física para ajudar a manter a saúde mental, como também praticam. É o caso da médica pediatra Gisele Vieira, que faz musculação e natação. E ela ainda encontrou outro benefício dessas práticas. Na sua clínica, que lugar atividade física ocupa?

?Voz J

Olha, nas questões que eu enfrento com eles, o primeiro desafio é abaixar para atender criança. Se eu não tiver condicionamento, eu não aguento. Então eu preciso abaixar, pegar eles no colo, às vezes acalmar. Então isso é uma das coisas que eu comecei a perceber com o passar do tempo. Falei, epa, já não tá sendo tão fácil quanto era antes. E a outra coisa é de às vezes eu me conecto com eles por isso, assim, tem adolescentes que eles têm várias dificuldades, que têm doenças crônicas que são difíceis de lidar.

E às vezes você fala, você gosta de algum esporte? Daí ele fala, eu gosto de vôlei. Ah, eu também jogava vôlei, também voltei a jogar. Ah, é muito legal. E a gente começa a conversar e estabelecer algum canal, porque às vezes a coisa tá tão difícil que é difícil você entrar e fazer com que ele converse. Com você. E é uma orientação assim que eu dou para todos, né, porque tem muitos que não faz parte do repertório. E eu acho que é uma coisa geral, né, tem muitas pessoas, a maior parte das pessoas, eu arrisco a dizer, não tem uma pesquisa que eu li sobre isso, mas eu me arrisco a dizer que a maior parte das pessoas não tem atividade física como algo essencial para vida, como algo inegociável que precisa ser feito.

E daí eu acho que se ele não tem, não tá cercado de exemplos Se a criança não tá cercada de exemplos que tenham isso como algo inegociável, ela não vai se interessar. Então eu tento usar isso de alguma forma, tanto para entrar em assunto com adolescentes quanto quando eu vejo que tá a mais, sabe, para tentar conversar e falar, não, precisa ter o tempo do repouso e tudo mais.

?Voz B

A Gisele também orienta os pais sobre os benefícios da atividade física para o tratamento de questões como ansiedade e depressão.

?Voz J

Você percebe que eles ficam, poxa, não queria que isso tivesse acontecendo com meu filho, né? Não queria que ele fosse um adolescente que, dependendo do caso, vai precisar tomar um remédio para melhorar. E aí é o que eu sempre falo, olha, atividade física é a primeira linha de tratamento para transtornos de ansiedade, depressão. Não sou eu que estou dizendo, eu sou pediatra, mas os próprios psiquiatras trazem atividade física como uma das primeiras linhas de tratamento.

E daí a gente começa a buscar essas estratégias, sabe? Daí a mãe fala, ai, vamos, eu vou fazer caminhada com você então. E daí a gente consegue ir começando a arranjar um jeito de lidar assim. Nem sempre é fácil, mas quando a gente detecta, vai. Eu acho que dá certo.

?Voz B

A Fernanda Lopes não gostava nada de praticar esportes quando era mais jovem, mas depois da maternidade encontrou na corrida um lugar importante na sua rotina.

?Voz D

Eu penso que atividade física, para além do que a medicina vai dizer para gente sobre a importância para a saúde, o quanto que melhora ansiedade, os níveis, os neurotransmissores, as aminas que todas que a gente tem lá. Para além disso, eu acho que tem uma coisa sobre você viver uma experiência em que, se você consegue se permitir, você consegue estar nela pelo corpo, menos pela performance, pela cabeça assim, sabe? Porque se eu tô correndo, se eu ficar muito preocupada com como vai ser o movimento, eu não saio do lugar.

Eu preciso fazer, e eu preciso fazer, e eu preciso errar. Porque se eu ficar só preocupada em acertar, eu não começo nenhuma atividade física. Então eu preciso me lançar, eu preciso ter uma coisa que é uma aposta de que eu vou conseguir viver essa experiência aqui. E aí essas são experiências que vão dando, nesse momento em especial eu acho, vão dando para gente uma coisa que é de saber, primeiro não saber fazer alguma coisa, não ser bom numa coisa, que é raro hoje em dia, né, a gente topar não ser bom em alguma coisa.

Então você começar algo E você precisar viver o treino, o esforço, a consistência, o acorda, vai, faz o treino, treino é ruim, aí tem o outro, aí você fez uma lesão, aí você vai corrigir porque, putz, será que é o jeito que eu tô pisando? Então isso vai te dando uma certa corporificação assim, sabe? De corporificação que eu digo de você entender pelo corpo. Coisas que às vezes a gente não consegue acessar pelo diálogo, pela própria terapia, mas que você vai viver ali naquela experiência, numa experiência de, sei lá, uma prova que você faz, corrida, natação, triatlon, qualquer coisa que seja uma prova que você faça.

Você vai perder, você vai ganhar, você vai se propor a fazer de um jeito e vai sair tudo errado. Você acordou, é a prova da sua vida, você fez um monte de coisa para conseguir fazer, choveu. Então você vai ter o que acontece na vida, você vai ter que lidar com os intempéries, não dá para você planejar tudo. Aí você planejou super bonitinho, teve uma dor de barriga no meio do negócio, você vai ter que arranjar um jeito de se resolver.

Então eu acho que ela traz essa, sabe assim, essa coisa que eu fico pensando na educação socioemocional com a coisa de ser às vezes muito fria, ela traz a prática. Ela traz a práxis, é na ação, não é só na elucubração. Mas, mas temos o super risco, que é o que a gente tem visto mais, que é a galera levando para atividade física, não atividade de alta performance dos atletas olímpicos, etc., uma ideia de que você tem que performar como um CEO de empresa, né?

E aí você não pode só ser uma pessoa mediana se divertindo no seu sábado. Você tem que ser, e você não pode pular um treino porque você tem que preencher a planilha. Aí fica mais importante preencher a planilha do que fazer o treino. Aí já vai dar ruim.

?Voz B

E como você costuma receitar? Não sei se essa palavra, né, receitar atividade física.

?Voz D

Para os meus pacientes, eu acho que é menos sobre receitar. Eu queria muito poder receitar, mas não é assim que a coisa funciona. Mas é mais sobre a gente poder viver coisas falar de coisas. Eu tenho uma experiência de receber pessoas que praticam esporte ou que já tiveram algum momento, né, alguma prática mais ligada à performance, inclusive, da gente poder usar elas para repensar como você faz suas coisas, né, como é que você funciona, como é que é estar nesse lugar onde você tem menos ensaio, onde você, se você tá jogando futebol, não dá para você não decidir se você vai na bola ou não.

Porque você não sabe qual é o melhor jeito de chegar na bola, você só vai na bola. Como é que a gente chega nesse lugar nas outras coisas que você faz na sua vida, né? Por que será que aqui é mais fácil, ali é mais difícil? Como é que é precisar viver esse lance de ganhar uma— eu odeio essa palavra, mas é a única que me vem na cabeça— resiliência, de tipo você ter que fazer de novo e de novo e de novo.

?Voz B

Por que ninguém gosta dessa palavra, hein?

?Voz D

Ah, porque, né, virou papo de coach. Mas que é o que você ganha no esporte mesmo, né? Você vai errar muito, vai ser muito ruim, a maior parte das vezes vai ser péssimo, vai ser um momento que vai ser bom.

?Voz B

Essa capacidade de se recompor na vida, né?

?Voz D

De se recompor e de não se levar tão a sério, né?

?Voz K

Meu nome é Lídia Lopes Gomes, eu tenho 44 anos e eu trabalho com orientação pedagógica na Universidade Federal do ABC. Minha história com atividade física da forma como eu faço hoje começou há uns 4 ou 5 anos. Em 2021, no começo do ano, eu tinha entregue o meu texto da minha tese de doutorado e falei, agora chega, não há mais desculpas, eu preciso vencer o sedentarismo. E sendo o período de pandemia, a única coisa que eu me sentia confortável para fazer foi pôr máscara, tênis e sair caminhar na rua.

E assim fui fazendo. Aos poucos, a caminhada foi evoluindo para uma corridinha intercalada com caminhada, e depois ficou só na corrida. Aí, com o tempo, entrei num grupo de corrida. Hoje eu faço, além da corrida, o treino funcional e Pilates. Em relação à saúde mental, claro que não é uma panaceia e não resolve todos os problemas, Mas ajuda sim bastante. Primeiro que eu faço atividade física pela manhã, gosto de fazer pela manhã e sinto que o dia que eu faço uma atividade pela manhã é um dia que eu tenho mais energia.

Segundo que a gente celebra pequenas conquistas, a gente celebra 1 km a mais que conseguiu fazer no treino ou 1 segundo a menos no quilômetro ou aquele exercício de força que não tava indo. E agora você conseguiu aquele abdominal difícil que você melhorou. Além disso, o foco, você ter que estar ali no exercício, então a sua mente tá ali concentrando em como fazer exercício e não perdida nas preocupações, né, que a vida nos impõe.

?Voz E

Assim, eu não tenho um dado para te trazer estatístico estatístico agora assim, mas se a gente for pensar do ponto de vista científico, a atividade física praticamente reduz os riscos de tudo que a gente imaginar, tanto de coisas mais óbvias, tipo eu melhoro mobilidade, capacidade de respiração, né?

?Voz B

Voltamos aqui com a Carla Vinhal.

?Voz E

Isso é talvez mais intuitivo, ah, tô fazendo uma caminhada todos os dias e de repente eu vejo que eu não fico tão cansada para caminhar ou para subir uma escada, quanto, por exemplo, reduz o risco de câncer de colo de útero em pessoas com útero. Reduz o risco de doenças cardiovasculares porque faz controle de metabolismo da glicose, que tá relacionada à diabetes, do colesterol, que tá relacionado a infarto e AVC. Reduz níveis de estresse por aumentar os neurotransmissores, a parte bioquímica, né?

E isso tá relacionado também com desequilíbrios bioquímicos que a gente entende que é onde os antidepressivos funcionam bioquimicamente no cérebro. Colocando esses neurotransmissores para ficar ali mais tempo agindo na conexão entre os neurônios, que a gente chama de fenda sináptica, e eles não são reabsorvidos, então eles ficam ali trabalhando mais tempo, aumentando essa disponibilidade. Então atividade física faz isso também, e aí ela reduz níveis de estresse e de ansiedade, melhorando qualidade de vida, melhorando capacidade de dormir com mais qualidade também.

Tem uma regra de ouro que é: respeite a sua tolerância, a sua progressão individual. Não se compara com outras pessoas no processo da atividade física, mas qualquer atividade física é melhor do que nenhuma. Então, se você faz 10 minutos por dia, já é melhor do que zero. E isso geralmente reduz o risco de praticamente todas as doenças que a gente tem documentadas, assim, porque isso deixa o seu corpo mais apto para funcionar de forma adequada.

Talvez em gerações passadas com recorte de classe as pessoas sequer tiveram oportunidade de pensar atividade física como um cuidado, era um privilégio. E talvez hoje isso ainda seja frequente para uma parte expressiva quando a gente está falando de população brasileira, né? Então tem estratégias que a gente pensa numa consulta para ajudar a pessoa a identificar por que que ela não consegue, quais as dificuldades, o que que favorece.

Facilitadores e dificultadores do processo para fazer o que a gente chama de mudança de estilo de vida, que é trazer coisas que sejam potencialmente mais benéficas do que trazendo prejuízo.

?Voz A

Saúde mental é você se sentir, para mim, é você se sentir capaz de enfrentar o que você precisa enfrentar, você se sentir disposto a fazer isso, ter uma motivação para fazer isso. Só que geralmente a gente coloca um objetivo muito alto e não é, é uma coisa do dia a dia, uma coisa da sua autoestima. Isso é uma outra coisa também que o esporte me trouxe, porque daí as pessoas começam a te procurar, começa a conversar sobre isso, você começa a ter coisas para falar sobre você.

Você não fala assim, nossa, isso é tão inútil quanto qualquer outra coisa que eu faria. Tem uma amiga minha que é muito engraçada, ela não nada, mas a gente tá numa roda de conversa, todo lugar que eu vou ela se realiza em mim. Ela fala, olha, ela nada, você não sabe, ela nada no mar. Aí começa a maior conversa, você começa a conversar com todo mundo.

?Voz B

No próximo episódio, o último dessa Nessa temporada, vamos falar sobre tratamento e o futuro da saúde mental. Nossa Mente é uma plataforma de conteúdos pensada para dialogar sobre saúde mental em diversas esferas da sociedade, sobretudo no ambiente de escolas, famílias e comunidades. Uma produção da Deusdara Filmes em parceria com Fronteiras do Pensamento. O patrocínio é do Axé Laboratórios por meio da Lei Rouanet de Incentivo a Projetos Culturais.

Realização: Ministério da Cultura, Governo Federal. Produzido por Graziella Mantuanelli e Leonardo Brant. Produção Executiva: Ana Castro. Pesquisa: Felipe Tomazelli e Letícia Filardi. A iniciativa traz 2 documentários, ação educativa e uma série de conteúdos que esclarecem e debatem o assunto, incluindo essa temporada do podcast Depois do Corte. O conteúdo em áudio é uma produção da AudioDocs. Entrevistas e narração: Leonardo Brant.

Captação de som: Gustavo Martins. Roteiro, edição e montagem: Mônica Herculano. Acesse nossamente.org para saber mais e siga @deusdarafilmes no Instagram e Depois do Corte nas plataformas de streaming de áudio para ouvir outros episódios dessa e das outras temporadas do nosso podcast. Até a próxima!

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