Soterocast 2026. Ep. 17. Trancista Afro
Segue o décimo sétimo episódio da série Letramento racial: conceitos afro-brasileiros e afins. Apresentado pelo colunista e professor Dr. em Educação, Manuel Alves de Sousa Junior. Convidada: Luane Bento, Doutora em Ciências Sociais - UFF
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- Chicanofuturismo e AfrofuturismoIdentidade e Raça · Gênero em Salões de Beleza Afro · Diferença entre Transista e Cabeleireira · Etnomatemática nas Tranças
- Pesquisa Acadêmica e Trajetória de Luane BentoAções Afirmativas na UERJ · Movimentos Negros Estudantis · Monografia sobre Identidade Capilar · Mestrado em Etnomatemática · Doutorado sobre Transistas
- Racismo EstruturalConceitos Afro-Brasileiros e Afins · Educação Antirracista
- Manifestações culturais e memória ancestralMemórias Transatlânticas · Tradições Africanas · Resistência Cultural · Identidade Negra
- Legislação e Conquistas TransDia da Transista · Sentenças contra Racismo Estético · Profissionalização e MEI
Está começando agora mais um episódio da série Letramento Racial, Conceitos Afro-Brasileiros e Afins. Um podcast dedicado a discutir palavras, ideias e conceitos fundamentais para compreender as relações étnico-raciais no Brasil. A partir de obras de referência, experiências cotidianas e debates contemporâneos, essa série propõe uma escuta crítica sobre linguagem, história, cultura e poder, contribuindo para a educação antirracista, combate a preconceitos e o fortalecimento do pensamento crítico,
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Eu sou o professor Manuel Souza Júnior, doutor em educação, historiador, cientista racial e político, e te convido a seguir comigo aqui nessa jornada. Siga-me no Instagram, arroba debate racial político. Semanalmente teremos novos episódios com convidados especialistas em temáticas raciais e áreas afins.
Essa série foi inspirada nos volumes 1 e 2 do Dicionário Racial, Termos Afro-Brasileiros e Afins. Volume 1 publicado em 2024, volume 2 publicado no final de 2025. O conceito de hoje, que a gente vai discutir aqui, é um verbete do volume 2, chamado Transista Afro. E para falar dele, está aqui...
Luane Bento dos Santos. Luane, ela é professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais da UF, Universidade Federal Fluminense, doutora em Ciências Sociais, mestre em Relações Étnico-Asciais, bacharel licenciada em Ciências Sociais, bacharel também em Biblioteconomia e Documentação.
Ela é uma pesquisadora na área de ciências, na área de relações étnico-raciais. Para passar para ela, primeiro eu vou fazer minha audiodescrição. Então, eu sou um homem pardo, de pele clara, tenho 45 anos, cabelo curto, uso óculos, sombrancelha grossa, preta, barba grisalha, estou vestindo uma camisa verde musgo, no fundo da minha tela tem um mapa-monde e alguns livros. Tudo bem, Luane? Como vão as coisas?
Bom, oi, tudo bem? Também vou fazer minha autodescrição. Eu sou uma mulher negra, de pele preta, olhos pretos. Estou com turbante, alaranjado, estamparia alaranjada. Um vestido afro também, que tem uma parte que é azul escuro e outra é o azul já com estamparia, azul escuro e laranja. Um colar que não é um fio de conta, é um...
mas é uma homenagem ao orixá Iemanjá, que é a minha mãe, a dona do meu ori, da minha cabeça. E de batom, acho que essa cor é vermelho escuro, bem escuro, é próximo do marrom. Muito bom. Luane, antes de a gente começar a conversar, de fato, sobre o seu verbete, transista afro, conta um pouco sobre suas pesquisas, sobre sua área acadêmica, você como doutora na área, conta um pouco sobre suas pesquisas.
Então, eu fiz a minha primeira graduação em Ciências Sociais e eu sou da primeira turma de ações afirmativas do Brasil. Eu sou da UERJ, o vestibular de 2002, com a entrada em 2003. Então, eu peguei aqueles primeiros anos das ações afirmativas, os debates. Dentro da UERJ também, os movimentos negros ali, pessoas que eram do movimento negro organizavam cursos de extensão.
Eu fui bolsista do Praafro, que era o programa de estudos afro-brasileiros, afro-americanos e africanos. Depois fui bolsista também do Praalfa, que era alfabetização, leitura e escrita. E participei de vários coletivos, né? A gente, coletivo Denegri, coletivo Senega, de estudantes negros do Rio de Janeiro, estadual do Rio de Janeiro, a Associação Aquatune.
E sempre transei cabelos. Então, esses coletivos, esse movimento negro, ele foi me educando. Na universidade, eu não lia Bidias, não lia Lélia, não lia Chibi Bicu, Bantubicu. Eu fui lendo dentro dos grupos de estudos, tanto da associação quanto dos movimentos negros. A gente também fez uma chapa, no momento em que muitos desses partidos que hoje dizem que são a favor das cotas...
e de esquerda, inclusive, eram contra, né? Então, a gente fez uma chapa só de estudantes negros e trazendo todas aquelas para o ProDC, trazendo todas as questões que afetavam aquele contingente que tinha entrado na universidade. A gente fez essa chapa para o DC em 2004. Então, muito logo, quando eu entro na UERJ por ação afirmativa, eu logo me coloco ali, me insiro dentro dos movimentos negros, né? De estudantes. E, por outro lado, eu venho de uma família...
onde eu poderia dizer que é um movimento negro mais cultural, porque eu também tenho uma perspectiva de movimento negro, que Lélia Forjô, que Joel Rufino dos Santos Forjô, que é esse movimento negro que está na escola de samba, nos terreiros, então meu irmão produzia festas.
Desde pequena eu frequentava a Umbanda, depois o Canobre com as minhas avós. Muito dessa cultura afro-brasileira muito presente. E a trança sempre teve presente. Eu sempre falo isso. Tem um filme que eu fiz com um amigo, que é o Memórias Trançadas, que as tranças estavam lá no dia do meu aniversário. Então fazia um penteado que eu gostava muito.
que hoje, por falta de tempo, eu não consigo mais fazer em mim, né? Que é, você sobe a trança toda na gula e fecha no topo da cabeça, era um penteado que minha tia-vó usava muito, e nos dias de festa de aniversário, geralmente a minha mãe e minhas tias faziam. Então, final de semana se trançava, eu via as minhas mais velhas trançadas, então a trança sempre esteve presente. E dentro da universidade...
por falta de bolsas, de não ter uma política de permanência, que hoje é muito boa da UERJ, mas foi toda uma luta política, a gente não tinha uma bolsa de ir para o cotista do início ao final do curso. Quando eu estava saindo, que eu demorei para me informar, que a gente conseguiu essa bolsa. Então, eu fiz muita trança. E eu fiz a trança numa época que não tinha, né? Tinha até Orkut, mas não tinha página dedicada a isso. Tinha o Trança na Gol, que é um salão que era muito antigo e fechou em Madureira.
que tinha um blogzinho que falava, mas assim, eram uns fóruns, mas não tinha esse volume de informação que a gente tem hoje. Então, eu fazia muitas tranças, cobrava um valor simbólico, também não sabia cobrar. Muitas vezes eu chamava uma pessoa, porque eu vi o cabelo todo destruído, todo quebrado, né? Vamos lá. Aí teve tempo que eu morei também, né? Dividi a casa. Vamos lá que eu vou te trançar. Vamos lá na casa de fulana que eu te tranço. Então, eu trançava muito nas reuniões.
E aí o meu primeiro trabalho acadêmico, ele foi nesse ato de trançar, né? Porque eu também fui meio que cobrada. Como assim você vem com vários penteados? Que eu ia toda semana que minha mãe fazia um penteado novo. E eu comecei também a fazer o processo que atualmente se chama de transição. Fui deixando de usar química e tal.
E aí meus colegas falaram, como assim? Você vem sempre com penteada e não sabe fazer uma trança raiz, né? Que é a trança na goa. Então eu aprendi também. Mas eu sempre transei. Trançava o cabelo das bonecas, sempre fazia trança solta. E aí eu aprendi a trança na goa. Então muitas pessoas começaram a me procurar. Geralmente a maioria mulheres. E aí falavam, relatavam, né? Toda a relação com o cabelo. E aí aquele tema foi me tomando.
E eu falava assim, como eu vou fazer isso nas ciências sociais, né? Porque até aquele momento...
A gente tinha o livro Cabelo Jaché, do Raul Lodi, e a tese de doutorado da professora Nilma, que foi um dos poucos livros que eu comprei na graduação, com falta de renda, enfim. E acho que tinha um texto do Nelson, esqueci o sobrenome dele, é professor da UNB, sobre corpo negro na cultura visual, mas tinha muito pouca coisa, a gente não tinha PDF, eu defendi minha monografia em 2010.
E aí, como eu vou fazer? Eu descobri um texto pioneiro nas ciências sociais, que era o Cabelos Mágicos, do Edmulite. E aí foi meio que... Primeiro eu tive uma orientadora que não orientava, e depois peguei uma segunda. E aí eu fui fazendo... Levei dois anos fazendo entrevistas com mulheres negras que estavam às vezes nessas reuniões, mulheres negras que eu tinha uma relação de às vezes trançar, mulheres negras que iam no movimento negro, que não tinha nenhuma relação.
Como eu fiz estágio em muitos lugares, eu entrevistei mulheres negras que estavam na Fiocruz, de várias faculdades, Unirio, UFRJ, UF, UERJ, e até de São Paulo. Entrevistei uma pessoa de São Paulo e outra de Pernambuco. E eu fiz ao todo umas 15 entrevistas. Obviamente, eu não consegui usar todas, porque nesse percurso ninguém fala, mas acho muito importante falar quando a gente está fazendo trabalho acadêmico. O gravador deu ruim.
Pensei que estava gravando, não estava gravando. Fui botar no computador da universidade, tinha vírus, perdi toda a entrevista, aí a pessoa não quer remarcar. Às vezes, uma conversa informal, a pessoa te fala tudo e depois não fala... Aí, quando você vai gravar, trava. É isso, acontece. Os perrengues da vida acadêmica. É, e aí eu escrevi essa... Fui também estudando muito.
E aí eu escrevi uma monografia já ali sobre cabelo, né? Mulheres negras que estavam no nível superior ou que já tinham passado pelo nível superior, né? Então, desde a graduação, você já falou sobre o tema. Já, desde a graduação. E o doutorado também, não foi? Mestrado e doutorado. Só que cada lugar foi uma questão nova. Porque eu também fui essa criança que sofri com cabelo, que não queria sair.
Então, o título da monografia é o que eu vi no salão quando eu fazia um tratamento chamado permanente afro, que era o meu cabeleireiro falava assim, que queimava, né? Ele falava assim, para ficar bonita tem que sofrer. Então, o título da minha monografia é Para ficar bonita tem que sofrer, dois pontos.
a construção de identidade capilar para mulheres negras no nível superior. E ali eu já fiz um trabalho de 94 páginas, entrevistei pessoas, fiz vários instrumentos teóricos, metodológicos das ciências sociais. Fiz curso de cabeleireiro, então já me entreguei muito.
E aí eu percebi que eu não queria falar mais dos efeitos do racismo na construção de identidade e subjetividade da pessoa negra. No meio desse caminho, de 2008 para 2009, buscando saber como se fazia tranças, aí tinha um vídeo...
da Alicia Cruz, é You Don't Show My Name, você não sabe meu nome, que ela é uma gassonete, está com uma trança toda em zigue-zague, mas é um zigue-zague, uma trança anago, essa de raiz, só que é um zigue-zague cruzando com o outro. Eu perguntei a uma amiga como fazia aquela trança, aí a minha amiga foi e desenhou os pontos, você começa por aqui, por aqui e vai. Quando eu vi aquilo, eu falei, isso é matemática. E foi um despertar, eu chamo de piscadela assim.
que é quando o Gertz fala da briga de galo na Barinésia, que é quando ele entende realmente o que é a energia, o que é participar, o que é fugir da polícia porque não pode ter briga de galo. E aí eu tive a tal da piscadela, eu entendi o que significava, que uma piscadela pode ter significado em várias sociedades. E aí eu falei, nossa... Minha mãe sempre falava assim, olha, tem que medir direitinho para ficar bonito.
Na Bahia, você vê, às vezes, transistas que usavam até fita métrica, mas, assim, falava-se que tinha matemática, mas era uma coisa, assim, sem um aprofundamento. E naquele momento que ela foi me mostrar como fazia, eu vi que tinha matemática. Eu fiquei com aquilo na cabeça, fazia estágio no ProAlpha. Não trabalhei na monografia, mas já fiz alguns apontamentos e fui muito criticada por uma professora da casa, chamando aquilo de essencialismo. Imagina, né? Você pegar o cabelo do negro.
que é algo extremamente estigmatizado, e dizer, olha, por que esse cabelo tem matemática? E aí, eu fazendo estágio no Pralpha, conversei com uma das técnicas, ela falou, meu marido é estudante na matemática, aí foi lá em cima, né, que ele trabalhava no quarto andar, foi no 12º, a UERJ é um prédio.
E aí ele foi e me mostrou o programa etnomatemática. Aí eu olhei, ah, ferra, fiquei pensando, tudo que é de pretéte. Fiquei com raiva porque eu não tinha entendido. E aí depois eu saio da UERJ, me formo, mas continuo com aquilo dentro de mim, como se fosse o chamado ancestral. E começo a pesquisar no Google, fazendo estágio na Uncine, e vejo um texto do doutor Milton Rosa, se eu não me engano ele é da UFOP, sobre tendências em educação matemática e etnomatemática.
E esse texto fala da professora Gloria F. Guilme sobre como ela vai para o salão, faz dois dias de observação e fala dos padrões geométricos, e do Ron Igles, que fala de fractais. Ainda falava de uma outra, Harry Berry, não lembro tal. E aí eu falei, bom, tem um referencial teórico. Aí tentei a especialização, no final, que eu defendi em monografia em 8 de setembro de 2010.
Aí, no final do ano, teve a seleção para uma especialização em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira. E tinha étnico em matemática. Então, eu já cheguei querendo estudar matemática presente nas tranças, no ato de trançar. Porque quando eu tive esse insight, eu comecei a olhar a trança de outra forma.
Não só pela abstração estética, não só pela postura da identidade, mas como ali tinha matemática. E aí eu encontro o professor Rogério Lourenço nessa especialização, que eu não finalizei, e ele me dá várias referências e eu começo a estudar. No meio do caminho, no meio do ano de 2011, abre o mestrado para o Cefete.
E eu não queria fazer mestrado em ciências sociais porque eu sabia que eu não ia ter espaço para falar disso. Eu teria que ir para outro estado, não tinha condições. Eu teria que, sei lá, ir para a Universidade Federal de Pernambuco, onde já tinha um trabalho, ou para o sul, enfim. E eu sou muito bairrista, também tinha medo de sair, sabe? Eu estudei sempre aqui no Rio. Talvez o pós-doc eu faça fora. E aí eu passo para o mestrado com esse projeto, foi muito concorrido na época.
E até lembro que uma das perguntas da entrevista, o professor Roberto Carlos, que criou o mestrado, o Roberto Carlos Borges, ele fala assim, o título da sua monografia, para ficar bonita, tem que sofrer. E para aprender matemática, tem que sofrer? Aí eu falei, com certeza.
E aí fui muito bem recebida, eu fui a primeira bolsista, eu estou a nota 10 em ensino de matemática do Cefete, e fazem o mestrado em relações raciais. Então, eu desenvolvo essa pesquisa, que é para além da estética, dois pontos, uma abordagem etnomatemática para a cultura de transar cabelos nos grupos afro-brasileiros, que hoje, assim, eu considero para uma pessoa negra, viva...
que eu não sou uma pessoa assim, ah, eu estudei sempre no mesmo lugar, eu fiz graduação na UF, na UERJ, mestrado no Cefete, doutorado na PUC, costumo dizer que eu não segurei pasta de professor para chegar na universidade, então assim, eu fui, acho que com o facão da minha mãe, assim, com algum teto, cortando, desbravando o caminho. Mas essa pesquisa, ela deu muito certo, porque eu passei a dar a formação para professores.
muitos pesquisadores de étnico matemática reconhecem a minha contribuição, então está em livro didático, me referenciam. O último ano que teve o Enem, que é o Encontro Nacional de Educação Matemática, eu vi uma série de trabalhos já ali falando, hoje tem dissertações que vão ser decorrentes também desse insight que eu tive. Então, uma área, pesquisadores transistas, eu vejo PCC.
artigo de especialização, dissertação, eu até já fiz o levantamento do que veio depois. Livro, aqui na Prefeitura do Rio de Janeiro, que é a maior rede de escolas públicas da América Latina, a pesquisa chegou no segundo ano, no manual que eles produzem, no quarto ano escolar e no projeto para sexto ano, com defasagem.
Vi também chegar em alguns materiais feitos pela Secretaria Estadual da Bahia, da EJA, naquela reforma horrível do novo ensino médio, chegou numa edição da FTD. Então, assim, até hoje eu sou muito procurada por conta da etnomatemática das franças, né? Então, eu fico muito feliz por isso. E de ver o desdobramento, de ver outros pesquisadores, né?
As pessoas falam, o que você pensa em diante de matemática? Eu falei, gente, eu não penso nada, porque eu sou aquariana. Então, eu já estou desde 2013 falando disso.
Se me chamar, eu dou a formação, mas assim, eu não escrevo mais. Eu escrevi e eu acho que é isso. Eu dei minha contribuição e chamei o povo da física, da química para contribuir. Eu faço esse chamado no final da minha dissertação. E o legal é que a minha banca tinha uma... Tinha a professora Cláudia Miranda, que é da educação, o professor Roberto Carlos, que é da linguística, e um professor do mestrado em ensino de matemática. Então, foi uma banca...
bem variada, né? Que é o professor Marcos Pinho, que é uma referência na matemática e tal. E ele adorou o projeto desde que ele soube que eu entrei no mestrado. E aí eu, enfim, nesse meio do caminho do mestrado também tinha uma, fiquei, né? Ganhei a minha filha. E aí eu fiquei cinco, cerca de três anos mais ou menos afastada da universidade no sentido de não estar mais escrevendo.
Mais que cinco, né? Porque eu tento a primeira vez o doutorado em 2016, eu ainda queria falar da etnomatemática, mas aí eu queria ir para Salvador e para Cádio, porque Cádio na Colômbia tem um festival, não consegui, as pessoas não entenderam aquela proposta em duas instituições.
E aí eu percebi, uma amiga falou, cara, você vai ter que mudar porque eles querem tradicionalzão nas ciências sociais. E aí eu queria até falar de outra coisa, eu queria falar da trajetória de mulheres negras que se deram, entre aspas, bens, que se tornaram professoras de magistério superior na matemática. Pesquisadoras reconhecidas, mas eu não consegui escrever esse projeto.
Aí eu falei, eu ainda tenho que fechar esse capítulo da questão da estrada, e aí eu falei da profissionalização. Então, veja bem, em cada lugar eu falei de uma dor e de algo que me incomodava. Primeiro eu falei dessa dor do cabelo, do racismo, depois eu falei da matemática, porque eu era aquela aluna que ficava em recuperação, independência. E no doutorado eu também vou falar da falta de reconhecimento.
que era algo que me incomodava, das pessoas não valorizarem esse tipo de trabalho, porque é uma manualidade. Então, no doutorado, eu faço uma tese enorme. Fiz o doutorado, os dois primeiros anos foram no presencial. Os outros dois anos não foram, porque aí veio a pandemia. Mas sempre fazendo entrevista. Depois, quando eu pude voltar em 2021, eu faço as entrevistas no presencial, faço observação participante.
E aí... Qual foi o título da sua tese? A tese foi Transista, não é cabeleireira, que é a fala da... E a Lodê, que é uma doutoranda hoje também, que está escrevendo sobre transista, ela é transista. Dois pontos. Transista não é cabeleireira...
identidade, raça e gênero em salões de belezas afro no Rio de Janeiro. E aí, nessa tese... Aproveita e faz essa diferença para a gente. Transista para cabeleireira. Então, a transista... Só vou falar rapidinho da tese. A tese é bem grande, porque eu queria dar conta. Porque se você abrir o dicionário, você não... Tirando esse, né?
você não encontra o termo. Agora você joga no Google e encontra, porque eu criei o termo no Wikipedia. Então, havia as pessoas, muita gente, quando eu falava no doutorado que eu ia estudar transista, ninguém entendia. Estudar o quê? Ainda mais que eu fiz doutorado na PUC, né? E nem necessariamente as pessoas negras entendiam. Ah, é o quê? E falavam, é cabeleireira ou não, não é cabeleireira.
E foi algo que eu também me liguei no campo, quando a pessoa falou, a gente não é cabeleireira. Então, a cabeleireira, você tem alguns tipos, né? Tem a cabeleireira tradicional, que eu vou chamar aqui de tradicional, porque é aquela que trabalha exclusivamente com alisamento, pensando no cabelo da população branca, pensando no cabelo liso, anelado.
E a cabeleireira afro, que é aquela que a Nilma mostrou muito bem, são aquelas que têm um salão voltado para a comunidade negra, um salão afro, que muitas vezes, além de fazer tudo uma terapia, de reconstrução dessa identidade, de valorização, às vezes faz evento, tem uma ligação muito forte com os movimentos sociais. E muitos salões desses afros podem ter a trança. Aí geralmente chamam uma transista e ela está ali como freelancer.
Mas a gente está num momento que a gente hoje tem salão que só trança. E aí a transista, muitas transistas não fazem nenhum procedimento químico que altere, que não seja temporariamente. Porque a transa altera o formato do seu cabelo temporariamente. Principalmente porque as pessoas hoje usam pomadas. Mas se você fizer um procedimento químico como relaxamento, amaciamento permanente...
Aquela parte do cabelo que está com esse procedimento químico vai ficar, sabe? Será sempre com aquilo, alterado. Então, a Transista tem uma proposta que, obviamente, a gente debate na antropologia de uma ideia de mais natural. Fora isso, a trança, quando a gente olha para inúmeras sociedades africanas, é um penteado que está, você vai ver, no Camarões, no Senegal, na Nigéria, Angola.
Então, a transista, ela está em outro lugar. Transista ou trançadeira, porque são duas terminologias muito usadas. De fazer esse penteado, entrelaçado, manual.
ou fazer os locos também, né? Então, fazer a trança de várias formas. Só que tanto a transista como a cabeleireira afro, elas trabalham para a autoestima mesmo da população negra, né? Então, elas lidam com muitas situações. Mas eu falei, bom, o que é ser uma transista, né? Porque quando uma transista... Ah, se ela for dar um curso no Sesc, ela não vai ter lá na categoria transista, ela vai ter que entrar como manicure ou como cabeleireira.
Se ela for pagar o NPS, que hoje quase ninguém paga, ela não vai ter também essa categoria, ela não teria, porque agora está passando pelo processo de reconhecimento. MEI, Previdência, esse reconhecimento, então ela tem que colocar outra categoria. E ela não é nem manicure nem cabeleireira, ela é uma especialista na arte dos trançados.
Dos penteados entrelaçados, dos penteados afros que não alteram. Então, ela pode fazer um coquinho.
Ela pode fazer o lock. Aí também tem a pessoa que é só especializada em fazer o dreadlock. E ela pode fazer a trança solta, a trança na goa, com o cabelo artificial, que pode ser o jumbo, que é a Nicalol introduzido, ou só com o cabelo da pessoa. Muitas aprendem na família, como é o meu caso, como é o caso da minha prima, que é uma referência para mim, que hoje não trança mais, porque teve tendinite.
Mas ela trançava o cabelo de todo mundo na comunidade da Viliperangue, Niterói. Ela fazia esse trabalho junto com o trabalho de técnica em enfermagem. Então, assim, muitas trancistas hoje aprendem cursos, mas no passado, geralmente a pessoa já vai com certo conhecimento. O curso é só para dar um... Aprender a usar uma pomada, um modelo de trança.
Mas é um conhecimento, um saber fazer que, querendo ou não, está nas famílias negras. É muito comum você ver, se passa numa escola, eu falo isso, passa numa escola do município, vê tantas meninas negras com cabelinho trançado, ou vê bebezinho negro com chuquinha, a mãe coloca, faz aquele penteado colorido, mesmo quando é muito levada. Minha filha era muito... Levada não, hoje eu entendo que...
mas ela era muito agitada, então eu não conseguia fazer altos penteados, então eu sempre fazia duas tranças, quatro tranças, depois teve um tempo que ela pediu para usar coquinho, se referindo por me ver muito de coquinho, então é um penteado muito comum, que ele está ali nas entranhas, dentro dessa diáspora africana, a gente pode falar da religiosidade, que se você vai em Cuba, você vai ter santeria, no Brasil a gente vai ter os terreiros de Umbanda, de Canombre, de Quimbanda.
E tem essas experiências, esses fragmentos que a gente tentou, esses cacos que a gente tentou reconstituir. E a relação com o cabelo é essa, porque para os africanos, para os nossos ancestrais, ela era muito forte. Ou seja, a trança vai muito além do que a estética. Ela tem também, ela carrega essa ancestralidade. Sim, a ancestralidade, uma forma de cuidado.
Muitas vezes quando o cabelo passa por procedimentos químicos, fica todo quebrado, a gente fala popularmente detonado, as pessoas voltam para a trança. Muitas mães compreendem, não vou passar química no cabelo da minha filha novinha, então usa muita trança na primeira infância.
Então, a trança está muito presente. Processos até de adoecimento na terceira idade vai fazer a trança. Então, tem meninas que usam trança a vida inteira. Então, tem processos ritualísticos. Ou seja, também tem a identidade presente. Muito forte. A trança traz essa identidade. Muito forte. E é algo que pode ser aprendido na família, hoje, com os cursos, no YouTube, as redes sociais.
mas que é muito forte e tem vários significados. É um legado que vai ter vários... Eu acho que as minhas pesquisas foram pensando o cabelo, parte do trauma do racismo, depois parte do... Olha o que você pode aprender com o seu próprio cabelo, com a sua cultura, e depois parte ali na tese de nomear, identificar, porque eu ficava pensando assim, cara, eu quero escrever uma tese.
que ela sirva para quando a pessoa for profissionalizar, for reconhecer, for fazer algum tipo de política. Então, a tese vai falar de saúde, porque o meu trabalho na Bíblia era sobre saúde, então eu tinha um debate já um pouco acumulado. Ela vai falar de empreendedorismo negro, ela vai falar dessas trocas entre brasileiras, africanas e estadunidenses, ela vai falar das técnicas corporais, que é algo que eu falo, vou me aprofundar mais, agora eu estou com um livro aqui da Marlene Cunha, de gestualidades,
Ela fala de técnica, ela fala dos processos de educação, que às vezes vai para um curso de trancista, a depender da professora, você não aprende só a trançar, você aprende a ter consciência política do ato de trançar.
Ou seja, a trança também é um ato político, a gente pode afirmar isso. Um ato de resistência, um ato de afirmação. A trança carrega tanta coisa que não é só um penteado, não é isso? Não, nunca foi. Trançar nunca foi só um penteado. A história, a memória, e às vezes é um preço caro que o cidadão vai pagar, porque muitas pessoas, por conta do racismo estético, que eu trago na tese também...
elas vão perder o emprego se ela não quiser tirar a trança. A primeira sentença no Brasil que vai falar que é racismo, você mandar uma pessoa embora porque ela quer usar uma trança, é de Belo Horizonte e é de 2020. E o juiz justamente fala sobre isso. Ele usou vários autores para fundamentar, que é o Henrique Oliveira, fundamentar a sentença que aquilo era racismo. Foi na primeira instância. E usou a minha dissertação também.
Na segunda instância, foi no Sul, duas desembargadoras falando que uma funcionária foi demitida do shopping por justar causa porque queria estar com trança. E aí também já foi na segunda instância, dizendo, olha, não é possível hoje com os movimentos sociais, movimento empoderamento crespo, orgulho crespo, todos esses. Elas não falam esses, mas falam.
para no século XXI, com esses movimentos sociais, as pessoas querem não entender o que faz parte da identidade do indivíduo. Então, é uma resistência cultural, né? Se você lembrar que 30 anos atrás, as pessoas nem sentavam do lado de uma mulher negra, trançada. A minha mãe, por exemplo, ela usa o dread, já é idosa. Ela tem o dread no meio das costas.
A minha mãe nunca pôde fazer quando ela era empregada doméstica, porque ela não ia conseguir emprego. E aí, quando ela vai e faz, ela passa a usar o cabelo dela natural. Então, são vínculos que muitas vezes para você usar, eu sempre vi pessoas negras com dread, com loja, que ou eram do mundo das artes, ou eram servidores federais, municipais, estaduais, porque eram penteados que as pessoas eram mandadas embora.
Então, hoje não, hoje as pessoas... São muitas camadas, né, Luane? São muitas nuances que a gente percebe. O racismo, ele entranha, entranha de várias formas no tecido social e ele consegue fazer isso até no cabelo, na trança. Sim. E hoje a gente percebe todo um movimento também mais forte, acho que as redes sociais, inegavelmente, têm um papel.
mas é de uma resistência cultural e política, de forjar também uma identidade, de também ter ali um processo de construção de memória que alguns pontos são considerados, outros não, mas que é uma luta, assim, e que é importante. Hoje a gente tem o reconhecimento de uma mobilização.
e de uma produção também teórica, porque as ações afirmativas, elas vão também trazer muito de uma outra forma de pensar. Então, você vai ter dissertações, você vai ter TCCs, teses, você vai ter pessoas formadas em direito fazendo a lei do dia da transista.
Então, você vai tendo as pessoas negras reconhecendo. O primeiro dia da Transista foi em Uberlândia. Eu conheci a Transista que fez. Aí, depois, o segundo dia foi no Rio. E aí, foi indo. São Paulo fez, mas foi dialogando muito com o movimento de Transistas e Cabeleireiras Afros. Hoje, você olha e tem muitos lugares que é o dia da Transista. No Rio de Janeiro, especificamente, e alguns outros estados que eu não vou lembrar de cabeça.
Porque estados não tem tanto, mas município tem. É o dia da Afro-Dai, é o dia do nascimento da Afro-Dai, da Alice Moreira Basto, que foi uma cabeleireira, trançadeira, que trabalhou muito. Então, ela pegou ali o movimento negro da década de 70, ela tinha um salão afro, ela fazia uma formação para meninas negras, jovens meninas negras que tiveram filho.
de manhã cedo, a pessoa passava lá em frente ao salão, estava assim, aprenda uma profissão de dia e leve leite para casa à noite. Então, ela conseguia exeditar, formava essas meninas negras. Ela morreu, acho que em 2008 ou 2009, mas muitas transistas, transadeiras hoje, que atuam no Rio, são herdeiras de Afrodai. Ou passaram pelo curso, ou tiveram alguém que passou pelo curso de Afrodai, que não era só fazer a trança, não era só aprender a ser manicure.
cabeleireira, maquiadora, aprendia também. Ela falava nos vídeos, tem os vídeos gravados dela, ela fala, eu faço cabeças, né? Cabeças nesse sentido da desconstrução, do colonialismo, do racismo. Então, a gente tem no Rio muitas transistas. Eu faço cabeças em vários sentidos, não só no estético, mas também no intelectual, no social.
Com relação a isso, você já até comentou aqui um pouco, mas eu achei um ponto muito forte do seu texto quando você disse que as transistas também funcionam, o trançar também funciona como um espaço de escuta sobre o racismo, sobre diversas questões. Comenta um pouco sobre como é que isso acontece. Primeiramente, porque muitas vezes, pelo menos as transistas que eu fui fazer entrevista, eu fui acompanhar...
São transistas, transadeiras, que elas têm, de certo modo, um envolvimento político. Elas sabem que fazer aquele trabalho, muitas vezes elas fazem o seu cabelo e você fala, tive que tirar porque o patrão falou que eu não podia. Então, ela lida todo momento com racismo. Você vai a primeira vez no salão dela...
Você vai com o cabelo tapado, você quer esconder. Então, elas vão desconstruindo isso. Então, muitas vão mudando terminologias. Não é cabelo ruim, não é cabelo bom, é cabelo. Cabelo crespo, diversidade capilar. Então, muitas têm uma formação, têm uma consciência. Já tinha aquele incômodo desde muito pequeno, vem de uma cultura familiar muito forte de pentear dos afros e vão trabalhar com cabelo. Muitas são formadas.
e na história, psicologia, geografia, e fala, não, vou trabalhar com cabelo. E aí, quando você trabalha com cabelo, quando você trabalha com trança, que também, às vezes, não é um penteado para quem começa a usar tão fácil por todos os estigmas do imaginário social.
você lida ali diretamente com essas pessoas colocando os traumas raciais, né? E estar no salão afro significa estar num espaço seguro, muito no que a Patricia Hill College vai falar, né? Que nos Estados Unidos, as mulheres negras construíram na música e nas igrejas, os lugares delas colocarem suas dores, falarem, né? Sem serem atacadas. E eu falo, olha, eu faço esse deslocamento do conceito para pensar o salão afro.
o espaço que a transista atua como espaço seguro, porque ali a pessoa vai sentar, vai ter seu cabelo trançado, não vai ser ofendida racialmente, e vai poder ser parte dela sem sofrer aquelas humilhações. Você lava o cabelo? Como você faz para pentear? Ai, cabelo disso, cabelo daquilo. Não vai ouvir isso.
que ela pode ouvir... Ainda mais se for num salão frequentado fora da bolha racial, um salão branco, por exemplo. Aí vai ter... Porque na hora da trança, bota o cabelo pra lá, bota o cabelo pra cá, não é isso? Ela vai ajustando. E aí, pra uma pessoa branca que não tá naquele esquema, ela vai olhar com um olhar racista aquele cabelo. Sim, ou comentários. Igual quando eu penteava o cabelo dos meus amigos no...
na UERJ, eu lembro uma vez que o professor passou, ele olhou assustado, de ver a gente gafando, passando gafo, e no salão afro não vai ter isso, porque as transistas também podem atuar com o seu próprio salão, podem vir na casa da pessoa, a pessoa ir na casa dela, é uma outra relação, eu lembro de uma amiga relatando que ela foi passar o cabelo com uma moça africana no centro do Rio, na central do Brasil, que tinha um camelódromo,
E aí ela falou, gente, é uma imersão, porque a mulher tinha filhos, e aí quando viu ela estava segurando o bebê da mulher, e a criança está te chamando ela toda. Então, até a relação com o corpo, que no ocidente você tocar, toda essa questão de distanciamento do corpo...
Quando você faz trança, é uma relação muito próxima do corpo da trancista com o corpo da pessoa trançada. E aí são outras formas de pensar e perceber. Eu trago até o Antônio Bispo dos Santos na tese para pensar um pouco isso. Então, é um espaço seguro porque você não vai ser ofendido. E ali, muitas vezes, você está com uma profissional que pode não ser psicóloga, mas que ela vai entender a sua queixa.
Muitas vezes ela vai falar, olha, isso aí foi racismo, procura seus direitos. Mas ela vai entender sua queixa e não vai colocar como no lugar de menor valor. Então, a transista, ela está nesse lugar. Isso não quer dizer que hoje, com essa emergência de tanta gente transando, não vai ter pessoas despreparadas. Mas se você pegar esse pessoal que está transando há 10, 15 anos, são pessoas que elas...
elas foram para esse lado por conta também da questão da empregabilidade, que muitas vezes você está num trabalho formal, entre aspas, com muitas aspas por conta de todas essas mudanças do neoliberalismo. Tem trabalhos formais que têm características informais, como mostra a literatura e sociologia do trabalho, mas ela vai para esse mercado porque ali também ela...
ela vai fazer a renda dela e vai ter uma certa flexibilidade para olhar os filhos, mudar para a escola, estará em casa e não tem, às vezes, uma pressão de um lugar, do mercado de trabalho, as questões raciais, embutido, racismo institucional.
E estou fazendo um trabalho que, querendo ou não, é contra o racismo. Porque quando a pessoa sai dali, às vezes ela vai enfrentar racismo, e quando a pessoa retorna, ela vai ter que dar uma boa palavra. E muitas vezes ela vai ter que falar, não, você tem que buscar a lei contra o racismo. Olha, isso que o seu patrão fez é racismo. Então, elas fazem, às vezes, um trabalho muito gradativo, de anos, e também falam, olha, você não tem que trançar todo mês, tem que deixar o cabelo descansar, ou seja, a pessoa tem que olhar para si com o seu próprio cabelo.
Então, é um trabalho de cuidado, de valorização da autoimagem, é um espaço seguro de você saber que você não vai ser violentado por conta da sua estética e das suas características fenótipas.
Muito interessante. Eu achei um ponto muito forte lá no seu texto, lá no verbete Transista Afro, que está aqui no Dicionário Racial, volume 2, quando você fala que transar é atar memórias transatlânticas. Achei essa frase muito forte. Conta um pouco para a gente sobre como surgiu essa frase, a sua intenção sobre ela. É sobretudo porque, se a gente pensar nessa dispensão forçada...
nesse trânsito, e acho que a Kátia Matoso, eu tenho um livro aqui de escravidão, só que eu não peguei e botei aqui, bem fininho que foi a escravidão.
Uma das coisas que os colonizadores faziam, e Nima também vai apontar no livro dela, numa ideia de higienização, era raspar esse cabelo dos ancestrais africanos. No entanto, esse cabelo, a forma como ele estava ali feito, produzido, ele não era só um cabelo, ele significava um pertencimento, uma identidade. E aí também tem que pensar que tem sociedades africanas que os homens transam, outras só as mulheres.
Tem várias formas de penteado, mas veio para cá inúmeras civilizações, inúmeras com muitos penteados. E aí a gente tenta ver um pouco disso, tentar manter um pouco disso. O Debrei, o Jacky Derrida, eles vão ter um quadro que tem ali vários africanos com vários penteados, várias tarificações no rosto.
Isso é muito forte, é muito presente. Ou seja, por mais que os europeus, os colonizadores, a elite branca, olhasse todos eles como uma coisa só, não é isso? Mas, na verdade, esses detalhes já conseguiam se perceber que eles eram cada um de um grupo diferente.
O que a gente chama popularmente de cura, escarificações no rosto. E eu falo que tem as marcas do orgulho e as marcas da vergonha. As marcas do orgulho são as escarificações, que podem ser no rosto, no braço, as curas. E as marcas da vergonha é o açoite, é a chibata. Então, a forma de amarrar o pano na cabeça. Até no Gilberto Freire, no Sobrados e Mucambos, você vai ter essa referência.
da forma como amarra o cabelo e os penteados. Então, Beatriz Nascimento, no texto que ela vai conceituar o que é o quilombo, o conceito de quilombo, ela vai passar e vai falar sobre o cabelo do Ganga, que o chefe, a liderança, que Ganga é o líder, é o chefe. E esse chefe, a forma como ele usava o cabelo trançado com conchas na ponta...
era uma referência aos guerreiros Ibangala calando de Angola, que antes guerreavam com Nzinga e depois vão juntar com Nzinga contra os colonizadores. E aí esse penteado que os gangas usavam não era qualquer penteado, que as pessoas acham que só teve o Ganga Zumba, mas Ganga é chefe, é liderança. Então você vê ali também uma tentativa de manutenção. Então quando eu falo que é memórias transatlânticas...
também ouvindo falas, eu sinto que eu tive o chamado, e aí pensando de como a gente mantém, não é a mesma coisa, porque a construção da identidade, ela não é estática, mas a gente vai ressignificando, dando outros sentidos, mas até o processo de politização que os movimentos negros vão fazer sobre a estética...
é também fazendo uma reverência, uma autopromoção e valorização. Então, quando eu adoeço e eu volto para a trança, quando eu vou buscar a identidade, eu vou para a trança, quando eu quero saber mais e quando eu falo assim, eu sinto que é um chamado, parece que foi um chamado ancestral, aí eu vou estudar a história de três civilizações que estão no sudoeste de Angola, que...
Para você fazer a trança, um espírito ancestral, que foi a pessoa que fazia o cabelo, convoca e a pessoa passa por um ritual para poder mexer no cabelo. Não é qualquer pessoa que mexe. E aí também é uma fala muito comum nos salões. Muito viva também dentro dos terreiros. Não é qualquer pessoa que bota a mão na sua cabeça. Mas nos salões, eu não gosto que fulano faça o meu cabelo. Então, a confiança, a relação de confiança que é você entregar.
a sua cabeça para o trançado. Então, inúmeros elementos que vêm do continente vão ser extremamente fragmentados, mas que se mantêm de algum modo. E essa cultura mesmo da beleza e a forma como você, quando você trança, você tem uma imagem, quando você não trança. Então, está ali, é muito forte. E esse ofício de trançar cabelos...
de cuidar do cabelo das pessoas, de botar às vezes sua avó, de botar no meio da perna e pentear sua tia, sua prima. Isso são memórias, né? E a gente foi fazendo, foi mantendo, com uma resistência cultural que às vezes não é falada. Veja bem, a minha tia avó que faleceu aos 92 anos...
ela não precisava falar nada. Eu ver aquele cabelo dela sempre trançado, e eu olhar e sentir, né? Eu era uma criança muito pequena, mas eu senti algo muito mais gestoso. E aí, quando eu vou estudar, eu falo, ela não precisou falar nada. Ali ela já me educava com uma estética. Então, é muito isso.
o tempo está passando que a gente nem percebe, né, Luane? Já temos mais de 40 minutos aqui de conversa. A gente vai... Vamos nos encaminhar para o final, então, do nosso papo aqui. Um papo muito gostoso, conversar contigo. A conversa flui que a gente nem percebe que o tempo passar.
Luane, como a gente já apresentou ela, ela é doutora, o Instagram dela é Luane Bento Santos, e Luane também presta serviços na área de social mídia acadêmica, então quem está aqui ouvindo que tiver alguma...
alguma dúvida, precisar de alguma ajuda com relação ao currículo látis, essa pessoa é fera. Paciente, Google Acadêmico. Pois é. Então, só falar com Luane aí, que ela é fera. Luane, vamos terminar, então, aqui nossa conversa. Já agradeço de antemão você conversar aqui comigo, trazer toda a sua ancestralidade, sua intelectualidade aqui para a nossa...
nessa nossa humilde conversa. Então, eu queria que você deixasse uma breve mensagem para quem está aqui ouvindo a gente, para quem passar a ver uma trança na rua. O que a pessoa agora tem que passar a olhar, um olhar crítico diferenciado para quem ouviu isso aqui? Deixa uma mensagenzinha assim, então. Primeiro, agradecer o convite, que também é uma forma de divulgação das minhas pesquisas, que tem vários artigos, textos sobre o tema também.
Eu penso que é olhar e entender que ali carrega uma história, uma ancestralidade.
produção de conhecimento, de quem faz parte de um lugar, de uma intelectualidade, de um processo de abstração artística, e é um processo de resistência cultural, sobretudo, resistência cultural, resistência de memórias. Mas também a economia, porque você vai ter muitas mulheres negras que às vezes se separam de casamentos, de situações.
de vulnerabilidade, de violências, e vão encontrar no trançar uma terapia, uma forma de sobreviver. Então, quando você vê uma cabeça trançada, também lembrar que são horas de investimento, que a pessoa ficou ali sentada. É um outro lugar. E eu escrevi um texto que nem foi publicado há muito tempo.
sobre também a economia que aquilo gera. Então, no Rio de Janeiro se pensa muito a partir de algumas categorias, mas não pensa como a trança faz uma circulação na cidade, que as pessoas vão ao centro, trançam e compram cabelo, não sei o que.
É economia, é autonomia feminina, porque a maioria das pessoas que transam são mulheres, é processo de construção de identidade, de autoestima, e é um processo educativo, tanto para autoafirmação, contra o racismo, e para aprendizagens, como matemática, química, se vocês jogarem, vocês vão ver que tem dissertação na química, na matemática, na geografia.
pensando os conhecimentos que podem ser produzidos a partir do trançado, o que tem ali de conhecimento. Então, na realidade, uma trança nunca foi só uma trança nesse lugar, no diminutivo, que coloca no diminutivo para dar uma desvalorização. Pelo contrário, é um penteado com muitas potências. Como eu falei, você pode aprender matemática através das tranças.
Muito bom. Inclusive, tem músicas aqui da Bahia que falam sobre os cabelos trançados, né? Sim. Que trazem esse resgate, essa ancestralidade. É muito interessante. Várias músicas aqui da Bahia, da Cher Music, né? Que trazem muita questão de resistência negra, falam também sobre isso. Muito bom, Loni, conversar contigo, então. Muito obrigado e até a próxima. Até a próxima, pessoal.