Episódios de Invisible College

#432 - A encarnação de Jesus como sabedoria de Deus representou algum tipo de ruptura aos judeus?

05 de maio de 20266min
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Participantes neste episódio2
I

Iago Martins

Convidado
P

Pedro

ConvidadoJornalista
Assuntos2
  • Sabedoria Divina e ProvérbiosRuptura com a sabedoria judaica na Torá · Visão histórico-crítica do cristianismo · História providencial e plenitude dos tempos · Continuidade e descontinuidade na revelação · Jesus como cumprimento e plenificação da lei · Jesus como exemplo moral vs. conformação a Cristo · Transformação ativa pelo Espírito Santo · Visão moralista da obediência cristã
  • A Sabedoria de TiagoSabedoria como conformação a Cristo · O papel do Espírito Santo na transformação · Fruto do Espírito como evidência de vida sábia
Transcrição16 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

A encarnação de Jesus como sabedoria de Deus representou algum tipo de ruptura ou mudança de perspectiva em relação à ideia de sabedoria como vida na lei ou vida na Torá que os judeus tinham na época? Interessante. Cara, é curioso, né? Eu vejo muita gente aí, viu, Pedro? Você sabe disso? Gente do campo de exegese bíblica. O pessoal de uma linha mais histórico-crítica. Que, de repente, olha para esses...

essas tradições, e vão dizer assim, olha, tá vendo, essas peças foram juntadas, e se criou artificialmente uma figura messiânica chamada Jesus, a partir de uma amálgama de tradições e textos e influências teológicas, e você pode ler isso de uma forma, sei lá, esquisita, e falar assim, ah, tá vendo, o cristianismo é uma grande coxa de retalho, de pedaços de expressões religiosas e tal. Eu nunca tive esse desconforto com o pessoal que traz essas...

Diferentes fontes, não. Por que eu não tenho nenhum desconforto? Por causa da noção de uma história providencial, sabe? Tipo, Deus está usando esses elementos históricos, e a maneira como Israel está refletindo sobre Deus ao longo da sua tradição, pra criar o cenário. Acho que o Lucas fala isso, né? Chegou à plenitude dos tempos, né?

Então, o que é a plenitude dos tempos? É que o cenário religioso diz, cara, o farisaísmo já tinha amadurecido, já havia uma leitura bíblica popular em Israel. Imagina, se Jesus aparecesse na época dos macabeus, provavelmente não teria um impacto, não teria nem matéria-prima para a sua revelação. Então, Israel desenvolveu uma tradição que virou matéria-prima para que a revelação de Jesus acontecesse num tempo perfeito, inclusive a missão da igreja.

porque não demora muito, depois ali do cano do Novo Testamento, por exceção de João, Jerusalém foi invadida pelos romanos, e houve uma diáspora, inclusive de judeus cristãos, indo pelo mundo pregando o Evangelho. Então, eu não acho que essas coisas são coincidências, porque esses elementos são coincidências de jeito nenhum. Então, o que tem de continuidade e descontinuidade na revelação de Jesus como sabedoria em carne? Vamos lá, de continuidade.

Será que existe uma interface entre Jesus como sabedoria encarnada e a noção rabínica daquela época de que a prática da Torá era sabedoria? Existe uma interface. Como que eu vejo essa interface? No Sermão do Monte, quando Jesus fala não penseis que vim abrogar a lei ou os profetas, não vim para abolir ou abrogar, mas para cumprir.

Eu tenho muita dificuldade com o termo cumprir nas traduções em português, porque o termo que está no original grego é plerossai. Plerossai, claro que tem o sentido de cumprimento, mas plerossai quer dizer levar à plenitude, plenificar a lei. De alguma maneira, Jesus, no seu papel messiânico, plenifica a lei, porque ele é a lei.

cumprida em suas exigências. É por isso que Paulo vai dizer que ele nasceu sob a lei para salvar os que estavam sob a lei. Ele foi irrepreensível nesse sentido. Nasceu sob a circuncisão. Então Jesus é a lei, as exigências da Torá cumpridas de forma

plena. Então, de certa forma, Jesus está cumprindo aqui também o que os judeus entendiam que era sabedoria. Sabedoria é viver a lei. Então, Jesus vive ela inteiramente. E aí, tem uma continuidade. Mas tem uma descontinuidade porque Jesus não vira só um exemplo moral, que é o que eu falo no meu livro, lá com o artigo do Alistair McGrath, de 96, que é a tendência dos liberais de olhar para Jesus e falar assim, olha, Jesus é um exemplo moral, que bacana, vamos seguir ele. Quase como uma espécie de pelagianismo, né?

E não é. Aí o Magritte vai falar, não, Jesus não é isso. Ele vai até retomar Lutero. Lutero vai dizer que não existe imitação de Cristo no primeiro momento, que existe uma conformação a Cristo, que Cristo nos conforma a Ele de forma ativa pelo poder do Espírito. Então Deus está nos conformando a Cristo. Então Cristo não é só um modelo moral que você olha assim, está vendo? Ser cristão é imitar Jesus, como se fosse possível imitar Jesus em condições naturais. Não é.

e Jesus tem que se envolver com a nossa transformação, a imagem dele, de forma ativa. Esse é o elemento de descontinuidade com a visão de sabedoria hebraica, porque nesse caso, a sabedoria está disponível na pessoa de Jesus, e Jesus se torna um agente formativo pelos meios que ele forneceu, o seu espírito, a comunhão dos santos, os sacramentos, a palavra pregada, que são todos esses elementos que aparecem na igreja local, na tradição cristã.

Esse é o contexto em que Cristo começa a nos conformar a ele. E aí a gente começa a viver uma vida mais sábia. Gente, isso é super legal. Por que isso é super legal? Porque já viu como é que crente tem uma visão muito ainda moralista com relação à sua obediência? O crente fica assim. Eu fico vendo as perguntas que o pessoal manda para o Iago Martins. Crente pode usar biquíni? Crente pode andar de bicicleta? Crente pode usar smartphone?

É só essas perguntas assim. Porque a galera ainda vive numa lógica muito moralista. Crente pode, crente não pode, crente pode, quem não pode.

Gente, cristãos têm razões muito melhores para viver uma vida, vou abrir aspas aqui, moralmente correta e de acordo com a vontade de Deus nas Escrituras. Qual é a razão? A razão não é porque a gente tem que se comportar simplesmente de determinada forma. É que Deus não está interessado em simplesmente formar pessoas que cumprem uma lista de obrigações morais.

Deus quer nos equipar com meios para viver bem ou viver sabiamente. Por isso que a Bíblia fala do fruto do Espírito. O fruto do Espírito é um elemento que emerge da vida cristã a partir da atuação do Espírito no cristão.

É muito diferente de uma pessoa que desenvolveu a virtude, por exemplo, da lealdade ou da fidelidade, você dizer para ele o não adulterarás. Você nem precisa dizer isso para ele. Porque o adulterio não é um problema para ele. Por quê? Porque ele está moralmente equipado com essa capacidade.

Então a mudança de paradigma é tremenda, porque agora Deus não está simplesmente dizendo o que você tem que fazer ou não fazer. Deus está habilitando e te equipando para viver de forma sábia. Isso é muito mais do que cumprir uma listinha de obrigações morais. Então, nesse sentido, houve uma mudança drástica, porque agora a gente tem o elemento Jesus na história, e não é simplesmente fruto de tudo aquilo que a gente falou antes. Jesus é o ápice dessa tradição, não tenho dúvida.

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