ECONOMIA | A economia da água
O acesso à água é um direito humano, proclamado pelas Nações Unidas desde 2010. No entanto, a água é também um bem económico, cuja propriedade e valor depende do uso que fazemos dela.
Neste episódio, a economista Catarina Roseta-Palma e o humorista Manel Rosa exploram as diferenças entre a água como bem privado, bem comum e bem público puro. A propósito da gestão deste recurso, fala-se do que distingue o uso consumptivo do não consumptivo, e o que se entende por «tragédia dos comuns».
A conversa navega também pelos setores principais do consumo da água, do doméstico ao agrícola e ao industrial – sabia que 70% da água captada, em Portugal e no mundo, é usada na agricultura?
A dupla analisa ainda as características que conferem à água um valor particular, desde a definição do preço às características específicas deste mercado.
Por fim, debatem-se questões atuais: que critérios devemos aplicar para otimizar a gestão da água? Devemos defender o interesse económico ou promover o equilíbrio dos ecossistemas?
Um episódio [IN]Pertinente essencial, claro e transparente – como a água. A não perder.
Referências úteis
APA «Estado das massas de água superficiais e subterrâneas», (Portal do Estado de Ambiente, 2024)
BOCCALETTI, G. «Água: uma biografia» (Ed. Desassossego, 2022)
BRUNO, E. M., & JESSOE, K. «Using price elasticities of water demand to inform policy» (Annual Review of Resource Economics, 13(1), 427-441, 2021)
EEA, «Ecological status of surface waters in Europe» (2025)
ESTEBAN, E., & ALBIAC, J. «The problem of sustainable groundwater management: the case of La Mancha aquifers, Spain» (Hydrogeology journal, 20(5), 851-863, 2012)
Bios
Manel Rosa
Humorista. Estreou-se no stand up comedy em 2019, quando tinha 15 anos.
Em 2023, lançou «Mais isto do que aquilo», o seu primeiro espetáculo em nome próprio. No mesmo ano, criou «DISNARRATIVO», uma espécie de vlog no Youtube, que manteve até 2025. Juntou-se ao leque de apresentadores do Curto Circuito, um programa da SIC Radical, em 2024
Catarina Roseta Palma
Professora associada de Economia no ISCTE-IUL, onde foi diretora da Sustentabilidade.
Tem trabalhado na área do ambiente, incluindo a gestão de recursos hídricos, a energia e outros temas da sustentabilidade. Consultora para diversos organismos públicos e membro da Comissão para a Reforma da Fiscalidade Verde. Foi vice-presidente da «European Association of Environmental and Resource Economists». Tem mais de 2000 observações no «iNaturalist»
- Redução de consumo de águaConsumo agrícola (70%) · Consumo doméstico (16-17%) · Consumo industrial (abaixo de 10%) · Qualidade da água potável em Portugal (99% boa qualidade) · Qualidade ecológica da água (rios, lagos, águas costeiras) · Consumo doméstico médio por pessoa (197 litros/dia)
- Água e gêneroMovimento e transferência da água · Variabilidade da água (sazonal e interanual) · Capacidade de transporte de substâncias · Essencialidade da água para a vida
- Tipos e classificações da águaÁgua salgada vs. água doce · Água superficial e subterrânea · Água potável · Estados da água (gasoso, líquido, sólido) · Classificação por cores (azul, verde, cinzenta, negra)
Inpertinente. Quatro especialistas desafiados por quatro comunicadores sobre temas como política, economia, ciência e sociedade. Inpertinente é um podcast da Fundação Francisco Manuel dos Santos com todas as perguntas que sempre quisemos fazer a quem realmente conhece os factos que fazem diferença nas nossas vidas.
Seja muitíssimo bem-vindo a mais um episódio do Impertinente Economia, o quinto e último desta série sobre economia e clima. Falaremos desta feita sobre economia e água. Catarina, bem-vinda ao último episódio. Obrigada, Mano. Estou com a Catarina Roseta Palma, professora do ISCTE. Catarina, o que é que as alterações climáticas que nós temos vindo a falar nos últimos episódios têm a ver com água?
Ora bem, tem muito a ver com a água porque as alterações climáticas, como vimos nos episódios anteriores, influenciam a forma como a água se move neste planeta. Portanto, influenciam o ciclo da água. Por isso tem tudo a ver falarmos de alterações climáticas e falarmos de água. Muitos dos impactos das alterações climáticas que nós vemos, sentimos porque há alterações no ciclo da água. Já agora, no início deste ano, a água esteve bem presente relacionada com as alterações climáticas. Exatamente. Mas temos material para um episódio inteiro?
Vamos ver, mas eu diria que sim. A água é um tema fascinante, por algumas características que ela tem, que são interessantes de pensar, e toda a gente sabe, mas primeiro a água move-se, anda por aí. E portanto é um bem económico que nós temos de tratar, mas tem esta característica particular que ela transfere-se.
A segunda coisa interessante é que ela é muito variável, ou seja, nós temos alturas em que chove muito, como tivemos no inverno, e depois temos alturas em que não chove nada e falta água. Portanto, em climas como o nosso, a água varia muito, não só dentro de um ano, a precipitação concentra-se nos meses de inverno e depois no verão praticamente não chove, aqui na Península Ibérica e noutros climas parecidos com o nosso.
E também varia muito de um ano para o outro. Portanto, há anos que são anos secos e há anos que são anos úmidos. Portanto, esta é uma segunda característica de água que a torna especialmente interessante. A terceira característica de água que a torna também muito interessante é que ela transporta muita coisa. Há muitas outras substâncias que se dissolvem em água e depois a água leva essas substâncias por aí. E, finalmente, e não menos importante, nós somos água.
70% do nosso corpo é água e todos os seres vivos são feitos de água. E, aliás, quando vamos à procura de vida noutros planetas, o que é que nós procuramos? Água. Porque a água é essencial à vida como nós a conhecemos. Portanto, acho que por estas razões e todas as mais, a água merece bem um episódio próprio. Somos nós e as melancias. Nós e as melancias. É isso mesmo. E tudo o resto. A economia, ao contrário do azeite, mistura-se mesmo com a água?
Tem de se misturar, porque não conseguimos gerir bem a água se não entrarmos com a avaliação económica. Sim. E existem vários tipos de água? Existem vários tipos de água. A água, mais uma vez, como eu disse, é uma coisa fascinante. Então, vamos lá ver. O que existe mais é a água salgada. A água onde está dissolvido, sal. Portanto, isso é o que existe mais neste planeta, é a água salgada. É a água do mar. Depois existe a água doce. Dentro da água doce, que tem menos teor de sal, existe a água superficial.
E a água subterrânea, nas zonas terrestres onde nós habitamos, existe a água superficial, que são os rios e os lagos, e depois a água subterrânea, que são os aquíferos, que é a água que também está cá, não se vê, mas ela existe. São os lençóis de água. Os lençóis de água. Lençóis freáticos também às vezes se usa essa palavra. Depois temos, dentro daquilo que são as nossas utilizações, a água potável, que é a água que nós podemos beber.
Depois temos água nos vários estados, temos água no estado gasoso, que é o vapor da água, temos água no estado líquido, temos água no estado sólido, que é o gelo, a neve, portanto, tudo isso são estados da água. E depois ainda temos uma caracterização que é mais recente e também é muito interessante pensar, que é as cores da água, não sei se o Manuel já ouviu falar.
Não, mas nas malívas é mais verdeado, não é? Isso é o mar. Isso tem a ver com o que é que está no fundo e o que é que reflete. Mas quando nós falamos de gestão da água, nós distinguimos entre a água azul, que é a água que está no ecossistema, a água verde, que é a água que está no solo e é aquela que permite às plantas absorver e crescer.
A água cinzenta, que é a água que sai dos nossos usos urbanos e que pode ser reutilizada porque não está altamente contaminada. E a água negra, que é a água que tem contaminantes fortes. Por exemplo, a água que sai de uma sanita.
Não é uma água cinzenta, é uma água negra, ou seja, não se pode simplesmente passar... Não dá para aproveitar de forma nenhuma. Dá, mas tem que ser muito bem tratada, ou seja, não é tão fácil como a água cinzenta. Portanto, também há estas variantes de classificação de água por cores que também são interessantes.
Eu não estava à espera. Gostei. Eu tenho uma questão que é, sempre me disseram que água não se recusa. Embora, em alguns bairros do Algarve, onde já me recusaram um copo de água, haja alguma ambiguidade. Enfim, o primeiro passo para discutir esta questão é garantir o acesso de água a toda a gente, o acesso de água universal.
É sim, senhor. O acesso ao abastecimento de água e ao saneamento é um direito humano proclamado pelas Nações Unidas em 2010. Portanto, nós, do ponto de vista da gestão do recurso, temos que ter sempre esta condicionante que é todos têm de ter capacidade de ter acesso ao mínimo abastecimento de água que é necessário a todos. Isto é obrigatório.
Portanto, assumindo que todos devem ter direito à água, podemos assumir que a água não pode ser um bem privado. Porque se é de todos, ou se todos devem ter direito...
Não é a mesma coisa, porque uma coisa é ter acesso à água e outra coisa é ter a água toda que se quiser para encher fontes e piscinas. Não é a mesma coisa. Portanto, nós temos que distinguir aquilo que é o acesso a um bem essencial e aquilo que é depois o uso que nós fazemos desse bem e que não é necessariamente um uso tão condicionado, digamos. Certo.
Se a água é um bem público ou privado, é uma questão que é muito debatida. Há duas definições diferentes, a definição jurídica e a definição económica. Portanto, na lei é muito claro, desde o direito romano, que nós utilizamos o conceito de água como bem público. Ou seja, a água está no domínio público e, portanto, pertence a toda a gente. Não quer dizer que não haja direitos de utilização de água e de transferência de água e por aí fora. Portanto, do ponto de vista do direito público...
Do direito romano e do direito atual, mesmo em Portugal, a água é do domínio público. Certo. Do ponto de vista económico, a definição não é igual. Ou seja, do ponto de vista económico, nós dizemos que um bem é público ou privado consoante as características que esse bem possui. Por exemplo, a água desta caneca... Vou beber aqui um golpe, estou com um bocado cedo. Força, Catarina.
Esta água que eu bebi, o humano já não pode beber. Isto significa que esta água que aqui está é um bem rival no consumo. Ou seja, se eu beber a água, a mesma água não está disponível no mesmo momento para outra pessoa usufruir do bem. Portanto, esta é uma primeira característica da água potável, que é um bem rival no consumo. Certo. Ora, um bem que é rival no consumo... E então, essa é uma boaição! E aí
E que também eu consigo excluir outra pessoa do acesso, por exemplo, eu pego na caneca e o Manel diz eu quero, e eu digo não, esta é a minha, eu consigo excluir o acesso. Então este bem não é um bem público, porque em economia, para um determinado bem ser classificado como um bem público puro, digamos, ele tem que ter estas duas características. Tem de ser não rival no consumo e tem de ser impossível excluir qualquer pessoa de ter acesso ao bem. Impossível fisicamente, não é legalmente.
Portanto, do ponto de vista económico, um bem público é um bem que pode e deve e tem de ser partilhável, é isso? É, pode e deve e é partilhável, por natureza. E que exemplos é que nós temos? Portanto, já vimos aqui a água na minha caneca, é um bem privado, e se eu pensar, imagino, a água na torneira de uma instalação industrial.
com uma determinada pressão, com determinada qualidade, com determinada garantia de disponibilidade. Esse bem é um bem privado, é um bem rival, o que a empresa usar ali não está disponível para outras pessoas e é possível de excluir porque eu faço fecha-torneira, fecho o acesso, não é possível outras pessoas chegarem lá. Portanto, é um bem privado, não tem dúvidas. Vamos para os bens públicos.
No outro extremo, nós depois temos a água como bem público puro em algumas das suas encarnações. Por exemplo, a água no ecossistema é um bem público puro. Os usos que nós fazemos dela no ecossistema, imagina, vai para o rio, está a ver a ribeira a passar. Se tiver outra pessoa a ver a ribeira a passar, isso não diminui o seu usufruto daquela ribeira. Portanto, está a consumir, não é bem um consumo, é um uso.
E a outra pessoa também está a usar e ninguém está a ser prejudicado por estarem os dois a usar ao mesmo tempo. Por exemplo, se eu quiser ir treinar para um Ironman na Praia de Caxias a nadar? É um bem público aquela água. A água no mar é um bem público. Fantástico. É um bem público puro. Porque está lá, todos podem usar ao mesmo tempo e não pode excluir ninguém de usar. Portanto, a água da chuva, dos rios, dos oceanos, é tudo um bem público.
Sim, em princípio a água no seu estado natural, no regime do ecossistema, é um bem público. Já falámos dos bens privados, dos bens públicos puros, mas depois isto é todo um espectro. E aqui no meio há um tipo de bem que a água também pode ser, que é um bem comum. Chamamos bem comum em economia a um bem que tem rivalidade no consumo, ou seja, o que eu tirar não fica disponível para os outros, mas que não tem capacidade de exclusão, sobre o qual não temos capacidade de exclusão.
E a água também tem um exemplo de bem comum, que são os aquíferos. Portanto, quando nós temos um grande lençol de água subterrâneo, todas as pessoas que têm acesso à terra que está por cima desse lençol de água podem fazer um furo e ir lá buscar a água. Certo. Ou seja, é impossível excluir. Porém, tudo o que é tirado do aquífero, por exemplo, para a rega, tipicamente é o que se faz, deixa de estar disponível para outro agricultor também regar.
Portanto, aqui é um bem que nem é um bem privado, nem é um bem público, é um bem comum. Quando temos bens comuns à economia,
E aí
Há aqui um problema na gestão destes bens, que é que cada um sabendo que se eu tirar é para mim e não está disponível para os outros, se eu deixar, nada me garanto que os outros não vão lá tirar e que eu para a próxima vez que precisar não tenho, não é? Portanto, há um certo incentivo a tirar a mais para conseguir garantir o benefício. Isto chama-se a tragédia dos comuns. Sempre que um bem é rival, mas com acesso livre ou facilitado,
nós temos potencial para se criar esta tragédia dos comuns, que é que cada um só consegue beneficiar do recurso se conseguir chegar-lhe já. Porque se o deixar lá, se calhar vem outra pessoa e tira. Há um exemplo muito interessante que até nos mostra que nem todos os bens comuns são mal geridos pelas comunidades. Ou seja, há bens comuns onde acontece esta tal tragédia dos comuns, que está identificada como um fenómeno na economia, mas também há outros bens que são bem geridos pelas suas comunidades. E, por acaso, aqui em Espanha...
Há dois aquíferos que são próximos, mas que são geridos de forma completamente diferente e que ilustram bem este contraste. Então, temos o aquífero da mancha ocidental, o chamado aquífero 23, para quem anda nestas andanças é um aquífero muito famoso, o aquífero 23.
Onde temos sistematicamente o nível de água a baixar. Claro que quando chove muito, como por exemplo este ano, certamente o nível da água vai subir, mas é um aquifre que sistematicamente, sempre que há um ano médio ou um ano seco, o nível de água baixa. E porquê? Porque há muitos utilizadores cá em cima, muitos deles nem sequer têm licença de utilização, portanto são utilizadores ditos ilegais, e estão a tirar água, e todas as instituições que foram criadas no aquifre da mancha ocidental do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do campo do
são no sentido de defender os ilegais daquilo que estão a fazer, porque precisam, porque não sei o quê, e o aquífero continua a ser mal gerido do ponto de vista ecológico. Ou seja, temos uma tragédia dos comuns para esse aquífero. Ao lado, temos o aquífero da Mancha Oriental. O aquífero da Mancha Oriental tem menos proprietários por cima, portanto, tem menos utilizadores, cerca de mil versus 15 mil para o outro caso, e esses utilizadores criaram um sistema também com o apoio da Bacia Hidrográfica do Rio Júcar, que é o rio que esse aquífero alimenta,
E esses utilizadores montaram um sistema institucional de gestão das captações que tem assegurado que o acuífero recuperou o seu nível e nunca baixa muito. Portanto, temos aqui um exemplo de um bem comum, em ambos os casos, um com a tragédia e outro que não tem tragédia, ou seja, que é bem gerido em que os utilizadores conseguem todos beneficiar. Eu gostava de acrescentar que no caso da tragédia, portanto no caso do acuífero 23, E aí
Isto tem impactos não é só para os utilizadores que estão ali, não é só para as pessoas que têm posses naquele aquífero. O aquífero 23 é o aquífero que alimenta a nascente do Guadiana. Isto diz-nos respeito a todos, a nós também. O Guadiana deixou de nascer onde nascia. Não sei se o Manel tem esta consciência. Não tinha. Porque secaram o aquífero 23, baixaram o nível do aquífero 23, não secaram completamente, mas ele tem baixado. Isso significa que aquela água deixa de vir escorrer.
Onde nasceu o rio Guadiana, numa terra que se chamava Olhos do Guadiana, já não nasce o rio Guadiana. O Guadiana agora nasce 40 ou 50 quilómetros mais à frente. Porque estamos a tirar um excesso de água no aquífero. Isto significa também que uma zona úmida importante, que era ali naquele local, que é as tábulas de Daimiel, muitos anos aquela zona úmida passa a ser seca. E houve inclusive um ano depois de vários anos de seca em que as tábulas de Daimiel pegaram fogo. Caramba! Portanto...
também há estas consequências dos aquíferos serem mal geridos. Não é só os utilizadores daquela água que deixam de ter acesso à água quando precisam. É também todo o ecossistema que está à volta, como falámos há pouco, a água mexe-se. A água não está ali parada, ela sai, está no aquífero, vai saindo, vai alimentando nascentes, vai alimentando rios. Quando nós damos cabo do aquífero, damos cabo de uma série de coisas que acontecem ali à volta.
Esta preocupação com a gestão dos recursos da água é uma coisa nova, é uma coisa recente?
É preciso dizer que, na história da humanidade, uma série de civilizações humanas que surgiram a partir do momento em que a espécie humana decidiu optar por sedentarismo, não é? Portanto, já éramos nómados e depois passámos a ser sedentários, isso imediatamente levou à questão de como é que vamos ter acesso à água. E a partir daí criaram-se as primeiras infraestruturas hidráulicas. Isto em todas as civilizações antigas. Certo. Nós vamos ver a história que era...
no Indus, quer na Mesopotâmia, quer na América do Sul, as grandes civilizações humanas que surgiram, a primeira coisa que fizeram foi como é que nós fazemos a gestão da água. Portanto, a água para nós bebermos e para termos acesso e para regarmos é uma água que tem que ser captada, levada, eventualmente tratada. Então, eu vou fazer aqui uma questão desafiante. A água da nascente, que é para beber, mas não tem de ser tratada.
A água da nascente, à partida, ela não é um bem público puro, porque se for para beber, é um uso rival, certo? Quando eu atiro para beber, vou lá e encho os garrafões, ou vou com uma bomba e encho um caminhão cisterno. Certo.
aquela água que eu levo dali já não está disponível para quem vem a seguir. Portanto, essa não é um bem público puro. Passa a ser privada e rival a partir do momento em que é para consumo, no fundo. A partir do momento em que é para um uso consumtivo. Portanto, nós distinguimos os usos consumtivos da água e os usos não consumtivos da água. Os usos não consumtivos tipicamente são não rivais, ou seja, aqueles que já falámos, portanto, do aproveitamento, de nadar, mas também, por exemplo, de navegação.
O uso de navegação também é um uso, em princípio, não rival. Em princípio. E, portanto, o uso, agora aqui é um bocadinho mais polémico, mas tipicamente classifica-se como não-consuntivo o uso da água nas barragens. Certo. Para passar nas turbinas, para produzir eletricidade para nós todos, não é? Portanto, esse uso tipicamente é classificado como não-consuntivo porque a água não chega a sair do meio. Agora, é claro que...
O impacto que tem o Manel ir tomar banho a um rio ou ter uma barragem que está a turbinar água no rio, do ponto de vista ambiental, é completamente diferente. À partida será diferente uma pessoa ou um monte de betão. À partida é completamente diferente. Não obstante, ambos esses usos são classificados como usos não consumtivos. Certo. E do ponto de vista dos usos consumtivos, onde é que se consome mais água em Portugal?
Bom, em Portugal e aliás no mundo inteiro, o setor tipicamente divide-se, embora pode-se dividir de forma um pouco mais fina, mas tipicamente divide-se o consumo de água, portanto os usos consumativos de água em três setores principais, que é o setor residencial, doméstico, os sistemas urbanos.
Claro que no meio disto há algum comércio e serviços que estão nos sistemas urbanos, não é? Mas o doméstico, o agrícola e o industrial puro. Portanto, são estas três grandes categorias de usos consumtivos que se calculam sempre e se analisam em todo lado. E no mundo inteiro, bem como em Portugal, o principal utilizador do ponto de vista consumtivo da água é a agricultura.
Portanto, estamos a falar de consumos na ordem dos 70% da água que é captada vai para a agricultura. É uma diferença muito grande. É muito grande. Depois, a nível mundial, os outros dois usos repartem-se mais ou menos ela por ela, 15% cada um. Em Portugal, um bocadinho mais o doméstico do que o industrial. Portanto, o doméstico anda ali na volta dos...
Talvez 16%, 17% e o industrial é abaixo dos 10%. Isto varia um bocadinho de ano para ano. E essa água, esses 16%, sensivelmente, que nós consumimos em Portugal, é água de qualidade? É água de qualidade. Podem estar-se descansados porque nós temos uma entidade reguladora, que é a AirSAR, e essa entidade reguladora monitoriza a qualidade da água nas torneiras. Sim. 99% da água em Portugal é de boa qualidade.
E a água dos rios, por exemplo, onde nós mergulhamos, estamos com bons níveis de água? Eu posso dar um mergulho no estuário de lutejo, por exemplo?
O estuário do Tejo, em particular, já foi pior. Certo. Já foi pior. Ou seja, nós tínhamos, durante muitas décadas, tínhamos esgoto da cidade de Lisboa a ser descarregado diretamente no estuário do Tejo, portanto, não se aconselhava minimamente. Com a entrada em funcionamento das estações de tratamento, o recurso tem uma qualidade muito melhor. Pode tomar banho no estuário do Tejo. Aliás, não é por acaso que agora também voltaram os golfinhos ao estuário do Tejo. Exatamente. Porque ali não havia esse tipo de vida.
Porque não havia qualidade na água. Neste momento o estuário já tem uma qualidade melhor. Não vou dizer para beber essa água, até porque ela não é potável. Certo. Não está tratada e tem um bocadinho de teor de sal. Exatamente, no estuário. Mas para nadar eu diria que sim, Manel, pode ir à confiança.
Os golfinhos são um bom indicador de limpeza da água. São. Agora, dito isto, também ainda falando da qualidade da água, é importante dizer às pessoas que, infelizmente, do ponto de vista da qualidade ecológica da água, apesar de haver uma diretiva-quadro da água, que foi aprovada no ano 2000,
e que previa que até 2015 todas as massas de água na União Europeia tivessem atingido um bom estado ecológico, e as massas de água são os rios, os lagos, as águas subterrâneas, as águas costeiras, as águas de transição entre o rio e o mar, portanto tudo isso são massas de água, a Diretiva Quadro da Água previa que essas massas de água deviam atingir um bom estado ecológico na União Europeia. Repito, isto foi no ano 2000.
Na última avaliação que foi feita, a porcentagem de massas de água que atingiu o bom estado ecológico diminuiu em relação à avaliação anterior. Portanto, em 2021 já só tínhamos 40% das massas de água na União Europeia em bom estado ecológico. O que significa que nós temos progredido muito em garantir a água de qualidade às pessoas, mas não estamos a conseguir garantir água decente, de qualidade, no ecossistema. E porquê que isso acontece?
nós temos muitas utilizações e porque há muito valor económico associado ao uso da água e o ambiente tem alguma dificuldade em competir com isso. É deixado para segundo plano? Segundo, ou terceiro, ou quarto. É preciso termos mais consciência do capital natural? É, exatamente. Fiquei contente por ter conseguido utilizar esta expressão que aprendemos no primeiro episódio. Boa. Nós estamos a consumir mais água do que deveríamos? Essas escolhas estão a ser feitas devidamente?
Nós estamos a consumir mais água do que poderíamos. Certo. Poderíamos fazer o mesmo, captando menos água do ecossistema e consumindo menos água. Então, isso quer dizer que com todas estas campanhas de sensibilização, com toda a consciência coletiva que se tem vindo a criar para a boa utilização da água, o consumo de água não está a diminuir, antes pelo contrário.
Bom, as estatísticas da água também não são muito, muito... não temos estatísticas seguidas ano após ano, portanto temos algumas estimativas. Do ponto de vista do consumo doméstico, nós tivemos um aumento grande de consumo no final do século XX, depois no século XXI já tem havido uma redução, mas tem mais a ver com a melhoria nas redes de distribuição, portanto a eliminação de perdas nas redes de distribuição do que propriamente no consumo em casa de cada um.
A estatística da AirSAR, a última que está no site da AirSAR é que nós consumimos em média 197 litros por pessoa por dia, em média em Portugal, pois há municípios onde o consumo é mais baixo, há municípios onde o consumo é mais alto, mas é mais ou menos isto. E desses 197 litros, cerca de 125, 130 é mesmo para utilizações nas casas das pessoas. Já vimos nos sistemas urbanos que há outras coisas que estão a acontecer, não é? Mas, portanto, essas são as estimativas que temos.
Portanto, não conseguimos fazer essa análise do ponto de vista do uso doméstico. Sabemos, no entanto, que estamos a utilizar mais água do que poderíamos. Poderíamos. Exatamente.
A propósito do tema que temos estado a falar, deixo aqui uma sugestão de leitura. Água em Portugal é o mais recente ensaio do investigador Rodrigo Proença de Oliveira, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, e fala sobre a gestão dos recursos hídricos em Portugal e o impacto dessa gestão no modelo económico que queremos para o país. Numa época em que a escassez de água afeta cada vez mais os países das regiões mediterrâneas, como é Portugal, esta é uma reflexão que vale a pena conhecer. Saiba mais em ffms.pt.
Nós nos últimos verões tivemos mais secas, no início deste ano tivemos cheias. Idealmente guardávamos esta água até o verão e estávamos bem, para utilizar na altura de seca ou não? Há uma coisa que é importante dizer, porque às vezes as pessoas olham só para as médias e dizem Ah, em média nós temos bastante água, é verdade, mas já viu como o Manel referiu que temos muita variabilidade. E isto é como se diz em estatística, se eu tiver os pés no forno e a cabeça no congelador, em média a temperatura do meu corpo está boa, mas na verdade não está, é difícil gerir.
esta variabilidade tão grande. Portanto, esta é uma primeira coisa que é importante. A própria variabilidade de água, como eu disse logo no início do episódio, cria-nos desafios particulares. Se a solução seria guardar a água toda do inverno e depois usá-la no verão, temos de ter um bocadinho de cuidado, lá está, porque se nós guardarmos a água toda, o que é que acontece aos rios?
Os rios têm que correr. Os rios correm para o mar. Eles têm de lá chegar ao mar, não é? Portanto, nós não podemos fazer esse raciocínio que 100% da água que chove é para guardar nas barragens para nós, depois, seres humanos, utilizarmos quando bem nos apetecer. Porque esse é um raciocínio que, precisamente, está a menorizar aquilo que é o papel fundamental dos ecossistemas que são à base da água. Qual é a importância de um rio chegar até ao mar?
O rio é uma entidade que tem uma série de seres vivos associados, não é? Se eu digo que um rio tem que estar em bom estado ecológico, isso implica que o rio tem de fazer o seu trabalho. Um rio não é um canal de transporte de água do ponto A para o ponto B. O rio é muito mais do que isso. É toda uma comunidade de seres vivos que vive ali, quer os peixes, quer os anfíbios, quer os insetos.
As aves aquáticas, toda aquela comunidade que vive ali precisa que o rio ande, corra, corra com certas características, pois isto depende do clima, depende da altura do ano. Há rios que correm com muito caudal todo ano, há rios que correm pouco, mas isto faz parte do ecossistema. Se nós dissermos, há água ao metro cúbico, está a ver, tenho aqui metros cúbicos de água, olha, não estou a precisar, vou guardar para depois usar quando eu precisar. Então, sim.
E o resto. É outra coisa que também se diz muito e qualquer pessoa da ecologia das bacias hidrográficas lhe pode explicar isto melhor do que eu. Mas os rios têm que transportar os sedimentos. Como eu disse, uma coisa interessante da água é que ela leva coisas com ela. Não é só que ela se move, é que ela leva coisas dissolvidas e com ela. E os rios, por exemplo, trazem muita matéria orgânica até ao mar, trazem sedimentos ao mar. São os rios que alimentam as praias naturais.
Porquê é que nós depois temos tantas vezes praias que não tem areia? Onde a areia não chega? Porque a areia ficou retida lá atrás nas barragens. Portanto, nós temos que ter o cuidado de gerir os nossos, ou de deixar que os nossos rios funcionem como naturalmente é suposto eles funcionarem. Por outro lado, como nos faz muita falta a água no verão e como no inverno temos mais água do que aquela que precisamos para as necessidades de inverno, também faz sentido fazer algum investimento em retenção de água.
Como é que nós conseguimos otimizar essa gestão da água para conseguirmos ter água suficiente no verão, por exemplo? Pois, lá está. Otimizar com que critério? Isto é logo uma questão importante, porque quando eu que falo em otimizar a gestão da água...
Eu vou otimizar para quê? Para quem? Se for otimizar, se fosse otimizar só para as pessoas beberem nas cidades, a quantidade de água que era necessária, se calhar não era assim tão elevada. Certo. Se for para otimizar para uso agrícola, e nós aqui temos um clima na Península Ibérica que...
Só chove quando as plantas não estão a crescer, não é? Portanto, temos um período de inverno em que as temperaturas estão mais baixas e há menos crescimento vegetativo, há água. E depois, quando a temperatura sobe, deixa de haver água. E, portanto, nós temos aqui que gerir esta... Para produzir alimentos na Península Ibérica, nós temos que gerir este dilema de as plantas que nós queremos comer precisam de ser regadas no verão.
Portanto, sem dúvida que isso é necessário. Mas queremos otimizar a água com base em quê?
Para as cidades, para as indústrias, para a produção de eletricidade, para o uso agrícola. Temos de fazer escolhas. Temos de fazer escolhas. Podemos classificar isto tudo, podemos fazer contas económicas sobre isto tudo e ver o que é que vale mais. Mas temos condicionantes, temos de garantir o acesso à água das populações, temos de garantir o estado ecológico dos nossos rios. Portanto, tudo isto tem de ser devidamente ponderado.
não deveríamos arranjar forma de conseguir reter mais água nas bacias dos rios? É muito importante para nós realmente ter essa água quando nós precisamos dela, nas bacias dos rios. Mas quando se diz uma coisa dessas, devíamos conseguir reter mais água nas bacias dos rios. As pessoas pensam em quê? Barragens. Barragens, claro. É óbvio.
Reter mais água é meter barragens nos rios, meter muros de botão a cortar o rio. Agora, o que as pessoas esquecem é que uma das formas mais eficazes de reter água é no solo. Lembra-se da água verde, que falamos há pouco? Sim. A água verde é que faz crescer as plantas, é que dá água às nossas florestas. Portanto, nós podíamos reter muito mais água no solo se o nosso solo estivesse em melhores condições. E isto não é só para um local, é para todas as bacias hidrográficas em todo o território.
Portanto, nós, vou-lhe dar um dado que talvez não conheça, Manel. Porque imagina um campo de futebol que tem um hectare. Num hectare, que é um campo de futebol, se aumentar 1% de matéria orgânica naquele solo, consegue reter mais 170 mil litros de água. É 170 mil? Num hectare, 170 mil. Agora imagine isto à escala. O que é que se entende por matéria orgânica? Pronto, a maioria dos nossos solos é pobre em matéria orgânica, porque foi muito...
Pronto, temos muita agricultura ao longo de muitos séculos e, portanto, os nossos solos têm esta fraca, o fractior de matéria orgânica. Matéria orgânica é o quê? É carbono, basicamente, mas são, por exemplo, restos de plantas, restos de animais, vida no sol.
O que ali existe, depois dá origem a todo um sistema chamado microbioma do sol, que vive ali, e que quanto maior for a matéria orgânica que nós deixamos naquele sol, mais a água nós conseguimos reter. Não sei se o Manel já pensou alguma vez, quando não chove no verão, porque em Portugal é normal, com o nosso clima, podem estar três meses sem chover. Como é que os rios correm? Boa questão.
Boa questão. O ciclo da água diz-nos, a água vem do rio, vai para o mar, evapora, depois chá, chove. Quando chove, o rio corre outra vez, não é? Então e o verão? Como é que os rios correm? De onde é que vem essa água? Estava onde? Estava no sol. Estava retida no sol. Nós costumamos dizer que a boa gestão da água numa bacia hidrográfica implica...
abrandar a água quando ela cai da chuva, abrandá-la, espalhá-la e infiltrá-la. E é assim que nós conseguimos reter mais água numa bacia hidrográfica. Não é só as barragens. As barragens são boas e são úteis e até um certo ponto. Mas têm impactos ambientais muito negativos. Portanto, temos que ponderar essa disponibilidade.
típica da retenção de água em grandes infraestruturas cinzentas de betão e aquilo que é a capacidade de retenção de água de um sol que é um sol vivo, de um sol que é um sol florestado ou pelo menos coberto de vegetação. Embora os rios continuem a correr no verão, é mais difícil em certas zonas, em certas regiões, o acesso à água. É possível aplicar uma espécie de lei de oferta e da procura à água, embora isto seja um pouco distópico?
Não é distópico. A água, enquanto bem económico, que tem valor económico, o preço que vai resultar tem a ver com os mecanismos de procura e de oferta, como em qualquer outro mercado. Porém, o mercado de água não é um mercado qualquer, lá está, porque a água tem estas características todas que a tornam especial.
E, em particular, aqui eu queria salientar duas. Portanto, vai haver um preço da água, quando a água é fornecida através de infraestruturas, por exemplo, mas nesse preço há duas características que a distinguem de outro tipo de mercados mais habituais. Portanto, primeira característica...
As infraestruturas grandes, pesadas, cinzentas, são infraestruturas que tipicamente têm custos muito elevados. E sobretudo face ao que é depois o custo de captar um metro cúbico e passá-lo por ali. Portanto, primeiro tem que se construir aquela rede toda, aqueles canais, aquelas condutas, aquelas estações de bombagem, tudo aquilo tem que ser construído. E depois é que começamos a passar água por lá, não é? Portanto, quando temos uma coisa com essa natureza, em economia isto chama-se um monopólio natural.
Porque não é possível, num sistema com essas características, criar concorrência entre várias empresas. Não é possível haver ali várias empresas a concorrer, a fazer condutas ao lado, está a ver condutas concorrentes àquelas. Isso não é uma coisa que faça sentido porque o custo da infraestrutura é muito pesado. Então, essa é a primeira característica do mercado da água. As infraestruturas são...
pesadas, ou do mercado dos serviços de água, se quisermos. As infraestruturas são pesadas, são muito caras e isso configura um monopólio natural do ponto de vista económico. Qual é a consequência? Temos que deixar que quem vai fornecer aquele bem às populações o faça em regime de monopólio. Não pode ser feito livremente. Os monopólios, tipicamente, cobram preços demasiado elevados. Vão ter um lucro excessivo, um lucro que nós consideramos anormal. Imoral até no limite, no caso da água, por exemplo.
Podia-se afirmar que sim, mas eu não vou entrar por aí. Portanto, a ideia é que, como esta é uma característica importante da água, sempre que um dos seus usos implica construção de infraestrutura, essa infraestrutura tipicamente é um monopólio natural, o que significa que vai haver uma entidade gestora a gerir aquela infraestrutura e não faz sentido que seja de outra forma, porque seria um disparate de custo se eu tivesse que obrigar várias empresas a fazer infraestruturas ou municípios a fazer infraestruturas concorrentes.
Não faz sentido. Portanto, essa é uma primeira característica. Uma segunda característica dos preços da água. Tanto presta água...
Tem que incluir todos os custos do serviço de água e esse inclui não só os custos das ditas infraestruturas, da energia, das matérias-primas que depois são usadas dos produtos químicos, por exemplo, de tratamento, tudo isso tem que ser incluído no preço de água, mas também...
O preço da água deve incluir os custos ambientais e de escassez nos ecossistemas que nós temos porque estamos a usar uma coisa que é de um ecossistema e que faz parte daquela infraestrutura verde. Está a ver? Portanto, temos aqui duas vertentes bastante diferentes. Uma é...
Pela natureza da infraestrutura que nós precisamos de construir, aquilo é um monopólio, esse preço não pode ser um preço qualquer, porque os monopólios têm tendência a cobrar preços altos demais e temos que os regular. Por outro lado, temos que garantir que tudo o que são custos ambientais que o mercado nem vê, compra e venda, transação, nem viu o que é que estava a acontecer ali.
esses custos ambientais e descassez também têm que entrar no preço de água. Portanto, o preço de água tem que ter todas estas componentes. E isso nunca vai acontecer num sistema livre de mercado. Portanto, o preço de água não pode ser só estabelecido na livre interação entre procura e oferta. Nunca. Mas é possível que uma empresa privada faça da água, que é um direito universal desde 2010, como a Catarina disse no início do episódio, um negócio que lucre com isso, com a distribuição da água?
É possível, mas cabe aos reguladores garantir que esse lucro que a empresa está a tirar é um lucro normal daquela atividade e não um lucro excessivo. Não há a água sendo um bem comum, no ecossistema até um bem público, quando ela sai daquele bem é captada para depois ser transportada e tratada e entregue.
Esse serviço do transportar, captar e entregue, se uma empresa conseguisse fazer isso e o fizer bem, pode gerar ali algum lucro, pode remunerar o seu capital, mas não pode ser um lucro excessivo.
O que é que é considerado um lucro excessivo e o que é que é considerado um lucro normal? Tem a ver com qual é a rentabilidade normal num determinado mercado de capitais. Portanto, se tiver, imagine que a sua rentabilidade no mercado de referência é, por exemplo, 5%. Se há ali uma empresa que está com rentabilidade de 20%, isso é um lucro excessivo. Há ali qualquer coisa, isso é um sinal. Isto tem todos os setores, não é só na água, não é?
Sim, sim. Em todos os setores, se a gente vê de repente um lucro muito alto, isso deve ser para as autoridades da concorrência em qualquer país, um sinal que passa-se aqui qualquer coisa.
Porque não é suposto, no mercado que está a funcionar, com concorrência entre empresas, não é suposto as empresas estarem a conseguir tirar lucros extraordinários. No caso da água, é garantido que não se pode deixar o mercado estabelecer o preço livremente e tem que haver uma regulação desse preço, seja para os consumidores domésticos, seja para os agrícolas, seja para os industriais. Ou seja, a partir do momento em que há infraestrutura e que há entidades gestoras dessa infraestrutura, sejam elas públicas ou privadas, aliás, também vou dizer isto, Manel.
seja uma infraestrutura pública ou privada, também pode ser o município a fazer a gestão. O preço da água tem que levar em consideração os diferentes aspectos. Certo. Portanto, à partida, o preço da água não vai necessariamente aumentar quando há falta dela.
Teoricamente, eu podia dizer, se há mais escassez, o preço devia subir. Portanto, em situações de escassez, o preço deve aumentar. Agora, do ponto de vista estrutural, isto faz sentido. Se nós estamos numa zona onde estruturalmente há pouca água, a água deve ser cara. Porque é escassa.
Porém, quando há uma situação, em média temos água para todos, há um preço que funciona e de repente temos um pico de escassez, não faz sentido achar que eu vou resolver aquele desequilíbrio entre procura e oferta subindo extraordinariamente o preço da água. Sim. Porque não podemos fazer isso, portanto. Até porque há uma coisa interessante, que é bem conhecida também deste recurso, a elasticidade procura preço da água, que é uma coisa que nós, um indicador que nós calculamos, que nos diz...
Se a quantidade procurada de água reage muito ou pouco às mudanças de preço, a elasticidade procura preço significa dar-nos uma medida dessa reação, a água é um bem tão especial que quando o seu preço sobe, a quantidade cai, mas cai muito pouco, ou seja, cai...
Imagino que o preço sobe 10%. Se calhar a quantidade consumida de água cai só 1%. Certo. Está a ver? Há aqui um desequilíbrio entre aquilo que é o que foi o preço e o que faz a quantidade. Portanto, nós não conseguimos eliminar a escassez quantitativa simplesmente aumentando preços em momentos pontuais. Portanto, globalmente...
Se estamos numa situação, numa zona onde a escassez de água é estrutural, os preços têm que ser mais altos, até para moderar o consumo. Porque as pessoas esquecem-se que fala-se muito em necessidades de água. Mas quer dizer, necessidades de água é uma coisa, procura de água é outra. A procura de água é uma escolha, é uma opção. Quanto é que um ser humano precisa de água para viver? No dia-a-dia precisamos, sei lá, 2, 3 litros de água só para sobreviver.
Isso é as necessidades físicas do ser humano. Todos os seres vivos precisam de uma quantidade X de água para ficarem, para viverem e para crescerem, certo? Mas entre isso e os 197 litros que falámos há bocado... Sim, vai ali uma diferença. Vai ali uma diferença grande. Portanto, uma coisa são necessidades, outra coisa são...
Consumos desejados com base nos preços. A procura de água é sempre, na economia, uma relação entre preço e quantidade. Nós não podemos esquecer, na parte da procura, não podemos esquecer que o preço é um fator fundamental. É um elemento que influencia as escolhas dos utilizadores e, como tal, deve ser corretamente calculado e deve ser corretamente utilizado.
Não vai resolver as situações de escassez, porque a elasticidade é baixa e, portanto, em situações de escassez muito aguda, nós vamos ter que entrar com medidas complementares, naturalmente. Se calhar não aos 16% do uso doméstico, mas talvez aos 70% do uso agrícola, eventualmente não.
No uso agrícola, o elemento preço é também um elemento importante. Ou seja, nós temos que reconhecer que, apesar da importância da agricultura para a alimentação e para a base de todo o nosso sistema económico, a água sendo escassa, os agricultores têm de pagar por ela. E têm de pagar um preço que seja razoável para não deixar...
haver um excesso de consumo de água. Sim. Nós antes de pensar em aumento de preços não deveríamos pensar talvez antes em evitar desperdícios ao máximo? Claro que sim, temos de pensar, mas eu não diria antes ou depois. Eu diria pensar as duas coisas ao mesmo tempo, Manel. Certo. Porque o próprio aumento do preço da água também funciona como um incentivo adicional para fazer esses investimentos de redução de perdas, não é? Portanto, não diria que tem que se fazer primeiro uma coisa e depois a outra.
Ou seja, o que nós temos que pensar é, simultaneamente, temos que ver o preço com o papel que ele tem, que é um papel fundamental, embora não resolva a dinâmica toda que tem o mercado de água. Em paralelo, nós podemos ter instrumentos de controle da eficiência e esses instrumentos são complementares ao instrumento de preço. Mas otimizar a utilização da água não significa necessariamente que o consumo da água diminua.
Pois, isso agora depende mais uma vez do que é que entendemos por otimizar. Se estivermos a pensar na otimização da água no sentido de usar o mínimo possível de água para um determinado objetivo, que é a típica definição de eficiência, não é? Pode acontecer um resultado que se chama o paradoxo Jevons, que é o Jevons era um economista...
assim um bocadinho maluco até, para dizer a verdade, no século XIX, que escreveu um panfleto que se chamava A Questão do Carvão. Ele estava preocupado com o carvão, não estava preocupado com a água, mas ele dizia que há aqui um paradoxo com o carvão, quanto menos carvão nós precisamos para as atividades económicas, mais interesse temos em expandir o uso do carvão noutras atividades. Não sei se me fiz entender, isto é um paradoxo.
Ou seja, a pessoa pensa, ah, se eu preciso de menos carvão para este tipo de forno,
por, enfim, imagino, por Joule de energia que é produzida se calhar isso significa que o carvão é mais interessante para outras atividades e à medida que vamos expandindo a utilização do carvão nas outras atividades de repente estamos a consumir cada vez mais carvão e o Jevons estava muito preocupado com isto porque dizia o carvão é a base da nossa economia estamos a falar do Reino Unido na Revolução Industrial, não é? Portanto ele estava super obcecado com esta coisa do carvão
Mas este paradoxo que, por vezes, quando nós poupamos no uso de recursos para a atividade pretendida, acabamos por aumentar o consumo total do recurso, é um paradoxo que também se aplica à água. E o exemplo que mais se costuma usar é na agricultura, porque, apesar de tudo, no consumo doméstico...
Se a minha torneira for mais eficiente, eu não vou deixar a torneira correr mais tempo. As pessoas não têm tanto esse tipo de comportamento. Agora, no caso da agricultura, isto está estudado. Portanto, nós temos um... Houve um artigo relativamente recente que faz uma comparação de todos os regadios onde foram implementadas políticas de modernização dos regadios para reduzir o consumo de água necessário. Ou seja, por exemplo, antigamente tínhamos rega por gravidade.
A rega ia assim em canais abertos e depois ia-se orientando a água lá no... Aquilo é muito... perde-se muita água. E eu estou por aqui o perde-se. Está a fazer aspas. Para quem está a ouvir e não a ver. Portanto, perde-se muita água. Então nós pensamos, vou passar, por exemplo, uma rega gota a gota. Em que aquilo é aplicado à planta só mesmo aquilo que a planta precisa. Está a ver com sondas de umidade no solo. Isso é o máximo de eficiência.
Eu vou a dar à planta só aquilo que ela precisa. E o manel diz-me, então, reduz-se o consumo de água.
Não? À partida. À partida, pensaria que sim. Mas neste estudo que eu lhe estava a falar, eles estudaram 161 casos de modernização de regadio no mundo inteiro. E desses 161 casos, mais de 80%, 83% se a memória não me falha, resultou num consumo global de água maior.
Portanto, houve uma modernização do regadio para aumentar a eficiência na aplicação da água. E o resultado final disso é que há maior consumo de água. Mas porquê? Porque se mudam as culturas, porque se aumenta a área de rega, porque agora aquela água que se perdia nas contas mentais das pessoas que fazem gestão destes sistemas, ela já não é perdida, então está disponível para fazer outras coisas.
Mas aquela água, porquê que eu puse o perder, entre aspas? Porque aquela água não se perdia. O que é que acontece à água que está num canal, não é posta na planta? O que é que lhe acontece? Ela enfilga, vai outra vez para o cuífero, ela volta. Portanto, se eu estou a fazer as contas, a dizer, ah, esta água perdeu-se, não estava a ser produtiva, agora eu estou a perder menos água, logo tenho mais água para gastar, logo vou pôr mais hectares de regadio a funcionar.
E por isso é que há uma pressão, naturalmente, que aumenta o rendimento dos agricultores. Isso é normal.
Mas, do ponto de vista da gestão integrada do recurso, isto não funciona. Portanto, a eficiência é bom, é útil, mas tem que ser acompanhada de medidas de preço e de medidas de regulação. Como existem, por exemplo, os mercados de carbono, que é um instrumento também para controlar a emissão de gases com efeito de estufa, faria sentido existir também essa liberalização de mercados de água?
Vamos lá ver. Os mercados de água podem existir e em alguns países existem. Aliás, é uma coisa que em Portugal não tem sido muito aplicada, mas está prevista em Espanha. Por exemplo, existe alguma transação de água em mercados, na Austrália, em algumas zonas dos Estados Unidos, no Chile. Portanto, existem mercados de água. Agora, há uma diferença muito importante em relação aos mercados de carbono.
O carbono, uma tonelada de carbono mais na atmosfera, é uma tonelada de carbono mais na atmosfera. Não interessa de onde ela vem, não interessa onde ela foi emitida. Na água, isso não é nada assim. Nós não podemos fazer o cálculo da água assim, metro cúbico por metro cúbico, como se as coisas fossem todas iguais. O metro cúbico de água numa bacia que tem escassez, não é a mesma coisa do que o metro cúbico de água numa bacia que tem abundância.
Certo. Portanto, nós precisamos de ter em consideração que se eu trocar de uma para a outra, eu estou a mudar as...
potencialmente, se a minha transação for significativa, eu estou a mudar as características daquele ecossistema. Portanto, às vezes diz-se em Portugal, mas noutros países também, ah, nesta bacia chove muito, nós não usamos assim tanto, então sobra água. Sobra por alma de quem? Como é que sobra? Está no rio, vai para o mar. Não sobra, ela está a fazer uma função, que é uma função ecológica. Ok? Do ponto de vista humano, não estamos a usá-la toda.
Mas não é suposto nós usarmos a água toda. Portanto, quando falamos em mercados de água, temos de ter atenção do que é que exatamente vai ser o impacto desse suposto mercado que vamos pôr a implementar. Eu diria que mercados fora da bacia hidrográfica, para mim, são mercados maus. Porque vão criar pressão sobre outro ecossistema que não é o ecossistema daquela bacia em que estamos a usar a água.
Já que estamos a falar de mercados, eu no outro dia ouvi falar sobre mercados virtuais de água. Isto é uma espécie de cripto-água? Não.
Não. Os mercados virtuais de água é um termo que se utiliza para reconhecer que, muitas vezes, a água é transacionada não na sua forma líquida, não é transportada na sua forma líquida, mas incorporada em produtos ou em alimentos. No caso dos alimentos isso é muito óbvio. Ou seja, por exemplo, imagino que está a regar super eficiente uma exploração de tomate.
E aquele tomate depois de pronto é empacotado e vai para o Reino Unido. Naquele tomate vai água.
E por isso é que se diz por vezes, imagina, para cada alimento nós conseguimos ter uma noção de quanta água é que está incorporada naquele alimento, ou que teve que ser usada para aquele alimento chegar ao estado em que chegou. Portanto, nós temos que pensar, muitas vezes, quando aplicamos a água aqui, estamos a dizer, estamos a fazer um ótimo consumo, porque toda a água que damos à planta fica na planta, uma boa parte dessa água vai ser exportada para fora daquele ecossistema. E, portanto, também temos que levar em consideração essa água dita virtual.
Muito bem, estamos aqui a chegar ao fim do episódio. Vou-lhe dar a oportunidade para dar aqui umas últimas palavras sobre a água e sobre o que quiser, na verdade. Sobre a economia e clima, exatamente. Então, eu gostava de aproveitar esta pergunta, Manel, para relembrar a todos que...
Há muitos instrumentos, os instrumentos económicos são importantes, mas as soluções baseadas na natureza estão à nossa disposição. E no caso da água também temos muitos exemplos. No episódio passado falámos dos castores, que são um excelente instrumento de retenção de água nas ribeiras. Falámos das bacias de retenção nas zonas urbanas.
Hoje já lhe disse que o solo tem o maior potencial de retenção de água de todo o espaço territorial, portanto muito mais do que as barragens. Sim, se houver matéria orgânica. Se houver matéria orgânica, portanto podemos focar, em vez de meter cimento a cortar os rios, podemos focar em recuperar a matéria orgânica dos nossos solos. Isso também é uma solução baseada na natureza, porque é uma forma de pôr o ciclo da água a funcionar melhor, a abrandar o ciclo da água, a manter a água na terra com uma água verde mais tempo.
E também nas zonas urbanas há muitas coisas que cada um pode fazer. Imagina, se tiver um quintal, se tiver um jardim, transforme esse quintal, esse jardim, numa zona de retenção de água, chamado jardins de chuva. Nós podemos plantar água.
Nós podemos criar vegetação num determinado local, essa vegetação, por existir e por transpirar, cria água, traz água. Portanto, nós temos que ter essa consciência nas zonas urbanas também, em todo o lado, que há maneiras de gerir melhor a água usando aquilo que a natureza nos ensina. E temos que nos lembrar sempre que neste planeta não estamos sozinhos, todos os seres vivos precisam de água, ainda bem.
Muito obrigado, professora Catarina Roseta Palma. Este foi o quinto e último episódio de uma série sobre economia e clima. Se caiu agora aqui de paraquedas, fica a saber que há mais quatro episódios para trás sobre este mesmo tema. Obrigado a quem nos ouve e no próximo mês voltamos com mais um tema do impertinente economia. Impertinente. Quando há factos, há argumentos. Um podcast disponível em ffms.pt e nas plataformas habituais.