OPINIÃO | POLARIZAÇÃO AFETIVA: ENTRE A POLÍTICA E AS EMOÇÕES | 08/05/2026
A polarização afetiva, fenômeno em que divergências de opinião se transformam em rejeição ao outro, ajuda a entender por que pessoas comuns, como um colega de trabalho ou até um familiar, passam a ser vistas como inimigas, levando até ao rompimento de relações. Há saída para essa intolerância?No Opinião desta semana, vamos discutir esse tipo de polarização e o que ela revela sobre a forma como nos relacionamos, convivemos e lidamos com as diferenças nos dias de hoje. Recebemos o filósofo Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas na EACH-USP e o analista político Beto Vasques, professor de Comunicação Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
- Polarização afetivaRejeição emocional de quem pensa diferente · Rompimento de relações familiares e de amizade · Redes sociais e opiniões extremas · Política como questão identitária · Intolerância política e falta de boa fé do adversário
- Diferença entre polarização ideológica e afetivaConsolidação da opinião em dois extremos · Hostilidade entre identidades políticas adversárias · Deslocamento do eixo da direita para a extrema-direita
- Saídas para a intolerância e retomada do diálogoDever do Estado em garantir segurança e qualidade de vida · Mobilização de afetos positivos · Responsabilidade da sociedade civil · Aceitar a boa fé do outro e abrir diálogo · Aprender a conviver com divergências
- Polarização no Brasil e nos EUATradição bipartidária secular nos EUA · Fragilidade de partidos de massa no Brasil · Bolsonarismo como identidade positiva forte · Polarização personalista no Brasil · Petismo e antipetismo como dinâmica eleitoral
- Polarização e relacionamentos afetivosSimilaridade política como variável na escolha de parceiros · Desafios na formação de casais com diferenças políticas · Aplicativos de relacionamento e identidade política · Intolerância política em relacionamentos
- Contexto histórico da polarizaçãoConsensos centristas pós-Segunda Guerra · Crise de 2008 e implosão dos consensos centristas · Momento populista e busca por saídas pelas pontas
- Afeto na políticaAfeto como paixão e não aniquilação · Mobilização de afetos negativos (ódio, medo, ressentimento) · Afeto moral e guerra cultural
- Mudança na divisão dos campos políticosDivisão entre Estado e livre comércio · Oposição entre conservadores de costumes e progressistas · Moralidade no centro da vida política · Pautas de costumes e julgamento moral
Eu sou Andresa Boni e você está ouvindo o programa Opinião. Diferentes opiniões para você formar a sua.
Olá, estamos há cinco meses das eleições e quando falamos em política, logo lembramos de um termo muito usado ultimamente, polarização. A palavra ganhou destaque na disputa de 2018, mas com o atual arranjo de partidos. Faz sentido falar em polarização ideológica? O que assistimos hoje tem mais a ver com uma rejeição emocional de quem pensa diferente. Qual a sua opinião?
As pessoas passaram a achar o seguinte, se você não era do meu partido, você não era inquista. E isso para mim foi horrível. Eu conheço uma filha que deixou de ter contato com a mãe durante um ano inteiro por conta de uma discussão política. A minha opinião é minha e eu não vou mudar a cabeça do meu amigo.
Então, eu prezo mais a amizade. Ah, isso é o que mais tem. Brigar por conta de política, eu mesmo discuto com o meu marido. Mas se eu vejo que está gerando atrito na minha família, deixar de comentar dentro da minha casa. Eu simplesmente corto até por uma questão de saúde mental mesmo. Só o fato de a gente ter como falar e com quem falar também já é um ato político. A visão política tem a ver com os princípios que a gente tem de vida, com a nossa visão de mundo.
Hoje, com a questão das redes sociais, a gente percebe que, sim, algumas pessoas podem ter se distanciado também. Já parei de seguir algumas pessoas em rede social, por postarem muitas opiniões extremas sobre políticos, não sobre política em si. Eu vejo que o posicionamento político...
Para muitas pessoas ele é uma questão identitária. Eu me abstenho de conversar com pessoas que têm opinião diferente da minha sobre partido político. Cada um tem e eu posso até não concordar, mas o respeito todos deviam ter. Mas o mais importante é a pessoa. A política é uma coisa que nós precisamos dela, porém ela é passageira.
Para conversar sobre polarização afetiva, recebemos Pablo Hortelado, professor de políticas públicas na USP, e o analista político Beto Vázquez, professor de comunicação política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Prazer tê-los aqui hoje com a gente para essa conversa.
Antes de a gente entrar no tema em si, que é a polarização, chamada polarização afetiva, acho que vale a gente entender aqui o que significa esse conceito de polarização em termos mais gerais. Olha, polarização, antigamente a gente entendia a polarização como...
a consolidação da opinião da população em dois extremos. Tipicamente, se fazia assim, se pegava um determinado assunto e você montava uma escala, fazia uma série de perguntas, por exemplo, o direito das mulheres, a mulher deve receber tanto quanto o homem, fazia uma série de perguntas sobre o direito das mulheres, montava uma escala. Você olhava no tempo, se essas posições começarem a se consolidar nos extremos, você tinha a polarização. Então, a polarização seria a tendência da opinião no tempo.
se consolidar nos extremos. O que a gente descobriu mais recentemente é que esse processo, embora ele exista e venha no decorrer dos últimos tempos acontecendo, as opiniões estão caminhando mesmo para os extremos de maneira muito mais acelerada e de maneira muito mais preocupante o que está acontecendo. É um outro fenômeno que a gente chama de polarização afetiva, que não é a polarização da opinião, é a polarização dos afetos.
que é a hostilidade entre pessoas que têm identidades políticas adversárias, entre quem tem uma identidade esquerda e de direita. Nesse giro aí pelo Brasil, nós percebemos, né? Porque a gente sempre ouve assim, ah, é política, futebol, religião, não se discute. E as pessoas ali dizendo que já tiveram atrito sim, não é, professor Beto? Fica difícil de expor a sua opinião política? Difícil não expor?
Fica difícil expor e não expor. E acho que isso, pegando um pouco o que o Pablo comentava, é interessante a gente observar. Se a gente considerar, como o Pablo dizia, um eixo comum, onde as posições políticas saem do centro e vão para os extremos, a gente teria uma polarização política. Eu acho que um primeiro elemento interessante a gente observar, tanto no Brasil como no mundo, que eu acredito que um dos eixos se deslocou, o eixo da direita foi para a extrema-direita.
Porém, o eixo da esquerda, pelo contrário, eu acho que ele se manteve no centro e cada vez mais vai se articulando em volta de posições de centro-esquerda e centro-direita, como grandes frentes amplas, gestoras do cotidiano, que vão fazer frente a uma polarização extremista pelo lado da direita. Então, eu não vejo esse movimento para os dois lados, eu vejo ele para o lado da direita, para o centro não. Isso quer dizer que a polarização não existe?
Existe. A partir do momento que um dos lados desgarra, essa polarização está dada.
E é interessante a gente observar, Andresa, como que a gente chegou nisso. Muito rapidamente, a gente, entre o pós-segunda guerra e até a crise do subprime em 2008, a gente poderia dizer que a gente teve um momento de consensos centristas, onde o trauma da segunda guerra levava as posições em uma alternância entre centro-esquerda e centro-direita, moderadas. Com a crise de 2008 e a implosão dos consensos centristas,
E aí começa, obviamente, o que a gente poderia dizer, um momento populista, onde buscas, quando o sistema entra em crise, busca por saídas pelas pontas, acabam aparecendo. Eu acho que esse, digamos assim, é o contexto que enseja esse aparecimento. Então, a gente vê, a partir de 2008 e depois de 2016, essa crescente de polarização, onde, além das ideologias, entram os afetos. E aí, uma última coisa, Pablo.
Eu acho que não necessariamente o afeto na política seria ruim. A hora que você coloca o afeto em jogo, ele não precisa ser para aniquilar, não precisa transformar o adversário em inimigo. Ele pode ser para trazer o eleitor, que está triste com essa política centrista, para voltar a fazer política com paixão, porque a política é paixão.
Era aí que eu gostaria de chegar, não é? A partir de que momento esse adversário com pensamento diferente virou inimigo, não é? Que aí a gente passa a falar aí da polarização dos afetos, porque polarização lá sempre existiu, desde a redemocratização, quando a gente via ali, por exemplo, a disputa entre PT e PSDB, era polarização, também chamada polarização, e o que mudou de lá para cá?
para hoje, para surgir essa outra questão que é afetiva. A gente achava que ela era enorme, mas na verdade ela era pouco disseminada e ela era pouco intensa. O problema desse tipo de afeto é que é um afeto intolerante. Ela parte do entendimento de que o adversário político não tem boa fé e não tem legitimidade política, ele não devia fazer parte do jogo político.
E é por isso que esse tipo de polarização afetiva é muito perigosa. Para você ter uma ideia, hoje a gente mede na população brasileira, as pessoas que têm identidade política forte, que se dizem muito petistas e muito de esquerda, ou muito bolsonaristas e muito de direita.
qualquer um dos lados, essas pessoas, quando você pede para ela dar uma nota de 0 a 10, quanto que elas gostam ou desgostam, mais da metade da nota mínima para a pessoa do campo adversário. Isso é um nível de intolerância política muito extremo.
E isso nem se compara com o que a gente tinha, sei lá, nos anos 90, nos anos 2000. É uma coisa que tem um marco aí nos anos 2013, 2014, depois dos protestos de junho de 2013, mas, sobretudo, em 2014 e a eleição de 2018. A partir daí, quando a gente olha na série histórica, realmente mudou muita coisa no Brasil.
nesses dois marcos. E aí a gente tem essa divisão em dois campos que são muito intolerantes, um com relação ao outro, com pouca mudança na opinião. Isso que eu acho interessante. A opinião, ela não foi, ela não se polarizou. A opinião, ela mudou muito menos do que os afetos. Então, o que a gente tem é a identidade política forte e uma hostilidade com quem tem a identidade política adversária.
que não existe mais escuta, não é, professor Beto? Então, assim, você é de direito ou você é de esquerda, você pensa assim por isso, acabou, não me interessa mais o seu pensamento. Inclusive, a gente... Não há espaço para o seu pensamento. A gente, olhando as pesquisas, um pouco na linha do que o Pablo seguindo o argumento, a gente vê nas pesquisas, se a gente pegar, por exemplo, a última Quest, a última Datafolha, a gente vê que a rejeição de ambos os candidatos...
É altíssima quando a gente olha Lula e Bolsonaro. Essa rejeição, quando a gente fala taxa de rejeição, é o afeto, é o voto dito, racional, mas que, na verdade, ele está externalizando uma emoção de dizer em quem eu vou votar, eu não sei, eu sei em quem eu não vou votar. Isso não é uma coisa que a gente estava acostumado a ver com esse grau. Quer dizer, você começa uma campanha e a gente viu no segundo turno de 22, nas pesquisas de véspera...
O Bolsonaro tinha 49% de rejeição, o Lula 48%. Está ali a diferença. Então, a gente entra numa eleição onde, quando você entrevista nos grupos qualitativos as pessoas, antes de elas dizerem qual a preferência, em quem elas vão votar, elas externalizam um afeto negativo e, muitas vezes, moral. Eu quero saber o resultado dessa escolha de voto. Beto colocou uma coisa interessante aí, né? A escolha do voto não por aquele...
aquela pessoa, aquele político que eu acredito, mas porque tem chance de derrubar, derrotar aquele que eu não quero de jeito nenhum.
Eu acho que isso tem impactos eleitorais, que são interessantes para a gente entender a dinâmica do voto no Brasil, pelo menos nos últimos três ciclos eleitorais, foi muito marcado. Acho que até antes, o livro lá do Felipe Nunes mostra que o Brasil está numa chave petismo, antipetismo, há muitos anos, pelo menos desde o finalzinho do governo Lula.
Mas eu me preocupo menos com essa dinâmica. O que eu me preocupo não é as pessoas terem hostilidade em relação à Lula ou a Bolsonaro. Elas terem hostilidade com os petistas e com os bolsonaristas, porque isso é algo que contamina a vida da sociedade. Por que você rejeitar um determinado candidato?
Tudo bem, daí passa quatro anos e você volta e vai fazer essa decisão. Isso impacta quem vai ser eleito, quem não vai ser eleito, mas não ameaça o convívio da vida social. Quando a gente passa a ter intolerância com quem é petista e com quem é bolsonarista, aí a coisa muda de figura, porque não é só que a gente não está mais conseguindo ter almoço em família, que a gente está rompendo...
relações com amigos de infância, a gente também está ameaçando a própria democracia, porque essa intolerância leva ao entendimento que o outro lado não tem boa fé, o outro lado não participa, não partilha de valores democráticos e, no limite, isso pode levar à violência política. Que é o princípio da democracia, que é justamente a divergência de ideias e o respeito por isso.
E aí que é interessante, o problema não é que o afeto, o afeto é consubstancial à política. Por que a gente diz futebol, religião e política não se discutem antigamente? Porque são três espaços onde a emoção vai mediar as nossas decisões. E é natural que a gente faça a política com paixão. Eu acho que esse não é o problema. O problema é como você mobiliza esses afetos.
E que, por isso, eu volto a dizer, o que acho que a gente tem visto no mundo nos últimos 10 anos, sobretudo de 2016 para cá, foi o aproveitamento da extrema-direita antidemocrática mundial desses afetos de uma forma muito ruim em duas direções. Primeiro, utilizando afetos negativos, o ódio, o medo, o ressentimento, construindo o afeto a partir desses afetos e essas emoções negativas. Então, isso, obviamente...
intoxica o ambiente. Uma segunda é a condição de possibilidade para que isso tenha chegado onde chegou, que é o advento das plataformas de mídia digital, que é o gigante escondido na sala, que primeiro por uma lógica econômica, algoritmica, que depois a gente viu na posse do Trump, também por um alinhamento político.
trabalha com esse tipo de dinâmica. Então, você vai explorar os afetos negativos que estimulam as pessoas a terem o ódio do outro. Porque, como o Pablo dizia, eu vou estar no Lula, esse não é o problema. O problema é odiar o petista.
Mas esse processo é um contínuo, a gente não tem mais um período eleitoral, a gente vive num período de eleição permanente. Então, é o tempo todo mobilizando, como se permanentemente a gente estivesse naquele momento de eleição onde afloram as paixões, e a gente estimula um afeto negativo, muito tóxico, e termino com isso, pior, um afeto moral, que isso a extrema-direita faz muito bem, porque ele não está...
evocando outros afetos, emoções que poderiam construir identidades coletivas novas em positivo. Estão construindo a partir do ressentimento do ódio e do medo e trazendo à baila questões morais, que aí você realmente rebaixa o debate, intoxica e cria uma passarela para a violência política.
E falando em política partidária, o caso dos Estados Unidos é famoso pela rixa entre democratas e republicanos, partido do atual presidente Donald Trump. Sobre isso, nós ouvimos o doutor em ciência política pela UFMG, Pedro Henrique Marques. Os Estados Unidos têm uma tradição bipartidária secular.
que organiza ideologicamente o eleitorado, que molda percepções sobre a realidade política, social, e que vai, então, estruturar essa polarização afetiva no âmbito social. No Brasil, isso tudo é muito frágil, com exceção do PT, a gente não tem nenhum grande partido de massas no Brasil. Acontece que a novidade que surge com o bolsonarismo é que, pela primeira vez,
a gente vai ter a direita, pelo menos nas últimas décadas, com uma identidade positiva forte, com algum símbolo, no caso aí, com o próprio Jair Bolsonaro. De modo que isso faz com que o Brasil, assim como outros países do mundo, onde esse enraizamento social dos partidos é mais frágil, a polarização assuma uma feição muito mais personalista.
do que, por exemplo, nos Estados Unidos. Agradeço a participação aí do professor Pedro Henrique. E ouvi vocês também sobre essa questão. Qual é a principal diferença entre o que acontece lá, nos Estados Unidos, e cá, no Brasil? Os Estados Unidos é um sistema bipartidário antigo. Tem outros partidos políticos, mas eles são muito, muito minoritários. São marginais mesmo.
No Brasil, nosso sistema é multipartidário e a gente tem muita dificuldade, porque a gente consegue perceber por algumas métricas que tem polarização, mas o fato da gente ter muitos partidos políticos dificulta a gente entender.
como se estrutura dinâmica. Eu acho que o que vem acontecendo, os pesquisadores que estão investigando a polarização brasileira é entender que a dinâmica brasileira está muito apoiada, como o professor estava falando, no petismo como força e no antipetismo, que em certo momento foi ocupado pelo PSDB, hoje é ocupado por Bolsonaro, que já foi de dois partidos, do PSL, hoje é do PL. Então, quando a gente reorganiza o campo brasileiro, a gente vê que existe uma estrutura bem marcada.
de 15, talvez até mais do que 15 anos, na qual o Brasil está muito organizado em certas dinâmicas eleitorais entre o petismo e um antipetismo, isso do ponto de vista eleitoral. E desde 2014, do ponto de vista de identidade política, que é uma outra coisa, as pessoas se identificando como petistas e as pessoas se identificando como antipetistas e hoje se identificando como bolsonaristas. Hoje mais forte bolsonarista do que antipetista.
Quando falamos das diferenças políticas, muitas vezes esse pensamento vem carregado de valores morais, não é professor? Qual que é o resultado disso? Pois é, Andresa, como a gente comentava anteriormente...
A política vai ser interpelada por questões afetivas, por questões programáticas, ideológicas. Isso eu acho que varia muito também no tempo com o momento. Como eu dizia, entre a Segunda Guerra e a crise do subprime em 2008, a gente viveu o auge do estado de bem-estar social.
Quando o Estado entrega, as pessoas ficam mais tranquilos e buscam aquele melhor gestor, buscam propostas racionais que vão atender a sua vida. Quando o sistema se descompõe, como a gente viu a partir de 2008, o apelo às emoções é muito maior. Interpelar politicamente o eleitor a partir, o cidadão a partir das emoções é muito mais fácil. Nessa hora, o que a gente viu nos últimos anos, e eu acho que é extremo o que o Juliano da Empoli chama de predadores, essa aliança de candidatos autocratas.
com os magnatas digitais, é utilizar os afetos morais como uma forma de guerra cultural para trazer o eleitor para o seu lado, para o lado de um projeto político específico. Porque aí o outro passa a ser uma pessoa inferior, uma pessoa perigosa, uma pessoa ilegítima, do que do ponto de vista democrático é muito ruim e não deixa de ser um adversário que eu quero vencer e passa a ser um inimigo que eu quero aniquilar.
A gente vive um momento em que essa dimensão moral está mais proeminente, mas isso se deve também a uma mudança, uma espécie de reorganização daquilo que define os campos políticos. Até uns 20 anos atrás, a política separava quem defendia o maior...
o papel do Estado para promover a igualdade, quem defendia mais livre comércio e a livre iniciativa. Essa divisão está sendo paulatimamente substituída por uma oposição entre conservadores de costumes e progressistas nos costumes. E essa nova divisão coloca a moralidade no centro da vida política, porque esses temas têm forte carga moral. E o fato de a gente organizar politicamente...
cada vez mais entre conservadores e progressistas e menos entre socialistas e liberais. O foco nas pautas de costumes, não é isso? Exatamente. Quando a gente migra para essa pauta de costumes, esse debate vem carregado de julgamento moral.
Porque cada lado acha que o lado adversário está violando a moralidade. Do lado conservador, que os progressistas estão violando, a família tradicional e o jeito tradicional de organizar a vida social. E do lado progressista, que eles estão violando o direito de minorias. E essa dupla acusação faz com que a carga de julgamento moral aumente e, consequentemente, a intolerância política aumente.
E a gente sabe disso porque quando a gente mede em pesquisa de opinião esses temas, esses temas são muito mais polarizantes no sentido afetivo do que os temas de distribuição de renda, política social, que antigamente dividia a sociedade brasileira. E é interessante a gente...
né, Pablo? Mostrar como essa polarização é afetiva e moral, até porque, do ponto de vista da economia, hoje a gente vê os conservadores defendendo o Estado e políticas de protecionismo e os líderes da esquerda mundial defendendo o livre comércio. Então, a gente vê a mudança radical do ponto de vista, inclusive, econômico, mas essa polarização indo para o campo afetivo e, infelizmente, moral.
E o amor, como fica em tempos de polarização? Sobre isso, nós ouvimos Lorena Hakaki, professora da Fundação Getúlio Vargas e presidente da Sociedade de Economia da Família e do Gênero.
As pessoas têm preferências que podem ser diferentes. Então, por exemplo, eu posso preferir olhar que características das pessoas. Ah, nível de escolaridade, a beleza, a altura, a inteligência, o sorriso, a religião. E, por exemplo, a similaridade política. Outras pessoas podem não considerar essas variáveis importantes. Então, cada uma tem as suas preferências.
Porém, segundo uma pesquisa feita pela Universidade de Gotting, os brasileiros consideram que a similaridade política é uma variável importante na hora da escolha do seu parceiro. Então, se a gente vem observando nos últimos anos uma polarização e pensar que...
as mulheres têm caminhado mais para a esquerda e os homens mais para a direita, isso pode, sim, se tornar mais um desafio na formação dos casais, que já não é nada fácil. Agradeço a participação da Lorena aqui no Opinião. Vale lembrar que existem aplicativos de pessoas de esquerda ou de direita. O que isso revela sobre a forma como nós estamos nos relacionando fora da política? Ou tudo é política?
Já faz tempo, um dos elementos na escolha de relacionamentos afetivos sempre foi política, porque valores é importante.
rivaliza com a aparência e atração sexual o conjunto de valores que a gente fala de religião e de política. Então, ele sempre teve um peso grande, mas com a polarização política, agora isso se torna muito, porque o que a gente tem com a polarização política é mais pessoas com identidade política, mais pessoas com identidade política mais intensas e a gente tem polarização afetiva maior, ou seja, há uma intolerância com quem tem...
a identidade política adversária. A gente fez uma pesquisa lá no nosso laboratório, seis anos atrás, e a gente viu num aplicativo de relacionamento que chega a 7%, 8% nos aplicativos de relacionamento, as marcas de identidade de gente, na descrição do seu perfil.
diz que eu sou de esquerda ou eu sou de direita, para evitar já anúncios. Isso não significa que só 6%, 7% da população não quer. É que elas têm uma intolerância tão grande com quem tem identidade política adversária que eles já avisam de antemão que não vai nem responder quem tiver, sei lá, de esquerda ou de direita. E o que a gente descobriu? Mulheres têm mais do que homens, no centro tem mais do que na periferia e a esquerda tem mais do que a direita.
Estamos chegando ao final aqui da nossa conversa. Há saída para essa intolerância? Como reduzir a hostilidade e retomar o diálogo?
Hoje a gente faz os grupos qualitativos, pesquisas quantitativas, e a gente percebe esse mal-estar. A gente vê uma vida que já não dá de diria nem para dizer que é líquida, é vaporosa, as pessoas não têm marcadores de certeza, as pessoas não estão preocupadas nem com o final do mundo, elas estão preocupadas com o final do mundo e com o final do mês, vivem angustiadas. Então, nesses momentos onde as pessoas se sentem desamparadas...
obviamente elas ficam mais fáceis de serem capturadas por projetos que trazem pertencimento e entretenimento, ainda que de forma fugaz, mentirosa, intoxicativa, de forma que leva as pessoas para o ódio, para o medo.
Como a gente resolveria isso? Acho que o primeiro é um dever do Estado. Você garantir um Estado que permita que as pessoas tenham mínimos marcadores de segurança, certeza e qualidade de vida, permite que as pessoas comecem a tomar suas decisões na política mais mediadas pela razão que pelos afetos. Ambos estarão presentes, mas você consegue equilibrar esse jogo e colocar um pouco mais de racionalidade.
Então, acho que esse é o primeiro desafio. E o segundo é do ponto de vista, como eu comentava, dos afetos quando eu entro em campo, como você mobiliza. Se a gente busca formas de mobilizar afetos positivos, em vez do amor, como a gente acabou de falar, em vez do ódio, do medo, do recalque, e se a gente consegue mobilizar afetos não morais, a gente consegue encontrar caminhos, enquanto o Estado não dá respostas definitivas para a sociedade, de endereçar esse problema.
Eu acho que esse é um grande desafio, a gente está numa encruzilhada e eu acho que tem problemas de plataforma, do jeito que a gente se comunica, tem incentivos na política, mas eu acho também que a gente tem uma responsabilidade enquanto sociedade civil. A gente está se tornando intolerante. Os políticos estão explorando isso, as plataformas estão explorando isso, mas nós estamos... Então, se a gente quer...
conviver numa democracia, se a gente quer permanecer numa democracia, a gente precisa aprender a conviver. O primeiro passo é aceitar que as pessoas que estão do lado de lá estão de boa fé e a gente abrir esse diálogo e trazer as pessoas para o bom senso. Porque o que está acontecendo é que a sociedade está se desgarrando.
E alguém está ganhando com isso. Todo mundo que estuda polarização política está vendo. Quando a gente olha no gráfico, isso vai levar à violência política. Isso é um problema nosso da sociedade. Tem outras pessoas explorando, mas é um problema nosso. E a gente precisa aprender a conviver. Sem dúvida. Voltar a falar com o cunhado, com um amigo de futebol. Voltar a se relacionar afetivamente com quem pensa politicamente diferente. Esse é o desafio.
Obrigada, professor Beto, professor Pablo, até uma próxima oportunidade. Prazer. Minha opinião fica por aqui, acompanhe nosso podcast e também nosso canal no YouTube. Obrigada pela sua companhia. Até mais.