Episódios de Nutrição, Exercício e Saúde

Treinar em Academia é Malhação ou Reabilitação?

04 de maio de 202618min
0:00 / 18:46

Recebo, depois de um longo tempo, o Fisioterapeuta da Clínica MOVE Dr. Pedro Angrisani, Especialista em Ortopedia e Dor. Ele vai nos contar se é possível fazer um processo de reabilitação em academia e vai nos explicar quais as diferenças entre os trabalhos de reabilitação em clínica e treinamento nas academias de musculação.

Não perca esse episódio incrível!

Se gostar, por favor, compartilhe, curta e comente!

Mais um vídeo desse podcast, que é uma realização da Clínica MOVE!

#musculacao #reabilitacao #fisioterapeuta #treinamento #drapatriciacamposferraz #nutripatriciacampos #clinica_move

Participantes neste episódio2
P

Patrícia Campos Ferraz

HostDoutora
P

Pedro Angrizani

ConvidadoFisioterapeuta
Assuntos4
  • Treino e saúdeDefinição de fisioterapia e reabilitação · Origem e propósito das academias de musculação · Diferenças entre fisioterapia e educação física · Interseção entre fisioterapeutas e educadores físicos · Erros comuns na reabilitação em academia · Avaliação para alta da fisioterapia · Importância da comunicação entre profissionais
  • Condição física versus qualidade técnicaPrioridade da qualidade sobre a quantidade · Avaliação da ativação muscular e postural · Adaptação de exercícios para reduzir impacto
  • Dor como informação corporalDor articular como sinal de perigo · Dor central e a interpretação cerebral da lesão · Sinesofobia e o medo de sentir dor · O mito do 'No Pain, No Gain'
  • Treino FísicoEstética vs. Saúde no treinamento · Adaptação do treino à rotina diária · Consideração da rotina e estado fisiológico do indivíduo
Transcrição49 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Olá, aqui é a doutora Patrícia Campos Ferraz e seu podcast Nutrição, Exercício e Saúde, que é uma realização da Clínica Move. Hoje eu tenho o prazer de receber aqui o doutor Pedro Angrizani. Pedro, muito obrigada por ter vindo. Obrigado você. Já é terceira vez, daqui a pouco posso pedir música aqui também. Isso, exatamente. Você já é um habitué aqui, né? Com certeza. E a gente está muito feliz pela sua presença. Obrigado pelo convite.

O Dr. Pedro é fisioterapeuta especialista em dor em ortopedia e a gente está aqui hoje para falar sobre academia, malhação ou reabilitação. Então eu queria que você explicasse um pouquinho o que é o processo de reabilitação e se isso em grosso modo pode ser feito ou não em academia.

Bom, fisioterapia significa função. Então é praticamente restituir a função do indivíduo como um todo. Então a gente está falando não só da saúde física, mas da saúde biopsico-comportamental.

toda a parte emocional. E a reabilitação em si vai ter o objetivo de colocar de novo o tecido lesionado no basal, onde ele está pronto para sofrer os estresses.

os estresses da demanda física da rotina do indivíduo e conseguir se auto-reparar e se auto-adaptar mediante a uma boa noite de sono, a uma boa recuperação. Quando essa linha de auto-regeneração do corpo não acontece, você tem a cronicidade de lesão. E aí é onde a gente entra.

Perfeito. E aí, academia é um lugar adequado para fazer a reabilitação ou não?

Então, é importante a gente pensar na academia para que ela foi criada. Ela foi criada ao redor de 1900, 1901, pelo pai da musculação, que era o Eugene Sandow. Não sei nem se fala Sandow, Sandu, mas foi na Suécia. E aí foi direcionada para atender o pessoal do fisiculturismo.

E o fisiculturismo tem o objetivo de performance, de hipertrofia, de volume e definição. Então, não necessariamente você tem isso, em vários estudos já foi comprovado, que você não tem necessariamente ligado uma hipertrofia, um volume muscular muito grande, necessariamente a torque e força.

Então, na verdade, você tem diversos equipamentos que foram criados para atender a hipertrofia com o vislumbre na estética, sendo usado hoje em dia para reabilitação. E isso começou a bombar mais ou menos nos anos 2000, que aí veio o grande boom das academias, e aí tentou se adaptar o que foi criado para a estética para a saúde.

E aí eu te faço uma pergunta que eu acho que cabe muito aqui, que é qual a diferença entre a fisioterapia e a educação física que versa um pouco sobre essa questão que você está falando, né? Então, se você quiser explicar um pouquinho para nós, assim. Basicamente, você tem uma janela, né? Você não tem, por exemplo, dois limites aqui.

Você tem uma intersecção no meio, onde os dois profissionais, inclusive, faz toda a diferença na reabilitação, trabalham juntos. Então você tem o fisioterapeuta aumentando a qualidade do movimento para gerar uma viabilidade de função, ou seja, toda a parte dos seus músculos tem que ter o período de contração e relaxamento para gerar um torque regular.

As suas articulações têm que ter o máximo de contato articular possível para não ter uma pressão muito grande, que aí vai gerar a tal e famosa artrose e por aí vai. E depois com essa viabilidade de corpo, você tem o educador físico subindo esse patamar para a performance. Então ele vai dando estímulos perto ali do fisiológico, mas também não pode passar para não ter as lesões, que esse é o grande problema.

E aí você tem essa performance com a regulação de carga moderada ao longo do tempo. Então essa é a grande diferença dos dois. Muitas vezes você vê, até chega um paciente com uma dor no ombro, uma lesão de manguito.

E aí você lê o pedido médico e vê lá do médico, fortalecimento de manguito rotador. E aí você olha para o teu paciente e é um levantador de peso olímpico. É um cara que parece maior que o The Rock. Você fala, esse cara precisa de força? Você vai colocar ele na academia e ele já veio de lá. Provavelmente ele já tem essa massa muscular extremamente adequada em termos de potência. Mas na questão da estabilidade, da ativação sequencial correta,

durante o movimento dinâmico. Você não tem a parte dos estabilizadores. Por exemplo, você vai fazer um exercício aqui de bíceps. Se você está de pé fazendo exercício de bíceps, com certeza, além do bíceps e do braço, a sua coluna está sendo estimulada de um jeito, dependendo do centro de massa. O seu pé está sendo estimulado. Então, quando um profissional vai orientar alguém que já chega direto na academia...

ele vai propor a performance. O profissional de educação física manja muito de fisiologia do exercício. E muito mais às vezes que nós fisioterapeutas. Porque realmente está no nichado. Porque aí são as diferenças. Exatamente. Só que o que acontece? Esses efeitos à distância, o cara vai lá e vai realmente pegar o bíceps e vai hipertrofiá-lo. Mas pode ser que naquele exercício de bíceps esteja sobrecarregando muito por causa da posição à coluna.

E aí nessa aqui a gente acaba pegando os pacientes que vêm de lesões na academia. Então, na verdade, a ordem não está correta.

Entendi. E aqui eu acho que até é legal a gente lembrar que na MUV nós somos muito felizes de ter os dois profissionais trabalhando em conjunto, no mesmo espaço, e consegue cada um dentro da sua especificidade, mas também aproveitar muito bem essa interseção para o bem do paciente, e isso é um diferencial muito grande no tratamento das pessoas, porque não é em qualquer lugar que a gente consegue ter o educador físico e o fisioterapeuta juntos no mesmo espaço.

Pois é, porque voltando a esse exemplo, imagina que o paciente chegou a mim com dor na lombar. E aí

Eu sinto muita dor na lombar quando eu vou na academia, num exercício de rosca direta, que é um exercício de bíceps. Tem alguma coisa errada, você está querendo malhar o bíceps, está sentindo a lombar, tem alguma coisa estranha. Então, normalmente a gente avalia a parte desse movimento.

e entra em contato direto com o educador físico, e aí, depois da avaliação, passa essa orientação para ele. E não é só o movimento, a qualidade de movimento. Muitas vezes, esse paciente não tem a ativação adequada, ou mesmo a resistência postural adequada, para sustentar aquele peso que está lá na ponta da alavanca, que seria para fazer o movimento do bíceps.

Então, a gente tem a característica do fisioterapeuta entrando com dar condições para aquela estrutura corporal sustentar aquele peso na ponta da alavanca do exercício, no caso, a rosca direta, e também a qualidade do exercício. E aí...

O educador físico, na hora de propor os exercícios, ele vai pensar que eu vou estimular de um modo mais adequado, por exemplo, em vez de você fazer de pé, você vai fazer um bíceps reclinado, sentado. Então, eu diminuo um pouquinho esse impacto na lombar no momento para depois eu ir subindo postura, deixando mais complexa a postura, mas continuando com o mesmo peso no braço.

Então você tem os dois profissionais fazendo o caminho de performance moderada aos pouquinhos, pensando em performance ao mesmo tempo de saúde. Essa é a intersecção na hora do trabalho e é o que faz diferença. Que faz muita diferença na reabilitação. E aí qual é o erro mais comum que você vê em pessoas que tentam fazer essa reabilitação na academia sem a presença do fisioterapeuta?

Então, a gente tinha um pensamento simplório, antigamente, que era isso. Poxa, você tem uma dor no joelho. Você tem que fortalecer o quadríceps. É lógico, é evidente. E até tem alguns estudos que corroboram isso. Mas é muito pobre esse pensamento. Porque imagina assim, se você tem uma dor no joelho, ela pode vir da musculatura em si ou ela pode vir, inclusive, da articulação, que é praticamente a polia que faz a alavanca do corpo.

Então você já tem essa polia com um certo tipo de lesão. Ela não está uma brastemp ali. E aí você vai lá e faz a força e coloca mais carga em algo que já está sobrecarregado. Então, na verdade, precisa dar um passo atrás antes de ir na força e pegar a qualidade.

Então, antes de quantidade, qualidade de movimento. E é isso que o fisioterapeuta faz. Então, ele vai dar um primeiro passo, reestabelecer a fisiologia local. Então, reparo de lesão, tecido saudável. Tecido está saudável? Você vai pensar, tudo bem, agora como é que eu vou fazer esse movimento na dinâmica, não voltar àquele padrão antigo?

Conseguiu fazer isso? Melhorou? Aí entra o educador físico. Então, o educador físico gerencia o movimento que o fisioterapeuta sugeriu para ver se acontece nos exercícios propostos pensando em performance. E aí, passando esse período, alta da físio vai para a performance com esse tecido saudável e com um movimento melhor.

Perfeito. Isso é a perfeita integração, na verdade, entre as áreas. E é justamente isso que eu ia te perguntar. Em que momento o treinamento físico pode entrar com força? Então, você precisa muitas vezes ter essa avaliação, que é, na verdade, o período em que você dá alta. O que o fisioterapeuta avalia realmente para alta é se aquele tecido está saudável.

que é, por exemplo, o que a gente faz, é curioso quando a gente faz no pós-operatório. Porque no pós-operatório você vem e olha nos protocolos, no guideline, o que eles te dão? Eles te dão como deixar o tecido saudável de novo. Só que essa cirurgia que você fez aqui é decorrente a uma lesão que aconteceu lá. Quando você deixa o tecido saudável aqui, você ainda não respondeu por que aquela lesão ocorreu.

Então aí entra a qualidade do movimento. Deixou o tecido saudável? Entra na qualidade do movimento. Então você vai olhar. O tecido já está saudável? Decorreu do período que o corpo precisava para reparar a lesão? Legal. Está pronta para carga.

Porque você tem, do tecido saudável, você tem a fase de inflamação, proliferação e remodelamento do tecido. Da proliferação do tecido para remodelamento, você já pode liberar para o tecido tomar carga. Mas ele tem que tomar carga de um movimento que está correto. Então, segundo ponto, o tecido está saudável, o movimento está correto. E aí você tem que ver se nada mais impede ele de fazer aquele movimento de modo correto.

Por exemplo, a questão de um músculo que está contraturado e que não deixa, sei lá, meu braço levantar de modo certo. Esse músculo tem que estar laciado ou um alongamento para esse músculo, para esse corpo responder. Todos esses quesitos foram atendidos e a dor do paciente já passou, porque ele pode ter sinesofobia, ele pode ter uma dor central.

Dor central é quando você já tem o tecido saudável, mas o cérebro ainda não interpreta com que aquele sítio de lesão ainda está pronto para mais carga e para voltar para a função. E isso o educador físico pode ajudar nessa transição para provar para o corpo que o tecido está saudável, que você consegue. Aquela sensação que o paciente descreve que...

Eu já não sinto mais dor no meu joelho, mas eu sinto que eu tenho joelho ainda. Então é aquele medo ainda e aquele estímulo do cérebro ainda de poupar aquele membro que foi lesionado. Então está fechado no critério de ter sido saudável, função adequada e sem dor.

está prato cheio e está servido ali para dar uma carga moderada e com consciência, se não, o educador físico pegando pesado, estilo no pay, no game, ele volta para a gente de novo e é isso que a gente não pode errar. Isso que eu ia te perguntar, porque muitas vezes a gente vê isso.

E principalmente se é um educador físico que não está muito acostumado a pegar o paciente que passou pelo processo de reabilitação. E não sei se, porque está muito no contexto de academia, onde tem pessoas, entre aspas, mais saudáveis. Ou se, enfim, não teve essa vivência. Não é comum errar nessa prescrição, na volta?

Não, com certeza. Nessa volta, é um contato, a gente estabelece praticamente uma relação um pouco mais duradoura ali com o educador físico. Porque, imagina, então tá voltando, putz, Pedro, eu bolei um exercício aqui pra esse paciente, e aí ele voltou a sentir um pouquinho a lesão, ou putz, ele não voltou a sentir a lesão, mas voltou a sentir em outro lugar.

O que você sugere? Você quer reavaliar ou você só sugere? E a gente precisa ter esse contato recorrente. Mesmo, por exemplo, a longo prazo. Porque, na verdade, a gente não está tratando do paciente, por exemplo, que teve uma dor no joelho, a gente tratou, vai de alta. Esse paciente não ficou um joelho para mim. Ele ficou um paciente de...

corpo inteiro. Eu conheço a morfologia dele, eu conheço a rotina do corpo dele e isso é importante falar no que condiz a estruturação do treino. Eu já sugiro para vários educadores físicos pensar na rotina do paciente. Porque imagina, é diferente. Eu fico cerca de 14, 15 horas de pé.

E tem um profissional de TI, que o cara fica 14, 15 horas sentado. São coisas diferentes que o corpo tem que passar. Então, será que o treino dele tem que ser o mesmo treino que o meu? Nas mesmas posturas? Não, são objetivos diferentes. O personal que considera pelo que o corpo tem que passar é o profissional de educação física que realmente vai dar uma performance de excelência com mínima chance de lesão.

E onde tiver, às vezes, tentativa e erro. E isso muda porque o paciente vem de cada... Tem dia que você não quer treinar. Tem dia que, sei lá, meu cachorrinho morreu, você está meio deprê, ou você está cansado, ou não dormiu direito. Você vai treinar igual? Você não vai treinar igual. Porque a tua fisiologia geral ou não comeu bem... Então...

ou tá de ressaca, sei lá, você não vai treinar da mesma maneira? Então, às vezes, você vai ter essa pequena chance de lesão. O que você tem que ver é se o corpo consegue ter a reparação tessidual sozinho ou se aquela lesão vai cronificar. E para isso, contato de longo prazo educador físico e fisioterapeuta é o santo remédio.

Isso também traz uma segurança para o paciente. O paciente se sente seguro quando vê que os dois profissionais estão conversando entre si, na mesma instituição ou não. Mas acho que isso traz um conforto, uma segurança mesmo. Sim, com certeza. Então a gente está chegando quase no final desse primeiro episódio. Você gostaria de deixar uma mensagem final sobre essa nossa fala, para as pessoas prestarem atenção na academia?

Eu acho que sim, principalmente prestar não só atenção, mas se fazer uma pergunta bem simples. Por que você malha? Porque muita gente malha pela estética e está tudo bem malhar pela estética. Lógico, está tudo certo. Só que dentro desse seu treino, você tem que ter a estética vinculada à saúde.

E vinculada a essa saúde, a especificidade do que o seu corpo vai ter que fazer de tarefa no dia a dia. Se eu gosto de vôlei, se eu gosto de judô, se eu fico sentado e eu sou um workaholic. Então isso vai ter que ser embutido no seu treino. Então se pergunte por que você malha.

E uma coisa, no pain no gain não é normal você ter dor ainda mais recorrente. Então, para você malhar de modo saudável, você não tem que ter dor necessariamente. A dor, por exemplo, de desconforto de um músculo hiperestimulado, ela passa de 2 a 3 dias, porque a fisiologia muscular é de 48 a 72 horas. Pós...

já tem alguma coisa errada. E principalmente dor articular. Dor articular é sinal de perigo. E pelo amor de Deus, vai no educador físico depois do fisioterapeuta. Para melhorar a qualidade do movimento. Muitas vezes a gente acha que já sou esperi, já malho há 10 anos, eu consigo evoluir. Mas sempre tem alguma coisa para aprender. Porque nem eu mesmo, e eu malho, eu consigo me autocorrigir, mesmo corrigir as pessoas. Porque no meu cérebro está tudo certo. Mas às vezes precisa de um olhar externo.

Externo, né? Pedro, muito obrigada pelas suas contribuições, acho que foi muito legal a gente ter essa primeira conversa. Agradeço, então, a sua presença aqui, muito obrigada. Agradeço à Clínica Move pelo apoio ao projeto. Agradeço a todos vocês que nos acompanham nas diferentes plataformas, no YouTube, no Spotify, nos principais agregadores.

Se vocês gostarem do episódio, por favor, curtam, comentem, compartilhem, inscrevam-se tanto no Spotify como no YouTube para fortalecer o nosso projeto. Obrigada e até o próximo episódio.

Anunciantes1

Clínica MOVE

external