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Meu Negócio É Arte - Quanto Vale?

12 de maio de 202639min
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Na série "Meu Negócio É Arte", a nova temporada do Trem Pra Fazer Podcast, você mergulha no dia a dia de quem faz da arte o ganha-pão. Cultura também é fonte de renda!

Neste episódio, os depoimentos dos entrevistados desta temporada são costurados tendo como viés a pergunta: Quanto vale a arte?

A terceira temporada do Trem Pra Fazer Podcast foi contemplada na Política Nacional Aldir Blanc de Fomento À Cultura, a PNAB Contagem, em 2024.

Assuntos6
  • Valor da ArteHistórico da arte como meio de vida no Brasil · Inflação e transição econômica no Brasil · Indústria criativa e seu impacto no PIB · Crescimento de empregos formais na indústria criativa · Profissionalização do universo cultural · A importância do profissionalismo no fazer artístico · A arte como negócio sustentável · Precificação de trabalhos artísticos · Valorização do trabalho artístico pela sociedade · Gestão financeira e de tempo para artistas · Marca pessoal e comunicação no mercado de arte · Formalização de negócios artísticos (CNPJ)
  • Ricardo Piano: Trajetória e VisãoVisão de vida e obra artística · Carreira multifacetada (compositor, professor, empresário) · Gestão da Associação Cultural Quintal das Artes · Experiências em gestão pública e terceiro setor · Influência da infância na decisão de carreira artística · Início da carreira profissional e shows de bandas cover · Transição para música autoral e banda Samba Lança · Estratégias de venda de shows e música autoral · Estudo de gestão de carreiras e participação na Bafim · Expansão da carreira internacionalmente · Fundação da Quintal das Artes e sua missão · Mentoria para grupos e coletivos periféricos
  • Fernanda Signorini: Venda Humana e MarketingAprendizado em vender de forma humana e artística · Superação de obstáculos na comercialização de arte · Identificação da dor do cliente como pilar do marketing · A arte como encontro e serviço · Adaptação da linguagem para resolver problemas do cliente · Criação de infoprodutos · Comercialização humanizada da arte · Aumento do ticket médio através de marca pessoal · Investimento em patrocínio e equipe · Planejamento estratégico e constância no empreendedorismo cultural
  • Zy Reis: Acessibilidade e Diversidade na ArteCriação de arte acessível para diferentes orçamentos · Estratégias de monetização (rifa de tela) · Produção de arte diversa (quadros, grafites, filmes) · Trabalho com colecionadores e instituições · Produção de prints e imãs como produtos acessíveis · Metodologia de valoração para diferentes linguagens artísticas
  • Cris Leão: Valor da Arte em MosaicoCusto elevado dos insumos para mosaico · Dificuldade de qualificação e tempo de execução · Valor base de um metro quadrado de mosaico · Fatores que influenciam o preço do mosaico (dificuldade, técnica, matéria-prima, tempo) · Custo de ferramentas específicas (alicate, forno)
  • Daisy Castro: Profissionalismo e Negócio CulturalA necessidade de levar o 'corre' mais a sério
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Tomara que a arte, a cultura, a natureza, os recursos naturais deem muito emprego. Por enquanto não dão. Se for só no comércio, nas finanças, na indústria, vocês estão condenados, porque isso não vai dar muito emprego. Mas se no século XXI que vocês estão chegando for possível fazer...

da liberdade criativa, um meio de vida, vai ser uma boa. Maria da Conceição Tavares foi uma das maiores economistas do mundo. E essa fala, que recentemente viralizou no Instagram, foi extraída de um programa da RTP, a emissora pública de rádio e TV de Portugal.

A entrevista foi ao ar em 1987. Na ocasião, ela falava sobre a onda de desemprego na terra lusitânia. Em todo caso, eu recomendo só uma coisa. Façam uma profissão que vocês puderem. Mas a gente passa a ver se fazem uma arte menor, ou um pouquinho de pintura, ou de música. Não é por diletantismo aqui. Pelo menos vocês estão vivos. No fim dos anos 80, viver de arte no Brasil era uma missão árdua.

Ou melhor, viver no Brasil já era uma difícil missão.

Nessa época, o Brasil registrou a maior inflação da história e enfrentou uma transição econômica daquelas. Além disso, a democracia estava sendo reconstruída depois de uma cruel ditadura militar. Assim como em Portugal, os brasileiros eram recomendados a ter uma profissão padrão. Só depois, a juventude deveria pensar em uma carreira na área da cultura.

Nos anos 90, apesar da rasteira de Fernando Collor, o Plano Real foi implementado. Aos poucos, o povo brasileiro voltava a sonhar. Com a chegada do século XXI, conforme profetizado pela economista, foi possível fazer da liberdade criativa um meio de vida. Transformar a arte em ganha-pão passou a ser tangível.

De acordo com uma pesquisa da Firjan, em 2023, a indústria criativa movimentou mais de 393 bilhões de reais no Brasil, o que representa 3,6% do PIB nacional. Esse áudio é da RioTV Câmara. A reportagem foi exibida logo depois que a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, a Firjan, apresentou o mapeamento da indústria criativa 2025.

Além do dado econômico, o mapeamento da Firjan mostra que a indústria criativa cresceu 6,1% em empregos formais, quase o dobro do crescimento geral do mercado de trabalho brasileiro. O mapeamento considerou os 13 segmentos da indústria criativa. Eles foram separados em quatro áreas.

consumo, mídia, tecnologia e cultura. O levantamento só não incluiu os profissionais informais e autônomos. Os microempreendedores individuais também ficaram de fora. Ao explicar a metodologia, a Federação disse o seguinte, abre aspas. Não há bases de dados oficiais que acompanhem a informalidade com o nível de detalhamento utilizado no mapeamento.

Fecha aspas. Os impressionantes dados desse levantamento refletem a profissionalização do universo cultural. No entanto, dentro do setor, ainda existem artistas trabalhando no amadorismo, pessoas trocando o almoço pela janta. Eu acho, daqui de onde eu enxergo, que o artista precisa entender que o negócio dele é a cultura.

Então, para além dessa sociedade que romantiza esse fazer artístico, precisa existir o meu profissionalismo diante do trabalho que eu entrego. E aí, sendo prático mesmo, não tem como você ser mais ou menos.

Apesar de cirúrgica, Daisy Castro não está cobrando que os artistas deixem a informalidade num passe de mágica. O que ela está dizendo é que a turma que movimenta a indústria criativa precisa levar o corre mais a sério. A galera precisa entender que não dá para ficar trocando cebolas. E aí todo movimento, mesmo sendo artístico, é um negócio.

E as pessoas têm birra dessa frase, elas têm uma estreiteza nesse assunto, porque elas acreditam que a gente está falando que é um negócio e é que aí vai ter lucro e que do lucro vai ser feito pessoas milionárias.

E na verdade não, o negócio é um negócio cultural, ele precisa ser sustentável, ele precisa dar estabilidade financeira para as pessoas envolvidas e ele tem uma responsabilidade organizacional quando ele imprime isso para a sociedade.

E a provocação continua. Você é um profissional, você é um artista, você precisa escolher. Seu Instagram é profissional? Não, vai ser. Você tem um figurino legal? Quando você passa seu preço, você passa seu preço só porque você vai lá e é daquele momento? Você considera transporte? Considera sua alimentação? Considera suas horas de treino? Como é que você forma esse preço?

Daisy não é a única focada na profissionalização do mercado cultural. Ela também não é a única disposta a estruturar um negócio artístico. Neste episódio, o sexto da série Meu Negócio é Arte, do Trem para Fazer Podcast, você vai encontrar diferentes respostas para a pergunta Quanto vale a arte?

Cara, eu acho que nessa viagem que pra mim é a vida, o Ricardo Piano, o artista, é o cara que vive com intensidade, curiosidade e amor cada fase dessa vida, sabe? Porque minha obra mesmo, musical, ela tem muito reflexo naquele cara que eu sou naquele momento, né?

E neste momento, além de compositor e intérprete, Ricardo é professor de pandeiro, instrutor de canto, empresário no setor da cultura, produtor musical e gestor da Associação Cultural Quintal das Artes. Também, mas eu fico brincando assim, com data de prazo e validade.

Me interessa passar pelas coisas, sabe, Felipe? Me interessa falar assim, ah, o que você faz? Hoje eu faço isso, cara. Até ali ano que vem eu tô fazendo isso, mas depois eu quero fazer outra coisa.

No episódio passado, quando o Ricardo estreou nesta série, falando sobre políticas culturais, você percebeu que ele é bastante inquieto e também firme nas ideias. Sobre encerrar ciclos, o artista explica. Senão a gente vai ensimesmar tudo com a gente mesmo, sabe? Tudo vira a gente, né? Sobretudo quando você está num lugar, vamos chamar num lugar de poder, que é o lugar da gestão, né?

Teve uma época em que Ricardo foi responsável pelos Centros Culturais de BH. Nesses espaços, ele começava o trampo com o storytelling mental. Construção, transição e partida. Essa dinâmica foi aprendida no curso de Ciências Políticas.

Na coisa pública, porque a coisa pública precisa ser democrática, ela precisa estar cheia de gente, cheia de novas ideias para que a coisa se refresque e para que avance. E no terceiro setor, que é o caso da Quintal, que eu atuo hoje, eu sinto a mesma coisa. Precisam ver novas lideranças, precisam ver novas pessoas, senão não faz sentido ter uma OSC de uma pessoa, isso não é uma empresa privada, né? Começa a ter princípios ali que não são democráticos, que são a ideia da cabeça de uma pessoa.

A Quintal das Artes, a organização da sociedade civil citada agora, nasceu em 2019. Elaborada por diversos artistas, entre eles o próprio Ricardo, a instituição surgiu da necessidade de ter um espaço cultural sem as amarras governamentais.

Não que um espaço de terceiro setor siga também, um monte de regras e tudo, mas a forma de agir, de pensar e de implementar as políticas culturais aqui, elas são mais diversas, são mais democráticas, tem menos trava.

Antes de fundar essa OSC, Ricardo fez um tanto de trem. Ele, por exemplo, chegou a trabalhar nos Correios. O homem era concursado. E eu fico pensando, ele é um tanto de gente, né? Porque às vezes a impressão do alto dos 48 anos, que eu competei agora em janeiro, que é um cara que já viveu muitas vidas diferentes, sabe?

de vários lugares diferentes, diversos pontos de vista profissionais e afetivos e territoriais e de descobertas mesmo, de si mesmo. Então acho que o Ricardo Piano é um cara que, vamos resumir assim, está surfando no tempo e descobrindo, está atravessando essa vida.

E essa travessia começou na periferia de contagem. Foi lá que ele, enquanto desenrolava aquelas chatas tarefas de casa, definiu o que queria para o resto da vida. Eu lembro de alguns flashes de algumas coisas que me ajudaram nessa decisão. E uma foi um dia que eu estava lá para varrer na sala e tal. Eu mais tocava guitarra na vassoura do que varria e tal. Mas quando a mãe estava chegando, dava uma pressa de varrer. E aí estava passando a reportagem com o show do James Taylor no Rock in Rio em 1985, cara.

Eu tinha exatamente 7 anos. E aí veio o James Taylor tocando para aquela multidão. You got a friend. Falei, cara, quero fazer isso daí. E aí nunca mais larguei essa cabeça. Dos 7 aos 14 anos, Ricardo ensaiou bastante os riffes no Cabo da Vassoura.

Quando ganhou um violão, os primeiros acordes surgiram naturalmente. Headbanger de carteirinha, Ricardo, aos 16, já era um guitarrista de mão cheia. Não demorou para ele dar start e começar o jogo da vida profissional. Não tive dificuldade para viver de música, Felipe. Dificuldade, assim, nunca passaria fome vivendo de música. Não por ser bom, mas é porque aquele negócio, se eu tenho alguma coisa para te vender e eu preciso vender, eu vou lá, vou atrás de você e vou te vender.

Com essa mentalidade, Ricardo decolou. De cara, ele vendeu centenas de shows de duas bandas que ajudou a fundar. Uma era cover de O Rapa e a outra do grupo U2. Nessa época, Ricardo estava na faculdade. Ele cursava educação artística com habilitação em música na Universidade do Estado de Minas Gerais.

Eu já ia pra faculdade com a mochila, com a guitarra e viajava sexta, viajava até domingo. Voltava segunda-feira pra aula. Então fiz isso durante muitos anos da minha vida. Até chegar um ponto que eu falei, cara, não vou ficar viajando pro interior mais não. E cansei de tocar esses covers aí. Não que eu não goste mais do rapido, eu adoro ouvir. Mas eu falei, cara, eu quero fazer um negócio mais meu. Foi quando eu decidi cantar.

Apesar da agenda lotada, além da grana que entrava todo mês, Ricardo fez que nem o Google Maps, recalculou a rota.

Ele então montou a banda Samba Lança, uma mistura de samba e rock. O projeto foi de 2004 até 2014. Eu fiz o mesmo trampo que eu fiz com as outras bandas com o Samba Lança. Então vendia show. Na época o samba começou a bombar em Belo Horizonte, então cartola, reciclo, estava em altas.

Eu tive datas fixas por mais de um ano nessas casas. Simpático, educado, estrategista e ótimo músico. Essas características, com toda certeza, ajudaram o Ricardo a vender os shows. Mas o que realmente fez ele ter êxito foi um determinado entendimento.

Então, para mim, sempre foi um negócio do ponto de vista de ter necessidade de sobreviver daquilo, sabe? Não tinha opção, cara, de não conseguir vender um show, sabe? Fernanda Signorini aprendeu a vender depois de assumir a persona de empreendedora. Conforme relatado no quarto episódio, ela apostou na criação de infoprodutos, uma área ainda pouco explorada pelos artistas. Para ter sucesso como vendedora, Fernanda quebrou a cabeça.

Um dos grandes conhecimentos mais desafiantes para nós artistas e para mim foi aprender a vender de forma humana, de forma artística. Muito difícil, assim, para mim, nessa questão. Porque quando você vai estudar os caras do marketing, eles têm aqueles pitch de vendas, aqueles negócios que é uma coisa bem fria. E eu fiz isso.

Só que quando eu fazia, eu não me via ali. Superar esse obstáculo é o mesmo que inverter a lógica do game Super Mario Bros. Ao contrário do jogo japonês, na vida real, primeiro, o artista terá que vencer o chefão para depois conquistar as moedas. Mas afinal, como fazer isso?

É um treinamento de você, por exemplo, entender como você vai conversar com as pessoas que se interessam por aquilo que você faz. Quais são as coisas importantes dela saber. E aí tem coisa que você não tem que falar agora, tem coisa que você fala agora. Tem coisa que você só ensina dentro do curso.

Fernanda aprendeu a comercializar a arte de forma humanizada. E nesse processo, ela ainda descobriu um dos pilares do marketing. Pilar aplicável em todos os setores, tanto em uma franquia de academias, quanto naquela gigantesca rede de farmácias. Anota aí! Para vender, você precisa descobrir qual é a dor do cliente.

de você desenvolver um roteiro, uma ideia, pensando nessa perspectiva do que a pessoa está precisando de um problema que ela tem. E aí eu gosto muito dessa perspectiva que a gente, artista, também parar de achar que a arte é só sobre nós e sobre nossa criação. Porque eu acho que isso é um problema. Então assim, eu faço porque eu gosto e é isso, e pronto, acabou. Tipo assim, tá.

Mas e aí? É um encontro, né? E aí quando a gente vai falar de servir algo, a gente precisa ser mais generoso nesse aspecto.

A produção cultural pode ser comparada a um banquete, a uma refeição que vai alimentar, além do corpo, a alma. Para que essa oferta seja irresistível, é necessário haver técnica e dedicação. Afinal de contas, você não vai servir qualquer prato para um convidado especial, não é mesmo?

Porque às vezes nem é sobre o meu assunto de especialidade. É sobre um problema que aquela pessoa está vivendo. E eu preciso adaptar isso para essa linguagem para ela entender que o que eu ensino vai resolver aquele problema. Só que é uma mudança de consciência daquela pessoa que precisa acontecer. E aí a gente entra um pouco nesse lugar da comunicação, cara.

Para chegar nessa receita, Fernanda defende que as pessoas precisam entender que a arte não é qualquer coisa, o saber não é qualquer coisa, as criações artísticas não é qualquer coisa, o encontro com o outro não é qualquer coisa. Cada fazedor de cultura vai encontrar uma maneira de vender a própria produção. Cada artista vai descobrir um jeito de monetizar. Enquanto Fernanda faz lives nas redes sociais, Zy Reis fez uma rifa. Ela explica o raciocínio.

Se eu oferecer essa tela que vale X reais, talvez eu tenha menos compradores. Mas se eu fizer uma brincadeira, no mesmo valor dessa tela, dividir em tantos números e propor para a minha rede que a gente faça uma brincadeira de um sorteio sobre ela, né? E aí a gente vai girando, inventando. Você conheceu a Zee no segundo episódio. E deu para perceber que ela não faz o tipo que espera a solução cair do céu, né?

Quando ficou grávida de Odé, ela estava 100% no corre independente. Depois que o primogênito nasceu, ela topou um trampo formal, dentro de uma sala de aula, como arte educadora. O fato é, a arte deve ser devidamente gerenciada para ter sustentabilidade. No caso de Ricardo, a música é um produto a ser vendido.

Com esse pensamento, ele não teve dificuldade nem mesmo para comercializar os shows de música autoral. Ah, mas trabalho autoral não vende. Será que não vende?

é afunilado, isso é fato. Você pega o universo mainstream, midstream e lowstream, nós, os lowstreaming, somos a maioria. Quem se torna referência no seu nicho ali, os midstreaming, é outra coisa. No universo de milhões e milhões, a gente tem uma faixa de 600 mainstream no Brasil, que é absurdo, entendeu? É 0,1% dos músicos.

Sucesso profissional não é sinônimo de fama e riqueza. É possível ter êxito como artista sem o glamour das celebridades. Ricardo é um exemplo. Após gravar o primeiro disco, ele estudou gestão de carreiras no Sebrae. A formação teve como base uma pesquisa sobre a cadeia produtiva da música em Minas Gerais. Foi uma experiência que mudou muito minha vida e meu olhar sobre como viver de arte.

Como conclusão desse curso, Ricardo foi levado para a Feira Internacional de Música de Buenos Aires, a Bafim, na Argentina. Essa viagem foi um divisor de águas, pois ele entendeu como funcionava uma rodada de negócios. A partir desse momento, o músico resolveu olhar para o caminho contrário do que estava sendo construído.

E quando eu tive essa experiência, cara, e voltei pra BH, eu falei, bicho, pra que que eu tô tentando lançar meu disco em BH? Pra que que eu tô tentando ficar conhecido em BH? Pra que que eu tô ralando ali em BH? Sabe? Sendo que o pessoal não tá nem aí, tá olhando lá pra Rio, São Paulo e tal. Foi start na minha vida porque aí eu comecei a fazer contatos fora do país. E aí isso mudou muito minha carreira musical, porque aí eu consegui circular com o meu show, consegui lançar minhas músicas fora do país e fazer...

Ganhar notoriedade artística, musical, não em Belo Horizonte, não em Minas Gerais, mas em outros lugares. O resultado dessa escolha? Circular pelo Chile, Colômbia, Uruguai, México e pela própria Argentina. Nesse período, Ricardo também lançou um segundo disco. Essa intensa experiência só teve um basta quando ele fundou a Quintal das Artes.

Já fazia trabalho de mentoria com grupos e coletivos periféricos de Belo Horizonte, Contagem, de outras cidades também, já, região metropolitana. E era um trabalho que me dava muita satisfação de ver grupos fazendo acontecer ali suas carreiras, e andando, e conseguindo dançar, e apresentar teatro e música.

e eu tinha vontade de reunir isso tudo nesse espaço, porque eu atuava com produção num lugar, com a mentoria no outro, dava aula no outro, e falei, cara, preciso de um lugar para fazer tudo isso e juntar todos esses atores e interesses.

A Quintal tem a missão de fortalecer a cena artística de Minas Gerais, colaborando na construção de carreiras sustentáveis. Entre os projetos estão o Sala de Ideias e o Mentoria de Carreiras. Nessas ações, os especialistas da instituição atuam para lapidar produtos culturais, assim como para profissionalizar trajetórias. Um dos gargalos identificados é a ausência de monetização dos produtos intelectuais.

E aí, na primeira entrevista, quanto você ganha do... da sua renda mensal, desse trabalho, seu artístico? Aí a pessoa fala, zero. Aí tem um conhecimento foda. Aí a pessoa mostra a arte dela, dança, fala, não, mas é foda pra caralho. Entendeu? A pessoa é um ator, é uma atriz foda, é um desenhista foda, mas não sabe tirar um centavo. Porque a gente não entende, e quando a gente não entender que isso tem valor, isso aqui que você faz tem valor, não vai valer dinheiro, senão você entende que vale, velho.

É um louco, né? E o mais louco é pensar num espaço que é progressista. Nesse caso, de acordo com Nayara Bernardes, a especialista do Sebrae Minas, existem dois problemas escancarados. Primeiro, o artista não precificar o produto intelectual. Segundo, o público não valorizar o trabalho artístico.

Você tem uma pessoa, um amigo que sabe cantar muito bem, um intérprete, fala, ah, eu vou fazer uma festa, será que essa pessoa não pode ir lá, dar uma canja? As pessoas também não querem pagar. Então tem que criar, romper essa barreira do outro lado de quem consome e falar que aquilo ali é um negócio, é um produto, e também do lado de cada artista. Se mostrar, se posicionar enquanto produto, enquanto serviço, enquanto negócio.

E precificar, e saber precificar e colocar ali a tabela. Qual é o valor, o meu custo, quanto eu vou vender isso, o que isso implica, para quem, pensar como negócio mesmo. Para solucionar um dos problemas, é necessário que o artista se qualifique. Sim, estou dizendo sobre a qualificação em gerenciamento de negócios. Para resolver o outro problema, Deise garante que a sociedade precisa reconhecer a arte como trabalho.

A nossa formação de público, a nossa formação em educação, ela precisa se aprofundar mais para que toda uma sociedade respeite isso e para que seja natural que todas as profissões tenham uma exigência profissional elevada e igualmente um respeito. Porque também você começa a ter uma situação de exigência profissional muito grande.

E não tem um reconhecimento financeiro que acompanha. Para exemplificar, Daisy usa o mundo da bola. Ela comenta que uma partida de futebol, mesmo com ingresso a preço popular, gera uma renda enorme. Em um cálculo simples, se 60 mil torcedores comprarem ingressos a 30 reais cada, o faturamento bruto será de 1 milhão e 600 mil reais. Se você faz um espetáculo a 30 reais...

você tem dificuldade de encher o espaço. Daisy provoca mais um tiquim. E existe uma matemática simples, que eu acho que todo mundo precisa fazer esse exercício antes, que é assim, achei caro. Segura pra você. E faz antes uma análise, tá caro mesmo? Quanto você gasta quando você vai comer um sanduíche?

Compara as coisas, fala, ah, fui no cinema legal demais, fui no teatro. O que me faz achar uma coisa cara e uma coisa barata? No terceiro episódio, Cris Leão disse que a arte do mosaico não tem preço popular. E o valor é alto porque os insumos são caros, a qualificação é difícil e o tempo para execução é longo. E tempo...

cá entre nós, não é um recurso renovável. Cris revela o valor base de um trabalho realizado em mosaico.

Existe uma média na base de R$ 1.900,00, um metro quadrado do mosaico. Esse valor, conforme explicado por Cris, é uma base. Um mosaico pode custar mais ou menos. Vai depender do grau de dificuldade, da técnica aplicada, da matéria-prima que foi usada e, claro, do tempo de execução.

Só para você ter uma ideia, um símbolo do galo de 30 centímetros, em média, que é 50, do cruzeiro é mais caro, é 150, porque ele é mais elaborado, entendeu?

Na hora de botar preço em um trabalho, o artista deve considerar também as ferramentas utilizadas. No circo, Deise investe em equipamentos de segurança. Ricardo teve que comprar instrumentos. Cris, por sua vez, utiliza alicates e um forno para altas temperaturas.

O forno foi, na época, já tenho uns três ou quatro anos, o forno foi R$ 16 mil. Os alicates de mosaico são carésimos, sabe? Um alicate de roldana, dupla força, dupla força, é quando você faz menos força para cortar. Ele custa R$ 590. Quando eu dou a amula, por exemplo, eu tenho que ter pelo menos 15 alicates.

Após descobrir o valor da arte em mosaico, eu quis saber sobre o processo de valoração no mercado das artes plásticas. Zy Reis abriu o jogo. A primeira coisa que a gente precisa conseguir visualizar é isso. Quanto custou esse material?

Ah, custou X. Ah, quanto tempo que eu demorei para desenvolver essa pintura? Custou X. Ah, então a minha hora de trabalho também, ela custa X. Aí depois desse processo, desse primeiro cálculo, tem o processo de uma valorização no mercado de arte, né? Existem vários mercados de arte. Sei lá, por exemplo, essa tela foi exposta numa exposição que eu fiz na Galeria de Arte da Aliança Francesa, lá na Savace, alguns anos atrás.

Por ela ter sido exposta nessa galeria de arte, ter sido noticiada em jornais, ela agrega um outro valor perante ao mercado, entende? E aí você vai fazendo o cálculo também desse trabalho. O trabalho de Zee é diverso. Quadros, grafites, filmes. E uma preocupação da artista é a de produzir arte acessível.

Tanto para quem está com a conta no verde, quanto para quem vive com um orçamento mais apertado. Eu tenho trabalhos que são para colecionadores de arte, que são para instituições, que têm um valor X. Mas eu gosto de ter sempre trabalhos que vão ser mais acessíveis, que eles tenham uma reprodução.

mais rápida, que são prints, que são imãs, que são telas menores. E aí você vai brincando com esse leque de produtos. Cada linguagem artística terá uma metodologia de valoração. Não há uma regra universal.

Michele Chalub, que atua como especialista no Sebrae Minas, reflete sobre a dificuldade das pessoas em precificar a arte. Acho que tem duas coisas. Uma, desconhecimento mesmo de informação no sentido de eu posso monetizar a minha arte, que eu não estou indo contra nada. Eu posso saber colocar um preço, eu posso saber divulgar e isso não vai conflitar com...

É o que eu idealizei para a minha vida, então acho que é falta de informação, né? Que algumas vezes as pessoas, né? Esses artistas, essas artistas têm. E do outro lado, eu acho que culturalmente tem uma questão que às vezes é difícil.

Fazer a gestão de um negócio é complicada. A gestão de um negócio criativo passa pela precificação, comercialização, gestão do tempo, organização financeira, fluxo operacional e por aí vai. Parece complicado.

Mas relaxa. Não é nada de outro mundo. Você saber se planejar, por exemplo, para datas comemorativas, sabendo que você vai trabalhar mais, você vai se dedicar mais, saber oscilar ao longo do ano, nesse período todo, como que eu me preparo, como que eu tenho minha reserva.

Isso só traz benefícios. E eu não estou nem falando de formalização, propriamente dita, porque ainda tem muitas questões da parte formal, muitas vezes, da economia criativa. Não é nem isso. É você saber que você está gerindo um negócio. E você, muitas vezes, é o negócio. E aí é uma mistura mais complicada ainda de virar essa chave para realmente, eu falo, tomar as rédeas minhas do negócio e se dedicar para isso.

Ligia Moraes, conforme revelado no episódio 2, é professora, artista e produtora cultural. Apesar de ter um salário fixo na área da educação, quando decidiu que a arte seria a segunda fonte de renda, ela fez exatamente o que Michele disse, tomou as rédeas do próprio negócio.

Eu acho que é essencial para qualquer artista, acho que para o ser humano, ter uma gestão financeira. Isso é questão de vida, né? E gestão de organização do próprio tempo, ter uma planilha do seu tempo de estudo, do seu tempo de treino, do seu tempo de produção, saber o que entra, recursos que entram, recursos que saem. Ter um cronograma, por exemplo, se você tem como base só os fomentos, ter um cronograma básico dos fomentos que vão vir.

Ligia é multiartista. Uma de suas especialidades é a arte circense. Ela conta que, em alguns períodos do ano, há uma demanda enorme por intervenções com fogo, pernautas e acrobacias. No entanto, o faturamento desses trabalhos é classificado por ela como variável. Isso é um ótimo exemplo de gestão financeira.

Então, é época de maior fluxo de trabalho, você vai lá, faz muito trabalho. Às vezes é época que a maioria das pessoas estão descansando, mas é época que você vai ter que trabalhar, semana da criança, por exemplo, outubro. E aí você faz essa grana e quando tiver um período mais esvaziado, por exemplo, período de chuva, não tem tanto trabalho.

Você tem como se manter ali, né? Desenvolver todas as etapas pontuadas neste episódio coloca qualquer negócio em outro patamar. Fernanda entendeu isso. Eu fiz uma mentoria que foi muito importante para mim durante esse período de estudos do marketing, da comunicação, que foi uma mentoria de marca pessoal. Que eu acho que toda artista tem que entender.

que é como que você traz dentro da sua imagem, da sua comunicação, dos seus trabalhos, essa ideia de valor. Não preço, mas de valor. De valor do tanto que você já pesquisou, de valor do tanto que isso é bom e importante. Foi assim que ela fez o mercado enxergar os trabalhos que realiza com mais valor. Com isso, Fernanda aumentou o ticket médio.

Ah, no marketing, ticket médio é o valor médio gasto pelo cliente em cada compra. E aí eu posso vender poucos por mês e financiar as minhas criações.

Então, é isso, assim, isso mudou minha perspectiva. Hoje, realmente, eu não vou ficar 40 horas semanais pra ganhar R$ 1.500 dando aula de teatro ou qualquer outra coisa. Se eu posso vender pra uma pessoa um ticket médio de R$ 2.000 e com isso atendê-la bem.

E ter tempo de criar, porque dá trabalho criar. Esse resultado não caiu do céu. São anos e mais anos de dedicação. Tentativa e erro. Tentativa e acerto. Além disso, Fernanda tem gastos com qualificação, equipe e campanhas online. Os famosos patrocínios nas redes sociais. Fiz muito investimento de patrocínio.

Você precisa, depois você vai precisar de alguém para te ajudar a fazer um atendimento no WhatsApp ou um atendimento de conteúdo, enfim, fazer uns conteúdos para você, um videomaker, tirar fotos, né? Isso tudo é muito importante dentro dessa coisa do visual. É isso, é o seu negócio.

Apesar do sucesso profissional, Fernanda ainda trabalha muito. Inclusive, ela está em uma constante construção desse cenário chamado empreendedorismo cultural. Então é tudo isso, planejamento estratégico de curto prazo, médio prazo, longo prazo. Manter uma constância, senão nada vai acontecer.

Não adianta se fazer uma live hoje e desaparecer dois meses, três meses, né? Então eu tenho um trabalho de seis anos e me interrumpo tudo dentro da internet. Fiquei uns tempos sem fazer? Fiquei. E aí eu vi que eu fui prejudicada. Eu vi que não é assim que funciona, sabe? E pensar que isso não é hoje que você faz um conteúdo que você vai ter caixa entrando. Então, sempre planejando, sempre entendendo.

para você conseguir administrar. Essa administração tem alguns ônus. Por exemplo, fazer o que deve ser feito, não o que gostaríamos de fazer. É aquele papo. Adulto não faz o que quer. Adulto faz o que é preciso fazer. E é importante que, no momento certo, o artista faça a formalização do negócio, abrindo um CNPJ.

Dessa maneira, será possível emitir nota fiscal, conquistando assim clientes maiores e com uma verba muito mais robusta. Você é uma empresa. Bom dia. Você tem que ter seu CNPJ.

Ah, eu não quero ter porque é caro, é caro, mas se você não tiver, você nunca vai ter, aí você não tem, você não consegue trabalhar, e nós vamos ficar nesse reme-reme. E não é profissional a gente receber uma resposta. A gente tá falando do mercado, tá, gente? Tipo, ah, eu vou ver se eu consigo tirar a nota fiscal. Isso diz muito, é muito frágil essa afirmativa.

Daisy não está dizendo que todos os artistas devem fazer a formalização num passe de mágica. Tudo é um processo. Segundo ela, existem outras opções, como a emissão de uma nota fiscal avulsa. No entanto, a gestora destaca que, nesse processo de formalização, mais cedo ou mais tarde, o artista vai ter que escolher.

Então, assim, eu preciso entender quem que eu sou nesse rolê, quem que eu quero ser e levar com seriedade essa história de, assim, eu sou minha empresa. Tudo bem, eu posso estar trabalhando em outros lugares, fazendo frila no sacolão, mas eu sou uma artista. Eu acredito no meu trabalho, eu sei que o meu porta-retrato é bonito. Eu preciso me estruturar.

Deise sabe muito bem quem ela é. Enquanto profissional da cultura, a gestora entrega o melhor com os recursos que tem. Às vezes, faz até milagre. Autista, ela tem como bandeira a diversidade, que é o alicerce do bloco pra que ser reto.

Criado pela turma do Instituto Cultural Circular, o bloco de carnaval desfila em maio. Sim, completamente fora de época, mas com uma execução de tirar o chapéu. E essa é a metáfora. É possível ser alegre, ter autenticidade e ainda assim gerenciar um negócio cultural com muito profissionalismo.

E ele questiona justamente a dureza das coisas. Porque a gente fala, esse é meu aniversário, é o dia de eu ser feliz hoje. E amanhã, eu vou encontrar minha família uma vez no domingo a cada mês. E aí alguém chama para a gente ir na casa da pessoa de uma hora para outra, a gente fala, nossa, não avisou antes. Por que a gente é tão duro assim para ser feliz? Por que a gente agenda tanto as coisas?

Então, é um bloco que questiona isso. Você acha que esse bloco deixa de ter algum planejamento por questionar isso? Não. Está planejado. As datas estão estabelecidas, os horários estão estabelecidos. O formulário de inscrição está feito. A identidade está posta. O Matheus está trabalhando nela.

A seriedade do trabalho, e aí com o circo as pessoas confundem isso, a seriedade do trabalho, do processo administrativo pré-produção, é igual para tudo, para tudo. Pode organizar o que for, pode ser um festival de circo, pode ser o carnaval, é o mesmo processo. Meu negócio é arte.

Essa é a nova temporada do Trem para Fazer Podcast, um programa do projeto Trem para Fazer, que foi criado em 2014. O Trem para Fazer Podcast foi contemplado na Política Nacional Aldir Blenck de Fomenta Cultura, a PNAB Contagem, em 2024. Eu sou Felipe Pedrosa, criador, apresentador, roteirista e idealizador da série Meu Negócio é Arte.

A operação de áudio é de Daneda. A edição e a finalização de Arthur Rocha. A arte de capa é de Iana Ottoni. A revisão de Renata Crepaldi. Preparação, Peto Placides. Transcrições, Júlia Bigão. Acessoria de imprensa, Vapor Comunicação. As narrações foram gravadas nos estúdios da Scriptos Comunicação.

Este episódio usou áudios das emissoras RTP e Rio TV Câmara. Antes de me despedir, quero te pedir para seguir o podcast no Spotify e no YouTube. E claro, se possível, avaliar, deixando uma nota. Para falar comigo, basta me encontrar nas redes sociais. Arroba Trem Pra Fazer. Até o próximo episódio!