#195 - Mari Sankofa fala sobre solidão da mãe negra e educação afrocêntrica no especial de Dia das Mães
Em um relato emocionante, Mari fala sobre o amor pelas filhas, consciência racial, violência obstétrica, sexualidade após a maternidade e a importância do aquilombamento. “O Rafa não é só meu marido, ele é minha comunidade”, afirma. Entre lágrimas, ela relembra a mãe, reflete sobre a transformação que a maternidade trouxe para sua vida e deixa um recado para outras mulheres: “busque sua comunidade, busque seu aquilombamento”.
Um episódio potente, íntimo e necessário sobre maternidade, rede de apoio e pertencimento. Feliz Dia das Mães 🫶🏼
Apresentação: Cynthia Martins
Produção: Gustavo Santos
Edição: Gabrielli Soares
Sonorização: José Antônio
Cíntia Martins
Luana Pereira
Mari Sankofa
Rafael Fischmann
- Maternidade NegraSolidão da mãe negra · Desafios da maternidade no Brasil · Consciência racial na maternidade · Violência obstétrica · Aquilombamento e rede de apoio
- Violencia Urbana BrasilDados sobre violência obstétrica · Negligência no pré-natal · Impacto na saúde mental da mãe · A importância de buscar informação e direitos
- Impacto da maternidade na identidadeTransformação pessoal após a maternidade · Redescobrindo a sexualidade e o prazer · Amor próprio e aceitação do corpo
- Maternidade e TrabalhoDesafios de conciliar maternidade e carreira · A necessidade de ambientes de trabalho mais acolhedores · Matrigestão e empreendedorismo materno
- Autocuidado e MaternidadeA maternidade como catalisadora de autoconhecimento · Reconhecimento de limites e traumas · A construção de uma nova identidade
- Perspectiva Africana da MaternidadeMães como centro da sociedade · Nutrição da vida e importância da mãe · Comunidade e cuidado coletivo
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Olá, minha gente, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda mais uma vez ao nosso Pretoteca, esse programa que você já conhece. Se você não conhece, eu me chamo Cintia Martins, sempre comando essa nave aqui ao lado da Luana Pereira, que hoje não está com a gente, mas você sabe que a gente vai revezando aqui entre os compromissos, sem deixar de faltar...
com você nesse compromisso que é o nosso Pretoteca de todas as semanas, toda sexta-feira às 7h30 da noite, mas tá aqui ó, gravado, pra você ver, rever, ouvir a hora que você quiser, sempre nas ondas da Rádio Band News FM, no YouTube da Rádio Band News FM e também em todas as plataformas de streaming. Então simbora, seja muito bem-vindo, muito bem-vinda pra gente falar de um tema que me encanta. Já falei sobre esse assunto aqui outras vezes, já falei sobre paternar, sobre maternar, sobre a criação de crianças, mas dessa vez...
é com uma bagagem diferente. É a primeira vez que eu estou tocando nesse assunto sendo mãe. Meu filho tem dois anos de idade e acho que talvez eu chore durante esse episódio, porque vai tocando a gente de maneiras diferentes depois que você começa a maternar, né? Não é impossível não falar sobre isso. E nesse programa que antecede aqui, a gente vai falar sobre elas, as mães, sobre nós, as mães, porque é um assunto sempre urgente. Afinal...
Todos que estamos aqui tivemos o ventre em algum momento como casa, né? Tivemos mães, né? Independentemente das relações, das histórias que virão depois, a gente sempre vai ter tido uma mãe em algum momento. E aqui a gente quer falar sobre como é maternar nos dias de hoje, como é maternar sendo uma mulher negra.
como é criar crianças no mundo de hoje, claro, falando das realidades, mas sem deixar de falar do amor que envolve muitas famílias. A gente vai receber hoje uma pessoa que eu já queria conversar há muito tempo. A gente conversou com um companheiro dela, o Rafael, quando a gente falou sobre paternidade, foi nos episódios mais assistidos aqui do Pretoteca. E hoje a gente tem a honra de receber a Mariana Raíssa, que você conhece já muito bem nas redes, como Mari Sankofa. Seja muito bem-vinda, Mari. Obrigada, viu? Imagina, obrigada eu.
Uma alegria estar aqui com você, receber, ouvir vocês, ouvir as experiências. A gente já trocou um pouco aqui antes de começar, já devia estar gravando, porque a gente já gastou o assunto. Mas muito importante aqui a gente falar dessa perspectiva da maternidade negra. E eu estou colando aqui para a gente trazer números, né? Porque falar de realidade mesmo, né? A gente não quer falar só de dor aqui, mas a gente não pode fechar os olhos para a realidade do que é ser mãe no Brasil.
Nesse ano, a gente teve, é para você ver a solidão de ser uma mãe negra em muitos momentos da nossa sociedade, que o cenário do Brasil, nesse ano, a gente teve 62.446 crianças nascidas de janeiro até o dia de hoje, que é dia 8 de maio, é o dia que a gente está gravando esse programa, uma sexta-feira.
Sem o nome do pai, tá? Desde que essa contagem começou a ser feita, em 2016, né? Até hoje, 2026. Das 26 milhões de nascimentos, 26.777.376, 1.686.121 crianças só tem o nome da mãe. Parece pouco se você for comparar, mas...
Mesmo que fosse uma pessoa, né, Mari? É um abismo tão grande você crescer sem uma figura masculina, sem uma outra figura para cuidar de uma criança, para criar uma criança num mundo tão difícil como esse. E não só falando de quem não tem nome do pai, mas um outro número que escancara essa realidade é que as mães solo são mais de 11 milhões no Brasil. Se a gente está falando de números, fora as subnotificações e mulheres casadas que sequer...
tem a presença, a participação de um companheiro para cuidar, ou de uma companheira para cuidar de uma criança. A gente fala que não é ajuda, é fazer o básico. E eu quero entender como que esses números te atravessam de alguma forma na sua história, Mari. A Mari, que tem um trabalho já há muitos anos com o companheiro Rafael e as filhas nas redes sociais, arroba Sankofamily, você pode procurar lá.
muito famosas, posso chamar assim, mas que fazem um trabalho lindo de falar da maternidade, da paternidade, de trazer o lúdico para novas infâncias e também, claro, conscientizá-las de serem corpos pretos da nossa sociedade. Como esses números reais de maternar no Brasil atravessam você, Mari? Primeiro, mais uma vez, eu quero agradecer pelo convite. Eu te agradeço. É uma delícia estar aqui. Continuando esse trabalho que você começou com o Rafa, falando sobre famílias pretas, sobre a nossa existência. Então, estou muito feliz.
e me atravessa num lugar muito assustador, porque eu sei que essa não é minha realidade, eu não costumo dizer que é sorte, né, porque foi um trabalho muito árduo construir essa família com o Rafa, mas eu tenho esse privilégio de ter um homem muito funcional e que cumpre o seu papel de uma forma muito grandiosa, muito maravilhosa.
Mas eu sou cercada de mulheres que fazem esse trabalho sozinhas. E eu sei o quanto isso é difícil, eu sei o quanto isso é doloroso, eu sei o quanto isso é cansativo. E eu acho que eu fico mais triste com isso, é saber o quanto as mulheres estão podando seus sonhos e diminuindo a sua potência, porque elas têm que estar ali totalmente focadas no desenvolvimento dessa criança, onde a outra parte responsável abriu mão por vários motivos.
Acho que a gente vai falar sobre isso em algum momento, né? Mas essa outra parte abriu mão ou não pôde estar presente.
E eu vejo muitas mulheres morrendo mesmo, né? Talvez não fisicamente, mas mentalmente. Definhando, né? Definhando, exatamente, de dentro pra fora. Então é muito triste, muito desesperançoso, mas ao mesmo tempo, né? Olhando pra ancestralidade e sabendo que essa é uma realidade que inclusive não foi criada por nós, eu também entendo que existe um trabalho que a gente precisa fazer. A Sancofêmica, ela...
ela nasceu por isso, né? Pra que a gente pudesse mostrar pras outras pessoas que é possível. Que é a frase que a gente mais fala. É possível, né? É possível um homem preto se responsabilizar pela criação dos seus filhos, independente do contexto que ele esteja. É possível uma família preta se apoiar. E aí, quando eu falo família preta, é de qualquer contexto, de qualquer construção, seja ela como for. É possível isso acontecer.
Então, ao mesmo tempo que me dá essa tristeza, que me dá essa... Ai, meu Deus, não acredito que esses números são tão grandes. Eu também sei que é possível e que a gente precisa se apoiar e se ajudar para fazer isso, de fato, acontecer. É que a gente falava que cada um vai reagir aos tantos atravessamentos que nós, pessoas pretas, tivemos ao longo da história. Falando de lá de trás.
De ancestrais que nós sequer conhecemos, né? A gente não está querendo justificar o pai que não assumiu a sua responsabilidade. Mas isso vem carregado, né? De uma carga genética também, de uma carga emocional, de pessoas que não tiveram isso e não sabem, hoje, paternar ou maternar da forma amorosa. É difícil, né? Você trazer o amor quando você não teve, né, Mari? Sim.
Eu acho que talvez a nossa geração, não sei quantos anos exatamente você tem, deve ser 20. É, uma coisinha de 5. Mas a nossa geração é uma geração que relata muitos problemas com a mãe. Que tem um afastamento emocional ou que foi criado por mulheres muito duras. E é por isso. É porque essa mulher foi atravessada pelas mesmas coisas que a gente é. Pela solidão, pelo cansaço, pela impossibilidade de trabalhar e de viver daquilo que acredita e tal. Mas elas não tinham espaço para conversar.
Elas não tinham essas redes. Era muito aquela coisa do aguenta, você vai fazer o que você tiver que fazer porque essa criança precisa comer. Enfim, isso traz consequências, né? Então, como que você vai conseguir falar para o seu filho, para o seu filho? Você pode falar sobre isso, você tem um espaço seguro para falar sobre isso. Vamos pensar em como a gente pode trabalhar isso, em como a gente pode desenvolver isso, se você nunca teve esse amparo, né?
Então, é um desafio também que a gente precisa enfrentar enquanto comunidade, né? Sim, e hoje tentar passar essa necessidade para as crianças que estão chegando agora, né? Para trazer novos olhares sobre como criar uma criança. Agora, como que foram os maternares antes de você, né? Seus maternares ancestrais, o que você viu ali da sua mãe, das suas tias, da sua avó? Você falou que é cercada ali na sua família de origem de mulheres que tiveram essa experiência solo. Como que foi isso para você?
Eu acho que na família, assim, da onde eu venho, a gente tem muito essa coisa do homem não necessariamente não estar presente fisicamente, mas estar envolvido em várias outras coisas, várias situações extremamente complexas, né? Mas as maternidades mais próximas a mim, minha mãe foi casada com um homem branco, minha mãe é uma mulher preta casada com um homem branco.
Então, já tem todo o atravessamento de um relacionamento interracial. Eu sou a única filha preta dessa família. Então, também eu cresci sendo atravessada por várias questões ali. Que seus irmãos não passavam, né? Exatamente, exatamente. Só que com tudo isso, meu padrasto é um homem branco, mas ele é nordestino. Então, se a gente fosse ler socialmente, ainda existiam outros desdobramentos, né? E minhas irmãs, elas não são fenotipicamente brancas.
elas talvez seriam unidas como indígenas se a gente tivesse um pouco mais de letramento nesse sentido então tinha também essa coisa do não lugar tinha essa coisa também do minha mãe e uma mulher preta criando crianças que não se pareciam com ela, mas que também não se pareciam com o que a sociedade estipula como certo, então eu sempre sentia a minha mãe muito tentando equilibrar todos esses pratinhos
assim, eu acho que isso foi uma das coisas que mais me inspirou na minha maternidade e depois, né, de ser mãe da Aretha e da Mara eu consegui entender como isso ia funcionar pra mim mas eu sempre percebi isso, minha mãe tentando tá, como que eu vou organizar tudo isso aqui? como que eu organizo essa família que eu construí? como que eu organizo essa educação dessas crianças mais novas? o lidar com o trabalho? minha mãe até a minha... eu tenho três irmãs mais novas e até a minha penúltima irmã, minha mãe não trabalhava fora tá?
E aí, muito bruscamente, ela precisou trabalhar fora. Então, como que ela passou esse bastão da responsabilidade pra mim, né? Porque eu precisei estar nesse lugar de cuidar, de uma certa forma. Que também é muito complexo pra muitas famílias, né? As velhas, geralmente, a menina é a que é levada a uma profissão, a profissão não, a um trabalho de cuidado muito cedo, tendo que ser mãe de outras crianças, né? Sim, sim. E isso atravessa a gente de uma forma muito complexa.
Eu estava falando com a Rafa essa semana, né? O quanto a gente sempre fala, ah, eu cuidei dos meus irmãos.
Só que é totalmente diferente quando você tem ali aquela criança que depende completamente de você. Só que sem essa bagagem desse cuidado. Eu vou falar prematuro, mas eu tomo cuidado para falar essa palavra para também não trazer culpabilidade. Porque é o contexto perdinho. Exatamente. Mas com esse contexto de ter cuidado das minhas irmãs, eu também cheguei para a maternidade, mas a palavra não é preparada. Familiarizada. Tá.
Essa coisa do cuidado, essa coisa do ter alguém que depende de você, essa coisa do pegar na mão ali e ensinar o caminho.
que você está vivendo de uma forma muito intensa. Então, as maternidades que me cercaram, elas têm um papel muito de referência, não só necessariamente do que repetir, mas também do que eu não quero trazer, o que eu não quero mais repetir, quais ciclos eu quero quebrar, sabe? Isso é importante. Eu acho que, às vezes, a gente... Como nós somos a geração que fala sobre terapia, que entende a terapia como uma parte importante.
Eu acho que o primeiro passo é sempre olhar e falar tudo que está errado. Ah, minha mãe errou nisso, minha avó errou nisso. E, ok, isso é muito importante, mas o que elas podiam fazer naquele momento? Qual que era o contexto naquele momento? Qual que era a situação naquele momento? Então, o que elas fizeram? Elas fizeram porque era o que estava à disposição, era o que elas conseguiam, né? E aí cabe a nós agora entender se a gente já consegue quebrar esse ciclo e trabalhar para isso, para que, se não for possível, as próximas gerações continuem esse trabalho.
E que ciclos você quer quebrar de outras maternidades? Não estar repetindo na sua...
E que é difícil, que às vezes a gente deve se pegar, repetir. Eu já me peguei falando, se eu não quero fazer, aí eu faço. Com certeza, com certeza. Eu acho, assim, o mais importante pra mim, eu quero viver a maternidade e não sobreviver a ela. Toda vez que eu falo sobre maternidade, eu falo nesse lugar de eu me apodero disso.
Eu quero viver isso aqui, eu quero viver as partes boas e as partes ruins. E aí, quando eu falo as partes ruins, eu sempre falo, né? O problema não é a maternidade, o problema é a sociedade em que a gente materna, né? Então, as partes ruins estão todas ligadas a todo o aparelho social que está ao nosso redor. Mas eu quero viver isso também, eu quero lutar pelos meus direitos, eu quero lutar pelo direito de estar presente na vida das minhas filhas, né? Quando a Aretha nasceu, eu...
Fiz o bingo ali de tudo que você passa de ruim na maternidade. Então, eu sofri assédio moral no trabalho, eu sofri violência obstétrica no parto. Foi um caos, né? E eu não consegui estar presente do jeito que eu gostaria. Eu não tenho fotos de quando... Eu tenho, sei lá, três fotos de quando eu tava grávida da Rita. Nossa.
Então, eu tenho memórias, mas eu não consigo ver tudo isso, né? Então, eu tive que passar, eu tive não, né? Ninguém tem que passar por isso. Mas passar por isso me fez entender que isso também é um direito meu, sabe? Se essa é a realidade, se esse é o contexto que eu estou, eu quero estar nisso de verdade, eu quero abrir a minha boca e falar, olha, tá errado isso.
Mulheres não podem passar por isso porque viraram mães. É absurdo uma mulher grávida passar por isso no seu trabalho, sabe? Então, o maior ciclo que eu quero quebrar e que hoje eu sinto que eu tô conseguindo é isso. Eu estou presente, eu tô de corpo e alma presente na minha maternidade. E quando eu olho pra isso, pra além dessas maternidades mais próximas de mim, eu penso nessas mulheres que não puderam maternar. Quando a gente fala daquelas ancestrais bem antigas, seus filhos eram arrancados dela.
Isso não é tão antigo, porque quando a gente tem... Não, isso acontece ainda, né?
Quando a gente tem um caso como o da Mirtes, então a gente sabe que crianças pretas são arrancadas de suas mães, que muitas mães pretas não podem maternar. Então eu olho para essas mulheres e falo, também é por vocês. Eu estou aqui presente, eu estou aqui lutando, eu estou aqui chorando, eu estou aqui cansada, eu estou aqui trabalhando e dando conta de tudo isso também por vocês. Porque eu quero que a maternidade continue sendo algo nosso, que a gente continue podendo exercer quando a gente quiser.
Esse privilégio, pra mim, é um privilégio. É, eu concordo que é um privilégio realmente tentar equilibrar com o aparelho social, como você disse, né? A forma como a gente foi construindo esse afastamento do cuidado mesmo, né? Porque a pessoa tem um filho e muitas vezes você precisa delegar essa função.
Mãe, amo você. É a grande luz da minha vida. Sem ela, eu não poderia ser profissional também nesse momento, porque ela é o nosso braço direito no cuidado com o meu filho. Mas eu não tenho memória da minha mãe brincando comigo. Já falei sobre isso com ela. É uma mulher que tem a primeira geração da família, a primeira pessoa formada e a primeira a ter o seu...
sua carteira de trabalho, com seu trabalho independente, passou num concurso público, aquela coisa toda. Então, assim, eu entendo que pra ela, aquele momento, o profissional, não que superasse a maternidade, o lugar da maternidade, mas tinha um peso muito grande pra ela se firmar também como mulher negra naquela sociedade.
E hoje você poder ser presente na vida da Amara, da Aretha e eu também na vida do meu filho, que também foi uma construção aqui que o trabalho foi auxiliando. Eu sempre trabalhei nos extremos. Agora eu trabalho muito cedo. Então 11 da manhã no geral eu já estou indo embora. Então eu consigo passar o dia inteiro com o meu filho, né? Agora que eu ainda não cheguei, porque a gente passou um pouquinho.
Ele já sente, já começa a perguntar, cadê a mamãe? Já manda uns áudios para mim, mamãe, cadê você? Então, realmente é um privilégio muito grande, porque poucas mulheres, né, Omari, têm o privilégio de conseguir ver os seus filhos crescerem, né, num longo período do dia. A maioria sai, eles estão dormindo ou na escola e volta, as crianças também já estão se encaminhando para dormir, né? Então, acho que esse é realmente o grande privilégio que a gente está podendo algumas maternidades presenciarem hoje, né?
Sim, e o quanto isso é um trabalho geracional, né? Quando você fala da sua mãe, minha mãe não é formada, minha mãe... Sim.
infelizmente ela ainda está nesse ciclo dos subempregos, mas quando eu vejo essa geração da minha mãe, da sua mãe, podendo se formar, elas conquistaram algo que hoje a gente pode dar continuidade, e talvez para a Letra, para a Mari, para o seu filho, eles não tenham mais que escolher, né? O seu filho, enfim, não vai viver a maternidade, mas vai viver ali as relações dele, e ele não vai precisar necessariamente escolher entre estar presente na família, na paternidade, na maternidade, e ir trabalhar, porque isso já vai ter sido algo conquistado pela sua mãe, pela minha mãe, por nós, né? Sim, sim. Então, é...
Não é independente. Nós estamos todos nesse trabalho de desenvolver isso para as próximas gerações sempre. E a gente vê como a maternidade brilha aos seus olhos, né? Como é uma... Além da militância, é algo que realmente te move. E eu queria ver como é que você enxerga as nossas mudanças, né? Como as mulheres enxergam a maternidade nos dias de hoje. Era um sonho seu? Era algo que você sempre queria? Ou você foi construindo esse amor, essa paixão ao longo dessa caminhada?
Eu acho que durante muito tempo eu nunca nem pensei em não ser mãe. Seja pelo contexto familiar, não sei, mas não existia possibilidade de não ser mãe pra mim. Então, antes não era uma coisa que eu analisava. Falei, tipo, quero ser mãe em tal idade. Quando eu fui mãe a primeira vez... 25, né? Que você tinha? 25.
Quando eu fui mãe a primeira vez, falei, cara, acho que o primeiro, né, esse processo da gravidez, tudo que eu passei no trabalho, e a Aretha nascer num contexto de violência obstétrica, me fez ficar muito assustada. Mas quando eu vi a minha filha a primeira vez, assim, mesmo com tudo aquilo, eu fiquei 27 horas em trabalho de parto. Então, eu tava muito cansada, muito dolorida e tal. Mas quando eu olhei pra cara dela a primeira vez, eu falei, gente, isso aqui é a coisa mais preciosa da minha vida, assim.
Eu nunca mais quero fazer nada que não seja sentir isso, sabe? E aí, uma coisa que eu sempre falo, né? Quando eu estava grávida da Mara, elas têm um ano e uns e meio de diferença. Então, muitas vezes à tarde, eu colocava a letra para dormir, eu barrigo dono assim. E aí eu sentia, eu conseguia ver, parece, a ocitocina subindo assim no meu corpo, sabe? É o momento que eu sou mais feliz na minha vida, é quando eu estou com as minhas filhas.
É quando a gente dá risada junto. É quando eu falo de quando eu era criança e elas se interessam. Hoje, quando eu estava saindo de casa, a Mara estava fazendo um desenho meu, sabe? Aí ela falou, mãe, como que o seu cabelo é? Deixa eu ver a cor. Que cor que você quer pro seu batom? Sabe? Isso mudou a minha vida. Isso me faz ser uma pessoa muito forte. Isso me faz ser uma pessoa com vontade de viver, sabe? Eu tenho vontade de viver por causa das minhas filhas.
Não só porque eu quero experimentar a vida, mas porque eu quero que elas amem viver.
Eu quero que elas tenham o direito de sonhar, de trabalhar para construir seus sonhos, de se apaixonar, de errar, sabe? De construir coisas malucas. Então, hoje, eu consigo e eu quero viver cada dia mais, porque eu tenho uma responsabilidade de fazer essas meninas aprenderem a experimentar a vida, né? E eu não tenho como desassociar a maternidade da consciência racial.
Isso foi arrancado da gente. Quantos dos nossos não têm vontade de viver, são atravessados por situações tão violentas? Quantos dos nossos ancestrais tinham que acabar com a própria vida? Pra parar de sofrer. Pra parar de sofrer. Eu não suporto mais isso, eu não consigo mais ver isso, sabe? E colocar duas crianças pretas no mundo me trouxe também essa responsabilidade de resgatar o nosso direito à vida.
O nosso direito de, sabe, um dia sentar e conversar. Um dia de ir para a praia e brincar na praia, sabe? Porque isso foi arrancado da gente. Então, hoje ser mãe me faz dar valor à vida. Não só para mim, mas para todo mundo que está ao meu redor, né? A maternidade, numa perspectiva africana, ela é isso, ela é a nutrição da vida. Mães, numa perspectiva africana, são extremamente importantes.
mesmo em sociedades mais patriarcais como por exemplo a Yorubá você vê a mãe como sendo o centro da sociedade de respeito de respeito, de política mesmo uma rainha, sabe? é isso, porque ela sentiu a vida ela gerou vida e ela colocou vida no mundo então se essa pessoa não sabe o que é vida quem mais sabe?
Se você quer saber qualquer coisa da vida, você pode perguntar para uma mãe. Eu acho que hoje você sabe muito bem. Aquele momento do parto, e aí não importa a via, não importa nada. Eu não tenho experiência de ser mãe por adoção ainda, que é uma coisa que eu quero muito. Está nos meus planos também. Muito.
Eu imagino que quando você vê, assim, essa criança aparece pra você, eu acho que sim, é uma situação muito parecida com o parto. Porque você tá, essa criança tá entrando pro mundo. Porque a gente também sabe que crianças que estão ali, né, nessa situação de adoção, elas são invisibilizadas, elas são negligenciadas, não necessariamente pelas pessoas, mas pelo próprio sistema mesmo, né? Então você tá dando a oportunidade e você tá participando desse privilégio de trazer alguém ao mundo.
ao mundo dos vistos, ao mundo daqueles que tem alguém que se importe, alguém que ame, sabe? Então, a maternidade, principalmente por causa da minha consciência racial, ela me traz essa noção de que a vida importa. Todas as vidas importam, né? Não desse jeito superficial que as pessoas falam, mas que a vida, ela é um bem, sabe? Que o universo deu pra gente, que a ancestralidade deu pra gente e que todos nós precisamos cuidar e que todos nós precisamos nutrir e nós mães temos o privilégio de estar à frente.
desse cargo. Como que continua agora, depois de chorar? Se eu tiver burrado, tá tudo certo, que a gente chora aqui de verdade. Mãe chora, né? Meu Deus, como mãe chora. Cada vez mais, e eu já sou oficiana, já sou mole, já choro mais ainda. Agora, tem muitas questões aí que você, das coisas que você falou que me...
Trouxeram questões aqui, mas eu não sei nem por onde começar. Eu acho que eu vou começar pelo ponto da violência obstétrica que você falou, que também é uma realidade que eu vou trazer em dados aqui. Infelizmente, a Mari passou por isso. E não só a Mari. Olha só o número como é bastante assustador.
Essa violência obstétrica atinge uma em cada quatro mulheres brasileiras, mas aí um recorte muito forte é que a grande maioria dessas mulheres que passam por isso são mulheres negras. Isso desde o momento da gravidez, né, Mari? Eu queria até entender, desculpa tocar nesse ponto que é dolorido, mas a gente precisa também...
trazer esses dados para que a gente possa cobrar você também do outro lado, uma mulher negra que esteja do outro lado, um homem que esteja ao lado de uma mulher negra, você família negra, para cobrar do Sistema Único de Saúde, que é pago com o seu imposto, para que você tenha direito a um bom atendimento, que a sua criança possa nascer num ambiente saudável, minimamente saudável de trazer a vida. Existem, inclusive, muitos.
muitas instituições dentro do Sistema Único de Saúde que são humanizadas. É muito louco a gente precisar falar em humanizado, né? Enquanto somos todos humanos, mas a gente precisa ainda falar sobre isso, porque não são todos os ambientes que respeitam a nossa humanidade, né Mari? E você passou por isso. Sim, infelizmente sim.
Ontem eu estava vendo um post de uma pessoa falando como mães jovens ainda sofrem um atravessamento pior. Eu engravidei com 24 anos e eu lembro que quando eu entrei no posto ali para fazer a minha primeira consulta, a médica me olhou como se eu tivesse cometido um crime.
Eu não consigo descrever o desdém, o desprezo que ela tinha por mim, sabe? É tipo, ai, horrível, horrível, uma sensação horrível. E essa foi a médica que me acompanhou boa parte do pré-natal. Boa parte não, o pré-natal inteiro. E sempre esse tratamento muito, assim, ela não se importava comigo, não se importava com o que estava acontecendo ali. Tanto que a violência obstétrica, ela já foi resultado de uma mal condução ali no pré-natal.
De tudo, desde o momento em que eu entrei no posto de saúde Até o momento em que eu saí com a areta A gente foi atravessado por várias violências No hospital mesmo Quando eu entrei, o médico também foi muito E aí ainda tem um recorte muito importante Que eu acho que é uma conversa que a gente precisa ter Existem muitos homens na obstetrícia
e um homem, ele não consegue entender o que é, ele não tem esse corpo, ele não tem essa estrutura, né? E aí eu não tô falando que homens não podem estar na obstetrícia, mas cadê as mulheres da obstetrícia? Cadê essas mulheres à frente? E olhando de uma forma mais humanizada, porque aí também a gente precisa olhar pra esse curso de medicina, como que ele fala sobre o corpo, né? Como que ele fala sobre o corpo preto?
feminino. Então, isso são conversas importantes de entrar nessas instituições. Então, o tempo inteiro nós fomos atravessados até que, né, no parto, propriamente dito, a médica subvenciou na minha barriga, a médica aplicou anestesia, sem me informar, fez o corte que não deveria e deslocou o ombro da areta, porque a areta é uma criança que nasceu com quase 5 quilos, 4 quilos e pouquinho, muito grande, coisas que a gente não soube, porque o meu pré-natal foi extremamente negligenciado, né? Então, com...
culminou com tudo isso. E eu acho que o mais dolorido pra mim foi que eu não fui informada de nada que tava acontecendo. Tudo que eu descobri sobre a areta e sobre o que aconteceu e sobre as violências, eu descobri depois na internet, conversando com pessoas. Eu saí do hospital com uma criança com uma deficiência no braço esquerdo e ninguém me falou o que era aquilo. Então, assim, foi muito...
Me deu muita raiva. A sensação que eu tinha era muita raiva. Demorou um ano, mais ou menos, para eu entender, para eu conseguir organizar esse sentimento. Não que eu não sinta ainda, né? Mas para eu conseguir organizar, entender que isso é uma coisa sistêmica, entender que isso não foi culpa minha, porque essa foi a primeira coisa que eu senti. Nossa, eu fui responsável. Por que eu engravidei agora? Nossa.
Foi muito, muito caótico. Mas isso me deu base para viver uma experiência totalmente diferente no parto da Mara. O mundo é muito doido. O universo é uma coisa muito louca. A Mara nasceu no mesmo hospital, na mesma cama. Olha isso. Que a Aretha. Mas aí você já era outra, né? Já era outra. E a gente estava na pandemia, né? Então a Mara nasceu no dia 22 de março de 2020. Então assim, o mundo estava muito, muito maluco. Só que eu cheguei lá muito armada.
Até os dentes, assim, no auge da pandemia. Foi aquela semana que ninguém nem sabia o que estava acontecendo. Então, eu e o Rafa, a gente chegou ali muito armado mesmo, muito tipo, não vai acontecer isso, a gente não vai deixar passar desses limites. E a experiência foi literalmente o oposto, assim. A Mara quase nasceu sozinha. Nossa. E ela é assim até hoje.
mas a Mara quase nasceu sozinha então, infelizmente no nosso contexto, pra mulheres como nós pra mulheres de uma forma geral, mas quando você é uma mulher preta, você precisa se preparar pra viver qualquer coisa, sabe, então uma coisa que eu sempre falo, busquem os seus direitos quando você estiver grávida, busquem informação, e não só aquela informação médica do posto, porque enfim tem todo um sistema ali, né, mas busque doulas eu acho que as doulas são... E tem no sistema único de saúde
É importante falar sobre isso. Exatamente. E tem muitas mulheres que elas vão estudando, né? Porque isso também é uma arte ancestral, né? A doagem, essa coisa de uma mulher cuida da outra e tal. Então, existem muitas pessoas interessadas no bem-estar feminino. Nem sempre a gente vai encontrar isso no sistema público, né? Geral, mas a gente sempre encontra. Então, se você tá grávida, a primeira coisa que eu te falo, não vai comprar macacão, não vai...
Nada. Vai procurar informação sobre o seu corpo, sobre essa gravidez, sobre o parto, muito importante, sobre a amamentação, que também ninguém fala sobre isso. Verdade.
Você conseguiu amamentar? A Aretha não. A Aretha nasceu muito grande e eu acho que eu fui tão violentada no parto que meu próprio corpo não conseguiu entender o que estava acontecendo. Psicologicamente, né? O leite não desceu, você estava abalada ali. A gente acha que a amamentação é uma coisa instintiva, né?
Só sendo mãe que você aprende que não é, né? Uma coisa que vem. Agora, sobre esse instinto, né? Você sentiu esse instinto materno, assim, que você foi mãe, ou essa coisa antes ali? Isso te transformou quando as meninas vieram? Eu pergunto isso porque eu tive uma conversa recente com algumas amigas, entre elas, a Cimaia Oliveira, aliás, todo mundo conhece, amo. Obrigada por essa conversa que a gente teve. Porque uma de nós, num grupo que a gente tem, estava falando do quanto... Estava lendo um livro sobre...
com a visão acadêmica, a visão da coisa da mulher atual, de que se o instinto não é algo construído para que a gente, mulher, acredite que a gente precisa realmente, às vezes, até dar mais conta daquilo ali do que um homem. Eu entendo o ponto de vista, mas a Semayá falou uma coisa que é muito verdade, que talvez os acadêmicos, e às vezes, no geral, mulheres brancas, se não colocam essa semente da discórdia, digamos assim, para fazer a gente... Mas...
invalidar toda uma ancestralidade instintiva e esquecer que, de fato, a gente é bicho. Exatamente. A gente é bicho que desperta, em muitos momentos, esse instinto de bicho materno, que também pode não ser despertado. Tantos animais que a gente relata o tempo inteiro que rejeitam suas crias, e as mulheres também, como bicho, fazem isso. Mas, enfim, trouxe aqui essa discussão que é super interessante para que você me diga se você sentiu isso de cara. Eu senti, e, assim, eu acho que, acrescentando aí um pontinho a essa discussão,
talvez a maior diferença, o Rafa ele fala disso muito melhor que eu, então me corrija depois mas a base da cultura eurocêntrica, branca ela é diferente da cultura preta africana então a gente tem ali um desenvolvimento mais individualista, quando a gente está falando de povos brancos, de povos europeus de uma forma geral de delegar para pessoas pretas o cuidado com os próprios filhos anteriormente a isso, quando ali uma coisa mais galera das cavernas
pernas ali, então era uma coisa muito individualista era uma coisa que eu preciso sobreviver e eu preciso fazer o meu clã sobreviver, já o povo africano os povos originários africanos não tinham isso, sempre foi uma coisa de um cuidar do outro comunidade, exatamente então eu acredito muito que a gente carrega isso ancestralmente no DNA então a gente gosta de cuidar não é só uma necessidade, a gente gosta de cuidar, a gente gosta de ter a nossa avó perto, quem pode
A gente gosta de ter a nossa mãe, o nosso pai, os nossos irmãos, os primos, sabe? Então, acho que isso já está muito mais intrínseco em nós do que em pessoas brancas, né? Uma casa cheia, cheia de bagunça. Todo mundo falando alto, é bem a nossa cara. Exatamente. Claro que, assim, quando você está num contexto latino, isso já é mais cultural. Então, né? A gente tem famílias brancas assim aqui também no Brasil.
Mas, de uma forma geral, eu acho que tem essa diferença, assim, né? E aí, pra mim, eu sempre... Quando eu pensei, cara, eu tô grávida. Era assim, era a minha vida, aquilo ali, né? O cultuar a minha barriga, né? Infelizmente, eu não tinha ali uma... Eu tinha acabado de passar por um rompimento muito grande da comunidade que eu vivia, né? Enfim, eu tava ali no contexto religioso, que eu rompi logo depois de casar. E aí, logo depois eu engravidei.
Então, eu não tinha uma comunidade próxima a mim. Mas eu, o Rafa e a Aretha ali na barriga, cara, a gente era assim um mundo, era o meu universo, sabe? Então, eu não sei se assim, só que é isso. Assim que eu comecei a sofrer essa rede moral no trabalho, também, eu desenvolvi essa personalidade leoa. Assim, ninguém vai mexer comigo, ninguém vai mexer com a minha filha. Foi aí que eu comecei a empreender, porque eu entendi também que o mercado de trabalho formal, né, não seria um lugar seguro pra mim.
Então, eu acredito que sim. Eu identifico que assim que eu descobri, esse instinto mãe, leou, já abertou sim. Uma outra conversa que eu tive com essas minhas amigas, né, foi sobre, ai, essas coisas que a gente ouve, né, a maternidade te torna uma pessoa melhor. Aí eu mesma levantei essa questão e falei, gente...
Me ajuda aqui. O que é melhor? Falam aí que a gente se torna uma pessoa melhor, mas eu vou ser bem real. Eu acho que eu me tornei mais intolerante, mais sabe, assim, quero ou não quero e a maternidade também leva muitas pessoas, traz muitas mães pra perto, mas muitas pessoas que diziam amigas vão-se embora. Mas eu me tornei mais intolerante, mais insuportável, aí eu queria saber de você.
Eu não sei como é que é a sua visão, porque acho que eu guardei toda a paciência para o meu filho, que você sabe que exige muito, né, uma paciência de uma criança. E a gente que tenta ser mãe com educação positiva, mas somos milênios, a gente fica assim, filhinho, mas ajoelha no milho, aquela coisa assim, não, meu filho nunca ajoelhou no milho, tá, gente? Deus me livre. Mas é difícil, né, lidar com tanta coisa que uma criança exige, tendo que equilibrar os outros pratos que a gente tem, você se tornou como? Uma pessoa melhor em que sentido?
Eu acho que a gente já tem que questionar esse ser melhor é o quê. Porque a gente também tá falando dessa sociedade que espera que mulheres sejam passivas. Fala embaixo, aceitem tudo. Você tá sofrendo as maiores atrocidades no trabalho, aí você tá ali, ó, quietinha. Porque, enfim, né? Então, quando você se torna mãe, você perde um pouco o medo dessas coisas, assim. Então, tipo, é isso, cara. Se você estiver sendo injusto comigo, eu vou falar.
Pode ser que eu não arme o meu barraco aqui nessa reunião, mas depois você vai escutar.
Quando você está ali no parquinho e a sua criança sofre uma situação de bullying, de violência, de racismo, seja ela qual for, ou só uma relação, um conflito ali da relação normal, você também vai se posicionar de uma outra forma. Eu lembro que quando eu era adolescente, eu sempre tive muita dificuldade de falar das coisas que eu achava errado ao meu redor. Então, ou eu ficava muito quieto ou explodia.
Então, eu não tinha esse processo de falar antes de alguma coisa muito ruim acontecer. Depois que eu me tornei mãe, eu consigo, por exemplo, eu estou prevendo que isso aqui vai escalonar muito. Vamos conversar antes, sabe? Porque é isso. Nessa personalidade mais explosiva que eu tenho, eu não queria que as meninas vissem eu perdendo o controle. Então, quando a gente está no parquinho, por exemplo, e aí tem uma criança ali causando...
A gente vai conversar. Antes de já acontecer uma coisa ruim, né? Na escola, então, você tá vendo ali que tem uma situação que não tá legal, que você sabe que aquilo pode dar confusão. Antes de dar confusão, eu já chego lá trocando uma ideia na moral, sabe? Então, assim... Na moralzinha. É. Será que a gente se tornou alguém melhor ou a gente se tornou alguém que se conhece? Porque eu acho que a maternidade também tem muito isso, né?
Quando você consegue. Isso não é pra todo mundo. Eu entendo que existem vários contextos que não permitem isso. Mas a maternidade, ela te força a se conhecer.
Se você vai lidar com isso ou não, é outros clientes. Mas ela te força a se conhecer. Os seus limites, aquilo que você gosta, aquilo que você não gosta. Os seus traumas, a sua vivência enquanto criança. Então, eu não sei se eu estou melhor ou pior. Eu sei que eu me conheço muito mais. Eu acho que essa é a resposta para essa questão, né? De se conhecer muito mais também. Vou levar essa resposta agora quando me perguntarem. Você tornou uma pessoa melhor?
Não sei. A Mari me ensinou que a gente se conhece muito mais. Agora, queria entender algumas questões, assim, né? Quando a gente...
para para pensar na maternidade, são tantas camadas profundas, né, e tantas coisas que vêm à tona, assim, e um dos problemas que a gente também tem, enquanto mulheres negras, né, é a questão da solidão, né, e olhando a família de vocês, eu falava aqui para a Mari, gente, a família é perfeita, vocês não brigam, não é? Ela falou, não, a gente briga, não sei o que.
Mas eu queria, se você puder compartilhar, né? Como que foi o antes de você encontrar esse cara tão massa que é pai das suas filhas e é um cara que divide todas as questões com você, né? Do cuidado e de tudo. Você deve ter sido atravessada por essa solidão da mulher negra, né? E a gente também entra em outras camadas. A mulher negra que tá magrinha ou tá gordinha ou que tem o cabelo assim ou cabelo assado ou é retinta ou não é. E tem tudo isso ainda, né? Sim, sim.
a minha história com isso sempre foi muito maluca a minha mãe, ela é uma mulher que sofreu muitas questões, então ela me criou com um certo medo de me relacionar e eu sou capricorniana então eu sou muito aquela pessoa assim, tipo eu só vou no que é seguro de relações amorosas, você diz você acha que isso veio da experiência dela? com certeza
Eram gatilhos pra ela, né? Com certeza, com certeza. Foi uma conversa que a gente teve muito cedo, assim, em casa, né? Então, sempre foi muito essa coisa do tipo, mano, só vou no que é certo. Então, enquanto as minhas amigas estavam todas conhecendo, experimentando, eu tava tipo assim, não sei se isso vai dar muito bom, não sei o que. Vamos deixar isso pra lá. Então, sempre foi muito...
cuidadosa com isso. Já na questão de amizade, que eu acho que é onde realmente as coisas pegam, né? Eu cresci num contexto periférico, então tinham muitas pessoas pretas, só que eu não sei se por criação, não sei se isso foi uma coisa que foi criada ali na minha família. Eu tive muita dificuldade de me relacionar em amizade mesmo com pessoas pretas. Então a maior parte dos meus amigos foram brancos, né? Ao longo do meu crescimento.
E isso me trouxe muitas questões, assim, né? Porque quando você se relaciona com uma pessoa branca, principalmente quando a gente tá falando de 2000, onde a gente não tinha muito essa conversa, os apelidos, a forma como você é mencionado, a forma como você se relaciona ali com as pessoas e como elas se relacionam com você, era muito problemática, né? Então, hoje, quando eu olho pras minhas amizades, eu falo, gente do céu, como que eu...
como que eu aguentava tudo isso. Como a gente sobreviveu, né? E todas as outras namorando. Exatamente. Todo mundo gostava de alguém, ninguém gostava da gente, né? Exatamente. Só que durante muito tempo eu não pensava a respeito disso, eu só vivia, né? Como eu disse, eu fazia parte ali de um contexto religioso que me afastou muito da minha identidade racial. Evangelico? É. Gente, todo mundo que senta aqui é evangélico. Eu e sou evangélico, né?
Eu sou isso. Que tá comandando a gente ali. Nossa, muita gente, eu também fui criada num ambiente evangélico.
Você sabe muito bem o quanto isso te afasta, porque tudo é relacionado à religião, e aí eles têm as questões dele, das religiões, então eu não tinha a possibilidade de me expressar. E aí também era uma igreja cheia de pessoas brancas, eu era preterida ela também, não só afetivamente, como nas relações, e sempre muito nesse lugar de...
Minha amiga pobre, minha amiga preta, minha amiga do cabelo duro. E isso era pra falar de uma forma muito engraçadinha, sabe? Era muito tipo, ha, ha, ha, sabe? Quando eu conheci o Rafa, o Rafa foi o primeiro homem retinto que eu me interessei e que eu fui atrás, que eu falei, eu vou casar com esse homem, vai acontecer o que for, sabe? Só que isso me trouxe, por exemplo, sair da igreja. Porque na hora que a gente decidiu que a gente ia ficar junto, a gente basicamente foi expulso da igreja. Caramba, ele também era evangélico.
É, o Rafa, ele sempre conta essa história, que ele entrou na igreja para sair do alcoolismo, enfim, para arrumar a vida dele, mas ele falou que ele nunca se sentiu parte, era só um espaço que ele sempre entendeu que era um espaço onde você conseguia se livrar disso, porque eram outros interesses, enfim, né? Tinha todo ali um contexto que... E querendo ou não, né, Mari, muitas vezes quando o Estado falha, né, a igreja, ela está presente, né?
Precisamos ter essa conversa em galera, precisamos. Precisamos. Mas a gente se conheceu na igreja.
E aí foi isso, quando a gente decidiu ficar junto, todo mundo foi contra, e enfim, eu perdi todos os meus amigos, todo mundo virou as costas pra mim no momento que a gente decidiu ficar junto, e aí logo depois a gente decidiu sair da igreja. Então quando a gente casou, e aí nesse contexto logo depois de engravidar e tal, a gente só tinha um ou outro.
Então, eu sempre falo que o Rafa, ele é mais do que o meu marido. O Rafa, ele é a minha comunidade real, assim. Eu tenho a sensação que eu cresci com ele. A gente fala de qualquer coisa, a gente fala dos nossos traumas, a gente consegue trabalhar esses traumas juntos, sabe? E não no lugar de dependência, mas no lugar de comprometimento, né? Você casar, você ter a possibilidade de criar uma família com alguém que é tão aberto, tão honesto, tão transparente, tão comprometido, tão responsável.
é muito bom, sabe? Então, passei sim por todos esses atravessamentos que todo mundo passa que todas as pessoas pretas passam, ou pelo menos todas que eu conheci, mas hoje eu consigo olhar pra trás e, primeiro, não culpabilizar ninguém, entender que isso tudo é uma estrutura então, quando você não se relaciona com uma pessoa preta, hoje acho que a gente tem mais informação, então
Tem coisa que dá pra chegar antes, né? Conversa que dá pra chegar antes. Mas, quando eu era uma adolescente, não se tinha essa conversa. Então, era uma estrutura que foi feita pra isso. Era uma estrutura que foi criada pra que a gente não se relacionasse, né? E eu tive a benção ancestral de conseguir hackear isso e casar com esse homem que é preto, retinto, escurecer a minha família.
E aí eu acho que uma coisa que eu sempre falo é, hoje nesse momento que a gente tá, a gente precisa entender que a solidão da mulher preta, ela é uma escolha no seguinte, não necessariamente você vai conseguir se relacionar com uma pessoa preta por vários motivos, mas você sempre vai encontrar uma comunidade preta pra te abraçar.
Então seja o seu terreiro. Hoje em dia tem igrejas evangélicas que discutem sobre isso. Então você pode encontrar uma igreja, você pode encontrar um clube de escrita, você pode encontrar, sei lá, existem vários clubes, existem vários espaços onde você pode encontrar esse acolhimento, essa amizade. Todos nós queremos nos relacionar afetivamente, mas enquanto isso não é possível, vamos buscar em outros lugares, sabe? O que é muito importante, o aquilombamento.
Quando a gente fala de aquilombamento, eu tive o privilégio de, no ano passado, conseguir no Quilombo dos Palmares.
E você vê aquilo, você tocar. Imagina a energia do lugar, né? Toda pessoa preta que puder tem que ir naquele lugar. Não só... Eu não consigo nem descrever com palavras. Mas é você conseguir tocar naquilo que sempre disseram que era impossível. Sabe? Hoje a gente não consegue construir as nossas casas. A maior parte da população preta não tem casa própria. E a gente tá falando de um espaço que era totalmente preto.
De pessoas que construíram com as suas mãos. A sua própria terra, né? A sua própria terra, sabe? Então, eu sei o poder disso. Então, quando eu falo pra você, minha amiga, meu amigo, meu irmão, minha irmã preta, busque uma comunidade e busque esse aquilombamento, porque você vai encontrar um nível de acolhimento não perfeito, mas que vai mudar a sua forma de se relacionar com a vida.
Nossa, é tão bom te ouvir, gente. Não tenho vontade nenhuma de terminar o papo, mas calma, ainda tem muita coisa para falar. Eu queria saber como que você, como que foi assim, a Mari se reencontrar como uma nova pessoa, na minha experiência.
Eu morava sozinha, né? Não foi uma gravidez planejada, mas que eu fiquei extremamente feliz quando aconteceu, né? Acho que veio no momento certo, é a luz da minha vida, meu sararazinho, depois eu te mostro. Mas é, não fiquei mal, mas assim, não esperava, né? E eu...
Tinha uma vida independente, trabalho, não sei o quê, fazia muita atividade física. E depois que ele nasceu, gente, eu não conseguia pegar um pezinho. Isso aqui doía, meu braço, parece que eu nunca tinha feito exercício. Então, meu corpo levou um ano para se recuperar, um ano mesmo, assim, cravado, para que eu conseguisse ter a mesma força que eu tinha antes fazendo exercício, para eu conseguir andar com uma bicicleta sem sentir dor aqui, porque foi uma cesárea, né? Fiz todos os exames, até em geriatra eu fui, médico considerado de idoso.
Então, foi muito difícil para mim entender que a Cíntia tinha morrido e que ainda está uma outra em construção. Essa nova Cíntia tem dois anos só. Como é que você viveu esse processo? Foi dolorido para você se reencontrar? Vê você uma versão morrendo e outra nascendo mesmo?
Eu acho que por causa do contexto temporal e por ter saído da igreja naquele momento e tal, na verdade, pra mim foi muito bom. Porque junto com isso eu consegui deixar várias coisas pra trás. Então, por exemplo, a gente sabe que o cristianismo tem uma questão ali de proibir corpos, de te proibir o acesso ao seu corpo. Então, sendo muito sincero, o momento do parto foi o momento que eu tive uma experiência corporal que eu nunca tinha tido na minha vida. Nunca ninguém tinha visto o meu corpo daquele jeito. É porque, enfim...
com toda a questão ali da igreja, eu tinha me relacionado basicamente só com o Rafa, né? Então, aquilo, me senti tão vulnerável, tão exposta, foi num parto que ainda foi da forma que foi, sabe? Então, ao mesmo tempo, a Mari que morreu é uma Mari que eu gosto muito que ela não esteja mais aqui, sabe? Porque era uma Mari muito presa, era uma Mari muito assustada, muito...
impedida de ser quem ela é, sabe? E à medida que as meninas nasceram e foram crescendo, eu encontrei uma Mari que eu amo, sabe? Eu nunca tive problema com o meu corpo, eu sempre fui uma menina mais gordinha, né, e tal. E eu nunca tive problema com isso. Mas eu não tinha problema, mas eu também não via beleza nisso, sabe? Hoje eu amo o meu corpo. Você é linda. Obrigada. E mais bonita pessoalmente, porque eu te vejo nas redes, né?
Mas esse cabelo que eu acho maravilhoso, essa estria que nasceu por causa da barriga enorme que minhas filhas fizeram em mim. Isso é lindo, sabe? Uma coisa também que ultimamente tenho pensado muito. Tenho 33 anos, não me considero uma mulher velha ainda. Mas, socialmente, os 30 já têm uma outra carga. Uma cobrança, né? Com certeza. E eu tenho pensado nesse envelhecimento. E eu amo esse processo.
hoje eu não consigo mais fazer com o meu corpo aquilo que eu fazia quando eu tinha 17 seja me alimentar de uma forma não legal seja não dormir tanto quanto eu gostaria tudo isso tem um impacto muito maior mas eu amo esse processo, eu aprendi a amar o meu corpo eu aprendi a amar a minha nova forma de pensar eu não sei se você vive isso mas eu estou muito mais esquecida depois da maturidade totalmente
Eu vivo um dia de cada vez. Hoje eu tenho que gravar com a Mari, tenho que anotar tudo, né? E aí depois disso eu já me esqueci. Exatamente, já deixei para o universo. E eu gosto disso, eu gosto de poder acolher essa Mari. Então não é fácil, porque você, depois dos seus 25, 30 anos, descobriu uma nova forma de ser. Mas para mim, particularmente, é muito gostoso e muito prazeroso.
Sim, ai gente, que lindo. É ir se descobrindo ali. E nessa nova Mari, né? Pra ela, essa versão de hoje, assim, onde que ela tá caminhando? Porque você tem negócios voltados pra maternidade, que você chama de matrigestão, né? Como que você tem se encontrado, né? Profissionalmente, além da maternidade. Menina, isso foi um caos.
isso acho que foi a coisa mais caótica que a maternidade fez positivamente e também negativamente, porque é isso eu trabalhava num lugar sofri o assédio e ali eu já criei um negócio só que sem referências de pessoas empreendedoras e tal, foi muito assim vamos vendo o que dá, vamos comprando coisas aqui enfim, virei cabeleireira
E aí eu descobri que eu amava aquilo, que era uma coisa que já estava presente na minha vida desde muito cedo, mas eu descobri que eu amava aquilo e que, de repente, tocar um negócio era uma coisa que ia me satisfazer mais do que ser uma CLT, que era uma coisa que eu sempre tive dificuldade, mas essa, sei lá, todo mundo espera que você encontre trabalho de carteira assinada da hora que eu vivi. Então, a primeira coisa foi abrir esse negócio. Quando eu engravidei da Mara...
Eu senti que a gravidez ia ter que mudar o meu ritmo. Então, eu já tinha areita, só que eu tinha toda uma comunidade ali que me apoiava. E agora eu ia ter duas crianças. Então, como que a gente vai organizar isso? E aí vai eu reinventar tudo isso. Quando a Sangue Femme começou a tomar uma proporção muito maior do que a gente imaginou a princípio, eu precisei parar de trabalhar com cabelo para dar conta desse novo processo familiar.
E aí foi muito dolorido pra mim, assim, porque eu entendi que eu ia precisar abrir mão de uma coisa que não estava funcionando mais, né, por uma coisa maior, pelo bem maior da minha comunidade. E aí eu também descobri que eu amava fazer aquilo, né. E aí, trabalhando e me relacionando com as pessoas e vivendo um novo mercado, eu entendi que não importa onde você vá.
Ser mãe é sempre uma questão ali pra sociedade. Então, se você tá trabalhando com produção de conteúdo, você, enquanto fala das suas coisas de mãe, vai dar menos dinheiro do que alguém que fala sobre maquiagem. Não é que é menos importante, mas existe um universo. Tem pessoas que querem ouvir falar sobre isso. É isso. Se eu tivesse sabido sobre violências obstétricas, pelo Instagram que fosse, talvez eu não tinha vivido.
que eu vivi, né? Então, isso também é importante. E eu falei, cara, estamos cercados, né? Estamos, a gente tem essa necessidade, tem essa demanda e a gente precisa começar a se organizar pra resolver isso, né? A gente tá muito longe de conseguir proporcionar um ambiente hóspede pra que mães trabalhem, independente de como seja. Mas eu percebo que mulheres estão começando a ficar meio de saco cheio disso. Mães estão começando a ficar meio de saco cheio. E quando uma mãe fica de saco cheio, ela faz o negócio acontecer.
Então eu comecei a entender, eu tô estruturando agora, né, essa visão, porque eu preciso começar a falar isso pra outras pessoas, né, entre nós, você sempre vai conseguir falar, ó, ah, eu trabalho x, eu sou, sei lá, cabeleireira, então não é legal isso, às vezes demandam muito de mim, eu perdi momentos importantes do meu filho, não gostaria que isso acontecesse.
Ah, eu trabalho numa grande corporação social, tenho também minhas demandas e acabo perdendo espaço. Se eu escolher meu filho, eu vou perder espaço. Enfim, todo mundo tem os seus desafios ali. Só que a gente precisa começar a conversar isso com as empresas, né? Então, quando você fala sobre crédito para negócios, o crédito para a mãe, ele precisa ser olhado de uma forma específica. Essa mulher está parindo o futuro da sociedade. Ela não merece um olhar específico. Muitas vezes sozinha. Exatamente.
exatamente, então se você está falando sobre, sei lá, mestrado doutorado, a mulher que é mãe ela precisa ter uma agenda diferenciada e eu sei que isso parece loucura quando eu falo, a gente nem consegue imaginar mas esse é o mundo ideal e eu sou uma pessoa extremamente idealista eu acredito muito nas mudanças que a gente pode proporcionar, sabe? Então eu realmente acredito que se a gente se juntar e que se a gente começar a falar sobre isso e fazer barulho sobre isso, eu acho que todos nós vamos encontrar espaço e isso vai ser bom pra sociedade inteira
Porque uma mãe, quando ela tá bem cuidada, quando uma mãe consegue viver os seus sonhos, quando uma mãe consegue fazer o corre dela, viver da arte dela, se for o caso, enfim. Uma mãe que tá bem... Viver o lazer, né? O lazer, exatamente. É tão importante pra saúde mental, né? Quando uma mãe tá bem, ela cria um filho de uma forma excepcional. E aí, a gente sai dessa coisa do eu acho certo, eu acho errado você educar seu filho assim.
Ela vai ser brilhante. Porque mães são brilhantes. Somos. A gente vai vendo agora.
Que é brilhante, né? Ai, gente, o papo tá tão bom, mas daqui a pouco eu vou ter que encerrar. Mas calma, ainda tem umas coisas que eu quero perguntar. Assim, hoje, né, você sendo mãe...
estereotipam muito a gente de muitas formas, né? Assim, até antes da gente, eu não sei se iniciar a vida sexual, mas de alguma forma era uma coisa meio intocada. Não, a minha mãe não faz isso, não vamos falar sobre isso. E as crianças nasceram porque a gente fez isso, né? Como que foi para você também redescobrir esse lugar da sexualidade, do prazer depois da maternidade? Até porque você vem de uma sexualidade muito negada justamente pela questão da religião, né?
É um assunto interessante. Ontem eu estava vendo aquele... O programa da Fernanda Lima. E aí era ela, o marido dela. E as crianças, né? E ela estava falando sobre isso. Sobre quanto tempo, depois que você casa, você vive em função disso. Eu tenho uma filha de seis e uma de oito. Então, assim, até hoje tu tentou descobrir como que vai ser isso. Não é? É isso. Sai da igreja e vira mãe. É, aí não deu pra...
mas ao mesmo tempo a educação que a gente proporciona para as meninas, faz por exemplo a gente está assistindo alguma coisa que a idade delas permite e aí hoje em dia a gente tem tocado nesse assunto com crianças em produções infantis de uma forma respeitosa claro, e aí gira a pergunta ali e aí eu já remeto para como eu fui informada, como eu fui criada a respeito desses assuntos, então é mais uma vez a maternidade me falando, se você não aprender e não se descobrir e aí
E não investigar isso em você entender como que é a sua sexualidade, como que é o seu corpo. Quando você precisar ter essa conversa com as suas filhas, pode ser meio bagunçado, né? Eu tenho uma comunidade incrível que vai conseguir conversar isso com as meninas, mas eu também quero fazer meu papel nesse lugar, porque uma coisa também que eu aprendi é que a mãe é essa referência de mulher, né? É aquela mulher que você observa e que você quer ou reproduzir ou reperir, enfim.
Mas tem esse lugar de exemplo. Então, eu não me sinto na obrigação de ser perfeita.
Pra conseguir passar isso pras meninas. Mas eu quero poder conversar com elas. Inclusive, se for o caso de falar. Gente, esse meu tempo, por exemplo, na igreja. Fez com que eu pensasse isso. Isso não é legal. Até hoje, talvez, eu não tenha conseguido resolver essa questão comigo. Mas vocês podem pensar isso de uma outra forma. Então, a maternidade. Ela me trouxe essa responsabilidade. E esse...
espaço seguro de poder dizer que eu não sei, que é algo novo para mim, mesmo com 33 anos e mesmo, né, depois de duas filhas. É, estamos sendo mães pela primeira vez, os filhos sendo filhos pela primeira vez, e mesmo que, ah, já seja mãe há oito anos, foram várias despedidas e vários futuros que ainda não aconteceram. Então, tudo vai ser muito pela primeira vez, né? Agora, Mari, para a gente começar a dar tchau aqui para a nossa conversa, que está muito...
Que boa, meu Deus do céu. A gente precisa voltar a falar com você aqui outra vez. O que hoje você, como mãe, com essa experiência já tão profunda, você falaria para a sua mãe? E o que você falaria para as suas filhas, se elas optarem no futuro de maternarem também? Nossa, e a minha mãe tem conversado muito sobre isso. Vocês têm uma ótima relação, né?
Defina ótimo. A gente tá passando por uma ressignificação disso, inclusive. Porque depois da areta, a gente teve um afastamento muito grande. E a gente tá reestabelecendo isso agora. Só que a minha adolescência, minha mãe era muito presente. A mãe sempre foi minha melhor amiga, né? Então, eu também sinto que minha mãe passou por uma cozininho vazio comigo. Apesar de ela ter outras filhas, né? A gente tinha uma relação muito específica.
Então, a gente tá reestabelecendo isso agora. Em vários momentos que eu percebo que ela sente culpa...
inclusive pelo afastamento, eu falo pra ela mãe, você foi a melhor mãe que você podia ser eu tenho um orgulho imenso, mãe vou te mandar isso aqui, então você vai ver eu tenho muito orgulho de você, muito, muito, muito orgulho e eu sou muito grata
Porque eu sei que eu sou uma mãe incrível. Não porque eu sou perfeita, mas porque eu tive uma referência maravilhosa de uma mulher que, dentro do que podia e com as condições que podia, viveu cada dia da maternidade. Então, se eu estou falando tudo isso agora e eu sei que você vai estar chorando e morrendo de orgulho, é porque você foi quem você foi e porque você é quem você é. Então, sempre que eu posso, eu falo isso para minha mãe.
Porque a gente precisa entender que ser mãe não é vestir ali a capa da Virgem Maria, nada disso. Também é uma possibilidade, mas é uma possibilidade. E você vai ser a melhor mãe que você puder ser, sendo quem você é. E para as minhas filhas...
Eu só empalho pra elas que se elas decidirem ser mãe, vai ser um dos dias mais felizes da minha vida. Porque ser avó deve ser muito louco. Eu sou louca pra ser avó e meu filho tem só dois anos. Eu não vou pressionar muito, né? Mas enfim, isso é uma coisa que eu quero muito, né? Então, acho que a primeira coisa que eu vou falar é obrigada. Obrigada por me dar a oportunidade de viver isso.
Mas quando eu penso nelas como mãe, eu acho que eu vou falar para elas curtirem. Curtam a maternidade. Curtam os dias ensolarados. Curtam os dias tristes. Não se esconda atrás da maternidade. Você pode fazer, vocês podem fazer o que vocês quiserem. E a mãe vai estar sempre aqui. Eu acho que talvez o maior benefício, não por ser eu, mas é não estar sozinha na maternidade. Então, eu tenho certeza que elas, né? Se for isso mesmo, elas vão ser mães incríveis. E eu vou ter o privilégio de assistir isso de perto.
Eu até anotei uma frase sua, que dos vídeos que você compartilha com as meninas, com a sua família, que tem a ver com o que você falou agora no final, que estar sozinho é o nosso verdadeiro ponto fraco. Nossa, isso é bonito demais, né? Essa família que você construiu, que inspira a gente aqui, eu não sei nem como te agradecer.
agradecer aos céus mesmo por você ter vindo até a Terra, trazer, ajudar a gente a entender tantas questões, a importância desse núcleo familiar que você tem compartilhado tanto com as pessoas. Obrigada, Mari, por essa conversa incrível, que você possa voltar várias vezes e que muitas outras famílias possam se inspirar pela família de vocês, pelo seu maternar, pela visão de mundo que é tão transformadora.
Ah, obrigada, obrigada mesmo pelo convite. Me chame mais vezes, que eu sempre venho, que eu adoro falar sobre maternidade, como vocês podem perceber. É uma das suas bandeiras. Como é o nome da sua mãe? É uma das suas bandeiras. Soraya, um beijo pra você, feliz dia das mães. Também um feliz dia das mães pra minha mãe, dona Ângela. Eu te agradeço.
Não tem nem palavras pra dizer o que você significa na minha vida, né? A gente é muito melhor amiga, tem os nossos atritos, porque é comum não ter, né? Mas sem você eu não poderia ser a mulher que eu sou, ser a mãe que eu sou. Você me proporciona todas as melhores coisas.
o dia inteiro. Então, obrigada por existir. Obrigada, Mari, por estar aqui com a gente. Obrigada, Soraya, por ter feito a Mari. Obrigada a você, mãe, pai, você que está ouvindo a gente aqui, que está vendo a gente, acompanhando esse papo tão transformador, porque todos viemos de uma mãe, né? E que a gente possa transformar o olhar da sociedade em relação às mulheres, às mães, que têm feito tanto para transformar o mundo também, para que possamos ser pessoas melhores. Feliz Dia das Mães! Até a próxima!
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