Episódios de Audiolivros da Dani

James - 1

07 de maio de 202628min
0:00 / 28:39

De Percival Everett

Parte 1 - capítulo 1

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Participantes neste episódio7
A

Albert

Convidado
D

Doris

Convidado
H

Huckleberry

Convidado
J

Jim

Narrador
S

Senhora Watson

Convidado
S

Skinny

ConvidadoFerreiro
T

Tom

ConvidadoGuarda
Assuntos6
  • James de Percival EverettO caderno de Daniel Decatur Emmett · Velho Dan Tucker · Nego Doce · Ganso voando sobre o mar · Peru na palha · Mosca varejeira
  • Huck e Tom SawyerBrincadeiras e jogos de faz de conta · Roubo de velas · Pregar peça no Jim · Pacto de sangue
  • A vida de escravoEsperar por ordens, comida e justiça · Trabalho no campo · Necessidade como professora · Medo de punição
  • A experiência de Jim em Nova OrleansSer chamado de homem livre · Sonho ou realidade · Falta de dinheiro
  • Amizades icônicas da ficçãoConfiança e segredo · Diferenças sociais
  • Influência de figuras paternaisAbuso e alcoolismo · Preocupação da Sra. Watson
Transcrição72 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

James, de Percival Everett. Para Danzy. O caderno de Daniel Decatur Emmett. Na cidade, outro dia, me chamou a atenção. Primeiro ouviu o barulho, depois veio a visão. Guardas noturnos dizendo com toda celeridade que o velho Dan Tucker estava na cidade.

— Sai pra lá, sai pra lá. — Velho Danduker, sai pra lá. Você está muito atrasado e perdeu a hora de jantar. Pelo campo vinham juntos um porco e um cordeiro. O segundo diz — Porco, não podes ir mais ligeiro? — Vamos, vamos. Querido, já ouço o lobo a uivar. — Ai, meu Deus, no outro canto é o cachorro a ladrar.

Sai pra lá, sai pra lá, velho Danduker, sai pra lá. Cê tá muito atrasado e perdeu a hora do jantar. Minha lâmina afiada, de marca tão renomada. Ovelha debulha a veia, Tucker humilho a debulhar. Vou fazer a sua barba assim que essa água esquentar. Sai pra lá, sai pra lá, velho Danduker, Tucker, sai pra lá. Cê tá muito atrasado e perdeu a hora do jantar.

Como o gaio azul no ninho da andorinha, querendo salvar sua alma passarinha, o velho Tucker chama a toca da raposa de sua, botando-a com seus nove filhotes no olho da rua. Sai pra lá, sai pra lá, velho Danducker, sai pra lá. Você tá muito atrasado e perdeu a hora do jantar.

Na cidade, outro dia, fui numa reunião para ouvir Velho Tucker ministrar o seu sermão. Todo mundo bebeu, mas apenas eu, sozinho, é que mostrei ao Velho Tucker de sua casa o caminho. Sai pra lá, sai pra lá, Velho Dan Tucker, sai pra lá. Você está muito atrasado e perdeu a hora do jantar. O Nego Doce

Dei um pulo em Sandy Hook uma noite dessas aí. Dei um pulo em Sandy Hook uma noite dessas aí. Dei um pulo em Sandy Hook uma noite dessas aí. E o cara mais quente do pedaço era um tal Nego Doce. O Nego Doce é um respeitado intelectual. O Nego Doce é um respeitado intelectual. Ele toca o seu banjo e berra até passar mal.

Você já viu um ganso voando sobre o mar? Você já viu um ganso voando sobre o mar? Você já viu um ganso voando sobre o mar? Ah, o jeito que ele voa é bonito para danar. Mas quando o ganso resolve abrir seu bico poderoso, é um glu-glu-glu terrível, um glu-glu-glu horroroso.

Se eu fosse o presidente desse Estados Unidos, eu abria seus portão tudo aberto, tudo abrido, e os que eu não gostasse, riscava os nomes da agenda. Mandava embora para longe, volta para o mar, oferenda.

Peru na galha. Eu vinha um dia, descendo uma estrada, com a turma exausta e uma carga pesada. Instalei meu chicote e o escravo que ia comandando, endireitou o corpo e disse, vamos logo, vamos andando. Refrão.

peru na palha peru na forragem de noite folia de dia engrenagem retorce torce gira sem falha e canta essa música peru na palha resolvi buscar leite e não sabia ordenhar de uma cabra tentei essa bebida tirar

Um macaco sentado num montinho ali, piscou pra sogra e fez ela sorrir. Refrão Peru na palha, peru na forragem, de noite folia, de dia engrenagem, retorce, torce, gira sem falha, e canta essa música, Peru na palha.

A mosca varejeira. Quando eu era mais novo, todo dia eu esperava. Pelo meu senhorzinho e o seu prato eu lhe dava. Para matar sua sede, a garrafa lhe alcançava. E a mosca varejeira, para longe, eu espantava. Jimmy debulha o milho, mas eu não ligo.

Jimmy debulho o milho, mas eu não ligo. Jimmy debulho o milho, mas eu não ligo. Meu senhorzinho se foi. E quando, no final do dia, ele cavalgava, eu, com minha vassourinha, o acompanhava. Seu cavalo ficava sem ira nem beira, quando picado pela mosca varejeira. Refrão

Um dia, pela fazenda, cavalgando, viu um enxame de moscas se aproximando. Por medo de ser picado, por essa besteira, enxergou o próprio diabo na mosca varejeira. Refrão

O cavalo correu, saltou, empinou. Dentro de uma vala, meu senhorzinho jogou. Depois de morto, concluiu-se, de toda maneira, que quem o matara era a mosca varejeira. Refrão Sob um pé de caqui, seu corpo descansou. E as últimas palavras que ele nos deixou. Debaixo dessa pedra, minha morada derradeira. Jazaqui, uma vítima da mosca varejeira.

Parte 1 Capítulo 1 Aqueles bostinhas estavam escondidos bem ali, no meio da grama alta. A lua ainda não estava bem cheia, mas brilhava. E estava às costas deles, de modo que eu conseguia enxergá-los claramente, como se estivesse de dia, ainda que fosse noite profunda. Vagalumes piscavam contra o pano de fundo escuro.

Enquanto esperava na porta da cozinha da senhora Watson, mexi com o pé num degrau solto da escada, sabendo que ela me pediria para consertá-lo amanhã. Eu estava ali esperando que ela me desse uma travessa de pão de milho que tinha feito, usando a receita da minha sede.

esperar é grande parte da vida de um escravo esperar e esperar para poder esperar mais um pouco esperar por ordens, esperar por comida esperar pelo fim dos tempos esperar pela justiça e merecida recompensa cristã no final disso tudo aqueles garotos brancos, o Huck e o Tom estavam me observando

Eles viviam envolvidos em algum jogo de faz de conta no qual eu era ou o vilão ou a presa. De qualquer maneira, sem dúvida, seu brinquedo. Ficaram ali, saracoteando no meio das pulgas e dos mosquitos e dos outros insetos que picam, mas não fazem nenhum progresso na minha direção. Sempre compensa dar aos brancos o que eles querem. De modo que fui até o meio do quintal e gritei para a noite.

Quem que tá aí nesse escuro desse jeito? Eles cochicharam, bem bobos, rindo. Esses garotos não seriam capazes de chegar de surpresa por trás de um homem, mesmo que ele fosse cego e surdo, e uma banda estivesse tocando. Eu preferia perder meu tempo contando vagalumes do que esquentando a cabeça com eles.

Bom, acho que vou encostar minha cabeça véia nessa varanda e esperar para ouvir esse barulho de novo. Deve de ser um demônio ou uma bruxa isso daí. Eu vou é ficar bem aqui que está seguro. Sentei no último degrau e me escorei numa pilastra. Estava cansado, então fechei os olhos. Os garotos sussurraram empolgados entre si.

E eu conseguia ouvi-los perfeitamente, como um sino batendo numa igreja. — Será que ele já dormiu? — perguntou o Huck.

Acho que sim. Ouvi dizer que os crioulo são capazes de dormir rápido assim, disse Tom, estalando os dedos. Shhh, disse Huck. Acho que a gente devia amarrar ele, falou Tom. Vamos amarrar ele naquela pilastra da varanda que ele está encostado. Não, disse Huck. E se ele acorda e abre um berreiro? Daí vão descobrir que eu estou aqui na rua e não na minha cama, que é onde eu devia estar.

Tá bem, mas sabe de uma coisa? Eu tô precisando de umas velas. Vou me embrenhar ali na cozinha da senhora Watson e pegar umas pra mim. E se você acordar o Jim? Eu não vou acordar ninguém. Nem trovão acorda um crioulo dormindo. Tu não sabe de nada? Nem trovão, nem raio, nem leão rugindo. Ouvi uma história de um crioulo que ficou dormindo durante um terremoto.

Como você acha que é um terremoto? Perguntou Huck. É tipo quando seu pai acorda no meio da noite. Os garotos vieram se esgueirando desengonçadamente, engatinhando, apoiados nos punhos e joelhos, e não foram nada discretos pisando nas tábuas reclamonas da varanda e entrando pela porta holandesa da cozinha da senhora Watson.

fiquei ouvindo os dois fuçando nas coisas lá dentro abrindo portas gavetas e armários mantive os olhos fechados e ignorei um mosquito que pousou no meu braço agora sim disse tom só vou pegar três

Você não pode simplesmente sair pegando as velas da velha, disse Huck. Isso é roubo. E se botarem a culpa no Jim? Tá bom. Vou deixar aqui esse cinco centavos para ela. Tá mais que bom. Nunca vão achar que foi um escravo. De onde que um escravo vai tirar cinco centavos? Agora, vamos dar no pé antes que ela apareça aí. Os garotos retornaram à varanda. Imagino que não tivessem a menor ideia da barulheira que estavam fazendo.

Você devia deixar um bilhete também, disse Huck. Não precisa disso tudo, disse Tom. Os cinco centavos já está de bom tamanho. Eu senti os olhos dos garotos se voltando para mim. Permaneci estático. O que você está fazendo? Perguntou Huck. Vou pregar uma peça no velho Tim. Você vai acordar ele, isso sim. Fecha a matraca.

Tom parou atrás de mim e pegou a aba do meu chapéu na altura das minhas orelhas. Tom! Huck protestou. Shhh! Tom tirou o chapéu da minha cabeça. Eu só vou pendurar esse chapéu velho dele nesse prego velho aqui. Pra que fazer isso? Perguntou Huck. Quando ele acordar, vai pensar que foi uma bruxa. Eu só queria estar aqui pra ver.

— Beleza. Está lá no prego. Agora vamos, disse Huck. Alguém se movimentou dentro da casa e os garotos saíram correndo. Viraram num canto na velocidade máxima e sumiram deixando para trás uma nuvem de poeira. Eu ainda ouvi o som de seus passos diminuindo ao longe. Agora havia alguém na porta da cozinha. — Jim? Era a senhora Watson. — Senhora? Você estava dormindo?

Não, senhora. Eu estou bem cansado, mas não estou dormindo. Você esteve na minha cozinha? Não, senhora. Alguém esteve aqui na minha cozinha? Não que eu tenha visto, senhora. Isso até que era verdade, uma vez que meus olhos tinham estado fechados o tempo todo. Não vi ninguém entrando na sua cozinha.

Bem, aqui está o pão de milho. Pode dizer para a sede que eu adorei a receita dela, mas fiz algumas mudanças, sabe, para deixar mais refinado. Sim, senhora, vou dizer para ela sim. Você viu o Huck por aí? Ela perguntou.

vi mais cedo há quanto tempo tem um tempo eu disse jim eu vou te fazer uma pergunta agora você esteve na biblioteca do zui stature se eu tive na onde

Na biblioteca. A senhora diz aquela sala cheia de livro? Isso. Não, patroa. Eu já vi esses livros dele, mas nunca entrei ladrento. Por causa de que que a senhora está me perguntando? Ah, é que alguns livros estavam fora das prateleiras. Eu ri. E o que eu ia fazer com o livro? Ela também riu.

O pão de milho estava enrolado num pano fino e eu precisava ficar trocando ele de mãos porque estava quente. Cheguei a pensar em dar uma provadinha porque estava com fome, mas queria que Sede e Elizabeth fossem as primeiras a comer. Quando atravessei a porta, Lise veio correndo até mim, farejando o ar como um cão de caça. — Que cheiro é esse? — ela perguntou.

Creio que esteja falando do pão de milho, eu disse. A senhora Watson usou a receita especial de sua mãe e, de fato, está cheirando muito bem. Ela me alertou, entretanto, para o fato de que fez algumas alterações.

Sede veio até mim e me deu um beijo na boca. Acariciou meu rosto. Ela era macia e seus lábios também eram. Mas as mãos eram tão ásperas quanto as minhas, de trabalhar no campo, embora ainda fossem delicadas.

Vou devolver essa toalha para ela amanhã, sem falta. Os brancos sempre lembram desse tipo de coisa. Acho que ela chega a separar um tempo do dia para contar toalhas, colheres e copos e coisas assim. É a mais pura verdade. Lembra daquela vez que eu esqueci de recolher um ansinho para dentro do barraco? Sede tinha o pão de milho no bloco de madeira.

Um toco de uma árvore, na verdade, que utilizávamos como mesa. Começou a fatiá-lo. Servi uma porção para a Lise e uma para mim. Dei uma mordida e Lise também. Olhamos um para o outro. Mas o cheiro é tão bom, disse a criança. Sede cortou uma lasquinha e pôs na boca. Misericórdia! O talento dessa mulher não é cozinhar, isso sim.

Preciso comer? Perguntou Lizzie. Não, precisa não, disse Sede. Mas o que você vai dizer quando ela perguntar? Eu quis saber. Lizzie pigarreou. Sim, ah, Watson. Eu nunca tinha comido um pão de mil tão bom na minha vida. Melhor nunca que, eu disse.

Essa seria a forma gramaticalmente incorreta, correta. Eu nunca que tinha comido um pão de milho tão bom na minha vida, ela disse. Muito bem, eu disse. Albert apareceu na porta do nosso barraco. James, você vem? Prontamente. Cede, tudo bem por você? Pode ir, ela disse.

Saí de casa e fui caminhando até uma grande fogueira ao redor da qual os homens estavam sentados. Fui cumprimentando e me sentei. Falamos um pouco sobre o que havia acontecido a um fugitivo de uma fazenda próxima. Sim, deram uma boa surra nele, disse Doris. Doris era homem, mas isso não pareceu importar para os senhores de escravo que o batizaram. Esses caras todos vão acabar no inferno, disse o velho duque.

O que aconteceu hoje com você? Doris me perguntou. Nada. Alguma coisa deve ter acontecido, disse Albert. Eles estavam esperando que eu fosse lhes contar uma história. Aparentemente eu era bom nisso, em contar histórias.

Nada, exceto pelo fato de eu ter sido transportado até New Orleans. Fora isso, não aconteceu nada. Você o quê? disse Albert. Isso mesmo. Sabe, pensei que eu ia tirar um bom cochilo por volta do meio-dia e, quando dei por mim, estava parado, de pé, no meio de uma rua movimentada, cheia de carroças puxadas por mulas e esse tipo de coisa ao redor. Você é maluco? disse alguém.

Percebi que Albert estava me dando o sinal de alerta para a presença de branco nas proximidades. Em seguida, ouvi uma movimentação desengossada vinda do mato e soube que eram aqueles garotos. É o que eu estava dizendo para vocês? Primeiro, achei meu chapéu pendurado num prego. Não ponhei meu chapéu lá. Pensei cá comigo. Como é que foi parar lá? Na hora, pensei. Isso é coisa de bruxa.

Vê, eu não vi, mas foi ela, sim. E foi uma dessas bruxas, essa que pegou meu chapéu, que me mandou lá para a New Orleans. Cês bota fé? A mudança em minha dicção alertou a todos para a presença dos garotos brancos. Desse modo, minha performance para os meninos acabou estabelecendo as bases da minha história.

E ela havia se tornado menos uma história, uma vez que o principal, agora, era fazer uma apresentação para os garotos. — Mas não me diga, disse Doris, não dá para brincar com essas bruxas. — Ah, mas não dá mesmo, disse outro homem. Conseguíamos ouvir os meninos rindo. — Daí que eu estava lá em New Orleans e escuta só, eu disse. — Do nada apareceu um curandeiro, ele disse.

O que você está fazendo aqui nessa cidade? E eu disse para ele que eu não tinha a menor ideia. E aí vocês sabem o que ele me disse? Vocês sabem o que ele me disse? O que ele te disse, Jim? Perguntou Albert. Ele disse que eu, Jim, era um homem livre. Ele disse que ninguém nunca mais ia me chamar de crioulo de novo. Misericórdia, meu senhor, gritou Skinny, o ferreiro.

Aquele demônio que disse que eu podia comprar o que quisesse ali na rua. Que eu podia tomar um uísque se eu quisesse. O que vocês acham? Uísque é a bebida do diabo, disse Dóris. Tanto faz, tanto fez, eu disse.

Não fazia diferença. Eu disse que eu podia beber se eu quisesse. E qualquer outra coisa que eu quisesse também. Mas tanto faz, tanto fez. E por causa de quê? Perguntou um homem. Primeiro, por causa de que eu estava naquele lugar, porque o demônio tinha me mandado para lá.

Não era verdade, era só um sonho. E segundo, por causa de que eu não tinha dinheiro. Só isso mesmo. Daí o demônio estalou os dedos e me mandou de volta para casa. E por causa de que ele fez isso? Perguntou Albert.

É que se você não tiver dinheiro, não tem como você se meter em encrenque em New Orleans. Não importa se é de verdade ou se é de sonho, eu disse. Os homens riram. Pode crer. Foi isso que me disseram, Tomé, disse um homem. Escuta, eu disse, acho que eu estou ouvindo um desses demônios ali no mato. Me dá uma tocha aí para eu alumiar ali?

Bruxa e demônio não gostam de fogo queimando perto deles. Eles começam a derreter tipo manteiga na grelha. Todos nós rimos ouvindo os garotos brancos saírem correndo a toda velocidade dali. Depois de haver pisado naquelas tábuas que tinham rangido na noite anterior, eu sabia que a senhora Watson me pediria para reforçá-las com pregos e consertar o degrau solto.

Esperei até o meio da manhã para não acordar nenhum branco. Eles podiam dormir até a hora que quisessem e sempre reclamavam de terem acordado cedo demais. Não importava o quanto já fosse tarde. Huck saiu de dentro da casa e ficou me olhando durante alguns minutos. Veio na minha direção daquele jeito que sempre vinha, quando estava com alguma coisa na cabeça.

Por que você não está brincando com seu amigo? Perguntei. Quem? O Tom Sire? Acho que esse aí. É. Acho que ele ainda está dormindo. Ele provavelmente passou a noite em claro, roubando bancos e trens e essas coisas. Ele faz isso aí, é? Diz que. Ele tem dinheiro. Daí compra livro e passa o tempo todo lendo sobre aventura.

Às vezes eu não sei se acredito muito nele, não. Como assim? Tipo, ele achou uma caverna. E aí a gente foi lá e se juntou com os outros meninos. Só que quando a gente chegou lá, ele já quis ser o chefe. Ah, é? E tudo porque ele lê esses livros. E isso te faz meio que perder as estribeiras? Perguntei. Por que as pessoas dizem isso, perder as estribeiras?

Bom, Huck, o que eu acho é que se um cavalo tá com as estribeiras, você consegue montar ele de boa. Mas se ele perde, tem de ir. Acho que às vezes você tem que aturar seus amigos. Eles vão fazer o que eles têm de fazer. Jim, você lida com as mulhas e conserta as rodas das carroças. E agora você tá aqui arrumando a varanda. Quem te ensinou essas coisas tudo?

Parei e fiquei olhando para o martelo em minha mão. Depois girei. Essa é uma pergunta das boas, Huck. E aí, quem foi? A necessidade. Quê?

— Cercidade, me corrigi. Cercidade é quando você tem que fazer uma coisa, se não... — Se não o quê? Se não te levam para o tronco e te dão um chicote ou te levam um rio abaixo para te vender. Mas você não tem que ir se preocupar com essas coisas. Huck olhou para o céu. Ficou refletindo um pouco sobre aquilo.

É bonito demais quando a gente olha para o céu e não tem nada lá. Só o azul. Já ouvi dizer que tem vários nomes diferentes para os azul diferente. E para os vermelho e para as outras cores também. Como você chamaria esse azul aí? Azul turquesa, eu disse. Tu já viu uma pedra turquesa? Tem razão, Jim. Parece turquesa mesmo. Só não é brilhante.

Concordei com a cabeça. É por isso que a gente não pode ficar prestando atenção só no brilho das coisas. Azul turquesa, disse Huck, mais uma vez. Ficamos sentados ali mais um tempo. Que mais está te cozinhando por drento? Perguntei. Acho que a senhora Watson é maluca. Não falei nada.

Ela está sempre falando de Jesus e de oração e essas coisas. Só tem Jesus naquela cabeça. Ela me disse que as orações é para me ajudar a ser mais generoso com o mundo. Mas que diabo isso quer dizer? Olha a boca suja, Huck. Você está parecendo com ela agora? Eu não vejo vantagem nenhuma em rezar pedindo uma coisa só para não ganhar. E aí aprendeu uma lição sobre não ganhar o que eu pedi.

Não faz sentido nenhum. Dá na mesma rezar para aquela tábua ali. Concordei com a cabeça. Você está balançando a cabeça porque você concorda ou porque você não concorda? Só estou balançando a cabeça, Huck. Só tem maluco em volta de mim. Sabe o que o Tom Sauer fez? Me conta, Huck.

Ele nos obrigou a fazer um pacto de sangue. E se algum de nós contar o segredo do nosso bando, aí a gente mata a família inteira da pessoa. Não parece coisa de louco? Como é que se faz pacto de sangue? Perguntei. Precisa cortar a mão com uma faca e apertar as mãos de todo mundo que fez a mesma coisa. Sabe como é, para misturar o sangue tudo junto. Daí é que nem se todo mundo fosse irmão.

Olhei para as mãos dele. Só que a gente usou cuspe. O Tom Sawyer disse que dava na mesma. E como é que a gente ia roubar um banco com essa nossa mão tudo cortada? Um moleque chiou e disse que ia contar tudo. E o Tom Sawyer fez ele calar a boca com uma moeda de cinco centavos. E você não está me contando esse segredo agora? Perguntei.

Huck fez uma pausa. Você é diferente. Por causa de que eu sou um escravo? Não é isso. Então o que é? Você é meu amigo, Jim. Puxa, obrigado, Huck. Você não vai contar para ninguém, né? Ele ficou me encarando ansiosamente.

Mesmo se a gente for lá roubar um banco, você não vai contar para ninguém, né? Eu sei guardar segredo, Huck. Posso guardar os seus, Tomain? A senhora Watson veio até a tela da porta e chiou. Você ainda não arrumou aquele degrau, Jim? Na verdade, já arrumei sim, senhora Watson. Eu disse. Que milagre você ter conseguido com esse moleque aí buzinando no seu ouvido.

Huckleberry, volte já para dentro de casa e vá arrumar sua cama. Mas eu vou bagunçar tudo de novo essa noite, disse Huck. Ele enfiou as mãos dentro dos bolsos do calção e foi afundando até lá. Como quem sabe que acaba de passar do limite. Não me faz ir até aí fora, ela disse.

Te vejo depois, Jim. Huck entrou rápido na casa e passou correndo pelo lado da senhora Watson, como se estivesse desviando de uma pancada. Jim, disse a senhora Watson olhando para trás, para dentro da casa, procurando por Huck. Senhora? Ouvi dizer que o pai do Huck está de novo pela cidade. Ela passou andando por mim e ficou olhando para a estrada. Concordei com a cabeça. Sim, senhora.

Fica de olho no Huck, ela disse. Eu não sabia exatamente o que ela estava me pedindo para fazer. Sim, senhora. Guardei o martelo de volta na caixa. Patroa, no que é para eu ficar de olho exatamente?

E cuida para ele não se meter muito com aquele menino Sawyer. Por causa de que a senhora está me falando isso tudo? A vela olhou para mim e depois para a estrada, e depois para o céu. Não sei, Jim. Fiquei analisando as palavras da senhora Watson. O tal do Stone Sawyer não representava um perigo real para Huck.

Era mais como se fosse um diabinho sentado em seu ombro, sussurrando besteira. Agora, o pai estar de volta era uma história totalmente diferente. O homem podia estar sóbrio ou podia estar bêbado que, em qualquer dessas duas condições, aplicava surras repetidamente no pobre menino.

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