#123 A dinastia Tudor (1485-1603)
Neste episódio falamos da famosa dinastia Tudor, que governou Inglaterra entre 1485 e 1603. Abordamos as vidas e reinados de monarcas tão distintos quanto Henrique VIII e Isabel I, bem como acontecimentos-chave para a História das ilhas britânicas, como a Reforma Anglicana e a derrota da Invencível Armada.
Sugestões de leitura
1. Roger Lockyer e Peter Gaunt - Tudor and Stuart Britain, 1485-1714. Routledge, 2019.
2. G. R. Elton - England Under the Tudors. Routledge, 2018.
3. Série Wolf Hall, BBC, 2015-2024.
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Música: “Five Armies” e “Magic Escape Room” de Kevin MacLeod (incompetech.com); Licensed under Creative Commons: By Attribution 4.0 License, http://creativecommons.org/licenses/by/4.0
Edição de Marco António.
Paulo M. Dias
Roger Liresus
- Henrique VIII e a Reforma AnglicanaSucessão de Arthur · Catarina de Aragão · Ana Bolena · Thomas Wolsey · Thomas Cromwell · Thomas Cranmer · Lei da Supremacia · Dissolução dos mosteiros · Joana Seymour · Ana de Cleves · Catarina Howard · Catarina Parr
- Isabel I e a Era de OuroPuritanos · Maria Stuart · Invencível Armada · William Shakespeare · Jaime VI da Escócia · Dinastia Stuart
- Henrique VII e a consolidação do poderBatalha de Bosworth · Isabel de York · Rosa Tudor · Lambert Simnel · Perkin Warbeck · Reforma administrativa e fiscal
- Origens da Dinastia TudorGuerra das Rosas · Owen Tudor · Catarina de Valois · Henrique VI de Inglaterra · Edmundo Tudor · Gaspar Tudor
- Eduardo VI e Maria IRegência de Edward Seymour · João Dudley · Joana Gray · Maria Sangrenta · Felipe II de Espanha · Perda de Calais
- Importância da LeituraTudor and Stuart Britain, 1485-1714 · England Under the Tudors · Wolf Hall (série)
E por fim, temos Catarina Par. Teve sorte porque se o Henrique VIII tivesse vivido mais uns anos, tinha-se casado com a prima, a Catarina Impar. Impar. Falando de História
Olá a todos e bem-vindos ao episódio número 123 do nosso podcast Falando História. Eu sou o Roger Liresus e comigo está, como sempre, Paulo M. Dias. Olá! E hoje aproveitamos uma sugestão feita por um jovem ouvinte, o Francisco. Muito obrigado, Francisco, pela sugestão, que não é nem mais nem menos do que a dinastia Tudor, ou seja, a família que governou Inglaterra durante o período de transição entre a Idade Média e o período moderno, isto é, uma das famílias mais famosas na história europeia.
mas que acabou por durar pouco mais do que um século, não é assim, Paulo? É isso mesmo. Os Tudors reinaram em Inglaterra durante uns 118 anos, mais coisa menos coisa, sensivelmente ali entre 1485, quando Henrique Tudor, um pretendente autor de inglês, venceu e matou Ricardo III na Batalha de Bosworth, e 1603, ano em que faleceu a reina Isabel I sem deixar herdeiros.
Mas apesar de terem dourado relativamente pouco tempo, os Tudor acabaram mesmo por ser uma das mais famosas dinastias inglesas, como disseste, o que se deve não só ao facto de terem reinado durante um período de grandes mudanças, sobretudo a nível político e religioso, como veremos, mas também por terem tido alguns dos monarcas mais conhecidos da sua época, como foi o caso de Henrique VIII.
Isso sem dúvida, mas vamos começar pelo início. Qual é então a origem dos Tudor? Se bem me lembro, chegaram ao trono na fase final da Guerra das Rosas. Sim, falámos brevemente sobre a ascensão ao trono de Henrique Tudor no nosso episódio 114, dedicado precisamente a esta Guerra das Rosas, aquela série de guerras civis que devastaram Inglaterra na segunda metade do século XV.
Mas já lá iremos. Para já, temos de recuar um bocadinho, pelo menos algumas décadas, para perceber as origens de resto, bastante modestas, convenhamos, desta família Tudor. Tanto quanto se sabe, a família nobre dos Tudor de Penimid teve as suas origens remotas no norte do país de Gales, numa zona bastante rural. Em inícios do século XV, até estiveram envolvidos numa revolta contra o governo de Henrique IV, o primeiro monarca da Casa do Encastre. O que não estará valido grande boa vontade por parte da cor inglesa, não é?
E daí também que hoje saibamos tão pouco sobre aquele que é hoje até considerado o principal responsável pela ascensão social desta família, Owen Tudor. E o que é que então nós sabemos sobre esta personagem? Na prática sabe-se muito pouco. E eu explico até porquê. É que depois de terem chegado ao trono, os Tudor pagaram uma série de cronistas, para escreverem obviamente a história da sua família, e acabaram então por criar uma série de mitos e de lendas com o objetivo de dar mais prestígio.
Uma origem social que, para reis, era bastante modesta. Por isso, foi sugerido que este Owen Tudor seria um veterano da Batalha da Jancurra em 1415 ou que teria até sido escudeiro de Henrique V em Inglaterra. Ao certo, sabemos apenas que terá nascido ali por volta do ano 1400 e falecido com uns 60 anitos ali em 1461, tendo sido primeiro escudeiro e mais tarde também cavaleiro.
Pelo meio, é possível que tenha mesmo servido Henrique V em França, mas integrado no século de um nobre mais pequeno, do Barão de Hungerford, e não no século do próprio rei. Ah, e aqui sem esquecer que também foi padrasto de um rei de Inglaterra. Mas espera aí, porque isso muda tantas coisas. Como é que ele acabou por ser padrasto do rei de Inglaterra? Isso não é propriamente um fediver, uma coisa pequena.
É, não é coisa pequena, mas eu explico, não te preocupes. No nosso episódio 94, também já um bocadinho lá para trás, em que falámos da Guerra dos Cem Anos, referimos na altura que Henrique V, Inglaterra, depois de um par de campanhas militares bem-sucedidas, conseguiu casar, em 1420, com Catarina de Valois, filha do rei Carlos VI de França. Tornou-se assim, claro, herdeiro do trono francês.
Mas o casamento durou apenas dois anos, porque logo em 1422, Henrique V morreu, provavelmente até desinteria, durante o cerco ao castelo de Meaux, deixando como herdeiro um bebê, Henrique VI de Inglaterra, também apelidado nessa altura de rei de França. Como se poderá imaginar, a rainha, que tinha na altura uns 21 anos, rapidamente foi rodeada de ambiciosos pretendentes, a padrasto do novo monarca. Porque, imagino eu, casando com esta rainha viúva, acabaria por ter muito poder e muita influência sobre a educação do novo rei, não é?
Claro que era essa a ideia, mas o facto é que os regentos durante a minoridade de Henrique VI, desde logo o duque de Gloucester, que era seu tio, nunca iriam permitir que nada do género pudesse acontecer. É provável até que, por ser de origens tão humildes, a One Tudor não desse muito nas vistas e acabasse por não ser alvo de inveja. Afinal de contas, um mero escudar galês nunca poderia fazer sombrar um poderoso duque ou, sei lá, dar origem a uma dinastia reinante, não é? Sim, que ideia. Isso é uma coisa completamente louca.
É impensável, mas o facto é que o Antudar lá conseguiu casar-se com Catarina de Valois, embora o tenha feito em segredo, como aliás se percebe, não é? Só depois da morte de Catarina em 1437, com apenas 35 anos, coitado, era bastante jovem, é que foi difundido por todo o reino que o matrimónio tinha de facto acontecido. Não sabemos ao certo quando casaram, mas é provável que tenha sido ali um bocadinho antes de 1432.
Porque foi nesse ano que o Antudor foi naturalizado inglês, ou seja, recebeu os direitos que não tinha antes porque era galês. Ou seja, Inglaterra não dava os mesmos direitos a ingleses e a galeses nesta altura. Mas como é que um simples escudeiro vindo do país de Gales acabou por encantar a princesa de França e a rainha-viúva de Inglaterra?
Não sabemos, mas é que isto até parece um bocadinho um conto de fadas. É provável que o facto de serem mais ou menos da mesma idade tenha ajudado à questão, mas não sabemos grandes pormenores sobre a sua relação. Seja como for, o facto é que deste casamento acabaram por nascer apenas dois filhos, pelo menos dois filhos que chegariam à idade adulta, Edmundo e Gaspar Tudor, que, ao nascer, eram já, por via materna, meios irmãos de Henrique VI de Inglaterra.
Mesmo assim, é uma ascensão social meteórica. Assim, realmente muito estrondosa. Em apenas duas gerações, os Tudor passam de uns nobres obscuros do país de Gales para familiares da Casa Real Inglesa. Realmente é obra. Sim, claro. Mas o facto é que a audácia de Owen Tudor acabou por valer-lhe como serios para alguns inimigos. Assim que Catarina de Valois faleceu, como disse em 1437, Owen foi então acusado de ter casado ilegalmente com a princesa e foi preso.
Nem o facto de ter sido ilibado em tribunal o poupou de facto a uma nova passagem pela cadeia de onde apenas escapou por ter sido, entretanto, perdoado pelo próprio rei. A partir de então, Henrique VI começa a interessar-se mais por estes seus meios irmãos, o que acaba por justificar esta intercessão em favor do padrasto galês.
Enquanto Owen vai passar, nesta altura, a servir na corte, a educação dos seus filhos é paga pelo próprio rei. Quando atingem, então, a idade adulta, recebem, claro, terras e riquezas, tudo o que fosse necessário para que pudessem viver consoante o seu elevado estatuto social. Por isso, em 1449, Edmundo recebe o condado de Richmond, em Inglaterra, enquanto o irmão, Gaspar, recebe, em 1452, o condado de Pembroke, no País de Gales.
É uma ascensão social muito interessante para este período. E tudo porque eram, lá está, meios irmãos do próprio rei. E tanto quando sei, não é assim algo tão frequente na Europa deste período. Não, não é de facto uma situação muito comum. E note-se que Enrique VI tinha mesmo grande apreço por estes meios irmãos.
Porque não tinha mais ninguém. Toda a família já tinha morrido. O pai, a mãe. A partir da década de 1440, os tios também morreram todos. E, portanto, os irmãos de Tudor vão mesmo ser os seus únicos parentes próximos. Daí que, enquanto Henrique VI e Margarida de Anjou não têm herdeiros, o que acontece sensivelmente durante uma década,
Edmundo e Gaspar acabam por ser vistos um bocadinho como potenciais herdeiros ao trono, embora esta seja uma possibilidade que desagrada a muita da nobreza tradicional. Seja como for, o poder e a influência de Edmundo e de Gaspar, que aqui parece uma dupla de palhaços até, não é?
Vão ser sobretudo responsáveis pelo governo do país de Gales, que vai ter o seu auge precisamente nestes inícios do décimo de 450, numa altura em que acontece uma coisinha, sim e pouco importante, chamada Guerra das Rosas. Bom, mas no meio disto tudo, qual foi o papel então dos irmãos Tudor neste conflito? Eu imagino que, por serem meios irmãos do rei, tenham sido fiéis, não?
Sim, a lealdade a Enrique VI vai causar grandes dissabores da família. Não vou estar aqui a repetir o que já disse sobre a Guerra das Rosas, no nosso episódio 114, por isso basta ter em consideração que, numa primeira fase do conflito, as forças do Duque de Orque só punha os do rei. Por isso, em 1456, Edmundo Tudor vai ser capturado, depois das suas terras serem ocupadas para força pelos homens do Duque de Orque, e pouco tempo depois morre na prisão, talvez vitimado pela peste, não sabemos bem.
Alguns anos mais tarde, em 1461, Owen e Gaspar Tuller vão estar presentes na Batalha de Mortimer's Cross, uma vez mais combatendo ao lado do rei, e nessa derrota, Owen é então capturado, vai ser decapitado e a cabeça vai acabar exposta na Praça do Mercado da Vila de Herford, ali bem próxima do campo de batalha. Isso é um final bastante macabro, coitado. Mas o que é que aconteceu ao Gaspar?
Conseguiu escapar, apesar de ser prontamente denunciado como traidor pelo novo rei, Eduardo IV da Casa de Orque. Portanto, todas as suas terras e bens foram logo confiscados. E por isso vai fugir para o exílio em França com a rainha, Margarida de Anjou, mas deixa para trás um jovem sobrinho, Henrique Tudor.
Então, mas espera aí, porque eu não sei quem é este Henrique Tudor, tu ainda não falaste dele. Só tínhamos o Owen, o pai, não é? O fundador, basicamente, da dinastia, e os dois filhos, o Edmundo e o Gasparo. É, aqui entramos um bocadinho, e novamente, nestes complexos meandros das linhagens medievais. Em novembro de 1455, Edmundo Tudor tinha usado a sua influência, junto do rei, claro, para casar com Margarida Beaufort, nessa altura uma das noivas mais requisitadas do reino.
Isto porque não só era filha do duque de São Marçete, mas sobretudo porque era bisneta de João de Gante, duque do Encastre e pai da nossa rainha, Dona Filipe do Encastre, esposa quarta de Dom João I. Ou seja, na prática, Margarida Boforra era trineta do rei Eduardo III de Inglaterra, o que lhe dava alguns direitos ao trono inglês.
Já estou aqui a ver o que é que está a acontecer. Portanto, Edmund Tudor, que já era meio-irmão do rei Henrico VI, queria, na realidade, consolidar os seus direitos ao trono inglês, acabando por casar com uma descendente direta de Eduardo III por não sei quantas gerações. Portanto, por um lado, ele tinha a cunha do seu meio-irmão e, por outro, acabava por ter esta pretensão direta através da sua mulher. É isso? É basicamente isso. Foi um casamento por conveniência que lhe daria muito jeito.
E por isso, logo em janeiro de 1457, vai nascer um filho deste casamento, que aconteceu pouco tempo antes, Henrique Tudor, e que vai ser filho posto no Dead Mundo, que faleceu em novembro de 1456. Note-se que a diferença de idades entre o casal é, para nós, hoje em dia, inconcebível, porque Edmundo andaria ali pelos 25, 26 anos.
e Margarida tinha apenas 13. Pois, para nós realmente soa sinistro, mas na Idade Média, enfim, e até bem para lá da Idade Média, até praticamente quase até o século XX, não era uma situação assim tão invulgar.
Não, e basta lembrar que a idade da maioridade era uns 14 anos, muito diferente dos nossos tempos. Mas seja como for, em 1461, a família Tudor foi obrigada a dividir-se. Enquanto Gaspar partiu para o exílio, Henrique e a mãe permaneceram no castelo de Pembroke, em Gales, entretanto doado a poentes de novo monarca. Assim vão ficar as coisas durante uns 10 anos, até que em 1470, a restauração de Henrique VI no trono inglês trouxe Gaspar de volta à Inglaterra.
Mas isto acabou por ser sol de bocadura, porque logo no ano seguinte, em 1471, Eduardo IV vai retomar o trono e vai assassinar Henrique VI. Por isso, entre 1471 e 1485, Henrique Tudor vai viver em França, sobretudo ali na zona do Tocado da Bretanha, com o tio, enquanto a mãe, Marguerite de Beaufort, permaneceu em Inglaterra.
Ela viria ainda a casar duas vezes, sempre com apoiantes da família Lady Ork, nunca teve grande opção na escolha do marido, infelizmente, mas o facto é que nunca vai abandonar a defesa dos direitos ao trono do próprio filho. Por isso, acabou sempre por ser uma das principais promotoras da invasão protagonizada por este em 1485.
e que culminou na famosa Batalha de Bosworth, nós também já falámos aqui no nosso episódio sobre a Guerra das Rosas, que desembocou na morte de Ricardo III, o último rei da Casa de York. Foi exatamente isso. A invasão de Henrique Tudor teve não só o apoio do tio Gaspar, mas também do rei de França, Carlos VIII.
A isto juntou-se o descontentamento de parte da nobreza inglesa, que, claro, estava desagradado com o reinado de Ricardo III, e tinha-se aqui uma combinação que acabou por garantir o trono àquele que, a partir de então, seria conhecido como Henrique VII, o primeiro monarca da dinastia Tudor, e que viria a reinar até 1509.
E nunca é demais sublinhar a ascensão desta família, que em menos de um século passou de praticamente desconhecida a casa reinante. E ninguém estava tão ciente disso quanto os próprios Tudor, que tudo fizeram ao longo dos anos para legitimar esta sua nova posição. Por isso, logo em 1486, Henrique VII casou com Isabel de Orque, filha mais velha do falecido rei Eduardo IV, unindo assim os símbolos das duas casas, a rosa vermelha dos Lancastre.
e a Rosa Branca dos York, que passam a formar a Rosa Tudor, um dos símbolos mais importantes desta dinastia. Mas eu imagino que, depois de tantos anos de guerra e de divisões internas, o reinado de Henrique VII não tenha sido nada fácil. E, na verdade, não foi. Henrique VII teve de lidar com as consequências políticas, sociais e económicas de décadas de guerra civil. Além disso, teve também duas graves ameaças ao seu poder, por intermédio de duas revoltas de alegados pretendentes ao trono.
Logo em 1487, e que o deu uma revolta em torno de um impostor, chamado Lambert Simnel, mas que acabou esmagada na revolta de Stoke, no norte de Inglaterra, mais perigosa foi a revolta de Perkin Warbeck, que na década de 1490 legava que era um dos famosos príncipes na torre, os tais filhos de Eduardo IV, a quem Ricardo III tinha dado sumiço para se tornar rei em 1483.
Mas era claro apenas mais um impostor, que também foi derrotado depois de ter invadido a Cornualha, mesmo ali no cantinho sudoeste de Inglaterra, em 1499. Portanto, vai ser executado nessa altura. Ainda assim, vai ser precisamente esta vigilância sempre muito atenta, às vezes até um bocadinho paranoica de Henrique VII, que acaba por permitir aguentar-se no trono e passá-lo aos seus descendentes. Mas isso acaba por mostrar que, apesar do fim da guerra, há muita instabilidade em Inglaterra.
Sim, e era natural, a Inglaterra tinha passado um mau bocado e a coroa estava praticamente falida. Por isso, Henrique VII lançou uma série de reformas para agilizar tanto a administração do reino como a própria cobrança de impostos. Começou por limitar o acesso da nobreza a cargos importantes na corte e, desde logo, ao seu próprio conselho, o Conselho do Rei.
entregando estes cargos antes a juristas e outros funcionários com formações que eram úteis ao governo do reino. Estes homens, que tanto eram clérigos como sujeitos de condição social mais baixa, alguns nem sequer eram nobres, foram sempre muito úteis na hora de criar impostos, de limitar os poderes da fidel guia, de estabelecer relações comerciais com outros reinos europeus, por aí fora.
E, por outro lado, também eram sujeitos cujo poder e riqueza estavam inteiramente dependentes dos cargos que exerciam. Portanto, nunca pensariam em revoltar-se contra o rei como faziam os nobres, não é? Que tinham as suas terras, os seus servidores, e como tinham feito durante muito tempo, nas décadas anteriores, durante a Guerra das Rosas. Isto quer dizer que Henrique VII acabou por apostar, basicamente, numa rede de funcionários que lhe permitiu aumentar o poder da coroa enquanto o poder da nobreza diminuía.
Foi exatamente isso. E note-se que estas reformas são tão bem sucedidas que Henrique VII ganhou até uma certa reputação de sovina. Tal era a forma como exigia que todos, nobres incluídos, pagassem os mais diversos impostos. E nós sabemos que não era habitual a nobreza pagar impostos.
Por outro lado, em 24 anos de reinado, reuniu o Parlamento apenas sete vezes, o que era manifestamente muito pouco e acabava por limitar os poderes e exigências feitas pelos parlamentares, o que jogava, obviamente, em favor da autoridade régia. E, por fim, refira-se que, em termos internacionais, privilegiou as relações pacíficas, casou o seu herdeiro, o príncipe Arthur, com Catarina de Aragão, filha dos reis católicos, e a princesa Margarida, sua filha, com o rei Jaime IV da Escócia.
Mas espera aí, é que Enrico VII não foi sucedido pelo muito famoso Enrico VIII? É que acabaste de falar de um herdeiro chamado Arthur, e eu não me lembro que tenha havido um rei Arthur, a não ser aquele outro famoso, que também vemos de falar num episódio, mas não neste. Pois é que aqui entramos naquilo que foi sem dúvida o grande problema deste reinado, a sucessão.
Poderia mesmo ter havido um rei Arthur. E era até essa a ideia. O nome não foi escolhido por acaso. Do casamento entre Henrique VII e Isabel de Orque nasceram vários filhos, dentre os quais o mais velho é precisamente um jovem chamado Arthur. Foi ele que foi treinado desde muito jovem para suceder ao pai. Governou como príncipe de Gales e casou, como referi, com Catarina Dragão.
Só que adoeceu muito indesparadamente em 1502 e, com apenas 15 anos, morreu. Vitimado por uma doença desconhecida, mas fulminante. A partir de então, vai ser o seu irmão mais novo, Henrique, com apenas 10 anos, que se torna herdeiro do trono inglês. Mas aqui temos logo um grande problema.
porque Henrique VII ficou muito abalado com a morte do filho e logo no ano a seguir morreu a mulher, portanto mais abalado ficou ainda. E por isso, acabou por nunca apostar propriamente na educação do jovem Henrique para ser rei. Preferia protegê-lo de tudo e todos, com receio que também morresse e lançasse o rei numa crise sucessória.
Bom, mas se não permitiu que tivesse uma educação em condições, digamos assim, para reinar ou sequer responsabilidade, ele basicamente não foi treinado para ser rei. Claro que não. E aí é que está o problema. É que quando Henrique VII fechou os olhos em 1509, foi sucedido por Henrique VIII, que, do alto dos seus 17 anos, era tão enérgico quanto completamente desinteressado pelo governo do reino.
Só fechou os LGI. Teve sempre sem prestar já até esse momento. Sim, sim, sim. Era para nós que é esse nível. Porra.
Mas o facto é que o novo rei preferia passar os dias a divertir-se com os amigos, em torneios, em caçadas, do que estar propriamente a lidar com as chatices do governo num reino. Por isso acabava por ser a antítese do pai, que tinha passado o reinado quase todo colado à secretária, a despachar papelada dia e noite. Por isso, durante 20 anos, Henrique VIII vai deixar o governo da Inglaterra nas mãos do cardeal Thomas Wolsey, que vai servir nesta altura como chanceler inglês.
Enquanto isso, o rei ocupa-se, claro, com outras questões. Desde logo, a sua rivalidade com os reis de França vai invadir este reino em 1513, assim como a ideia um bocadinho mirabolante de retomar a Guerra dos Cem Anos, várias décadas depois de ter sido perdida. E cinco anos mais tarde, quando, claro, a invasão a França não adoe nada, em 1518 vai então, por intervenção do cardeal Wolsey, assinar o Tratado de Londres, um tratado muito importante.
no qual se tentava unir todos os reinos da Europa Ocidental contra a ameaça dos turcos otomanos. O que sabemos que não levou lá de nenhum. Claro que não. Foi só propaganda, não deu nada, absolutamente nada. Mas ficava bonito na fotografia, não é? Nesta altura, Henrique VIII estava no auge da sua fama internacional, pelo menos por bons motivos.
Em 1519, após a morte do imperador Maximiliano, lançou mesmo a sua candidatura para ser sacro-imperador romano-germânico, mas aí já estava a dar um passinho um bocadinho maior que a perna e ele até era um homem bastante alto, tinha perto de 1,90m.
porque não tinha maneira nenhuma de ter os apoios necessários para conseguir ser eleito. Por isso, o trono imperial vai passar para Carlos V, neto falecido Maximiliano, o famoso Carlos V, sobre quem, sem dúvida, um dia também falaremos. Ainda assim, em 1520, Henrique VIII ainda vai ser capaz de se encontrar pessoalmente com Francisco I de França, no famoso Campo do Pano de Ouro, uma reunião entre os dois monarcas que, nessa altura, tentavam ali ainda manter umas boas relações, mas o resto da vida seria passado em guerras.
e que vai ganhar este nome devido às tendas muito extravagantes e muito decoradas dos participantes nesta ocasião. Aliás, é um encontro que deu até a origem a um quadro muito famoso, não é? Sim, pintado já em 1545, na fase final do reinado de Henrique VIII, que, doente, carregado de dívidas, tentava relembrar os tempos de glória. Como se pode imaginar, as extravagâncias dos primeiros anos do reinado de Henrique VIII acabaram por esgotar as reservas de dinheiro cuidadosamente acumuladas pelo pai.
Mas apesar da insistência do cardeal Wolsey, o rei não estava nem aí, não queria cortar despesas, portanto era preciso aumentar impostos. Só que isto levou imediatamente, e como acontece sempre que se aumentam impostos, a uma queda abrupta da popularidade, neste caso do rei, e vai levar até ao ecoludir de uma revolta antifiscal em 1525, o que contribuiu para azedar as relações entre o rei e o seu valido.
Mas, acima de tudo, Henrique VIII estava cada vez mais preocupado com a questão sucessória, porque do seu casamento com Catarina de Aragão tinha nascido apenas uma filha, Maria, em 1516. Sentia até que, por ter casado com a viúva do irmão, logo em 1509, no seu primeiro ano de reinado, este matrimónio estava maldiçoado e só por isso não conseguia, de maneira nenhuma, ter um filho varão para lhe suceder, mesmo depois de 20 anos de casamento.
Interrompemos por um bocadinho o nosso episódio para deixar um apelo aos nossos ouvintes, não é assim, Roger? Sim, o podcast Falando História é um projeto independente, como todos sabem, e por isso, se os nossos ouvintes quiserem apoiar-nos e contribuir para a manutenção deste nosso podcast, podem fazê-lo através da plataforma Patreon em patreon.com.br E claro, deixamos este link na descrição do episódio, onde podem encontrar toda a informação necessária para fazer parte da nossa comunidade. E agora, regressamos ao episódio.
Já aqui vimos as origens desta dinastia Tudor, desde os inícios do século XV até ao reinado do seu segundo monarca, Henrique VIII, que, como acabaste de dizer, Paulo, após 20 anos de casamento, continuava sem herdeiro masculino. Terá sido nessa altura, então, que começou a pensar no divórcio, no primeiro dos seus famosos divórcios. Ora, nem mais o primeiro de vários.
E não por acaso a ideia de divórcio surge na mesma altura em que o rei virava as suas atenções para outras senhoras, digamos assim. Desde logo para uma senhora chamada Ana Polena, que era dama de companhia da própria esposa de Catarina Dragão. Por isso o cardeal Bolsi foi encarregue de tratar da espinhosa questão do divórcio, que teria de ser aprovado pelo papado.
Só que o imperador Carlos V, que era sobrinho da Catarina de Aragão, não tinha interesse em afastar a própria família do trono inglês. Por isso vai pressionar o Papa para que não dê ao rei de Inglaterra tudo o que ele quer, portanto nada de divórcio. O facto é que este fracasso diplomático vai levar à queda em desgraça do cardeal Wolsey em 1529 e vai ser substituído por dois homens. Thomas Cromwell, que se ocupava da administração do reino, e o arcebispo de Cantuária, Thomas Cranmer, que trataria do divórcio. Portanto, dois Tomás.
Logo em 1533 vai passar uma lei que permitia o divórcio do rei, o que obviamente foi logo feito e seguiu-se o casamento de Henrique VIII com Ana Bolena. No ano seguinte, em 1534, é passada a lei da supremacia, que assegurava então a ruptura definitiva com Roma e constituía o rei como líder da Igreja de Inglaterra. Bom, mas para quem quiser saber mais, nós temos já os nossos episódios velhinhos sobre as reformas protestantes, entre as quais, obviamente, a reforma anglicana. Se pode ouvir no nosso episódio 64.
Isso mesmo. Mas note-se que nesta altura ainda se estão a dar aqui os primeiros passos daquilo que viria a ser a Igreja Anglicana. E o próprio Henrique VIII combateu forosmente os protestantes mais radicais. Mandou até queimá-los na fogueira. Em todo o caso, a ruptura com Roma levou-lhe descontentamente generalizado. E a execução de todos aqueles que, como o famoso Thomas More ou Tortomás, recusavam jurar obediência ao rei como chefe da Igreja Inglesa.
Logo em 1536 vai-se então proceder à dissolução de todas as casas religiosas em Inglaterra, sendo que todo o pólo destes mosteiros vai ser absorvido pela coroa e, em muitos casos, vendido em asta pública para pagar as dívidas do rei. E a sucessão do rei ficou resolvida com o divórcio de Catarina Dragão e com o casamento de Ana Bolena? Porque, na realidade, esse foi um dos motivos que levou ao corte com Roma, enfim, ao divórcio e ao novo casamento.
Não, de maneira nenhuma. A questão sucessória foi um problema para Henrique VIII durante praticamente todo o seu reinado e o levou, como veremos, a várias atrocidades. O facto é que toda a gente sabia do desespero do rei, que não descassava enquanto não tivesse um herdeiro masculino e por isso estavam sempre a propor novas noivas. Estas damas acabavam sempre por tornar-se peões nestes jogos de bastidores da corte.
sobretudo na disputa pelo poder entre as duas grandes facções. De um lado estavam os conservadores, que não queriam de maneira nenhuma cortar relações com Roma, até porque isto deixava a Inglaterra muito isolada em termos diplomáticos e militares, e do outro estavam os reformistas, que consideravam que Henrique VIII não era suficientemente radical nas suas reformas religiosas, ou seja, que matava era pouco. Isto quer dizer que estava criada a receita perfeita para o desastre.
Está-se mesmo a ver que sim, e quem pagou as favas foram frequentemente as esposas de Henrique VIII e as suas famílias. Do seu casamento com a Ana Bolena, nasceu, em 1533, mais uma filha, a futura Isabel I.
Mas insatisfeito com mais uma rapariga, o rei rapidamente começou a procurar nova esposa e, em 1536, mandou executar Ana Bolena e seu irmão Jorge, acusados de traição e de adultério incestuoso. Ainda nesse ano, casou com Joana Simor, que deu à luz o desejado herdeiro varão, o príncipe Eduardo, mas esta faleceu pouco depois, em 1537, de complicações sofrias durante o parto.
O quarto casamento de Henrique VIII foi com Ana de Cleve, uma nobre do Sacro Império, em 1540, mas durou apenas seis meses. A cerimónia foi feita por procuração e à distância, portanto o rei só viu a esposa depois de já estarem casados. Ao que parece, achou feia, por isso insistiu no novo divórcio.
casamento só durou seis meses. O que aqui não deixa de ser irónico, já que o próprio Henrique VIII estava nesta altura, como vemos em vários dos seus quadros, ou seja, obeso e atacado por uma série de doenças como gota e umas úlceras terríveis nas pernas, que por vezes até o impediam de andar. É caso pra dizer que não tinha grande moral para se queixar, não é? Mas pronto, eu imagino que os casamentos não se ficaram por aqui, não é?
Não, não, e a parte mais irónica disto tudo é que divorciou-se, mas teve que pagar uma pensão vitalícia à quarta mulher. Que se safou muito melhor que outras esposas, não é?
mas ainda voltou a casar duas vezes. A quinta esposa foi Catarina Howard, filha de uma poderosa família nobre, com quem casou em 1540. No entanto, foi executada logo em 1542, pois, tal como a Anabelena, foi acusada de traição e adultério. Sendo que as duas coisas eram a mesma coisa, eram traidoras porque tinham traído o rei. Era essa a ideia. Neste caso, não foi, lá está, adultério com o próprio irmão, mas foi com um primo. Portanto, já estava um bocadinho mais distante.
Por fim, Catarina Parr, com quem casou em 1543, e a única a sobreviver à morte do próprio Henrique VIII. Certamente que se tivesse tido mais tempo, o rei também teria arranjado forma de se divorciar dela ou até de mandar matar. E há até aqui, para animar um bocadinho o ambiente, uma música feita por um programa da BBC, já infelizmente terminado, o Horrible Histories, um programa para crianças, história horrível, que dedicou uma música precisamente a estas esposas de Henrique VIII. E vamos ouvir aqui um bocadinho.
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E aqui se percebe, infelizmente, o triste fim da maioria destas senhoras. Resumindo, em seis casamentos e ao longo de 38 anos, Henrique VIII teve seis esposas, mas apenas três filhos. Maria, filha de Catarina Dragão, Isabel, filha de Ana Bolena, e Eduardo, filho de Joana Seymour. Seria precisamente este único rapaz, Eduardo, a suceder ao pai quando este finalmente faleceu, atormentado pela doença e completamente falido em 1547.
Bom, e o reinado de Henrique VIII é, hoje em dia, muito famoso, ou até infamamente famoso, por causa de todas estas questões relacionadas com os divórcios, com a reforma protestante, e o seu filho, o reinado do seu filho, Eduardo, acaba por cair um bocado no esquecimento. O que é que nós sabemos sobre este reinado? Olha, foi um reinado muito breve, durou apenas seis anos, entre 1547 e 1553.
O pequeno rei tinha apenas nove anos quando subiu ao trono, por isso Inglaterra foi governada por duas regências distintas. Até 1549 o governo foi desempenhado por Edward Seymour, tio do jovem rei, que rapidamente assumiu o título de Lorde Protetor do Reino e concedeu a si mesmo, claro, como não poderia deixar de ser, o título de Duque de Somerset. Isto não se trabalha sem receber qualquer coisa, não é? No imediato procurou continuar as dispendiosas guerras de Henrique VIII, sobretudo na Escócia.
tentava nessa altura forçar a unificação dos dois reinos, mas isto apenas serviu para empurrar os escocesos para uma aliança com a França. Portanto, não serviu de nada. Por outro lado, com o apoio do arcebispo de Cantuária, também vai continuar a reforma protestante, torna-a até mais radical do que tinha sido nos anos anteriores, e por isso não tardam a eclodir duas revoltas em 1549, que vão conduzir ao fim do seu governo, por a resposta às mesmas ter sido considerada, como foi dito na altura no Conselho do Rei, demasiado frouxa.
Portanto, houve aqui uma mudança na regência do reino. Quem é que acabou por chegar ao poder? Em 1549, um golpe vai levar à prisão e destituição de Somerset, que, a partir dessa altura, vai ser substituído por João Dudley, com Dwarwick e, mais tarde, Duke de Northumberland. Lá está, esta ideia de que comece-se a governar e dá-se a si próprio um título duque.
Foi durante este governo, que dura até 1553, que se intensificou ainda mais a reforma protestante, com contornos ainda mais radicais do que antes. Vai-se, por exemplo, destituir os bispos conservadores, lança-se uma grande onda de iconoclastia por todo o reino, vão ser destruídas estátuas e vitrais em igrejas, tudo isto para afastar de vez qualquer possibilidade de um retorno à obediência à Roma.
Por outro lado, também se percebe que as guerras contra a Escócia e contra a França são impossíveis de vencer. Portanto, vai-se limitar a tentar pacificar estas relações e até para recuperar as finanças da Croix, que já tinham tido melhores dias. Mas não tardou muito até que os seus planos fossem sebotados pela súbita morte do rei, em 1553, com apenas 16 anos.
E deixa-me adivinhar, Eduardo VI morre aos 16 anos, sem casar, sem filhos e sem sucessor, portanto. Pois claro, mais um problema de sucessão. De acordo com o testamento de Henrique VIII, em caso de morte de Eduardo, seria sucedido para ir a uma mais velha, que era Maria, filha de Catarina de Aragão.
A primeira mulher de Henrique VIII. Só que se receava nessa altura que ao subir ao trono, Maria, tal como a mãe, fosse uma católica fervorosa e restabelecesse imediatamente relações com o papado e revertesse as reformas anglicanas. Por isso, o duque de Northumberland vai organizar um golpe, manipula o Eduardo VI, um pouco antes da sua morte, a deixar o trono a Joanna Gray, uma senhora nobre que era bisneta, por via feminina de Henrique VII, e que só por acaso até estava casada com um filho deste duque. Aquelas coisas curiosas.
Coincidências. Só que, na hora H, faltaram os apoios necessários, por isso Maria reúne um exército, marchou sobre Londres, tomou o trono e mandou imediatamente executar o duque. Estava então consagrada a sucessão ao trono de Maria I, filha de Catarina Dragão, 20 anos após o divórcio dos pais. E esta Maria ficou conhecida para a história como a Bloody Mary, ou a Maria Sangrenta, não foi?
Sim, é uma alcunha que ganhou por ter mandado queimar muitos protestantes durante as suas tentativas para reverter as reformas dos seus antecessores e para promover o regresso de Inglaterra ao catolicismo. No seu breve reinado, entre 1553 e 1558, conseguiu efetivamente levar a Inglaterra a restabelecer os laços com Roma, a restaurar os bispos católicos e até tentar reverter outras reformas, embora não tenha conseguido como queria refundar as casas religiosas que tinham sido dissolvidas, como disse, por Henrique VIII.
As revoltas em resposta a estas ações foram, de restos, esmagadas, sempre com sucesso. E a rainha lidou brutalmente com qualquer ameaça ao seu poder. Mandou executar a tal Joanna Gray e a sua família. Nota-se também que, em termos financeiros, foi muito bem sucedida. Foi capaz de lidar com as dívidas deixadas pelos reinados anteriores.
internacionalmente, também foi capaz de resolver o problema do isolamento diplomático inglês, desde logo através do seu casamento em 1554 com o futuro Felipe II de Espanha, herdeiro do poderoso Carlos V. No entanto, esta aliança com os seus parentes a Habsburgo acabou por levar à perda de Calais, o derradeiro resquício dos territórios que os ingleses tinham tido em França desde o século XI. Portanto, no geral, foi um rei dado até bastante bem sucedido.
Teve alguns sucessos, sim, mas que acaba por ficar um bocadinho esquecido entre os reinados do pai, Henrique VIII, e da minha irmã, Isabel I. E note-se que, como já vinha sendo tradição na Dinastia Tudor, os problemas sucessórios acabaram por minar os planos de Maria I. A rainha casou pela primeira vez aos 38 anos, uma idade em que já era difícil vir a ter filhos.
Embora tenha engravidado algumas vezes, foram sempre gravidas de alto risco e que não correram bem. Portanto, a rainha acabou por falecer sem herdeiros em 1558, deixando o trono, ainda que de forma extremamente relutante, à sua minha irmã, Isabel, filha de Ana Belena. Até porque sabia que esta era protestante e não tardaria a dissolver todas as reformas religiosas.
que tinha feito durante esses breves 5 anos como rainha de Inglaterra, como acabou mesmo por acontecer. E chegamos finalmente à famosa Isabel I de Inglaterra. Essa mesmo. E, conforme esperado, começou o seu reinado, em 1558, prontinho a reverter todas as reformas religiosas da meia-irmã.
No entanto, a oposição interna não lhe permitiu fazer exatamente tudo o que queria, portanto, no ano seguinte, em 1559, estabeleceu um acordo entre os conservadores e os reformistas para tentar acalmar um bocadinho os ânimos entre os súbditos católicos e os protestantes. No entanto, as facções mais radicais entre estes últimos, sobretudo os chamados puritanos,
nunca aceitaram este meio termo e, portanto, vão querer acabar com todos os elementos papistas da igreja e vão ser vistos como elementos desestabilizadores. Portanto, vão ser perseguidos e os seus líderes são frequentemente exilados ou mortos por ordem da rainha. Aliás, e até parte deles, muitos iludidos, acaba por partir no famoso Mayflower, não é? Em direção às novas colónias norte-americanas. Mais tarde, sim. Muito mais tarde, mas fazem parte deste grupo de fanáticos religiosos anglicanos.
Mas, em todo caso, mesmo mantendo aqui a questão religiosa, nós sabemos que foi Isabel I que consolidou grande parte do que são os elementos da Igreja Anglicana. É verdade. E as questões religiosas vão marcar todo o seu reinado. As relações com os católicos vão piorar muito significativamente após 1569, ano em que há uma revolta católica no norte da Inglaterra, e sobretudo depois de 1570, quando foi excomungada pelo Papa.
E por isso, a partir de então, todo e qualquer católico passou a ser visto como um potencial traidor ao serviço do Papa e de outros príncipes estrangeiros, desde logo de Filipe II, rei de Espanha e antigo cunhado de Isabel I. Em 1585, a decisão da rainha de apoiar os protestantes dos Países Baixos, que estavam em revolta aberta contra os espanhóis, levou a uma quebra das relações com Espanha que viria a durar longos anos.
Foi precisamente durante este conflito que foi organizada, em 1588, a chamada Grande Armada, batizada, ironicamente pelos ingleses, como Invencível Armada, destinada a ocupar Inglaterra, a afastar Isabel I do trono e a restabelecer o catolicismo. Portanto, coisa pouca. Só que a combinação de tempestades no Canal da Mancha e a ação da Marinha Inglesa acabaram por votar essa armada ao fracasso, o que, ainda assim, contrariamente ao que por vezes se diz, não marcou de modo nenhum o fim da guerra entre os dois reinos.
Sim, até porque há uma contra-armada, não é enviada contra a Espanha, mas enfim, a grande armada, a contra-armada e tudo isso dá um grande episódio, um futuro grande episódio aqui do podcast. Sim, e voltaremos a ela noutra altura, não tenho dúvidas.
Em termos de política externa, já se está a ver qual era a posição de Inglaterra contra a Espanha. A isto juntava-se uma quase incessante campanha dos cursários ingleses que tomavam os navios espanhóis que regressavam das Américas carregadinhos de riquezas. Por outro lado, e durante algum tempo, Isabel I também apoiou do António, o prior do crato, pretendente ao trono português.
nesta sua tentativa de resistência à conquista de Portugal por Filipe II, embora aqui sem grande sucesso. Uma vez mais, um tema para um episódio separado. Em termos internacionais, Isabel I foi também capaz de assegurar o domínio inglês nas Ilhas Britânicas, praticamente subjugando a Escócia, mantendo a sua antiga rainha, Maria Stuart, presa durante vários anos, até a mandar executar em 1587, depois de se descobrir que andaria a conspirar contra a sua vida.
E já na Irlanda, essa região foi subjugada a ferro e fogo, sobretudo durante a década de 1590, numa série de campanhas particularmente brutais. E sem esquecer que é também com esta rainha que a Inglaterra começa a ganhar interesse em estabelecer colónias nas Américas e a tentar alcançar a Ásia através da Rota do Cabo. E se olharmos para o panorama interno, como é que foi o reinado de Isabel I? Como é que desenvolveu a Inglaterra?
Reinou de forma mais limitada, mais reservada, como tinha feito, aliás, o seu avô, Henrique VII. Vai confiar num número muito limitado de pessoas, desde logo o Sir William Cecil, que serviu na prática quase como um primeiro-ministro. Apesar de nunca ter casado e durante décadas ter recusado sequer a que esse assunto fosse debatido publicamente, chegou a passar uma lei para proibir o Parlamento discutir as questões sucessórias.
teve sempre diversos favoritos na corte sobretudo Robert Dudley, Conde Lester que terão sido eventualmente seus amantes pelo menos é isso que as fontes vão sugerindo a ideia da reina virgem é sempre um bocadinho fantasiosa, não é? Uma ideia que a própria Isabel vai fomentando mas que na prática não é muito realista, até porque sabemos que tem muitos favoritos ao longo da vida, como é aliás natural
Numa primeira fase do seu reinado, até ali, por volta de 1580, a rainha e os seus ministros conseguem resolver os problemas financeiros do reino, mantendo-o em paz, mas, a partir dessa altura, os problemas vão aumentar, desde logo ao envolvimento em guerras contra a Espanha. Por isso, os anos finais do reinado de Isabel I são marcados por graves problemas financeiros e até alguns problemas políticos. Por exemplo, em 1601, o seu novo favorito, o Conde de Essex, vai se revoltar contra o seu governo, que é um rude golpe para a própria rainha.
E sem esquecer a velha e tradicional questão Tudor. Deixa-me outra vez adivinhar os problemas sucessórios. Pois claro. Isabel I nunca casou, nunca teve filhos, não tinha irmãos. Para quem passaria então o trono após a sua morte? É que não se podia arriscar que o novo rei, fosse ele quem fosse, destruísse tudo o que tinha sido construído durante o seu reinado. Por isso a sucessão acabou por ser negociada no único reino que dava algumas garantias de manter acesa a chama do protestantismo inglês, a Escócia.
O rei Jaime VI da Escócia descendia de Margarida Tudor, que era uma filha de Henrique VII de Inglaterra, por isso tinha alguns direitos sucessórios. Além disso, era um rei competente e, acima de tudo, era protestante, além de ter também vários filhos que garantiam a sucessão quando morresse.
Por isso, em 1603, Jaime VI da Escócia torna-se também Jaime I de Inglaterra, dando início a uma união dinástica sob a dinastia dos Stuart. Em 1603, Inglaterra deixava de ser governada por uma família de origem galesa para ser governada por uma dinastia escocesa. Os Stuart também teriam uma passagem breve para o trono inglês, mas esse é já um tema para outra altura.
E é realmente impressionante como uma dinastia que durou relativamente pouco tempo, cento e poucos anos, enfim, pouco mais na realidade do que a Guerra dos Cem Anos. Menos até. Pois, e digamos, aliás, que os Tudors são muito provavelmente a dinastia mais famosa de Inglaterra. Sem dúvida.
Há várias dinastias, como em todos os reinos, mas os Tudor continuam a ser aqueles ainda encarados como os mais interessantes para estudar, pelo menos. E o reinado de Isabel I é muitas vezes caracterizado como sendo a Idade do Ouro. Não é por causa que aqueles filmes sobre Isabel I, que saíram em finais dos anos 90, o primeiro filme chama-se precisamente Isabel, a Era Dourada.
E é realmente uma época muito interessante em Inglaterra. Enfim, William Shakespeare é precisamente este o seu período. Portanto, mesmo do ponto de vista cultural e social, é realmente muito interessante e muito popular e hoje em dia muito retratado, como acabaste de dizer, séries, filmes. Portanto, entrando-nos um pouco no que é a cultura popular inglesa disseminada pelo mundo. E quanto às sugestões de leitura, o que é que tens?
Trago dois livros e uma série. Os livros são, primeiro, The Roger Lockyer e Peter Gaunt, Tudor and Stuart Britten, 1485-1714. Portanto, a Grã-Bretanha dos Tudor e dos Stuart, 1485-1714, publicado pela Rutledge em 2019. É uma história destas dinastias, dos seus vários monarcas e dos desafios que foram enfrentando, com todas as questões políticas, religiosas, sociais e por aí fora. Portanto, foi sobretudo este livro que eu usei para este episódio e, se algum editor quiser pegar neste livro, eu julgo que ele não está de maneira nenhuma traduzido para português.
A segunda obra é um estudo mais clássico de G.R. Elton, England of the Tudors, portanto Inglaterra sobre os Tudors, publicado também pela Rutledge em 2018, mas é uma reedição de um livro originalmente dos anos 50, que foi sendo reeditado todas as décadas pelo autor, à medida que ia avançando as suas investigações, e que é também um resumo sobre esta dinastia e sobre a forma como governou a Inglaterra.
A última sugestão é um bocadinho mais ligeira, porque é a série Wolf Hall, publicada pela BBC entre 2015 e 2024, são só duas temporadas com nove anos por meio, que é baseada nos livros de ficção de Hilary Mantle, sobre o governo de Henrique VIII, e sobretudo sobre a figura de Thomas Cromwell.
este poderoso ministro deste monarca. E é uma série que se vê muito bem, muito boa, e que está historicamente muito bem conseguida, porque há grande cuidado, nesse sentido, no geral das séries da BBC, que representa muito bem estas tensões da corte de Henrique VIII, com os funcionários a ascenderem, a caírem em desgraça, os seus divórcios, as questões religiosas, está tudo muito bem explicado nesta série, portanto, recomendo vivamente.
Eu não posso excluir a possibilidade. Você diz que se eu die, ele pode colocar outra queen em meu lugar. Eu não posso imaginar alguém mais em seu lugar, sweetheart. E o que ela tem um filho? O que ela tem um filho? E o que vai acontecer com minha filha e ela? Bem, ela ainda seria a princesa de Inglaterra. E onde diz que a Spanish Mary é a bosta? Lady Mary é fora da linha de sucesso, então a diferença é clear. Por favor, o idioma.
Nós tentamos escrever a lei esparingamente para que eles não seja pessoal. Isso é pessoal.
E pronto, é tudo neste episódio 123 do nosso podcast Falando História. Já sabem que o nosso e-mail está sempre aberto, falandestoriopodcast.gmail.com para enviar qualquer sugestão ou qualquer palavra que queiram. Se querem juntar à nossa comunidade de patronos para apoiar esta nossa missão do podcast, é só juntar-se à comunidade no link do Patreon que deixamos na descrição do episódio. E, como sempre, a edição é do nosso Marco António.
Esta semana é tudo. Regressamos na próxima com uma Michelânia. Até à próxima. Até à próxima.
Falando de História.
Tenho a dizer-vos que estou um bocado desiludido convosco. Não se falou nem sequer de baterias, nem o facto de a Maria, a filha da Catarina, e não sei o que mais, e tal. Ah, fez tal, matou uns quantos, e tal. Mas nunca falaram nesse prodígio que é a invenção de uma bebida muito famosa em todo o mundo ainda hoje. Mas enfim. O Bloody Mary. Obviamente. Mas não falaram disso. Portanto, olhem, foi uma oportunidade perdida. Foi uma oportunidade. É uma vergonha.
Não nos patrocinam, não nos patrocinam É assim, patrocinem-nos E até podemos fazer os episódios alcoolizados Bloody Mary não é uma marca Não interessa, mas podemos fazer patrocinados Para um bar que nos manda Cocktails feitos O bar não me importava Portanto, estamos a aceitar patrocínios diretos, não é? Com álcool Obviamente Ou dinheiro, ou comida, ou gomas Ou seja, o que for Pronto Vá, fechem lá isso