Episódios de Pedro + Cora

Como a IA pode resolver a polarização?

07 de maio de 202623min
0:00 / 23:19

No Pedro+Cora do dia 7 de maio de 2026, os jornalistas Pedro Doria e Cora Rónai debatem se as inteligências artificiais tem capacidades de unir a população e organizar democracias. No papo, falam sobre o poder do algoritmo de recomendação das redes sociais e como podem influenciar politicamente as pessoas, o estímulo de conflito na internet e como as inteligências artificiais trabalham para melhorar a polarização.

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Participantes neste episódio6
C

Cora Rónai

HostJornalista
P

Pedro Doria

HostJornalista
Á

Álvaro Machado Dias

ConvidadoEspecialista
D

Dan Williams

ConvidadoFilósofo
J

John Bern Murdoch

ConvidadoColunista
P

Pedro Burgos

ConvidadoJornalista
Assuntos3
  • IA e polarizaçãoAlgoritmos de recomendação e conflito · LLMs e consenso · Influência política das IAs · Cansaço da polarização · Mudança no discurso político
  • Escrita e EdicaoInfluência da IA na escrita de textos · Ferramentas de detecção de IA · Uso de IA em trabalhos acadêmicos
  • Pesquisa Meio Ideia 2026Intenções de voto para presidente · Avaliação do governo Lula
Transcrição52 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Quara, Rora, de que falaremos hoje em Pedricora. De um papel inesperado da inteligência artificial, hein? E se ela consertar a democracia? Faz sentido, tá? Quara.

Eu estou mais esperançoso a respeito das democracias no Ocidente. Eu li a tua coluna. Eu estou. Pois é. É verdade que você realmente sente isso? Não, é mais do que eu sinto isso. A gente tem indícios razoáveis de que a coisa vai mudar. E o mais interessante é o seguinte, depois de eu ter publicado a coluna no Globo...

saiu na última terça, eu conversei com duas das pessoas que mais entendem de inteligência artificial que eu conheço aqui no Brasil, que são o Álvaro Machado Dias, que é colunista da Folha, que é um dos nossos grandes neurocientistas, e o Pedro Burgos, jornalista como nós, e que também é cavucador ali de inteligência artificial. E os dois concordam comigo.

Os dois acham que a coisa... Deixa eu... Explica. Deixa eu explicar aqui para o... A teoria não é minha. Pessoas apresentaram e tem gente bastante boa discutindo sobre isso. Eu descobri essa tese num texto, numa coluna do John Byrne Murdoch.

que nada tem a ver com a família Murdoch, ele só por um acaso se chama Murdoch, é Bern Murdoch, com ifenzinho. John Bern Murdoch, que é colunista do Financial Times e é possivelmente o melhor repórter de dados no mundo. O cara é sensacional. E ele cita diversas pessoas, entre elas um filósofo chamado Dan Williams, uma pessoa de filosofia.

chamada Dan Williams, da Universidade de Sussex. E aí você começa, tem um monte de gente falando isso. O ponto aqui, Cora, é o seguinte. Por que a gente se meteu num buraco? Por que a gente parou de conseguir se falar? Porque o que quebrou essencialmente nas democracias é que as pessoas começaram a ir para um lugar em que elas simplesmente odeiam quem pensa diferentemente. E mais ainda.

Acham que as pessoas que pensam diferentemente são mal intencionadas, querem o pior para o país e precisam ser excluídas do debate público. E eu não vou entrar aqui no mérito de esquerda, direita, tudo mais. As pessoas te odeiam. É, a polarização faz isso. É.

Esse tipo de polarização faz isso. E o que está no coração disso? Tem uma mudança que se dá em 2012. Primeiro no Facebook e no Twitter, e depois vai se espalhando, que é a entrada dos algoritmos de recomendação. O que é o algoritmo de recomendação? É o mecanismo dentro das redes sociais que escolhe o que você vai ver depois disso que você está vendo agora.

Vídeo, música, post, foto, não importa, texto. Todas as redes sociais têm algoritmos de recomendação. E o que os algoritmos de recomendação fazem é comparar você com todas as outras milhões de pessoas que estão naquela rede social, no Instagram, no TikTok, não importa. E ver quem são as pessoas que gostam das mesmas coisas que você sempre.

E aí vê o que aquelas pessoas estão vendo e apresenta para você. O que esses algoritmos de recomendação terminam por fazer é o seguinte. Elas descobrem que a maneira de manter as pessoas dentro da rede social é ficar estimulando o conflito. Então elas mostram para você sempre...

o olhar mais róseo do seu grupo e o olhar mais caricaturalmente nefasto do outro grupo. Então a turma da direita está vendo uma esquerda que é babaca, assim, no nível que não é a esquerda que a esquerda está vendo. E a esquerda está olhando para uma direita que é a direita mais radical. Tipo aquele conservador moderado que o pessoal diz assim, não existe mais, cadê essa direita?

E aí o que acontece? As pessoas vão ficando cada vez mais inflamadas em relação ao outro lado, que começam a prestar atenção em políticos inflamados. Por isso que os discursos mais divisivos da esquerda, que é o discurso identitário, e o discurso mais dividido da direita, que é o discurso autoritário, golpista, é a coisa que pega.

Por isso que deputado, candidato a deputado, fica fazendo live, dizendo aquele outro lado, aquelas pessoas horrorosas. E, na verdade, qualquer um de nós que tem qualquer experiência em rede social, sabe que quanto mais radical você for...

o que você escrever, mais viu vai ter. Mais viu vai ter. Mais compartilhamento vai ter, mais like vai ter. Eu poderia no Instagram, poderia ter duas vezes o que eu tenho. Todos nós poderíamos. De seguidores, o que segura a gente é porque a gente tem uma certa decência inata de não... É, bem, não sei se inata, eu acho que é cultivada. Ou cultivada, ou até... Talvez a gente só tenha um super ego, um super desenvolvido. Talvez.

Mas o fato é que, a essa altura do campeonato, a gente sabe o que vai chamar a atenção e o que não vai. É isso. Uma foto do Toró. Costuma ter muitos seguidores e as pessoas adoram o Toró e tal. Mas, ok, fica ali dentro do limite da minha...

Dos meus seguidores e tal. Basta eu escrever alguma coisa sobre política e basta eu escrever alguma coisa com raiva, porque a raiva transparece, com quanto mais raiva eu escrevo, mais o troço sai da minha bolha. Agora, isso é da natureza do tipo de aprendizado de máquina, do tipo de machine learning usado no algoritmo de recomendação. Isso é da natureza daquela tecnologia.

tecnologias são, entre aspas, neutras. Elas são o que elas são. No sentido de que você usa aquela característica daquele tipo de algoritmo, ele vai responder daquele jeito sempre. Large Language Models, que é também um tipo de inteligência artificial, mas um tipo de inteligência artificial bastante mais sofisticada, os LLMs, que são a IA, que está ali nos...

Nesses chats de inteligência artificial, no chat GPT, no Cloud, no Gemini, no Grock, Deepseek, Llamour, não importa. Meta AI, né? Todos esses LLMs, eles têm uma característica muito diferente que é o seguinte. Eles pegam aquela massa de textos, né? 60 mil anos de texto que você leria. Treina com aquele negócio.

E aí depois de você treinar com aquele negócio, você produz um mecanismo ali de produzir respostas, que é aquela caixa preta das inteligências oficiais, que vai sempre para a mediana. Ele vai sempre buscar o que é consensual. Ele pega as 300 milhões de informações sobre um determinado assunto e ele vai buscar o que é mais comum.

o que é consenso, o que é mais moderado, o que está mais no centro. Então, conforme a gente vai se informando mais com IAs, o que tende a acontecer é a gente ter respostas, assim como você está falando que você sabe exatamente como é que se comporta.

uma rede social, você sabe que tipo de tom você tem que dar pro post pra ele viralizar, você também sabe, quando você conversa e por você ter experiência com um chat de inteligência artificial, de qualquer raça, entendeu? De qualquer um deles. Todos são sempre aquela coisa...

Não é bem assim. Exatamente. Não fiz isso por outro lado. Olha, e eu tive essa experiência. É verdade, esse negócio que você está dizendo. Porque o que me aconteceu essa semana, semana passada, sei lá. Eu escrevi um post que deu muita confusão, porque era um post sobre STF, Bessias e resposta a isso. Enfim, estava o fordunço armado.

Eu, sem tempo de responder a tudo, mas tinha umas respostas muito imbecis. E aí eu peguei uma dessas respostas e estava sem tempo de responder aquilo, não queria gastar meu tempo com aquela pessoa, joguei para o chat PT e digo, destrói esse animal. Aí o chat PT me disse, se você chegar desse jeito, você não vai conseguir um diálogo. Não é assim, eu não estou te pedindo um diálogo.

Ele foi incapaz. Aí eu resolvi ir para o Grock, porque eu digo, não, o Grock vai resolver meu problema. Cheguei no Grock, digo, o Grock destrói esse animal para mim. O Grock foi mais gentil do que o chato EPT. O Elon Musk deve olhar para o Grock assim, não foi para isso que você... Não, é uma decepção para o pai dele, porque o Grock é muito sensato.

Resultado, eu não consegui que nenhuma inteligência artificial detonasse aquele animal para mim. Então eu detonei-o com as minhas próprias palavras, bloqueio e pronto, acabou. Teve que fazer o trabalho, né? Eu tive que fazer o trabalho sujo, mas, aliás, não experimentei com o Deep Seek. Da próxima vez eu vou experimentar. Não vai adiantar, porque é da natureza da tecnologia, de novo.

A natureza dos algoritmos de recomendação é essa, de procurar a aresta, de procurar a briga, de procurar o time vermelho contra o time amarelo. É de confronto. A natureza do LLM, do modelo de linguagem de grande porte, é o contrário. A natureza é você...

Cara, é você encontrar os pontos de encontro. É você favorecer o consenso. No fim das contas, a gente está falando de uma máquina de gerar dissenso e de uma máquina de favorecer consenso. Sim. E aí, qual é a tese aqui? A partir desse negócio. Hoje, de 2012 para cá, tem uns 15 anos,

14, 15 anos, a gente entrou num mundo político que é um mundo no qual a maior parte da informação que as pessoas têm sobre política vem das redes sociais, portanto mediadas por algoritmos de recomendação. O que está começando a acontecer no mundo? Cada vez mais quando as pessoas encontram uma informação e querem entender melhor aquilo, me ajuda aqui, o que as pessoas fazem com essa informação?

jogam num chat de inteligência artificial e perguntam isso aqui é verdade, isso aqui não é verdade é isso mesmo é isso mesmo então o que acontece? quanto mais gente começar a fazer isso faz todo sentido aí talvez essa eleição de agora aqui no Brasil seja a última eleição da pancadaria

E talvez, eu desconfio, seja uma eleição em que os panos quentes começam a ser postos, mas ainda não é gente o suficiente que está usando IA. Eu acho que daqui a quatro anos, 2030, é muito maior e muito mais relevante do que a rede social. Não é que a rede social vai deixar de existir. É só que a rede social vai ser inteiramente mediada por inteligência artificial, não mais por algoritmo de recomendação. E vai ser muito curioso.

ver como é que a rede social vai reagir a essa entrada da inteligência artificial. Veja, tudo isso, evidentemente, é a gente tentando entender o que está acontecendo, quais são os efeitos que cada uma dessas tecnologias...

tem sobre a maneira como a gente pensa. Mas eu acho, eu saí muito convencido da ideia de que, caramba, a coisa pode ficar melhor. E você sabe, eu acho que isso também tem um outro detalhe que se junta aí, é que eu acho que as pessoas estão começando a ficar cansadas da polarização.

porque ninguém aguenta ficar num estado de raiva e de excitação 24 horas por dia, durante não sei quantas semanas, meses e anos. Insuportável. Talvez as pessoas estejam também começando a entender por conta própria que esse tipo de atitude violenta que mata o diálogo de saída...

talvez não seja a forma mais sensata ou civilizada de conversar ou de discutir. Sei lá, pode ser. Mas a coisa da inteligência artificial, você tem toda a razão, porque eles não fazem coisa irritada. Eu acho que talvez a primeira eleição que...

que demonstra essa mudança, talvez seja, tipo, o mundo olhando, talvez seja a eleição americana de 2027. Desculpa, de 2028. Porque, não, de 2027, em novembro, vai ter uma eleição americana e lá a adoção dessas ferramentas já é muito maior. Sim. Então, é possível que a gente já veja esse trampismo.

entrando em decadência. Eu não sei quem são os candidatos à presidência que crescem pelo partido americano a partir daí. O Partido Democrata está um bocado perdido. Mas eu acho que a gente vai ter um gosto disso lá. E mesmo se você olhar aqui para o Brasil, talvez já tenha um cheirinho disso.

Eu sinto que... Você vê, a gente não tem mais na direita nenhum candidato que berre mais. A gente tinha. Os candidatos berravam na direita. Até o Flávio Bolsonaro está vestindo a fantasia. Eu não sei. Eu tenho visto esses caras. A candidata à presidência, não. Não, presidência, não. Candidata à presidência, não. Não, deputado só tem. Pois é. Deputado só tem.

Mas mesmo o Flávio Bolsonaro... Ele quer bancar o moderado. Mas não é só que ele está querendo bancar o moderado. Ele está querendo bancar o moderado, mas ele não está querendo bancar o moderado porque ele é bonzinho. Ele está bancando o moderado porque o marqueteiro dele se vira para ele e fala, olha, não dá mais para você ganhar essa eleição.

Vestindo a fantasia do seu pai. Então você tem que vestir a fantasia de Bolsonaro moderado e Bolsonaro vacinado. O que não existe. Ah, não, tudo bem. É um unicórnio, é uma besta mitológica. Tudo bem, mas o ponto é...

Mas é isso, é verdade. A razão pela qual ele tem que vestir essa fantasia para ganhar a eleição, e pode ser que ganhe a eleição, eu acho que é razoável, bastante razoável a possibilidade que ele vença essa eleição, se ele fizer isso, agora, é porque o tempo já mudou um pouquinho. É verdade. E talvez o tempo já tenha mudado um pouquinho, porque esse pedaço...

já está começando a ter um desbalanço de a maneira como as pessoas pensam sobre política. É verdade, porque a gente se deixa influenciar. Claro.

pelas coisas que a gente lê, pelas coisas que a gente assiste. Imagina pela inteligência artificial que a gente usa 24 horas por dia, porque esse é um caminho mais ou menos sem volta. Quando você começa a usar inteligência artificial, até a ração do gato você discute com a inteligência artificial. É inacreditável, né? Tudo. É impressionante. E sabe o que eu estou percebendo? Que as pessoas estão começando a se influenciar na escrita.

Quer dizer, textos que eu sei que não foram escritos por inteligência artificial, estão começando a ficar parecidos com textos de inteligência artificial, porque as pessoas estão se treinando com aquela lógica do chat EPT. Ah, interessante. Mas não pessoas que escrevem profissionalmente? Não, pessoas que escrevem no Facebook textos das pessoas, mas pessoas que eu sei que não usaram. E eu ainda tenho um jogo de ferramentas para detectar.

se o texto tem inteligência artificial ou não, porque eu estou meio que achando engraçado checar isso, quanto tem de inteligência artificial, para até checar o meu próprio ouvido em relação a isso. E tem pessoas que escrevem bem, mas que estão usando a mesma estrutura que o chatbete usa. É possível, porque vai treinando a cabeça, e se você não tem...

Se você não tem um estilo próprio de fato desenvolvido, que é um troço que acontece ao longo dos anos... Isso molda. Isso vai moldando, claro. Agora, essas ferramentas de detecção também são muito engraçadas, porque às vezes você pega um texto, inteligência artificial. Ele nunca me disse que um texto escrito por pessoa fosse de inteligência artificial. Mas às vezes eu pego um texto que me parece muito bom.

me parece muito humano. Jogo lá, não tem travessão, não tem dois pontos, não tem aquelas repetições de três vezes, isso, aquilo, e aquilo, etc. Essas coisas que costumavam ser a boa escrita antigamente, e eu jogo e ele diz inteligência artificial. E eu vou tentar checar se aquilo é inteligência artificial ou não, checo nos outros, checo no Google e ele diz inteligência artificial.

Uma coisa que eu não percebi. Eu vou fazer a experiência. Faz a experiência para você ver. É muito interessante e começa a prestar atenção. É que você não frequenta Facebook. Facebook é tão útil para isso. Juro. Porque no Facebook é que as pessoas postam textos maiores. LinkedIn também. Pois é, LinkedIn é um acesso. LinkedIn é um festival de inteligência artificial.

E o Facebook também. Mas tem aqueles pontos que eu sei que não é inteligência artificial. E é engraçado, quando foi escrito por gente, não passa. Mas quando é inteligência artificial, ele captura. E só vou finalizar com uma coisa. Eu tenho um amigo que é professor de regência.

e ele estava pensando se ele vai deixar os alunos usarem a inteligência artificial. Usa o que quiser de inteligência artificial, mas ele quer o Promet. É que interessante. Interessante.

Adorei isso. Porque ele, na verdade, assim, ele mede o conhecimento e a compreensão que o aluno traz para aquela conversa. Exatamente. É, faz todo sentido. Achei perfeito, é isso mesmo. É, faz todo sentido. Quora, terça-feira? Terça-feira, com certeza. Até terça-feira.

A gente passa a semana aqui analisando política, mas olha, tudo isso parte de algum lugar. Os dados. E nós acabamos de publicar a nova rodada da pesquisa Meio Ideia 2026 para você entender as intenções de votos para presidente. É ela que mostra como o governo Lula está sendo avaliado agora e a opinião dos eleitores sobre os fatos da atualidade. Essa pesquisa é sua, para você entender, debater e compartilhar com base em fatos e números, não suposições e narrativos. Os assinantes Premium recebem em primeira mão...

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