A voz da mãe permanece
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Há quem diga que mãe é “amor incondicional”. Outros preferem chamá-la de “guerreira”, “rainha do lar”, “porto seguro”. São expressões tão repetidas que já chegam prontas, dessas que parecem até mensagens automáticas de aplicativos que a pessoa encaminha sem nem ler direito.
Mas na vida real, mãe é aquela presença que se infiltra nos detalhes mais improváveis da memória. Ouça nossa crônica falada sobre o Dia das Mães, comemorado neste domingo (10).
Marcos Niemeyer
Carolina Julião
- Paternidade e MaternidadeAmor incondicional e figuras maternas · Presença materna nos detalhes da memória · Mães silenciosas e expansivas · Maternidade como permanência · A voz da mãe na ausência
- Desafios da MaternidadeMães que protegem demais · Mães que endurecem para sobreviver · Mães que viraram pais · Mães que foram embora cedo · Maternidade aprendida sem laço de sangue
- Dia da MãeMães também sentem medo e fracassam · O poder do colo materno · A busca por equilíbrio e coragem
- Dia das MãesSentimentos no Dia das Mães · A marca invisível deixada pelas mães
Podcast Bons Papos Com Marcos Nima
Há quem diga que mãe é amor incondicional. Outros preferem chamá-la de guerreira, rainha do lar, porto seguro. São expressões tão repetidas que já chegam prontas, embaladas como mensagem automática de aplicativo, dessas que a pessoa encaminha sem nem ler direito. Mas mãe na vida real quase nunca é dessa forma.
Mãe é aquela presença que se infiltra nos detalhes mais improváveis da memória. Às vezes, ela reaparece no jeito de dobrar uma toalha, numa bronca atravessada pela cozinha, num café passado mais forte do que deveria, ou naquela insistência para o filho levar um casaco, porque já é tarde e está esfriando.
A gente passa metade da vida tentando escapar das manias da mãe. E a outra metade percebendo o assustado que herdou quase todas. Tem mãe silenciosa, essas que amam sem alarde, como quem rega planta ao amanhecer, sem esperar flor no mesmo dia. Tem mãe expansiva, que fala alto, ri alto, sofre alto e transforma qualquer almoço simples em reunião de condomínio emocional.
Tem aquela mãe que protege demais, né gente? Tem mãe que endurece porque a vida não lhe ofereceu outra forma de sobreviver.
Tem mãe que virou pai junto. Tem mãe que foi embora cedo demais. E há também quem tem aprendido a chamar de mãe alguém que a vida colocou no caminho, sem laço de sangue algum. Porque maternidade talvez seja menos um título e mais uma permanência. Quando a infância acaba, a gente descobre uma coisa desconfortável.
Mãe também sente medo, também cansa, também fracassa. Também passa noites em claro, tentando parecer forte, enquanto o mundo lhe cobra equilíbrio, paciência e coragem em prestações intermináveis. Talvez por isso o colo da mãe seja tão poderoso, tão confortável. É não porque ela tenha todas as respostas, mas justamente porque, mesmo perdida.
tenta nos convencer de que o mundo ainda pode dar certo. E quase sempre consegue. No dia das mães, enquanto as vitrines distribuem corações vermelhos e os comerciais inventam famílias de propaganda de margarina, muita gente sente saudade. Outros sentem culpa. Alguns sentem um vazio imenso. A grande realidade é que nem toda relação entre mãe e filho é simples.
E reconhecer isso também é uma forma de honestidade. Mas existe algo na trajetória de praticamente todas essas histórias. A marca invisível que uma mãe deixa no tempo.
Há frases dela que continuam vindo a todo momento. A gente escuta a todo momento, estamos escutando a voz da mãe. Há frases dela que continuam nos nossos ouvidos. Há gestos que sobrevivem mesmo quando a casa muda. A voz desaparece e a fotografia amarela na parede. Mãe tem disso, consegue permanecer até na ausência.
E talvez seja exatamente aí que mora sua grandeza mais humana. Não na perfeição que inventaram para ela, mas na capacidade misteriosa de continuar habitando a vida da gente, mesmo quando já não está mais sentada à mesa.
Neste domingo, 10 de maio, Dia das Mães, a nossa homenagem a todas as mamães do Brasil e do mundo. E para aquelas que decidiram partir antes de nós, que merecidamente já descansam na eternidade a nossa saudade eterna.
O podcast Bons Papos tem produção de Carolina Julião, apresentação Marcos Niemeyer.