#716 - HAMNET: Shakespeare e o luto - Kelly Aguiar da Nova Acrópole
O luto precisa ser vivido. Não porque ele ensina algo necessariamente, mas porque ele precisa atravessar o corpo e a consciência.
E a arte, nesse caminho, não é fuga — é companhia.
Ela não nos poupa da dor. Mas nos impede de sofrer de forma bruta, muda e desordenada.
Ela nos dá palavras, imagens, sons — para que possamos, pouco a pouco,
reconhecer o que sentimos e permanecer de pé diante disso.
A professora e voluntária de Nova Acrópole, Kelly Aguiar, comenta o filme HAMNET e tece comentários filosóficos sobre a delicada questão do luto.
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Paulo Tarcísio
Kelly Aguiar
- A experiência temporal durante o lutoPercepção do tempo no luto · Ruptura do logos · Catarse e luto · Significado da morte · Conexão após a morte · Papel da arte no luto
- Vida e biografia de William ShakespeareHistória de Shakespeare · Obras de Shakespeare · Família de Shakespeare
- Filme HamnetAdaptação cinematográfica · Recepção do filme
Shakespeare teria escrito, então, a obra Hamlet para elaborar um luto por causa da perda de um filho? Se você foi ao cinema recentemente e assistiu a obra Hamlet, você pode estar dentro daquele grupo que amou o filme ou dentro daquele grupo que odiou a obra. Independentemente se você gostou ou odiou o filme, fica aqui comigo nesse vídeo, porque nós vamos falar de duas coisas muito interessantes, a vida de Shakespeare e a experiência do luto.
Em 2020, a escritora irlandesa, britânica, Maggie O'Farrell, ela escreve uma obra chamada Hamnett. E mais tarde ela vai adaptar essa obra para o cinema numa cocriação com a diretora Chloe Zhao, uma chinesa também bastante premiada.
Essa obra, Hamnett, trata da vida conjugal de Shakespeare, sua esposa, Agnes, ou Anne Hathaway. Fala sobre como, no decorrer da vida deles de casal, eles passam por uma grande perda. Ele tem um filho chamado Hamnett, que falece aos 11 anos. E a obra também sugere que, mais tarde, Shakespeare teria escrito a obra Hamnett.
numa tentativa de elaborar esse luto pela perda do filho. Um ponto importante da gente considerar aqui é que esse é um drama de época, mas não é uma adaptação, ou seja, essa obra não pretende em nenhum momento pegar as obras de Shakespeare Hamlet, por exemplo, que aqui é a obra em questão, e recriar essa obra de forma nenhuma. E a gente poderia muito bem dizer que essa é uma obra que tem muito mais de cinemática do que de shakespeariano, ou seja...
Muito mais a gente vai ver um trabalho, um esforço de construir um filme com todos os elementos que um grande filme precisa ter do que um esforço de trazer a vida e a obra de Shakespeare. E o que eu queria começar pontuando aqui é que isso em si não é bom nem mal. Então isso não tem um significado em si, a obra não é maior ou menor por conta disso.
E aqui então, nesse nosso bate-papo, nós vamos ter dois momentos. Numa primeira parte, nós vamos falar um pouquinho sobre a vida de Shakespeare. A ideia é o que é verdade e o que não é lá naquele roteiro. O que daquilo ali realmente desrespeita a vida e a obra de Shakespeare e o que não desrespeita. E na segunda parte, aqui desse nosso bate-papo, nós vamos falar sobre a experiência do luto.
inspirados aí nas lições, nas reflexões que o filme nos inspira. Então vamos lá entrar na nossa primeira parte desse bate-papo, em que a gente vai falar sobre a vida de Shakespeare. O que afinal de contas ali naquele roteiro é real ou não?
Então, a primeira coisa que precisa ser dita é que a gente sabe muito pouco sobre a vida de Shakespeare. Shakespeare teria nascido em 1564, morre em 1616, e isso é um fato concreto. Por que a gente sabe disso? Porque a gente tem os documentos, tanto do batismo quanto do funeral dele. Então, isso é um elemento histórico de que Shakespeare realmente viveu ali na corte isabelina, dentro desse cenário do renascimento inglês.
Não sabemos ainda que Shakespeare foi um ator que teve proteção real. Então Shakespeare teria vivido e trabalhado e atuado, teria sido inclusive sócio de uma grande companhia de teatro da época, a maior companhia de teatro da época, chamada The Chamberless Man.
era a companhia em que o Lord Chamberlain patrocinava esse grupo de atores e que juntos faziam muitas coisas, como, por exemplo, construíram juntos o The Globe, que é o teatro que a gente vê na cena final do filme. Aquele teatro existe, Shakespeare participou da construção dele, Shakespeare atuou naquele teatro, e o filme também tem essa cena final gravada lá.
E então a gente sabe dessa proteção real. Inclusive quando a rainha morre e o rei James assume, o que vai acontecer é que o nome da companhia inclusive muda. Eles vão ser conhecidos como Kingsmen, então eles são os homens do rei. Mas é uma companhia conhecida, existem aí os documentos de que ele teria participado disso e teria essa proteção real.
Outra coisa que a gente sabe também, que é histórico, é que Shakespeare compôs, foi autor de muitas obras, mais de 30 obras, estima-se que entre 36 e 38 obras. Essas obras, parte delas, metade disso, ele em vida conseguiu publicar, estrear.
Mas a metade não. Sete anos depois da morte dele, um grupo de amigos faz uma grande coletânea que é chamada The First Folio, que é como se fosse a grande coletânea da vida dele. Dezoito grandes manuscritos foram incluídos nessa coleção. E se hoje a gente tem obras como Júlio César, Macbeth...
e outras é graças a esse esforço de fazer essa coletânea. Hoje a gente tem 230 cópias do First Folio no mundo que estão espalhadas em coleções, bibliotecas nacionais, museus, e que, ou seja, a gente tem uma certeza histórica do que ele produz, do que ele produziu, qual foi o resultado da vida dele em obras de arte, isso é uma coisa que a gente tem um registro claro objetivo. A gente sabe também que Shakespeare foi próspero em vida.
Porque foi encontrado no nome dele, por exemplo, propriedades como a própria New Place, que é aquela grande casa que aparece no filme, em que eles compram lá na segunda metade do filme, que era a maior propriedade da Redondeza. Também é tido no nome dele outras propriedades. Ele tinha participações na companhia. Então se sabe que foi uma pessoa que tinha certas condições. Isso que a gente vê no filme, de toda aquela miséria ali no início, já é toda uma licença poética. A gente sabe que não foi bem assim.
Ou seja, a gente sabe um pouquinho como era a forma de trabalho do Shakespeare, a gente sabe um pouquinho de como ele viveu, mas a gente sabe quase nada da vida pessoal dele. E o que é um grande paradoxo, talvez um dos homens que mais tenha comunicado sobre a vida interior, sobre o que existe dentro de um ser humano.
talvez tenha sido um homem que menos tenha se mostrado, porque realmente a gente não sabe nada. A gente sabe o nome dos seus pais, a gente sabe a cidade que ele nasceu, quando ele nasceu, quando ele morreu. A gente sabe que ele foi casado com uma mulher aos 18 anos, chamada Annie Hathaway, que ele teve três filhos.
Tem uma especulação se o primeiro desses filhos realmente era dele ou se ele já casa com ela grávida. E a gente sabe que o filho mais novo era chamado de Hamnett e que esse menino morre aos 11 anos. Então isso é o que é histórico da obra. Agora a gente não sabe como Shakespeare foi formado, a formação dele a gente desconhece, a gente não conhece as crenças. A gente não sabe no que ele acreditava, a gente não tem nenhuma outra informação como era o método...
de criação dele, como ele criava, como essas peças, quais eram as motivações dele para fazer todas as peças. Nada disso a gente tem, de fato, uma história, uma informação acerca de nada disso. Tudo mais são especulações. Então, é importante a gente entender que o que Megio Farrell faz é uma obra de ficção. Ela mesmo, quando chega no final do livro, Haminate, ela fala, como se sabe pouco, sobre a vida...
de Hamlet, essa criança, e dos seus pais, Anne e Shakespeare. Como são poucos os fatos, como é escasso. Então é muito importante que a gente olhe para o filme e entenda que a gente está vendo uma obra de ficção. Porque nós não temos essa informação, nós não sabemos se Shakespeare vivia bem com a família, como ele era com os filhos, se ele passava pouco tempo ou muito tempo fora, que viagens ele fez. Tudo aquilo é uma grande ficção. Tem um grande especialista na obra de Shakespeare, que é um professor de Yale.
um professor de língua inglesa muito renomado, chamado Castan, David Scott Castan, que ele faz um comentário acerca do nome da esposa de Shakespeare. Porque, como nós falamos, é tido o nome dela como conhece-se o nome dela por Anne Hathaway.
E o que ele vai dizer, o que esse professor vai dizer, o que Kastam vai dizer, é que, na verdade, todas as documentações usam esse nome, chamam ela de Annie, com exceção de uma, que é o testamento, em que o pai vai chamá-la de Agnes. Então, a teoria de Kastam é que o nome da personagem, o nome da esposa de Shakespeare, de fato, seja Agnes, é o nome que está no testamento. E que as pessoas comumente a chamavam de Annie. É a teoria dele.
E uma coisa relevante é que O'Farrell, a autora de Haminate, ela diz uma coisa, ela fala assim, olha, quem mais pode dizer o nome de uma pessoa é o próprio pai. Então se o pai chama ela de Agnes, nós vamos chamar ela de Agnes. O nome da personagem é Agnes. E assim ela defende o nome. O'Farrell também vai falar muito sobre como ela compôs a personalidade dessa personagem, Annie.
Nós vimos que é uma mulher que anda em contato com a natureza, é uma mulher muito enérgica. De onde ela tirou essa mulher? Que personalidade é essa? E aí ela fala do método criativo dela. Ela diz que ela começou a reler as obras de Shakespeare tentando encontrar a esposa dele nas obras.
Então, uma experiência completamente pessoal, subjetiva, em que ela vai lendo as obras e ela vai deduzindo aonde ela acha que essa esposa está. E assim a gente vai ver um pouco da Ophelia e tantas outras mulheres de Shakespeare na figura dessa Anne Hathaway. E também a gente vai, no caso da personagem Agnes, na verdade, né? E, na verdade, ela vai fazer isso não só com Agnes. Ela mesmo fala, né? Ophelia vai falar como ela vê tanto de Hamlet em Hamlet.
Então, não só ela, mas algumas outras pessoas fazem essa relação. De como esse Hamlet vai nascer lá na frente com as características desse Hamlet, desse filho. Com os padrões físicos parecidos, com as características, com os gostos dessa criança. Muitas pessoas vão defender isso. Mas Castan, aquele professor que eu citei agora há pouco, se formou muito lúcida, sempre lembra que tudo isso são especulações.
Então, todas essas transferências que a gente gosta de fazer, e é tão tentador construir uma história tão interessante, tão mágica, com todas essas motivações tão amarradas, com todas essas conexões tão fechadinhas, é muito tentador de fazer isso. Mas a gente não pode esquecer que a gente está falando de uma obra de ficção e que tudo isso é uma especulação.
Então, com isso, a gente pode fechar essa primeira parte. E assim a gente entende, então, o que do filme é real e o que não é. Então, a gente sabe que aquele teatro em que a peça aconteceu, a gente sabe que o nome dos personagens, enfim, algumas coisas dessa dinâmica familiar estão ali presentes. Alguns detalhes, já no momento tardio, elementos interessantes, como, por exemplo, no filme, quando...
Shakespeare vai estrelar Hamlet, ele ocupa o papel do pai, ele representa o pai de Hamlet na obra. E há alguns estudiosos que defendem isso, que...
Shakespeare, quando vivo, encenava que ele vivenciava esse personagem do pai de Hamlet. Então, alguns elementos que são históricos, ou provavelmente históricos, ou versões conhecidas dessa história, vão estar presentes nessa obra. Mas a gente está falando de uma grande obra de ficção.
Agora nessa segunda parte, o que eu vou fazer é ignorar essas questões todas relacionadas com a veracidade da obra. Eu vou desfazer todas essas considerações, isolar todos esses fatos. E eu vou focar no filme Hominet, como ele foi feito. Como uma criação original, como uma obra de arte que tem começo, meio e fim, que transmite uma mensagem. Vou falar um pouquinho da mensagem principal que esse filme traz, que é sobre o luto. Eu vou dividir essa nossa segunda parte em cinco pontos.
Cinco são os elementos que eu queria comentar com vocês. O primeiro deles é sobre o tempo, a experiência temporal em Hamnett, a experiência de como o tempo corre na obra Hamnett, que é uma coisa muito interessante do ponto de vista do luto.
Muitas pessoas enlutadas fazem esse mesmo relato, vivem essa mesma experiência. Então imagina que nós estamos aqui vivendo a vida, eu acordo de manhã, me ajeito, tomo café, vou trabalhar, faço minhas coisas. As pessoas que estão aqui ao meu redor estão fazendo as coisas, um sai para estudar, o outro foi não sei aonde na feira. E a vida está acontecendo, o mundo está rodando. De repente falta uma pessoa importante para nós. De repente uma perda significativa acontece.
E aí? Essa sensação de que parece que as pessoas continuam indo fazer suas coisas, parece que o mundo continua rodando, mas parece que o nosso coração está suspenso. Essa experiência muito profunda na nossa relação com o tempo que o luto traz, de que a gente percebe claramente, sem teorias, de que o tempo pode ser vivido em muitas dimensões diferentes.
Às vezes a gente está no dia a dia numa correria danada, numa tensão, numa ansiedade, e parece que essa é a única forma que eu posso viver, porque afinal de contas, eu tenho muita coisa para fazer. E o luto nos coloca nesse lugar. De inclusive poder perceber que isso é uma escolha, de estar na vida naquela correria daquela forma. Eu posso ter muita coisa para fazer, fazer o que eu preciso fazer, mas não estar naquela experiência psicológica da correria, que é o que acontece com o luto.
Então a gente continua dormindo, acordando, eu tomo banho, eu vou no trabalho, mas parece que o tempo está suspenso. Eu sento aqui, eu janto, eu converso com as pessoas, mas parece que o tempo está suspenso, parece que está vazio, parece que tem algo no tempo e no espaço que está diferente. Essa é uma experiência que muitas pessoas enlutadas relatam, de que a percepção do tempo durante o luto
Muda completamente. E é uma coisa forte que a gente vê no filme, né? De quando o luto acontece e de como parece que ela sai do ar. De como parece que tudo fica diferente, como é difícil se adequar no tempo e no espaço. O segundo elemento que a gente vai abordar é sobre a ruptura do logos. O que eu quero dizer com isso?
Quando nós vamos vivendo as nossas vidas, nós olhamos para o mundo e nós observamos uma lógica. Tem uma ordem que as coisas acontecem, tem uma inteligência por trás das coisas. Então, por exemplo, se eu tenho aqui um objeto na mão e eu jogo ele para cima, nessas condições de temperatura e pressão, ele vai cair. Eu tenho certeza disso, que ele vai cair.
E tudo isso, e essa experiência, essa certeza, essa percepção de que a natureza, o mundo é coerente, de que a vida é coerente, é muito importante para nós. Isso é muito estabilizante do ponto de vista psicológico. Mas quando alguma coisa acontece na nossa vida, em que essa lógica é quebrada,
em que esse logos, essa inteligência, essa razão se perde, e a gente começa a olhar o mundo como uma coisa incoerente, o choque que a gente recebe é muito grande. E a gente vê isso acontecer na obra, porque a obra mostra um pai e uma mãe que não só estão sentindo a dor de uma perda de uma pessoa querida, mas que eles estão sofrendo esse impacto desse choque.
Porque a expectativa que a gente tem da vida de um ser vivo é que ele nasce, cresce, desenvolve, envelhece, morre. A gente tem essa expectativa da vida, do ciclo da vida. Quando acontece o contrário, nasceu uma criança, começa a se desenvolver e morre.
Esse choque é muito grande, que é o mesmo choque, por exemplo, que uma pessoa sofre psicologicamente quando ela sofre uma violência dentro da família dela. Porque a expectativa que a gente tem é de que a família é o lar, de que a família é o lugar do aconchego, é o lugar da proteção. Quando essa ordem é quebrada, não é só a dor da violência, tem esse desajuste psicológico.
É o que acontece quando uma pessoa que é má se dá bem, ou quando uma pessoa boa aos nossos olhos se deu mal. Quando essa ordem, por algum motivo, ela é quebrada, é assim que a gente se sente. Tenho duas experiências para lidar. Eu tenho a dor da perda, mas eu tenho o choque.
E o luto, quando ele é nesses termos, ele não é só uma experiência afetiva e emocional, mas ele acaba também sendo uma experiência ontológica. É como é que eu refaço essa ordem, é como é que eu reconstruo isso dentro de mim. E a gente conhece alguns casos muito especiais de como isso é feito.
Eu morei muitos anos em Fortaleza e lá tinha um instituto maravilhoso, um lugar chamado Bia Dott. Então a Bia era uma menina, uma menina, uma adolescente, que passou por essa experiência tão marcante do suicídio. E você imagina então que Bia Dott é um instituto que a mãe da Bia constrói.
Então você imagina que essa mãe que está diante da dor dessa perda e que está precisando refazer essa ordem na cabeça dela, reorganizar tudo isso na cabeça dela. Imagina agora que essa é uma mãe que sai pelos quatro cantos aí do mundo ajudando outras famílias nessa situação.
Então foi a forma que ela encontrou de reconstruir essa ordem. Então se os jovens estão tirando a própria vida, ou seja, ao invés de estar se lançando na vida, se é isso que eles estão fazendo, ou seja, se eu percebo que o mundo perdeu essa ordem, como é que eu faço agora para devolver essa ordem para o mundo? É muito bonito. Tudo que sai do instituto, todos os passos, as ações são tão bonitas. São tão cheios de verdade, de vida, e como já salvaram tantas vidas, e como fazem tanta diferença.
Por isso, porque se sujeitaram a viver essa experiência de reconstruir essa ordem. Isso é muito importante nesses processos. O terceiro ponto que a gente não pode deixar de falar é sobre a experiência da catarse.
Então, o que acontece? Aristóteles, que foi um grande estudioso da tragédia, ele vai dizer que a função da tragédia é a catarse. Então, Macbeth foi feita com essa função, promover a catarse. Se a gente parte do princípio que é uma obra escrita no Renascimento, ou seja, nesse momento em que o espírito das obras clássicas, da arte clássica, da cultura clássica está sendo resgatada. Então, a gente poderia dizer que Hamlet foi feito com essa função da catarse. Macbeth, Otelo, foram...
obras feitas com esse intuito da catarse. O que é a catarse em si? Na definição de Aristóteles, é quando esse grande pavor, essa grande dor, essa grande experiência tão marcante, ela vem, eu passo por ela e essa dor vai me purificando, ela vai me limpando, ela vai me construindo e eu saio lá do outro lado melhor.
Então, na definição de Aristóteles, a catarse é esse processo que acontece na tragédia. É como eu saio melhor lá do outro lado porque uma dor aconteceu. Então, é como a Dinamarca agora é um lugar de mais justiça, porque todo aquele sangue foi derramado lá em Hamlet. É sobre como as famílias agora...
de Romeu e Julieta, estão em paz, como a Veneza está em paz depois de toda desgraça. É isso. É essa transformação. Na tragédia, a dor nunca é gratuita. Ninguém sofre por sofrer. A dor tem uma finalidade, que é essa alquimia, essa transformação dos personagens ou do contexto. Mas alguma transformação está sendo conquistada.
E uma coisa importante é que diferente da peça Hamlet, em que a catarse existe, na obra Hamlet não existe catarse. Mas oferece uma reflexão muito profunda sobre como se elaborar esse luto. Porque em Hamlet a dor não é resolvida. A dor não se apaziga. A dor continua existindo. A dor não é superada.
Essa é a palavra. Não existe uma superação da dor. Eu aprendo a viver, a continuar sendo eu mesmo com essa dor. Então eu elaboro no nível, mas eu não supero aquela condição. E aqui tem uma coisa muito importante pra gente refletir sobre isso, porque nessa tentativa às vezes da gente dar significado,
à morte, ao luto, a gente corre riscos de prolongar o sofrimento e de chegar em lugares que não são muito legais. Uma coisa é dar significado para a morte. Isso é importante, necessário. Outra coisa diferente disso é o querer justificar a perda. Então, significar a morte é a experiência mais filosófica que existe. Todo ser humano em algum momento vai ter que passar por isso.
significar a morte talvez seja a experiência mais profunda que um ser humano vai viver em toda a vida, mas que ele vai ter que fazer isso, que é esse momento em que a gente filosofa a morte, no sentido mais profundo da palavra, ou seja, em que eu busco uma sabedoria acerca disso.
O que é morrer? Por que morremos? Então, onde chegam essas reflexões profundas de que a morte chega para todos nós, de que por mais que a gente esteja aqui nesse momento, vestindo esse corpo, daqui a pouco não vai estar mais, que isso não é o mais importante. Enfim, todas as reflexões acerca da morte. Dar significado para a morte é muito importante. Isso sim pacifica o nosso coração, nos ajuda a dignificar a experiência do luto.
nos ajuda a processar a experiência do luto. Isso é muito importante. Agora, muito diferente disso, é o querer justificar a perda. Querer justificar a perda é assim. Ah, mas eu... Será que eu fiz tudo o que eu podia ter feito? Será que tem algo que se eu tivesse feito, a morte não teria acontecido? Será que aquele médico fez certo?
Será que se eu não tivesse deixado a pessoa entrar naquele carro, ou seja, eu começo a tentar justificar a morte, por que a morte aconteceu? Como se fosse uma coisa que está no nosso controle. Todos os dias, milhões de pessoas andam de carro por aí e nada acontece. Como é que pode estar no meu controle se é o seu dia dessa pessoa ou não? Então, quando eu entro nesse terreno, eu posso cair na pegadinha mais sem graça que pode existir nesse contexto do luto.
na experiência que eu considero mais tóxica, mais negativa nessa experiência toda, que é assim, se eu começo a justificar a morte, eu corro um grande risco de querer justificar a vida dessa pessoa.
Isso é muito perigoso, porque é quando eu começo a pensar bem, como foi a vida dessa pessoa, se ela foi feliz ou não, se eu consegui fazer tudo o possível para que essa pessoa fosse o mais feliz possível, se tem alguma dor ou injustiça que ela sofreu, se eu consegui evitar ou não, ou quem deixou de evitar isso, tento encontrar esses culpados, como se a gente pudesse ter controle dessa situação.
Como se a gente pudesse dizer que porque uma pessoa viveu de tal forma, ela vai ter tal resultado e vai ser mais ou menos feliz. Eu trabalhei muito tempo num hospital psiquiátrico e tinha uma experiência muito recorrente lá. Você imagina o seguinte, uma mãe de classe média que ela sonhou um filho. Ela programou esse filho, ela amou esse filho quando ele era só uma ideia, quando ela queria ter um filho, ela não tinha nem engravidado, ela já amava ele.
Ela programou tudo, ela cuidou de tudo, ela deu o melhor que ela pôde, ela deu o corpo dela para aquela criança, ela deu a alma dela para a criança, ela fez tudo. E de repente se torna um jovem independente químico que precisa ser internado no hospital. Muitas delas diziam o que foi que eu não fiz, o que foi que eu errei, o desespero era esse.
E que essa mesma pegadinha que pode acontecer no luto de tão mau gosto, que a gente começar a achar que tem algo que a gente vai fazer que é tão definitivo para a felicidade ou infelicidade das pessoas. Como se nós fôssemos esse responsável por um ser humano que está passando aqui por essa vida ter uma experiência maravilhosa ou não. Que nós consideramos, do nosso olhar, maravilhosa ou não, boa ou má, segundo cai o meu critério.
Então, esse é um ponto muito importante, né? A gente significa a vida, a gente significa a morte, mas a gente não justifica a vida e a morte de ninguém. Isso não nos cabe, né? O quarto ponto. Quando uma pessoa morre, o que é que fica?
que também é uma reflexão que o filme traz para a gente. Todo enlutado, por exemplo, já passou por aquela experiência difícil, que é ir se desfazendo das coisas das pessoas. Que com o passar do tempo, quando a gente vai amadurecendo ali no luto, naquela experiência, às vezes a gente vai se desfazendo das coisas, porque é uma blusa que ninguém veste, é um sapato que ninguém calça. Por que essas coisas estão aqui?
A gente vai se dando conta aos pouquinhos que isso não vai trazer a pessoa de volta, que a pessoa não está nessas coisas. E a gente vai, aos poucos, conseguindo fazer essa experiência de desapego dessas pequenas coisas. Aí você imagina a situação. A pessoa morreu. Eu já doei os pertences dela. Então eu olho aqui ao meu redor, não tenho nada dessa pessoa. O que é que ficou? O que é que fica? Então tem gente que poderia dizer assim, olha, o que é que fica é...
A lembrança, a saudade, realmente, é muita lembrança e muita saudade. Mas conforme o tempo vai passando, essa lembrança vai ficando mais espaçada. Conforme o tempo vai passando, essa saudade vai ficando mais espaçada. No começo, você lembra da pessoa o dia inteiro, não dá pra esquecer. Com o passar de alguns anos, tem dia que você lembra uma vez, tem dia que você não lembra. E tá tudo bem. Faz parte do processo, porque é assim a vida.
Não quer dizer mais ou menos amor ou consideração? Simplesmente que a lembrança vai se espaçando. Aí você pode dizer assim, ah não, também fica a perda em si, fica a dor. Que também com o tempo vai se espaçando. Que com o tempo a dor parece que vai engolir a gente. E com o tempo...
Isso vai, a gente vai voltando a sorrir, a gente vai voltando a relaxar, as coisas vão ficando mais em paz dentro da gente e com o tempo isso vai acontecendo. Também tem, a gente sabe que tem esses casos em que o que fica também é a culpa, é a revolta, enfim, são os casos mais difíceis. Mas isso também pode ser resolvido e deixar de estar. Mas o que que fica? E a minha reflexão sobre isso é que o que fica é o laço.
E eu acho isso extremamente sério e importante. O que fica, de fato, é a conexão que a gente tinha com essa pessoa. E que agora parece que limpo de todas essas questões, agora que passou a culpa, a tristeza vai passando. Tudo isso vai se dissolvendo, parece que esse laço vai ficando ainda mais limpo, mais claro, mais nítido.
que é um laço de amor, na verdade. Isso é o que fica, vai ficando uma espécie de sensação de que a gente está conectado com essa pessoa. A gente não sabe dizer ao certo o que vai acontecer depois da morte, ou o que acontece depois da morte de alguém, ou como se daria esse processo. A gente não sabe dizer isso ao certo. Mas, ninguém pode definir isso e dar uma palavra final nesse assunto. Mas...
nós podemos perceber claramente como esse laço pode, essa conexão pode ficar firme e presente. Uma sensação de que você e a outra pessoa estão conectadas e estão ligadas. Às vezes ao ponto até de parecer que é uma pessoa só. Como se a pessoa estivesse vivendo um pouco através de você. De tanto que a conexão vai ficando intensa, profunda, leve. Isso fica. Todas as outras coisas, todas as outras coisas vão se espaçando cada vez mais. Todas as coisas vão ficando mais distantes no luto, né?
Enfim, até que não é que a gente deixa de sentir a tristeza e a perda, não é que a gente deixa de sentir a saudade, mas que esses sentimentos, essas emoções vão ficando diferentes e vão ficando mais leves, elas vão participando mais da vida de uma forma natural. E o quinto elemento, que eu diria que é a mensagem central do filme, é sobre como a arte pode transformar o sofrimento, sobre como a arte pode ajudar a alquimizar as nossas dores, as nossas feridas.
Tem um ponto bem claro na obra, que é isso, de que a criança morre e que, anos depois, surge daquela dor, daquela perda, a obra Hamlet. Ou seja, de que a obra teria ajudado, de que esse esforço criativo, esse trabalho criativo teria ajudado Shakespeare na superação da sua dor, do seu sofrimento.
E aí eu queria muito fazer aqui uma reflexão sobre isso. Porque eu acho que é um grande fato de que toda pessoa que consome arte, não só quem produz, mas quem consome também, a plateia também, claramente vai desenvolvendo um repertório emocional maior para lidar com as experiências da vida. Então, uma coisa é ter um conflito existencial. Outra coisa é o Ledom Quixote ter um conflito existencial.
com aqueles elementos. Uma coisa é eu estar numa fase da vida em que eu preciso tirar força de dentro de mim para poder superar uma determinada circunstância, mas não estou conseguindo, não sei de onde eu tiro isso. Uma coisa é ouvir Beethoven e viver essa experiência. Quem conhece aquelas emoções, que aquela obra de arte inspira, ensina, vai processar isso de outra maneira.
Uma coisa é eu querer ter uma relação com a natureza no meu entorno, com o meu país. E eu escuto Maria Bethânia.
ou eu leio um Juca Pirama. Isso é uma coisa. Outra coisa é quem não tem essa experiência. Então, é muito importante a gente perceber como a arte vai nos dando esse subsídio dentro, vai nos dando elementos psicológicos para ter mais repertório, ter mais elementos para sentir a vida.
Quem aqui nunca teve a experiência de estar ouvindo uma música? E quando aquele cantor está cantando, por exemplo, ou quando uma poesia está sendo declamada, você tem a sensação de que parece que aquele artista falou melhor o que você estava sentindo do que você mesmo. Como parece que aquele filme ou aquela peça de teatro te traduziu inteiro. Como parece que aquele intérprete conhece ali os segredos mais íntimos do seu coração.
Quem aqui não tem uma relação de muito carinho com algum artista? Justamente por isso, porque parece que ele nos traduz. Parece que ele vai botando a palavra certa, ele vai nos ajudando a dar o nome para o que eu estou vivendo, para o que eu estou sentindo. Aquilo que eu estou sentindo não vai ficando mais embrutecido, mudo, desorganizado dentro de mim.
Aquilo que eu estou sentindo de bom e de ruim vai ganhando nome, forma e ordem para fora de mim. Vai me ajudando a expressar. Então, de maneira nenhuma, a gente poderia dizer que a arte, por exemplo, elabora o luto, por exemplo. Eu não poderia nunca dizer que a arte elabora o luto. Mas eu poderia dizer que ela é uma ótima companhia. Que pode nos ajudar com vários processos durante o luto.
Pode nos ajudar a dar nome para as nossas emoções. Pode ajudar a gente a expressar aquilo que a gente está sentindo. Pode ajudar a gente a sintetizar algumas experiências.
E ela pode também, nesse processo, ajudar a regular as nossas emoções. São esses momentos que a gente pode estar sentindo um pouco de desespero, mais agitado, e de como ela pode nos ajudar a regular, a encontrar de novo essa calma, essa serenidade para viver o processo. Então, acho que ela pode ser uma grande companheira de várias formas aí. E pode sim nos ajudar nessa grande travessia. Daí que a gente pode dizer que é uma grande perda quando a gente abre mão de vivenciar o luto.
como é necessário, como é positivo, quando a gente se permite viver essa experiência do luto. Que o filme também traz isso, né? É como se a peça convidasse aquela mãe a se render a essas emoções, a expressar o que ela está sentindo e a dar sentido a toda aquela ordem que havia sido quebrada.
E nas nossas vidas é a mesma coisa, quando a gente se permite viver a experiência, nós temos mais chance de elaborar e lidar com essa perda de uma forma mais saudável. Então, no final das contas, é isso. Não é que o luto precisa ser vivenciado porque a gente vai aprender alguma coisa com ele, mas é porque ele precisa atravessar o nosso corpo e a nossa consciência.
porque, e o filme mostra de uma forma muito bonita, né, como o fato da gente se permitir sentir a experiência, como pode, e com essas ajudas, aqui no caso, né, do que a gente está comentando aqui, que é a própria arte, como com isso a gente pode, de repente, passar pelas experiências duras da vida, não só do luto, mas de todas elas, né, de pé, aprendendo a dar nome para o que a gente está sentindo e de pé diante daquilo que está acontecendo.
Bem, como eu disse lá no princípio, essa era a nossa proposta, era a gente comentar esse filme, Hamnett, tem a ver com a sensibilidade da obra, com que ela desperta na plateia. Não sei como foi quando vocês foram ao cinema, mas eu fiquei muito tocada com isso, com como as pessoas receberam silêncio na sala.
Como todo mundo estava processando aquilo. O filme acaba, as letrinhas começam a subir, todos os créditos, as pessoas não saem da cadeira. E as pessoas pensativas. E eu tive uma experiência legal, eu saí do cinema, fui para o supermercado, e algumas pessoas que estavam no cinema também eram ali dentro do shopping. E como a gente começou a conversar uns com os outros, com pessoas que a gente nunca tinha visto na vida sobre o filme, porque estava todo mundo tão perplexo diante daquele impacto emocional todo.
E é isso. A nossa proposta era falar um pouquinho sobre a vida de Shakespeare, o que é e o que não é, o que é verdadeiro, o que não é, o que é fictício, o que é histórico. Mas também a gente comprar o filme, a gente embarcar na proposta que esse filme, como obra de arte, nos faz, independentemente se é histórico ou não, mas...
que a gente consiga deixar um pouco isso de lado e assistir o que aquela obra está nos trazendo nesse sentido do luto, da nossa relação com a morte, isso de entrar no cinema e se permitir reviver os próprios lutos, as próprias experiências e, de repente, encontrar novas palavras para os sentimentos que a gente está sentindo nesse momento. Então, em outras palavras, eu gostei muito do filme.
E se você não assistiu, dei muitos spoilers aqui, mas espero que assistam. Acho que você pode estar naquele 50% que vai gostar também. E é isso. Obrigada. Até a próxima. Eu estava preparando a palestra. Nessa aula eu estava lembrando que quando eu estava fazendo os cuidados paliativos da minha mãe, que no pôr do sol eu ouvia Heinz com ela. Os concertos de flauta. E muito interessante que a pessoa vá embora.
Mas é incrível como o Heinz traz ela, sempre que eu ouço, né? Sempre que eu escuto, não tem o pôr do sol, não tem ela, mas é como se tivesse, né? De alguma forma a gente volta lá naquele momento. E acho que a arte tem esses poderes, né?
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E aí