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#718 - A filosofia indiana que transforma seus problemas em crescimento - Ana Beatriz da Nova Acrópole

29 de março de 202613min
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Nesta palestra, a professora Ana Beatriz Pignataro apresenta uma perspectiva filosófica transformadora: e se cada problema da sua vida fosse, na verdade, uma prova que a vida está te propondo?

A diferença entre "resolver um problema" e "passar por uma prova" é sutil, mas muda tudo. Quem apenas resolve o problema de fora continua encontrando o mesmo obstáculo em outras formas. Quem enfrenta a prova de dentro — desenvolvendo uma virtude, uma capacidade, um novo grau de consciência — supera aquela experiência para sempre.

Você vai descobrir:
— Por que o mesmo problema continua voltando na sua vida
— O que significa "ver os problemas como provas da vida"
— Como a filosofia idealista entende a origem das nossas limitações
— A lição do Ramayana sobre se curvar diante da vida sem ser passivo

Uma reflexão essencial para quem busca crescimento real, não apenas soluções temporárias.

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Participantes neste episódio1
P

Paulo Tarcísio

HostProfessor
Assuntos1
  • Problemas como Provas da VidaCrescimento pessoal · Filosofia idealista · Lição do Ramayana
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Problemas. Todo ser humano sempre vai ter. Aliás, a gente não tem nenhuma dificuldade de listar, de entender, de saber quais são os nossos problemas pessoais, cotidianos, familiares, no nosso ambiente de trabalho. Temos muitos deles. Mas muda muito a forma como nós escolhemos nos relacionar com esses vários problemas que nós temos. Como o filósofo olha para os seus problemas pessoais, para os seus problemas cotidianos.

E é isso que eu gostaria de conversar um pouquinho com vocês nesse vídeo de hoje. Uma forma filosófica de relacionar com os nossos problemas, de maneira que eles possam ser experiências muito construtivas e que nos ensinem muito também.

O que eu vou conversar um pouquinho com vocês hoje é sobre a gente começar a olhar para os problemas, como nós gostamos de dizer, olhar para eles como provas da vida. E isso muda bastante coisa. Vejam só, toda pessoa sabe identificar os problemas que tem, mas é raríssimo que a gente comece a ver esses problemas realmente como provas da vida e que vão nos trazer algum tipo de experiência, algum tipo de aprendizado.

Em síntese, para essa ideia ficar bem clara, ver os problemas como provas seria em cada uma dessas experiências da vida, a gente começar a perceber que a vida está falando conosco e ela está nos pedindo alguma coisa em cada um desses momentos.

Então olha só como às vezes o que era simplesmente visto como um problema pessoal, uma situação que a gente cria muitas vezes uma rejeição, às vezes um querer fugir daquela experiência, ela pode passar a ser, aliás, as experiências talvez uma das mais bonitas da nossa vida. Perceber que a vida está me pedindo alguma coisa através daquele problema, através daquela experiência, e eu posso começar um diálogo muito bonito e muito profundo com a vida também.

Ou seja, ela sempre está me pedindo para que eu tire algo de dentro para fora, naquela experiência. Às vezes, dependendo da situação, do problema, pode ser que a vida esteja me pedindo um pouco de sensibilidade, pode ser que ela esteja me pedindo um pouco de imaginação, de criatividade, de generosidade, de vontade, de inteligência, um pouco mais de amor. Ou seja, quantas coisas tem dentro de nós, tem dentro de mim, do ser humano.

E o quanto que a vida quer nos ajudar a tirar esses elementos de dentro? A gente teria que começar a observar que cada problema, cada situação que a gente chamaria de problema no nosso cotidiano, que a gente pode começar realmente a chamar de provas da vida. Ou seja, é a vida dialogando comigo e me pedindo para ser um pouco mais eu mesmo, para tirar de dentro de mim alguma capacidade, alguma virtude que nesse momento ainda está adormecida, mas que ela pode vir à tona.

Então depois desse problema, depois de vê-lo como uma prova e passar por ele, eu já não seria mais a mesma pessoa. E olha só que coisa interessante. Quando a gente vê simplesmente uma situação da vida como um problema e a gente só atua para resolver aquele problema.

ele nunca resolve. Ele normalmente vai ficar voltando, voltando, voltando várias vezes na nossa vida. Por exemplo, digamos que a pessoa tem um problema econômico. Ela fez uma dívida, por exemplo. E aí, essa pessoa, ela simplesmente olha para o problema e tenta encontrar uma maneira de resolver aquele problema que ela tem.

que é aquela dívida, aquele problema econômico. Aí digamos que ela arranjou uma solução, ela pediu dinheiro emprestado para alguém, ela parcelou uma dívida, negociou, por exemplo, então aquele problema específico, ele foi resolvido. Mas muito provavelmente, no mês que vem, ou daqui a pouco tempo, essa pessoa vai ter o mesmo problema, porque ela não mudou nada dentro.

Ela simplesmente resolveu aquele problema específico, pontual, mas ela não passou por uma prova. Ela não percebeu o que a vida estava pedindo dela naquela experiência e não conseguiu tirar de dentro, não se reposicionou. Então o problema sempre vai ficar voltando.

Não é a mesma coisa quando a pessoa tem um problema de tempo também e busca resolver só aquele problema? Por exemplo, ela tem uma série de compromissos, está com o tempo muito tensionado, então ela simplesmente resolve desmarcando alguma coisa, remarcando algo na agenda dela.

e resolve aquele problema pontual. Mas como ela não trouxe nada de dentro para fora, ela não desenvolveu nenhuma virtude nova naquele processo, provavelmente no dia seguinte ela vai ter o mesmo problema de tempo. Ou na semana seguinte, no máximo, vai ter o mesmo problema de tempo.

porque não mudou nada dentro dela. Um problema de convivência é exatamente assim. Temos um problema com uma pessoa, por exemplo, é muito comum isso acontecer, e damos um jeito de resolver aquele problema. Ou arranjamos uma forma de não falar mais com aquela pessoa, ou às vezes, se é no nosso ambiente de trabalho, a gente encontra uma forma de mudar de setor, por exemplo. E aí depois, acaba conhecendo, encontrando uma pessoa que tem os mesmos problemas, tem os mesmos defeitos que nos incomodava naquela.

que a gente tem um jeito de fugir dela. Ou seja, se você fica simplesmente olhando para os problemas da vida e simplesmente resolvendo os problemas da vida, além disso ser muito cansativo, porque parece que a gente tem que estar sempre fazendo alguma coisa, fazendo alguma coisa para sair resolvendo os problemas da nossa vida, do nosso cotidiano. E além disso, não crescemos e além disso ele sempre volta.

Nunca é uma solução definitiva. Agora, pelo contrário, se nós olhamos para a prova da vida, ou seja, para aquilo que a vida está pedindo de mim, para aquilo que ela está me pedindo para que eu desenvolva de dentro para fora, e a gente olha para essa prova e supera essa prova, a experiência não volta mais. Aquela experiência foi definitivamente superada.

Isso aqui é haver uma prova da vida. Ou seja, através daquela experiência, eu desenvolvi um grau mais profundo de disciplina. Através daquela experiência, eu desenvolvi um grau mais profundo de identidade. Através daquela experiência, eu combati um pouco mais o meu orgulho.

que era muito alta, que me deixava com orgulho ferido nas relações com as pessoas, por exemplo. Ou seja, aquilo que nós vencemos como uma prova é definitivo. Em todas as minhas experiências que eu vou viver a partir de agora, eu vou poder usar aquele potencial que estava latente, aquela virtude que agora foi desenvolvida e pode se expressar.

Então, em outras palavras, quando a gente passa por um problema, simplesmente vendo como um problema, dá a impressão que a gente tem que estar sempre indo para fora fazer alguma coisa. E quando a gente começa a vê-lo como uma prova da vida, na verdade a gente percebe que teria que ir mais para dentro e trazer uma resposta de dentro de nós, uma virtude de dentro de nós que ainda não está bem desenvolvida.

É interessante porque se a gente for pensar assim, talvez por uma visão mais materialista, que é a forma mais comum de pensar na nossa vida, parece que quando a gente tem um problema, a gente tem que sair por aí fazendo coisas, né? Como a gente comentou.

mas uma visão de idealista, ou seja, desse que está buscando ver a causa das coisas que vive nas ideias, no mundo espiritual, não no mundo material, que é o ser materialista, dessa visão idealista e espiritualista, nós teríamos que ver que cada vez que eu passo por um problema, eu sinto que eu estou limitado por ele, a minha limitação não é por causa das coisas da vida.

Em outras palavras, eu tenho que saber que quando eu passo por um problema, eu não estou limitado por causa da minha família, por causa do meu trabalho, por causa da cidade que eu moro, do carro que eu tenho, e nenhuma dessas coisas é aquilo que está me limitando. Na verdade, a causa das minhas limitações é sempre um pouco contato com a minha alma.

Porque a alma humana não tem limitações. Quanto mais contato com a alma, mais vontade, mais amor, mais inteligência, mais imaginação, mais capacidade de entender a vida, de entender as pessoas, de ter sensibilidade a elas, mais capacidade de encontrar uma resposta adequada para cada uma das situações que a gente teria que viver.

Então, o idealista, realmente, é aquele que sabe que quando falta poder na vida, quando nós estamos nos sentindo limitados numa experiência da vida, significa que eu preciso buscar um pouco mais de contato com a minha alma. Eu preciso buscar tirar um pouco mais de dentro esses potenciais latentes que são naturais da alma humana e onde estão a verdadeira fonte de poder do ser humano.

Tem uma passagem muito bonita, que eu acho muito especial, no livro Ramayana, que é esse épico indiano tão, tão especial. Uma passagem linda, que para mim ela sintetiza de uma forma simbólica exatamente isso que nós estamos falando.

de começar a olhar para as situações da vida e vê-las como provas, não simplesmente como problemas. É uma parte muito bonita em que um dos nossos personagens, que é o irmão de Rama, que é o protagonista, o nosso herói, ele está muito triste, ele está um pouco revoltado com a postura de Rama, porque Rama foi o único que não se revoltou com a situação da vida.

Ele foi exilado injustamente na nossa história e ele aceitou o seu destino, ele aceitou a experiência da vida, ele não se revoltou contra ela. E esse irmão dele, ele estava um pouco chateado com isso, sem entender, porque na opinião dele ele acha que Rama deveria ter se revoltado. E aí num certo momento ele está conversando com um ser bastante especial, que é Gurra, e que tem a capacidade de falar com os seres da natureza. Então ele escuta a voz das árvores, dos rios, dos mares, dos animais, de todos os seres.

E quando Lakshmana, que é o irmão de Ramba, fala dessa angústia dele, Guha responde que uma certa vez ele viu o oceano conversar com seus filhos, com os rios. E era um diálogo muito interessante.

O oceano dizia para os rios que ele já viu muitas coisas serem carregadas pelo rio, serem retiradas pelo vento, carregadas pelo rio e chegarem até ele, chegarem até o oceano. Então que ele já tinha visto muitas folhas secas, já tinha visto muitos galhos secos de árvore, já tinha visto até mesmo troncos de árvore serem arrancados pelo vento, conduzidos pelo rio até o oceano. Mas ele nunca chegou a ver.

uma folha da selva flexível ser arrancada pelo vento e chegar até o oceano. Porque uma folha que se curva diante do vento, ela jamais, jamais vai ser arrancada pelo vento. E Gurra diz isso mostrando que a verdadeira força de Rama era exatamente essa.

Rama é aquele que se curva diante do vento, é aquele que se curva diante da vida, é aquele que se curva diante do seu Dharma, como ensina a tradição indiana. E como ele se curva diante da vida, jamais vai ser arrancado por ela. O oceano jamais vai conhecer um homem como Rama.

Eu acho muito bonita essa passagem, porque esse ato de se curvar diante da vida simboliza exatamente isso que nós estamos conversando. Se curvar diante da vida é não rejeitar aquilo que são os problemas da vida, porque na verdade eles são grandes oportunidades. E ao mesmo tempo não rejeitar, e também não significa ser passivo às situações da vida. Se curvar diante da vida é perguntar para a vida, naquela experiência, o que você quer de mim?

O que eu necessito desenvolver? O que você quer que eu traga de dentro para fora? E se nós fizéssemos um pouco assim, como o Rama, aprendêssemos também a nos curvar diante da vida, poderíamos começar esse grande diálogo, tão especial. Esse diálogo com a vida, esse diálogo com as nossas experiências, que faz realmente a vida ficar tão instrutiva, tão pedagógica e ao mesmo tempo tão bonita.

É isso que eu desejo para todos nós, que cada um de nós possamos começar a dialogar cada dia mais profundamente com a vida, olhando para as nossas experiências e buscando vê-las como provas, como um diálogo, perguntando isso, o que a vida quer de mim em cada momento?

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