#722 - A MULHER E A NATUREZA: Um diálogo entre mães - Lúcia Helena Galvão da Nova Acrópole
Talvez o futuro da humanidade dependa da nossa capacidade de lembrar
daquilo que a Terra nunca esqueceu: como amar sem possuir, como cuidar sem dominar, como viver em harmonia. Reflexões filosóficas sobre a nossa mãe Terra, com a professora e voluntária de Nova Acrópole, Lúcia Helena Galvão.
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Paulo Tarcísio
- Corpo feminino e propriedadeTeoria de Gaia · Maternidade e natureza · Harmonia e cuidado · Regeneração da Terra · Responsabilidade ambiental
Olá, seja bem-vindo a esse nosso bate-papo de hoje. Em homenagem ao Dia da Terra, vamos falar sobre um tema que eu acho bastante interessante.
A Mulher e a Natureza, um diálogo entre mães. Então eu vou comentar com vocês algumas colocações que eu acho interessante, porque nós vamos perceber que, numa sociedade onde desvalorizamos muito determinados valores do feminino, tendemos também a desvalorizar e a desconsiderar os valores e os direitos da terra. Parece que as duas coisas têm uma certa relação. E nós vamos trabalhar com isso, com essa relação entre o feminino, a vida.
esse diálogo entre mães que há entre a mulher e a natureza, entre a mulher e o planeta Terra. Então eu espero que você goste desse bate-papo e que seja um alerta para que a gente olhe para esse problema ambiental de uma maneira diferenciada.
com uma visão mais humanística, mais filosófica, que nos permita perceber que atentar contra a Terra é como atentar contra a nossa verdadeira mãe, de onde vem a nossa vida, de onde vem tudo aquilo que usufruímos e tudo aquilo que é mais importante e sagrado para nós.
Então começamos com uma pergunta bastante provocadora. Você já considerou a possibilidade da Terra como um todo ser um ser vivo? Um ser em evolução? Um ser com todas as características que indicam a vida?
Na década de 70 do século passado, um cientista chamado James Lovelock propôs uma teoria, que é chamada Teoria de Gaia, que na época foi muito criticada e houve toda uma onda de descrédito, onde ele propunha exatamente isso, que a Terra era um planeta, era um ser vivo, um sistema vivo, que como qualquer outro sistema, tinha um processo de evolução, de reação aos impulsos externos, e que consequentemente...
se fosse excessivamente atingida por esses seres que vivem nela, poderia acionar um mecanismo como se fosse uma imunidade, para poder reagir contra aquilo que a fere. Bom, isso na época que foi considerado bizarro, passaram-se muitos anos, e nós vivemos aí, na década de 20, já do século 21, onde se percebe que aconteceu exatamente o que Lovelock previa 56 anos atrás.
Se nós tivéssemos levado em consideração aquilo naquele momento, teríamos evitado consequências que hoje são dificilmente reversíveis. Talvez nós tenhamos que agora apenas suportar as consequências das escolhas que fizemos. Ou seja, ignoramos por um tempo muito longo uma evidência. Uma evidência de que a Terra é um sistema que tem possibilidade de reação àquilo que se faz com ela. E estamos vivendo essas reações.
Ou seja, mais uma vez desconsideramos e ridicularizamos uma coisa que mais tarde se mostra como muito sensata e muito lógica. Então você já parou para pensar sobre isso? Que ao maltratar a Terra podemos estar maltratando um ser vivo, podemos estar ferindo um ser vivo, e não qualquer ser vivo, mas aquele de onde emana toda a vida, aquele que gera toda a vida.
Então caso isso seja verdadeiro, nós podemos dizer que toda a vida vem da Terra. Então ela é o quê? Uma mãe. Ela funciona exatamente como uma mãe. E aí nós poderíamos fazer uma comparação entre esse papel da mãe, que é tão feminino, e o papel da Terra, da natureza, a maneira como ela se comporta. A natureza é como mãe silenciosa. Então algumas características da maternidade que nós conhecemos muito bem, nós convivemos com mães.
e sabemos como elas são, às vezes nós mesmos somos mães, e sabemos como é isso, os sentimentos que existem aí, o comportamento que existe aí, e nós podemos perceber algumas similaridades com a própria natureza, com o próprio planeta Terra. Como por exemplo...
A natureza dá sem exigir. É uma entrega, uma generosidade infinita, onde ela se doa pelo bem dos seus filhos, sem exigir nenhum tipo de contrapartida. Embora nós devêssemos uma contrapartida, ela não nos exige. É uma doação de mão única. Ela entrega, ela é infinitamente fértil. Com algum esforço ela nos dá todo o alimento, ela nos dá tudo aquilo que necessitamos.
ela sustenta sem reconhecimento, ou seja, ela não espera que ninguém a agradeça, que ninguém divulgue o seu trabalho. Ela sustenta, ela dá a base para a vida sem nenhum tipo de reconhecimento. Ela considera como seu dever sustentar a vida da melhor maneira possível.
Ela ensina sem palavras, através daquilo que ela é, através do seu comportamento, ela é um ensinamento constante de generosidade, de doação, de como educar, de como expressar a harmonia. Ela está constantemente para o observador atento, para quem gosta da natureza, para quem convive com ela, está num estado de aprendizado o tempo todo. Todos os dias, em todos os momentos, ela tem alguma coisa para ensinar para o observador atento.
Ela tem uma energia de resistência típico das mães, que são capazes de atravessar noites acordadas com o filho doente. Ou seja, ela é perseverante, constante, paciente. Não desiste nunca. Persevera, é constante, é paciente. Cada vez que ela é atacada, ela se regenera e continua caminhando.
até um momento onde a regeneração se torna quase impossível, mas ela continua insistindo. Perseverante, constante e paciente, ela continua cumprindo com o seu papel, de sempre vencer as barreiras que são possíveis, de serem vencidas, e continuar generosa, fértil, dando alimento, dando vida.
ela congrega, ela tem essa capacidade de congregar, de harmonizar diferenças. Quem já ouviu falar numa coisa chamada biomimética, sabe que a biomimética nada mais é do que uma ciência que observa fatos da natureza e aplica ao comportamento humano. Quando vemos, por exemplo, uma floresta como a Amazônica,
que tem uma biodiversidade sensacional, nós vemos que a natureza é capaz de compor diferenças, numa harmonia perfeita. Então essa composição, essa harmonia que ela é capaz de proporcionar, é um aprendizado de que nós, com todas as nossas diferenças, também poderíamos viver numa harmonia perfeita, cada um sendo o que é.
Se você olha um pouco, uma foto que seja da floresta amazônica, você vai ver uma variedade de formas de vida fora do comum, compostas, entrelaçadas, se apoiando mutuamente, de tal maneira que a natureza nos dá uma lição de harmonia, ela congrega, ela harmoniza.
Nós vamos ver também o papel feminino tem muito a ver com isso. Muitas vezes nós vemos numa grande família onde a matriarca se vai e o patriarca fica. Muitas vezes ele não consegue manter a família coesa em torno dele. A matriarca, quando ela permanece e o patriarca se vai, ela continua congregando a família à sua volta para as festas, para o Natal, para seja lá o que for, durante muito tempo.
O feminino tem o poder de congregar, de harmonizar, de unir fora do comum. Esse mesmo poder que nós vemos na natureza. De congregar, de harmonizar, juntar todas as coisas à sua volta de uma maneira harmoniosa. Ou seja, alguns elementos que fazem com que a gente veja que esses comportamentos humanos herdamos da natureza. É ela que nos ensinou a ser dessa forma.
Metáfora central que a gente pode aprender de tudo isso. A Terra fala e ensina, mas pode chegar a elevar a voz e punir. Como toda boa educadora. Chega um determinado momento que a Terra, assim como as mulheres, que são o arquétipo da educadora, durante muito tempo, hoje temos uma realidade diferente, mas durante muito tempo na história, quem fazia curso de pedagogia, por exemplo, eram só mulheres.
porque intuitivamente se coloca a função de educar mais associada ao feminino, porque realmente o feminino é educador por excelência, e a natureza também é educadora. Da mesma maneira que uma mãe, chega um determinado momento, ela tem que franzir o senho, ela tem que falar mais alto.
ela tem que colocar disciplina para que a criança aprenda, porque se ela não faz isso, não há aprendizado, chega uma hora que a natureza também franze o senho e fala alto. Ou seja, ela não tolera tudo. Chega uma hora onde é necessário dar as consequências devidas para que aquele filho aprenda a se comportar bem.
Porque como qualquer mãe, ela quer que os seus filhos aprendam a se comportar da maneira justa, ideal, para que tudo entre em harmonia, para que eles tenham harmonia na sua própria vida. Então nós vivemos um momento onde a natureza franze o senho e fala alto.
Por quê? Fomos longe demais. Nós, seus filhos, ignoramos totalmente as leis da vida, os protocolos da vida, os cânones de Apolo, como diziam os gregos. Contrariamos esses cânones, fomos muito além do que poderíamos. Fomos egoístas demais, fomos predadores demais, fomos materialistas e indiferentes demais aos protocolos da vida. E nesse momento, a mãe, a mãe generosa, a mãe educadora, franze o senho e fala alto.
E é necessário que assim seja, como boa educadora que ela é. A mulher e o arquétipo do cuidado. É uma outra coisa interessante que a gente pode observar e fazer uma comparação. Você pode perceber, por exemplo, que toda mulher carrega em si essa necessidade, essa capacidade de cuidar fora do comum. Gerar, nutrir e proteger. Não apenas filhos, mas ideias, ambientes e valores.
ou seja, a mulher tem a capacidade de nutrir, de proteger, durante muito tempo, inclusive eu falo isso numa palestra minha sobre o ideal feminino, percebia-se claramente essa dualidade, onde o homem tem uma energia de explosão e a mulher uma energia de condensação, de consolidação, seria a palavra correta, onde explode-se e conquista-se esse novo patamar, explode-se e conquista-se esse novo patamar, e assim a humanidade vai subindo. Essa capacidade de consolidar.
essa capacidade de cuidar, de nutrir e de proteger, que é tão própria do feminino, é também própria da natureza. Ela faz exatamente isso. Protege, acompanha, nutre, vitaliza tudo aquilo que vive nela. Tem uma capacidade infinita de gerar vida em todas as suas multiplicidades. E criar ambientes onde essa vida entra em harmonia e é viável.
Então você tem o predador ali, você tem alguém que preda o predador para que tudo esteja em equilíbrio, se você tem uma forma de vida, você tem um alimento para ela, todos os ecossistemas estão ali fechados, harmonizados, a menos que o homem vá lá e introduza uma espécie invasora e quebre a lógica, a lógica é harmoniosa, onde tudo ali está combinado e toda a vida é velada por ela, toda a vida é acompanhada, toda a vida recebe cuidados. Isso é um aspecto muito interessante.
que nós devemos aprender desse espírito materno. Então é capaz de criar ideias, ambientes, valores e consolidá-los, fazer com que aquilo entre em harmonia, com que aquilo funcione. Isso é um aspecto muito próprio do feminino. Veja bem, durante muito tempo, e eu não diria que a gente superou isso ainda hoje, nós colocamos os valores masculinos como os valores que proporcionam sucesso, proporcionam evidência.
proporciona um reconhecimento. Então, muitas vezes, inclusive, a mulher nega os valores femininos. Aí o que a gente tem? Uma sociedade que se ampara numa perna só. É evidente que ela desequilibra. É evidente que ela falha. É evidente que ela se torna tecnicista, fria.
É evidente que ela sai criando um monte de meios de comunicação e já não tem nada para falar. É evidente que ela cria um monte de meios de transporte e ninguém sabe mais para onde ir. É lógico que se nós não temos os dois vetores em equilíbrio, nós fazemos com que a sociedade oscile e desmorone em determinados casos. Então esses valores femininos que foram muitas vezes subestimados, nos fazem também não ver o valor da natureza, que trabalha nessa mesma linha.
Então é muito importante que a gente reconheça, aprenda a ver essas peculiaridades que são próprias do feminino, são próprias da natureza e equilibre, porque dentro de todos nós tem que haver as duas colunas, para que tenhamos equilíbrio dentro e fora. E o desconsiderar desse aspecto nos fez também desconsiderar o feminino e a natureza, dentro de um mesmo pacote de coisas que foram desvalorizadas e colocadas em segundo plano.
Ser mãe vai muito além da biologia, é uma postura diante da vida. É evidente que hoje, cada vez mais, e isso é uma notícia muito boa, o ser pai vai tomando mais consistência também, mais responsabilidade, mais presença, cada vez mais. Eu reconheço isso. Então, cada vez mais nós temos essa necessidade de reconhecer a harmonia por oposição.
Como essas coisas são complementares. Então ser mãe não é simplesmente a capacidade reprodutiva de um corpo. Ser mãe é uma atitude diante da vida, que eu sintetizaria da seguinte maneira. Ser mãe é uma forma de estar no mundo. É cuidar daquilo que ainda não está pronto.
ou daquilo que precisa ser cuidado para continuar vivendo, ou seja, cuidar daquilo que necessita de apoio, que necessita de amparo, é uma atitude de amparo e de solidariedade para com a vida. Portanto, é fundamental, é importantíssima, porque sem sombra de dúvida, a vida é aquilo que nós temos de mais sagrado.
Desconsiderar a vida é uma atitude suicida e em muitos casos nós temos uma postura bastante suicida. Se nós levarmos as últimas consequências aquilo que fazemos, vemos que inviabilizamos a vida daqui a algumas décadas. As pessoas pensam, daqui a algumas décadas eu não estarei mais aqui. Bom, então é problema de quem vem depois. Que bela herança para a humanidade do futuro. Nossos filhos, nossos netos, talvez uma vida inviabilizada. Então respeito pelo materno.
é reconhecimento do valor da vida.
Bom, a nossa sociedade atual, se formos observar alguns elementos que nos fizeram afastar dessa percepção, desse reconhecimento. Distanciamento da natureza cada vez mais. Então nós sabemos que na maior parte dos países há exceções, mas na maior parte dos países há uma evasão do campo para a cidade. A vida do campo é subestimada, é considerada inferior, é considerada rude, é considerada menos intelectual.
dotada de menos valor, ou seja, há uma desvalorização do campo. A vida urbana é a meta de todo mundo. Todo mundo quer viver em cidades. Portanto, o distanciamento da natureza vai acontecendo cada vez mais, desconsiderando a importância da presença da natureza para o nosso equilíbrio, nosso equilíbrio psicológico, emocional, mental, até moral. Nós necessitamos da presença da natureza.
e cada vez mais nos distanciamos dela. E com a tecnologia, às vezes, nós temos o jovenzinho que está trancado dentro do seu quarto, diante de um computador ou de um celular a maior parte do tempo. A tecnologia parece que vai afastando ainda mais, da maneira como ela é usada.
com a maturidade que temos hoje em dia, talvez não tivéssemos condições de portar toda essa tecnologia, que nos afasta ainda mais da vida, e daquilo que é prioritário e importante, para que essa vida prossiga de forma saudável. Não temos considerado muito isso. A vida está no último lugar na nossa hierarquia de prioridades, sendo que é a primeira coisa que temos em termos de importância.
Perda de sensibilidade cada vez mais, perda de sensibilidade às necessidades do outro, perda de sensibilidade às necessidades da vida, perda de sensibilidade às vezes à beleza. Vivemos um momento extremamente minimalista, onde reduzimos tudo ao seu mínimo, porque a beleza dá trabalho, a beleza muitas vezes não é rentável, então a beleza é uma perda de tempo.
Tudo é minimalista, tudo tem a lei do menor esforço. Se nós observamos uma floresta, o cuidado, o requinte que a natureza tem numa folhinha que nasce no campo, numa florzinha pequena, que nasce às vezes no meio do mato.
com todas as suas ranhuras, com cores diferentes, como a natureza é requintada, como ela valoriza a beleza, como isso compõe a harmonia, como isso é estruturante, como isso eleva, e como nós hoje queremos reduzir tudo à lei do menor esforço.
Há algum tempo atrás, eu contava isso numa palestra inclusive, entrei no antiquário e peguei uma colherzinha de café. E uma colherzinha de café, no seu cabo, tinha uma cariate de grega, uma daquelas mulheres gregas que sustentavam as colunas, numa colherzinha de café, muito bem esculpida em todos os seus detalhes. E eu pensei, bom, era uma colherinha da década de 20.
um século atrás. Em um século ninguém considera que tenha que haver beleza numa colherinha de café, mas também não considera que tenha que haver beleza em lugar nenhum. Tudo é a lei do despojado, do menor esforço, a estética foi tomada como falsidade, como superficialidade, ou seja, perdemos a sensibilidade à beleza e a importância que ela tem para a elevação da nossa consciência.
o quanto dentro de nós existe potencial de beleza, e quanto esse estímulo externo nos ajuda a harmonizar internamente. Então fomos nos reduzindo cada vez mais, cada vez mais minimalistas, com o afastamento da natureza. A natureza é uma lição esplêndida de beleza, de requinte, de harmonia.
A pressa que impede o cuidado. Então hoje nós não queremos as coisas bem feitas, queremos as coisas feitas rápido. A solução mais rápida para você se livrar dos problemas. Sabe por quê? Porque não há amor àquilo que fazemos. Dificilmente pode acontecer, existem casos, eu até os conheço, mas a grande maioria dos casos as pessoas não estão apaixonadas pelo trabalho que fazem agora.
Portanto, aquele trabalho que está nas suas mãos é uma coisa provisória, um meio. Ela sempre quer outra coisa, que em geral é uma fantasia. Porque paga melhor, porque dá mais evidência social. Tem muito pouco a ver com a questão da vocação. Tem a ver com reconhecimento social. Então aquilo que está na sua mão é algo provisório, do qual ela tem que se livrar o mais rápido possível. Então está sempre deixando as coisas para trás, deixando as coisas para trás, sem nem ver direito o que passa pela sua mão.
Então chega um determinado momento que hoje, se você entra num ambiente, encontra um vaso de flores em cima de uma mesa, às vezes você nem as percebe. E uma flor é um ato de generosidade da natureza, de uma beleza fora do comum. Todo o potencial da beleza explode naquela corola, de uma maneira que presenteia aqueles que passam à sua volta. Nós não conseguimos perceber sequer a presença de uma flor no ambiente.
Se eu perguntar para você, você entrou naquele escritório, naquele auditório, havia uma flor? Talvez você não repare. De tão insensíveis à beleza que nos tornamos. Sendo a flor tudo aquilo que ela é. Uma explosão de beleza, uma explosão de generosidade. Estamos sempre com pressa demais. Então desvalorizamos tudo aquilo que passa pelas nossas mãos. Porque não amamos aquilo que fazemos. Não temos um sentido de vida claro.
como dizia Nietzsche, que depois foi repetida essa frase por Vitor Frankl, aquele que tem um para onde, sabe superar todos os como, e sabe viver todos os como. Aquilo que você está vivendo nesse momento tem valor, quando você sabe onde você quer chegar, e ama a tua presença na Terra, tem um sentido de vida pelo qual você está apaixonado, e ama as coisas que te levam nessa direção. A gente já não ama nada.
Vamos atropelando a vida e nos livrando das coisas, sempre muito apressadamente. Isso é mais uma coisa que nos insensibiliza à presença da natureza e às necessidades da natureza.
mecanicidade, ambição excessiva, perda de respeito à natureza, às mães, a tudo aquilo que é belo, a tudo aquilo que é requintado, que é mais ou menos uma consequência daquilo que já falamos. Ou seja, nós travamos uma verdadeira guerra, não é entre sexos, é de toda a humanidade contra a vida.
Ou seja, todos os atributos da vida são considerados coisas de pouco valor econômico, portanto relegadas a uma última hierarquia de prioridade. Então, um momento de atenção, um momento de carinho, um momento de vida interior, um momento de observação da natureza na sua janela, dada dessas coisas eu tenho tempo. Nada dessas coisas é economicamente rentável.
Eu não tenho tempo para as coisas que são fundamentais para a vida. E, portanto, não vejo mais a natureza. Eu a uso indiferentemente, naquelas coisas que são despejadas no meu prato. Eu não paro para pensar de onde aquilo veio, e nem o trabalho que está envolvido para fazer aquilo chegar ao meu prato. Simplesmente me livro daquilo o mais rápido possível e vou embora. Correndo atrás, não sei de que. Não sei exatamente de que.
Porque em geral, quando alcançamos essas coisas que queríamos tanto, percebemos que elas não têm esse sabor todo. Toda essa evidência, todo esse retorno financeiro, percebemos que ela não tem esse sabor todo. Então, na verdade, nós não sabemos muito mais o que estamos buscando. Trata-se de uma guerra, repito, não do homem contra a mulher, ou seja lá o que for, mas de toda a humanidade, contra a vida, contra a natureza.
Uma reflexão importante que eu coloco como conclusão dessa parte. Insensíveis às mães que nos educam, paramos de crescer. É como se você imaginasse, uma criança é exatamente isso. Se ela fica insensível aos ensinamentos da sua mãe, insensível aos ensinamentos que recebe dentro da sua casa, ela não cresce. Ela vai crescer fisicamente, porque a biologia vai cumprir o seu papel. Mas não vai ter aprendizado, não vai ter amadurecimento. Tudo aquilo que os seus pais podem lhe transmitir, ela se paralisa.
E quando nós nos tornamos insensíveis aos ensinamentos da mãe natureza, paralisamos mesmo. E nós somos uma sociedade infantilizada. Então você observa a mente do homem moderno, ele tem ideias altamente tecnológicas, mas não tem praticamente ideal nenhum. E quando você entra no campo emocional, é um adolescente. Seja qual for a idade física, ele continua vivendo os dramas de um adolescente.
com complexos de inferioridade, mal amado, instável emocionalmente, querendo tudo para si, caprichoso, ele continua um adolescente. Nós não crescemos, estamos infantilizados emocionalmente, porque deixamos de aprender com a nossa mãe, deixamos de ouvir a voz da nossa mãe, e isso é grave. Existe uma outra frase que trouxe para vocês também, que é uma frase que se atribui às vestais romanas.
que num determinado momento as vestais guardavam o espírito de Roma, enquanto os guerreiros iam e expandiam o império. Num determinado momento já não havia mais esse espírito, esse espírito se corrompeu, esse espírito se perdeu. E atribui-se a uma vestal essa frase, pobres de nós, que dominamos o mundo e perdemos a nós mesmos.
Eu acho isso perfeito. Perfeito. Nós dominamos o mundo no sentido de que atingimos até outros planetas, expandimos a nossa tecnologia de uma forma fora do comum, impusimos normas, submetemos à natureza e perdemos a nós mesmos.
E evidentemente a natureza que é muito mais poderosa do que nós, também está nos submetendo cada vez mais às consequências das nossas atitudes impensadas. Então dominamos o mundo do jeito que a gente queria e perdemos a nós mesmos. Dominamos em nome de quê?
Qual é a bandeirinha que a gente vai cravar nesse planeta? Com que nome escrito? Nós já não sabemos quem somos. Não temos nenhum domínio sobre nós mesmos. Não temos nenhum autoconhecimento. Então em nome de que ou de quem nós dominamos o mundo? Vivemos exatamente esse drama da decadência de Roma. Da decadência de todas as civilizações. Muito voltados para fora. Sem nada do lado de dentro. E esse desconhecimento do que é prioritário.
Diálogo entre mães. Então nós podemos fazer um paralelo profundo de como se estabelece esse diálogo. A terra cuida da humanidade, a mulher cuida da vida em múltiplas formas. Ou seja, através do que ela pensa, através da maneira como ela age, através da maneira como ela trabalha, quando está bem canalizado o espírito veneno, ela é uma cuidadora. Ela providencia para que as coisas estejam íntegras.
sempre que faço palestras em empresas, sempre falo sobre as chamadas três autoridades. Três autoridades que são fundamentais num líder, por exemplo, numa equipe. A primeira delas é a autoridade intelectual, conhecer o trabalho que ele está propondo que a sua equipe faça.
A segunda, autoridade moral, fazer junto, que é muito importante. E a terceira, que é muito feminina, é a autoridade humana. Considerar que o final de um processo não é simplesmente um produto ou um serviço bem feito, mas é um produto e um serviço bem feito e todos os seres humanos que participaram desse processo realizados, tendo crescido nesse processo, felizes com aquilo que foi feito, ou seja, todos os seres humanos bem.
Considerar esse aspecto humano de qualquer processo de produção, é autoridade humana, é uma das coisas mais complicadas, que hoje o mundo empresarial começa a buscar, felizmente. Tem muita gente interessada nesse assunto. Esse aspecto da autoridade humana, que é tão necessário no mundo econômico, que as empresas hoje carecem, é um aspecto feminino. E por isso ele se tornou tal alveite.
do feminino como cuidadora, ou seja, os seres humanos que participam do processo são tão importantes quanto o resultado, ou mais, porque no final das contas, a finalidade de estarmos aqui é a construção de nós mesmos como seres humanos. Os homens não podem ser meios, eles são fins, a humanidade não é meio para nada, ela é fim, como dizia o próprio filósofo Immanuel Kant, é imoral tomar a humanidade como meio, ela é sempre fim.
Uma pergunta reflexiva para pensarmos a respeito. O que aconteceria se fôssemos gratos à Terra como somos as nossas mães físicas? Então, sei que muitos de vocês devem ter uma gratidão muito grande a essas mulheres que colocaram no mundo, que deram tanto carinho, de maneira que estão ali, atendem, cuidam.
Se a gente pudesse perceber que a Terra também é uma mãe, como seria o mundo se a gente dedicasse a Terra, a natureza, o mesmo carinho que dedicamos às nossas mães físicas? Àqueles que o fazem, é claro. Aqueles que têm carinho, que têm amor pelas suas mães físicas, percebessem que devem a mesma atenção, o mesmo carinho, o mesmo amor à sua mãe natureza. Porque são mães...
e são muito parecidas, uma inclusive se espelha na outra. Portanto, é incoerente, é contraditório, quando somos gratos a uma, e respeitamos e consideramos, e cuidamos, e somos ingratos com a outra, e não respeitamos, não cuidamos, somos irresponsáveis. Como seria bom que a gente pudesse ampliar esse nosso sentimento?
de gratidão à maternidade, aquela que nos deu vida e que cuidou para que a nossa vida pudesse se desenvolver e florescer. Bom, o poder da regeneração, que é uma outra coisa interessante para que a gente fale a respeito. A natureza não desiste de gerar e cultivar vida, ou seja, ela sempre está insistindo. É claro que nós temos dificultado muito o trabalho dela, temos desertificado terras, temos criado situações...
onde a recuperação às vezes é muito difícil, mas ela não desiste. Ela não desiste. Se você vai lá, faz um esforço, recentemente eu ouvi falar de um país que está replantando todo um deserto. Se você a convoca, ela comparece e colabora e recupera aquilo que você mesmo tinha colocado a perder. Então ela não desiste. Ela tem um poder de estar acompanhando, de estar cuidando, de estar gerando vida, que é da sua natureza e é infinito.
Algum tempo atrás eu vi falar de pesquisadores que descobriram sementes no túmulo egípcio. Não sei dizer a vocês exatamente que data tinha isso, mas alguns séculos antes de Cristo. E pegaram essas sementes e plantaram, e elas nasceram, elas brotaram. Ou seja, a natureza mantém a vida em potencial aí, às vezes por um tempo, que não dá nem para a gente imaginar como, mas ela o faz. Ela não desiste de propagar a vida.
Assim como o feminino, também não desiste de cuidar da vida daqueles que amam. Não desiste de acompanhar, ainda que seja distância, ainda que esse ser não queira mais cuidados. Ela está sempre ali na medida do possível, no limite das suas possibilidades, cuidando, providenciando para que aquele ser esteja bem. O seu coração acompanha aqueles que ela ama.
até o final dos tempos. Essa capacidade de custodiar a vida infinitamente, que é uma expressão do amor, tem muito a ver com feminino. Agora uma reflexão que é importante que a gente faça. Aquele que cuida também precisa ser cuidado. Muitas vezes eu tenho visto essa expressão ser utilizada, por exemplo, em relação a comunidade de saúde, que começa a haver todo um processo de...
preocupação para que eles estejam bem psicologicamente, isso é necessário. Nós temos que ter esse mesmo cuidado com as mães. Aqueles que cuidam também precisam ser cuidados. E num determinado momento nós sabemos disso, porque começamos a cuidar das nossas mães. E há um momento de a gente começar a cuidar da nossa mãe natureza. Passou do momento de percebermos isso, que é aqueles que cuidam.
num determinado momento, quando os filhos amadurecem, devem retornar esse cuidado. Talvez não tenhamos amadurecido ainda, por isso não começamos a cuidar das nossas mães da maneira que deveríamos. Nós estamos maduros o suficiente para nos colocar de pé diante da vida e dizer, agora deixa comigo, eu vou cuidar daqueles que sempre cuidaram de mim. Quando vamos ser maduros o suficiente?
Há uma frase que se atribui aos alquimistas da Idade Média, que eles diziam que os seres humanos às vezes se comportam como certos frutos, que passam da fase verde para a fase podre, não amadurecem. A maturidade humana é uma escolha, é uma vontade. Você amadurece se quer amadurecer, e muitas vezes não amadurecemos. O homem maduro cuida daqueles que o cuidaram. A humanidade madura cuida daqueles que a cuidaram. E passa do momento de fazermos isso.
Ou seja, devemos nos tornar agentes de regeneração do mundo, se somos seres humanos maduros ou se queremos ser. Agentes de regeneração das nossas mães.
Responsabilidade e consciência. Então eu quero que vocês entendam que isso não é um discurso ecológico a mais. Isso é lógica. É um pensamento lógico que se desdobra das regras, das leis, dos parâmetros da vida que qualquer ser humano pode ter. Filosofia simplesmente nos ensina a pensar corretamente.
e fazer escolhas coerentes com esse pensamento correto. E a partir disso, transformar a nossa vida em algo mais humano. Então, cuidar da terra é cuidar de si mesmo, isso é óbvio. Porque cuidar da terra é cuidar da vida, da grande mantenedora da vida. Cuidar das mães é garantir a continuidade da vida. Quem cuida da mãe, garante a perpetuidade de uma espécie.
Nós sabemos disso na natureza, temos que saber isso, sabemos com todos os animais da natureza, temos que saber isso com a natureza como um todo. Quem cuida da mãe garante a saúde e a sobrevivência dos filhos. Se você ama a vida, então, como conclusão, se você ama a vida, e eu tenho certeza que ama porque você não deseja a morte, se alguém tenta tirar a sua vida, você se apavora, então você ama a vida. Se você ama a vida, alinhe-se a ela, agora, nesse momento.
seja um companheiro, um parceiro da vida. Não trabalhe de uma maneira contraditória. Eu quero a vida, mas não a amo. Eu quero a vida, mas não a preservo. Se eu amo a vida, eu me alio a ela. Aí, por fim, o retorno ao essencial.
nós deveríamos buscar entender que a mulher e a natureza são expressões de um mesmo princípio. A geração da vida e o cuidado consciente. É exatamente isso. A geração da vida, o amor e o cuidado consciente, a generosidade.
E nós deveríamos valorizar esse elemento, mudar a nossa hierarquia de prioridade. E perceber que nós viemos aqui para construir a nós mesmos como verdadeiros seres humanos. E o verdadeiro ser humano se move pelo mundo deixando um rastro de valores, de virtudes, de sabedoria. Se queremos ser verdadeiramente seres humanos, temos que valorizar aquilo que tem valor. E a vida está no topo dessa escala. E todos os valores que caracterizam a vida.
e aquela que gera a vida, acima de qualquer coisa. Talvez o futuro da humanidade dependa da nossa capacidade de lembrar daquilo que a Terra nunca esqueceu, como amar sem possuir, como cuidar sem dominar, como viver em harmonia. Talvez o futuro, a sobrevivência da humanidade, dependa da gente lembrar daquilo que a Terra nunca esqueceu. Qual é o seu papel em favor da vida?
Se nós esquecemos, é muito difícil que ela sozinha consiga salvar a nossa espécie. Nesse momento ela precisa da nossa colaboração consciente, como aliados da vida. Então entendam esse aspecto do feminino.
tão importante, tão presente na natureza, tão presente e tão necessário na vida como um todo, e tão ausente às vezes da nossa hierarquia de prioridades, que a gente possa começar a se tornar realmente conscientes e responsáveis, tutores da vida e daquelas que a geram.
Eu espero que vocês tenham um bom dia da Terra, de boas reflexões, em contato com a natureza, e que essa possa conversar com vocês e contar muito dos seus segredos. Um grande abraço a todos.
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