Oração da Manhã 06-05-2026 | Quarta-feira
Jo 15,1-8
Eduardo Rocha
- Alegoria da VideiraJesus como a videira verdadeira · Deus como o agricultor · Discípulos como os ramos · A importância de permanecer em Cristo · A poda dos ramos que dão fruto · A fé que confia além da explicação · A colheita futura
- Experiências em portais sagradosDeus poda o que está dando certo · A poda contradiz a noção de justiça humana · Amor segundo a medida da eternidade · Fé adulta e a ausência de explicações · Confiar em Deus pelo que Ele é · A mão que planta também poda · Descompasso de olhares entre Deus e o ser humano
Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Amém. Paz e bem. Muito bom dia. Hoje é quarta-feira, dia 6 de maio, e a palavra é de João no capítulo 15. Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos, Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não dá fruto, Ele o corta, e todo ramo que dá fruto, Ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. Vós já estáis limpos por causa da palavra que eu vos falei.
Permanece em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecer diz em mim. Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto.
porque sem mim nada podeis fazer. Quem não permanecer em mim será lançado fora, como um ramo, e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. Se permanecer diz em mim, e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserges, e vos será dado. Nisto meu Pai é glorificado, que deis muito fruto, e vos torneis meus discípulos. Palavra da salvação. Glória a vós, Senhor.
Você que reza comigo todos os dias, você sabe que nós estamos no contexto da última ceia, daquela quinta-feira santa, quando Jesus reúne os seus discípulos, parte o pão, institui a Eucaristia, lava os pés e faz um grande discurso para os seus. Na palavra de hoje, ele usa uma imagem que era muito acessível para aquele tempo e eu penso que seja para nós também.
Ele está falando da relação da nossa vida com Deus. E para isso, ele diz que Deus é o divino agricultor, o vinhateiro, Ele é a verdadeira videira e nós somos os ramos dessa videira. Nós produziremos frutos se estivermos unidos à videira e dela bebermos da sua vida, da sua seiva.
Você sabe que o evangelho foi escrito em grego, e o verbo em grego para podar significa também purificar, retirar o excesso, limpar a planta de tudo que rouba a sua seiva e a impede de dar muitos frutos. Quando nós olhamos para essa palavra com mais calma, surge um detalhe que acaba abalando o nosso coração. O pai, além de podar o ramo seco, aquele que não produz mais, esse divino agricultor, que é Deus, ele também poda o ramo que está dando fruto.
Aquele galho que aos nossos olhos já está bom, ele também recebe a tesoura, ele também recebe a poda. Talvez essa seja uma das descobertas mais difíceis da vida espiritual. Perceber com o passar dos anos que Deus também poda aquilo que está dando fruto, aquilo que nós, aos nossos olhos, não deveria ser tirado, não deveria ser podado na nossa vida.
Quando nós olhamos então para essa atitude do divino agricultor que é Deus, nós quem sabe façamos uma experiência um pouco escandalosa, difícil da fé, porque nós esperamos que Deus tire de nós aquilo que está errado, e Ele tira aquilo que está dando certo. Ele tira amores que são legítimos, Ele tira sonhos legítimos, Ele tira projetos abençoados.
E a poda contradiz a nossa noção de justiça, porque corta o que parecia permanecer na nossa vida. E quando isso acontece, fica a impressão de que Deus mudou de lado. Ou então Ele se distraiu por um instante e deixou que a nossa vida nos ferisse, onde nós menos esperávamos. É diante desse corte inesperado que se abre a verdadeira ferida da nossa experiência com Deus.
Nós descobrimos um amor que ama segundo a medida da eternidade, enquanto nós amamos segundo a medida do nosso conforto. E talvez esse seja o primeiro passo da maturidade de fé, entender que Deus nos ama além daquilo que nós escolheríamos para nós mesmos.
Aos poucos essa descoberta vai nos colocando diante de um Deus diferente daquele que nós tínhamos pensado, daquele que nós achávamos conhecer ou gostaríamos que fosse. Aos poucos nesse processo das podas, nós vamos descobrindo um Deus mais íntimo, porque ele toca naquilo que ninguém teria autoridade de tocar.
E é nesse encontro inesperado que começa a fé adulta, quando nós paramos de exigir que Deus se explique diante das podas, das perdas, daquilo que é duro na nossa vida. Porque a quem atravessa a vida toda esperando explicações da parte de Deus é a quem aprenda, num determinado momento, diante das podas, diante das perdas, que algumas coisas só se compreendem caminhando dentro delas. Quem faz essa travessia descobre uma liberdade rara.
Deixa de viver com Deus como quem negocia e passa a viver com Ele como quem confia. Porque já entendeu no silêncio da poda que a confiança aparece onde a explicação falta. E que confiar em Deus não é entender o que Ele faz, é descansar em quem Ele é. E aqui está o grande ensino. A planta podada não vê a colheita.
Ela vê apenas o galho caído no chão. A colheita virá apenas na próxima estação. Por isso, toda poda na nossa vida, ela exige uma espécie de fé cega no tempo de Deus. Aceitar perder hoje sem entender, para colher amanhã sem reservas, com abundância.
Quem aceita ser podado por Deus, aceita amar Deus para além do que entende. Esse é o ponto mais alto da espiritualidade cristã. Talvez também o mais belo, porque no fundo a poda nos ensina algo que nenhuma outra experiência é capaz de nos ensinar. Que estamos seguros nas mãos de alguém que nos conhece mais do que nós mesmos.
porque vê a próxima estação e o fruto que lá nós poderemos oferecer. O vinheteiro também sabe onde a vida ainda pode crescer, e enxergue nós uma colheita que nós não somos capazes de imaginar. Por isso, no dia em que a tesoura encostar, lembre-se de uma coisa, foi a mesma mão que te plantou que está agora te podando, e a mão que planta jamais erra ao podar.
Eu não sei se você já se deu conta, mas diante das podas da nossa vida, quem recebe a poda e quem faz a poda raramente olham para o mesmo lugar. Talvez seja aí que comece a entender a delicadeza da fé, porque Deus corta olhando a próxima estação. Nós, quando recebemos a poda, nós olhamos o que cai, o que se perde, o que parecia ser nosso para sempre.
E nesse descompasso de olhares mora boa parte da angústia humana diante de Deus, porque Deus enxerga o que vai brotar na próxima estação. Nós, o que acabou de ser tirado? Deus vive no tempo da promessa. Nós, no tempo da ausência, da perda, da reclamação, quem sabe da revolta,
Eu arrisco dizer que a fé também brota nesse espaço silencioso em que nós procuramos olhar para o mesmo lado que Deus olha quando Ele faz as podas na nossa vida. Porque há quem leve uma vida inteira encarando o galho caído no chão e há quem em algum momento levante os olhos
e descubra que existe uma colheita inteira sendo preparada, justamente onde parecia haver apenas perda. E quando os nossos olhos, eles finalmente se cruzam com o olhar de Deus, nós entendemos sem precisar de palavras. Aquilo que ficou para trás, aquilo que era uma aparente perda, era apenas a estação anterior, e nem sequer era o suficiente para conter a primavera que ele já tinha sonhado para nós. E não se esqueça,
Aquelas mãos que plantaram a sua vida são as mesmas mãos que conhecem o seu coração e, num momento certo, estão fazendo as podas necessárias para a próxima estação. Confie. É Deus. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Uma boa jornada para você, muita paz e até a noite, se Deus quiser.
Você rezou com o Padre Eduardo Rocha, paroco da Catedral de Tubarão. Você pode acompanhar todos os dias pelo Spotify, Deezer, Castbox, Google Podcasts e YouTube. Basta procurar Oração da Manhã com o Padre Eduardo Rocha. E se preferir para receber pelo WhatsApp e Telegram, envia a palavra oração para 48 996 44 14 33.