Da fábrica de bico à fábrica de Marighella – pesquisas e tecnologias entre funk, trap e grime, com Fleezus
A música Fábrica de Bico, do MC Zói de Gato, pode ser considerada um dos marcos em termos de consumo de música pela internet no Brasil. O registro mais antigo no YouTube é de 16 anos atrás, e o vídeo mais acessado tem cerca de 13 milhões de visualizações. Mas a música é mais antiga que isso, e seu impacto foi maior.
Muito provavelmente, essa é uma impressão localizada, especialmente para quem cresceu no estado de São Paulo no começo dos anos 2000 e estudou em escola pública. Ainda assim, a combinação de MC Zói de Gato, MC Bill e Bolinho com “Buffalo Bill” e “Bonde da Juju”, do Backdi e Bio G3, remonta a uma paisagem que pode ser enriquecida por três elementos: o celular Motorola V3, a Escola da Família e as lan houses.
Por um lado, esses sons foram virais. Jovens periféricos, independentemente do gênero musical que preferiam, não escapavam de refrões que se tornavam clássicos quase instantaneamente. Por outro, vemos ali um modo de produção, da música aos clipes, que não só antecipou, mas pautou produções futuras, como as do Kondzilla, e contaminou, de um jeito ou de outro, linguagens mais recentes, como o trap e o grime.
Pegando o bonde dessa história a partir de Zói de Gato, conversamos com Fleezus sobre o que marca o gosto e as pesquisas dessa geração paulistana no começo dos anos 2000 e como isso representa um fio que liga outras estéticas e discursos.
Rodrigo Correa
Fleezus
- Impacto da música Fábrica de BicoMC Zói de Gato · Cultura musical nos anos 2000
- Revolução e mensagem na músicaMarighella · Palestina
- Preconceito contra FunkEstética do funk · Influência do trap · Grime
- Memória e MúsicaEscola da Família · Cultura periférica
- Impacto da Pirataria e EmulaçãoEspaço Rap · Coletâneas piratas
Um bom momento a todos os que lhe escutam agora. Eu sou Rodrigo Correa, esse é o Balanço e Fúria, um podcast que tem a pretensão de interpretar as relações entre música e política no decorrer da história. E se você se interessa pelos temas debatidos aqui no podcast, eu tenho uma recomendação para você. Procure a Sob Influência Edições.
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Bom, começando mais um episódio do Balance Fúria, hoje com um convidado qual eu já queria ter trocado ideia há algum tempo, mas entre preguiças, correrias, descontinuidades, eu acho que só nesse começo de 2026 eu consegui me organizar, dar um salve em geral que eu já queria ter conversado para efetivamente materializar o papo. Flesos, e eu acho que como vocês já devem ter visto, tem uma brincadeira no nome do episódio,
que é pra, enfim, trazer aqui um pouco a experiência de pesquisa, de produção, de troca de som, que permeia a vida de quem tá na quebrada e é maluco por música. E é permeado por músicas muito diferentes, do samba ao rap ao funk. E eu acho que tem um recorte específico aqui da geração que começou a pesquisar som no começo dos anos 2000.
que é uma certa facilitação na aquisição de alguns equipamentos, seja o celular, seja a lan house, e com o passar do tempo isso vai compondo também a estética de quem está na quebrada fazendo som. Então essa parada da fábrica de bico, uma menção ao sol do zoio de gato, que ali na primeira década dos anos 2000 foi icônico, todo mundo sacou esse som, viu. As primeiras visitas ao YouTube, inclusive, estavam muito associadas a sacar também.
a montagenzinha do Fábrica de Bico, até o Fábrica de Marighella, que eu acho que pode representar uma outra ponta desse desenvolvimento de referencial, de batida, de produção com os parceiros e amigos, enfim. Flesios, sinta-se à vontade para falar de si como achar melhor e a gente já começa esse papo.
Mano, primeiramente, boa noite, né? Quero agradecer o convite, antes de qualquer coisa. É muito legal a gente estar trocando esse papo aqui, é um papo muito importante também, pra gente conseguir tentar chegar em algum lugar no que diz respeito a ideias sobre a nossa formação cultural. E é isso, vamos pra cima, vamos ver o que pega aí, né? Dentro desse universo da música periférica.
Da hora. Eu acho que a primeira coisa que vem na minha memória, que inclusive eu tava pensando nisso esses dias, é a pirataria. E tem uma parada simbólica pra caralho no meio da pirataria que eu nunca cheguei a pegar um original na mão, eu nunca cheguei a ver um original na mão, que é o Espaço Rap.
Eu nunca peguei um espaço rap original na mão, mas as coletâneas, tanto que eu demorei muito tempo pra sacar que as coletâneas do espaço rap eram cópias de coletâneas originais, que estavam circulando. Eu achava que era só uma coletânea, mano, assim, de quebrada, que tava ali no cabelô, e é isso mesmo.
Mas enfim, eu puxei aqui o Espaço Rap, mas eu queria saber de você, puxando nessa memória, como que a coisa da circulação do som, a partir dessas vias meio da contravenção ali, como que elas chegavam até você para inspirar você numa pesquisa?
Mano, assim, eu tenho um contato muito próximo com o primo meu, assim, que a gente cresceu juntos, e a gente tinha os nossos horários ali, porque ele morava, eu moro num quintal que tem três casas, né, que meus tios moram no mesmo quintal que eu, e na casa da frente era onde o meu primo morava, que hoje ele não mora mais aqui.
Eu me reunia com ele na casa dele, assim, tipo, fim de tarde, pra escutar Espaço Rap, escutar... Escutar... Qual é o outro programa, mano, que é de reggae, mano, da 105, é o... Meu Deus do céu, mano.
Mas tinha um programa de reggae também na 105, mais à noite, assim, pós-espaço rap, em que ali começou uma pesquisa muito forte, muito intensa, porque alguns sons a gente esperava a noite toda pra tocar, tá ligado? Tipo assim, quando tocava Noção Rasta, que é uma banda que eu curto muito de reggae, quando tocava Ponto de Equilíbrio, ou quando tocava o próprio Racionais, quando tocava Dexter, tipo assim, era aquele momento, era o nosso momento e era o momento da nossa pesquisa também. E além do mais...
como você disse também, do lance dos anos 2000. E a gente veio daquele momento em que a gente estava saindo do... A gente estava saindo, a gente estava entrando na era da tecnologia, né, mano? Computador, etc. E eu pude presenciar de perto essa transição e de ter aquele lance de tipo assim, eu estar com o meu primo ali escutando o som, eu e ele lá.
na casa dele ou ele aqui em casa, pra gente ligar o rádio e sintonizar, e saber qual era o nome da música, esperar o Fábio Rogério falar o nome da música, e ele falar, pô mano, o nome da música era a música tal, e a gente ia na feira, no sábado, de manhã, buscar o nome específico daquela música, e procurar nas coletâneas que os caras faziam, os piratinhas.
tá ligado? Pra vender na feira, tinha de reggae, tinha de rap, tinha de black total também, que era uma influência muito forte na minha vida também, que era aquela coisa, tipo, o MTV era um canal aberto, né, mano, na época, né, que quando eu era jovem era um canal aberto, e a gente, e multishow também, teve uma influência muito forte, assim, na cultura hip hop pra mim, pelo menos pra mim, pro meu irmão, que a gente tinha o Gato Net, né, geral que na rua tinha Gato Net.
e passava na multishow os clipes, mano, e a gente olhava os clipes e falava, mano, olha que clipe louco, olha isso daqui como é foda, e tal, e aí começou, mano, de pequeno assim, de moleque, aí tem outras influências também já, que aí já é influência familiar, mas o que eu tenho fresco na minha memória, assim, é isso, assim, e a gente tinha, tem um colégio, uma escola aqui perto de casa também, uma escola pública que aos finais de semana,
ela abria pra ter movimentos culturais e movimento esportivo pra trazer incentivo pra molecada pra ir jogar bola e etc, com monitoramento de professores e tal, aos finais de semana, e aí a gente comprava os piratinhas na feira, no sábado de manhã, ia cedo, pra quando fosse a tarde que a gente ia na escola lá pra jogar bola pra ouvir um som, a gente levar e aí a tia da cozinha fornecia um radinho pra gente lá, pra gente colocar esse CD, e ali a gente colocava as coletanas de rap, de reggae, de black, de rock, até rock
entrava no meio também, tá ligado? Porque era isso, assim, essa é a memória que eu tenho muito fresca, assim, na minha cabeça, e aí, porra, a gente pode entrar também num outro universo, que aí já é um pouquinho mais velho ali, nem tão velho assim, né, que já é no funk e tal, que aí começa uma outra linhagem, mas a minha linhagem mesmo era essa daí, mano, que era o que eu tinha mais próximo, assim.
Total, Escola da Família marcou, né, mano? Acho que era Escola da Família o nome da caminhada. Quem ali entre 2000 e... Sei lá, mano, se tinha nos anos 90 isso, mas quem tá... Escola Estadual, no estado de São Paulo, de 2002 a 2000... Sei lá, eu saí em 2010 do ensino médio.
Mas quem estava na escola estadual, no estado de São Paulo, nessa caminhada, pegou um pedacinho da escola da família, que também, andar de skate na escola, ficar ali com os disc-man, com os MP3 rolando. Mas enfim, e tem uma outra coisa que eu acho que compõe uma certa escuta compartilhada na quebrada, que tem alguns sons.
que são sons pra se ouvir dando peão de carro. Vida Louca parte 1, peão de vida louca. Inclusive, essa é uma outra ideia que eu vou desenrolar no outro episódio, que existe uma experiência muito profunda da memória de algumas pessoas com música com um carro, mano. Com Monza, com Monza da época, tá ligado? Com Monza do tio. Tem uma...
Eu tenho uma brisa que é o Tig Jassana na picadilha. Mano, você vai criando um mapa mental da sua área ou de uma área que você nunca conheceu e nem vai conhecer, mas você já começa a criar identificações por conta de uma descrição. De uma descrição que existe ali numa música, né, mano? Uma música que um carro passa tocando.
Então eu acho que existem essas formas de você contaminar o outro com uma cultura que ao mesmo tempo ela tá sendo ali numa dimensão meio privada, tipo um carro, né, mano? Com os tweets falantes com o investimento do malandro da quebrada. Ouvindo Vida Louca parte 1, mano. Não tem como você fugir.
E é isso. Tem essa característica aí da quebrada que é você ouvir de tudo, né, mano? Eu fui um moleque que foi formado no punk hardcore, mas não escapei, era impossível. Era impossível escapar do trilha sonora do gueto e do Racionais. Impossível. Depois, obviamente, aí já pesquisando mesmo em casa e tal, contra-fluxo, quinto andar, essas paradas vão contaminando.
Porque é interessante, né? Porque a nossa porta de entrada são os mais velhos que vêm da década de 90 escutando trilha sonora, racionais e tantos outros MV Bill. E aí, quando a gente começa a crescer um pouco mais, que a gente começa a pegar ali...
A pré-adolescência, pra adolescência, começa a pesquisa de verdade, né? A pesquisa intensa, que aí a gente entra nesse mundo que você disse, subsolo, contra-fluxo, quinto andar, e por aí vai, elo da corrente, que é o lado B do rap ali, né? Porque o lado A, entre aspas...
né? Ele tá muito, muito, ele faz parte da nossa vida, ele faz parte do nosso convívio, é aquilo que você disse, tipo assim, esse rap, mano, é impossível você não ouvir, tá ligado? É impossível. Seja na escola, no radinho, no celular, com funk, o rap ali, ou seja na rua, com seus camaradas, sentado na calçada, tá ligado? Você é o cara ali, porra, tá passando, mano, mano do rock, mas você conhece o moleque de miliana, seu camarada.
Aí ele senta na calçada ali E vocês ouvam um rap junto E esse bagulho é doido E aí você acaba conhecendo o lado dele também Eu tenho um amigo meu aqui Que é meu vizinho até hoje Que eu não moro aqui a minha vida toda E ele sempre foi do rock, tá ligado? E ele me ensinou muita coisa também Do lado do rock Por influência do pai dele Que já vinha de outro rolê e tal E essa troca aqui é um bagulho interessante também, tá ligado? Quando você é muito novo assim Puxando esse gancho um pouco do hardcore, tá ligado?
Não, total, total. E eu mencionei ali o Zóio de Gato no começo, porque teve ali, eu lembro exatamente do momento que o YouTube chega na escola. Aí a gente já vai remontar de novo o Escola da Família, porque era um momento que muitas pessoas do bairro tinham pra usar a internet.
Então, ao mesmo tempo que eu ali, criancinha, me identifiquei muito forte com as bandas punk que eu ouvia e com os moleques do skate que eu andava junto, quando a gente tava na escola da família com os nossos parceiros do bairro, o que a molecada tava vendo? Os clipes do MC Copinho. Os clipes não, né, mano? Aquelas montagens de foto. Aquelas fotos, né? Aquelas fotos. É, tipo o bonde do rinoceronte, mano. Caralho, quem que canta mesmo?
Eu não vou lembrar também. Ficha faz tanto tempo. Mas o Zóio de Gato, o próprio Zóio de Gato, mano, foi uma linhagem ali que, tipo assim, tem muito... Eu acho que a questão com o funk, mano, ela tá muito ligada à nossa autoestima, tá ligado? Porque o rap, por mais que o rap tenha a sua mensagem, ele não trabalha tanto a sua autoestima assim, tá ligado? A não ser que você esteja escutando um Vida Louca parte 1 no carro.
Aí a gente tá falando de autoestima, aí a gente tá falando de empoderamento dentro do hip hop, da cultura hip hop. Mas no mais, mano, tipo facção, tá ligado? Que era coisa que a gente escutava, tipo assim, não é pra você falar caramba, mano. Nós é brabo mesmo, nós é foda, pá, nós é da quebrada mesmo. A gente tem orgulho de ser da quebrada e pá.
O Zoé de Gato, ele veio trazendo um contraste diferente, um olhar diferente para o que era você ser de uma quebrada. Por mais que ele tivesse uma mensagem também, que era uma mensagem mil grau, que ele dava nas ideias, ele trazia, que era um pouco o que o Sabotagem também conseguia fazer.
tá ligado? Ele conseguia trazer autoestima, você fala assim, nossa, mano, caralho, eu queria rimar igual esse cara, mano, eu queria ter o cabelo igual o dele, eu queria aparecer nos filmes igual ele, tá ligado? Com os olhos de gato é a mesma coisa, mano, eu queria ter aquele, pô, eu queria aquele pulmadisco que os olhos de gato ficavam usando naquele show, mano, no Cabral, aquele boné do Santander, aquele bagulho, tá ligado? Tipo assim, é autoestima, mano, as correntinhas que ali começou, as correntinhas fininhas de ouro, tá ligado?
É um bagulho de autoestima mesmo, do quebrada, tá ligado? E eu acho isso muito foda, mano.
Acho que esse próprio, mano, do bonde do rinoceronte, que a gente não vai lembrar o nome dele, esse som é a descrição das grifes, né, mano? Porque assim, no trap o bagulho tá presente pra caramba, no grime também, mas no funk tinha uma coisa que tava entre o proibidão
E entre a putaria, mas o bonde do rinoceronte se insere ali numa formação estética do que é a vileiragem, tá ligado? Do que é a vileiragem de 2005, 2006. Porque meio que antes disso...
Era, mano, era Rio e uns funk de facção. Ou São Paulo e uns funk mais tristes, né, mano? Duda Marapé, assim, os funk também meio tristes, né, mano? Isso, que já é um pouco mais, tá ligado? Que já é pra baixo ali e tal. E aí, tipo, porra, aí depois vem, né, mano? Aí vem o Rotson também, que aí já começa... Por mais que ele venha de uma linhagem também.
diferente da linhagem de São Paulo aqui, mas ele também tinha umas músicas já com uma outra visão, com outro olhar. Tinha, lógico, as músicas que ele puxava os fundamentos dele lá do Rio, mas também tinha uns outros sons, Copinha, a mesma coisa, tá ligado? Eu acho que assim... Não sei... Porque eu acho que ficou forte em São Paulo mesmo com o da Leste.
Quando o Daleste puxou o fundamento mesmo, mano, aí, que era o bagulho da ostentação e pá, porque até então não tinha esse rolê. Era um bagulho ou outro ali, mano, que você via, era um símbolo ou outro ali que você conseguia identificar ali de ostentação, né? Tá ligado? Mas aí quando chega o Daleste aí as coisas mudam, né, mano? Aí o bagulho já... Mas aí a gente já tá em 2000 e...
7, 8, 9. É, aí da Leste já tá um pouco mais pra frente, mas falando de 4, 5, era isso aí mesmo, mano, era Zói de Gato, tá ligado? Zói de Gato mesmo no Cabral e Máximo, Máximo que é.
que tá muito explícito nessas gravações, o bagulho estouradão, que eu acho genial de como marcou a época, e do rap com esses grupos que a gente falou. A gente já tá falando de dois extremos, né, mano? De um funk já ali do Copinhos é de gato pra um rap que eu acho que tinha a intenção de ser mais sofisticado da ascendência mista, do elo da corrente, do contra-fluxo.
que já vinha com uma outra lírica e tal. Aí eu acho que você tem uma formação que mistura ali no começo essas duas influências, né? Se banha nesses dois riachos aí pra ir desenvolver talvez uma visão. Porque assim, teve uma época que foi difícil fugir do Bumbep, né? Teve uma coisa das batalhas de rima que foi muito forte, pautada por uma estética Bumbepera. E logo na sequência o trap deu uma... arrefecida no cenário.
Sim, deu aquele fresh, né? Porque com as batalhas, eu não participava de batalha, mas eu já frequentei bastante, eu fui em algumas. E a batalha ali nada mais era, tipo assim, beleza, tinha um momento de lazer ali, do improviso e tal, que isso daí era o máximo pra caralho. E tinha a galera que fazia o rap ali, que foi o que a gente já citou. Mas no caso do... Quando vem o trap, mano, o trap ele vem e ele dá aquele...
Porque aquele alívio até, pra mim, né? Minha concepção. Porque eu via a safra de Emicida, Rachid, Projota. O Rachid ainda era um mosca, ainda, na época. Depois que ele virou o Rachid. Aí veio aquela safra ali, oito, nove, dez, onze. Aí eu falei, mano, e aí? Quem que são os próximos agora, mano? Os caras...
Os cara tá aí, os cara fez o nome deles, e pá, os cara já tá com reconhecimento, só que nós tá com sede ainda, mano, eu ainda tô com sede, tá ligado? Eu quero conhecer mais coisa, tava nessa brisa de buscar por mais coisa, e não tinha aparecido, e esses caras participaram de batalhas, eles saíram dessa transição, né, o MC de 2006, ele era de batalha, né, 2006, 7, 8 ali, aí eu acho que final de 8 pra 9 ele já começa a fazer o... pra quem já mordeu um cachorro por comida.
Se eu não me engano, é 8-9. Se eu não me engano. E aí eu fiquei me perguntando. Eu falava, mano, e agora? Da onde que vai surgir os caras mesmo, os moleques que vai pá mesmo? Aí aparece quem, né? É que tá gangue.
os moleques do Rio, aí aparece Start Rap, tá ligado? Aí aparece quem mais que tinha aqui? Pro lado de São Paulo, tinha o próprio Costa Gould, que aí, inegavelmente, os cara tava aí já também, começando a fazer as coisas, movimentar, primeiramente. Aí o bagulho, aí dá aquele... Só que no meio disso tudo, tá o trap ali, né? Virando uma nova força em São Paulo.
com o recado de mob, fazendo acontecer um movimento interessantíssimo na cena, que era tipo assim, porra, nós vai puxar esse bonde, esse bonde que nós quer representar, essa bandeira que a gente quer levantar, quem quiser vir com a gente aqui, que é do Bumbap, vem, quem não quiser, forte abraço, nós estamos aqui, e vamos que vamos.
Que foi muito legal, mano. E foi muito legal ter feito parte também, ter visto de perto ali, tudo que aconteceu, assim. Foi muito doido, mano. O rap, ele tá toda hora em transformação, né, mano? Toda hora. E a gente só se dá conta disso quando o tempo passa, né? Que a gente começa a ver de fora as coisas.
Não, total. E tem um lance que eu sinto que no próximo passo aí, que é a da incorporação do grime na estética, do grime, do drill na estética, que ele traz um pouco da lírica mais para o centro da produção, que no trap eu não sei se a lírica é o centro da parada.
Talvez uma coisa mais estética mesmo, que vai estar acompanhada de uma canção. Mas no grime, se não tem barra, se não tem rima, já era. Então, por mais que seja uma linguagem que tenta se vincular, às vezes, mais com a música eletrônica que pro rap.
Eu acho que teve essa virtude de capturar o principal do rap, que é a mensagem. Não sei se o principal, né? Tô falando aqui de uma coisa importante nos cinco elementos ali, que é a mensagem, mesmo que ela não seja uma mensagem no sentido de lição de moral...
Eu tô falando uma mensagem no sentido de elaborar uma ideia. Pode ser, mano. Pode ser a putaria, pode ser a malandragem, pode ser o que for. Mas ela vem numa caminhada elaborada, né? Então, isso no Graeme eu vi que quando apareceu a galera rimando em português, eu falei, caralho, mano, só rajada. Até as putarias, putaria nervosa, mano. Só rajada, assim. Vários, vários. No Rio, em São Paulo. Enfim, é uma estética que também colocou essa linguagem como um confronto, né, mano? Um desafio. O Graeme parece que chegou desafiando.
Porque no grime você não pode desperdiçar a linha. Cada linha é importante, mano. Cada fala que você coloca na sua rima é importante. Tá ligado? Quando eu falo de Flesios também, o Flesios dentro do grime é isso. É ter aquele cuidado, ter aquele carinho com o lance, porque foi o que me projetou também. Tá ligado? Foi o que me projetou pra cena. Foi o que me fez chegar até onde eu cheguei, que obviamente tá muito longe ainda do que eu quero chegar, mas...
que me apresentou pro mundo, falou, ó, oi, eu sou o Flesios, foi o Grime, tá ligado? Então, o carinho pelo Trump é essencial e não desperdiçar barra é mais essencial ainda, mano, tá ligado? E é isso que você falou, o Grime, ele coloca a linha como centro, tá ligado? A batida...
Ela é muito importante também, mas eu acho que a rima, assim como dentro do Bum Bap, a rima tem que ser o principal, tá ligado? Tipo assim. E aí se você acha um ser iluminado, igual eu achei, que o cara, do mesmo jeito que você chega e você bota a rima, ele coloca a batida e não deixa a peteca cair, fica os dois ali se degladiando positivamente para entregar o seu melhor ali.
Aí, porra, aí acontece o que aconteceu, mano, tá ligado? Aí acontece Brime, aí acontece Esquibaile, aí acontece... Tá ligado? Porque é isso, é a entrega também. Não, total. E pensando nessa linha da lírica, tem uma parada aqui. Aí a gente volta para as nossas duas fábricas, a de Bico e a de Marighella. É que a gente tem o trecho icônico, você e Febem, terceiro mundo, fábrica de Marighella. Então, tem um certo...
Eu não queria falar de desenvolvimento. Eu não sei exatamente como colocar aqui essas duas faces de uma fábrica de bico, de um relato de uma realidade que é violenta, no caso do Zoé de Gato. E que ele meio que incorpora essa realidade que é violenta mesmo e vamos para cima a partir dela. E na do Marighella já é uma violência que está associada a acabar com essa violência que...
que está na quebrada, a partir de uma figura histórica, a partir do Marighella, que foi um guerrilheiro. É uma outra guerrilha ali proposta, essa memória que se abre para o público. Esse vocabulário que atravessa o funk, que atravessa o boom bap, que atravessa o trap, que chega no grime, que reconhece algumas figuras históricas como coisas a serem exploradas, tipo Marighella.
E do outro lado, Palestina também no rolê, que, mano, poucos rappers eu ouvi falando da Palestina, e você, Febem, traz o bagulho assim com uma recorrência, tem menção, e assim, é a causa do nosso tempo, né, mano, o que aconteceu em Palestina, o que tá acontecendo na Palestina, é o que vai acontecer no mundo inteiro, nos países pobres todos vão ser exterminados, porque permitiu que acontecesse aquilo na Palestina, enfim.
Como você vê esse trajeto de repertório mesmo, de vocabulário, que foi chegando em lugares como o do Marighella, como o da Palestina, etc? Eu acho que a análise, o ponto de partida tem que ser o motivo. Por qual motivo eu queria subir no palco? O que eu queria passar? Qual é a mensagem? Quem eu quero alcançar com isso?
Qual é o meu dever através disso? Meu dever é revolucionar, mano. Através da música. E quando a fábrica de bico...
ela se transforma em fábrica de Marighella, é só uma extensão da história, tá ligado? É uma adaptação da história, porque o Zoé de Gato, ele tava revolucionando, mano, era o início dos anos 2000, era o início do funk em São Paulo, tá ligado? Com uma polícia em cima dos caras, tá ligado? Tipo assim, oprimindo os caras. Os caras tava ali pra revolucionar, mano, assim como Marighella também revolucionou.
E a música Brian é uma revolução, mano. Tá ligado, mano? Falar da Palestina é falar sobre revolução. Não se calar sobre o que tá acontecendo, porque você disse bem, poucos rappers falam sobre a Palestina. Porque eles não falam sobre a Palestina porque eles não querem perder...
as suas regalias que existem de não falar sobre a Palestina. Porque você falar sobre a Palestina, você cutuca algumas pessoas que se dizem fazer parte do movimento, mas não entendem de fato o que o movimento significa.
sabe? E é igual eu vi rapper como eu vi aplaudir o Maduro ter sido tirado dentro do seu país pra ser preso nos Estados Unidos. Então tem pessoas que elas preferem se manter na superfície porque tanto pra você rimar quanto pra você pesquisar, se você se manter na superfície ela vai te dar menos trabalho.
Então é mais cômodo, é mais tranquilo. E a gente não veio aqui para ficar cômodo e para ficar tranquilo. Nada está tranquilo. Quando a gente enxerga as verdades do mundo, o papel do Brime, o papel do Flesius e o papel do Marighella e do Zóio de Gato foi botar para fora.
Então é isso. A conexão é a revolução e o poder da fala. Porque através da fala da Rádio Pirata que o Marighella lançou e através da música que o Zói de Gato lançou, chegou até mim, que fez mudar a minha cabeça e olhar para o mundo com outro olhar.
Então, eu acho que a revolução, ela faz você olhar diferente, faz você tirar a sua bunda da cadeira e tentar fazer alguma coisa. Por mais que as pessoas acham que, ah, mas o que vocês estão fazendo em prol? O que a gente faz em prol é passar a mensagem adiante. Fala, galera, tenta olhar por aqui. A gente não vai pegar no braço de ninguém a força e falar, senta aqui, agora você vai aprender. Nosso papel é subir no palco e passar a mensagem, tá ligado?
Então, não é isso. Os olhos de gato, Marighella, eles todos tiveram seus papéis e a gente está tentando só dar continuidade a um legado que já foi deixado lá atrás e que a gente quer continuar, tá ligado? É isso, revolução.
Não, total. Até porque às vezes eu acho que alguns artistas confundem passar a mensagem com o da oreiada, né? E tem essa preocupação em não, em não. Mas eu não acho que isso acontece no caso do Braime, no caso do seu trampo, no caso do trampo de um monte de gente que se coloca e sempre se colocou, e desde muito tempo, assim, sei lá. Ou seja, como for do X, que eu acho que pra mim é um marco.
no rap, na produção mano, o conteúdo é denso o conteúdo é pesado mas aquele disco tem uma produção, tem uma atmosfera que compõe ele que mano, não é um sobrevivendo no inferno não é a facção central em termos de peso mas a mensagem é tão potente, tão radical quanto, só que ele conseguiu incorporar aquilo numa produção que funciona sei lá, sarcasmo e choco bagulho
comunistão, mas rap underground do jeito que falava com nós ali com 14 anos, 2005, 2006 batia até o subsolo tem o caralho, aquele som que fala do sociólogo que envelhece e fica caduco, porra, mano
Esse som é mó história, mano. E o moleque, ouvindo aquilo, eu falo, caralho, mano. E assim, nunca foi o rap de oreiada que pegou a gente pra juntar a ler com o Creta, pra falar, porra, o que tá acontecendo na Palestina, o que tá acontecendo nos Estados Unidos, isso aí não dá, velho. E eu acho que o trampo que vocês vêm fazendo consegue se enquadrar nesse lugar que...
conecta com o público a partir de um de um vocabulário que a gente já conhece não é tão estranho, tá ligado? você não vai ter que se deparar com estranho o tempo todo ficar com medo, tá ligado? é, eu acho que é isso, e a forma que a gente tem de se comunicar também é não tentar complicar tá ligado? é tentar fazer com que a mensagem chegue com
Não é que com mais facilidade pro público, mas que ela chegue com mais leveza também, mano, tá ligado? Acho que já tem muita gente que dá oreadas já, já tem muito rap aí que se você parar pra ouvir, você vai escutar o que você não quer, mano, tá ligado? Naquele momento, faz parte, tem rap pra tudo. Só que do meu lado de cá, eu tento fazer isso aí que você falou, mano, trazer de uma forma mais...
mais fácil de entender também, tá ligado? Porque eu já tentei complicar e quando você tenta colocar palavras que é a sua vontade no momento, mas você tem que pensar se vai fazer sentido para quem vai estar ouvindo, tá ligado? E aí você acaba deixando as coisas mais fáceis também, a linguagem mais fácil.
Porque o público médio gosta de consumir, mas hoje, mano, com a era da tecnologia, a galera não tá prestando muita atenção, tá ligado? E aí se a gente colocar muita coisa, mano, acaba ficando mais disperso. E eu sinto, até abordando agora um tema diferente também, da percepção que eu tô tendo de música agora, que é isso, mano, tipo assim, se a batida for boa, pouco importa a letra, mano.
Tá ligado? Se a batida for boa, o que você tá falando ali, se você estiver falando que a batatinha esparrama pelo chão, a galera vai achar o máximo, tá ligado, mano? É por isso que a gente vê tanto artista do pop, tanto artista de outros segmentos ganhando grana, mano, porque é isso, cara, é o que importa mesmo no fim do dia é a galera...
Ficar suave mesmo e escutar um bagulho que não vai fazer elas pensar tanto, tá ligado, mano? Bom, é, chega até a ser triste dizer isso, mas é a realidade, mano. É, eu acho que tem espaço, né? Tem espaço pra essas paradas também, mas existe um compromisso, vai, enquanto artista, enquanto divulgador, enquanto comunicador. Eu acho que as pessoas têm responsabilidades, têm compromisso. A gente não vai acabar nunca.
E tem coisa que simplesmente não dá para fingir que não acontece, ou partir do ponto mais raso para se posicionar diante de coisas que são muito graves. Desde os 120 assassinados no complexo do Alemão até Palestina, ou qualquer coisa que vem acontecendo nos últimos...
Desde que o mundo é mundo, né? Mas, enfim, eu acho que a gente vai arrumando formas estéticas que vão se inserindo na rotina das pessoas, no vocabulário das pessoas. E a estética que vocês vêm fazendo, escolhendo...
Tem atingido pessoas muito jovens, assim. Assim, eu... De 2019... De 2016, vai. De 2016 até o fim da pandemia. Eu tava colando num rolê que a minha impressão era de que tudo tinha envelhecido. Assim, só tinha coroa.
E depois da pandemia eu comecei a ver as coisas se renovando E mais especificamente em espaços que rolam o Grime Ou o show do Brime É onde mais eu vejo gente jovem E incorporando uma certa consciência de que há Uma mensagem ali que tem que ser considerada Que está sendo considerada ali Na lírica e tudo mais E...
Porque, tipo assim, mano, e você disse muito bem, a gente tá atingindo jovens e o que pra mim é o mais legal e que pra mim é o mais importante, e a opinião de quem pensa o contrário também não me importa, que a gente tá atingindo a base, mano.
É a base que tá no nosso show. Que espera o ano inteiro, tá ligado? Pra ir num baile do Brian, que acontece uma vez no ano. Tá ligado? Moleque que às vezes tá guardando um dinheiro ali, o moleque nem fez 18 anos, vai fazer 18, aí a mãe vai dando uma merrequinha ali, ele tá esperando, já teve casos que aconteceu, o moleque ficou esperando, esperando, guardando, guardando, guardando. Fez 18 e foi no baile, tá ligado, mano? Tipo assim... E...
Ou que foi fazer um corre também, tava trampando e juntou um dinheiro, tá ligado? É isso. O legal é que a gente tá conversando com a base, mano. Com a favela mesmo, tá ligado? Com o moleque de quebrada mesmo. E também tem os moleques que também já tem uma condição melhor também e o som é pra todo mundo. Mas o que me deixa feliz mesmo, mano. Feliz mesmo. É de eu olhar e ver que tem um monte de cara ali e mina igual a mim, mano. Lá embaixo, tá ligado, mano?
Isso que pra mim é gratificante Quando eu olho no olho ali, eu vejo que é o olho Do quebrada mesmo, mano Ou da mina que é quebrada mesmo, tá ligado? E que tá ali cantando, apontando pra mim assim, ó E eu tô apontando pra eles e tipo assim Mano, nós tá junto nessa porra, mano
E eu sei que eles sentem isso, tá ligado, mano? Eu sei que eles sabem que eu tô com eles, tá ligado, mano? E que eles tão comigo também. Tá com o Braime também, tá ligado? E que o Braime tá com eles, mano. Porque a gente... É isso aí, mano. A base é o que forma o Brasil, é o que faz o Brasil girar, tá ligado, mano? E a gente ter essa galera do nosso lado é gratificante pra caralho, tá ligado, mano? Essa que é a brisa. E tem uma parada que eu espero que esteja acontecendo com essa geração também, que aconteceu com a gente, que foi essa...
possibilidade, quer dizer, a geração atual tem mais possibilidade do que a gente teve de ouvir tudo, né? Mas essa abertura de se deixar penetrar por outras coisas, assim, você é um maluco do rap que ouve também um punk saca que pertence ao mesmo universo e vice-versa e tá no bairro, tá rolando uma roda de samba, você saca qual que é do movimento. Porque uma coisa que eu tenho percebido nesse último ano e meio, talvez, eu vou tentar...
trazer aqui as referências que me deixaram meio curioso, assim. A primeira é um show do Major RD, eu não sei se ele fez isso em mais de um show, que ele projetou um vídeo clássico de um punk dos anos 80, o Pobreza, que é um punk falando de saúde mental. É um vídeo dos anos 80, e é um mano falando... É, é. Não sei se já chegou a ver esse vídeo.
Esse vídeo é cabuloso, mano. Quem adoece as pessoas é o trabalho, mano. O cidadão não tem tempo pra descansar, não tem tempo pra lazer. É isso que adoece, não tem que ter manicômio, tem que ter condição. Enfim, aí eu vi o Major RD colocando vídeo desse punk falando dos anos 80 e o caralho. Qual que é das conexão, né? Aí depois...
Ele lançou aquele clipe lá, Toda Garota Como Eu, que é... Mano, tem muitas camadas aquilo ali, ela tocando um pop-punk, um rock, assim, falando sobre uma adolescência que queria ser emo, mas ela era preta.
Tipo, tem uma outra caminhada de pesquisa de som da quebrada que num momento histórico ali, com a MTV torando, que o rock era a linguagem oferecida como... Quer ser diferente? Ouve rock, tá ligado? Seja do rock. Eu acho que tinha muito essa coisa.
que é meio pouco falado. Eu já vi entrevista da Tachi Trace falando que elas tinham a fase do Paramore, dos Meets também. E mais pra trás ainda tem uma entrevista com o MV Bill, que ele fala que o primeiro contato dele é uma conversa dele com o João Gordo, que ele fala, mano, sabe a primeira vez que eu ouvi ratos? Eu andava de skate na Cidade de Deus nos anos 80, um vizinho meu me trouxe um disco do Ataque Sonoro, que tinha ratos de porão e uma parte de banda punk dos anos 80. Então,
Tem uma coisa assim que está no repertório da galera que está fazendo som hoje em dia, que na adolescência acessou outras paradas, mas que com o amadurecimento foi entendendo um certo lugar de pertencimento. Foi expandido o horizonte se reconhecendo. Aí eu não sei como que você viveu esse intercâmbio, se você viveu esse intercâmbio, se tem as coisas que você brisou, que te marcou, que estão fora desse ambiente que a gente está falando.
E como que você vê hoje em dia, se tem esse intercâmbio, se acha que é uma coisa que está acontecendo.
Mano, o intercâmbio continua acontecendo, mano. Eu sou prova viva disso, que o tempo pode passar, mas no fim as coisas elas se conectam, os estilos se conectam. Eu, por uns anos assim, mano, eu escutei muito hardcore também, tá ligado? Tipo assim, punk também escutei bastante, tá ligado? Zumbis do espaço pra caralho, ratos.
Aí depois fui ficando mais velho, aí comecei a escutar mais hardcore, tá ligado? Aí, porra, sou muito, muito, muito, extremamente fã do Rancore, tá ligado? Tipo assim, Rancore é a minha banda favorita disparada do Brasil, de qualquer coisa, é o Rancore, tá ligado, mano? E hoje eu poder trocar mensagem com o Teco Martins e falar E aí, viado, vai lançar um disco novo, vai, já me manda, deixa eu escutar o bagulho.
A conexão continua existindo, tá ligado, mano? E tipo assim, ele fica em choque que eu curto o som dele. Ele fala, mano, da onde você curte meu som, mano? O som nosso aqui, mano. Eu falo, mano, eu sempre escutei vocês, mano, tá ligado? Por influência dos moleques da quebrada aqui mesmo, mano. Tipo assim, é... E aí, porra, a gente tem aquela fase, né, mano? A fase do rock ali, a fase do skate. Eu nunca andei de skate, né, mano?
Nunca tentei, nunca me arrisquei. Mas sempre achei foda também, tá ligado, mano? Tipo assim, e os moleques que era do punk aqui da quebrada, Tipo assim, é...
Colar pro centro, pra andar de skate, tá ligado? Ficar bebendo cerveja na porta da galeria do rock ali. Eu achava aquilo, mano, um style muito foda ali, um estilo de vida cabuloso. Eu falava, mano, os caras são muito sinistros, tá ligado? Os caras com 15, 16 anos, saem de casa com skate, embaixo do braço, vai pro centro, andar de skate, ficar bebendo vinho e ouvindo rock, o bagulho falava, mano... É isso. E eu sempre tive essa identificação, porque tanto o rock quanto o rap, ambos têm muito protesto, né, mano?
Ambos protestam muito, né? Sobre igualdade, né, mano? E sobre o que é ser, principalmente no punk, né? O que é ser... Como é ser um cara periférico, né, mano?
E querer ter... E querer que as coisas mudem, né, mano? Tipo assim, dentro do rap, dentro do punk, por isso que o João Gordo, tá ligado? Os caras, todo mundo gosta do cara, porque ele também passou a mesma mensagem, mano. Tá ligado? A mesma mensagem que não é passar no rap, passa no punk, tá ligado? E essa que é a parada. E aí quando a gente para pra ouvir, você fala assim, puta, mano. Cara, esse cara fala a mesma coisa que eu, mano. Só que ali tem uma bateria, uma guitarra, um baixo.
tá ligado? Um mano no vocal, ou até dois, não sei, mamina, e aí você fala, mano, é a mesma mensagem, mano. O mesmo bagulho que eu acredito é o bagulho que os caras acreditam, tá ligado? E é legal esse intercâmbio até no ensino médio, tipo assim, no ensino médio, tinha as crios, né, mano, na escola, assim, aí tinha os caras da pichação, aí tinha os caras do skate, tinha os caras do futebol, tinha os caras do rock, que aí teve a galera que era do rock, o rock emo ali e tal.
E eu sempre transitei, mano, na galera do futebol e do rock, tá ligado? Do rap nem tanto. O meu trânsito mesmo era a galera do futebol, porque eu não tenho nem por que eu me explicar sobre isso, tá ligado? E do rock, mano, porque eu era curioso, eu falava, mano, puta, os caras do rap, não vai ficar falando de... Fui ali naquela banca ali, pá. Aí eu ficava sentado com a rapaziada, aí tinha uns pessoal que gostava de reggae, uns dredão, pá, no meio dos roqueiros ali, eu me juntava com aquela galera ali, e ali eu ficava aprendendo, tá ligado, mano? Conhecendo banda nova.
umas bandas nada a ver, umas bandas de rock indie também, tá ligado? É isso aí, mano. É esse que era o intercâmbio, o intercâmbio eterno.
na gringa eu tenho a impressão de que isso foi melhor assimilado tipo o Denzel Curry cantando ele canta o Rage Against the Machine, tem um vídeo dele mandando o Rage Against the Machine enfim, tem algumas bandas que conseguem transitar melhor especialmente em Nova York tem uma banda chamada Show Me The Body que tá muito alinhado muito legal
Anos atrás, o Tyler The Creator e o Thrashtalk tinham uma conexão. Enfim. E aqui no Brasil, eu vejo o Ante Constantino fazendo umas conexões também. Fazendo uns hip-offs. A base dele vem do rock também. Ele curte muito.
Total. Eu curte bastante. Total. É, aí tem um pouco... Eu tenho percebido que as coisas estão começando a ficar um pouquinho mais explícitas, tá ligado? As pessoas estão começando a ficar mais à vontade pra recuperar ou pra descobrir uma parada que eles percebem que tem a ver. Seja no som, seja na mensagem. E eu acho isso louco, porque... Não vou falar que era uma regra, assim. É a molecada do hardcore curtir rap. Mas teve um momento... Mas a maio...
Mas a maioria curtia. O contrário não acontecia. O contrário, confesso que eu não via. Eu ia trocar ideia com os camaradas do rap. Eles eram mais fechados. Mas eu e os meus amigos, mano... Assim, desde facção até... Pra quem já mordeu um cachorro por comida, marcou muito quando saiu. Marcou pra caralho quando saiu. Foi um puta disco. Um puta EP. EP, disco, né? Esse cara é foda.
Mas foi um discão, assim, foi foda, foi um disco que marcou muito mesmo, assim, até o Emicídio também, mano, o Emicídio eu achei um bagulho bizarro, assim, quando saiu, eu falei, mano, o que que é isso, o que que esse cara fez, mano? Igual, eu acho que assim, ó...
Pra quem já mordeu um cachorro por comida Me causou o mesmo impacto Ou um impacto parecido De quando o BK lançou Castelos e Ruínas Que eu olhei e falei Mano, tá porra, o que tá acontecendo? Tá ligado? Você olha e fala assim Mano, isso aqui é loucura O que esse cara fez é Me causou esse mesmo impacto Eu tenho na minha memória fresca Quando eu escutei a primeira vez Pra quem já mordeu um cachorro por comida Foi a mesma reação O que é escolhendo?
Quando eu escutei Castelos e Ruínas, tá ligado? A mesma, a mesma reação. Tipo assim, a reação de estar escutando um gênio, tá ligado? Tipo, sabe aquela coisa que você fala, mano? Esse cara é um gênio, mano. Olha o que esse cara tá falando, mano. Olha como eles conseguem juntar uma palavra com a outra e deixar o bagulho genial, mano. Tipo, eu ficava nessa brisa. Tipo, capacidade dos caras que eles conseguem... E nem são palavras difíceis, é aquilo que eu falo, mano.
tá ligado? Não é palavra. O Emicida usa um pouco mais. O BK já não, mano. O BK é como se ele estivesse conversando com você, tá ligado? Tipo assim. E aí a genialidade dele saber juntar uma palavra que vai fazer sentido ali com a outra, vai formular uma frase fodida no rap que vai ficar um bagulho, tipo, de gênio. Tá ligado? Castelas e Ruínas é meio que isso, assim.
É, no caso do Pra quem já mordeu um cachorro por comida O que pegou muito a gente É que quando O grande mote dessa mixtape Era o fato de ser produzido em casa Num pacotinho de pão e tal A gente olhou pra aquilo e a gente falou Mano, isso é o que a gente fez a vida inteira Enquanto uma galera de uma cena hardcore punk A gente olhou pra aquilo e falou Isso é do It Yourself Isso é o Faça Você Mesmo Que é a base da nossa cultura E isso é muito foda Isso escalou, ganhou Ganhou
Ganhou camada, ganhou peso. Foi pra outro patamar, assim. Tipo, o volume, tá ligado? A mensagem, como ela chegou. Então, tanto que a primeira vez que ele tocou em Piracicaba foi meio que uma mobilização. Tinha a galera do rap, mas meio que uma mobilização da galera que fazia show de hardcore com a galera do rap que não tinha tanto o hábito de organizar show, né? Era muito a batalha de rima, assim. A coisa era muito a batalha de rima.
o lance de produção de show era uma coisa dos roqueiros, que aí eu acho que tem uma cultura de bar de rock já mais antiga e tudo mais. Mas foi algo que selou ali uma amizade inicial com as pessoas de Piracicaba que estavam muito envolvidas nessa movimentação. Tanto que a gente começou a produzir coisa na casa do hip hop pouco tempo depois ou no mesmo ano. Então tinha essa amizade... Também foi isso. É.
Mas enfim. E no Grime, o que me pegou foi ver que havia uma considerável memória e admiração por uma história das rádios piratas em Londres. Sim, das rádios piratas de Londres, exatamente. Aqui no Brasil, eu não sei dizer se era exatamente pirata, o Black Total, né? Olha, pirata, pirata, pirata.
Eu acho que a comercialização das músicas, a gente pode considerar que sim, porque eu não me lembro de ter tido uma coletânea original de Black Total, mas da rádio eu acho que não era pirata não, mano. Socava em rádio liberado e tal. Eu imagino que não foi no mesmo esquema do que foi o Grime em Londres, tá ligado? O Grime em Londres era tipo assim, mano. Era um quartinho do tamanho do meu aqui, tá ligado? Tipo assim, mano.
Com o sistema de som ali, pá, e pau na máquina, mano. 200 caras dentro do quartinho e pau, filho. Pra cima, tá ligado? O comecinho ali foi um bagulho doido ali, mano. O que o Dizzy Roscoe fez ali, ele, o Ali, os caras do... Qual o nome daquele grupo lá? Do... Roll Deep. Os caras fez um bagulho sinistro, mano. O cara construiu um legado aí que vai permear pra história, assim. É, não, total.
Se for estudar grime, vai ter que falar dos caras, tá ligado? Inegavelmente, assim. Aí ele deu uma chapada, né, uns tempos atrás, mas ainda bem que ele voltou, mano. Tava meio Kanye West das ideias ou menos grave? É, ele tava meio Kanye West das ideias, assim. Aí, mano, eu acho que eu nunca tinha, desde que eu me conheço por gente, eu nunca tinha visto uma matéria na TV Globo.
falar do Grime, assim, nunca, na história. E quando saiu, foi falando que o Wiley tinha feito comentários antissemitos e pá. Mano, tem essa matéria, tem essa matéria, que ele tinha feito comentários antissemitos e tal, e as redes sociais dele tinham sido todas bloqueadas. O cara simplesmente sumiu do mapa na internet. Todos os bagulhos que tinham o nome do Wiley desapareceram.
É um assunto delicado Pra gente comentar Porque O antissemitismo ele tá aí Mas algumas coisas que acontecem Não são mentiras Acontece coisas reais Só que a gente tem que tomar muito cuidado com o que fala Quando se trata desse assunto E eu acho que o Ali Tanto ele quanto o Kanye Não tiveram esse cuidado E acabaram se fodendo com isso Faz parte
É, Kanye, nem um cuidado, muito pelo contrário, acelerou, acelerou. Zero, teve que pedir desculpa pro Rabino lá de Nova York, você viu esse bagulho? Não. É, ele foi trocar ideia com o Rabino lá, mano, falar que ele vacilou, que ele tava zoado da cabeça e tal, mas que ele quer pedir desculpa pra toda a comunidade judaica de Nova York, não sei o que, papá, tipo... É isso, né, mano, o cara viu que fez merda e agora tá tentando correr atrás de prejuízo, né?
É, as desculpas eu vi, mas eu não vi detalhes, assim, com quem que ele teve que falar, o que que ele falou exatamente. Ah, foi o rabino mais importante de Nova York, assim. Pode crer. Mas, mano, o rap americano, por mais que tenha formado o nosso gosto, é cachorrada, né, mano? O bagulho é... Os caras são bagunçados. Poucos se salvam em Zupdog. Enfim.
Ah, Snoop ali, tá ligado? Tipo, o Nipsey também, se estivesse vivo, ia ser salvado essa daí também. Tá ligado? Que é isso. Porque os demais ali é difícil, né? Difícil mesmo.
Mas, enfim, essa herança londrina, que é uma coisa que a gente recebe muito pouco aqui, o rap, por exemplo, londrina, o grave veio pautando, e esse respeito a uma memória de uma cultura que se criou a partir das rádios piratas, que no caso de uma certa tradição de contracultura, autonomista e tal, é muito importante.
É outro negócio que me pegou e que pegou várias pessoas que eu conheço que vêm do punk e do hardcore e tal. Então a gente vai criando essas afinidades aí, né? E tocando adiante reflexões sobre a cultura, né? Que eu acho que é uma parada importante, não estagnar. Sempre jogar pra diante o que a gente pode fazer de produção e de mensagem, de forma, de ideia. Acho que esse é o grande lance, incorporando coisas de geral. E no Brasil o funk foi a parada, né?
Foi o grande charme adicionado no Grammy brasileiro. É, porque é até curioso, já comentei, já citei isso em algumas entrevistas, que quando a gente saiu da NTS, a gente tinha ido fazer um clash lá com os caras e tal, e aí acabou.
Permisa. Quando os caras saíram, os caras falaram, mano, que porra foi aquela, mano? O que era aquilo que você tava rimando e tal? A gente deu uma explicada pros caras, assim, meio que por cima, né? Que era o que tava rimando num flow de funk e tal. E aí o mano, ele falou assim, mano, esse bagulho que vocês tão fazendo lembra muito o que o Skepta fez quando ele tava construindo o Conichua.
E aí ele pegou a essência da música japonesa e colocou no disco. Aí ele falou, mano, esse bagulho de funk que vocês estão fazendo, é vocês, usar a essência da música de vocês, colocar dentro do grime.
e trazer uma identidade única, tá ligado, mano? Tanto que, tipo assim, o Brime, ele é uma... ele tem a própria identidade dele, assim, a própria construção musical do Brime, ela é única, assim, tá ligado? E é meio que isso, foi essa mistura e ter essa sacada de misturar o Grime com o Funk que fez o bagulho virar um bagulho absurdo, assim, os caras olharem e falarem, mano...
Vocês vieram aqui, fizeram a parada acontecer e vocês não estão copiando ninguém, meio que nesse tom, assim. Vocês estão fazendo um rolê de vocês, um rolê legítimo, tá ligado? Sem copiar, sem...
sem chupinhar nada de ninguém, tá ligado, mano? E eu achei isso muito foda, eu falei, mano, realmente é um tipo de trampo que dá trabalho, a gente, mano, bate cabeça, às vezes a gente sai do estúdio puto, mas é gratificante, assim, é da hora. Misturar os dois universos. É, esse disco é um marco, considera um marco aí, que vai ser, assim como a gente tá discutindo as coisas do começo dos anos 2000, aqui como um definidor, né, de...
método de pesquisa de música, de gosto, de caminhos a se trilhar. Esse disco eu acho que ele tem a mesma inserção na história. Ele define escolhas. Na hora que alguém vai produzir grime hoje em dia, eu acho que é inevitável não considerar, se apropriar de coisas que são muito comuns a gente, a nossa história, o funk, o samba. Talvez uma coisa mais relacionada ao sound system, que também brasileiro é muito específico em incorporar isso.
Sim, 100%, mano, o Sound System ele faz parte da... E eu tô percebendo um movimento que tá acontecendo em São Paulo, mano, que o Sound System tá virando um bagulho sinistro, assim, ó. Tá tendo umas festas que o bagulho lota, o camarada Padilha falou, mano, tá rolando uns bagulho, mano, do Sound System que você tem que colar um dia, mano. Pra você aprender, estudar, tá ligado? Porque é isso, mano, os caras querendo ou não ali...
O Flow é Grime, mano. 100%, tá ligado? E o Grime, ele vem do Sound System, né? E é engraçado que eu tava lembrando aqui agora que tanto o assunto que a gente tava falando de Zoid Gato, começo dos anos 2000, e o Grime, os dois vêm dos anos 2000, né? Eles começam, eles se iniciam nos anos 2000. Com a era da tecnologia ali, com o computadorzinho Windows dele, 94.
criando os beats ali do... Como é o nome do disco dele, mano? Túnel ou alguma coisa, mano? Túnel do tempo? Não sei o nome que era o nome do disco dele. Nos primeiros dele. E aí você vê, mano, a criação ali, tem vídeos dele no YouTube ali dele criando os beats, tá ligado? Ele explicando como que ele pensou naquilo, diz e rascou com ele ali, os dois trocando uma ideia, e isso era 2001, tá ligado? 2001, os caras nem sabiam o que ia virar aquilo ali, tá ligado?
O cara rimava em Jungle, Drum and Bass. O cara falou, mano, vamos baixar um pouco esse BPM, vamos baixar um pouco o flow aqui, ó. Vim nessa cadência aqui, porque o bagulho vai dar certo. E olha o que que virou, mano. O bagulho veio pro Brasil, pro outro lado do planeta, mano. Tá ligado? Tipo assim, atravessou o oceano, mano. E a gente tá fazendo a parada acontecer aqui. E continuar, e dar continuidade nesse legado, tanto dos Lord Gato, quanto do Wiley lá no quartinho dele. É isso aí, mano. Essa que é a fita, mano. Tá ligado?
É isso. Do quarto pro mundo. É assim que as boas ideias começam, né, mano? Raramente vai ser a partir de muita grana de uma gravadora que vai fabricar um artista. Às vezes é a gravadora fabricando o artista, copiando quem tá no underground. Sempre foi assim.
E sempre será, infelizmente. Meu mano, a gente tá chegando a uma hora de conversa, curti pra caralho, acho que a gente conseguiu dar uma passeada em memórias, em cenários, em sons, e divertido também, o Balance Fúria tem a intenção de conectar as produções musicais com uma certa ideia política e tal, e eu acho que, assim como...
A sua produção, a gente discutir política não precisa estar dando oreada ou estar pautando a coisa a partir de uma forma dura. Esse papo foi assim. Valeu demais pelas ideias. Espero que você tenha curtido também. Enfim, se tiver alguma coisa que você achou que faltou a gente colocar, quiser trazer algo que ficou pra trás, elaborar melhor alguma ideia, fica à vontade.
Acho que foi bem legal, mano. Foi interessante essa troca de ideia. A primeira vez que eu converso nesse esquema, assim, da gente ir citando histórias e trazendo memórias, porque geralmente a galera quer saber mais sobre o que de fato está acontecendo agora, né? E a gente acaba deixando passar um pouco, e isso me fez lembrar de muita coisa. Tipo, você falou da escola da família, me lembrou, tipo assim, mano, meu cérebro explodiu, assim, tá ligado?
Lembrei de muita coisa que eu vivi, que eu passei de infância, de moleque, adolescência, escola. Então foi legal, mano. Foi uma troca muito interessante. E eu quero agradecer mais uma vez também por ceder o espaço para a gente trocar essa ideia. E é nóis. Tamo junto. Tamo junto. Foi rapidinho. Poderia render mais um milhão de coisa. Acho que a gente vai abrindo as aba na cabeça. Conforme vai chegando a informação, a gente vai abrindo aba.
mas vamos tocar o barco aí, é quarta-feira, 9 da noite, vamos continuar trabalhando, vamos tentar descansar, enfim, eu agradeço, valeu todo mundo que nos escutou até aqui, e até mais.
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