Vida digital: a grande vilã da dor nas costas?
Fernanda Zolini
Jonas Santana
Ney Mesiá
Verônica Souza Santos
- Dor nas costas em criançasPrevalência em idade escolar · Estudo sobre dor musculoesquelética · Fatores de risco
- Geração digital e sedentarismoImpacto do uso de telas · Comportamento sedentário · Tex-Nec
- Dores de costas e envelhecimentoOrigem idiopática · Dor lombar · Dor cervical · Dor torácica
- Progressão de ExercíciosPrevenção de dor muscular tardia · Adaptação do corpo · Prazer com a atividade física
- Problemas mecânicos musculoesqueléticosImpacto econômico no Brasil · Perda de produtividade
- Dor como informação corporalGlobal Burdening of Disease · Iniciativas da OMS
Neste momento, qual é a sua postura? Ombros caídos, cabeça inclinada para frente? Quando foi a última vez que fez um exercício físico? Se puder, levante agora e dê uma caminhada. Não precisa ser longa, pode ser só até acabar este episódio.
Hoje a gente vai falar sobre a famosa dor nas costas, um problema que muita gente ainda associa principalmente à idade, mas que começa bem antes do primeiro cabelo branco. Um estudo mostrou que três em cada dez crianças e adolescentes em idade escolar já apresentam dor nas costas. Talvez nós estamos atacando muito a dor na vida adulta, tentando resolver o problema na vida adulta, mas talvez o problema ainda está lá atrás no desenvolvimento da dor na infância.
Está no ar o DW Revista, podcast produzido pela redação brasileira da DW e publicado todas as sextas-feiras no YouTube e em plataformas de áudio como Spotify. Eu sou Fernanda Zolini, falando de Bonn na Alemanha. No episódio de hoje, a nossa equipe conversou com a fisioterapeuta Verônica Souza Santos. A Verônica liderou um grande estudo sobre dor músculo-esquelética em crianças e adolescentes. Atualmente, faz pós-doutorado no Canadá, com foco em dor lombar.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a dor lombar afeta mais de 600 milhões de pessoas em todo o mundo. Ela é hoje a principal causa de incapacidade e pode atingir qualquer pessoa em qualquer fase da vida. Quantas pessoas ao seu redor vivem reclamando de dor nas costas? E você, sente esse tipo de dor com frequência? Para a gente começar, vamos pelo básico. Afinal, quando falamos de costas, estamos falando de uma parte bastante ampla do corpo.
Dor nas costas, nós podemos considerar qualquer região entre a região cervical e a região lombar, até a prega glútea. É uma região muito extensa, ou seja, são muitas áreas que podem ser acometidas com a dor. A mais comum é a região lombar, então a região inferior das costas, de fato. Mas em segundo lugar vem a dor cervical.
E em terceiro lugar, a dor na região torácica. Todo mundo pensa na coluna como uma estrutura muito delicada, então quando vem aquela dor nas costas, a gente já se questiona sobre diversas doenças, diversas causas que poderiam estar levando a essa dor. Mas na verdade, a dor nas costas, em aproximadamente 90% dos casos, ela é de origem idiopática. Então nós não sabemos uma causa específica, uma estrutura específica.
que está causando essa dor nas costas. Se comparado com esses 10%, que sobra que seria dor de origem de raízes nervosas, uma pequena porcentagem de doenças graves da coluna, como fraturas, cânceres, tumores, mas na maioria esmagadora dos casos, essa origem é idiopática. Então, nós não temos uma causa específica de origem ali da dor.
A Verônica liderou uma pesquisa que acompanhou de perto crianças e adolescentes entre 8 e 18 anos, com e sem dor nas costas ao longo de um ano inteiro. Foram 615 jovens de escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo e de Fortaleza, avaliados em três momentos diferentes, após três, seis e doze meses.
Ao longo desse período, eles responderam perguntas sobre a própria realidade. Se sentiam dor nas costas, com que intensidade, como estava a qualidade de vida e até a presença de sintomas emocionais.
E os resultados chamam a atenção. De duas a três, em cada dez crianças e adolescentes, relataram dor nas costas. Na maioria dos casos, a dor melhora com o tempo, mas ela costuma voltar. Ou seja, não é algo pontual, é uma dor que vai e vem. Cada vez mais aparecem notícias dizendo que essas dores estão começando mais cedo. Mas será que crianças e adolescentes de hoje sentem mais dor nas costas do que as gerações anteriores? E será que a vida digital é mesmo a grande vilã dessa história?
Por muito tempo, a dor nas costas no adolescente, na criança, no jovem, sempre foi muito pensado como algo passageiro. Ah, isso vai passar. A dor do crescimento, como muitas pessoas falam, então acabava sendo ignorado. E hoje vem recebendo mais atenção, principalmente após publicações, mostrando que a dor no jovem é um fator de risco para a dor na vida adulta, entre os 30, 40 anos.
Então, minha percepção maior é não que aumentou objetivamente, mas talvez porque vem recebendo mais atenção para ser estudado. Uma coisa que nós viemos discutindo muito durante o período do meu doutorado é talvez nós estamos atacando muito a dor na vida adulta, tentando resolver o problema na vida adulta, mas talvez o problema ainda está lá atrás no desenvolvimento da dor na infância.
Uma pesquisa que nós realizamos, nós identificamos que 3 a cada 10 crianças têm dor nas costas. Então, não é algo incomum, mas sim, tem alguns fatores de risco para desenvolvimento de dor na infância. O comportamento sedentário, mas o excesso de atividade física também pode influenciar.
familiares que moram na mesma casa, tem evidência que fala que se os familiares têm dor, aquela criança tem mais risco de dor, né, nós não sabemos exatamente por que isso acontece, mas uma das nossas hipóteses é de estilo de vida, então as pessoas geralmente na mesma casa, elas seguem um estilo de vida semelhante. Sintomas emocionais negativos, então sintomas de ansiedade, depressão, estresse emocional também pode influenciar as crianças a desenvolverem dor nas costas.
E essa criança com dor nas costas, ela é um fator de risco muito grande pra dor na vida adulta, que nós sabemos que é a maior causa de incapacidade no adulto, é a dor lombar. Uma coisa que vem sendo muito discutido, né, e eu tenho um amigo, Ney Mesiá, que publicou artigos sobre esse assunto, ele é professor numa universidade do Rio de Janeiro, sobre um termo chamado Tex-Nec.
que seria aquela posição de ficar digitando no celular, que isso poderia estar associado com causa de dor, mas foi identificado que não tem uma associação da posição da coluna cervical com o aparecimento de dor. Mas entra outro ponto muito importante que o mundo digital entra como confundidor. Na verdade, o mundo digital aumentou o nível de sedentarismo.
dos jovens. O uso maior de telas diminui o tempo de, por exemplo, praticar alguma atividade física. E um fator de risco muito conhecido para o desenvolvimento de dor nas costas é o sedentarismo. E o mundo digital, computadores, videogames, celulares, leva ao comportamento sedentário.
E por ele ter tido dor na infância, na adolescência, ele tem mais chances, sim, de ter dor na vida adulta. Porque na maioria das dores crônicas, um dos fatores de risco é um episódio prévio de dor. Então, ter tido dor naquela infância também é um fator. Mas trabalhar nos fatores modificáveis...
que influenciam a manutenção da dor, é um fator chave para tentar controlar e, se possível, cessar essa dor, incluindo a mudança de estilo de vida. E isso inclui também comportamento sedentário, inclui alimentação, uma mudança geral no estilo de vida para tentar fazer o controle dessa dor e evitar novos episódios na vida adulta.
Exercício físico é fundamental, mas ele não é a única forma de cuidado. Existem outras estratégias para lidar com a dor nas costas no dia a dia. O tratamento ouro que nós falamos hoje é o exercício físico, mas tem outras formas também. Tem as terapias manuais, que é através de massagens, por exemplo. Mas, na verdade, as massagens têm resultado a muito curto prazo. Então, você tem aquele resultado momentâneo de alívio de dor. Então, ela geralmente deve ser aplicada associada às outras intervenções, por exemplo, as terapias.
terapias físicas e as terapias comportamentais por exemplo a terapia cognitivo funcional que eles vão trabalhar na parte de comportamento para mudança de estilo de vida medicamentos hoje a gente não recomenda muito os medicamentos porque os resultados né são muito como eu posso dizer limitados de efeito de intervenção então nós não
indicamos medicação, principalmente medicações mais fortes, por exemplo, morfina, que não é o caso do Brasil, mas países aqui como, por exemplo, o Canadá e os Estados Unidos têm crises de opioides, então é um problema de saúde pública aqui nessa região. Outra medida que pode ser rápida em crises de dor nas costas é o uso de compressa quente. Se você não tem algo que aqueles...
PECS, né? De colocar no micro-ondas e esquentar e colocar nas costas. Você pode esquentar uma água quente, colocar a toalhinha quente nas costas pra gerar conforto naquela musculatura. Educação em dor também é interessante, principalmente educação em dor voltado a educar as pessoas a entender a dor, mas entender como elas devem abordar a dor, como fazer as mudanças de estilo de vida. Então, eu posso dizer que são esses os principais tipos de tratamento que nós temos.
mas o melhor mesmo é a atividade física, é o exercício, e aí o exercício é de acordo com a preferência do indivíduo. Então, existe uma atividade física que é muito superior que a outra? Na verdade, não. Algumas evidências mostram que o pilates é muito bom, que trabalha a flexibilidade, força, mas a caminhada é muito boa, o exercício de fortalecimento, aquilo que o indivíduo se adapta melhor.
E tem mais um dado importante da pesquisa da Verônica. Ao longo de um ano, a dor músculo-esquelética incapacitante em crianças e jovens pode gerar um custo de cerca de US$ 1 bilhão para o Brasil. Esse valor considera não só os gastos com o sistema de saúde, mas também a perda de produtividade dos pais e os custos diretos para as famílias. Olhando para o futuro, o que a gente pode esperar em relação à dor músculo-esquelética que inclui diferentes tipos de dor nas costas?
Eu gostaria de ser mais otimista, mas eu não vejo que os números vão reduzir drasticamente nos próximos anos. E isso nós falamos até baseado num estudo global que é chamado Global Burdening of Disease, que ele avalia a carga de doenças de forma global e as dores musculoesqueléticas, né, incluindo a dor lombar, as condições musculoesqueléticas, né, que são de músculos, ossos.
ela se mantém como a principal causa de anos vividos com incapacidade desde a década de 90. Então a gente vê que isso se mantém consistente ao longo do tempo. Mas iniciativas como da Organização Mundial de Saúde de tentar mudar o estilo de vida, incluindo aumento da atividade física, desde a infância...
e redução de exposição à tela, no sentido de evitar o comportamento sedentário, de fato seria uma das melhores iniciativas para tentar reduzir esse problema, seja na infância, na adolescência e também na vida adulta. Para encerrar esse episódio, a gente separou uma dica para quem é sedentário ou quer começar a se movimentar.
A minha primeira recomendação para iniciar uma atividade física, principalmente se você vem de um comportamento sedentário por períodos prolongados, é começar de forma gradativa. Então vamos pensar, por exemplo, numa caminhada. Ah, eu vou decidir fazer uma caminhada e depois eu quero correr. Não adianta uma pessoa sedentária decidir hoje que ela vai correr 5 km amanhã. O que é esperado no dia seguinte vai ser uma dor muscular tardia muito intensa.
Isso é uma também das razões pelas quais as pessoas não aderem à atividade física. Aquele dia que nós vamos a primeira vez para a academia, e aquela dor muscular do dia seguinte que fala, nossa, eu não quero nunca mais ir. Imagina para aquela pessoa que já tem dor, o quanto isso vai ser desconfortável.
Então, minha recomendação é começar de forma gradativa. Então, vamos pensar na caminhada. Bom, eu sou sedentário, eu vou começar uma caminhada, então vamos começar com 10 a 15 minutos de caminhada e vou, a cada semana, acrescentar 10% no meu tempo de caminhada. Ou, aos poucos, também acrescentar na intensidade. Então, eu tinha uma velocidade de caminhar, agora eu vou aumentar minha intensidade em 10% também.
Então, são algumas variáveis que nós podemos mexer para deixar o corpo se adaptar àquela nova atividade física. Na academia, por exemplo, eu não vou chegar e fazer um exercício para o meu bíceps de 10 quilos, sendo que eu sou sedentária e não fazia...
exercício para essa musculatura há muito tempo, então eu começo com uma carga baixa, e pode parecer até fácil no começo, mas eu aumento de forma gradativa, dando tempo ao meu corpo se adaptar. E isso vale também para esportes, se espor de forma gradativa. E na criança e no adolescente...
dar tempo também de exposição e testar diferentes esportes, porque também tem aquela pressão dos pais muitas vezes. Ah, eu quero que meu filho pratique futebol, ele vai praticar futebol de segunda a sexta na escolinha, e a criança não está se divertindo, que isso conta muito, o prazer com a atividade física, e ela também não está atenta.
tempo de descanso e nem experimentar atividades que envolvam aspectos físicos diferentes, por exemplo, flexibilidade, força, aeróbico. Então, acho que esses são os principais pontos para se expor numa atividade física nova.
A edição desta semana do DW Revista, uma produção da DW em Bona, Alemanha, fica por aqui. A produção deste episódio é de Jonas Santana, roteiro, apresentação e edição técnica são minhas, Fernanda Zolini, revisão final de Tiago Mello. Mais conteúdo você encontra no nosso site, dw.com.br e no canal da DW Brasil no YouTube. O DW Revista volta na sexta-feira que vem. Obrigada por acompanhar a gente e um bom final de semana.