# 273 - O que muda para o Brasil com o Acordo Mercosul-UE em vigor
- Acordo Mercosul-UEHistórico e negociações · Impacto na competitividade · Reações de países europeus · Benefícios para consumidores · Perdedores no acordo · Ação no Tribunal de Justiça da UE · Papel de Donald Trump
- Deepfakes e IA criminosaPrejuízos financeiros globais · Uso de IA e clonagem de voz · Engenharia social e ludibriação humana · Vulnerabilidade no Brasil · Golpes via SMS, e-mail e redes sociais · Medidas do Banco Central sobre PIX · Concentração de atividades hackers (Rússia, China) · Dicas de segurança digital
- Ataques a Alvos AmericanosMotivações ideológicas e pessoais · Atentados contra presidentes históricos · Tentativas de atentado contra Donald Trump · Impacto na segurança nacional · Polarização e radicalização · Proteção presidencial e inovações tecnológicas · Facilidade de acesso a armas
- Autonomia estratégica e geopolíticaDiversificação de parcerias · Autonomia estratégica do Brasil · Relações com Índia, Vietnã, Coreia do Sul, México · Polarização EUA vs China/Rússia · Mundo sem normas e incerteza · Cadeias de valor e segurança alimentar
- Rei Charles IIIEncontros políticos e cerimônias · Discurso no Congresso Americano · Diplomacia informal e valores compartilhados · Símbolo dos 250 anos da independência · Homenagens e agenda ambiental · Soft power britânico
- Escalada de violência no LíbanoInsegurança alimentar aguda · Impacto da violência e bombardeios · Necessidade de ajuda internacional
- FotografiaNelson Kordjansky e seu acervo · Fotocine Clube Bandeirantes · Saídas fotográficas e estilo similar · Exposição em Frankfurt
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Mais de 15 milhões de pessoas do mundo todo já usam e confiam. Afinal, quem sabe, vai de Wise. Baixe o app da Wise hoje ou visite wise.com. Termos e condições se aplicam. Podcast da Rádio Bandeirantes. Brasil. Brasil com Z. Brasil com Z.
Olá, você está agora no Brasil com o Z, a sua volta ao mundo semanal comigo, Sônia Blota, e com ele, Cristiano Panvec. Tudo bom, Cris? Oi, Sônia, grande abraço para você e para quem está conosco aqui na Bandeirantes, em mais um Brasil com o Z, o nosso encontro semanal para colocar o Brasil no mundo.
Depois de 27 anos de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia começa a valer de forma provisória. Um marco histórico. O tratado abre caminho para a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com cerca de 720 milhões de consumidores, reunindo Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, além dos 27 membros do bloco europeu.
Mas nem todos estão satisfeitos. O setor agrícola da Europa, especialmente a França, teme a concorrência com o agronegócio brasileiro. Já a Alemanha e a Espanha defendem o tratado, de olho no fortalecimento de suas indústrias. Em uma nova geopolítica, marcada por tensões e guerras comerciais, o Brasil busca ampliar seus acordos.
Por isso, Cris e ouvintes, nós estamos aqui num café em Paris e convidamos o cientista político Gaspar Estrada para esclarecer os pontos desse acordo entre o Mercosul e União Europeia que depois de 27 anos vai acontecer de forma gradual. É isso, Gaspar. Obrigada por participar do Brasil com Z. Olá, Sônia. É um prazer estar com você e os ouvintes.
E como é que fica agora os dois blocos unidos aí para que tenham trocas comerciais mais produtivas e mais baratas? Olha, sem dúvida é um marco histórico, não só do comércio internacional, que é o maior acordo comercial do mundo, mas também pelos reflexos políticos e geoestratégicos que esse acordo vai ter. Ao abaratar os preços dos produtos, tanto europeus como do Mercosul,
Isso vai trazer mais competitividade para as duas economias, vai ter um privilégio para os consumidores de ambas regiões, que vai ter acesso a melhores produtos, mais baratos. E isso
vai aprofundar a integração entre as duas regiões. É evidente que isso vai ter ganhadores, os consumidores do Mercosul e os consumidores europeus, e perdedores, em particular a China e os Estados Unidos, porque eles não estão contemplados no acordo e, portanto, é um acordo que não cria muita satisfação, tanto em Penquim como em Washington.
Agora, aqui na Europa tem os países contra e os países a favor. A França é contra por causa do setor do agronegócio. Competir com agroforte, como o do Brasil, é complicado para a França, não? É, mas na verdade depende muito do setor. O setor agrícola francês, como você bem mencionou, é contra o acordo. Agora, o setor do luxo francês...
É totalmente a favor. O setor dos vinhos também? O setor dos vinhos também. Então, nesse sentido, na verdade, depende muito do setor. Em cada país da União Europeia tem setores a favor e outros que são contra. O importante é qual é o balanço geral desse acordo. E hoje que a gente pode falar com números é que esse acordo vai ser positivo para ambas as regiões.
Mas isso é bom. E quem que ganha mais com isso, Gaspar, em termos de produtos? O que o consumidor europeu vai poder comprar que ele queria tanto de forma mais barata? E o que o consumidor sul-americano vai poder comprar que ele queria tanto aqui da Europa?
Eu diria em primeiro lugar que os europeus vão ter comida mais barata. Isso é uma coisa muito importante. Carne na mesa, frango na mesa, uma coisa que no dia a dia vale, vale muito. Do lado do Mercosul e, por exemplo, do Brasil,
É evidente que os carros vão ser mais baratos que algumas máquinas, produtos, também terão um acesso mais fácil. E isso vai estimular a competitividade da economia brasileira com melhores produtos, mais baratos. E isso vai ser bom para todos ao final do dia.
Alguns países chegaram a entrar com uma ação no Tribunal de Justiça da União Europeia para que o acordo não saísse. Mas aí a Comissão Europeia chegou e falou assim, vamos implantar de forma gradual. O que significa isso, Gaspar? Significa que o acordo entra em vigor e que as instituições europeias vão esperar o resultado, o veredito do Tribunal de Justiça da União Europeia.
No entanto, a decisão política que foi tomada pelo chefe de Estado e de governo vale, porque o que eu queria os parlamentares, alguns parlamentares europeus, não todos, era fazer com que o acordo não entrasse em vigor.
Isso levaria um, dois, até três anos para realmente o acordo vingar e que as pessoas não pudessem perceber concretamente as vantagens do acordo. Então, desse ponto de vista, essa manobra jurídica não funcionou.
Gaspar, e qual que é o papel de Donald Trump para esse acordo ter saído mesmo de forma provisória? Quer dizer, ele começou a colocar tarifas, taxar o mundo, isso pode ter dado um empurrãozinho aí? Sem dúvida nenhuma, isso contribuiu para que os dirigentes europeus percebessem a importância e a relevância do acordo e desse aquele empurrão.
aquela iniciativa política para que, afinal de contas, o acordo saísse, vingasse e virasse realidade.
Então agora o mundo tem que buscar diversificar parcerias, na sua opinião? É exatamente o que o Brasil está fazendo. É uma coisa que tem sido feita nesse governo e eu acho que é muito importante manter essa vontade e, na verdade, essa tradição da política externa brasileira, de não ter dependências com nenhum bloco do país e, pelo contrário, promover a autonomia estratégica do Brasil.
Quer dizer, parcerias com a Índia também são interessantes nesse momento, não? Com a Índia, com o Vietnã, com a Coreia do Sul, com o México. Acho que são países muito importantes e que têm desejo de ampliar as parcerias com o Brasil. E todo mundo parece que está fazendo essa lição de casa agora que essa geopolítica está tão bagunçada, né, Gaspar?
Exatamente. Todo mundo está percebendo que os Estados Unidos são cada vez menos um aliado confiável. E nesse ponto de vista...
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procuram alternativas. E a gente pode falar que o mapa mundo já está dividido nessa polarização? Estados Unidos de um lado, China e Rússia do outro? Mais ou menos. Eu tenderia a falar que o mundo está cada vez sem normas, sem regras. Com claramente uma polarização entre Pequim e Washington, mas com um cenário de muita incerteza e muitos atores intermédios, potências médias, que buscam diversificar parcerias.
Por exemplo, essa parceria do Mercosul com a União Europeia, isso pode contribuir ou minimizar, melhor dizendo, uma crise energética ou então reforçar a segurança alimentar? Eu acho que esse é o objetivo, ampliar e diversificar as cadeias de valor para evitar dependências a alguns países.
As guerras ensinam, infelizmente, né? Por mal. Infelizmente. Esperemos que não haja ainda piores desdobramentos dessas guerras. E quanto ao acordo, considerações finais?
Olha, a gente tem que ver agora no concreto, no dia a dia, ver como que o consumidor brasileiro, o industrial brasileiro e, por outro lado, o consumidor europeu vai ter uma tradução concreta no dia a dia desse acordo para que justamente os fatos e as evidências se imponham e que os lobbies não prosperem. Então é nisso que a gente tem que prestar atenção. Exatamente.
Eu conversei aqui no Brasil com Z, direto de um café em Paris, com o Gaspar Estrada, cientista político que sempre nos socorre na hora que a gente precisa se aprofundar num tema. Gaspar, muito obrigada e volte sempre. Muito obrigado, Sônia. Um prazer estar com você e os ouvintes. Brasil com Z.
Uma grave crise humanitária no Líbano. Segundo agências da ONU, cerca de 1 milhão e 200 mil pessoas estão ameaçadas por insegurança alimentar aguda no país. A escalada da violência afeta diretamente o acesso à comida, destrói áreas agrícolas e interrompe cadeias de abastecimento. Os bombardeios de Israel desde 2 de março já deixaram cerca de 2.500 mortos.
Um cenário alarmante em que milhares de pessoas já não conseguem garantir o básico para se alimentar. Profissionais de saúde alertam. Sem ajuda internacional urgente e sem um cessar-fogo duradouro, o país pode mergulhar ainda mais fundo em uma das piores crises humanitárias de sua história recente.
Em meio a todo o impasse que envolve o conflito no Oriente Médio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebeu nesta última semana o rei Charles III na Casa Branca. O rei que cumpriu uma visita com honras de Estado. Correspondente da rádio Bandeirantes em Londres, Felipe Kinnin. Tem mais detalhes para a gente, Kinnin. Seja bem-vindo mais uma vez. Um abraço.
Cris, tudo bem? Foram quatro dias intensos com encontros políticos, cerimônias simbólicas e até eventos culturais. O rei Charles e a rainha Camila foram até os Estados Unidos para uma visita de Estado. O rei esteve na Casa Branca com o Donald Trump, participou de um jantar e fez um discurso histórico no Congresso americano.
Algo raro para o monarca britânico, mas o contexto da visita ajuda a entender por que ela é tão importante. As relações entre os dois países estão mais tensas do que o normal, com divergências sobre política externa, especialmente em relação à guerra envolvendo o Irã.
Nesse cenário, o Charles atuou como uma espécie de diplomata informal. Sem entrar diretamente em disputas políticas, ele reforçou valores compartilhados, como democracia, cooperação internacional e proteção ambiental. Em alguns momentos, o discurso foi interpretado como um contraponto sutil às decisões do governo americano.
A viagem também teve um forte componente simbólico. O principal objetivo foi marcar os 250 anos da independência dos Estados Unidos ao Reino Unido, um marco histórico que transforma antigos adversários em aliados próximos. Além da agenda política, o rei participou de homenagens no Memorial do 11 de setembro em Nova Iorque.
visitou um cemitério militar e encerrou a viagem em uma região rural da Virgínia, em contato com comunidades locais e iniciativas ambientais, que essa é uma das suas principais bandeiras. O rei é muito engajado em iniciativas ambientais. Nos bastidores, houve também gestos de aproximação. O presidente Trump elogiou publicamente o rei. Os dois demonstraram relacionamento cordial, mesmo em meio a divergências entre os governos.
No fim das contas, a visita mostra o papel da monarquia britânica hoje. Menos político no sentido direto, mas fundamental na construção de pontes. É uma carta muito importante do Reino Unido, o soft power britânico, por meio da monarquia. Num momento de instabilidade global...
A estratégia é manter o diálogo aberto, preservar a influência e evitar que a parceria histórica entre Reino Unido e Estados Unidos se desgaste ainda mais. A visão da imprensa por aqui é que o rei cumpriu seu papel e fez o que se esperava dele nessa visita tão importante aos Estados Unidos, que é fazer um pouquinho de massagem no ego de Trump e tentar melhorar a relação entre os países. Eu volto com vocês. Brasil com Z
Muito obrigado, Killing, presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que lidou nos últimos dias, claro, com todas as repercussões do tiroteio que ocorreu no último fim de semana, num hotel onde era realizado um jantar ali com correspondentes internacionais. E, claro, é um fato que chamou atenção porque não é inédito na história dos Estados Unidos, não é inédito, inclusive...
com o Donald Trump. Para a gente entender um pouco deste contexto americano, a gente convidou para o Brasil com Z desta semana o doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense, Antônio Henrique Lucena, que explica um pouquinho para a gente esse quadro de ameaças constantes contra líderes americanos. A trajetória histórica de atentados...
contra os ocupantes do principal, digamos assim, o que é o principal assento do poder executivo global, que é o presidente dos Estados Unidos.
mostra que esses eventos não são meramente incidentes, isolados, de criminalidade, mas também vetores críticos que permitem a compreensão de vários processos históricos dentro do próprio país, profundos, e também elementos de ruptura social. Então, você tem movimentos que vão desde o início da República, passando pela Guerra Civil e também na atualidade. Então, a gente já teve atentados contra George Washington em 1776, e aí
que o rapaz era o Thomas Hickley, que ele tinha uma motivação de lealdade à coroa britânica, contra o Andrew Jackson em New York.
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Mais de 15 milhões de pessoas do mundo todo já usam e confiam. Afinal, quem sabe, vai de Wise. Baixe o app da Wise hoje ou visite wise.com. Termos e condições se aplicam. 835, Abraham Lincoln que foi assassinado em 1865 por John Wilkes Booth.
Ele era defensor da confederação, também racista, não concordava com esse movimento de abolição da escravatura que foi colocada à frente pelo republicano. Já James Garfield, em 1881, Charles Guiteau, que atirou nele com um revólver calibre .44, tinha um ressentimento pessoal, mas ao mesmo tempo também tinha um certo grau.
de narcisismo. O período também da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Fria, o período de radicalismo nacionalista também foi importante. Contra Theodore Roosevelt, em 1912, o John Frank foi diagnosticado com um delírio místico e queria realmente
atacar o presidente. Já o Franklin Delano Roosevelt, em 1933, o Giuseppe Zangara tinha ódio ao capitalismo. O atentado contra Harry Truman, feito por Colasso e Terressola, tinha um certo grau de nacionalismo a porto-riquenho.
E um dos mais impactantes, que esse efetivamente gerou uma morte, foi o de John Kennedy, feito por Lee Harvey Oswald em 1963. Tem uma motivação muito complexa, indeterminada, porque não...
Não foi possível extrair mais informações de Oswald, posteriormente ele morreu, mas que teve um profundo impacto de segurança com a revisão de monitor cades também de inteligência. Então, vários outros também foram efetivamente acontecendo ao longo do tempo, com maior ou menor grau, até a gente chegar também agora no presidente Donald Trump, que teve três tentativas, contando com a última. A primeira, o Thomas Crookes, de 20 anos, que era estudante de engenharia.
que atirou no presidente num discurso com o rifle, tinha críticas pessoais a como ele conduzia a nação. Já o Ryan Lewis, de 58 anos, tentou fazer uma emboscada perto onde o presidente morava, o que motivava foi justamente a ideologia geopolítica dele pelas críticas da condução do presidente em relação à guerra da Ucrânia. Ele acreditava que os Estados Unidos tinham que fornecer mais armas para a Ucrânia.
e criticava essa aproximação que ele estava fazendo com Vladimir Putin. E Cluel Thomas Allen, que era professor, ele divulgou um manifesto que acusava Donald Trump de malversação sexual, envolvimento do caso Epstein, e disse que ele não estava à altura do cargo e resolveu agir dessa maneira. Então a gente tem vários movimentos acontecendo.
E o próprio historiador James Clark, ele disse que os indivíduos que buscam fazer isso aí não são meramente loucos solitários, mas também tem essa ideologia racional, politicamente motivada. Então, daria para dividir ele em três. Seriam os ideológicos, os buscadores de status e também o caso aqui dos delirantes.
Agora, qual é o impacto de tudo isso para a segurança nacional e também para a proteção presidencial? Primeiramente, que sempre ocorre um evento desse, o caso é analisado e você pode ter realmente uma melhoria na inteligência, como, por exemplo, o caso Butler, que expôs as críticas ao Gal, que é o...
o escritório que faz justamente essas análises do governo e propõe também melhorias. A alocação de recursos para o World Room, também para o serviço secreto, ter melhor condições de prever esses movimentos. Algumas inovações tecnológicas são trazidas com relação ao caso Crux, o uso de drones para mapear o local, perímetros.
expandidos e tal, e politicamente a gente tem aspectos como polarização, porque isso gera inevitavelmente um ciclo de radicalização e também retórica, tanto a favor e contra, digamos, o presidente, e aí é como se digamos, a polarização, ela tivesse gerado uma ferramenta de retribuição na mente das pessoas que são
realmente aqui extremistas. Então, você pode ter indivíduos até com a educação de elite, que é o caso de Cole Allen, que também pode se radicalizar também por essas narrativas e aí tentar atacar o presidente. E, obviamente, isso gera aspectos com maior nível de hostilidade por causa...
dessa polarização aqui que está presente. Então, o que é que tudo isso diz também sobre essa história dos atentados presidenciais nos Estados Unidos? A proteção absoluta é um ideal inatingível, porque sempre vão conseguir alguma forma de tentar realizar, apesar de que a segurança institucional evoluiu de simples guardas para sistemas mais complexos, até com o uso de inteligência artificial, vigilância aérea.
E que também a motivação da violência pode brotar por uma mistura potente, seja de alienação, de fanatismo, de instabilidade, de questões geopolíticas, de colocar realmente isso adiante. Os americanos também têm que lidar com o problema, que a facilidade dessas armas, a maioria dessas armas que foram utilizadas nesses atentados eram armadas legais, é algo que, de fato, termina gerando grande discussão sobre todos esses aspectos.
Está aí então a análise do doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense, Antônio Henrique Lucena, conosco no Brasil com Z desta semana, que faz uma rápida pausa, a gente volta em instantes. Até já. Na Bandeirantes, Brasil com Z.
Nós estamos de volta com o Brasil com o Z aqui pela Rádio Bandeirantes. E todos os dias a gente acompanha e noticia o surgimento de golpes aqui na Rádio Bandeirantes num movimento criminoso que parece se expandir pelo país quase que por progressão geométrica. Se essa é a sua percepção também, acho que a gente pode não estar tão errado assim. Globalmente, o cenário parece o mesmo. Olha só, dados compilados pela empresa Surfshark Surfshark
deram números a esses golpes e especificamente a fraudes digitais aplicadas com o uso de deepfakes. Os prejuízos acumulados com esses golpes somam 2 bilhões 190 milhões de dólares.
1,65 bilhão apenas em 2025. O maior alvo são os Estados Unidos, depois seguidos pela Malásia. Infelizmente, não há um levantamento específico sobre deepfakes aqui no Brasil, mas considerando ataques cibernéticos em geral, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking.
com 700 milhões de tentativas por ano, 1.379 tentativas de ataque por minuto, segundo a Associação de Defesa de Dados Pessoais e também do Consumidor. Para a gente destrinchar esses números, mergulhar nesse mundo e entender um pouquinho sobre esse assunto,
A gente convidou para o programa desta semana o Arthur Igreja, ele que é especialista em tecnologia e inovação, conosco no Brasil com Z, aqui na Rádio Bandeirantes. Seja bem-vindo, Arthur. Tudo bem? Olá, tudo ótimo. Obrigado pelo convite.
Arthur, o que tem levado a essa expansão na aplicação desses golpes mundo afora? A inteligência artificial aplicada ao mal, nesse caso, tem ajudado nesse processo? Olha, infelizmente sim, uma coisa tem tudo a ver com a outra, porque esse estudo da Surfshark aponta especialmente os golpes usando deepfakes. O que são deepfakes? Nós estamos falando de vídeos.
vídeos que são ultra realistas, nós estamos falando de fotos que foram manipuladas ou criadas a partir do zero, e estamos falando aqui também de outras duas coisas, uma delas é a clonagem de voz, a inteligência artificial hoje ela consegue com poucos segundos.
de amostragem da voz, uma pessoa consegue replicar isso, ou seja, para quem está recebendo um áudio, para quem está até mesmo numa chamada, fica incrivelmente difícil discernir, só realmente os mais próximos que podem eventualmente estranhar determinadas palavras ou a forma como a pessoa fala, mas quem não conhece tão bem pode ter mais dificuldade. Só que tudo isso chegou num ponto em que nós já tivemos casos.
em que, por exemplo, um banco lá em Hong Kong, imagina só, que não foi uma gravação, não foi um vídeo gravado. Os golpistas conseguiram alterar em tempo real não só a voz, mas também o vídeo. E o gestor de uma instituição financeira jurava que estava falando.
com o CFO, ou seja, o vice-presidente de finanças lá de uma empresa, autorizou uma transação milionária e só depois que foram descobrir que estão falando com o golpista. Então, quando nós falamos aí desse número que é grande, gigantesco, mais de 2 bilhões, é difícil mensurar, mas pelo menos nós temos aí algum número para poder comparar entre os países e mais do que isso, para poder comparar ao longo do tempo, porque o que assusta...
é que algumas empresas de cibersegurança já dão conta que em 2027 esse número pode até se multiplicar. Algumas um pouco mais pessimistas afirmam que esse número poderia chegar a 40 bilhões. Então imagine só o tamanho do dano, né? Então sim, tem muito a ver com inteligência artificial.
Agora, a evolução da tecnologia, né, Arthur, que vem para o bem e para o mal, nesse caso para o mal, certamente gera uma série de desafios para quem é especialista, para quem atua nessa questão de segurança cibernética. Quais são as principais dificuldades hoje de se identificar e se combater esses golpes aplicados por deepfakes ou as últimas tecnologias aplicadas a essa questão por criminosos?
Justamente tem ferramentas que ajudam nisso, mas até então as ferramentas ajudavam principalmente a identificar aqueles ataques por software. Então, há muitos anos atrás, o que se tentava fazer era, por exemplo, num servidor de um site.
fazer um acesso massivo para tentar derrubar os servidores, para causar algum tipo, explorar algum tipo de fragilidade. Hoje, o que nós estamos vendo é a inteligência artificial, inclusive encontrando falhas em sistemas, em softwares, apontando por onde que o ataque pode ser feito. Mas quando nós estamos falando aqui de deepfakes...
Talvez seja a principal fragilidade, porque nós estamos falando de engenharia social. E no final das contas, o que é engenharia social? É ludibriar, é enganar o ser humano. E talvez esse seja o tipo de ataque que mais funciona. Então, quando a pessoa está numa chamada de WhatsApp, de telefone, uma chamada de vídeo, e é por ali que ela jura que está falando com alguém que é da empresa, ou de um fornecedor, ou de um cliente, e acaba compartilhando dados sensíveis.
E aí que o ataque é feito. Então, o conteúdo de deepfake, na verdade, ele é muito mais o método, ele é muito mais a isca. E em muitos casos, nesse caso de ataque por engenharia social, é até mesmo a própria pessoa que acaba cedendo os dados. Então, é por isso que nós estamos vendo esse crescimento. Imagine só, alguém que entra em contato se passando por uma instituição financeira.
a pessoa que recebe esse contato não se dá conta, ela acha que o número está correto, que a abordagem toda é legítima e ela acaba compartilhando senhas, dados de acesso. Então, em muitos casos, até mesmo em grandes ataques, nós vimos isso acontecer.
É uma pena que esses dados compilados pela Surfshark não chegam a abordar especificamente o Brasil nessa questão das deepfakes, Arthur. Mas você foi citando, eu fui lembrando de alguns golpes aplicados aqui no Brasil. Aliás, essa questão da voz, o jornalismo da Band fez uma reportagem justamente sobre esse golpe aplicado por voz aqui no Brasil. Desde que a matéria foi para o ar, viu, Arthur? Sempre quando vem algum número estranho, eu falo no máximo alô.
E fico quieto, porque fico medo de captarem minha voz. Como funciona essa captação de voz por esses criminosos, hein? Então, aí que é o perigo, né? Porque a captura da voz, ela não precisa acontecer necessariamente numa chamada. Então, imagine só que pessoas que têm o mínimo de conteúdo online, e eu tô falando de vídeo no YouTube, rede social, aquela mostragem ali já é suficiente para os softwares. E eu tô falando aqui de alguns softwares que eles conseguem...
é replicar a voz da pessoa com menos de 20 segundos. Então, quer dizer, imagine que a nossa conversa aqui já é mais do que suficiente para uma inteligência artificial conseguir copiar os principais padrões. E é por isso que é muito difícil, sabe? Porque por mais que a pessoa tente se proteger, nós estamos numa realidade, num mundo em que nós mesmos colocamos isso em rede social, né? Então, quer dizer...
Tomara que tenha um desenvolvimento tecnológico que consiga imprimir uma espécie de marca d'água nisso e até por isso que nós estamos vendo desenvolvimento nesse sentido.
Há algum tempo atrás, a Sony desenvolveu uma inteligência artificial nesse sentido. Por enquanto, ela está sendo usada mais no campo dos direitos autorais, porque nós começamos a ver uma verdadeira máquina de criação de músicas falsas usando as vozes dos artistas e aí, claro, perde-se o direito autoral, mas trazendo aqui para o dia a dia.
para a nossa vida, teríamos que ter algo parecido com isso, só que um registro biométrico. Então, me parece que nós vamos caminhar, assim como hoje, quando a pessoa tem que validar uma transação, ela tem que fazer ali o que se chama de prova de vida e uma validação biométrica, por exemplo, do seu rosto. Nós vamos ter que caminhar para ter algo muito parecido com isso, inclusive com a nossa voz.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, conversando conosco aqui no Brasil com o Z desta semana. Arthur, que tipo de golpes são os mais aplicados hoje no Brasil no que diz respeito à tecnologia? Eu ia falar, estava justamente citando a pena, o fato da Surfshark não abordar o Brasil nesse levantamento dela, esse levantamento global feito pela empresa. Agora, no que diz respeito ao Brasil, não fica fora dessa questão de deepfakes, enfim, a tecnologia também é aplicada por aqui. E aqui a gente está mais vulnerável a que tipo de golpe hoje em dia?
Olha, aqui principalmente nós temos os golpes envolvendo...
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as empresas visam atacar as corporações, mas temos um número gigantesco de golpes envolvendo pessoas físicas. E aí essa engenharia social começa muitas vezes tentando abordar pessoas, ou seja, são aquelas famosas centrais de ligação de números falsos, tentando abordar, fazer justamente por amostragem. Então eles ligam para a pessoa, a pessoa não atende, eles vão para a próxima.
Nos últimos anos, eles até expandiram a sua atuação, né? Nós tivemos denúncias, inclusive pessoas que foram presas em São Paulo. O que eles fizeram? Eles instalaram falsas torres em alguns pontos em São Paulo. Quando a pessoa passava por ali, ela recebia, por exemplo, SMS, ela recebia...
esse tipo de contato, então muita gente acabou pegando um sinal falso quando estava passando por ali e recebeu essas abordagens, então quer dizer, nós temos golpes usando SMS, usando e-mail
mas temos muitos golpes usando redes sociais. Então, tem lá, por exemplo, um perfil falso no Instagram, a pessoa jura que está fazendo uma compra, e aí muitas vezes o que eles tentam fazer, se no passado o método preferencial era tentar coletar os dados...
do cartão de crédito, agora o que eles tentam fazer é uma oferta falsa, que tem lá um desconto, e a pessoa para que ela faça o pagamento por PIX, e não por acaso o Banco Central. Teve que tomar uma série de medidas ao longo do tempo, mudando os mecanismos do PIX justamente por isso, para tentar aumentar a rastreabilidade, o bloqueio, porque o que eles faziam muitas vezes era pegar e ficar transferindo esse dinheiro.
freneticamente entre contas, justamente para ter menos chance de ser bloqueado. E agora o Banco Central implementou uma série de medidas para que esse bloqueio seja feito em cascata, ou seja, mesmo que o recurso saia da conta A, vá para B, vá para C, ele vai sendo bloqueado nesse caminho, justamente para diminuir a possibilidade de que esses golpes aconteçam. Mas essas são as modalidades mais comuns.
Existe um perfil específico de alvo desses criminosos, Arthur? Ou a coisa é pulverizada? O que eles conseguirem captar está valendo? Olha, nós estamos vendo, infelizmente, uma atuação muito mais pulverizada. Então, nós temos quadrilhas que são especializadas em diferentes tipos. Então, como eu mencionei, tem esses grupos absurdamente capacitados que miram empresas.
que conseguiram nos últimos meses e nos últimos anos literalmente causar ataques que tiveram cifras bilionárias, alguns com dezenas de bilhões desviados, parte disso foi recuperado depois, então chegou-se à conclusão que inclusive...
tinha algum envolvimento por parte de até pessoas que trabalhavam nas próprias empresas, ou em empresas parceiras, em fornecedores de tecnologia. Outros se dedicam, infelizmente, a atacar o consumidor final. Alguns focando aí nesses crimes financeiros, em se passar por instituições financeiras. Mas é uma atuação muito pulverizada. O fato é que nós temos inúmeros tipos de crimes digitais.
e todos eles acontecendo em paralelo.
Existe, e aí pensando globalmente, essa questão do crime digital e a forma como ele é aplicado, Arthur, existem regiões específicas que concentram a origem principal desses golpes aplicados mundo afora ou a coisa é muito localmente falando concentrada? Cada país tem suas células, os seus núcleos que é de onde partem esses golpes.
Olha, essa é uma excelente pergunta. Na verdade, essas atividades hackers, nós temos uma grande concentração na Rússia, então isso é sabido, é conhecido e não por acaso também grandes empresas de cibersegurança e isso é algo que chama atenção. Quer dizer, no final das contas você tem muita gente capacitada, só que alguns acabam escolhendo o caminho do bem e outros do mal, porque nós temos grandes empresas de cibersegurança que inclusive são russas.
Mas nós temos uma grande concentração desse tipo de atividade lá, inclusive no ataque à Ucrânia. Nós vimos também essa...
essa perspectiva dessa ciberguerra, ou seja, muitos russos atacando instalações, infraestrutura ucraniana, dando uma nova dimensão à guerra que não existia no passado. Muita atividade proveniente da China também. Então, nós tivemos nos últimos anos, por exemplo, ataques a infraestruturas americanas. E eu estou falando aqui de, por exemplo, usinas de energia também, infraestrutura pesada.
e que depois soube-se que os ataques tinham acontecido, ou pelo menos a tentativa de encontrar uma brecha tinha partido da China, então tem muita atividade acontecendo lá, mas tem muita coisa que acontece também, especialmente nos Estados Unidos e Brasil. O Brasil, infelizmente, também exporta muito desses ataques, e aí um ponto que precisa chamar a atenção é o seguinte, imagine só.
Se no passado nós tínhamos o criminoso que atuava ali pulando o muro, que atuava muito localmente, para esse tipo de criminoso não existe barreira geográfica. Então, salvo esses golpes de origem, que você tem esse contato social, ou seja, tentar fazer uma abordagem, fazer um discurso. E aí, claro, essa...
Esse ataque tende a ser mais local no mundo inteiro, mas os ataques que tentam roubar dados, que fazem sites falsos, que criam aplicativos falsos...
eles acabam acontecendo mundo afora, né? Para o hacker, na verdade, o que ele está procurando é um ativo que ele consiga se apropriar e uma brecha. Agora, onde isso está, pouco importa, né? Então, isso é algo que cresceu muito também, né? Essa atividade que acontece fora da localidade onde está essa pessoa. Então, isso cresceu bastante também nos últimos anos.
Agora, Arthur, para a gente fechar, como que a gente sobrevive nesse ambiente? Existe alguma dica ou algumas dicas básicas, as orientações básicas para a gente não cair diante do primeiro golpe? Porque a impressão que eu tenho é que pelo menos umas 15 vezes eu tento ser golpeado ao longo do meu dia aqui, né? A quantidade de mensagem que chega, e-mail, spam, é uma coisa de maluco. Como que a gente consegue sobreviver nessa loucura, hein?
Olha, eu concordo contigo, acho que nós temos que partir do pressuposto que todos estamos sendo...
Atacados, né? Todos somos potenciais vítimas. Então, eu sempre recomendo essa desconfiança, eu sempre recomendo essa tensão. E nós precisamos lembrar que o que os golpistas fazem é tentar justamente explorar os nossos comportamentos, os nossos gatilhos. Então, o que eu quero dizer com isso? Puxa, ninguém gosta de usar uma senha gigantesca. É óbvio que é chato ficar decorando, digitando e tudo mais.
Mas aí o que eles vão conseguir fazer? Eles vão conseguir explorar justamente quem é menos cuidadoso. Então, quem deixa a porta mais aberta está assumindo o risco por isso. Então, esses bons hábitos, esses bons costumes digitais são muito importantes. E hoje, diferente do passado, nós temos como ter esses concentradores de senha. Os sistemas operacionais melhoraram muito, tanto o Android quanto o iOS.
no campo do uso da biometria, para fazer essa proteção. Então, tudo isso é fundamental. E a segunda coisa é que nós temos que partir também do pressuposto que isso pode acontecer mesmo com uma pessoa muito atenta, muito preparada.
Então, é aquela história, né? Vai fazer uma compra online, se puder usar um cartão digital, né? Que é o chamado cartão virtual, com limite menor, que pode ser rapidamente bloqueado. Isso já ajuda. Então, pensar que isso pode acontecer, né? Pode acontecer a qualquer momento. Então, a pergunta é como mitigar isso, né? É não só se proteger para que não aconteça, mas reduzir os danos caso aconteça, caso o inevitável aconteça.
O mesmo raciocínio vale para quando a pessoa tem o celular roubado, furtado. Na verdade, é preciso se planejar. Eu sei que é muito estranho falar isso, mas, poxa, o que aconteceria se isso acontecer comigo? Então, eu não posso deixar ali os dados...
completamente expostos, então acho que essa é uma coisa importante. E é claro, sempre manter os softwares atualizados, né? Tem muita gente que recebe aquela notificação, olha, saiu uma atualização desse aplicativo ou do sistema operacional e a pessoa acaba clicando lá em postergar ou acaba nem fazendo. Aquilo ali tem um bom motivo, né? E um dos grandes motivos é justamente a segurança. Então, mais uma vez, eu sei que tudo isso é chato, toma tempo, mas...
Nós precisamos ter atenção, né? E quando eu falo sobre gatilhos, é justamente a nossa pressa, a nossa falta de tempo. Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, conversou conosco no Brasil com o Zer esta semana. Arthur, é sempre uma grande alegria recebê-lo aqui na programação da Rádio Bandeirantes. Obrigado mais uma vez, até a próxima. Muito obrigado e até a próxima. Uma rápida pausa aqui no Brasil com o Zer. Na sequência tem Paralelo 49 para você. Até já.
Brasil com Z. Na Rádio Bandeirantes. Paralelo 49. A linha imaginária do mapa mundo que passa por Paris, centro da Europa. Conectada direto com o Brasil. Com Z.
E agora, no Paralelo 49, o quadro dos brasileiros que orgulham pelo mundo. Eu tenho prazer de receber o Eduardo Kobe, fotógrafo, dono de galeria da Kobe Gallery, e que está aí brilhando, não só no Brasil, mas também na Europa, em Frankfurt, até 13 de maio, levando aí uma exposição muito especial para os alemães e turistas que passam por lá. Eduardo, seja muito bem-vindo ao nosso programa.
Muito obrigado, muito prazer estar com vocês e grato pelo apoio à fotografia. Fotografia é uma causa particular, porque eu vou te confessar, a apresentadora deste jornal é fascinada por fotografia. Eu adoro e parabéns pelo teu trabalho. Inclusive, começo perguntando como é que foi a montagem dessa exposição que levou a Gallery até Frankfurt.
Bom, eu posso começar pela feliz coincidência. Eu tive há três anos atrás a feliz coincidência de ter uma amiga em comum que me disse um dia, olha, eu tenho umas amigas que o pai faleceu e elas têm uns negativos e elas, não confiam em ninguém para mostrar e tal, elas queriam saber se você podia olhar, né? Eu falei, nossa, claro, com prazer. E aí vou à casa delas.
E chego lá, foram quatro filhas do Nelson, mas uma já faleceu há muito tempo. Então as três estavam lá, com uma caixinha muito bem organizadinha em cima da mesa, uma caixinha de madeira, que o próprio Nelson fez com os preguinhos e tal. E seis canaletinhas ali de negativos. Mas aí eu olhei assim e falei, poxa, como que é mesmo o nome do seu pai? Aí ela falou, Nelson Korjanski.
Eu falei, nossa, esse nome não me é estranho. Imediatamente, eu liguei para minha mãe e falei, oi, como que é, meu pai já faleceu há 10 anos? E eu falei, como era mesmo o nome daquele advogado que...
que o papai falava que era o melhor advogado do mundo, que era o advogado dele, ela falou, cojanca, cojanca, falei, cojanski, ela falou, é. Aí, poxa, houve ali um momento muito bacana, que foi dizer para as meninas que o pai delas, eu pergunto, seu pai foi advogado? Elas falaram, meu pai foi só advogado, porque elas não sabiam que ele foi fotógrafo.
E aí eu falo, olha, por incrível foi esse. Que coisa. E eu deixei pra você falar o nome pro nosso ouvinte, porque assim, o Nelson Kordjansky é uma referência. Ele foi um fotógrafo Kordjansky, né? Como às vezes alguns pronunciam. Fotógrafo modernista, advogado, vituano brasileiro. Então tem... Ele tem muita história que eu vou deixar pra você contar, Edu.
Para mim essa coincidência foi muito bacana, eu poder dizer, olha, coincidentemente seu pai foi advogado, meu pai, que legal e tal. E aí criou um vínculo de confiança muito grande também, né? Eu na ocasião era presidente de uma organização ambiental, que é muito importante para elas também, que são da comunidade judaica e tal. E aí houve essa confiança.
e eu me deparo com uma caixa com 1.670 negativos. Aí eu puxo o negativo assim, tiro do celofane, dou uma olhadinha na luz, e aí falo para elas, olha, esses negativos estão impecáveis. Estão impecáveis. E vocês tiveram muita sorte. Primeiro porque o Nelson foi muito organizado, porque não só ele guardou cada negativo isolado em cada saquinho de celofane.
como ele batia uma coisa que a gente chama de contato, contato do próprio negativo, ele batia e ampliava o quadradinho e colava do lado externo do celofane, o que evitava de qualquer pessoa mexer nos negativos. E a maior sorte, na verdade...
foi que elas escolheram o armário de porcelanas delas, com pratos de porcelanas assim, para guardar a tal da caixa. Porque se essa caixa fosse guardada, eventualmente, em umas costas de banheiro ou alguma coisa assim, a gente poderia ter perdido já todo esse patrimônio. Então aí começou.
esse trabalho. Esse que é o início desse processo há três anos atrás. E depois, para reunir tudo isso...
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precisa também do seu olhar, do seu olhar de fotógrafo, de perito, né? Como é que você idealizou essa montagem? Mais do que o meu olhar, eu precisaria de exatamente o que você falou, de um olhar de um perito, né?
Eu não me considero um perito para avaliar e para curar, fazer curadorias de trabalho, mas para mim o maior pesquisador e curador hoje de fotografia aqui se chama-se Rubens Fernandes.
que além de ser professor há anos da FAAP, foi o meu professor de cinema, eu me formei em cinema na universidade, ele foi o meu professor, e hoje eu tenho a grata satisfação, o orgulho, o privilégio de ele estar sempre com a gente, e o Rubens, aí eu ligo para o Rubens e falo Rubens.
Eu estou com 1.670 negativos aqui na minha frente, não sei o que fazer com eles. Como é que a gente começa esse trabalho? E aí eu me encontro com o Rubens e a gente começa a desenvolver esse trabalho.
A primeira fase do trabalho seria identificar o que tinha naqueles negativos e para isso precisaria passar por um escaneamento geral. Só esse processo demorou uns três meses de trabalho para escanear todos os negativos e entender o material. Na sequência disso, o Rubens, que além de ser um mestre, curador, pesquisador, ele é um colecionador voraz.
principalmente de livros. Aliás, ele que escreve a maior parte dos prefácios e dos textos de livro de fotografia por aí é do Rubens. Mas, na realidade, entre as coisas que o Rubens coleciona, ele adquiriu durante algum tempo, reganhou de outro tempo, por incrível que pareça, atas do Fotocine Clube Bandeirantes.
O Foto Cine Club Bandeirantes é um acontecimento que agora no sábado completou 87 anos, absolutamente fantástico na fotografia brasileira e responsável pelo nascimento da fotografia modernista.
através das atas de reunião do Fotocine, a gente começa a redesenhar a vida e a carreira de Nelson Kordjansky. Então, um das atas de reunião mostra que aos 21 anos, Nelson Kordjansky vira diretor comercial do Fotocine Clube Bandeirantes. O que eu acho muito curioso, Gota, é...
a gente começa a descobrir quantos salões de fotografia ele foi, mas ele era um polonês, de carteira, na certidão como polonês, porque na época a Litônia era Polônia, e veio com a mãe, como muitas famílias judaicas, que veio fugindo da guerra para tentar uma nova vida.
Eles vieram com muito, muito poucos recursos, para não te dizer rumo nenhum, né? E ele precisava arrumar um emprego. E ele arrumou um emprego, por incrível que pareça, no Falticine Clube Bandeirantes. E como na vida, olha, na vida nada é por acaso, né? Nada é por acaso, Deus sabe o que faz, né?
E aí, certamente uma pessoa de uma capacidade fora da curva, porque ao mesmo tempo que ele consegue esse emprego, ele consegue entrar na São Francisco, na melhor universidade de direito aqui de São Paulo, e que é muito...
muito difícil de entrar. Então eu me coloco no lugar dele como um imigrante que provavelmente mal falava português, então era um cara com uma capacidade bastante grande aí e essa capacidade se destaca dentro do Fotocínio Clube Bandeirantes, tanto que o elegem diretor comercial.
O Fotocine Club Bandeirantes funcionava da seguinte maneira, Thomas Farkas, Gaspar Gasparian, Germain Lorca, os grandes nomes para você hoje da fotografia modernista, eram apenas grandes amigos, simples assim.
E os amigos, que ninguém era melhor do que ninguém, você não era melhor do que eu porque se fotografa, ninguém era melhor do que ninguém. E a grande atividade do clube chamava-se saídas fotográficas. Essas saídas, que eles deviam alugar uma Kombi, alguma coisa do tipo, uma van que seria hoje, eles iam aqui para Bertioga.
e iam também aqui para Atibaia, e todos eles que no futuro se tornam os mestres da fotografia, juntos saiam e faziam saídas fotográficas. Esse é o motivo porque muitos modernistas, às vezes, têm fotos muito parecidas. Eu tive uma ocasião agora em Paris, na Paris Foto, que eu entrei num stand de uma... Jumam!
uma galerista importante de Barcelona, que ela é muito especializada na arte da fotografia modernista brasileira. E aí eu me deparo com uma foto idêntica do Nelson. Aí eu falo, nossa, o que essa foto está fazendo aqui?
E essa foto era do German Lorca. E era simples assim. Eu estava com você na frente de um prédio. Esse prédio, inclusive, não é só eles dois que tem, tem outras pessoas que tem que estavam no mesmo momento. E um olha para o outro e fala, porra, bacana esse prédio, fazer uma foto. Puta, também, peraí. E não imaginavam que 50 anos depois essas fotos seriam icônicas e seriam absolutamente parecidas. Que bacana.
Mas são essas histórias que vocês têm, que a gente adora, que a nossa audiência adora ficar ouvindo, né? Porque a gente imagina, assim, estamos no rádio, estamos ouvindo suas histórias. E mesmo quem não conhece a foto já está visualizando. E, Eduardo, o que eu queria falar com você também é que você tem um outro projeto importante. A partir do dia 6 de maio, o lançamento de um livro. Queria que você contasse para a gente encerrar esse bate-papo.
Bom, vamos lá. Eu tenho muito aí, você está mexendo numa seara, que aí sim é um trabalho que, para mim, é um trabalho de vida. Eu tenho meus trabalhos de fotografia, faço um trabalho que chama Agentes do Mundo.
que fotografam pessoas pelo mundo há quase 40 anos, enfim. Mas eu tenho um trabalho de coração. É um trabalho que se chama Faces of Holocausto e há sete anos que eu documento sobreviventes do Holocausto.
Eu estou filmando há sete anos, a pandemia me fez parar de poder captar por um tempo, porque meus atores e meus modelos têm 93, 94, 96.
mínimo 90 anos e naquele momento nem eu poderia mais trazê-los para o estúdio, nem eu ir à casa deles filmar. Houve uma paralisação. E aí comecei já a trabalhar devagar na finalização, tentar encontrar caminhos para finalizar o filme e tal. E nesse meio tempo eu sou convidado pelo Museu do Holocausto a realizar um livro que chama Sobrevidentes. Infelizmente vocês não estão...
podendo ver, mas é Os Sobreviventes do Holocausto. E produzi durante o ano passado esse livro, que será lançado agora no dia 6. Nesse livro não só tem os sobreviventes, como tem um material muito interessante. Eu fui levar o Pedro Bial para os campos de concentração na Polônia.
e nem a Globo não conseguiu permissão para voar de drone dentro de campos de concentração. E eu sou um fotógrafo que também ama drone, eu faço drone para cinema, faço drone para fotografia. E aí eu fiquei dez dias fazendo prova na aeronáutica da Polônia para poder ter uma autorização para voar de drone em cima de Auschwitz, de Trebinca, de Mainenic.
E hoje todos esses campos são museus, são museus. Então eu tive que fazer seguro para caso ocorresse qualquer acidente ou com uma pessoa ou o drone cair em cima de um galpão. Enfim, foi um trabalho bastante delicado, que também está nesse livro que eu lanço no dia 6.
Nossa, que bacana isso. O mais importante que eu gostaria muito de te falar, e gostaria muito de ter oportunidade como essa, é a finalização do meu filme. Porque, assim, durante sete anos eu banquei o filme.
Banquei todas as sessões, tudo o que precisava, locuções de estúdio, etc. Mas agora, quando se trata de uma finalização no nível de filme que eu quero, só para te dizer uma coisa, quer dizer, a minha expectativa não é ir para ganhar dinheiro ou ir para o grande público. Existe uma cooperação mundial entre os museus do Holocausto e existe uma troca de acervos.
Então, para que você ingresse dentro do Yad Vashem, que é o maior museu do Holocausto em Israel, ou um museu em São Francisco, que é um museu gigantesco, ou um museu na Alemanha, para que você ingresse nesse universo de troca de documentos importantes para a humanidade, você precisa ter uma qualidade muito boa. Não é qualquer coisa que circula nessa troca universal de documentos do Holocausto.
Então, eu quero fazer uma finalização de muito boa qualidade, com um bom roteirista, com uma boa pesquisadora de imagens, com um bom tratador de imagens, finalizador, montador, e isso demanda um recurso. Então, dessa vez, nesse projeto...
Eu não vou estar entrando em lei Rouanet, eu gostaria de ter apoio de pessoas que achem que esse é um trabalho importante. Eu tenho vários, são 30 sobreviventes já documentados, eu tenho mais de 60 horas de entrevistas. E, assim, lamentavelmente, alguns deles já se foram, alguns eu perdi na pandemia, outros se foram com a idade. Eu tenho...
sobreviventes inéditos que ninguém nunca viu, né? E tem os sobreviventes famosos, né? Como a Nanette, que é assim uma encarnação da Anne Frank, ou como o próprio Andrew Stern, que por incrível que pareça, foi o único brasileiro paulista que foi para Auschwitz. Ele teve uma infelicidade que o pai dele que trabalhava aqui foi transferido para a Alemanha, e quando ele estava na Alemanha foram para Auschwitz.
e depois ele volta ao Brasil e se torna uma pessoa bastante reconhecida no meio do Memorial do Holocausto, de tudo. Um grande exemplo para nós, que infelizmente também faleceu ano passado.
Mas eu tenho certeza que não vai faltar captação para você, porque seu nome é uma grife, como tudo que você faz. Tem muito coração, tem muita qualidade. E é um legado, Eduardo, que você deixa para todos. Eu costumo dizer que livros, filmes e até o trabalho que a gente faz no dia a dia são legados, são missões que a gente cumpre e que a gente tem que tocar o coração de cada um.
Eduardo, eu te vejo em Arles. Se Deus quiser, se eu for, eu vou passar por Paris. Eu tenho um grande parceiro cineasta aí, o Alexandre Valente, que se eu passar por Paris, tento ficar uns dois dias, eu ia amaria tomar um café com você. E se você for para Arles, então, mais legal ainda. Eu vou ter um grande prazer. Esse café já está marcado. Vai ser uma honra para mim, viu, mestre? Olha, não tenha contato comigo.
Nós conversamos com o querido Eduardo Koube, fotógrafo, dono da galeria, e olha, que tem uma vida inteira aí de trabalhos, exposições, ele é um brasileiro que orgulha pelo mundo aqui no nosso Paralelo 49. Obrigada, Eduardo, e volte sempre.
Eu que agradeço e vou ficar ansioso pelo nosso próximo encontro. E peço aí para os ouvintes seguirem a galeria, a cobi.gallery, e participar das conversas, dos encontros com fotógrafos, com curadores, que tudo o que a gente quer é fomentar a arte fotográfica no Brasil e no mundo.
Muito obrigado. Cobb.gallery.com.br Só para ela. Cobb.gallery.com.br Com dois L's e isso. Um grande abraço. Precisando de qualquer coisa, conte que a Cobb Gallery é o seu QG aqui. Obrigada, meu querido. Um grande abraço. Paralelo 49
E com o Paralelo 49, ponto final nesta edição do Brasil com Z, que teve produção da Maria Eugênia Cotaiti, apoio na produção do Luiz Felipe Nunes, trabalhos técnicos do Paulo Marcelo Mamoni, do Roger Palme, da Vitória Vermilho, do Roberto Dias, do Beto Rebeck, do Rafael Palmeira, do Michel Lopes, edição e sonorização do Cayame Martins. A gente fica por aqui já deixando o nosso próximo encontro semanal com você, marcado aqui pelas ondas da Bandeirantes. Boa semana, um grande abraço para você, até lá. Um abraço, Sônia.
Tchau, Cris. Até a semana que vem. Tchau, ouvintes. Termina aqui. Brasil com Z. Na Rádio Bandeirantes. Podcast da Rádio Bandeirantes.