21. O Colecionador de Lágrimas. Cap 17 - Devorando a alma dos alemães: O sutil magnetismo do Führer
Leitura do Cap 17 do Livro O Colecionador de Lágrimas, de Augusto Cury. Da pág 269 à pag 288.
- O Colecionador de LágrimasLeitura do Capítulo 17 · Augusto Cury · Holocausto Nunca Mais · Cárcere privado e solidão · Diferenças entre Caterine e o professor · Relacionamento de Júlio Verne e Caterine
- O Messianismo de HitlerO lobo e o cordeiro · Finíssima astúcia · Devorando o psiquismo dos alemães · Canibalizando a emoção dos alemães · Comparação com Stalin
- Manipulação Política e Marketing EleitoralMarketing político injusto e financiamento · Transformação de homens corruptos em líderes · Exposição de ideias e projetos · Exame psiquiátrico para políticos · Manipulação da imprensa · Papel da imprensa livre
- Educação e formação de opiniãoExcesso de informação vs. conhecimento · Formação de jovens pensadores · Protagonismo na própria história · Crises futuras e líderes radicais
Olá, aqui é Erika Domingues, compartilhando leitura. Nós estamos lendo o livro de Augusto Cury, O Colecionador de Lágrimas, Holocausto Nunca Mais. E hoje nós vamos ler o capítulo 17, que inicia-se na página 269. O título é Devorando a Alma dos Alemães, o sutil magnetismo social do Föhrer.
Devido ao clima de perseguição implacável que o professor e Caterine viviam, não era recomendável que frequentassem mais nenhum lugar público, pelo menos pelas semanas ou meses seguintes, até que a trama em que estavam envolvidos fosse revelada e os homens que queriam assassiná-lo presos. Os dias se passaram e o cárcere privado os angustiava muito. Sempre bateram as asas com liberdade, amavam festas e jantares.
Filmes já não os animavam. O canal de história e de ciências era a única coisa que conseguia distraí-los. O professor não era tímido, mas introvertido. Em alguns momentos tinha necessidade de doses de solidão para se interiorizar e produzir. Entretanto, a solidão que o abarcava era excessiva e punitiva.
Caterine, diferentemente dele, tinha necessidade de estresse social para sentir-se viva e produzir. A solidão, sob qualquer forma, a perturbava. Ela foi se deprimindo. Queria sair, respirar, mas Billy, que estava sempre por perto, era transparente com eles. O departamento de segurança não se responsabilizará se vocês saírem deste aparte hotel.
Por quanto tempo mais? Perguntou Caterine, mesmo sabendo que a resposta inexistia. Quem sabe? Nunca vi, nesses 20 anos de polícia, um casal correr tantos riscos e ter tantos fatos estranhos rodeandos. Há 20 policiais investigando as pistas e todas elas nos deixam mais confusos. Depois dessa resposta, o casal teve uma conversa ardente.
estavam abatidos a tal ponto que nem perceberam que Billy estava presente na sala. — Não vejo a hora de voltar às minhas aulas, aos meus amigos, restaurantes — disse o professor consternado. E olhando para o luxuoso apartamento vitoriano em que se encontravam, completou. — Não nasci para o luxo, nasci para as ideias. Caterine, além do tédio que a asfixiava, não sabia o que explicar aos seus pais e aos seus amigos.
Até tinha medo de que seu celular estivesse grampeado. Observando o abatimento dela, Júlio Verne sentiu que estar ao lado dele não era um convite ao prazer. Desculpe, Kate. Desculpe-me por tê-la metido nessa confusão. Você tem todo o direito de desistir da nossa relação. Não fale bobagem. Fico pensando se você não estaria mais feliz nos braços de outro homem do que no deste simples professor. Será que Paul não faria...
Interrompendo sua fala, ela afirmou, irada e entristecida. Paul, não me ofenda. Eu escolhi você, um aventureiro sem grandes sombras de dinheiro, mas um rico mercador de ideias. Mais uma vez, colecionou lágrimas. Perdoe-me, querida. E tocou suavemente a sua cabeça. Ela levantou o rosto e comentou. Amanhã é aniversário de nosso casamento, Júlio. Esqueceu-se?
Nunca me senti tão insegura ao seu lado e nunca tive tanta certeza de que o amo. Profundamente emocionado, ele olhou para sua face e jamais a viu tão linda. E se beijaram. Billy virou o rosto, mas deu uma espiadela. Teve uma inveja saudável deles. Casara-se duas vezes e não tivera filhos. Atualmente estava separado, à procura de um novo romance. Queria tanto ter um filho seu, mas neste clima...
Disse ela insistindo num desejo que havia anos que a controlava. Tranquilize-se, querida. Chegará o momento. De repente, num sobressalto, ela disse. Espere um pouco. Esqueci-me. Amanhã não apenas é dia do nosso casamento, mas também do Encontro Nacional de Psicólogos Sociais e Cientistas Políticos. E você quer ir a esse encontro? Não é seguro, Kate.
Não eu, mas você. Lembre-se de que você foi o convidado de honra para falar sobre o magnetismo social de Hitler, cativando o inconsciente coletivo. Sim, mas pedi para você desmarcar minha presença há pelo menos um mês e meio. Desculpe, estava tão orgulhosa de você que não a desmarquei. Queria que os profissionais da minha área o conhecessem, até porque esperava que tudo fosse resolvido rapidamente.
Não, não, não, proclamou Billy, que estava atentíssimo a toda a conversa. Estou fora. Billy, por favor, arma um esquema. Vão sair disfarçados. Não é seguro. Você é um policial brilhante. Certamente conseguirá nos proteger, insistiu ela, desejando respirar outros ares. Vendo-o ainda resistente, ainda acrescentou. Por favor, não deixe que sua amiga seja envergonhada diante de seus pares.
E virando-se para o marido, a não ser que Júlio não queira me dar esse presente de casamento, disse afetivamente Caterine. Difícil era, para esses dois homens, resistir ao pedido dessa fascinante mulher. A dívida de agradecimento de Júlio Verne com Kate era grande. Ela vivia ao seu lado sem reclamar. Ele fez um sinal que sim. Em seguida, ela olhou para Billy, fazendo novamente um pedido, agora com os olhos.
Mulheres sempre me dominam. Ok, vou tentar. Caterine levantou-se e beijou o policial cinquentão com leve sobrepeso, cabelo um tanto desarrumado na face esquerda. Billy brincou. Isso é uma declaração de amor, Kate? Júlio respondeu por ela. Uma declaração para ficar a uma milha de distância dela. Ciúme de homem é pior que arma de bandido, afirmou Billy. E todos sorriram.
O inspetor sofreu um desgaste enorme para conseguir autorização do departamento de segurança. Depois da autorização, começaram a se preparar para mais uma aventura. No dia do evento, pegaram o elevador de serviço, passaram pela cozinha e saíram pelos fundos do hotel. Nenhum suspeito à vista. Dessa vez, dois carros com seguranças, um atrás e outro na frente, os protegiam. Nenhum transtorno pelo caminho. No local do evento, mais dez policiais estavam a postos.
A casa estava cheia, havia 215 participantes no Salão Nobre, onde o professor faria sua alocução. Logo antes de iniciar sua fala, ficou apreensivo. Fungou o nariz, passeou seu olhar pelo público, temia que houvesse algum terrorista na plateia. Billy montou um esquema de segurança incomum e desconfortável. Todos os participantes passaram por detectores de metais, o que gerou muita reclamação.
Paul, o antigo namorado de Caterine, estava presente no evento e sabia que todo esse rigoroso esquema de segurança era por causa de Júlio Verne. Queria que ele próprio estivesse em evidência social. As luzes diminuíram na plateia, em contraste com o foco de luz sobre o professor. Todos atentos, sua fala gerava expectativa.
Hitler penetrou no inconsciente coletivo da sociedade alemã com uma refinada propaganda pseudoafetiva de massa, jamais vista na história. Mas rapidamente ganhou um opositor na plateia, Paul. Paul ainda pensava que Júlio Verne, embora inteligente, estava desenvolvendo uma esquizofrenia. Sua inveja clandestina asfixiava sua mente.
Era psicólogo clínico e estava presente no evento dos psicólogos sociais, menos para aprender e mais para questionar o seu rival, o que na primeira oportunidade fez. E disse, eu discordo, professor Júlio Verne, você é muito romântico. Hitler era truculento, dominou a sociedade alemã do seu tempo pelo clima de terror que imprimiu, pelo uso das armas. Caterine ficou inquieta com o clima, mas o professor tinha prazer em ser questionado.
Tomou a palavra e falou com brandura, mas sem perder sua arte de instigar o raciocínio. E disse, pô, que bom que você está presente e obrigado pela sua discordância. Sem dúvida, o emprego das armas, em especial pela SS, pela SA e pela Gestapo, para eliminar qualquer opositor nos bastidores do regime, começando pelos marxistas, criou um silêncio mordaz. Mas o flerte que esse ditador usou para seduzir a sociedade é um silêncio.
Não foi linear, porém multiangular. Ele alavancou a economia investigando poderosamente, desculpa, ele alavancou a economia investindo poderosamente no rearmamento das forças armadas. Diminuiu o número de desempregados, atacou o tratado de Versalhes, usou símbolos místicos para cativar as religiões, procurou a unidade política numa Alemanha fragmentada. Tudo isso contribuiu para a supremacia hitleriana.
Contudo, outras poderosas armas foram apontadas, mas não destacadas pelos historiadores, até porque envolvem os meandros da psicologia social e tiveram uma importância vital para Hitler cativar sorrateiramente o inconsciente coletivo da sociedade alemã. Alguém pode me apontar alguma? Ninguém respondeu. Paul emudeceu. O professor acusou. O ensopado de domingo. Ensopado de domingo?
e da Gobille para a Caterine, que também não sabia do que se tratava. O ensopado de domingo foi instituído pelo nazismo em outubro de 1933, portanto, dez meses depois do início do seu governo. No primeiro domingo dos meses de outubro a fevereiro, as famílias alemãs das classes média e rica foram encorajadas a se alimentar somente de um ensopado.
com poucos ingredientes. E a economia gerada por esse sacrifício era coletada de casa em casa para auxiliar os pobres nos meses subsequentes, de novembro a março, quando o inverno chegasse. Havia 7 milhões de desempregados, um caos social. A nação se envolveu coletivamente num clima de solidariedade patrocinado pelos nazistas. O doutor Herbert, professor e doutor em ciências sociais, levantou-se e comentou.
Desconhecia esses fatos, mas foi incrível a habilidade desse homem para sequestrar o afeto da sociedade. Fico imaginando a cena dos pais tendo de explicar aos filhos as causas e os objetivos daquele pequeno sacrifício.
Pode-se imaginar ainda que milhões de pobres ficaram agradecidos com a ajuda que emanava da sociedade, que criou uma rede de fraternidade, ainda que superficial. E mesmo que essa política não tenha tido nenhuma eficácia para eliminar a pobreza, foi um grande golpe de propaganda. Comentou o Maicon, um especialista em marketing social. E o professor acrescentou.
O partido de Hitler não tinha sido majoritário nas eleições e Hitler tornou-se chanceler por meio de manobras políticas. Muitos políticos tradicionais esperavam que o bizarro Hitler caísse em breve por sua falta de habilidade política. Mas num golpe ele começou a penetrar em todos os lares alemães e mais que isso na alma deles, inclusive no das crianças e adolescentes.
Agora estou começando a entender por que o forasteiro magnetizou a sociedade a que não pertencia. Disse Billy para a Caterina. Esse austríaco, despreparado política e intelectualmente, mas muitíssimo bem preparado em marketing, conseguiu, sem usar recursos do Estado, se fazer lembrado mês a mês em cada família alemã. No melhor ambiente, na melhor data, comentou Ana, uma ilustre professora de psicologia social.
Sem dúvida, o Föder penetrou como uma bomba no inconsciente coletivo. Paul encolheu-se na sua cadeira e o professor em seguida fez uma breve explicação da complexa e insana personalidade de Hitler. O lobo e o cordeiro habitavam na mesma mente. A mesma mão que a acariciava era a que matava.
Hitler, sob a sombra de seu ministro de propaganda, Goebbels, inaugurou o marketing político assistencialista e foi mais competente do que os especialistas da atualidade. Foi, inclusive, mais criativo do que os ícones socialistas como Lenin e Stalin em cativar a população. Os socialistas expurgaram milhões de opositores. Hitler seduziu milhões de almas.
As portas da Alemanha estavam abertas para a emigração dos alemães e poucos partiam. Hitler sabia como poucos arrecadarem postos e como raros arrecadarem afetos, comentou Caterine. Vejam os efeitos do marketing de Hitler no território da emoção das crianças numa época em que não havia televisão. Analisem esta carta, produzida em 19 de abril de 1934, disse o professor.
E a carta diz o seguinte, caro senhor chanceler do Reich Adolf Hitler, nós meninos e meninas hitleristas não queremos deixar de expressar nossos mais sinceros votos de felicidade no dia do seu aniversário.
Desejamos de todo o coração que Deus lhe dê muitos e muitos anos de vida, para que possamos nos tornar sob seu governo autênticos e corajosos alemães e para que possamos desfrutar das suas obras na Alemanha recém despertada debaixo do sol brilhante da sua magnífica vitória. É surpreendente essa reação desses meninos. Como pode, senhoras e senhores, na Alemanha daquele tempo, haver meninos e meninas hitleristas?
Que golpe é esse no território da emoção? É provável que a maioria das crianças e adolescentes da atualidade, apesar de toda a mídia disponível, nem sequer conheça o nome de seus líderes políticos? Comentou Vitória, impactada, chefe do Departamento de Ciências Políticas de sua universidade. O professor continuou dizendo que numa época sem TV, internet, Twitter, Facebook,
Hitler já havia construído uma rede de relacionamento social não apenas entre os jovens, mas até entre crianças e adolescentes. E num ambiente de insegurança do pós-primeira guerra, medo do futuro, crise econômica, fomentou-se um meio de cultura para os grandes lances de propaganda de Hitler, que levaria pouco a pouco a sociedade alemã, que não era vocacionada para a guerra, a deixar de ficar perplexa com a sua ambição psicótica.
Em seguida, Júlio Verne fez esta observação. Hitler era um superstar, uma celebridade maior do que cantores e atores, afirmou, e, como tal, quebrava todos os protocolos. Usava golpes afetivos fatais, falava de improviso, tinha reações e gestos incomuns para um presidente, primeiro-ministro, rei, governador. Seus comportamentos eram comentados oralmente no tecido social e geravam uma reação em cadeia.
Vejam a outra parte da carta que acabei de ler e tirem suas próprias conclusões. A carta é o seguinte. Soubemos que o Senhor é o padrinho de todo o sétimo filho, mas como vai demorar demais para nós, eles eram apenas cinco irmãos, e já que não somos batizados e queremos ser seus afiliados, pedimos que o Senhor consagre nosso sentimento divino por meio do batismo e se torne o padrinho de todos nós. O Senhor vai atender nosso desejo? Por favor, por favor.
seus jovens congratulantes que o adoram sobre todas as coisas. Gerhard, 11 anos, Horst, 8 anos, Evi, 5 anos, Dietrich, 3 anos e Sigfjör, 2 anos. A plateia fez um mergulho introspectivo e mais uma vez ficou embasbacada com a maneira como Hitler sequestrara a inocência daqueles meninos e de seus pais. Não se tratava de jovens, mas de crianças.
que formava uma liga de admiradores do fônia. Senhor Júlio Verne, se entende bem, a carta desses meninos queria dizer que Hitler apadrinhava o sétimo filho de toda a família alemã, numerosa com o ritual cristão do batismo? É isso mesmo? Perguntou Sam Moore, um colunista político que escrevia para grandes jornais. Sim, é isso mesmo.
Sou especialista em ciências políticas. Que eu saiba, nenhum outro estadista revelou tão estranhado e entranhado afeto, ainda que falso, no seio da sua sociedade. De quando mesmo foi datada essa carta? De 19 de abril de 1934. Menos de um ano e quatro meses depois de ele haver assumido o poder. Politicamente ainda frágil, mas com uma popularidade altíssima. Essa informação do apadrinhamento não procede, disse Paul arrogantemente.
Como Hitler teria feito isso se a Alemanha tinha mais de 50 milhões de habitantes na época? Gilo Verne disse pacientemente. A Alemanha tinha na época cerca de 80 milhões de habitantes, corrigiu o professor. Essa informação não é invenção minha, faz parte de recentes descobertas.
E doa fonte. Está no belo livro Cartas para Hitler, de Henrique Eberle. Pelo tamanho da população, era impossível o apadrinhamento coletivo das famílias numerosas. Hitler só apadrinhou algumas dessas crianças e no início do seu governo. O Föhrer era um populista. Seduzia e enganava a sociedade sem nenhum sentimento de culpa, com ideias impraticáveis para se agigantar em seu psiquismo.
E o que vale para os políticos populistas é a peça de marketing e não a aplicabilidade das suas teses. Essas cinco crianças terminaram sua carta dizendo, por favor, por favor, como as crianças da atualidade não insistem em ganhar um objeto de desejo, como um celular, um tablet ou um tênis, concluiu David. A doutora Susan, amiga de longa data do doutor Michael e professora na mesma universidade, disse
Completando a ideia, numa única peça de marketing e sem gastar novamente nenhum dinheiro do Estado, ele atingiu três fascinantes objetivos. Exaltou a religiosidade por valorizar o ritual do batismo cristão, estimulou a multiplicação da raça ariana ao valorizar famílias numerosas e assumiu a paternidade nacional para conduzir a Alemanha ao seu destino histórico.
Os políticos atuais abraçam crianças durante a campanha eleitoral para mostrar afetividade e proximidade. Hitler foi mais longe. Para conquistar o palco social, ele primeiramente conquistou os bastidores da emoção, completou David. A plateia aplaudiu a professora Susan, as ideias de David e do professor. Paul, envergonhado, ficou rubro. Não os aplaudiu.
A professora Ellen, em seguida, perguntou a Júlio Verne, você acha que todas as ações de marketing de Hitler que geraram seu magnetismo social foram planejadas? Não creio, professora. Não há dúvida de que Hitler, juntamente com o gênio Goebbels, foram os grandes inventores do marketing da emoção de massa. Mas uma parte de suas ações se misturavam com seus conflitos da adolescência. Era uma tentativa de superação do complexo de inferioridade de Hitler e da sua sociabilidade contraída.
Nunca confie na pele de um político antes de analisar seus dentes, disse Billy arrancando risadas da plateia. Caterine, que estava ao seu lado, acrescentou. O soldado que corria solitário no solo onde se travavam as batalhas, corria agora nos espaços mais íntimos da mente dos alemães.
Isaac, professor de sociologia de uma importante universidade em Jerusalém, que vier a Londres como professor convidado desse congresso, fez indagações sobre a flutuabilidade doentia e extrema do psiquismo de Hitler, um tema que o professor já havia discutido em suas aulas.
Como pode um líder que estabeleceu o ensopado de domingo e que aparentemente pensava na fome dos pobres alemães ser o financiador dos campos de concentração que esmagaram de fome milhões de judeus e outros seres humanos? Que homem é esse que apadrinhou as crianças arianas das famílias numerosas e ao mesmo tempo foi capaz de levar à morte impiedosamente um milhão de crianças e adolescentes judeus? Que mente é essa?
Essa é a paradoxalmente do maior criminoso da história. Era um homem de dupla face, tal qual Stalin, que era capaz de assassinar seus supostos inimigos à noite e de manhã tomar café com as viúvas como se nada tivesse acontecido. De repente, um professor especialista em movimentos sociais levantou-se e produziu esta pérola. O voto é poderosíssimo durante as eleições.
mas fragilíssimo depois delas. A sabedoria está em saber quando exercê-lo. Era fácil a sociedade alemã eliminar o candidato, mas não o ditador. Julio Verne o aplaudiu, a plateia o acompanhou. Mark, pesquisador de um instituto de pesquisa social, tocou no polêmico tema. Se há exames médicos para ser admitido em uma profissão, por que não um exame psiquiátrico para dirigir uma nação?
Sua proposta é interessante, mas, declarou Michael, rebatendo Mark, poderia haver laudos psiquiátricos manipulados, que inclusive poderiam vetar pessoas aptas por pensarem diferentemente. A decisão do eleitor é soberana e a imprensa deve contribuir com ele, expondo e criticando a história dos candidatos. Mas a imprensa pode ser manipulada. Sem uma imprensa livre, não há sociedade livre, disse Mark num tom ríspido. E assim se iniciou uma discussão no evento.
Alguns apoiavam a ideia do exame psiquiátrico, outros a condenavam. Minutos depois, começaram a atacar o marketing político na atualidade. O marketing político é injusto, depende de quem o financia e de quanto se financia. Ele embala líderes como mercadorias, disse Douglas, um psicólogo social revoltado com o dinheiro gasto em tempo de eleições. Uma voz ecoou, concordo, o marketing político algumas vezes...
Presta-se a transformar homens corruptos em líderes palatáveis? Os políticos não deveriam usar a propaganda de massa para se promover. Deveriam expor suas ideias e seus projetos em branco e preto, afirmou Jefferson, usando uma metáfora. Mas o marketing expõe ações, revela propostas. Esse é o jogo. É quase impossível, nas grandes sociedades, conhecer os candidatos sem a sua extenuante exposição na mídia, comentou Mary, amiga de Caterine.
Júlio Verne observava o debate. Despreocupado em dar respostas prontas, tentou abrandar o clima. Agradeceu as acaloradas opiniões e, em seguida, relatou que Hitler foi provavelmente o primeiro político a usar a exaustão o mais penetrante meio de comunicação de todos os tempos, o rádio. O rádio, que ingenuidade, Júlio Verne, discordou Paul novamente, que usou a oportunidade de diminuir.
O rádio não pode ser o maior meio de comunicação de todos os tempos. É, na verdade, um instrumento tímido. As imagens transmitidas pela TV e pela internet são muito mais poderosas. Paul achou que dessa vez o pegara. O professor respirou profundamente e, depois de um momento de silêncio, comentou.
Obrigado, Paul, mais uma vez. Eu não disse que o rádio é o instrumento mais poderoso, mas o mais penetrante meio de comunicação de todas as eras. A TV e mesmo a internet, por transmitirem imagens prontas, saturam o córtex cerebral, o que pode levar à contração do imaginário. O rádio, por transmitir apenas sons, liberta o imaginário do ouvinte, transformando-o no construtor das imagens que vestem os sons.
instigando-o a ser um engenheiro de ideias e não um repetidor delas. Paul se calou, pois nunca tinha pensado nisso antes. E para confirmar sua tese, Júlio Verne se dirigiu a Paul e depois a plateia. Em que época foram produzidos qualitativamente mais pensadores? Na era da TV ou do rádio? Paul, novamente, nunca tinha refletido sobre isso, nem a maioria dos psicólogos e cientistas sociais.
Mas estes aproveitaram para fazer uma breve viagem na história e ficaram surpresos com as conclusões que tiraram. Edwin, um pesquisador que investigava a relação entre a física quântica e as ciências humanas, concluiu Estilhação dos meus preconceitos, ao que parece, foi na Era do Rádio. Foi nessa época que surgiram Einstein, pai da teoria da relatividade, Werner Heisenberg, pai da mecânica quântica,
E mais, Hub, Freud, Piaget, Eric Fromm, Sabin e tantos outros cientistas. As grandes teorias surgiram numa época em que o tráfego de imagens prontas não saturava a mente humana. O uso do rádio fomentava a imaginação, o que provocava a criatividade, comentou o professor. E falando sobre Einstein, ele imaginava-se viajando num raio de luz e observava o que acontecia com o tempo.
Ele mesmo confessou que a imaginação era mais importante que o excesso de informação. Os participantes do evento perceberam que a conferência sobre o magnetismo social de Hitler possuía um leque tão amplo que tinha grandes implicações para o futuro da espécie. Goebbels, o gênio do marketing político, tinha um plano. Tal plano previa a utilização mais ampla possível do rádio, uma massificação que nossos adversários não têm sabido explorar.
escrevia o chefe da propaganda. Ele queria que Hitler fizesse seus discursos em todas as cidades dotadas de emissoras de rádio para atingir o maior número possível de alemães. Mas os discursos deveriam romper o cárcere do tecnicismo político e ganhar ares de um artista plástico.
São de Góbel essas palavras, disse o professor. E as palavras são. Nós transmitiremos as mensagens radiofônicas para o meio do povo e daremos assim ao ouvinte uma imagem plástica do que acontece durante nossas manifestações. Eu mesmo farei uma introdução para cada discurso do Föder, na qual tentarei transmitir aos ouvintes o fascínio e o clima geral de nossas manifestações coletivas. Continuando, disse ainda.
E Albert Speer, o arquiteto e grande amigo de Hitler, confirma em suas memórias. E as memórias são. Por meio de recursos técnicos como o rádio e o megafone, 80 milhões de pessoas foram privadas da sua liberdade de opinião. Por conseguinte, foi possível submetê-las à vontade de um único homem. E também...
Quem olha para as atitudes de Goebbels poderia achar que outrora ele não fora uma mente independente. Mas se engana, o partido nazista voltou à legalidade em 1925 e Goebbels foi um dos primeiros a filiar-se. No começo vivia em atrito com Hitler. Exige que esse pequeno burguês, Adolf Hitler, seja expulso do partido. Fala dele. Depois anotara em seu diário. Estou exausto. Quem é esse Hitler, afinal?
Um reacionário extremamente inábil e volúvel? Itália e Inglaterra são nossas aliadas naturais. Nossa tarefa é aniquilar o bolchevismo, mas o bolchevismo é uma invenção dos judeus. Diante disso, Caterine Kuhl comentou, uns têm habilidade para adestrar animais, outros mentes humanas. Adolf Hitler tinha habilidade para adestrar homens que antes eram mentes independentes.
Anos depois, Goebbels tornou-se apenas uma sombra do Fuller. A discussão não teria paixões, mas o professor olhou para o relógio e viu que havia avançado dez minutos em seu tempo de exposição. Embora os participantes continuassem animados em viajar pela história sob as asas da psicologia social e das ciências políticas. Devido à avançada hora, sintetizou as características do marketing político e dos discursos eletrizantes de Hitler, que alicerçavam o seu magnetismo social.
Então está resumido da seguinte forma. 1. Tonalidade imponente e teatral da voz. 2. Utilização de frases de efeito. 3. Supervalorização da crise social e econômica. 4. Propagação contínua da ameaça comunista, o que causava pânico nos empresários e produzia uma adesão estérica ao Führer. 5. Lembrança constante da humilhação sofrida na Primeira Guerra Mundial.
6. Excitação até o ódio aos inimigos da Alemanha, em especial marxistas e judeus. 7. Promoção exaustiva da raça ariana e da autoestima do povo alemão. 8. Exaltação do nacionalismo e de sua postura como alemão dos alemães. 9. Utilização exagerada das suas origens humildes. 10.
verborréia, necessidade neurótica de falar, expressa por monólogos intermináveis. E explicou, quanto a verborréia, Hitler falava por horas a fio, utilizando palavras, expressões e teses para impressionar as plateias e pressioná-las a depositar nele a sua confiança. Não poucos ditadores têm tanto apreço pelas palavras quanto pelas armas.
Temos de repensar os líderes com tais características, declarou novamente Isaac. Odeio Hitler até as raízes da minha alma, pois ele quase levou o meu povo ao aniquilamento. Mas hoje entendi que ele só fez o que fez por sua finíssima astúcia. No palco ele afagava, nos bastidores asfixiava. O monstro foi embalado por seu marketing de massa com características impactantes.
Após esse comentário, Ana, doutora em ciências da educação, fez este comentário. A conclusão a que cheguei, professor e dileto os colegas, e que me deixa abaladíssima, é que antes de devorar os judeus, Hitler devorou o psiquismo dos alemães. Julio Verne concordou. Essa não vem a minha conclusão. Antes de devorar os judeus, Hitler canibalizou a emoção dos alemães.
E Ana acrescentou, e fico perturbada em concluir que a humanidade está atravessando e atravessará crises energéticas, insegurança alimentar, aquecimento global, criando um meio de cultura ideal para surgirem novos líderes radicais, sedentos de poder e sedutores. Estamos preparados para abortá-los?
Será que nossa educação está formando jovens pensadores que saibam fazer escolhas inteligentes e sejam protagonistas da sua própria história? Completou Ana. Todos a aplaudiram, inclusive o professor. Para ele, não estávamos formando tais pensadores, portadores de mentes livres, pelo menos não coletivamente. Saturar o cérebro de informações e não estimular as funções mais complexas da inteligência era uma opção educacional perigosa.
Ele se preocupava ao perceber que uma criança de 7 anos de idade, na atualidade, tinha mais informações que o imperador romano no auge de Roma. Esse excesso de informações estressa muitíssimo a psique, pois não é elaborado como conhecimento. Conhecimento como experiência e experiência como sabedoria. Para encerrar sua fala, ele comentou o magnetismo de Hitler exibido nas inaugurações e nos shows militares, capazes de gerar um delírio de grandeza.
A argústia de Hitler saía do rádio e ia para as ruas. Ele era um especialista em lançar pedras fundamentais e colocar primeiras pás em obras que iriam iniciar. E fez escolas para muitos políticos e sua notável capacidade de autopromoção também ganhava ares nas Forças Armadas. Hitler reunia dezenas de milhares de soldados nas grandes praças que faziam performances espetaculares.
um perfeccionismo rítmico e um exibicionismo que suplantavam os grandiosos espetáculos da atualidade. E continuou, o ponto alto das exibições do regime eram as honras fúnebres, quando Hitler atravessava fileiras gigantescas de milhares de soldados rigorosamente organizados.
A portentosa homenagem aos que tombaram excitava o cérebro de quem os contemplava, gerando uma comoção fortíssima, provocando o instinto de lutar. A debilitada Alemanha despertava para seu gigantismo. Os shows militares tornaram-se grandes peças de marketing.
Feitos ao ar livre, em horários tais que combinavam um jogo de luz e sombra, objetivavam dar contornos messiânicos à imagem do Führer, disse ainda o professor no fim de sua exposição. E completou. Essa é uma breve história da sofisticadíssima propaganda imprimida por um simples soldado que, 15 anos depois de perder a Primeira Guerra Mundial, se tornou chanceler e dominou generais e marechais, deixando o mundo assombrado.
Sem sua virulência e seus golpes no inconsciente coletivo, patrocinados por seu marketing de massa, nunca sairia do anonimato. O melhor de Hitler era seu desempenho como ator, pois como ser humano era ególatra, radical, instável, parcial, agressivo, explosivo, exclusivista, amante de bajuladores, avesso a críticas e ao diálogo.
Adolf Hitler queria escrever seu nome no Concerto das Nações e gravar com chamas seu nome na história. O homem que teve a ambição de Alexandre o Grande, a habilidade de discursar de Júlio César e a sede de poder de Napoleão Bonaparte, desconhecia que a vida humana, por mais longa que seja, é como a brisa que sorrateiramente aparece e logo se dissipa aos primeiros raios solares do tempo.
Uau, e assim nós finalizamos este capítulo 17. A cada leitura que eu faço desse livro, está passando um filme, uma cena, as cenas vão nos envolvendo conforme a gente vai imaginando, e como que é a mentalidade de alguém que tem um objetivo e como que é a mentalidade de alguém que tem um objetivo.
muito focado no que quer e usa de todos os artifícios para conseguir. Então, como o autor está nos trazendo aqui, o Hitler tinha uma gana de chegar onde ele acabou chegando e que nada o fazia sair. E essa questão de usar o marketing, de todo esse sequestro das mentes alemãs.
usando todos os artifícios e as oportunidades que ele encontrou, visto a realidade de pós a Primeira Guerra Mundial e tudo mais, a gente percebe o quanto realmente as pessoas são manipuláveis e às vezes até sem perceber que estão sendo manipuladas. Meu Deus. Muito bem, espero que vocês estejam gostando da leitura. Um grande fraterno abraço e até o próximo áudio.