19. O Colecionador de Lágrimas. Cap 15 - O mestre dos disfarces: seduzindo as religiões
Leitura do Cap 15 do Livro O Colecionador de Lágrimas, de Augusto Cury. Da pág 241 à pag 256.
Billy
Caterine
Dorothy
Erika Domingues
Júlio Verne
- Apoio religioso a HitlerCarta de apoio da Igreja Alemã · Crítica à passividade religiosa · Hitler e o bolchevismo · Líderes religiosos como Doutor Théo e James
- O Colecionador de LágrimasLeitura do Capítulo 15 · O Mestre dos Disfarces: Seduzindo as Religiões · Moisés e Anne · Caterine · Júlio Verne
- O Messianismo de HitlerFascínio da sociedade alemã por Hitler · Práticas místicas e ocultistas dos nazistas · Religião a serviço do Estado · Baldur von Schirra e a Juventude Hitlerista · Carta da União das Igrejas Livres
- Congresso Internacional sobre TolerânciaApoio das religiões mundiais · Combate ao terrorismo e preconceito · Líderes religiosos e chefes de Estado · Júlio Verne como conferencista
- Invasão da Rússia por HitlerTratado germânico-russo e traição · Estratégia militar alemã e obstáculos · Resistência russa e terra arrasada · Hitler e Napoleão Bonaparte · Stalin
- Confronto com Alfred da Juventude HitleristaAmeaça de assassinato a Júlio Verne · Confusão e desespero de Alfred · Alfred, braço direito de Baldur Von Chirá
Olá, aqui é Erika Domingues, compartilhando leitura. Nós estamos lendo o livro de Augusto Cury, O Colecionador de Lágrimas, Holocausto Nunca Mais. E hoje nós vamos ler o capítulo 15, que encontra-se na página 241. E o título é O Mestre dos Disfarces, Seduzindo as Religiões.
O último pesadelo e os estranhos fatos que envolviam os personagens Moisés e Anne ressuscitaram o temor de Caterine de que o homem que ela escolhera para dividir a sua história poderia estar tendo uma doença mental.
Estavam num confortável hotel pago pelo governo e as refeições eram servidas no próprio quarto. O professor, atordoado, não conseguiu tomar café naquela manhã. No início da tarde, tentou almoçar. Colocou uma porção de alimentos na boca, mas não sentia o sabor como antes. À noite, seu corpo suplicava por nutrientes, mas sua angustiada emoção continuou suprimindo seu prazer de comer.
Mente e corpo se digladiavam na arena do seu estressado cérebro. Você não pode continuar assim, Júlio. Tem de se alimentar, senão vai debilitar seu sistema autoimune. Eu sei, Kate, mas não sou dono do meu corpo, disse ele se sentindo impotente. Mas você pode e deve proteger sua emoção. Afinal de contas, terá um grande compromisso esta noite. Billy logo estará aqui com uma escolta de policiais.
Raramente deixavam as cercanias do hotel onde haviam sido hospedados. Como estavam sob forte proteção policial, só saíam escoltados, algo que os incomodava. Embora um tanto desnutrido, para ele essa noite seria um desafio complexo e inadiável. O famoso Júlio Verne sempre era convidado por diversas instituições para dar conferências.
mas, devido às implacáveis perseguições, rejeitava quase todas. A recomendação era que evitasse ao máximo as exposições públicas, mas não desmarcara o convite daquele dia, às 20 horas. Afinal de contas, era o primeiro congresso internacional sobre tolerância, solidariedade e paz social, patrocinado pelas mais importantes religiões do planeta.
falaria para uma plateia a qual jamais havia se apresentado, para líderes católicos, protestantes, islamitas, judaicos, budistas, bramanistas e mais dezenas de outras religiões.
Num nobilíssimo gesto, os líderes das mais diversas religiões resolveram criar uma associação internacional para promover a fraternidade, a inclusão social, o respeito incondicional no mundo onde o preconceito aflorava.
O terrorismo se propagava, representantes de diferentes religiões se agrediam, partidos políticos se diglaviavam e nações competiam ferozmente pelo mercado. Queriam por fim a toda espécie de terrorismo. Era o primeiro grande evento da nova agremiação. Haveria 411 líderes dos mais diversos países, todos portadores de notável nível cultural e dotados de extraordinária influência social.
Haveria chefes de Estado participando. Havia vários conferencistas. Júlio Verne era um deles. Esperavam que o intrigante professor falasse sobre a intolerância, a exclusão racial e a relação de Hitler com a religiosidade. Um tema interessante, mas o professor estava inicialmente distante, tinha vontade de se isolar. Antes de dar qualquer contribuição ao mundo, queria tentar reorganizar o seu pequeno e perturbado mundo.
Billy apareceu às 19h15, como havia marcado. Como tinham que percorrer ruas movimentadas, logo partiram num carro blindado. Billy estava no banco da frente, com uma experiente motorista, também policial. Caterina e Júlio Verne estavam atrás. Quatro policiais os acompanhavam em outro carro. Não tardou para o professor ficar novamente inquieto.
Durante o trajeto, apareceu um carro em alta velocidade que ficou por um instante paralelo ao deles. Do banco de trás havia um jovem, em torno de 25 anos, loiro, cabelo bem aparado, estilo militar, que fez um gesto com as mãos como se estivesse apontando uma arma para Júlio Verne. O professor fixou seu olhar no sujeito e levou um susto. Parecia o oficial com que sonhara na última noite que estava na casa do Dr. Kurt e era encarregado de deportar as famílias para a Polônia.
Júlio Verne esfregou seus olhos para ver se não era uma miragem. De repente, em vez de avançar, o carro desacelerou suavemente e o motorista ficou lado a lado com o professor.
Ambos se entreolharam, mais um ataque de medo. O motorista parecia o homem que quase o matara na manhã seguinte ao primeiro pesadelo, o suposto Heydrich, e por incrível que pareça, assemelhava-se ao próprio personagem da história. Em seguida, o motorista acelerou e não causou nenhuma confusão, pelo menos naquela breve fagulha de tempo.
Júlio Vergne pensou consigo o que uma mente estressada não é capaz de imaginar. Em seguida, comentou com Caterina. Não estou passando bem. Parece que vi o carrasco do meu último pesadelo no carro que acabou de passar por nós. Billy ouviu. Carrasco do último pesadelo? O que está acontecendo, professor? Não dava para explicar para o inspetor. Este o internaria. Preocupadíssima, Caterina tentou mais uma vez acalmá-lo.
Você sabe que os sonhos, ainda que tentem traduzir uma realidade, são meras construções virtuais. Claro que sei, a imaginação não se materializa. E a batida admitiu. Mas talvez eu realmente esteja doente. O que construo em minha mente é o que estou querendo enxergar. Mas o incrível é que o motorista que quase me matou há tempos estava dirigindo o carro. E ele não é virtual. Contudo, o motorista do veículo em que estavam o interrompeu.
Percebi algo estranho naquele carro. Tive a impressão de que o passageiro do banco de trás fez um gesto como se sua mão esquerda fosse uma arma. Júlio ficou aliviado. Pelo menos tudo aquilo não era fruto de sua imaginação. Mas isso não resolvia o problema. Contudo, Billy tentou tranquilizá-los. Lembre-se, este veículo é blindado. E já sinalizei ao carro que nos acompanha para ficar alerta. Talvez seja melhor desistir da conferência. Não, eu preciso estar lá.
De repente, sob o comando de Billy, o carro que levava o casal, bem como o que levava os policiais que os acompanhavam, fez uma curva brusca e mudou de rota. Seguiram um trajeto não usual para atingir o anfiteatro.
Não houve mais atropelos. Chegaram ao local apenas dois minutos além do horário marcado para a conferência. Uma heresia para britânicos. Foram recebidos com entusiasmo por Dorothy e pelos demais organizadores do evento. Mas o professor estava visivelmente pálido. Logo foi encaminhado ao palco. E mesmo desconcentrado, ainda era provocador, como sempre. Fez inicialmente a pergunta mais óbvia do mundo, quase sem sentido pela natureza da plateia.
Quem crê em Deus de alguma forma? Todos levantaram a mão. Quem considera aviltantes as ações de Hitler? A pergunta era mais óbvia ainda, tinha um sabor de ingenuidade, ainda mais pelo nível intelectual do público. Todos levantaram a mão. O professor olhou demoradamente para a plateia e, sem meia palavras, os chocou.
Desculpem-me, mas muitos religiosos como vocês, pessoas do mais alto nível e com as melhores intenções humanitárias, apoiaram Hitler naqueles áridos tempos. Atônitos, os líderes se perguntaram, como pode ser isso? Impossível, jamais. Então, o mestre emendou uma pergunta.
Se vocês tivessem vivido na Alemanha nazista e dispusessem de informações reduzidas sobre as atrocidades que Hitler cometia, resistiriam ao seu poder e influência? Todos ficaram calados. Caterine achou que Júlio Verne fora um pouco indelicado com aqueles respeitados homens. Achou que ainda estava sob efeito do último pesadelo. Sabia que uma mente depressiva contraía a tolerância. Talvez fosse isso que estivesse acontecendo com Júlio Verne, pensou.
O professor olhou para a plateia e, como detestava a passividade, provocou-a. Por favor, intervenham, discutam e discordem quando e como quiserem de minha fala. Sabemos que houve o silêncio de alguns importantes religiosos, mas crer que eles tenham apoiado esse fanático é improvável, comentou o doutor Théo, um bispo da igreja anglicana.
Sim, crer que um líder religioso de expressão tenha não apenas silenciado como referenciado Hitler é inaceitável, afirmou James, um teólogo católico romano. Diante disso, Júlio Verne silenciosamente meteu a mão no bolso direito e tirou uma carta escrita por religiosos em elogio a Hitler. A plateia se escandalizou. E o trecho da carta é o seguinte.
O senhor, meu furo, conseguiu eliminar o perigo bolchevique no país e agora chama nosso povo e os povos da Europa para um enfrentamento decisivo contra o inimigo mortal de toda a cultura cristã ocidental. O povo alemão e com ele todos os seus membros cristãos e agora chama o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e o seu irmão e
agradece esse feito ao Senhor. Que o Deus Todo-Poderoso esteja ao seu lado e ao lado do nosso povo, fazendo com que sejamos vitoriosos contra o inimigo duplo que deve ser alvo do nosso querer e agir. A Igreja Alemã comemora, nesta hora, os mártires religiosos do Báltico de 1918.
Ela lembra o sofrimento anônimo que o bolchevismo, como fez com os povos sob seu domínio, e está em oração com o Senhor e com os nossos valentes soldados. Para que haja sob sua liderança uma nova ordem e que chegue ao fim toda destruição interna, toda profanação ao sagrado, todo ataque à liberdade de consciência.
Ao ouvirem aquela carta, os participantes se entreolharam embasbacados, não conseguiam acreditar na sua veracidade. Certamente não foi nenhum importante líder religioso que a redigiu, mas algum fanático sem instrução rebateu o doutor Telpo. Mas o professor Júlio Werner deu a referência bibliográfica e o endereço. Desculpe-me, mas a carta foi escrita pelo Conselho Eclesiástico da Igreja Alemã e assinada por...
Mahárens Schultz, Riemann, em 12 de julho de 1941. Os ícones religiosos perguntavam uns aos outros, como podem renomados religiosos ter escrito essas palavras para Hitler? Como podem suplicar que o Todo-Poderoso esteja ao lado do maior assassino da história?
Embora Hitler fosse um dissimulado e a conferência de Wannsee em Berlim, presidida por Heide, que construiria a solução final da questão judaica, viesse a ocorrer seis meses depois, em janeiro de 1942, não há desculpas para esses religiosos. Talvez não soubessem dos campos de concentração, mas o expurgo de judeus, as leis de Nuremberg, a noite dos cristais e muitas outras barbaridades já tinham acontecido à vista de todos.
E o professor continuou, o apoio desses líderes religiosos alemães à guerra contra a Rússia é emblemático. O bolchevismo russo, capitaneado por Lenin, havia eliminado o direito de expressão, inclusive a liberdade religiosa. Mataram os ícones religiosos, proibiram rituais, silenciaram vozes. Quando Hitler invadiu a Rússia, esses líderes se lembraram dos sofrimentos de seus pares.
e num ufanismo cego apoiaram a invasão. Reagiram como qualquer ser humano pautados pela ação e reação. Nutriram a violência com a violência. Tais cristãos, que dizem seguir o homem Jesus, rasgaram o tratado de tolerância e solidariedade que ele proclamou em prosa e verso no Sermão da Montanha, e que reflete as mais extraordinárias teses pacifistas, afirmou o professor de História Júlio Verne, que embora judeu conhecia muito bem a história de Jesus.
A plateia ficou novamente emudecida. Eu sou budista e concordo com seu pensamento, disse Herbert, um notável líder religioso. Conheço o livro sagrado dos cristãos e me surpreendo com sua apologia à mansidão, que é totalmente contrária não apenas ao nazismo, mas ao próprio instinto humano. Felizes o mansos porque herdarão a terra. Se alguém lhe ferir uma face, dele a outra.
Quem é da Terra em seus mais figurados sentidos não são os que exercem o poder, a pressão ou a coação, mas os que exalam a paciência. Infelizmente, alguns religiosos do tempo de Hitler negaram isso.
Os líderes, em especial os cristãos, ficaram chocados com essas conclusões, ainda mais elaboradas por um professor de origem judaica e um líder budista. Fizeram um mergulho introspectivo e começaram a refletir sobre a história e suas próprias histórias. Hitler odiava o marxismo.
Mas, para invadir a Polônia e não abrir outra frente de guerra, precisava fazer um tratado de não agressão com a Rússia, que também fazia fronteira com a Polônia. Dois anos após invadir a Polônia, Hitler traiu esse tratado. Enquanto a Rússia enviava carregamentos de alimentos pelas estradas de ferro para a Alemanha, Hitler a estava sorrateiramente invadindo por terra. Stalin não confiava em Hitler, mas não imaginava que ele fosse romper tão rapidamente o tratado germânico-russo.
Youssef, um líder islamita, que estava na parte central do anfiteatro, interessado em conhecer a estrutura do caráter de Hitler, interveio com uma questão. Hitler tinha uma personalidade inabalável? Foi ele titubeante em alguma época?
Sim, antes de invadir a Polônia, hesitou diversas vezes. Ficou insônio, ansioso, aflito, temia a reação da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos e de outros países. Mas, como um vampiro social, à medida que tinha sucesso em suas campanhas, ficava mais forte, ousado, megalomaníaco.
Sabemos que Hitler tinha uma admiração por Napoleão Bonaparte. A derrota deste, ao invadir a Rússia, não inibiu sua ambição geopolítica? Indagou Thomas, um teólogo protestante. O sonho de muitos admiradores é superar os seus ícones. Hitler não queria cometer os mesmos erros que Napoleão. Estratagista.
Estrategista preferia, como sempre, os ataques relâmpago, regados às surpresas. Usou um dos maiores aparatos militares da história. 3 milhões de soldados, 3 mil tanques, 7 mil canhões, 7 mil aviões. Em 24 horas, destruiu 1.500 aeronaves russas. Tudo indicava que seria vitorioso. Para esse psicopata, os povos eslavos eram uma raça inferior. Não mereciam crédito e nem sentimentos.
Contrariando seus estrategistas, Hitler dividiu as tropas em três frentes para dominar Leningrado, Kiev e Moscou. Esperava levar em quatro meses, antes da chegada do inverno, a grande Rússia a capitular. Mas desconhecia as forças da natureza. O avanço, que deveria ser rápido, não tardou a encontrar grandes obstáculos.
A fome, a falta de estradas, a diarreia, havia soldados que tinham 30 crises de diarreia por dia, o tifo, os piolhos, as chuvas torrenciais e a lama que grudava como cola nas máquinas alemãs.
E por fim, devido à resistência russa, a campanha atrasou e o intenso inverno chegou. O poderosíssimo exército alemão viu seus piores dias chegarem. Os demônios que perturbaram Napoleão e que os alemães tentaram engenhosamente exorcizar, os assombraram.
Sob ordens expressas de Stalin, os agricultores e moradores dos vilarejos e cidades usavam a estratégia da terra arrasada. Queimavam tudo que era possível ser ingerido ou usado pelo exército alemão e partiam. Mas essa guerra foi um suicídio coletivo, expressou Thomas.
Foi um verdadeiro suicídio para os jovens alemães. As ações revelam o coração. Hitler nunca amou a juventude alemã, e muito menos a raça ariana, como tentava mostrar em seus discursos.
Centenas de milhares de jovens alemães estavam despreparados para as intempéries ambientais. Servindo às ambições de um homem, morreram fora de sua pátria. Como vassalos dos generais nazistas, muitos nem sequer sabiam os reais motivos pelos quais seus corpos tombavam numa luta insana. Não poucos daqueles garotos deliravam à beira da morte pedindo os braços de seus pais.
Hariri, um líder hinduísta, sentindo liberdade em expor suas ideias, comentou Em sua gana de destruir o socialismo russo, o líder da Alemanha se esqueceu das crianças que brincavam nessa nação, dos adolescentes que sonhavam, das mães que amavam. E se esqueceu inclusive da dificuldade de dominar o indomável pendor humano pela liberdade.
Ao invadir a Rússia e outros povos, Hitler inspirou-se no passado da Inglaterra, que dominou povos, em especial a Índia, uma enorme nação, com um número reduzidíssimo de prepostos em relação aos dos habitantes locais, comentou o professor. O professor ainda comentou que o desastre estratégico na invasão da Rússia pré-anunciou o começo do fim de Hitler. Na guerra, a emoção embrutece.
Na guerra nazista se transformava em pedra. Os soldados alemães se tornaram impiedosos ao encontrar judeus russos. Como podem os homens abater seus semelhantes sem os olhar minimamente com os olhos deles? Que mentes são essas que se recusaram a enxergar a dor latente de pessoas inocentes? Indago Jack, outro líder protestante.
Um rabino judeu, Joseph, um dos grandes estudiosos da Torá, respondeu por Júlio Verne. No início, os judeus, homens e mulheres, eram escoltados para as florestas com paz e sem saber o que fariam. Lá cavavam suas próprias sepulturas.
Mas Himmler, o carniceiro da SS, achou o método demorado demais. Com isso, mudou a estratégia, começou a usar as valas comuns. E ali, assassinava famílias inteiras. Todos esperavam que o professor continuasse a falar, mas nesse momento sua voz se embargou. Detonando o gatilho de sua memória, recordou o primeiro dos seus recentes pesadelos. Recordou-se do pai que olhou nos olhos do filho e das palavras inexprimíveis para consolá-lo.
William, um bispo católico romano, fez uma pergunta que levou o professor a dissipar as imagens dolorosas da sua mente. E quanto aos prisioneiros russos, houve solidariedade mínima para com eles por parte do exército nazista? A sorte de centenas de milhares de prisioneiros russos também não foi diferente.
O custo para mantê-los, associado ao fato de serem considerados seres de segunda classe, fizeram com que fossem assassinados ou mortos nos campos de prisioneiros pela inanição, por doenças e pelo frio. Você começou sua conferência com uma carta. Era comum Hitler recebê-las? Perguntou o doutor Tell.
As cartas recebidas por Hitler dependiam da sua curva de popularidade. Em 1925, quando era um mero pregador de ideias radicais em ambientes miseráveis, as cartas cabiam numa única pasta de arquivo. No primeiro quadrimestre de 1933, o chanceler recebeu mais de 3 mil cartas, mas ainda era um líder exótico e visto com desconfiança.
No fim desse ano, o sedutor de mentes e corações recebeu 5 mil cartas. Em 1934, recebeu pelo menos 12 mil cartas. Em 1941, no calor da guerra e das tensões sociais, recebeu 10 mil cartas. E à medida que foi se tornando um tirano derrotado, as cartas começaram a desaparecer.
Em seu aniversário de 1945, o deprimido Hitler recebeu reduzidíssima correspondência e menos de 100 pessoas apareceram para cumprimentá-lo, a maioria das quais pertencia à juventude hitlerista. Em seguida, o professor tirou outra carta do bolso. E a carta dizia o seguinte.
A União das Igrejas Livres envia ao Senhor, meu Führer, os mais cordiais votos de felicidades pelas vitórias estupendas do leste, na certeza de que o Senhor, como ferramenta de Deus, finalmente acabe com o bolchevismo, com o poder do inimigo de Deus e do cristianismo, assegurando não só o futuro da querida pátria alemã, quanto o da nova ordem europeia. Reafirmamos nossas preces e nossa incondicional disposição ao sacrifício.
Diretor Paul Schmidt, Bispo Mel, 25 de agosto de 1941. Todos os presentes ficaram novamente perplexos ao ouvir os dizeres dessa carta. Que admiração é essa? Que fascínio é esse que ele exercia sobre os religiosos? Comentou indignado Jack. Que ousadia é essa em dizer que este crápula era ferramenta de Deus?
Eu já estudei esse assunto, comentou o doutor Tell. Hitler foi embalado como uma espécie de semideus para uma sociedade fragilizada política e economicamente. Aliás, Hitler, Goering e Himmler, enfim, os principais dirigentes do partido nazista, eram envolvidos em práticas místicas, ocultistas e visões religiosas.
Mesmo Bormann, que cuidava das finanças e do acesso a Hitler, bem como Goebbels e Rosenberg, tinha uma queda pelo ocultismo. Goebbels, em especial, apresentava-se como o Messias da Alemanha, o grande timoneiro da Europa. Era a religião a serviço do Estado. O professor comentou que os comícios do partido eram encenados numa atmosfera quase religiosa.
Por mais inacreditável que seja, a Alemanha estava tão fascinada por Hitler que o prefeito de Hamburgo teve a ousadia de declarar Podemos nos comunicar diretamente com Deus por meio de Adolf Hitler. Em 1937, um grupo de religiosos já via Hitler como uma espécie de messias. A palavra de Hitler é a lei de Deus.
E comentou que naquele ano, mais de 100 mil alemães abandonaram formalmente a igreja católica. Não precisavam de religião, precisavam seguir Hitler. Uma minoria de adeptos católicos e protestantes era praticante. Os jovens haviam perdido a sua consciência crítica. Raros eram os que tinham opinião própria.
E por mais absurdo que pareça, mesmo após o término da guerra, nos julgamentos de Nuremberg, Baldur von Schirra, o líder da juventude hitlerista, ainda não perdia sua fé no messianismo de Hitler. Foi mais longe que muitos apóstolos de Jesus em seus últimos dias. Não o negou como Pedro. A plateia se alvorossou, estava perplexa e o professor proferiu estas palavras.
Baldur, o líder da juventude hitlerista, disse, Servir à Alemanha é, para nós, servir verdadeira e sinceramente a Deus. Uma bandeira do terceiro Reich é, para nós, a bandeira de Deus. E o Föhrer é o salvador do povo que ele nos enviou.
Hitler era, portanto, senhoras e senhores, mais do que aquele que uniu os alemães e ofereceu trabalho às massas. Ele era o guia, o messias para milhões de pessoas. Os líderes islâmicos, judaicos, católicos, protestantes, ortodoxos, bramanistas, budistas, hinduístas, conversavam uns com os outros sobre até onde um líder é capaz de dominar o psiquismo de uma sociedade e impor-se como sobre-humano.
A arte da dúvida sempre foi o princípio da sabedoria na filosofia, e a Alemanha teve uma das filosofias mais profícuas e maduras, mas a capacidade de duvidar foi abortada pela propaganda de massa e pelos atos engenhosamente encenados por Hitler no teatro social.
Enquanto a plateia estava em alvoroço, de repente um jovem esbelto, loiro de olhos azuis, que estava sentado na última fileira junto à porta de saída do anfiteatro, começou aos brados a dialogar em alemão com Júlio Verne.
Como apenas alguns participantes, entre eles o próprio professor, sabiam falar o alemão, o público ficou sem entender o que estava ocorrendo, nem mesmo Billy ou Caterine. Atônito, o professor não traduziu o intrigante diálogo para não causar tumulto à reunião. E o diálogo foi.
Professor Júlio Verne, vim de muito longe para assassiná-lo, mas depois de tudo que ouvi nesta reunião, estou confuso e desesperado. Descobri que nossa mente foi entorpecida pelo Führer. Tentando manter a calma, o professor perguntou também em alemão. Mas quem é você? Como quem sou eu? Estivemos juntos na peça Irmãos de Sangue. O professor engoliu saliva e deu um suspiro proeminente.
Peça? Mas que peça? Nunca ouvi antes. Diga-me, quem é você realmente? Lembra-se, sou Alfred, um dos líderes da juventude hitlerista, braço direito de Baldur Von Chirá. O professor teve calafrios ao ouvir essas palavras. Billy e Caterine estavam na plateia. Sabiam que havia algo errado, mas não entendiam o quê. E, antes de partir, o jovem aflito finalizou.
nossa juventude está sendo enterrada viva e bateu rapidamente em retirada, como se estivesse fugindo de um fantasma ou assinando sua sentença de morte por sua crítica a Hitler.
O professor ficou sem fôlego. Tentou dizer espere, mas não deu tempo. Só indicou a Billy para segui-lo, o que o inspetor fez. Júlio Verne estava no meio do seu tempo de pré-leção. O professor tinha ainda alguns importantes assuntos a tratar, mas não sabia como se conduzir. Os participantes do evento conversavam uns com os outros para saber o que estava ocorrendo. Ninguém se entendia. Caterine queria ir ao seu encontro, mas ele estava no palco, visivelmente preocupado.
Lendo o olhar dela, Júlio Verne pediu desculpas à plateia e solicitou um intervalo de dez minutos. Seu pedido foi atendido. Começou a temer pela segurança dos presentes. Precisava conversar urgentemente com Billy. Muito bem, assim nós finalizamos este capítulo. Espero que estejam gostando assim como eu. Um grande fraterno abraço e até o próximo áudio.