Episódios de WW – William Waack

Campanha de Flávio Bolsonaro não consegue sair de agenda negativa

10 de julho de 202655min
0:00 / 55:18
Faz dois meses que a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entrou num atoleiro que parece difícil de sair. Começou na primeira semana de maio com a operação da Polícia Federal contra o aliado Ciro Nogueira. Aprofundou-se com os áudios em que Flávio pede dinheiro para Daniel Vorcaro. Piorou após o confronto com o eleitorado feminino e Michelle Bolsonaro. E manteve a onda ruim com a controversa carta de Flávio ao presidente americano, Donald Trump. Participam desta edição Caio Junqueira, analista de Política, Lourival Sant'Anna, analista de Internacional, Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas, Thaís Herédia, analista de Economia, Daniel Rittner, diretor editorial de Brasília, David Zylbersztajn, ex-diretor-chefe da ANP (Agência Nacional do Petróleo), e Sergio Denicoli, cientista de dados e CEO da AP Exata.
Participantes neste episódio7
C

Caio Junqueira

HostJornalista
L

Lourival Sant'Anna

HostAnalista de Internacional
D

Daniel Rittner

ConvidadoDiretor editorial de Brasília
D

Danny Zahreddine

ConvidadoProfessor de Relações Internacionais da PUC-Minas
D

David Zylbersztajn

ConvidadoEx-diretor-chefe da ANP
S

Sérgio Denícoli

ConvidadoCientista de dados e CEO da AP Exata
T

Thais Herédia

ConvidadoAnalista de Economia
Assuntos6
  • Campanha de Flávio BolsonaroAgenda negativa · Fogo amigo · Divisões internas · Michele Bolsonaro · Formação de palanques
  • Conflito no Estreito de OrmuzEscalada de conflito · Estreito de Ormuz · Negociações de paz · Donald Trump · Benjamin Netanyahu
  • Polarização EleitoralAntilulismo · Rejeição de candidatos · Eleitorado feminino
  • Impacto Econômico do ConflitoPreço do petróleo · Exportações iranianas · Mercado marítimo
  • Política de combustíveis e subsídios fiscais no BrasilImposto sobre exportação de petróleo · Subsídio de combustíveis · Ministério da Fazenda · ANP
  • Estratégia política de LulaAmpliação de alianças · Agenda positiva · Eleições 2022
Transcrição75 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Olá, boa noite. Esta é a CNN Brasil e este é o WW. Faz 2 meses que a campanha de Flávio Bolsonaro entrou num atoleiro que parece difícil de sair. Começou na primeira semana de maio com a operação da Polícia Federal contra o aliado Ciro Nogueira. Aprofundou-se com os áudios em que Flávio pedia dinheiro para Daniel Vercaro, piorou após o confronto com o eleitorado feminino e Michele Bolsonaro e manteve essa onda ruim com a controversa carta de Flávio a Donald Trump.

E agora vive uma disputa interna entre radicais e moderados, justamente sobre como tratar e tirar a campanha do atoleiro em que se meteu. Com confronto ou com diálogo? É uma disputa semelhante à que marcou o governo de Jair Bolsonaro e que foi determinante, inclusive, para levar ele à derrota nas eleições de 2022. O roteiro é o mesmo. No WW de hoje, a gente vai tratar também da retomada da guerra no Irã e do seu impacto na economia mundial e do Brasil.

Antes de apresentar quem participa conosco, o Dani Zahreddini, professor de Relações Internacionais da PUC Minas. Bem-vindo, Dani.

CJCaio Junqueira

Boa noite, Caio. Prazer estar com vocês.

?Voz A

Prazer é todo nosso. Florival Santana aqui também comigo. A gente inverteu um pouco a ordem desse WW, vamos começar falando de guerra e depois a gente aprofunda em Brasil. Vamos lá. Paquistão e Catar tentam levar os Estados Unidos e o Irã de volta à mesa de negociação. Pelo terceiro dia consecutivo, os Estados Unidos atacaram alvos iranianos. Em resposta, Teerã afirma que lançou mísseis balísticos contra uma base americana na Jordânia. E de Nova York, a correspondente Alessandra Freitas tem todas as informações.

?Voz C

A escalada de conflito entre os Estados Unidos e o Irã voltou a afetar uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, o Estreito de Ormuz. Novos ataques americanos foram realizados na quarta e na quinta-feira, após ataques com drones contra 3 navios que passavam pelo Estreito de Ormuz segundo o governo americano. Na quarta-feira, a incerteza sobre a situação militar fez operadores de navios recuarem. Muitas embarcações ficaram ancoradas com receio de entrar na região e acabar ficando presas ali no canal.

Segundo a Marine Traffic, o número de travessias pelo estreito caiu de 49 para 25 em apenas um dia. A maioria dos navios que passou seguia no sentido oeste-leste, saindo do Golfo Pérsico. A tensão continua alta. Explosões foram registradas nesta quinta-feira nas cidades iranianas de Konarak e Bushehr. Uma autoridade local disse a uma agência estatal que uma instalação militar foi atingida por projéteis dos inimigos americanos e israelenses.

Um funcionário do governo americano disse à CNN que os Estados Unidos não estão realizando ataques neste momento. Autoridades israelenses também afirmaram não ter conhecimento de qualquer envolvimento do país. Nessa quinta-feira, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o presidente Donald Trump conversaram por telefone. Segundo o gabinete de Netanyahu, os dois acertaram manter a coordenação entre os países e Trump atualizou o premier sobre as ações americanas ali no Golfo.

Enquanto isso, fontes disseram à CNN que Paquistão e Catar tentam levar Estados Unidos e Irã de volta à mesa de negociações. Mas a nova troca de ataques aumenta as dúvidas sobre a sobrevivência desse cessar-fogo e do próprio acordo diplomático entre os Estados Unidos e o Irã. A Guarda Revolucionária do Irã disse que a interferência estrangeira nas rotas pode atrapalhar a reabertura gradual do Estreito de Ormuz e que os navios precisam de autorização da Marinha iraniana para passar ali pela área.

Ao mesmo tempo, analistas dizem que o Irã tem aproveitado a pausa no conflito para acelerar as exportações a partir da ilha de Kharg, principal terminal petrolífero do país. Segundo a TankerTrackers, o Irã embarcou cerca de 10 milhões de barris de petróleo e combustível em apenas uma noite. Além disso, havia exportado cerca de 60 milhões de barris nas últimas 3 semanas, segundo a Windward Intelligence, que estima que outros 63 milhões de barris de petróleo iraniano estejam em trânsito ali no oceano.

O petróleo representa cerca de metade da receita do Irã e é considerado essencial para a recuperação econômica do país após a guerra.

?Voz A

Dani, seu cenário é de uma escalada que resulte num retorno da guerra ou num retorno do cessar-fogo?

CJCaio Junqueira

Eu acredito, Caio, que na verdade o que acontece aqui é um teste dos dois lados num dos pontos mais sensíveis, né, desse protocolo de entendimento que gerou o cessar-fogo de 60 dias, que se chama Estreito de Ormuz. Os dois pontos mais espinhosos do cessar-fogo é o estreito e o Líbano. E no caso do Estreito de Ormuz, o que que os americanos querem é um retorno ao status quo antes do dia 28 de fevereiro, quando essa guerra começou.

Significa livre trânsito, sem cobrança de nenhuma taxa, sendo que os americanos, europeus, asiáticos poderiam entrar e sair do Golfo Pérsico sem problema. Só que depois do dia 28, essa situação mudou completamente, né? Nós temos que lembrar que o Irã avisou que iria controlar e que iria fechar o estreito se fosse atacado. Isso aconteceu. E nas negociações ficou-se ali colocado que Irã e Omã de certa forma controlariam a passagem.

Então, quando o Irã ataca embarcações que passam por rotas que eles não permitem ou que eles não controlam mais próximo do Omã, eles dão um tiro de advertência, eles atacam querendo dizer o seguinte: quem controla aqui sou eu. E os americanos dizem: não, quem controla seremos nós. Que vamos tentar abrir novamente o estreito. Então eu vejo que é, mesmo com toda a fala dura do presidente Trump de que acabou, tá morto, hoje mesmo ele já voltou atrás dizendo que poderia dar mais uma paz, mais uma chance à paz, né?

Ambos os lados não querem que isso acabe. Então eu vejo que é mais um tit for tat, um toma lá dá cá, para testar um lado e outro com relação a esse estreito que é o ponto mais nevrálgico da disputa atual entre Estados Unidos e Irã.

?Voz A

O Lourival, talvez esse teste que o Dani coloca, ele esteja bem claro no fato de nessa retomada da escalada nenhum dos dois lados terem passado, vamos dizer assim, as linhas vermelhas, né? Nem os Estados Unidos atacou infraestrutura civil até agora do Irã nessa retomada, e nem o Irã atacou infraestrutura energética dos aliados. Você acha que isso deve se manter? Essa é uma guerra um pouco mais, não é mais lenta, mas um pouco mais humilde.

?Voz D

Limitada, contida, né?

DZDavid Zylbersztajn

Sim.

?Voz D

É claro, não há um interesse dos Estados Unidos de voltar para uma guerra total com o Irã, porque é disso precisamente que o presidente Trump está tentando fugir. Mas ele está tentando fugir também do controle total do Irã sobre o Estreito de Ormuz. E o que está em jogo é a reputação do Trump como negociador, que ele preza muito. Mas nesse memorando de entendimento, que foi negociado de forma muito atabalhoada, muito apressada, ficaram vários campos minados de palavras que os iranianos, que são grandes negociadores e conhecem como ninguém o Golfo Pérsico, deixaram no texto e estão se aproveitando disso nesse momento.

Olha o que diz o parágrafo 5º, que define o status do Estreito de Ormuz: Após a assinatura deste memorando de entendimento, a República Islâmica do Irã providenciará, empregando os seus melhores esforços, a passagem segura, providenciará a passagem segura de embarcações comerciais, sem cobrança de qualquer taxa, por um período de apenas 60 dias, do Golfo Pérsico para o Mar de Omã e vice-versa. O tráfego de embarcações comerciais será retomado imediatamente e, considerando a necessidade de remoção de obstáculos técnicos e militares e da desminagem pela República Islâmica do Irã, será restabelecido.

A República Islâmica do Irã conduzirá diálogo com o Sultanato de Omã para definir a futura administração e os serviços marítimos no Estreito de Ormuz, em discussão com os demais estados litorâneos do Golfo Pérsico, em conformidade com o direito internacional aplicável e com os direitos soberanos dos estados costeiros do Estreito de Ormuz. Estados costeiros do Estreito de Ormuz são Irã e Omã. Ou seja, o texto estabelece a soberania, estabelece que o Irã lidera esse processo.

E que ele acontece nos termos do Irã. E se você for olhar outros parágrafos sobre a questão nuclear, sobre outras questões, você também vai ver problemas no texto que dão brecha para o Irã colocar, impor os termos dele. Então, o Trump estava ali muito, com muita ansiedade de abrir o Estreito de Ormuz, de apresentar um acordo para baixar o preço do petróleo, para aliviar o choque de energia. Para aplacar a fúria do eleitorado americano e, mais uma vez, entrou numa armadilha.

?Voz A

Tanto você quanto o Dani tratam ali explicitamente do Estreito de Ormuz como fator central e essencial. É óbvio isso, né, nessa retomada da escalada em toda essa guerra. Mas vamos visualizar um pouco o Estreito de Ormuz, né. A gente tem uma reportagem aqui da CNN americana, né, mostrando como caças americanos estão realizando missões em todo o Estreito de Hormuz, decolando do porta-aviões US Abraham Lincoln, né, no Mar da Arábia, enquanto os Estados Unidos avaliam seus próximos passos em relação ao Irã.

A gente vai mostrar essa reportagem da repórter da CNN, Pamela Brown, que está a bordo do porta-aviões e conta todos os detalhes.

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?Voz A

O Dani, é interessante a gente visualizar assim, né? O conflito no terreno, né? Eu queria te ouvir muito sobre o papel de Israel, né? Israel tem sido apontado ali por vocês especialistas como tendo tido um papel preponderante nessa retomada da escalada, o acordo. Do cessar-fogo acabou sendo um acordo criticado, contestado e feito de maneira lateral até. Israel não participou, Netanyahu. Qual que é o impacto dessa retomada até na política doméstica de Israel e o papel do Netanyahu nessa retomada do confronto?

CJCaio Junqueira

Eu vejo que Israel tá muito cauteloso no momento, né? Deixou claro nas declarações seja ali do primeiro-ministro, das relações, do primeiro-ministro e do ministro das Relações Exteriores, que Israel não teve nenhum envolvimento nos ataques contra o Irã. E isso revela o seguinte: eles possuem ali a disposição de voltar a atacar o Irã, mas ao mesmo tempo isso possui custos, né? E eu vejo que a relação entre o Trump e o Netanyahu que foi de certa forma abalada na maneira como os israelenses tentaram manter a guerra e os americanos tentando terminar a guerra, hoje eles são mais cautelosos, né?

Então é claro que para o Netanyahu a manutenção de um Estado espartano ela é essencial para que possa, né, continuar incentivando, né, o seu eleitorado, convencendo o eleitorado israelense de que a segurança só pode ser alcançada com ele, com Netanyahu. Mas ao mesmo tempo, Israel só pode garantir sua primazia enquanto grande potência regional se tiver apoio total dos Estados Unidos. Então eu vejo que eles compreendem, inclusive o próprio, políticos próximos ao primeiro-ministro Netanyahu já disseram que essa escalada provavelmente não vai levar ao retorno da guerra.

Que isso é basicamente um teste de engajamento, mas que eles não acreditam que a guerra vai voltar, porque há um interesse claro dos Estados Unidos de manutenção dessa paz atenta até o momento de criar condições mais adequadas para que as eleições de meio de mandato possam refletir algum tipo de sucesso do resultado das negociações do presidente Trump. Então eu vejo que eles têm disposição para guerra. A guerra é um elemento importante em Israel, principalmente para o Likud e para os partidos da extrema-direita, de falarem, nós vamos garantir a segurança.

Mas ao mesmo tempo, as relações com o presidente americano é essencial para que eles possam continuar tendo essa política externa regional, que é muito dura, que é muito forte com relação ao Líbano, com relação à Síria e com relação ao Irã.

?Voz A

E do lado do Trump, qual que você acha que é o cálculo político que ele está fazendo nesse momento, né? Um cálculo político de uma retomada, de uma escalada, de uma guerra que pode prejudicá-lo ali, que tem prejudicado ele internamente, ou ele precisa escalar para tentar impor uma derrota total ao regime iraniano?

?Voz D

Ele não pode escalar até o ponto necessário para retirar o controle do Estreito de Ormuz por parte do Irã, porque requereria o desembarque de tropas para limpar toda aquela costa escarpada, aquelas falésias onde se escondem inúmeros drones, e mísseis e combatentes da Guarda Revolucionária. Haveria muitas mortes de soldados americanos e isso causaria ainda mais dano político e eleitoral para ele e para os republicanos. O que ele precisa fazer é pressionar o Irã, dissuadir o Irã de manter essa posição maximalista e de adotar negociar um protocolo menos inaceitável, porque não há um protocolo aceitável aí de acordo com o que o Irã está impondo, porque de qualquer maneira não vai ser mais uma via marítima livre, vai sempre estar sob essa ameaça contínua do Irã de voltar a retomar o controle.

Então, O cálculo político, e essa é a grande questão realmente, é ter uma saída menos desonrosa, menos inaceitável para a comunidade internacional, menos reveladora do quanto essa guerra foi um erro de cálculo e sem que isso comprometa tropas no terreno, uma continuidade dessa guerra e desse choque de energia, dessa crise econômica e consequentemente política.

?Voz A

Eu fico com a impressão, né, Louri, que isso é o que a Casa Branca tentou, essa é a equação difícil desde o começo.

?Voz D

E o Irã sabe.

?Voz A

E desde antes da guerra, mas vamos ouvir o Dani, vamos lá, o Louri vai coloca a equação, o cálculo político do Trump, é uma saída menos desonrosa, mais aceitável para comunidade internacional, menos reveladora do grande erro, e que não tenha um custo humano e bélico e econômico, né? Existe essa saída, Dani, para finalizar?

CJCaio Junqueira

Não existe, né? É assim, é muito difícil É você criar uma condição em que você avalie como estava antes e como está agora, não é? O presidente Trump disse que a grande vitória foi reabrir o Estreito de Ormuz, mas ele já tava aberto antes da guerra, não é verdade? Ou o Irã nunca mais terá— eles prometeram, tá lá no protocolo, né, que nunca vão ter arma nuclear, mas eles estão falando isso há décadas, né? Tem uma Tem uma fátua do próprio Khamenei que fala que eles não vão ter armas nucleares.

Então é realmente muito difícil. Eu vejo que a história ela vai falar desse caso no futuro como um primeiro elemento evidente da dificuldade dos Estados Unidos de continuar sendo essa, essa grande potência hegemônica que buscava estabilizar o sistema internacional, né? Porque ficou muito evidente a incapacidade dele controlar um país muito mais fraco, muito, muito menor, né? E que a política internacional, ela agora não passa mais só na mão dos Estados Unidos.

Então foi muito importante a participação do Paquistão, mas o Paquistão como um ponto de contato entre China, Rússia e Estados Unidos. Então sozinho né? Os Estados Unidos não conseguiu lidar com isso, sem contar Catar, sem contar Arábia Saudita. Então eu vejo que ele poderia, na verdade, buscar, né, finalizar logo essa guerra. Bola para frente, porque atrasa em gente, porque o estrago foi feito, muito difícil de reparar isso.

?Voz A

Bom, Dani Zahedine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas, muito obrigado, meu caro.

CJCaio Junqueira

Prazer foi todo meu. Um abraço para você, para o Lourival.

?Voz A

Obrigado, viu? Até amanhã. Bom, daqui a pouco a gente traz um pouco dessa crise internacional para o Brasil, os impactos econômicos do conflito no Oriente Médio. E também vamos falar sobre o fogo amigo na campanha, na pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Até já. WW de volta. Vamos falar agora dos efeitos da guerra, da retomada da guerra sobre a economia. O governo brasileiro prorrogou nesta quinta-feira a vigência da alíquota de 12% para exportação de petróleo bruto.

Vamos à reportagem para entender essa medida e também o futuro do subsídio sobre os combustíveis.

?Voz H

O imposto de 12% sobre a exportação de petróleo bruto foi prorrogado por mais 60 dias, até o início de setembro. A alíquota havia sido instituída no início de março por meio de uma medida provisória cuja vigência terminaria exatamente nesta quinta-feira. O Instituto Brasileiro de Petróleo, que representa petroleiras exportadoras, criticou a medida. Segundo o IBP, A manutenção do imposto afeta negativamente projetos de produção, planos de investimento e decisões empresariais.

O governo defende que a alíquota ainda tem caráter regulatório, por desincentivar exportações e manter o mercado interno abastecido em meio à alta dos preços no mercado global. Porém, os preços do barril estão hoje mais próximos dos níveis pré-guerra no Oriente Médio do que dos picos registrados no auge do conflito. E parte dos subsídios do governo federal sobre os combustíveis já foi retirada. O preço do barril de Brent fechou a cerca de US$76 nesta quinta-feira, 5% acima do nível pré-guerra, mas quase 35% abaixo do que havia sido registrado em 31 de março.

Em relação a medidas para segurar os preços nas bombas, subvenções de R$1,20 e também de R$0,35 sobre o diesel foram retiradas entre maio e junho. Mas ainda restam subvenções de R$0,44 para a gasolina e de R$1,12 para o óleo diesel. O governo havia sinalizado que pretendia começar a retirar a subvenção sobre a gasolina nesta semana, mas adiou a decisão em meio a novas rodadas de ataques no Oriente Médio. A expectativa é que o governo volte a discutir o tema na próxima semana.

O ministro da Fazenda, Dário Durigan, disse que o governo não pretende criar novas subvenções, ou ampliar as existentes.

DRDaniel Rittner

O objetivo do Ministério da Fazenda, com a guerra diminuindo de proporção, é retirar os subsídios. Nós não estamos discutindo aumento, nós estamos discutindo retirada de subsídio e o tempo da retirada. E reitero, o meu objetivo é a retirada dos subsídios.

?Voz A

Bom, temos a participação nessa roda do Davi Zilberstein, ex-diretor da ANP, Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Incríveis. Bem-vindo, Davi.

DZDavid Zylbersztajn

Muito obrigado. Boa noite, Caio. Boa noite a todos que estão aí.

?Voz A

Boa noite. Daniel Rittner, Daniel Rittner, nosso diretor em Brasília. Boa noite, Daniel. E a Thaís Herédia, saudade de vocês. Estão voltando de férias, vamos lá trabalhar, né? Ô Davi, antes de entrar especificamente nas medidas do governo, como o governo tá Eu queria te ouvir sobre se você já conseguiu captar se é que há algum impacto dessa retomada, tanto na expectativa quanto nos preços. Essa retomada da escalada já dá para medir e para traçar algum cenário em termos econômicos globais e brasileiros?

DZDavid Zylbersztajn

Olha, Caio, não houve exatamente uma retomada. A gente pegar o preço do barril hoje, a matéria que nos antecedeu agora mostra um aumento de 5% em relação ao preço preguerra. Isso poderia ter acontecido em outras circunstâncias também. O mercado de petróleo, ele é muito sensível a alguns acontecimentos que ocorrem naturalmente, como você tem muitas vezes algum problema geopolítico, um ataque a alguma instalação, ou por exemplo você tem também reuniões da OPEP que mexem.

E tem um outro dado também, que é importante que quem nos ouça, que quem nos ouve entenda. Quando a gente vê o preço do petróleo, preço futuro, normalmente está falando em boa parte, ele não é um petróleo que vai ser entregue fisicamente. Ele é muitas vezes é um papel, é um derivativo, é alguma coisa, um instrumento financeiro associado ao preço do petróleo que influencia esse preço futuro que a gente vê, e não necessariamente ele se materializa como petróleo.

Então eu diria É que não deixa de ser uma surpresa, mas é uma, mas também uma situação diferente do Estreito de Ormuz, digamos, normalmente fechado, o que é um caso inédito na história do petróleo. Sempre se falou da importância estratégica do Estreito de Ormuz, mas nunca tinha sido fechado. Já foi fechado, já foi reaberto, e o petróleo tá aí. Eu diria que a gente tem hoje, vamos dizer, vasos comunicantes, uma circulação periférica que tá começando a se acomodar E o mercado tá reagindo, eu diria, bastante bem.

?Voz A

Vamos entrar em Brasil, Thaís. Governo hoje, o ministro da Fazenda anunciou ali a manutenção do subsídio da gasolina. Uma medida mais de olho no Estreito de Ormuz ou mais de olho na eleição de outubro?

THThais Herédia

Na urna eletrônica completamente, né, Caio? As duas medidas na verdade não tem nada a ver mais com o que tá acontecendo no Oriente Médio.

?Voz A

É guerra eleitoral, né, Cris?

THThais Herédia

É guerra eleitoral, é o estreito da urna, não tem nada a ver mais com estreito de Ormuz, né, Davi? É uma medida fiscal, por um lado, o governo precisando aumentar a arrecadação, as despesas obrigatórias estão subindo mais aceleradamente do que o esperado, o governo vai lançando uma medida atrás da outra, então manter um imposto de 12% Depois dos meses que ele já foi vigente com o petróleo do jeito que tá, cobrar 12% de exportação com petróleo a $100 o barril, como aconteceu, é uma coisa.

Cobrar um imposto de 12% com o preço do barril a $70 é outra completamente diferente. E eu acho que lá no Ministério da Fazenda tem uma turma que faz conta e sabe qual é essa diferença, mas olharam para o tamanho do buraco e escolheram o buraco das contas fiscais e não a medida especialmente. E a mesma coisa vale para a subvenção, para o subsídio da gasolina, né? Também não faz mais nenhum sentido manter esse subsídio e essa é mais ainda porque ela bate diretamente no bolso do brasileiro, especialmente da classe média, e ela ajuda a segurar a inflação porque o preço da gasolina tem mais reflexo sobre o IPCA, que é o índice oficial, do que o preço do diesel, por exemplo, que chega depois e mais espalhado.

?Voz A

Daniel, a gente pode resumir a conversa aqui que o governo tem uma justificativa boa para medidas ruins?

DRDaniel Rittner

Caiu, bem-vindo de volta, sentimos sua falta. Acho que um ponto aqui que é muito importante a gente analisar, e eu vou entrar um pouquinho na seara do Davi Zubenstein, por favor me corrija à vontade, professor, é a herança que todo esse arcabouço de medidas do governo para dar subsídios, taxa a petróleo, nos deixa. Deixa uma situação de profunda imprevisibilidade para os negócios e para os setores da economia e para o próprio arcabouço fiscal, por que não?

Vamos lá. Imposto de exportação de 12%. As petroleiras reclamam muito que Em boa parte do mundo, a cada 3 barris extraídos, você deixa 1 com o governo em impostos, royalties, etc. Aqui, com esse nível de taxação, você está deixando 2. Foi criado esse imposto de exportação por medida provisória, caduca a medida provisória, aí se justifica que não, não precisava de medida provisória, é um imposto regulatório. É um imposto regulatório?

Não é arrecadatório, não? E aí você continua cobrando sem o respaldo de uma lei ou de uma medida provisória. Bom, aí você entra num projeto de lei, PLP 114, que foi enviado para permitir que renúncias fiscais sejam cobertas pelo excesso de arrecadação do petróleo. Isso é um ferimento e uma novidade que debilita a lei de responsabilidade fiscal, porque permite que outros setores choraminguem também se beneficiem. Os ruralistas estão fazendo isso.

Permite que despesas permanentes acabem sendo bancadas pela receita adicional do petróleo. Enfim, é um risco fiscal. E por último, o governo agora inventou na terça-feira próxima, agora já ia desse dia dessa semana, deixou para terça-feira, reunião do CNPE para aumentar a mistura do etanol na gasolina. Vai para 32%, sai de 30%, vai para 32%. Há pouco tempo era 27%. E existe uma queixa de que, olha, é uma imprevisibilidade se os motores aguentam.

Há dúvidas até sobre isso. Então, resumo da ópera para mim é que a herança do tratamento da guerra e seus impactos no Brasil é de uma imprevisibilidade maior para os negócios, para o arcabouço fiscal, até para gestão do que vai para bomba de gasolina.

?Voz A

Você, Davi, só leitura.

DZDavid Zylbersztajn

Olha, o Daniel tem toda razão. Olha, primeiro, pelas circunstâncias passadas, o governo fazia sentido, como muitos governos pelo mundo, de você criar um colchão, amortecimento, não você trazer o preço aos valores históricos, mas principalmente um amortecimento dos preços. Isso funcionou. O diesel subiu mais de 50%, quase 60%. Aqui no Brasil foi em torno de 20%, quer dizer, teve, teve um impacto importante. Diga-se de passagem também muito pela ação do setor privado, que foi o único que fez a importação, tomou o risco de importação de diesel.

Quer dizer, essa questão do imposto sobre exportação é uma, eu na minha opinião, eu considero uma imensa aberração, porque quando um concessionário ganha uma área e ele começa a explorar petróleo, ele tem um contrato de concessão, obviamente ele tem que cumprir as leis brasileiras, inclusive as questões fiscais, Mas você tem uma previsibilidade. Você não imagina que ao longo de um contrato que dura quase 30 anos você vê o governo e bota 12, como poderia botar 15, poderia botar 20, quer dizer.

Então isso, como o Daniel adiantou, é uma situação bastante complicada num país onde a gente tem ainda investimentos para serem feitos e principalmente a atração é de que o Brasil hoje tem o papel que ele tem no mundo do petróleo, É um dos grandes, cada vez mais vai chegar até o quarto exportador maior, exportador de petróleo do mundo, graças a uma trajetória de desde 98, quando teve a Lei do Petróleo, 99 a primeira Lei das Licitações, de preservação das regras.

E uma coisa importante que o Daniel falou, ele falou que cada um fica com imposto aqui no Brasil, é mais, a cada dois, contando toda a cadeia de impostos, royalties, participações especiais, impostos estaduais, E a cada 3 barris, praticamente 2 ficam em termos fiscais. Quer dizer, é um dos grandes arrecadadores, é uma participação monumental, sem contar a rede de distribuição, que tem um valor enorme, mais de 7% do PIB. Então eu diria, eu reforço muito isso aí, poderia no primeiro momento teve um susto grande e vamos fazer agora, acho que o pessoal tá gostando e não é uma coisa boa. Realmente não é uma coisa boa.

THThais Herédia

Não fez sentido. Oi, Daniel, desculpa, deixa eu só complementar aqui. Não fez sentido nem quando lançou, né, Davi, os 12%, mesmo com o barril lá em cima. Quer dizer, outros países com o susto da guerra tomaram medidas e fizeram subvenções e pagaram subsídio, fizeram isso tudo. Mas o imposto de exportação não fez sentido nessa primeira na primeira saída.

DRDaniel Rittner

Daniel, ô Thaís, eu queria complementar justamente na sua linha. Alguns países, como Reino Unido, que é um produtor de petróleo ainda, Noruega, fizeram algum tipo de taxação dos lucros extraordinários das petroleiras, imposto de exportação. Até onde eu sei, o Brasil, se não foi o único, foi um dos poucos. Qual que é o problema disso assim? É tremendamente antipático a gente falar com petróleo a 100, 120 dólares. Ah, não pode mexer no contrato das petroleiras não pode taxar exportação.

É óbvio que é um contrassenso, e o apelo é de que, bom, tem que compartilhar um pouco desses lucros que estão vindo com exportação a petróleo a $120. Tudo bem. A questão é que quando você assina um contrato com a petroleira dessa, o Davi fez isso nos seus anos de ANP, você assina um contrato de 30 anos de duração, e esse contrato tem altos e tem baixos. Na pandemia, o petróleo chegou a ter valor negativo, virtualmente zero. E nesse momento de zero, ninguém falou em baixar a tributação das petroleiras.

Portanto, tem que se tomar muito cuidado em aumentar a tributação nos momentos em que o petróleo tá em alta.

THThais Herédia

Agora, Davi, tem um outro ponto aqui dessa medida que eu queria te ouvir, porque a justificativa do governo hoje, e o Daniel trouxe uma, né, uma explicação de que é um imposto regulatório. Não é. Assim como eles fizeram com o IOF, que eles tiveram que voltar atrás porque claramente nem entendiam como é que o imposto funcionava, mas ainda assim conseguiram manter. Dessa vez, o argumento deles é que com o imposto eles querem estimular o refinamento no Brasil, portanto inibe a exportação para estimular o refinamento no Brasil.

Brasil para não correr risco de abastecimento. Eu fiquei me perguntando, mas não há risco de abastecimento no Brasil. Da onde saiu essa justificativa, Davi?

DZDavid Zylbersztajn

O mais sério é o seguinte: se ele é transitório, transitório, à medida que você hoje é por 30 dias, né, 60 dias, não tem certeza. E se ele é transitório, não vão ser esses 12% que alguém vai fazer uma refinaria no Brasil. Uma refinaria é um imenso custo de capital e demora 5, 6, 7, dependendo do projeto, como acontece aqui no Brasil, pode demorar 10 anos para você fazer. Então não será você taxando a exportação por 60 dias que alguém vai fazer refino no Brasil, com, porque esse grau de incerteza ele contamina outros investimentos na mesma cadeia de petróleo, da mesma maneira que o exportador, exportador supostamente financiaria uma refinaria, que, como eu falei, é, não dá nem para levar a sério um argumento desse.

Quer dizer, como eu falei, no susto muitas vezes o governo, eu fui governo um tempo, no susto você muitas vezes exagera, erra e ajusta. Agora, o que tá acontecendo não faz sentido nenhum. Ninguém vai, a coisa que você vai inibir e vai fazer uma refinaria, não vai fazer, realmente não vai fazer. Você tem outras medidas e outras motivações para fazer uma refinaria. Se for fazer, né?

?Voz A

Bom, queria agradecer o Davi Zilberstein, ex-diretor da ANP, Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Davi, muito obrigado, viu?

DZDavid Zylbersztajn

Obrigado, um abraço a vocês.

?Voz A

Bom, vamos agora para a política brasileira, né? Vamos falar sobre os dois principais candidatos à presidência enfrentando desafios distintos. Presidente Lula concentrando esforços para ampliar alianças e fortalecer palanques, tá meio numa atuada ali, uma agenda positiva, enquanto Flávio Bolsonaro tenta conter o ruído, sair dessa agenda negativa que se meteu aí já tem uns 2 meses, principalmente agora dentro do próprio grupo político. A reportagem é de Luciana Amaral.

?Voz G

A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos para discutir o novo tarifação americano expôs um outro problema: as divisões dentro do bolsonarismo. Enquanto o senador usava do cenário internacional para tentar se fortalecer junto ao eleitorado, aliados passaram a fazer críticas públicas à condução da pré-campanha. Nomes ligados a Eduardo Bolsonaro, como Paulo Figueiredo e Kim Paim, além de Fábio Weingarten, lideraram o fogo amigo.

As reclamações vão desde a comunicação até a estratégia política. E questionam acenos de Flávio ao centro, algo que para eles afasta a campanha do verdadeiro DNA bolsonarista. Os ataques se somam a uma série de episódios que têm posto desafios à candidatura do filho do ex-presidente. Nestas últimas semanas, fora a revelação das conversas com Vorcaro, Flávio precisou administrar políticos próximos na mira da polícia, A repercussão negativa de declarações machistas de um aliado sobre o eleitorado feminino e, claro, o conflito com a madrasta Michele Bolsonaro.

Ao desembarcar no Brasil nesta quinta-feira, Flávio minimizou a crise dizendo que Michele vai entrar na campanha no tempo dela.

?Voz A

Eu tô sempre aberto aqui a conversar, né, sempre esperando o tempo que ela achar que é o suficiente para ela tá com a gente na campanha vestindo a camisa, porque Eu tenho certeza que a Michele pensa igual a mim.

?Voz G

Enquanto isso, Flávio também tenta avançar na construção de palanques regionais, sob risco de novos desgastes. Nesta sexta, o senador estará em Fortaleza, reduto da crise com Michele, para lançar a pré-candidatura de Alcides Fernandes ao Senado. Isso acaba escanteando, portanto, Priscila Costa, a preferida da ex-primeira-dama. Se do lado da oposição o principal desafio é diminuir as tensões internas, entre os governistas a prioridade é outra.

A estratégia de Lula tem sido ampliar alianças antes do início da campanha. Dois dos focos são Minas Gerais e Goiás, em que o PT ainda busca nomes competitivos aos governos estaduais. A expectativa é que a definição desses palanques ganhe ritmo nos próximos dias. A aposta é que coalizões mais robustas possam compensar a disputa acirrada que se desenha para a corrida presidencial. Ao mesmo tempo, o Centrão não se compromete. A maioria, incluindo PP e União Brasil, sinaliza tendência à neutralidade, flutuando à mercê dos interesses regionais.

?Voz A

E conosco para esse segmento, Sérgio De Niccoli, que é cientista de dados e CEO da AP Exata. Bem-vindo, Sérgio.

SDSérgio Denícoli

Oi, Caio, boa noite. Boa noite, Thaís. Obrigado mais uma vez pelo convite.

?Voz A

Nós que agradecemos, meu caro. É, para mim tá claramente a campanha do Lula imersa numa agenda positiva, já tem uns 2 meses, e a do Flávio imersa em uma agenda negativa que parece difícil dele sair. Você tem essa percepção?

THThais Herédia

Também?

SDSérgio Denícoli

Sem dúvida, Caio. Há um problema interno na campanha do Flávio, né? Muito fogo amigo, muita confusão, muita briga interna, né? Então isso tem atrapalhado o andamento. Me parece que o Flávio, ele tem usado algumas estratégias que são equivocadas, vem se mantendo em alguns temas que são negativos aí. Um deles é a taxação dos Estados Unidos. Essa ida dele a Washington não foi bem vista nas redes. Ele vinha recuperando um pouco a imagem que ele tinha perdido Depois do episódio do caso Marcel e esse caso do tarifaço, novamente trouxe negatividade para o Flávio.

E o Lula vai jogando parado, né? Na verdade, nas últimas semanas a gente ouviu pouco falar do Lula nas redes. O Flávio dominou basicamente a narrativa, mas de uma forma negativa. Então realmente ele precisa fazer ajustes na campanha dele para conseguir fluir. Há uma imagem perante as pessoas que avaliam a campanha do Flávio de que é uma campanha que não está conseguindo decolar, né? E isso tem atrapalhado realmente as articulações políticas, começa a prejudicar.

E em relação ao eleitor, há uma passividade, as pessoas estão em compasso de espera e o tempo neste momento corre a favor do Lula.

?Voz A

O Daniel, você sente a campanha da oposição trabalhando com algum prazo? Porque já estamos aí, Copa do Mundo acabou, praticamente 90 dias da eleição.

DRDaniel Rittner

Eu sinto as pessoas ligadas à campanha do Flávio Bolsonaro e do PL muito preocupadas, com dificuldade em formação de palanque. Acho que isso tem muito a ver, Caio, com projeção de poder. A gente percebe nitidamente como a campanha do Flávio Bolsonaro vinha atraindo apoios e vinha sendo estruturada até 2, 3 meses atrás, e desse tempo para cá isso se desintegrou. Há uma dificuldade até na escolha dar ou dou companheiro de chapa na vice-presidência na corrida para o Palácio do Planalto.

Dificuldade de montar palanques. Quem que vai dar suporte? Quem que vai entregar um palanque para o Flávio Bolsonaro no Ceará? Vai ser Ciro Gomes, que teria essa capacidade? E aí, certamente o PL ia sair perdendo no Nordeste, como em outras eleições Mas tinha uma esperança grande de diminuir a diferença. Quem que vai ser o palanque do Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro, onde muitos candidatos pensados anteriormente estão presos hoje?

Isso é uma dificuldade muito grande para a campanha do Flávio. Eu lembro, Caio, que no comecinho do ano, naquela época em que o governo Lula errava com desfile na Sapucaí, aparecia crise do Master afetando o Supremo, isso era ligado ao Lula também, ter uma conexão indissociável com o Supremo, Lulinha na CPI do INSS. Parecia que tudo dava errado enquanto a campanha do Flávio crescia. E aí o Palácio do Planalto dizia, olha, que nem aquele jogo de futebol em que algum momento o adversário também dá um sufoco em quem tava dominando inicialmente.

Então eles também vão errar. Acho que o que o Palácio do Planalto não imaginava que errariam tanto.

?Voz A

Ô Thaís, e o PIB já desistiu do Flávio? Já aceitou o Lula?

THThais Herédia

Não, aceitar Lula só se for por conformismo, não por escolha. Nunca escolheram Flávio, há poucos empresários, mesmo no mercado financeiro, mesmo entre aqueles mais antilulistas assim, ninguém nunca imaginou, estou falando ali da turma que toma grandes decisões, ninguém nunca levou a sério a campanha do Flávio. Agora, tem dois pontos que eu queria colocar aqui. Primeiro o seguinte, a teoria da conspiração é fundamento da existência da família Bolsonaro.

A gente viu isso muito acontecer no primeiro mandato do Bolsonaro. Eles têm um problema de confiança e não por outro motivo que o Jair Bolsonaro escolheu o seu próprio filho, que era a pior opção política que ele podia tomar. Ele tomou uma opção de confiança. Os seus irmãos, Carlos Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, e mesmo aqueles mais próximos, aqueles nomes mais próximos, eles sempre acham que tem alguém agindo contra a campanha, contra o Bolsonaro.

Isso não impediu que o Jair Bolsonaro fosse eleito ou se mantivesse no governo ou não tivesse perdido a eleição por muito pouco. E o que a gente está vendo hoje nas pesquisas, pelo menos por enquanto, o diagnóstico de que a campanha está fraca, de que a campanha está desorganizada, de que a campanha está sem plano, de que a campanha está sem comando e que eu acho que ninguém tem dúvida de que é isso mesmo, esse diagnóstico também não parece fazer parte da lista de requisitos dos eleitores para a escolha do Flávio, tanto assim que ele perdeu depois do áudio com o Vokar? Perdeu. Mas ele se manteve competitivo.

?Voz A

Não, e entra, para mim a data-chave da campanha do Flávio é 7 de maio, que é a operação da Polícia Federal contra o do Nogueira, em razão ali da ligação com Daniel Alvarcaro. A partir dali, né, hoje é 9 de julho, então estamos em 2 meses. Eu listei até na abertura do jornal uma série de, assim, agenda negativa atrás de agenda negativa. Depois disso tiveram os áudios, teve a questão da Michele Bolsonaro, as falas do Paulo Figueiredo.

Agora isso expõe ali essas, a questão dos palanques atrapalha, a falta de apoio dos aliados, porque a reportagem mostrou, você não vai ter, você, Flávio Bolsonaro, não vai ter União Brasil e PP. E isso, a neutralidade do PP e da União Brasil permite ao Lula ter um horário eleitoral, tempo de propaganda, inserções no rádio e TV muito maiores. Ele não consegue sair, né? Agora, Daniel, eu também sempre tive uma rejeição a fazer comparações com futebol, mas estamos na Copa do Mundo.

Será que talvez eles não esperam? Porque a despeito disso tudo, né, eu joguei para o Daniel porque a gente tinha perdido o Sérgio. Eu já vi que ele voltou, mas eu vou continuar aqui na pergunta para o Daniel. Já vou contigo, Sérgio. A despeito disso tudo, são 5 pontos, e eu sinto que a campanha do Flávio parece apostar nesses 5 pontos e nos últimos 10 dias de campanha entre o primeiro e segundo turno para ali virar, ali vai ser a hora da virada, né?

Mas sem estar trabalhando para isso, mais ou menos, talvez até como a seleção nossa, acreditar num, né, numa ali, poxa, ali na hora de que precisar aí vai. Não tem isso, talvez, uma achar que o antilulismo ali na reta final algo vai acontecer para permitir essa virada, né? Se os números de fato forem esses?

DRDaniel Rittner

Olha, Caio, o Sérgio pode nos explicar melhor se quiser, mas me parece que onde tem Lula e PT sempre haverá o antilulismo e o antipetismo. Mas há um sentimento, uma desorganização muito grande hoje na campanha de Flávio Bolsonaro e uma percepção de que tentar sair das cordas nesse ringue é fazer uma escolha muito acertada da vice-presidente na chapa. Uma tendência de ser uma mulher. Hoje me parece que a favorita para isso é a Daniela Marques, que era braço direito do Paulo Guedes, do governo Jair Bolsonaro, mas é na percepção de muita gente do PL, uma pessoa que embora muito qualificada não agrega votos, não agrega palanque, não tem capacidade de mobilização política eleitoral.

A Priscila Costa, por exemplo, que é uma vereadora religiosa que dialoga muito com a base evangélica, com o eleitorado feminino no Ceará, poderia cumprir ali uma função que cada vez menos se espera de Michele Bolsonaro, que é de um engajamento na campanha. Agora, existe muita incerteza e, digamos, numa figura que hoje tem menos projeção de poder, como eu dizia, há menos cenourinhas ali para se entregar durante uma campanha para eventuais aliados.

?Voz A

Sérgio, uma diferença de 5 pontos do Flávio para o Lula no segundo turno não devia ser algo a ser comemorado e pensado estrategicamente de como reverter? Porque, a rigor, 5 pontos são 3, né, 2,5, porque você tira do adversário para conseguir vencer. Não tem ali uma— não deveria ser algo para estar se formulando melhor essa virada?

SDSérgio Denícoli

Eu acredito que não, Caio, porque a gente tá no ambiente muito polarizado, onde os dois principais candidatos têm quase 50% de rejeição. Então 5 pontos acaba sendo um volume muito grande. Uma questão que eu observo que tem ocorrido agora é que falar mal do Flávio tem impulsionado outros candidatos de centro. Aconteceu recentemente, né? O Caiado criticou novamente o Flávio ontem, e nesse movimento de crítica, o Caiado passou de 5% de menções entre os presidenciáveis nas redes para 17%.

Então, é porque há uma ideia de que o Flávio, há uma ideia dentro da direita de que o Flávio talvez não consiga ter força para ganhar do Lula no segundo turno. Então o eleitor começa a olhar para o lado, e isso pode trazer um movimento de diluição dessa polarização Apesar de que é muito difícil que ela se dilua, mas só essa expectativa negativa em torno da campanha do Flávio acaba por atrapalhá-lo. E os candidatos que antigamente estavam falando em união de direita, né, começam a atirar também no Flávio, que acaba por prejudicar.

Então é importante para campanha do Flávio que eles se reorganizem dentro da própria direita para que consiga então remar todos para o mesmo lado. Se há críticas internas, né, que são nem são tão internas, que elas já são públicas, né, É um sinal muito negativo para uma campanha e num tempo curto de que nós temos até as eleições. Então, como eu falei, o tempo corre a favor do Lula e o Flávio precisa realmente se reorganizar.

?Voz A

Ou seja, agora esse embate radicais e moderados do bolsonarismo é um suco de bolsonarismo, né? Porque o governo do Jair Bolsonaro inteiro foi assim. Ele não lhe parece repetir um roteiro um pouco de caos e um caos que não é um caos produtivo, que leva a uma vitória, porque o embate entre radicais e moderados bolsonaristas no governo Jair Bolsonaro levou à derrota de 22, foi um dos componentes, dentre outros. Não parece que isso está sendo transportado para essa campanha e pré-campanha?

Ou seja, o embate de radicais e moderados na campanha do Flávio também rumando ali, criando um roteiro semelhante ao do pai em 2022?

SDSérgio Denícoli

Eu acho um pouco diferente, porque apesar das brigas internas que havia na campanha do Bolsonaro em 2022, a direita remava junta, né? Ela apoiava o Bolsonaro. Agora a gente começa a ver críticas ao Flávio Bolsonaro dentro da própria direita. A ruptura com a Michele é um dos pontos muito graves que a gente vê, né? Isso não acontecia em 2022. Eu acho que isso que tem dado esse alerta para a campanha do Flávio de que há aí um certo desânimo, que é preciso se organizar.

E em 2022 todos remavam contra o Lula, numa ideia de antilulismo. Agora você tem um cenário um pouco diferente, com candidatos de centro que também começam a apontar contra o Flávio, e dentro da própria direita pessoas que vão deixando a campanha, como é o caso da Michele, como eu falei, que tem um público evangélico e um público feminino que apoia. Inclusive, durante esse conflito da Michele, o Flávio acabou saindo como vítima, mas a Michele não perdeu apoio.

A gente mede isso nas redes sociais, ela se manteve muito estável. Ou seja, o eleitor que gosta da Michele permaneceu gostando dela, e é um eleitor que tem feito falta à campanha do Flávio nessa pré-campanha e vai fazer falta também no segundo turno. Então era importante que houvesse uma aproximação familiar aí para que todos então remassem, como eu falei, para o mesmo lado.

?Voz A

Daniel pediu a palavra.

DZDavid Zylbersztajn

Daniel?

DRDaniel Rittner

Não, por favor, a Thaís.

THThais Herédia

Eu vou rápido. Não, é interessante essa coisa do Sérgio falar, fazer a diferença com 2002, né? Exato, que é pior hoje. E tem uma outra questão que é o seguinte: agora o ciclo da notícia, além dos números e da situação e da campanha do Lula, o ciclo da notícia também tende a favorecer Lula, porque a inflação pode baixar um pouco, ou pelo menos os preços vão parar de subir, a taxa de juros vai aí mais um pouquinho, o desemprego vai continuar porque tem muito estímulo.

Então, né, o dinheiro tá rodando, as pessoas estão tomando crédito. Então não é só o fato do Lula ter chegado até aqui como ele chegou, mas é como ele vai correr até a eleição e a diferença do que ele vai precisar fazer e a diferença do que o Flávio vai precisar desfazer para se manter como competitivo.

?Voz A

E a propaganda a favor do Lula também, né, tendo mais tempo de TV.

DRDaniel Rittner

Daniel, queria trazer um ponto para encerrar aqui minha participação. Pouca gente tem notado o seguinte: em 2018, quando o Lula tava preso, ele tinha a capacidade, como líder inconteste da esquerda e do PT, tinha a capacidade de receber em Curitiba algumas pessoas-chave da campanha e do seu grupo político. Fernando Haddad terminou o primeiro turno, foi correndo para lá, o que inclusive teria sido um erro ali do ponto de vista eleitoral.

Mas o Lula tinha toda a capacidade de organizar esse campo político no qual ele exerce uma liderança inconteste para o grupo. Se a gente olha o Bolsonaro de 2026, quando ele tava ali na Papudinha, ele tinha mais margem de manobra para receber pessoas. Quando ele vai para prisão domiciliar, embora ela seja uma sintese mais confortável para ele, ele tá tremendamente limitado a receber os filhos por uma questão legal. Essa autorização de Alexandre de Moraes e seus advogados representados no STF, constituídos para defesa dele, por meia hora por dia cada advogado.

Isso faz com que ele não possa encontrar Valdemar Costa Neto, não possa encontrar Tarcísio de Freitas, não posso encontrar Rogério Marinho. E isso cria uma dificuldade para reorganizar o campo da direita.

?Voz A

Bom, queria agradecer a todos, começar pelo Sérgio De Niccoli, que é cientista de dados e CEO da AP Exata. Sérgio, muito obrigado, meu caro, por sua participação.

SDSérgio Denícoli

Eu que agradeço. Boa noite a todos.

?Voz A

E ao Daniel Hittner e a Thaís Herédia, prazer estar com vocês.

THThais Herédia

A gente tava morrendo de saudade, né, Daniel?

?Voz A

Eu também estava. Gosto muito do meu trabalho, ainda mais tendo vocês próximo a mim. É verdade, tá bem? Vamos lá, WW termina aqui. Uma boa noite e até amanhã.