Episódios de WW – William Waack

Guerra judicial começou bem antes da restrição eleitoral

04 de julho de 202653min
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Com a aproximação das eleições, se torna evidente que as campanhas e guerras judiciais, se iniciaram bem antes do período eleitoral. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se acomoda na corrida pelo quarto mandato, apesar de breves e pontuais incômodos em sua caminhada. Thais Herédia, analista de Economia, Jussara Soares, analista de Política, Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, Max Telesca, especialista em processo civil e direito penal, Lourival Sant’anna, analista de Internacional, Américo Martins, analista sênior de Internacional e Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Eceme,  debatem sobre este e outros temas.
Participantes neste episódio7
T

Thais Herédia

HostAnalista de Economia
A

Américo Martins

ConvidadoJornalista
C

Cristiano Noronha

ConvidadoCientista político
J

Jussara Soares

ConvidadoAnalista de política
L

Lourival Sant'Anna

ConvidadoAnalista de Internacional
M

Max Telesca

ConvidadoEspecialista em processo civil e direito penal
S

Sandro Teixeira Moita

ConvidadoProfessor de ciências militares
Assuntos3
  • Judiciário e PolíticaRestrições eleitorais · Uso da máquina pública · Propaganda eleitoral irregular · Investigações da Polícia Federal · Tribunal Superior Eleitoral · Supremo Tribunal Federal · Luiz Inácio Lula da Silva · Flávio Bolsonaro
  • Operação da PF contra lavagem de dinheiroSanções dos Estados Unidos · Cooperação internacional em segurança · Classificação de facções como terroristas · Polícia Federal · PCC · Comando Vermelho · Victor Shimada · Stella Stephanie
  • Sucessao Lider Supremo IraProjeção de poder e regime · Transição geracional no regime · Relações Irã-Rússia-China-Índia · Risco de provocação a Israel · Ayatollah Ali Khamenei · Mostafa Khamenei · Guarda Revolucionária do Irã · Hezbollah
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?Voz B

Moto Casino, America's social casino. Olá, boa noite. Esta é a CNN Brasil e este é o WW. Lula reclamou hoje das restrições eleitorais que o impedirão de inaugurar obras nos próximos meses. Ele tá bastante à vontade na disputa por um quarto mandato, mas a verdade é que a campanha começou antes mesmo das proibições do uso da máquina pública ou da permissão de propaganda. Lula e Flávio Bolsonaro disputam espaço nas ruas, nas redes sociais, mas também nas petições à Justiça Eleitoral e nas investigações.

Antes do início oficial da campanha, PT e PL, os dois partidos, já travam uma guerra de representações no Tribunal Superior Eleitoral pedidos de remoção de conteúdo, acusações de propaganda eleitoral irregular. A Polícia Federal também produz efeitos sobre as duas candidaturas com as investigações do caso Master, que atingem os dois pré-candidatos direta ou indiretamente. A atuação da Polícia Federal, do STF, principalmente do TSE, vai ser testada mais uma vez.

A eleição de 2026 caminha para ser decidida também pela capacidade de cada lado de ocupar ou de sobreviver às arenas digital e judicial. Nesta edição, nós vamos falar também dos Estados Unidos e da Polícia Federal querendo mostrar quem é que mais combate o crime organizado no Brasil. E vamos tratar dos recados do Irã aos aliados e inimigos no funeral de Ayatollah Khomeini. Vamos dar a boa noite. Sexta-feira impactada pela derrota do Cabo Verde.

Jussara e Cristiano Noronha, eu tô perdida, mas vamos lá. Com o coração apertado, dou boas-vindas ao Cristiano Noronha, que é sócio da Arco Advice, cientista político. Bem-vindo, Cristiano, que bom tê-lo aqui comigo no estúdio essa noite.

?Voz D

Prazer, Thaís.

?Voz B

Que bom. E a minha parceira Jussara Soares lá em Brasília. Jussara, boa noite para você.

?Voz E

Oi, Thaís, boa noite. Boa noite, Cristiano, boa noite a todos.

?Voz B

Que bom. Vamos lá, o governo correu contra o tempo hoje para apresentar um pacote de entregas antes do prazo de restrições eleitorais. O presidente Lula reclamou da proibição de inaugurar obras a partir de amanhã. Vamos ver na reportagem de Carol Rosito.

?Voz C

A cerimônia central no Palácio do Planalto começou pela manhã e contou com a participação de ministros e aliados em uma série de estados. O governo, no entanto, focou em São Paulo, maior colégio eleitoral do país. O vice-presidente Geraldo Alckmin, o secretário-geral da Presidência Guilherme Boulos, a pré-candidata ao Senado paulista Marina Silva e o ministro da Saúde Alexandre Padilha comandaram entregas na região. As obras eram principalmente das áreas da saúde, educação e moradia.

O Planalto precisava acelerar o cronograma devido às regras da legislação eleitoral. Elas barram a participação do presidente e de outros pré-candidatos em inaugurações. Fazem parte do chamado "defeso eleitoral". O objetivo é evitar o uso da máquina pública em benefício das candidaturas. Lula já tinha criticado a norma nesta quinta, chamando de papagaiada, e voltou a repeti-las ao longo dos discursos desta sexta.

?Voz F

Vocês sabem que a gente tá fazendo isso porque a partir de hoje a gente não pode inaugurar mais nada. É por causa das eleições. Nós temos o período de defeso. Embora não possa inaugurar, eu vou visitar muitas coisas Que eu ainda tenho que visitar.

?Voz C

Mas mesmo antes de parte das restrições passar a valer e da campanha começar, o Tribunal Superior Eleitoral já teve participação importante no jogo. Tanto PT quanto PL apresentaram quase 120 ações e representações que contestam a legalidade de postagens nas redes sociais. A maior parte das medidas mira o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro. Envolvem principalmente publicações feitas com inteligência artificial e denúncias de impulsionamento irregular e propaganda eleitoral antecipada.

Do outro lado, o PL também envia representações sobre suposta publicidade irregular e encaminha uma série de pedidos de remoção de postagens. Na esfera criminal, a Polícia Federal concluiu que Flávio Bolsonaro cometeu calúnia contra Lula por um post nas redes sociais. A publicação dizia que o ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, delataria o presidente depois da prisão pelos Estados Unidos. Agora, cabe à Procuradoria-Geral da República decidir se vai denunciar o senador.

Ambos os partidos avaliam que a judicialização só deve crescer até agosto, com o início oficial das campanhas.

?Voz B

Quero começar fazendo uma correção aqui. Eu voltei lá para os anos 70, 80 e falei do funeral do Ayatollah Khomeini, que foi quem fez a revolução iraniana lá em 79. É claro que eu estou falando do funeral do Ayatollah Ali Khamenei, que morreu no início dessa guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Então, correção feita aqui. Cristiano, vamos lá, vamos voltar aqui para o nosso Brasil e das nossas batalhas eleitorais.

Nós estamos vendo um quadro diferente, eu quero começar lhe ouvindo sobre essa característica dos dois partidos, PT e PL, já inundando o TSE com ações. Qual é a premissa ou qual é o sinal que isso nos sinaliza sobre, ou que nos parece sobre o que vai ser essa disputa este ano?

?Voz D

Vai ser uma disputa, Thaís, bem judicializada, muito provavelmente uma campanha também de muitos ataques, ataques mútuos, onde a gente deve ver Pouco espaço de apresentação de propostas de fato. Então vai ser sempre as duas candidaturas se autopromovendo e procurando atacar o seu adversário. Isso a gente já está vendo que está acontecendo já desde o início do ano e muito provavelmente isso vai se aprofundar daqui até as eleições.

E isso não vai acontecer apenas entre os candidatos, mas também entre os aliados de cada um, que vão atacar. Então, é muito comum, por exemplo, você verificar nas redes sociais que um ministro ou um líder de governo, por exemplo, muito frequentemente acaba partindo para o ataque em direção ao adversário. Assim como a gente vê também a oposição o tempo todo criticando. Então, os ataques, eles não são apenas entre esses dois atores, entre os candidatos à presidência, mas todos os seus aliados, que acabam também intensificando isso.

Então, a gente vai ter uma judicialização muito grande. Não à toa que o próprio ministro do TSE, presidente, o Cássio Nunes Marques, já cuidou de marcar uma reunião tanto com os presidentes, representantes de institutos de pesquisa e também de big techs, de um lado para ver essa questão de parâmetros de pesquisas eleitorais e também ver o comportamento deles de redes e tudo mais, e como mecanismo, que mecanismos eles vão utilizar para eventualmente conter um pouco dessa artilharia que, na minha avaliação, vai ser de muito Baixo nível até.

Então, fake news e tudo mais, isso vai ser muito comum, na minha avaliação, ver isso durante o processo eleitoral. E um ponto que acaba, e obviamente que isso acaba jogando mesmo para depois que a eleição terminar, que a gente já viu, tem sido muito comum, que são depois que uma candidatura vence, justamente por esses atos cometidos pré-campanha e durante a campanha que a gente vê essas ações no TSE acontecendo ou nos TREs, tentando anular as candidaturas.

?Voz B

Então a gente já viu... Você acha que essa eleição deve ter um volume maior de pressão sobre os tribunais, tanto regionais eleitorais quanto Tribunal Superior Eleitoral?

?Voz D

Eu acredito que sim. E aí vamos ver se essa pressão, se ela resulta efetivamente contenção por parte das candidaturas, mas vai haver uma pressão muito grande, uma judicialização muito grande.

?Voz B

Eu acho que você falou a palavra-chave aqui do nosso debate, Jussara, que é a contenção. Você enxerga alguma contenção ou desejo de contenção nas duas campanhas?

?Voz E

Olha, Thaís, avaliação aqui das campanhas, aí repetindo um pouco do que nos disse o Cristiano, é que essa Elição, ela passa pela disputa judicial. Na verdade, as duas campanhas, elas querem, de qualquer forma, usar esse mecanismo, o recurso ao Tribunal Superior Eleitoral, para, enfim, tentar fazer essa disputa também se dar por lá. Bem, mas tem uma grande preocupação, aí trazendo um pouco ali do que me dizem integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro, é sobre essa esse excesso de ações sendo apresentadas, porque há um temor de que isso possa se virar contra a própria campanha.

Eles também têm um receio de que o STF, o Supremo Tribunal Federal, possa inclusive passar a tomar a frente de ações que estão ali no TSE. Então há uma preocupação também, de modo geral, do quanto essa judicialização pode acabar revertendo. Eles tentam usar isso como uma arma contra adversário, no caso as duas campanhas, mas há um temor também de quanto isso dá armas e instrumentos para a justiça acabar influenciando também na justiça.

Lembrando que esse foi um dos argumentos usados pelo bolsonarismo nas eleições de 2022. Então a gente vê a pré-campanha, as duas pré-campanhas fazendo muito, acionando muito a justiça, mas também há esse temor, principalmente por parte dos aliados de Flávio Bolsonaro, que diz o seguinte: a gente está dando oportunidade para os ministros, tanto no TSE quanto no STF, de alguma forma, se começar a entrar nessa seara eleitoral, também de interferir.

Então, há um temor sobre o quanto isso é um caminho que vai ser proveitoso para a campanha de Flávio Bolsonaro. O PT, claro que ele está numa posição diferente. Nas eleições do ano passado, quem estava com a máquina na mão era Jair Bolsonaro e a gente sabe que Bolsonaro acabou sendo condenado pelo uso da da estrutura pública, quando participou daqueles atos do 7 de setembro. Então agora o jogo está invertido. A campanha de Flávio Bolsonaro vai buscar qualquer detalhe na atuação de Lula para tentar acusá-lo de abuso de poder econômico e político.

?Voz B

A Jussara trouxe aqui a judicialização da judicialização. O ministro Gilmar Mendes, na entrevista que deu à Roda Viva há poucas semanas, mandou recados dizendo: olha, a gente vai olhar o que está fazendo o TSE. E aqui, Cristiano, eu vejo risco institucional, eu revejo risco político e mais uma fonte de desvio de debates, porque você mesmo disse, você está prevendo o que é muito ruim, uma campanha de baixo nível, uma rodada de ataques de baixo nível entre os dois lados.

Agora, eu estou equivocada em enxergar risco institucional nessa batalha entre os tribunais?

?Voz E

Não.

?Voz D

E isso é porque, em parte, Thaís, porque há pelo menos uma avaliação de que hoje, talvez, a composição do TSE seja eventualmente mais favorável ao Flávio. Porque tem Nunes Marques, porque tem André Mendonça, enfim. Então, no Supremo Tribunal Federal há um entendimento, uma avaliação que é mais pró-governo. Então, esse embate, no final das contas, pode sim acabar sendo transferido para esses dois tribunais. Validíssimo.

?Voz B

Na eleição de 2022, já vou te interromper porque eu acho importante a gente fazer esse contraponto aqui, na eleição de 2022 eram os dois pró-governo, né?

?Voz D

Exatamente. E agora a gente tem uma situação, vamos dizer assim, equilibrada. Mas vale ressaltar que a última palavra é do Supremo, porque as decisões, no final das contas, podem acabar sempre parando no Supremo Tribunal Federal. E não existe instância pós-Supremo Tribunal Federal, é aquela lá. Então, isso pode acabar, obviamente sim, gerando essa tensão institucional. E, voltando, que não necessariamente ela fique paralisada apenas durante a campanha, ela pode se estender.

Por exemplo, essas ações podem obviamente correr no TSE, depois pararem no Supremo. Se o Lula ganha, ele vai indicar mais um ministro do Supremo Tribunal Federal.

?Voz B

Imediatamente.

?Voz D

Imediatamente. Aí depois, ao longo do mandato, também tem novas indicações. Se for o Flávio, a situação se inverte. Então, como é que fica isso? Então, sim, a gente tem esses riscos e lembrando agregando ainda mais esse risco, que a gente viu que a direita também fez muito um discurso e uma campanha de que a eleição para o Senado era importante porque, tendo maioria no Senado, eventualmente você pode abrir impeachment contra ministro do Supremo Tribunal Federal.

Então, depende. Eu acredito que a gente ainda vai ver o prolongamento dessas disputas, dessas tensões, desses conflitos institucionais ainda se arrastando por algum tempo, porque o ambiente político ainda continua muito polarizado. E ele não é resolvido na política, ele é resolvido no Judiciário.

?Voz B

Que está politizado, como a gente acabou de dizer. Que está altamente politizado, como a gente acabou de dizer. Jussara, eu disse agora há pouco que o presidente Lula está muito à vontade, não tinha como ser diferente, com a sua idade, com a sua experiência, concorrendo para um quarto mandato. O problema é quando começa a ter atitudes assim, como se ele, até por isso, tivesse que ser isentado das leis. Porque veja, afinal de contas, ele fala muito isso, por exemplo, sobre a condução da política econômica.

Você consegue captar? Tá alguém no governo preocupado com essa tranquilidade de Lula, que pode atravessar a rua para escorregar na casca de banana do outro lado?

?Voz E

Olha, Thaís, tem preocupação. A questão aqui, num governo, nesse atual mandato do presidente Lula, é que as pessoas têm dificuldade de falar para o presidente Lula o que elas estão pensando. Essa grande— ninguém consegue. Calar o presidente Lula ou dizer para ele que o caminho que ele está tomando não é o mais correto, é o mais perigoso, porque é um governo em que os aliados dele, que são chamados de cabeça branca, que estão com ele há muito tempo, conhecem há 50 anos, desde o início da atuação política dele, não estão ali no entorno dele.

Então, há uma dificuldade do governo em relação a isso. Aproveito, você mencionou um pouco mais cedo o presidente Lula falando dessa papagaiada do que é o defesa eleitoral. Defesa eleitoral é uma trava para que justamente, para quem esteja no mandato não tenha vantagens, né? Por exemplo, fazendo entregas, inaugurações, participando de eventos com dinheiro público e que isso pode se tornar em benefício. Essa é uma questão que o presidente Lula mesmo, Thaís, ele adiou o que ele chamou da pré-campanha dele, porque ele falou: "Agora eu tenho que focar totalmente nessas entregas".

Por quê? A aposta do presidente Lula é justamente que essas entregas que ele acelerou o máximo, inclusive deu uma intensificada nas visitas dele pelo país, pelos estados, como hoje ele participou de eventos em diversos lugares, né? Tudo isso, Thaís, porque ele vê nessas entregas, ele aposta nisso a sua principal plataforma na reeleição. Então, essa reclamação dele vem nesse sentido. Agora, para a gente provocar, né? Se isso em 2022 Jair Bolsonaro tivesse chamado de papagaiada, e continuasse fazendo essas inaugurações com a máquina na mão, claro que o PT ia contestar.

Então, a situação muda de figura de acordo com quem está no poder. Se fosse o contrário, ele também não ia achar justo o uso da máquina para fazer, claro, nesse período eleitoral. Então, é essa a visão do presidente Lula, mas ele aposta muito nessas entregas, nesses últimos anúncios que ele fez. Para sua reeleição.

?Voz B

Muito bem, Cristiano Noronha, cientista político, vice-presidente, sócio da consultoria Arco Advice, que é parceira do WW na produção de conteúdo no site do WW na CNN Brasil. Meu caro, muito obrigado por ter vindo aqui me fazer companhia no estúdio, como sempre parceiro nosso aqui. Um bom fim de semana para você.

?Voz D

Para você também, Thaís. Prazer estar aqui com vocês. Boa noite.

?Voz B

Que bom te ouvir. A Jussara não tá pensado ainda não. Ela fica comigo, a gente volta daqui a pouquinho e vamos tratar, gente, da Polícia Federal dizendo que as sanções americanas acabaram prejudicando uma operação de hoje contra alvos suspeitos de ligação com o PCC. A gente volta já. Agora estamos de volta. Aqui conosco eu quero dar as boas-vindas aqui ao Max Telesca, que é jurista especialista em processo civil, direito penal.

Max, me diga por favor se eu pronunciei o seu nome corretamente. Já lhe dou boa noite, muito obrigada por estar conosco hoje.

?Voz G

Boa noite, Thaís, boa noite a todos. Lourival, Sara, é Telesca mesmo, aberto é. Acertinho.

?Voz B

Pronto, então acertei. E o Lorival Santana, parceiro também aqui comigo no estúdio. Vamos lá para o nosso tema. A Polícia Federal deflagrou hoje uma operação contra o mesmo grupo que foi sancionado pelos Estados Unidos há 2 dias sob acusação de lavagem de dinheiro para o PCC. Agora, o que aconteceu foi que um dos alvos não foi localizado porque parece que fugiu para a Polícia Federal foram as sanções de Washington, que acabaram dificultando a captura dele. Vamos ver na reportagem.

?Voz H

A operação da PF contra a rede de lavagem de dinheiro que seria coordenada por Victor Shimada foi deflagrada 2 dias depois das sanções dos Estados Unidos contra o grupo. Stella Stephanie, que atuaria como uma secretária do esquema, foi presa pela PF em São Paulo. Mas Victor Shimada está foragido das autoridades. Em reunião aberta com integrantes da PF, o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, disse que a Operação Exchange precisou ser antecipada devido às sanções dos Estados Unidos.

Andrei não detalhou quais alterações no planejamento da ação teriam ocorrido, mas afirmou que as ações americanas sem coordenação com autoridades brasileiras podem ter impactado negativamente no resultado da operação. Especialmente em relação à não captura de Shimada. Na mesma reunião, o diretor-geral da PF classificou a decisão dos Estados Unidos de designar o PCC e o CV como organizações terroristas como um erro grotesco. Os Estados Unidos acusam Shimada de coordenar, a partir de São Paulo, um esquema de lavagem de dólares obtidos pelo PCC em atividades criminosas em solo americano.

Os investigadores da Exchange apontam que Shimada utilizou 70 empresas de fachada para lavar dinheiro para o narcotráfico. Na quarta-feira, o Tesouro americano disse que também estava sancionando 3 empresas brasileiras ligadas a Shimada, além de uma com sede em Portugal. Autoridades americanas apontam que Shimada teria lavado mais de 30 milhões de dólares obtidos pelo PCC nos Estados Unidos. Em paralelo à operação desta sexta-feira, a PF conseguiu bloqueio e sequestro judicial de bens ligados ao grupo, avaliados em cerca de R$10 bilhões, O que equivaleria a cerca de US$2 bilhões.

A operação vem no mesmo dia da divulgação de uma pesquisa Atlas Intel que apontou a segurança pública como a questão que mais preocupa os brasileiros. 66,8% da população classifica a criminalidade e o tráfico de drogas como um dos maiores problemas do país. Em seguida, aparece a corrupção e, depois, a economia e a inflação.

?Voz B

Nós procuramos a defesa de Vitor Chamada, que disse que está aguardando ter acesso aos autos da operação antes de tomar qualquer medida. CNN também busca contato com representantes da Stella, que também foi presa hoje. O Espaço Claro segue aberto a manifestações. Max, eu começo com você. Será que nós estamos iniciando, assistindo aí o início de um tempo em que as relações entre Brasil e Estados Unidos na área da segurança e da cooperação de investigação relações vai transitar, vai passar a ser uma relação de conflito e de bate-cabeça entre os países?

?Voz G

E seguramente, Thaís, porque a lógica da cooperação internacional, que é a lógica do direito, a lógica do de como a Polícia Federal se relaciona com outras polícias, com ela, fica subvertida quando há aquela classificação pelo governo central norte-americano, a classificação que faz do PCC e do Comando Vermelho, as facções brasileiras de crime organizado, organizações terroristas. Quando essa classificação ocorre há alguns meses, existe o ingresso dentro da cooperação internacional, dentro da lógica do direito penal e do direito penal internacional, uma forma subvertida de tratar o problema.

Por quê? Sai de cena simplesmente as polícias, que cooperam entre si tradicionalmente, E entra um tipo de conceito para os crimes transnacionais com um certo viés e um olhar mais militarizado e mais próximo dos interesses da segurança norte-americana no sentido geopolítico e não sempre com relação ao que se tem na busca de uma sanção penal. É claro que também se busca sanção penal. A partir dos Estados Unidos. Mas assim, respondendo objetivamente a pergunta que você me fez, sim, pode haver uma escalada e de um aumento de falta de conexão entre as polícias.

?Voz B

Agora, Lourival, é claro, não, obrigada, Max. É óbvio que existe, tem vários outros conceitos aqui embutidos no que tá acontecendo. Tem toda a questão ideológica e essa doutrina de Trump vindo para cima do Brasil. Hoje eu fiquei pensando assim numa hipótese: se Lula e Trump fossem próximos, você veria esse mesmo risco acontecer? Porque o que no final das contas nós estamos falando é: essa relação de conflito, quem vai ganhar é o crime, porque o cara fugiu.

?Voz F

Bom, eu acho que o Lula e o Trump continuam próximos, eu acho que não há um problema na relação entre Lula e Trump. Existem visões diferentes assim entre os dois países e é claro que, como a gente analisou aqui já na quarta-feira, né, foi essa ação unilateral do Trump, ela coloca o Brasil na categoria daqueles países nos quais os Estados Unidos não confiam e consideram que existe infiltração ou captura por parte dos grupos criminosos do sistema de justiça.

É isso que significa agir unilateralmente, como os Estados Unidos agiram nesse esse caso pela primeira vez. Por outro lado, assim, eu lançaria uma pergunta que eu não tenho a resposta, mas por que que esse senhor estava solto? Ele foi detido em janeiro do ano passado, Victor Shimada, teve uma prisão domiciliar decretada por menos de um mês, aparentemente talvez teria ficado com tornozeleira. E agora ele fugiu. Então, quer dizer, o sistema também não foi eficaz aqui no Brasil, na verdade.

Se ele pôde fugir porque ele viu a notícia lá da sanção dos Estados Unidos, então ele não estava sob vigilância. Eu não quero dizer que seja fácil vigiar um criminoso, porque vigilância requer muita gente, muitos agentes. Caro e custoso. É por isso, aliás, que as pessoas são presas, porque se existe uma suspeita que ela pode continuar cometendo crime, e como é muito caro para o Estado vigiar cada pessoa 24 horas por dia, é por isso que as pessoas são detidas, né, de forma preventiva.

Mas não foi decretada prisão preventiva contra esse cidadão. E acho que a pergunta é: Porque, por mais que a sanção americana tenha, digamos, prejudicado a ação do sistema de justiça e tal, por outro lado, o sistema de justiça aparentemente falhou no caso do Brasil.

?Voz B

É, e o Brasil está colecionando alguns casos bastante incômodos de fuga, esse é um deles, os dois agora ex-deputados, né, o Ramagem e a Zambelli, que fugiram também, já condenados, vários outros. Processados e condenados pelos ataques do 8 de janeiro a Brasília, que também conseguiram escapar. Então, a gente está acumulando, Jussara, uma lista de eventos bastante desagradável e que só acaba reforçando a percepção dos brasileiros de que esse é o nosso maior problema.

Mas se a gente tem conflito e bate-cabeça entre a investigação americana e investigação brasileira, temos mais ainda entre as duas campanhas. Onde é que está o constrangimento, por exemplo, do governo Lula em ver isso acontecer hoje?

?Voz E

Olha, Thais, há de modo geral uma percepção, até uma admissão entre integrantes do governo que a segurança pública é difícil conseguir emplacar um discurso. Embora o governo nos últimos anos tenha tentado emplacar algumas medidas, diante do discurso linha dura feita pela direita, e aí isso tudo saindo da boca do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, que é a pessoa que vai confrontar o presidente Lula, fica muito difícil esse discurso.

Então, por mais que o governo tenha, por exemplo, como hoje, o diretor-geral da Polícia Federal dizendo: que essa sanção dos Estados Unidos acabou atrapalhando vem muito no sentido de tentar demonstrar que não há uma inércia da Polícia Federal, das autoridades brasileiras em relação ao crime organizado. Mas há uma admissão de que é muito difícil fazer entender que essas medidas adotadas e anunciadas pelo governo são suficientes.

Para o combate ao crime organizado. E mais, e aí as pesquisas todas mostram isso, como é difícil o governo emplacar o seu discurso, a sua visão sobre o crime organizado, sobre o combate ao crime organizado, e por outro lado, ver Flávio Bolsonaro ganhando força, principalmente depois da classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. As pesquisas apontam que os brasileiros, de modo geral, tendem a apoiar essa medida, embora rejeitem a ação dos Estados Unidos aqui sem uma autorização prévia.

Então, o governo fica tentando mostrar, chamar o eleitorado, o público, de modo geral, dizendo o seguinte: "Olha, essa classificação autoriza essa ação dos Estados Unidos aqui no Brasil sem uma autorização prévia." Eles tentam convencer a população por isso, mas o assunto da segurança pública, o governo sabe que vai sair perdendo nessa disputa eleitoral.

?Voz B

Max, tem um ponto aqui que eu acho que o Lorival levanta, a Jussara traz toda a questão política, que é da credibilidade da Polícia Federal, do risco de haver uma politização da atuação das forças judiciais no Brasil. Hoje já há uma cobrança muito forte por uma articulação, uma mudança na governança da da segurança pública. Onde é que, onde é que você enxerga risco? E onde é que você enxerga alguma chance de, até por essa provocação, surgir alguma consertação que melhore o sistema de investigação no Brasil?

?Voz G

A melhor consertação que poderia ocorrer, mas que está muito longe de um consenso ainda, é a centralização da segurança pública. A proposta que existe no Congresso Nacional de criar um sistema de segurança pública unificado, com as polícias tendo um diálogo mais permanente e mais estável, barrando sempre numa questão histórica, porque as polícias elas têm, são um resquício, resquício não, mas são um reflexo do nosso federalismo.

O poder de polícia de um Estado federado, na verdade, ele tem a ver com a busca da afirmação de um governador de Estado. Então essa é a grande questão. É claro que não é só isso. É claro que há uma necessidade muito maior. O problema é muito complexo e não é somente essa a questão, somente essa implementação desse sistema único de segurança. Que se aventa no Congresso Nacional. Mas passa por isso, passa por isso, e passa também é pela, por uma série de mudanças que precisam ocorrer também no Poder Judiciário.

?Voz B

Rapidamente, Max, só para não deixar aqui, quando essa bola da questão da credibilidade da Polícia Federal, do risco da politização da atuação da Polícia Federal, você percebe esse receio ali na turma que acompanha o sistema de segurança no Brasil?

?Voz G

Com certeza há um receio. A Polícia Federal é um organismo muito qualificado no Brasil. Não se— eu acho que nós não temos como negar essa qualificação da Polícia Federal, seja sobre termos técnicos e até mesmo sobre termos de governança. Porém, é óbvio que a questão política ela permeia todo o Estado brasileiro, inclusive a Polícia Federal, e isso obviamente sempre quem está nos dois espectros políticos, digamos assim, para simplificar a questão, vão reclamar e pode ocorrer.

Infelizmente é assim. É uma política, é uma polícia de Estado, mas muitas vezes deu sinais históricos de ter ocorrido em algum momento uma utilização. Eu não tô falando de um governo específico, mas é óbvio que essa questão é uma questão importante que não pode ser negligenciada.

?Voz B

É claro, não, a gente, todos aqui concordamos com a competência da Polícia Federal, mas sabemos que existe sim esse receio de politização Não tem risco. Lourival, para a gente terminar, está só começando essa investida americana no Brasil?

?Voz F

É, sem dúvida. Acho que isso veio para ficar no governo Trump e isso é uma política do presidente Trump para a América Latina, tem um valor político para ele muito grande demonstrar que ele é o protetor dos americanos, das ameaças externas. Ameaças que existem, que rondam os americanos, sobretudo no que diz respeito ao crime organizado, que foi arbitrariamente retratado como se fosse organização terrorista, em parte para dramatizar a ameaça, mas em parte também para ter mais recursos, mais mecanismos à mão para o combate, sobretudo na área financeira, mas eventualmente também na área da repressão direta pelas forças de segurança.

Então, isso é altamente valioso para ele politicamente e existe aqui um jogo aqui no Brasil, um tipo de disputa política interna em que acaba, em que essa questão acaba favorecendo o grupo que o Donald Trump gostaria de ver eleito em outubro e novembro no Brasil.

?Voz B

Jussara, eu tenho um minutinho, vai sobrar para você esse último minuto, minha querida, só para você trazer um pouco a visão da campanha de Flávio Bolsonaro, se você enxerga aí alguma estratégia de utilização dessa situação agora que os Estados Unidos impõem ao Brasil. Temos um minutinho para você.

?Voz E

Flávio Bolsonaro está comemorando e dizendo que essa sanção é a primeira medida depois da classificação das facções como "mididas", como o Lorival disse, devem vir novas, ele vai usar isso como uma plataforma para sua campanha. Basicamente, vai usar, quer fazer disso um palanque e, claro, trazendo para ele a glória, segundo ele, de ter conseguido essa equiparação das facções como organizações terroristas, Thaís.

?Voz B

Vamos ver como o eleitor vai reagir, né? Como você mesmo chamou a atenção, situação aqui. O eleitor até achou bacana, mas não quer saber da força investigativa americana invadindo o território brasileiro. Max Telesca, jurista especialista em processo civil e direito penal, meu caro, muito obrigada pela sua participação aqui nessa sexta-noite conosco. Um bom fim de semana para você.

?Voz G

Eu que agradeço, uma boa noite para todos.

?Voz B

Jussara também tá dispensada para o fim de semana e para descansar, minha querida. Obrigada pela parceria. Vou manter Lourival Santana aqui Fique comigo, porque daqui a pouco a gente volta tratando dos recados do Irã ao mundo todo no funeral do Ehtolá Khamenei, morto há 4 meses. Ele morreu logo que começaram os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. A gente volta já. Estamos de volta e agora quero dar as boas-vindas ao Sandro Teixeira Moita, historiador, professor de Ciências Militares da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército, a ECM. Boa noite, meu caro, bem-vindo, nosso parceiro aqui constante no WW.

?Voz A

Boa noite, Thaís, boa noite, Lorival, obrigado pelo convite.

?Voz B

A gente é que agradece a sua presença nessa sexta-noite. Venha afogar as mágoas aqui do da derrota do Cabo Verde, como nós. Vamos lá. O Irã começou as cerimônias fúnebres do Ayatollah Ali Khamenei, que morreu há 4 meses, logo no começo dos ataques dos Estados Unidos e de Israel. As procissões do funeral começam amanhã, que é o Dia da Independência americana. O correspondente Américo Martins tem informações.

?Voz I

O funeral do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, vai ser um evento enorme. A procissão e várias homenagens vão acontecer em 5 cidades, inclusive com homenagens em 2 países, tanto Irã, obviamente, como também no Iraque, o país vizinho que tem uma minoria xiita muito expressiva. Tudo está sendo encaminhado para pode ser uma grande mensagem religiosa, mas também política. O Irã quer mostrar ao mundo e à sua região, Oriente Médio, em especial aos Estados Unidos e ao governo de Israel, que o país não perdeu a guerra, embora tenha perdido, claro, o seu líder supremo.

A ideia é transformar o Ali Khamenei num dos maiores mártires do país. Essa ideia do martírio é muito forte no ramo xiita do islamismo. E a ideia que o governo do Irã vai vender é de que o Ali Khamenei morreu, mas o país não perdeu a guerra. E não perdeu porque o regime continua no seu lugar. A ditadura horrível do Irã continua dando as cartas no país. No início desse conflito, tanto Israel como os Estados Unidos falavam em mudança de governo, coisa que não aconteceu, pelo contrário.

No caso do líder supremo, ele foi substituído pelo seu próprio filho, Mortaba Khamenei. A ideia aí era de justamente mostrar continuidade. Pior do que isso, quem dá as cartas de fato no país hoje é a Guarda Revolucionária do Irã, que é a linha dura da ditadura, do regime dos aiatolás no Irã. Um detalhe muito importante vai ser acompanhar se o Mostafa Khamenei vai aparecer em público pela primeira vez durante esses 5 dias de funeral ou se ele vai continuar fora das lentes da imprensa, da opinião pública.

Se ele aparecer, ele vai tentar ganhar mais legitimidade com o seu próprio povo. Já que ele não apareceu em público até hoje, desde que assumiu o poder. E se ele não aparecer, nós vamos ter ainda mais dúvidas sobre quem está de fato no comando inteiro. De Londres, Américo Martins.

?Voz B

Sandro, vamos lá. Não é um desfile militar, mas tem a mesma, o mesmo objetivo de fazer projeção de de poder provar ao mundo que o regime segue forte.

?Voz A

E eu acho que é mais do que isso. Ele passa várias mensagens. A primeira mensagem é para consumo interno, é para passar que o país resistiu, é para pintar ali Khamenei como para fazer uma transição de poder. Afinal, o regime se despede do último arquiteto da Revolução. Vem uma nova geração. A gente, a guerra promoveu essa troca geracional. As figuras que você tem no poder hoje não são figuras que foram arquitetas da revolução como a geração de Khamenei foi.

Então o que a gente observa aqui, Thaís, é que além da mensagem para fora, a gente teve versos do Corão muito bem escolhidos para passar a opinião do regime sobre aqueles países que visitavam: China, Rússia, Arábia Saudita, os próprios representantes do Afeganistão, que houve uma situação curiosa, você tinha elementos da Aliança do Norte, você tinha elementos do Talibã. Então o regime coloca isso talvez como um ato fundacional desse novo momento da República Islâmica.

Agora fica claro que apesar de tudo que nós vimos, a ideia de unidade que se tenta construir com esse enorme rito público, com esse enorme funeral Não é bem assim. A gente vê claramente que a guarda tem um ponto e que outros líderes como Mohammed Bagher Ghalibaf, o Abbas Arashi e outras figuras ali em torno desse grupo estavam junto com o presidente Pezeshkian, não estavam tão conjuntas assim no sentido de projetar uma unidade, que é exatamente o desejo de fazer isso.

E ainda existe a questão em cima do Mostaba, se ele vai aparecer ou não, assim como os outros filhos do Khamenei.

?Voz B

É exatamente sobre Mostaba que eu queria lhe perguntar, Lourival. Se o fato dele não ter aparecido até agora, pode acontecer dele fazer alguma aparição no fim de semana, mas o fato dele não ter aparecido até agora, o quanto isso enfraquece a formação dessa unidade que o Sandro ressalta que ainda não surgiu com a morte, não só a morte do Khamenei, mas de tantos outros líderes que estavam no comando do país?

?Voz F

De um lado, é um traço de fragilidade, as pessoas não poderem ver o líder espiritual, o líder supremo. Informação que temos é que o corpo dele, o rosto ficou muito desfigurado no bombardeio de 8 de fevereiro, que matou o pai dele, matou a mulher dele, matou uma irmã, matou a sobrinha, matou o cunhado, né? E ele teria até ficado inconsciente durante 2 dias e tal. Mas, por outro lado, existe no misticismo xiita a figura do 12º imã, o imã oculto.

Então, dentro da mística xiita também, o fato de haver ali uma figura oculta tem um certo apelo no inconsciente de muitos iranianos de que aquilo é uma figura de uma fonte legítima de poder. A gente sabe, por incrível que pareça, embora seja uma ditadura, Ditadura, o Irã é legalista, ele procura dar uma aparência de legalidade para os seus atos, assim como acontece com a ditadura da Rússia também. E de acordo com a lei iraniana, a Constituição iraniana, o Conselho de Segurança Nacional não pode tomar decisões sem a ratificação do líder supremo.

Portanto, o que integrantes do governo me explicaram é que Se o Conselho de Segurança Nacional tem tomado decisões, como tem, é necessário que o líder supremo esteja ativo. Agora, de fato, o que eu queria chamar a atenção, que o Sandro mencionou, é a presença de representantes da Índia, da Rússia e da China nesses funerais, sendo que da Rússia ninguém menos do que O Medvedev, que foi presidente da Rússia no período em que o Putin teve de ser primeiro-ministro por causa de questão de limite de mandato.

Medvedev é hoje o número 2 do Conselho de Segurança Nacional da Rússia. E o Irã foi instrumental na manutenção da campanha russa contra a Ucrânia por causa dos mísseis Shahed agora fabricados na Rússia. No caso da Índia, que é aliada dos Estados Unidos. No entanto, a Índia não pode prescindir do Irã por razões geográficas. O Paquistão e a China bloqueiam o acesso da Índia ao Afeganistão e à Ásia Central. Então, a Índia usa o porto de Chahabad do Irã, enquanto que a China usa o porto de Gwadar, no Paquistão.

O Irã, e isso é vital para o escoamento dos produtos indianos. Por fim, a China enviou um vice-presidente do seu parlamento e a China também se nutriu muito do petróleo barato iraniano no período todo das sanções e tem no Irã uma ponte, uma cabeça de ponte estratégica para o Golfo Pérsico.

?Voz B

O quanto isso provoca o Israel? Israel, especialmente Israel, Sandro. E é óbvio que esse funeral, de alguma forma, foi combinado ali com Estados Unidos, pelo menos, né, de dizer: olha, a gente vai fazer o funeral, você faz a sua festa de 4 de julho e ninguém se provoca, a gente esquece um do outro por alguns dias, suspende a negociação. Mas Israel que não está participando dessa conversa. Certamente está vendo isso como uma grande provocação.

?Voz A

Talvez uma provocação, talvez buscando brechas, porque a gente tem que lembrar que desde que a guerra começou, nenhum dos funerais que sempre foram públicos foram públicos desde 28 de fevereiro, justamente pelo temor de que oferecessem alvos a Israel para a oportunidade da eliminação de lideranças neste sentido. Então, Thaís, o que a gente vai ver aqui pode ser uma provocação nesse sentido, pode ser. A gente teve a declaração recente do ministro da Defesa israelense, do Israel Katz, dizendo que ele ordenou a preparação de uma operação.

Operação seria chamada Azul e Branco, para demonstrar que Israel poderia fazer a guerra contra o Irã de maneira isolada e independente dos Estados Unidos. Além disso, a gente tem a questão não resolvido do Líbano, que é a confrontação com o Hezbollah, que também enviou representante para, para os funerais de Khamenei. Mas o fato aqui é que a gente vai ver claramente Jair buscando inviabilizar essa celebração de alguma forma, de alguma maneira.

Inclusive, a gente teve recentemente a divulgação de notícias dizendo que Jair tinha interesse em eliminar os principais negociadores iranianos nesse momento, e são ministro das Relações Exteriores, o Abbas Arash, e o presidente do parlamento, que é o Mohammad Bagher Ghalibaf. E aí os americanos teriam avisado os países da região para que passassem mensagem ao Irã para redobrar a segurança desses negociadores. Em vários casos, esses negociadores tiveram escolta internacional, a escolta, por exemplo, de aviões de caça do Paquistão, e por aí vai.

Então já é Provavelmente está procurando uma maneira de manter, de talvez colocar a situação em um grande impasse. E ao mesmo tempo existe na própria liderança iraniana, Thaís, uma percepção de que ela tá sendo de certa forma encaixotada. Então esses funerais também representam encerrar um capítulo para iniciar um outro, porque nesse momento eles percebem que há um espírito dos americanos, isso é uma percepção iraniana, claro, de que os americanos estariam utilizando esse momento do cessafogo para ir diminuindo as capacidades iranianas de negociar.

Então, a questão do Estreito de Hormuz, a questão do programa nuclear, a questão da falta de petróleo no mercado internacional, e por aí vai. Então, existem diversas questões nesse momento, várias ampulhetas dessa crise correndo em velocidades diferentes.

?Voz B

Lourival, para a gente terminar, o papel e o posicionamento de Trump diante disso tudo, ele tá focado lá na festa do 4 De julho, mas certamente continua tendo que tratar do problema do Irã.

?Voz F

E com o objetivo de normalizar a situação. Ele sente que entrou numa grande armadilha, arrastado inclusive pelo primeiro-ministro de Israel, e deseja sair dela.

?Voz B

E foi mesmo uma armadilha, né?

?Voz F

Foi. E deseja sair dela da forma mais honrosa possível. Possível, né? Então, negociou intensamente com os iranianos, fez grandes concessões, e ficaria realmente extremamente irritado com Israel se realizasse essa provocação de atacar durante o funeral. Vão estar figuras que não apareceram publicamente desde o início dos bombardeios em 18 de fevereiro, entre elas, o general Ahmed Wahidi, que se tornou o comandante do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que tem um papel-chave, foi criador, um dos criadores da Força Al-Quds e o primeiro comandante dela, que é a Força Al-Quds, força de elite que treinou o Hezbollah.

Israel tem por hábito bombardear funerais. Eu mesmo presenciei isso no Líbano, na guerra de 2006. Aliás, os funerais, em geral, foram por isso, os corpos foram guardados ali, tiveram de esperar uma trégua, decretação da trégua da guerra para poder enterrar os seus mortos do Hezbollah. Então, existe sim esse risco, mas com certeza os Estados Unidos enviaram um recado bastante contundente, enérgico de que não faça isso, porque isso é contra os interesses dos Estados Unidos e esses bombardeios são feitos com armas americanas.

?Voz B

Sandro Teixeira Moita, historiador, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Meu caro, muito obrigada, liberado para o fim de semana, se preparar para torcer para o Brasil no domingo.

?Voz A

Sem dúvida, Thaís. Muito obrigado pelo convite. Vamos todos nós torcer pelo Brasil aí, pela campanha. Um abraço a você, ao Lorival e a toda a nossa audiência. Um ótimo final de semana.

?Voz B

Obrigada, meu querido. Vamos, Lorival! Vamos, Lorival, com a camisa do Brasil torcer pelo nosso time no domingo, porque tá parecendo que chega o Natal, mas não chega esse jogo. Assim a gente se despede de vocês todos.

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