Episódios de WW – William Waack

Flávio pede a Trump que tarifas não o derrotem na urna

03 de julho de 202654min
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Quando impôs tarifas exorbitantes ao Brasil no ano passado, o presidente dos EUA, Donald Trump, alegou razões sobretudo políticas. Trump queria, com sanções contra o ministro Alexandre de Moraes no Supremo e tarifas comerciais, ajudar a sorte do ex-presidente Jair Bolsonaro. O republicano acabou abandonando Bolsonaro, mas não as tarifas. Ao pedir hoje por carta que o governo americano desista de impor as tais tarifas ao Brasil, na prática, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirma que Trump é burro. Além do âncora da CNN William Waack, participam desta edição Thaís Herédia, analista de Economia, Daniel Rittner, diretor editorial de Brasília, Otavio Calvet, juiz do trabalho e professor, Lourival Sant'Anna, analista de Internacional, José Pimenta, colunista do CNN Money, e Clifford Young, presidente da Ipsos nos EUA.
Participantes neste episódio7
W

William Waack

HostJornalista
C

Clifford Young

ConvidadoPresidente da Ipsos nos EUA
D

Daniel Rittner

ConvidadoDiretor editorial de Brasília
J

José Pimenta

ConvidadoDiretor de comércio internacional
L

Lourival Sant'Anna

ConvidadoAnalista de Internacional
O

Otavio Calvet

ConvidadoJuiz do trabalho e professor
T

Thais Herédia

ConvidadoAnalista de Economia
Assuntos5
  • Tarifas EUA contra BrasilCarta de Flávio Bolsonaro a Trump · Donald Trump · Jair Bolsonaro · Lula · Alexandre de Moraes · Eduardo Bolsonaro · Lei Magnitsky · Paulo Figueiredo
  • PEC da Escala 6x1Senado · Davi Alcolumbre · Tereza Leitão · Otávio Calvet · José Pastore · Confederação Nacional da Indústria · Fiesp · CLT
  • História colonial e luta pela independênciaClifford Young · Donald Trump · George Washington · Abraham Lincoln · Constituição Americana · Sonho Americano
  • Regulação Banco CentralPIX · Banco Central
  • Tarifas dos Estados UnidosInflação · Custo de vida · Dívida pública
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WWWilliam Waack

Moto Casino, America's social casino. Boa noite. Esta é a CNN Brasil, este é o WW. Quando impôs tarifas exorbitantes ao Brasil no ano passado, o presidente Donald Trump alegou razões, sobretudo políticas, além, claro, de adorar tarifas como instrumento para qualquer coisa. Trump queria, com sanções contra Alexandre de Moraes no Supremo, e com tarifas comerciais contra o Brasil, ajudar a sorte de Jair Bolsonaro. Como se sabe, não funcionou.

Trump acabou abandonando Bolsonaro, mas não as tarifas, que continua tentando impor, dando a volta numa decisão contrária a isso pela própria Corte Suprema americana. De quebra, ajudou a popularidade de Lula, com quem passou a se entender pessoalmente. Ao pedir hoje por carta que o governo americano desista de impor as tais tarifas ao Brasil, na prática o senador Flávio Bolsonaro afirma que Trump é burro. E por tabela o próprio irmão Eduardo Bolsonaro, que aplaudiu as tarifas em diversas ocasiões.

Pois, escreveu Flávio em carta ao governo de Washington, desde que as tarifas foram impostas, Lula ficou mais popular. E elas podem até ajudá-lo na campanha eleitoral, prosseguiu Flávio. Sabe-se lá quem entre os acima citados tem menos inteligência política, mas está claro que os irmãos Bolsonaro não entenderam a natureza da aplicação de tarifas por parte do governo americano. Trump parece pouco interessado em ajudar a este ou aquele político estrangeiro.

Ele acha que tarifas servem sobretudo aos próprios interesses dos americanos. E trata aliados ou amigos até pior do que adversários. Era óbvio que o apego dos bolsonaros por Trump iria apenas criar um buraco do ponto de vista eleitoral. Mas continuam cavando. A gente fala também hoje nessa edição do WW da PEC do fim da escala, 6 por 1 no Senado, e dos Estados Unidos nos seus 250 anos 200 anos de independência. Antes, vamos aos participantes da roda nesse momento.

Queria agradecer ao professor e juiz do trabalho Otávio Calvé pela participação aqui no programa. Boa noite, Otávio.

OCOtavio Calvet

Boa noite, eu que agradeço o convite, fica à disposição.

WWWilliam Waack

Daniel Ritner em Brasília, boa noite. Thaís Herédia, querida, aqui ao meu lado no estúdio em São Paulo. A PEC pelo fim da escala 6 por 1 não deve ser votada no plenário do Senado antes do recesso parlamentar de julho. Como pretendia, o governo gostaria que isso fosse até o recesso. Parece que não vai ser. Entidades empresariais têm levado a Brasília uma série de questões e também alertas sobre diversos pontos da proposta. Vamos à reportagem.

?Voz C

Com o início do recesso parlamentar dentro de pouco mais de duas semanas, o calendário de tramitação da PEC que visa acabar com a escala 6 por 1 fica cada vez mais restrito. O recesso começa em 18 de julho e, no dia 20, tem início o período de convenções partidárias para definição dos candidatos que concorrerão nas eleições. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já adiantou a senadores que não deve colocar a PEC para votação antes do recesso.

E uma tramitação em meio ao período de campanha eleitoral é considerada remota. O governo pressiona por celeridade no andamento da pauta, de olho em possíveis frutos eleitorais do avanço de uma proposta popular e ligada à esquerda. Em entrevista à CNN, a líder do governo no Senado, Tereza Leitão, disse não ver a campanha eleitoral impedindo completamente o avanço da PEC.

THThais Herédia

Nós vamos estar em um processo diferenciado, ter semanas de esforço concentrado, como toda eleição tem, ter semanas de trabalho híbrido, semipresencial, mas isso não vai atrapalhar o processo de votação de projetos que são do interesse da população e do povo.

?Voz C

Do outro lado, entidades empresariais têm defendido em debates e reuniões em Brasília que a pauta seja analisada, ao menos, apenas depois do período eleitoral. Nesta sexta-feira, senadores receberam uma carta alertando que a previsão constitucional de um segundo dia de descanso semanal remunerado, como quer a PEC, deve elevar o custo da hora trabalhada aos empregadores em cerca de 10%. A carta é assinada pelo juiz da Justiça do Trabalho, Otávio Calvé, e o presidente do Conselho de Emprego e Relações de Trabalho da Federação do Comércio de São Paulo, José Pastore.

De maneira geral, o mundo prevê apenas um dia de descanso semanal remunerado mínimo via legislação, e um eventual segundo dia de descanso costuma ser definido via negociações coletivas, como em países europeus.

WWWilliam Waack

Otávio, a referida carta é o motivo do nosso convite. Aparentemente, o professor José Pastor e você detectaram algo que, na opinião de vocês dois, e assim foi o motivo de você ter dirigido essa carta a todos os senadores, passou desapercebido. Que, do ponto de vista jurídico, como está sendo feito até aqui, a gente vai impor, o Estado vai impor às empresas privadas um aumento salarial de quase 10%, é isso?

OCOtavio Calvet

É isso, é porque há uma grande confusão entre o que a PEC propõe e o que aconteceu na Constituição de 88, porque lá atrás nós reduzimos a jornada de 48 horas por semana para 44, mas naquele momento não houve o acréscimo de mais um repouso semanal remunerado. Então, em 88, nós simplesmente reduzimos o tempo de trabalho e mantivemos o valor do salário. Ou seja, o empregado permanecia recebendo exatamente o mesmo salário que ele já recebia antes, mas trabalhando um pouco menos.

Então, relativamente, o empregado teve um ganho, mas o empregador não desembolsou mais dinheiro para pagar o salário. A PEC agora é diferente, porque a PEC tem dois elementos. Além de reduzir o tempo de trabalho de 44 para 40, A PEC está criando um novo direito para o trabalhador, ou seja, criando mais um repouso semanal remunerado. Então, a partir da PEC, o empregador vai ter que pagar, além das 40 horas por semana de trabalho, 2 repousos por semana, cada um de 8 horas, ou seja, 16 horas de repouso semanal.

Logo, por semana, ele hoje paga 44 mais 7 horas e 20 minutos, dá 51 horas e 33, 51,33 horas por semana que o empregador paga. E agora com a PEC, ele vai ter que pagar 56 horas por semana. Isso no mês aumenta de 220 horas de trabalho mais repouso para 240 horas de trabalho, mais os 2 repousos que ele remunera.

?Voz G

É isso.

THThais Herédia

William, eu acho que há um esforço muito grande de vários setores, eu acho que o professor e estão aqui fazendo um trabalho quase que acadêmico, de levar o debate, tirar o debate da questão política eleitoral e trazer para a prática objetiva. Não é nem o sindicato das empresas, não é nem as as corporações das empresas, não são os sindicatos dos trabalhadores, é uma leitura da realidade do que vai acontecer. A Confederação Nacional da Indústria tem feito esse alerta, a Fiesp tem feito esse alerta, mas como existe sempre uma leitura de posicionamento político das empresas e de pressão muito forte sobre o Congresso Nacional, é como se o setor privado estivesse exagerando ou tivesse impondo ali resistência porque querem o mal para o trabalhador.

E a gente fica aqui fazendo esse debate dizendo que há soluções que não aceitam mágica. Essa é uma delas. Se a PEC for aprovada do jeito que ela está, ela vai provocar aumento de preços. A Confederação Nacional da Indústria acabou de revelar que a maioria das empresas está dizendo: nós vamos repassar esse custo para os preços, porque ainda mais em setores onde a margem é muito espremida, não tem como escapar desse repasse. Então, desde o começo, desde as primeiras análises, que a gente vem chamando atenção aqui para o risco inflacionário da PEC.

Nós tratamos aqui que a produtividade não vai responder, que você vai criar um limbo jurídico, que você vai criar uma judicialização. Então, essa é mais uma consequência, mas o Congresso Nacional e o governo me parecem surdos para esses alertas.

WWWilliam Waack

E cegos pelo que o pastor e o Otávio estão escrevendo nessa carta. Mas eu queria, antes de fazer a próxima pergunta, passar a palavra ao Daniel.

DRDaniel Rittner

William, se me permite só um diagnóstico político. É extremamente curioso como tem se comportado o Senado e a relação de Davi Alcolumbre com Lula neste momento. Na cabeça de Davi Alcolumbre, a Polícia Federal É relativamente capturada pelo governo e é preciso lembrar que está investigando a Mapa Previdência, onde Davi Alcolumbre tem indicados e a Mapa Previdência fez investimentos tremendamente duvidosos em fundos do Master com dinheiro dos aposentados.

Muito bem, Davi Alcolumbre já sinalizou que quer uma reaproximação com Lula, não se pede, um presidente do Senado não pede uma audiência com o presidente da República, mas mandou sinais. De quer se encontrar. E até agora ele recebeu como resposta sinais também do Palácio do Planalto de que Lula não quer se encontrar com ele, deixa essa conversa para aliados. E aí, um instrumento ativo que Davi Alcolumbre tem para colocar na mesa e jogar politicamente é a PEC dos 6 por 1, mas é o Projeto de Lei de Minerais Críticos, é a PEC da Segurança Pública, é o Redata, que pode atrair data centers, são cargos, indicações para agências reguladoras, CAD, Agência Nacional de Águas, é muita coisa.

E, por outro lado, o governo percebe que, mesmo se a PEC não for votada, já se transformou numa bandeira política para as eleições de posse dele, de Lula. Então, ser votado, no final das contas, é óbvio que é muito importante, mas a bandeira política já está colocada.

WWWilliam Waack

Otávio, você e o professor Pastore estão apontando um erro tão crasso. Que a gente fica meio incrédulo. Não foram capazes de ler a estrutura jurídica da PEC tal como ela está? E aí vocês chegam à seguinte conclusão final, eu estou citando: "A elevação compulsória dessa magnitude, pelos cálculos que vocês fazem, somando os mecanismos que você já descreveu para o público, Otávio, levaria a um aumento imposto aos empregadores, de 20%, se prosseguir como está.

Isso, na opinião de vocês, configura intervenção estatal na formação dos salários privados, portanto incompatível com livre iniciativa. Vai judicializar no Supremo?

OCOtavio Calvet

Isso. O problema é que quando a gente junta matemática com jurídico, o resultado nem sempre é aquilo que a gente esperava. Esses mecanismos que vão gerar esse custo adicional de quase 20%, ele representa primeiro o custo de cerca de 9,1% pela perda de tempo de trabalho, de 44 para 40 horas. E o segundo custo justamente pelo acréscimo desse novo repouso semanal remunerado, que é também de 9,1%. Então somando os dois a gente vai ter ali uma média de 18,2% por conta da arquitetura jurídica por trás da PEC.

Porque a PEC, ela tem um artigo que impede qualquer redução salarial, seja nominal, o valor final do salário, seja proporcional. Então eu não posso baixar o salário hora que o empregado recebe hoje. Então se hoje ele recebe R$10 por hora para 220 horas por mês que o empregador paga, horas de trabalho mais horas de repouso, ele com o mesmo salário hora agora vai ter que aumentar para R$1.400. Então, a arquitetura jurídica é que impede.

Eu não posso reduzir o salário-hora, e eu tenho lei que manda que eu pague as horas de trabalho mais as horas de repouso. A Lei 605/49, que fala do repouso semanal remunerado, que diz que cada repouso corresponde a um dia de trabalho, com a pé que esse dia de trabalho passa a ser de 8 horas e não hoje 7 horas e 20 minutos, que é a média, né? Então aumenta o valor do dia de trabalho. E eu tenho a forma de calcular o salário mensal que tá no artigo 64 da CLT, que manda eu apurar o salário mensal pelo valor de um dia multiplicado por 30.

Então hoje é 7,33 multiplicado por 30, agora vai ser 8 horas multiplicado por 30. E essa forma de interpretar o artigo 64 da CLT já tá pacificada pelo Tribunal Superior do Trabalho em dois precedentes vinculantes. De número 2 e de número 260. Então a Justiça do Trabalho não tem nem como julgar diferente. Se entrar uma ação depois da PEC pedindo o pagamento desse aumento de repouso de 9,1%, os juízes não vão ter como julgar diferente.

Por isso que a arquitetura jurídica encontra a arquitetura política da PEC e acaba dando esse resultado que talvez não fosse esperado. Eu imagino até pela fala do Ministro do Trabalho, Ministro Marinho, que não era vontade inicial da PEC. A vontade inicial era fazer como em 88, reduzir tempo de trabalho sem mexer em salário. Mas o que o pessoal esqueceu é que a PEC não faz só redução de trabalho, como eu disse, ela reduz trabalho e aumenta mais um direito trabalhista, que é mais um repouso semanal remunerado. Por isso que a remuneração Cresce.

WWWilliam Waack

Só um segundo, Taís, se me permite. O grande erro então está em colocar na Constituição a redução da escala, não da jornada? Isso.

OCOtavio Calvet

O grande erro está mexer em escala, de 6 para 1 para 5 para 2. Esse é o primeiro erro. O segundo erro é dizer que esse segundo dia é também repouso semanal remunerado, tem que ser pago a mais. Porque se eu tivesse reduzindo escala de 6 para 1 para 5 para 2, mas o sábado, né, o segundo dia não fosse remunerado, eu não teria esse efeito de aumento de 9,1% do salário. Então, se eu reduzisse escala para 5 para 2 sem remuneração do segundo repouso, eu teria só o impacto da perda de tempo de trabalho à disposição.

E o terceiro erro é a PEC dizer expressamente que não pode reduzir salário de forma proporcional. Ou seja, não posso abaixar o salário para pegar o salário hoje, que eu pago hoje, para já remunerar o trabalho mais os 2 repousos. Eu não posso fazer isso. Então são 3 pontos na PEC que impedem que eu, após a aprovação dessa PEC, eu mantenho o mesmo salário para pagar o meu empregado 40 horas de trabalho por semana e 2 de repouso. Não vai poder fazer isso porque juridicamente isso não vai ser viável.

WWWilliam Waack

Desculpa a interrupção, o Daniel também está pedindo a palavra.

THThais Herédia

Fica óbvio, Otávio, pelo que vocês descrevem, que não houve nenhuma leitura mais cuidadosa da construção da PEC. Não é que o Congresso Nacional ou mesmo o governo não tenham competência e capacidade técnica para fazer essa leitura. Sempre passa uma coisa ou outra, mas não um negócio tão grosseiro quanto esse que vocês descrevem. Eu só quero colocar aqui em que realidade que essa PEC vai chegar, e tudo indica que vai chegar. Hoje o Brasil vive uma falta de mão de obra em vários setores.

Antigamente a gente reclamava muito, William, e apontava muito a falta de mão de obra em setores específicos, especialmente aqueles com uma demanda mais qualificada, setor de tecnologia, por exemplo, no Brasil, de TI.

WWWilliam Waack

Sempre foi a queixa.

THThais Herédia

Sempre foi a grande queixa. Hoje, os setores de baixa qualificação estão sofrendo apagões de mão de obra, setor da construção, varejo. Então, assim, já há uma dificuldade. E o que está, de alguma forma, repondo essa falta de mão de obra é salário. Então, a economia cresce através dos salários e não da produtividade. E segundo, diante de um quadro de uma elevação muito forte da rotatividade dos trabalhos. No caso do varejo, já chega a 90%, a gente já tratou desse tema aqui.

Mas na economia total, já passa de 50%, ou seja, o quadro já é de uma situação aguda. Imagina quando a PEC chegar.

WWWilliam Waack

Daniel, e daí a gente encerra.

DRDaniel Rittner

Complemento a Thaís com esse quadro que ela descreveu tão bem. Ontem eu tive a oportunidade de conversar com o alto executivo de uma companhia aérea, que me descreveu o seguinte: o drama de você constitucionalizar, tratar todos os setores como iguais, É ignorar o caso da aviação, por exemplo. Se você tem uma rota ali para o Oriente Médio, em que você passa mais de metade de um dia voando, além do tempo de deslocamento da casa dos tripulantes até o aeroporto, você gasta aí praticamente um dia.

Eles chegam no destino, repousam, mas esse é um descanso que não conta como uma folga, isso é parte do trabalho. Param ali 1, 2 dias e precisam tomar o mesmo caminho de volta. Isso para escala de qualquer companhia aérea pode ser matador.

WWWilliam Waack

Queria agradecer ao professor de Juízo do Trabalho Otávio Calvé a participação aqui no WW. Obrigado, boa noite, Otávio.

OCOtavio Calvet

Eu que agradeço, obrigado.

WWWilliam Waack

Daniel, Thaís, a gente continua juntos. Temos dois assuntos depois do intervalo: as negociações para o tarifácio E como chegam os Estados Unidos agora à festa dos 250 anos da independência. Até já. Estamos voltando do intervalo da WW. Conosco agora na edição o José Pimenta, colunista do CNN Money, sócio da IBMJ Consultoria. Pesquisador do INSPEAGLO Global, José Pimenta, obrigado por estar conosco, boa noite.

JPJosé Pimenta

Boa noite, William, boa noite a todos.

WWWilliam Waack

E o nosso Lorival Santana, boa noite, Lorival.

LSLourival Sant'Anna

Viu, José Pimenta, que a primeira credencial é colunista da CNN Brasil, depois vem a nossa.

THThais Herédia

Muito legal, né? O resto a gente lê por obrigação.

WWWilliam Waack

A gente valoriza a prata da casa.

THThais Herédia

Trabalho do Daniel Hitner aqui.

JPJosé Pimenta

Muito feliz, muito feliz, gente.

WWWilliam Waack

Bom, vamos lá. O senador pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro enviou uma carta ao governo americano contra a imposição de novas tarifas ao Brasil. O argumento, de acordo com o texto, é de que os benefícios eleitorais para o presidente Lula seriam grandes em função da imposição de tarifas. Essa manifestação do senador vem na reta final das negociações. Exatamente para evitar a imposição de tarifácios. Reportagem de Luciana Amaral.

?Voz B

O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias, teve a 4ª reunião de alto nível com um representante de comércio dos Estados Unidos, Jameson Greer, nesta quinta-feira. Um novo encontro deve acontecer antes de 15 de julho, quando uma decisão sobre supostas práticas desleais por parte do Brasil deve ser tomada pelos americanos, com a ameaça de tarifas de 25% sobre parte dos produtos nacionais. O Brasil já apresentou medidas para atender em parte as queixas dos Estados Unidos.

Entre elas, a redução de tarifas de importação em setores como máquinas, equipamentos de saúde e tecnologia da informação. Pelas regras da OMC, esse benefício não pode ser exclusivo para os americanos. Portanto, teria que se estender a outros países, mas as empresas dos Estados Unidos estariam entre as principais contempladas. No entanto, o PIX continua fora de negociação e é considerado intocável. Enquanto busca avançar pela via diplomática, o presidente Lula trata a família Bolsonaro como traidora da pátria e entreguista.

Nesta quinta, pelas redes sociais, Ele subiu o tom e disse que o Brasil não está à venda. Adversário do petista ao Planalto, o senador Flávio Bolsonaro tenta se afastar dessa imagem. Em carta aos Estados Unidos, ele alega que manter a taxação representaria uma vitória política a Lula. Na próxima terça pela manhã, Flávio participa de audiência em Washington sobre o tema. No dia anterior, será a vez de Paulo Figueiredo, seu aliado próximo, que pede a aplicação da Lei Magnitsky contra os ministros do Supremo Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, no lugar do Tarifaço.

Para o Planalto, as posturas reforçam a percepção de que a crise tem origem em uma articulação dos irmãos Bolsonaro junto ao governo Trump. Agora, a negociação comercial caminha em paralelo à disputa de narrativas, cada vez mais voltadas ao público interno, de olho nas eleições de outubro. Outubro. Nos bastidores, a avaliação é que o desfecho do impasse pode depender menos dos argumentos técnicos e mais do cenário político. Por isso, há quem aposte que a relação tarifária entre Brasil e Estados Unidos só ganhe contornos definitivos depois das urnas, a depender de quem sair vencedor.

WWWilliam Waack

Vou focar inicialmente, Zé Pimenta, na questão das negociações sobre o tarifácio mesmo. Que chances a gente tem de escapar?

JPJosé Pimenta

William, acho que a gente tem que analisar de duas formas aqui. A primeira questão dos 25% de tarifa, que de maneira geral, né, diz respeito a esses 6 pontos-chave que estão expostos desde o início da investigação e com os quais os atores principais aí, governo brasileiro, próprio senador Flávio Bolsonaro, entre outros também, colocaram seus pontos. Acho que esse é o primeiro ponto dos 25%. Quanto a isso, Estados Unidos já vem galgando esse aumento tarifário, não é de hoje, né?

Ele já vem implementando esse aumento tarifário lá atrás. Cairam com a IEPA, isso, saíram de uma tarifa média de 2%, atingiram 22% com emergência nacional. Você vai se lembrar bem, a gente falou bastante sobre isso. Depois caiu IEPA, veio 122, com a seção 122 está 10%. Então, que os Estados Unidos querem aumentar a tarifa, e não só para o Brasil, mas para vários países, isso é uma realidade, né? Vai depender muito de como os países vão negociar com os americanos.

Agora você tem um outro ponto, que é a lista de exceção. Estados Unidos tem uma visão muito pragmática, muito específica sobre produtos que são essenciais para eles, e que podem entrar não só em relação ao Brasil, mas com outros países também, listas de exceção. E aí é fundamental, obviamente, os setores estão trabalhando para isso, fazendo suas manifestações, vão estar lá para obviamente ter os seus produtos incluídos. Então, escapar nesse sentido são duas coisas: primeira, os setores fazerem um bom trabalho, estão fazendo, e mostrarem para o governo americano que sobretaxar produtos específicos podem causar ruídos, problemas, sobretudo para população norte-americana. Esse é um ponto. Quanto aos 25%, é uma negociação intergovernamental, William.

WWWilliam Waack

O Zé Pimenta, Lourenço, está dizendo lá, dentro da linguagem, já que ele está dentro disso, está indo para Washington amanhã participar disso inclusive, ele está dizendo o seguinte: manifestação é, digamos, o que cada parte interessada vem e diz nessa audiência. É como manifestação que o Flávio Bolsonaro entregou essa carta. Dentro dessa investigação, a carta dele em inglês. Que chance a gente tem? De que ele consiga o que pretende?

LSLourival Sant'Anna

Acho que há uma confusão que ele faz com relação aos objetivos dessas tarifas. O objetivo dessas tarifas é mudar uma assimetria que os Estados Unidos veem na relação comercial com o Brasil, que os Estados Unidos chamam de práticas comerciais injustas, desiguais. Então, por causa das altas tarifas que o Brasil impõe e também de uma série de medidas anti-dumping, uma série de proteções tarifárias e não tarifárias, sem as quais os Estados Unidos poderiam exportar mais ainda do que já exportam para o Brasil.

Essa é a visão americana. Essas tarifas que estão em discussão não têm nenhuma ligação com o fato de o presidente Lula ter mais chances ou menos chances de se eleger. Não é isso que está na cabeça do USTR, que é um departamento bastante técnico do governo americano. Essas não são tarifas do Trump, essas são tarifas do USTR, a partir de uma política do Trump, de um mandato do Trump para melhorar a situação comercial dos Estados Unidos para reduzir o seu déficit global.

Então, mesmo que com o Brasil ele tenha superávit, ele quer reduzir o seu déficit global exportando mais para o Brasil e para muitos outros países, independente de ter déficit ou não. E há também um deslocamento do eixo gravitacional da questão, porque você reivindicar que as tarifas só venham depois da eleição, você está trazendo um casuísmo político. É um argumento que diz: "Faça isso por mim, pessoalmente", e que tira do escopo a questão dos interesses nacionais.

No caso, tanto dos interesses nacionais americanos quanto brasileiros. É como se a eleição de Flávio Bolsonaro fosse mais importante do que a relação comercial bilateral. E isso é algo, é uma distorção muito grande de conceitos e de escopo.

WWWilliam Waack

É isso.

THThais Herédia

É muito interessante assistir a essa cena, essa tentativa do Flávio Bolsonaro de sair dessa história, porque ele está confessando publicamente, nessa carta é uma confissão pública de que o tarifácio é ruim para ele, mas de que toda a política, Toda a propaganda, o Eduardo, o blogueiro Paulo Figueiredo, desde o ano passado, tudo que eles fizeram, todo o posicionamento deles, hoje é um grande veneno que o Flávio vai ter que lidar, porque como a gente brinca, o print é eterno e a quantidade de declarações do Eduardo Bolsonaro no ano passado dizendo: "Ah, está vendo?

Tem que tarifar mesmo, porque assim vota", e no ano passado, que aí sim foi uma tarifa com um fundamento muito mais político, né, Lorival? Foi uma coisa específica para o Brasil, a carta de julho, exato, dia 9 de julho, foi um daqueles dias que a gente não esquece das histórias do Brasil. Aquele era um momento em que estava muito ligado ao Bolsonaro. Agora é diferente. Então, o Flávio está fazendo é criar peça de campanha para ele mesmo, sem nenhuma efetividade.

No fundo, eles devem entender que o governo americano não vai mais dar bola para eles. Eles dão essa última cartada de dizer: "Olha, mas se você insistir nisso, você vai estar apoiando Lula". Quem sabe lá na frente a gente vai chegar a ouvir o Flávio Bolsonaro dizer assim: "Eu falei para o Trump que ele ia apoiar o Lula e ele resolveu apoiar o Lula".

WWWilliam Waack

Daniel.

DRDaniel Rittner

William, queria trazer um bastidor curioso aqui que demonstra— é fato, é forte a gente dizer isso, mas a tremenda ignorância com que boa parte dos negociadores americanos têm discutido a questão comercial com o Brasil. Há poucos dias as negociações têm sido tratadas com imenso sigilo, mas o que a gente apurou é que numa reunião com a presença do Jameson Greer, que é o chefe do USTR, uma reunião virtual, Os brasileiros perguntaram: "Bom, o que vocês querem?

Me deem aqui um exemplo." E os americanos pediram: "Nós queremos tarifas mais baixas para motor vehicles, veículos automotores." E o Brasil perguntou: "Bom, que tipo de veículo automotor? É elétrico? É a combustão? É utilitário? É carro de passageiros? É tração simples? É 4x4?" "Não, queremos para veículos automotores." Disse o seguinte: "Olha, se a gente baixar entrar aqui e as tarifas brasileiras são altíssimas, 35%, são entre as mais altas do mundo para veículos automotores, se a gente baixar, quem vai entrar aqui não é carro fabricado nos Estados Unidos, quem vai entrar aqui são mais carros fabricados pela China, que já tem invadido o mercado brasileiro.

E aí o seu chefe, Donald Trump, vai reclamar que nós estamos importando mais da China e não dos Estados Unidos. Então, os Estados Unidos nessa reunião, Jameson Green disse: "Não, mas podia baixar." especificamente para carros americanos. E isso, bom, para começo de conversa, é a regra número 1 da OMC. Você não pode fazer uma concessão para um país especificamente. Você baixou para um, tem que baixar para todos. E segundo, que o Brasil explicou: olha, aqui tem um sistema judiciário independente.

Se a gente ainda, numa concessão, rompendo com as regras da OMC, baixasse as tarifas só para carros americanos, no dia seguinte um importador brasileiro e entrar com um pedido de liminar e provavelmente a conseguir sim, estendendo essa concessão para carros de quem? Da China. Então, ou existe um diálogo de surdos ou os Estados Unidos, nos seus negociadores, tentam aplicar para o Brasil soluções que podem funcionar em outras partes do mundo.

Mas é um desconhecimento, no fundo, das regras econômicas, políticas e do judiciário dos seus parceiros comerciais.

WWWilliam Waack

Beto, a gente está vendo o quanto que a atmosfera política contamina, não sei se é a palavra correta, o que a gente poderia qualificar como negociações técnicas. Nos 6 itens que você mencionou na sua primeira resposta, que estão sob investigação da 301 e a respeito dos quais haverá as manifestações, tem coisa velha. O etanol, por exemplo, isso é velho de 20 anos, é uma discussão que nunca se encerra, que continua ali. Mas tem coisa muito nova, como as plataformas digitais.

Nas quais o governo americano tem um interesse direto, inclusive ideológico. Em que medida essas negociações estão caminhando? Não sei se você consegue, se a gente consegue separar do contexto político.

JPJosé Pimenta

Muito difícil hoje, William, muito difícil separar do contexto político. A gente sabe que qualquer, isso é notório nos Estados Unidos, Quando você teve aquela guinada, né, do Lula em relação ao aumento de popularidade por conta de um discurso específico ali de soberania e tudo mais, no ano passado, você teve um aumento concreto e obviamente que isso foi reverberado nas pesquisas e chegou, claro, né, lá em diversas partes do mundo.

Então, e onde o Trump de alguma forma apoia, né, e coloca algum tipo de ponto específico de atuação determinado país, ele mexe com questão ali de quem é o apoiado e da oposição. Então é difícil hoje, há poucos meses de uma eleição, dizer que qualquer coisa que vier para cá, né, vai de fato ou para um lado ou para o outro. Mas o ponto é, o discurso, a narrativa vai ser utilizada tanto pela situação, pela oposição. Acho que o mais problemático nisso tudo é o efeito para o setor produtivo, para as cadeias produtivas que foram construídas ao longo dos últimos 40 anos.

Eu acho que isso é um ponto importante a ser salientado, William. A despeito da questão política que tá presente, como você mesmo falou, setores que vierem enfrentar uma tarifa, né, de 25% aí, tem uma outra 301 também mais ampla, pode chegar mais de 30%, mas vamos falar dessa especificamente, vão ter problemas para exportar para os Estados Unidos. E lá também americanos, consumidores americanos vão sofrer esse repasse de uma inflação que hoje já é forte nos Estados Unidos para alguns setores, né?

Então estamos falando de vários setores: café solúvel, madeira, móveis, máquinas, equipamentos. Enfim, são cadeias que foram construídas e alimentam diariamente o setor produtivo business to business que chega ao consumidor norte-americano. Então, a despeito da questão política, o que é mais danoso aí para a gente que vive o comércio internacional do dia a dia São essas cadeias de alto nível que foram complementarmente construídas e que agora, né, podem sofrer um revés extenso aí.

THThais Herédia

William, posso só complementar com uma informação aqui? Mais cedo conversei com alguns dos negociadores, advogados brasileiros que estão atuando nos casos, e tem uma leve expectativa de que com tantas argumentações como essa, por exemplo, que o José Pimenta acabou de trazer, mas tantas outras, eles consigam baixar de 25% para 20%, mas ainda assim, 20% é uma violência contra o negócio e o comércio exterior brasileiro.

WWWilliam Waack

Então, nós estamos falando dos argumentos que a gente leva a essa investigação, as tais manifestações entre as quais se a gente incluir a carta, a referida carta assinada pelo Flávio Bolsonaro. Com o timbre do gabinete dele no Senado brasileiro. Tem 80 páginas essa carta, em boa medida pelos anexos que são apresentados, porque afinal de contas se supõe que ele é uma parte interessada, ele traz o que ele acha e justifica o que ele acha.

Um dos anexos mais longos se compõe apenas de declarações do Lula a favor da China. Existe um empenho muito grande nessa carta em provar ao governo americano Que Lula é um, digamos, eu ia quase falar, não, não vou falar a palavra, um agente chinês do ponto de vista do Trump. Que o Lula se empenha apenas em favorecer a China, de todas as maneiras, seja na guerra do Irã, seja facilitando investimentos chineses, seja querendo tirar o dólar como moeda de referência nas transações. Relações internacionais e por aí vai. Que chance isso tem de convencer o SCR?

LSLourival Sant'Anna

Pois é, eu acho que de novo é um deslocamento assim do foco da discussão. Uma fonte aqui, por exemplo, deve estar nos assistindo e perguntou: então por que que a tarifa contra os Estados Unidos para Argentina é de 10% e contra o Brasil é de 25%? Ora, porque o Brasil tem uma série de produtos que ele concorre com os produtos americanos e que ele protege nessa relação bilateral, exemplo mais conhecido é o etanol. Mas existe uma série de produtos em que aqui há uma proteção e que machuca muito mais os interesses americanos do que, por exemplo, acontece na Argentina, embora ambos estejam no Mercosul e tenham a mesma tarifa externa.

Você tentar argumentar que existe aqui um uso político das tarifas contra o governo Lula é uma forma de não exigir do governo brasileiro que ele negocie efetivamente. Então, o governo brasileiro está tentando dar a impressão de que está oferecendo concessões mais não está endereçando alguns dos irritantes mais importantes na relação, por exemplo, o etanol. E por que não faz isso? Por questões políticas, por causa do lobby, sobretudo do Nordeste, desse setor.

E existem muitos outros exemplos na área dos insumos para a indústria do plástico, enfim, nos próprios automóveis que o Daniel citou. Então, o governo brasileiro quer dar a impressão de que o problema é um problema político. E aparentemente o Flávio Bolsonaro também quer trazer isso para a discussão política. Que bom para os setores protegidos do Brasil. Nós não vamos discutir a substância dos irritantes do ponto de vista americano nas relações com o Brasil.

O próprio PIX, por exemplo, não é que os Estados Unidos queiram que o Brasil deixe não é uma questão somente de ter o PIX, fecha o PIX, é uma questão de quem controla o PIX, porque o Banco Central ao mesmo tempo controla o PIX e regula o mercado. Então, eles consideram que há um conflito de interesse. Se houvesse uma agência independente que cuidasse disso, para eles estaria resolvida a questão. Mas existe uma série de confusões no debate brasileiro que favorece aqueles que há décadas e décadas se beneficiam do protecionismo podem se manter ineficientes porque nós somos cativos deles, somos prisioneiros desses setores industriais, sobretudo, e de outros setores também que são protegidos.

WWWilliam Waack

Daniel, eu tenho um minutinho para encerrar com você. O que o Lorival está dizendo é: o que é de substância está completamente fora do debate em função da espuma política. Agora, o governo brasileiro imediatamente vai enxergar o jogo que aconteceu hoje como oportunidade, do ponto de vista político-eleitoral, bem entendido?

DRDaniel Rittner

William, a defesa da soberania é para o PT e para o governo um mote eleitoral que foi em 2022 a defesa da democracia, sem entrar em juízo de valor, sem entrar no mérito. E obviamente que aplicação de tarifas ou qualquer posicionamento Quando o Departamento de Estado manda uma carta para o Brasil propondo um acordo para minerais críticos, como nós noticiamos hoje, chamando o Brasil de "País X" ou de Equador, que é o que constava de um documento oficial, isso é imediatamente reverberado no governo brasileiro como: "Olha, precisamos defender aqui a soberania".

Isso é óbvio que tem um fundo ali de defesa do interesse nacional, conforme a visão desenvolvimentista, separatista, como quer que se queira chamar, mas tem um ingrediente político de instrumentalização dessa briga e de colocação de defesa da soberania como mote da campanha de 2026, como foi defesa da democracia em 2022.

WWWilliam Waack

Pessoal, estou encerrando esse segmento do programa. Queria agradecer a você, José Pimenta, colunista do CNN Money, sócio da IBMJ Consultoria e também pesquisador do Insperago Global, pela pela participação. Boa viagem para Washington, boa noite.

JPJosé Pimenta

Obrigado, William, um grande abraço a todos e até a próxima.

WWWilliam Waack

Me despeço também dos meus colegas Daniel Ritter em Brasília, Thaís Heredia querida aqui ao meu lado, Lourival, continuamos juntos. A gente vai agora, logo depois, na sequência, tratar da festa nos Estados Unidos dos 250 anos de independência. Há transformações enormes em todos os setores se possa imaginar. Confira.

?Voz G

Em todo o país, o ritmo é de finalização dos preparativos para a festa de 4 de julho. Em Washington, as comemorações contarão com o show pirotécnico que pode ser o maior da história, com duração de 40 minutos. E alguns americanos estão empolgados com a data. Outros enxergam o momento como controverso. Aos poucos, essa divisão se molda no pensamento do país. Segundo pesquisa da Ipsos, 57% dos americanos sentem que estão se separando como nação frente a uma série de problemas. 40% dizem que se sentem divididos mas que algo ainda os une.

E a Casa Branca parece pesar como fator de discórdia. Trump aproveita as comemorações para imprimir a sua cara nos eventos. Visando a comemoração da data, fez passaportes, banners e tentou criar uma nota de US$250 com o próprio retrato. Ao mesmo tempo, se vê envolvido em uma nova polêmica, dessa vez sobre a sua situação financeira. O presidente lucrou mais de US$1 bilhão no ano passado, o Brasil com uma memecoin, ativos de risco extremo que se valorizam rapidamente e logo perdem valor.

Trump também testa barreiras constitucionais e avança contra órgãos independentes. Foram diversas tentativas de interferir em instituições como o Federal Reserve e forçar mudanças no sistema eleitoral. No comércio exterior, se afastou do liberalismo pela guerra tarifária, abandonou o multilateralismo e impôs a força do seu exército contra líderes e países. Ordenou operações militares na América Latina e ataques no Oriente Médio, em atrito com aliados ocidentais históricos e apesar das consequências políticas e econômicas.

A guerra do Irã e as tarifas comerciais pressionaram a inflação e o custo de vida dos americanos. O maior mercado consumidor do mundo, que redesenhou a ordem financeira pós-Segunda Guerra, enfrenta hoje um cenário fiscal complexo, como a dívida pública, que caminha lentamente para um patamar perigoso. Por maiores que sejam a divisão política e os desafios econômicos, os americanos mantêm esperança de que as ideias dos fundadores do país sigam em frente.

WWWilliam Waack

A gente tá agora, temos grande prazer, tá ao vivo conosco lá de Washington, remoto, né? Ao vivo, ao vivo tá sim, mas remoto. Clifford Young, presidente do Instituto Ypsilanti, Clifford Jesus, remoto lá de Washington, professor da Bush School no Texas A&M University. Cliff, sempre um grande prazer tê-lo aqui no programa. Vocês estão fazendo uma série de levantamentos exatamente com essa, digamos, perspectiva. Como é que as várias gerações de americanos estão se sentindo diante de uma data, está certo, é uma efeméride, todo ano tem esse aniversário.

Mas quando ele é redondo assim, chama a nossa atenção. Como é que eles estão se sentindo diante de uma data de 250 anos da independência?

?Voz A

Então, ao longo desse ano, a gente na Ipsos, a gente fez uma série de pesquisas para entender menos a política atual, o cenário atual, entender muito mais o que os americanos acham sobre a América, sobre ser um americano, assim, ter um raio-X melhor. Eu falaria o seguinte: por um lado, há muito consenso, ou seja, mesmo enfrentando um cenário político difícil, dividido nesse momento, complicado, com um executivo que está desafiando instituições enormes assim, os americanos têm muito em comum a respeito do que eles acham sobre os Estados Unidos.

Então você pega, por exemplo, o sonho americano, que é o grande sistema de crença que organiza nosso país, que significa o quê? Que meus filhos vão ter uma vida melhor do que eu. Essa grande esperança, esperança americana de várias gerações, de vários séculos assim. O que a gente acha nas pesquisas é que esse valor, essa crença está enraizada. Mas há desafios a isso. Ou seja, você tem diferenças entre as gerações a respeito do contrato social.

Ou seja, sim, o sonho americano é importante, mas como eu vou chegar lá? Os jovens sendo mais críticos do que os mais velhos. Acreditando nos símbolos principais, tipo George Washington, nosso primeiro presidente, ou Abraham Lincoln, nosso presidente da Guerra Civil. Grande maioria dos americanos enxerga a importância Figuras, os mais velhos atem mais e os jovens menos. Ou seja, há consenso por um lado sobre o que os Estados Unidos é, obviamente há críticas assim, mas também há diferenças entre as gerações, onde nós temos americanos mais jovens realmente duvidando sobre aqueles os símbolos principais de nosso país.

WWWilliam Waack

D'Olivo.

LSLourival Sant'Anna

Eu acho que uma coisa que sempre os americanos estiveram de acordo é que os Estados Unidos eram também uma ideia, não só um país, mas uma ideia, uma mensagem. Isso muito relacionado com a independência americana. A Constituição americana, a defesa da democracia, e havia consensos a respeito disso, e as divisões entre os americanos eram mais a respeito de como lidar com a economia, se deveria ter mais atuação do Estado, menos atuação do Estado, aquelas discussões clássicas a respeito do papel do Estado.

Mas hoje eu acho que existe uma novidade, assim, existem discordâncias profundas a respeito da própria democracia, do funcionamento da democracia, do papel do presidente, dos freios e contrapesos, que eles chamam de checks and balances, e com relação à imprensa, à justiça, Ao Congresso. Acho que hoje existem tantas divisões e tão profundas entre os americanos que a ideia de um bem comum, de um projeto comum de nação e de uma mensagem comum está muito enfraquecida.

WWWilliam Waack

Agora, Cliff, tem dois aspectos que são contraditórios. Eu queria ver se você consegue nos ajudar a navegar, contraditórios em relação aos Aos achados dos levantamentos que vocês fizeram. Eu estou consultando aqui o próprio levantamento que vocês fizeram. Reiterando o que você disse na sua primeira resposta, como um todo, as várias gerações de americanos neste momento, 250 anos da independência deles, estão de acordo sobre o que seriam os ideais e os princípios do que seja ser um americano.

Isso vocês constataram. Porém, é outra conclusão que eu estou tirando do trabalho de vocês, conclusão que vocês mesmos estão levando ao público, que é o seguinte: as gerações mais novas, elas já não consideram tão importante para a identidade delas serem americanos. O que isso significa?

?Voz A

Essa eu concordo, eu acho que essa é uma conclusão de nossos trabalhos assim. Então, sabe, o objetivo, você tem consenso sobre o objetivo. Vamos dizer um objetivo de um país onde você tem cada vez mais oportunidade, assim, seus filhos vão ser melhores do que você. Todos os americanos, grande parte dos americanos concordam com esse tipo de valor, esse tipo de objetivo. Mas onde há discordância é de como você chegar lá, a que ponto nós estamos chegando lá.

Há muitas divisões assim a respeito disso. E finalmente, essa é uma grande clivagem que nós estamos vendo: a identidade americana é diferente entre os mais velhos e os mais jovens. Eu falaria o seguinte: a identidade americana entre os mais values, é mais estrito, é mais definido, tem mais a ver com aqueles valores tradicionais americanos, sabe, o tipo liberdade, justiça, a democracia assim. E a identidade entre os mais jovens é mais difusa, tem mais a ver com diversidade.

Então assim, de novo, eu falei inicialmente, Esse é um dos desafios, mas tem vários desafios contra, mas um desafio a respeito do contrato social. Sim, a gente concorda sobre o objetivo, mas como a gente chega lá é quem nós somos de fato, né? É assim, nós estamos muito discordantes nesse momento, a gente pode ver isso nas pesquisas que a gente fez e ao longo dos anos, sabe, analisando política americana, a gente consegue ver isso na prática.

WWWilliam Waack

Lourival, deixa eu puxar um pouquinho mais para o lado histórico-político. Um grande significado da Revolução Americana, essa que se comemora agora, a Independência, essa que se comemora agora, os 250 anos, era a ideia da resistência ao absolutismo e de uma república governada, por isso que começa a Constituição com essa frase tão linda: "We the people", é o poder do povo. Agora nós temos um fenômeno político americano que é a presidência imperial, que provavelmente teria ou deve estar fazendo o pessoal que fundou os Estados Unidos 250 anos atrás dar um monte de voltas no caixão. Como é que isso está nesses 250 anos?

LSLourival Sant'Anna

Acho que isso já houve ao longo da história americana, essa tenção, outros momentos de tensão a respeito da amplitude dos poderes presidenciais e com a Corte Suprema várias vezes tolhendo esses poderes, trazendo de volta o escopo que os pais fundadores desejaram e tal. Mas agora você tem uma Corte Suprema cuja composição, sendo 6 dos 9, 6 conservadores e 6, 3 nomeados pelo Trump, que aceitam a tese do Trump de ampliar significativamente o poder presidencial, de demitir, de agir sem consultar o Congresso e assim por diante, de demitir funcionários públicos de agências independentes e assim por diante.

Então, nesse momento há esse grande questionamento lá, se realmente os Estados Unidos serão capazes de manter o espírito da Constituição americana no que diz respeito a todas as pessoas serem iguais perante a lei, incluindo o presidente.

WWWilliam Waack

Por último, eu tenho um minutinho ainda, Cliff. Outra coisa que me chamou a atenção nos achados de vocês, quando vocês concluem que uma boa parte dos adultos americanos não acredita que os jovens vão conseguir chegar ao mesmo padrão de vida que eles atingiram?

?Voz A

Essa é crucial, é problemático, essa vai para a questão do sonho americano. O conceito dos Estados Unidos sempre é um conceito baseado em abundância, sabe, em crescimento, dando oportunidade para todos, levando para cima os mais pobres, os mais marginalizados assim. É assim que nós estamos tendo esse desafio. Eu até falaria que Esse desafio de oportunidade, da falta de abundância, da inseguridade, talvez seja um desafio maior do que, sabe, a questão institucional entre o Executivo e os outros ramos do governo.

Então é um desafio grande, é um problema, é o que aparece em todas as pesquisas que a gente faz sobre essa questão.

WWWilliam Waack

Clifford Young, presidente do Instituto Ibsen e professor da Bush School na Texas A&M University. Cliff, muito obrigado pela participação aqui remota desde Washington no www. Boa noite.

?Voz A

Boa noite.

WWWilliam Waack

Igualmente, Lourival, muito obrigado. Boa noite. Boa noite. Antes de eu me despedir, por favor, visitem a nossa página do www no site da CNN, tem muito mais material esperando vocês. Vocês lá. Agora sim, edição fica por aqui. Obrigado, boa noite.

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