Episódios de WW – William Waack

Corte dos EUA derrota política anti-imigração de Trump

01 de julho de 202651min
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A Suprema Corte impôs, na terça-feira (30), uma das mais significativas derrotas ao presidente americano, Donald Trump. Os juízes bloquearam, por maioria confortável, a tentativa de Trump de acabar com a cidadania americana automática para quem nasce naquele país. Além do âncora da CNN William Waack, participam desta edição Caio Carvalho, presidente do conselho da Abag, Jussara Soares, analista de Política, Isadora Camargo, âncora do CNN Agro News, Sergio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados, Lourival Sant'Anna, analista de Internacional, e Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP, da FGV e do IDP.
Participantes neste episódio7
W

William Waack

HostJornalista
C

Caio Carvalho

ConvidadoPresidente do conselho da Abag
I

Isadora Camargo

ConvidadoÂncora do CNN Agro News
J

Jussara Soares

ConvidadoAnalista de política
L

Lourival Sant'Anna

ConvidadoAnalista de Internacional
S

Sérgio Denícoli

ConvidadoCientista de dados e CEO da AP Exata
V

Vinícius Rodrigues Vieira

ConvidadoProf. de Economia da FAAP de RI da FGV e do IDP
Assuntos7
  • Política de Imigração dos EUACidadania americana automática · Donald Trump · 14ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos · Políticas anti-imigração · Revolução Americana
  • Histórico de conflitos na família BolsonaroSaída da presidência do PL Mulher · Conflito com Flávio Bolsonaro · Impacto na campanha de Flávio Bolsonaro · Michele Bolsonaro · Valdemar Costa Neto · Jair Bolsonaro
  • Desafios do AgronegócioCríticas ao volume de recursos · Dificuldades de crédito e inadimplência · Seguro rural · El Niño · Renegociação de dívidas rurais · Caio Carvalho · Isadora Camargo · Jussara Soares
  • Legislação e Conquistas TransLeis proibindo atletas trans em equipes femininas · Proibição de terapias hormonais para menores · Proibição de pessoas trans no Exército · Idaho · West Virginia
  • Discurso de ódio e xenofobia na migraçãoEra nacionalista cultural e econômica · Apoio à restrição de migração entre latinos de segunda geração · Ameaça existencial de imigrantes não brancos e não cristãos · Samuel Huntington · O Desafio Hispânico
  • Divisão política no Supremo TribunalVisão de poder presidencial dilatado · Presidente imperial · Decisões sobre demissão de diretores · Brett Kavanaugh · Amy Coney Barrett · Samuel Alito · Neil Gorsuch
  • Guerra Cultural e MarxismoDiscurso feminista de Michele Bolsonaro · Machismo no ambiente político · Direita anti-Lula e anti-petismo · Voto feminino
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?Voz A

Oh, I have had no luck lately. Wait, lady luck?

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?Voz A

Dado o grande número de brasileiros que foram buscar viver nos Estados Unidos. Os juízes da Suprema Corte bloquearam, por maioria confortável, a tentativa de Trump de acabar com a cidadania americana automática para quem nasce naquele país. A justificativa para a decisão foi acachapante para o presidente americano. O direito à cidadania está na 14ª emenda da Constituição dos Estados Unidos. Cidadania, naquela época e agora, é o direito a ter direitos e de participar livremente na nossa comunidade.

E é isso que estamos mantendo, escreveram os juízes da Suprema Corte. O simbolismo da decisão é relevante por dois motivos. Comemora-se sábado os 250 anos da Revolução Americana, a que consagrou o princípio da cidadania a qual me referi acima. Em segundo lugar, o simbolismo é muito importante, é um duro golpe na política de imigração com a qual Trump construiu boa parte da sua última vitória eleitoral. É difícil até mesmo entender como esse país, fundado há 2 séculos e meio, se tornou a maior superpotência da história da humanidade sem levar em consideração as várias ondas de imigração e o respectivo direito à cidadania.

Hoje, 15% de todos os residentes nos Estados Unidos nasceram fora do país. É a maior proporção desde o final do século XIX. Mas é muito diferente em relação àquela época. Hoje, os americanos se mostram pessimistas em relação ao futuro do próprio país, o que explica a popularidade de políticas anti-imigração. O que a Corte Suprema lá fez hoje, em resumo, foi dizer que imigrantes, na verdade, fazem daquele país uma nação mais forte.

Vamos aos participantes da roda nesse momento. Ah, não, deixa eu ver, tem mais bastante coisa hoje para a gente falar. Nós vamos falar do Plano Safra e nós vamos falar também de Michele Bolsonaro e seus dramas dentro do Partido Liberal, do PL. Primeiro, vamos aos participantes da nossa roda nesse momento. Eu queria agradecer em primeiro lugar a Luiz Carlos Correia Carvalho, conhecido mais como Caio Carvalho, presidente do Conselho da Associação Brasileira do Agronegócio, a ABAG. Muito obrigado, Caio, por estar conosco. Boa noite.

CCCaio Carvalho

Boa noite, um abraço a todos vocês, um prazer estar com vocês.

?Voz A

Lá de Brasília, no nosso estúdio, a nossa Jussara Soares. Boa noite, Jussara. E aqui ao meu lado, tenho o grande prazer de trazer minha colega, Isadora Camargo. Boa noite, obrigado, Isadora. Isadora, vocês todos conhecem porque ela aparece antes, logo do WW, no CNN AgroNews. Isadora, prazer ter você conosco a bordo do WW, boa noite.

?Voz B

Prazer é meu, boa noite.

?Voz A

É com isso que a gente começa mesmo, com agro. É um dos setores econômicos mais importantes para a gente entender o Brasil hoje. E hoje foi lançado pelo governo, sob críticas de boa parte desse segmento, O Plano Safra. As entidades do agronegócio, como já mencionei, reclamam de um volume de recursos que o setor do agronegócio considera abaixo do necessário. Ao mesmo tempo, alertam para dificuldades dos produtores em conseguir crédito e alto nível de inadimplência. Confira na reportagem de Luciana Amaral.

?Voz 1

O volume de crédito disponível, R$525 bilhões, para agricultura empresarial representa uma alta de menos de 2% em relação ao último Plano Safra. É o menor crescimento desde o ciclo 2020/2021. Dentro de todo o montante, o volume para investimentos aumentou 38%, graças ao uso de fontes no mercado privado, como a poupança rural e as LCAs, Letras de Crédito do Agronegócio.

?Voz A

Ao longo do tempo, Graças a Deus, o agro cresceu mais que o Brasil e o agro cresceu mais que o Tesouro Nacional. Somente o Tesouro Nacional não tem capacidade de financiar o setor.

?Voz 1

A Frente Parlamentar do Agronegócio emitiu uma nota com críticas ao uso de fundos que não fazem parte do escopo tradicional do crédito rural. Alertou também sobre a queda no volume específico para outro fim. Custeio e comercialização. O montante é 7% menor do que no plano anterior. Uma das maiores críticas é em relação ao seguro rural. No lançamento desta terça-feira, o governo federal não anunciou a previsão de aumento dos recursos destinados ao programa de subvenção dos prêmios.

Entidades do setor alertam para necessidade de apoio para o caso de perdas nas lavouras, diante de riscos climáticos maiores e da confirmação do fenômeno El Niño.

?Voz A

Nós entendemos que esse Plano Safra, na verdade, está se fazendo um ajuste, está se fazendo um remendo naquilo que seria necessário, que seria ideal para o setor.

?Voz 1

O governo destaca redução nas taxas de juros, que agora variam entre 8% e 12,5%, queda de até 1,5 ponto percentual em relação a antes. Em meio ao cenário de endividamento do setor, o ministro da Fazenda, Dario Durigam, diz que o governo vai apresentar uma proposta de renegociação de dívidas rurais ao Congresso Nacional, medida que até então a equipe econômica vinha se posicionando contrária.

?Voz A

O diálogo tem sido intenso e permanente, e nos próximos dias, o presidente Hugo Motta deve estar aqui daqui a pouco, Nós iremos apresentar uma proposta já com o estado da arte das negociações para o Congresso Nacional, tratando das renegociações de dívida rural. Caiu uma crítica comum que se faz, eu gostaria de saber como é que você responde a ela: que o agro está chorando de barriga cheia.

CCCaio Carvalho

É a tal história aí, William, quando você come bem você fica com a barriga cheia Um dia ou outro, depois, se você não come, a barriga esvazia, viu, William? Então, a gente tá vivendo agora um ciclo ruim. A verdade é que a gente vive muito de ciclos. Nós tivemos uns 2 a 3 anos bons em que houve uma capitalização, houve uma melhoria, houve uma animação, é verdade. Os últimos 2 anos foram bem piores e esse ano especialmente, como bem explicado na sua apresentação, O Plano Safra fica bem aquém daquilo que a gente precisaria.

Mas é importante salientar, William, que na verdade estava falando conosco, com os produtores, eu não estava aí, mas estavam os meus colegas todos, estavam conversando com 25% dos recursos. 75% dos recursos ou mais hoje são privados, portanto, a gente estava falando com um quarto 3/4 estão fora daquela sala.

?Voz A

Deixa eu ver, vou insistir só, antes de passar a palavra para vocês, Ador, vou insistir só mais uma vez nesse ponto. Caio, tem sido uma crítica frequente do agro a esses planos, a incapacidade de aumentar a oferta de crédito. Você acabou de intervir dizendo o seguinte: "Espera aí, 75% nós já estamos financiando no mercado de capital." se eu entendi você corretamente. Para que o Plano Safra então? É a pergunta que o público se fará, o público não do setor, bem entendido, o público leigo nos assuntos do agro vai se perguntar então para que Plano Safra?

CCCaio Carvalho

Você ouviu um dos líderes do setor falando em remendo. A verdade é que a cada ano que passa, William, o Plano Safra é menos importante, menos impactante. A cada vez mais nós estamos indo para o setor privado, para recursos privados, para mecanismos privados. Por isso que sempre, William, é importante salientar o fato que uma coisa que tem um peso relevante para um país, como é a sua agroindústria, ela tem que ser uma política de Estado, não é uma política de governo que vai se fazendo remendos ou ajustes de um ano para outro.

Isso a gente tem que amadurecer, nós temos que ter uma política de Estado para o agro, para não ficar nisso, nessa redução constante daquilo que é governo para fazer a festa de um lançamento de alguma coisa que não chega nem a um quarto. Dos recursos que na realidade acabam rolando. No momento, vocês estavam perguntando a barriga vazia, no momento em que nós temos juros desse tamanho e obviamente financiamento privado, e aí nós estamos falando de sem subvenção de prêmio e que não tem seguro rural, é óbvio que nós estamos dizendo que essa indústria a céu aberto está absolutamente exposta.

?Voz A

Aí que está o ponto, Zanar. A gente tem uma confluência de fatores, fora aqueles que têm a ver diretamente com a economia, fora do nosso controle, por exemplo. As pressões inflacionárias, de aumento dos insumos em função da guerra no Oriente Médio, em função da subida de preço de combustíveis, por exemplo. Agora, o que o Caio acabou de se referir é a necessidade de criar algum tipo de seguro, sem o que não há crédito, por conta, por exemplo, do El Niño.

Essa é uma das principais críticas que se faz ao que foi anunciado hoje, o seguro é insuficiente.

?Voz C

Uma das principais críticas é justamente não ter uma quantia suficiente para abarcar não só o El Niño, que inclusive teve uma assinatura hoje durante o anúncio do Plano Safra para uma medida provisória que testaria aí a questão de aumento de área assegurada contra eventos climáticos, não só do El Niño, mas focado em El Niño, eventos climáticos extremos. Porém, o setor está muito preocupado, antes até do El Niño, com o endividamento.

E é o endividamento que está testando a qualidade de crédito rural. Porque uma das saliências que ficam deste Plano Safra, deste anúncio do agronegócio empresarial principalmente, é essa qualidade de crédito diante de uma deterioração financeira do agronegócio, ao mesmo tempo que você tem cadeias produtivas inteiras diminuindo contratação, diminuindo o apetite de investimento e sem uma solução a médio e longo prazo, que seria o Plano Safra.

Então, o seguro, ele é uma lacuna, o seguro para o clima é uma lacuna também, mas há uma percepção do setor, especialmente entre produtores e analistas de mercado, que a dívida muito estratosférica tem pressionado mais e é um alerta mais latente, porque o El Niño, ele está sendo perceptível aos poucos, está ativo, mas a dívida está pesando mais nesse momento.

?Voz A

Dívida mata antes, é mais ou menos o resumo do que você está dizendo. Jussara, vamos entrar na política agora. O Caio já fez uma alusão, mais do que uma alusão, ele já nos fez pensar por que é uma política de Estado, é uma política que está atrelada à volatilidade do ciclo eleitoral, por exemplo, que está implícito no raciocínio dele. Como é que está essa negociação? O ministro da Fazenda agora se referiu. A bancada do agro é uma das mais bem organizadas no Congresso, detesta o governo e vice-versa.

?Voz B

Olha, William, o governo, ele não conseguiu, né, o governo Lula não conseguiu criar essa interlocução com o agro nesse mandato do presidente Lula, sempre teve uma resistência, mas após o governo de Jair Bolsonaro, O presidente Lula assumiu este mandato sabendo dessa dificuldade de interlocução. Então, tudo que foi anunciado até aqui, nada foi suficiente para fazer frente a esse desgaste que já tem natural, essa rejeição natural de uma parte importante do agro, majoritariamente do agro, ao presidente Lula.

Bem, neste caso, como você disse, a FPA, ela é poderosa no Congresso e ela pressiona o governo o tempo inteiro. Neste momento, o governo até faz, né, busca ali no seu anúncio falar que é um plano safra recorde, mas não é suficiente para o agro. E aí vem sendo cobrado muito. A gente sabe que lá no Senado essa pauta bomba voltada para resolver a questão das dívidas do agro, quem tava na liderança disso, dessa negociação, é a senadora Tereza Cristina, do PP, ex-ministra ex-ministro da Agricultura do governo Jair Bolsonaro e hoje cotada para ser vice de Flávio Bolsonaro.

Ela é o nome preferido de boa parte do entorno de Flávio Bolsonaro. Essa discussão ainda vai avançar, mas ela segue no radar, porque justamente, além dela ser considerada um cargo sênior, ela tem essa importante interlocução com um grupo econômico que foi fundamental para o governo Bolsonaro e pode ser também fundamental aí para essa campanha de Flávio Bolsonaro.

?Voz A

Caio, um bocado de gente que nos acompanha provavelmente está se fazendo a seguinte pergunta: qual é a situação, qual é a perspectiva para o agro em função desses fatores? Tanto aqueles que a gente não controla, que vem lá de fora, como esses, com atenção especial a esse ponto que eles adoram ressaltou: o alto grau de endividamento, alto grau de inadimplência e o fenômeno, estou colocando com ironia, entre aspas, da recuperação judicial.

CCCaio Carvalho

É muito importante o que foi comentado pela Jussara e também pela Isadora. A gente está vivendo um momento que, William, nós tivemos o impacto das guerras, começando lá da Rússia, preço de fertilizante, etc., mas nós tínhamos na época margens, ou seja, os preços eram positivos. Nós tivemos um crescimento de custos por um lado e tivemos uma queda pronunciada dos preços. Junto com isso, a questão dos juros, e a gente vive hoje uma espécie, que muitos chamam de, quer dizer, crédito caro, preço baixo, custo alto, a gente está vivendo uma armadilha da dívida.

Ou seja, é alguma coisa que não é comum para todos, você tem variações, ou seja, provavelmente nós vamos ver um 2026 muito complicado. Mas com sequelas em 27, 28. Um processo, provavelmente, que nós já estamos vendo de consolidação, de empresas grandes adquirindo outras. Esses movimentos devem acontecer. Nós estamos ainda sofrendo e vamos sofrer, é importante que se diga, William, os 6 a 7 meses naturais das dificuldades da questão logística de extremo de Hormuz e outras coisas.

Nem todo fertilizante talvez chegue nas condições que precisaria, nossa safra está muito em cima, a armadilha da dívida, a dificuldade do crédito, os bancos cada vez mais reservados para emprestar o crédito, a gente vai ter provavelmente alguma coisa de redução de investimento, de tecnologia, portanto, com sequelas a seguir. Provavelmente nós vamos ter algumas subidas de preços em função de volatilidades externas, até de geopolítica, que eventualmente alguns produtores, uma parte importante, não vai poder se aproveitar de alguma recuperação de preço. É um momento de muita instabilidade, de muita volatilidade.

?Voz A

E que você, que é especialista nos setores, agora, nós estamos vendo uma espiral, que a descrição do Caio nos leva a pensar nessa figura de linguagem, uma espiral onde um fator acaba acelerando o outro, eles vão se somando e criando esse momento que na descrição dele eu estou Eu que estou adjetivando, Caio, surge como negativo ou são circunstâncias separadas e o quadro no geral tem mais estabilidade?

?Voz C

Tem uma mistura dos dois. E a gente acompanhando, por exemplo, os últimos 6 planos safras, William, que a gente pega ali 2020, num anúncio pandêmico, a gente tem um subsídio de juros muito maior e a gente chega em 2026, 2027 com um pouco dessa uma mistura de fatores macroeconômicos, política restritiva, principalmente de 2023 em diante, política monetária restritiva, com juros que vai pressionando o produtor, mas também tem essas cadeias da armadilha da dívida, pegando carona no que o Caio disse, que são as cadeias de empresas que fornecem os produtos, que estão endividadas numa crise financeira extremamente agravada em 2023. 2023, por causa da guerra na Rússia e Ucrânia em 2022, que em 2023 teve um boom para esse agravamento da dívida dessas empresas.

E aí você tem a compressão das margens que estão nessas empresas, que estão nos produtores que tomaram créditos com essas fornecedoras, revendas de insumos, que estão nesse processo de consolidação também, que o Caio falou, e que muitos não deram certo. E aí a gente tem uma margem, peguei um dado aqui da Fundação Getúlio Vargas, que em 2020 era de 55%, ou seja, o produtor ele conseguia, depois de pagar os custos de produção, ter 55% de sobra.

Em 2027, essa margem deve cair para 3%, menos de 4%, ficar um pouquinho acima de 3%. Então, a gente tem um encolhimento dessa margem que é difícil recuperar em alguns anos. Então, a perspectiva de tendência de tudo isso, que são fatores cumulativos de 2023 para cá, principalmente, é que a gente vai ter um anúncio de Plano Safra em 2027 ainda menor para a expectativa. Então, a gente tem já uma notícia que desagradou o setor, com uma tendência de que isso piore.

?Voz A

Jussara, aí estamos diante do quadro político que você vinha descrevendo. Existe aí alegria pela desgraça alheia nos círculos políticos do PT?

?Voz B

Olha, acho que essa alegria é difícil dimensionar aqui, mas tem um ponto aqui, eu acho que uma avaliação de modo geral é que tem um sentimento de parte do PT é que por mais que o governo faça por esse setor do agro, principalmente empresarial, sempre sairão insatisfeitos. Inclusive uma da questão é que o O presidente Lula esteve no anúncio do Plano Safra para agricultura familiar, mas não esteve voltado para o agroindústria, para as empresas, para as médias e grandes empresas.

Então essa é uma crítica. Tem um ponto aqui que o governo precisa lidar, é que ele segue sendo pressionado e a insatisfação, ele já tem uma percepção que é incontornável, nada disso, nada do que fizer será resultará em ganhos políticos para o governo. E aí a gente volta no que a gente estava falando aqui, que o Caio estava falando aqui mais cedo, que não há uma questão, a percepção é que não se tem uma política de Estado para o setor.

E aí tudo é tratado na base de anúncio político, sempre buscando, relacionando o anúncio do Plano Safra com algum tipo de melhora de percepção. Essa é a questão que o governo não conseguiu encaixar Até aqui, neste momento, o governo está ali na mão do presidente da Câmara, Hugo Mota, para segurar essa pauta bomba dessa renegociação das dívidas lá que foi aprovada no Senado. Hugo Mota já sinalizou que vai segurar, que não vai avançar de modo nenhum e, portanto, agora a questão é justamente amanhã eles terão uma reunião e aí dar o encaminhamento para essa pauta, como será essa medida provisória.

?Voz A

De certa maneira, o governo é paciente de uma esquizofrenia. Existe agricultura, dividi-la em empresarial e familiar é o problema básico, conceitual. Eu estou encerrando esse segmento, queria agradecer em primeiro lugar ao Caio Carvalho, presidente do Conselho da Associação Brasileira do Agronegócio, ABAG. Obrigado por estar conosco, boa noite, Caio.

CCCaio Carvalho

Boa noite, Willian. Jussara, assino embaixo do seu último comentário, viu?

?Voz A

Eu acho que foi você, inclusive, o autor dele algumas edições atrás, que era uma forte esquizofrenia. Existe agricultura. Classificá-la como familiar ou empresarial é uma bobagem, no fundo.

CCCaio Carvalho

Existe agricultura. É perfeito, William, me perdoe estar tomando esse minutinho seu, mas é inacreditável a falta de sensibilidade para entender que agricultura é uma só. É uma coisa horrorosa.

?Voz A

Eu queria agradecer especialmente a você, minha colega Isadora Camargo, âncora do CNN AgroNews. Obrigado.

?Voz C

Eu que agradeço.

?Voz A

Pelo serviço extra aqui no WW. Jussara, a gente continua juntos, nós vamos para o intervalo e depois do intervalo, Michele Bolsonaro deixa a presidência do PL Mulher. Até já. É o WW. Nós estamos voltando do intervalo. Queria agradecer agora a participação no programa a Sérgio De Nicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados. Sérgio, muito obrigado por estar conosco aqui. Boa noite.

SDSérgio Denícoli

Boa noite, Willian. Eu que agradeço mais uma vez o convite para participar aqui do programa.

?Voz A

Michelle Bolsonaro deixou a presidência do PL Mulher. Isso ocorreu depois da publicação de um vídeo no qual ela se refere evidentemente a um atrito com o enteado dela e presidenciável Flávio Bolsonaro. A saída foi definida nesta terça-feira, depois de uma reunião entre a própria Michelle e o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Em Brasília. Lá de Brasília a gente então vai falar ao vivo com a nossa Luciana Amaral. Boa noite, Luciana.

?Voz 1

Oi, William, muito boa noite a você e a todos que nos acompanham aqui no WW. Justamente essa saída foi selada numa reunião que durou cerca de 2 horas na tarde de hoje junto ao Valdemar da Costa Neto, presidente do do PL na sede do partido aqui em Brasília. Só para explicar a quem nos assiste que o PL Mulher é o braço feminino do Partido Liberal, reúne então as filiadas e também incentiva as mulheres de direita a participarem da política.

Era uma das principais bandeiras da Michele Bolsonaro ao longo desses últimos anos e realmente um motivo de muito orgulho para ela. Na saída dessa reunião, ninguém falar com a imprensa, saíram pela garagem, não quiseram responder nada a jornalistas. O que teve então foram notas depois de horas, depois, horas após a reunião. Bem, em nota, Michele afirma que deixa o comando do PL Mulher para se dedicar integralmente, e ela inclusive destaca essa palavra na nota, para se dedicar integralmente ao marido Jair Bolsonaro e a filha Ela disse que essa escolha foi tomada depois de muito refletir ao lado do ex-presidente sobre o momento que a família atravessa.

Ela agradece as integrantes do PL Mulher, faz uma menção especial à vice-presidente do grupo, Priscila Costa, que é de Fortaleza, uma das pivôs da crise interna da Michelle com os enteados, e afirma esperar que as mulheres ocupem cada vez mais os "nos lugares que lhes pertencem, nas esferas de decisão e de poder". Já o Valdemar da Costa Neto buscou minimizar toda essa situação, disse que o partido cresceu demais e que, por isso, divergências internas são naturais.

Agradeceu o trabalho da Michele, disse que a decisão dela deve ser respeitada. Agora, o que fica em aberto daqui em diante é o próximo passo da Michele, especialmente, claro, na vida política. Fica em aberto, por exemplo, se ela realmente vai se candidatar ou não ao Senado Federal pelo partido aqui no Distrito Federal. Ela nunca disse que sim nem que não, mas aliados tratavam a candidatura como certa. Então agora todo mundo então de olho nos próximos passos da Michele e o quanto que toda essa crise realmente vai impactar a pré-candidatura de Flávio Jair Bolsonaro à presidência da República. Wilier, volto contigo no estúdio.

?Voz A

Obrigado, Luciana. Boa noite para você aí em Brasília. Sérgio De Nicoli, evidentemente temos uma crise num segmento importante do espectro político brasileiro. A sua dedicação profissional é tentar estabelecer o que que passa no ambiente digital. Como é que essa crise está no ambiente digital?

SDSérgio Denícoli

Essa crise é uma crise bastante curiosa porque quando ela surge ela desvia o foco do banco master que estava em cima da candidatura do Flávio Bolsonaro, passa a ser um conflito familiar, as redes condenam a Michele Bolsonaro, a maioria dos comentários que nós observamos foi de condenação não pelo que ela disse, mas pelo fato de expor um problema que era, de acordo com as pessoas que se pronunciaram, era para ser resolvido no âmbito familiar.

Então a Michelle acabou tendo aí uma crítica acentuada. O Flávio melhorou. Curiosamente, um dia após o vídeo da Michelle, os vídeos, né, serem publicados, o Flávio atingiu o melhor índice de positividade nas redes nos últimos 45 dias. Então ele teve uma efusividade em relação a isso, houve muita defesa em relação ao Flávio. Só que curiosamente a Michelle não perdeu apoio, ela continuou com os índices que ela vinha mantendo, ou seja, ela tem um público que é cativo a ela e me parece que esse público pode fazer falta à campanha do Flávio, que é um público formado principalmente por mulheres, e houve defesa dela por parte dessas mulheres, e um público evangélico.

Então acho que a Michele acaba sendo uma carta que está sendo descartada neste momento pela campanha do Flávio, talvez por falta de habilidade ali no núcleo familiar, mas que pode realmente fazer falta, né. Ela tem uma liderança que ela conseguiu construir, ela conseguiu filiar milhares de pessoas ao PL Mulher, ela tem uma fala bastante curiosa, ela não, quando a gente mede os dados da Michelle, ela não tem o gap de gênero, né, ou seja, a direita tem uma dificuldade de conquistar o voto feminino, a Michelle não quando ela é colocada em prova e as pesquisas comprovam isso, então acho que é uma questão que deveria ter sido resolvida internamente que pode realmente ser um problema aí para a campanha do Flávio.

?Voz A

Vou pegar agora então, Jussara, que é a sua especialidade, o aspecto político-partidário. Que abacaxi para o PL! Como é que vão descascar isso aí?

?Voz B

Olha, William, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, tentou contornar. Ele acreditava ali que ele pudesse buscar alguma solução negociada com a Michele Flávio Bolsonaro para evitar o pior. O pior, neste caso, é justamente o anúncio, a saída dela neste momento da presidência do PL Mulher. Claro que na nota não se trata da briga com Flávio Bolsonaro, mas não precisa, né, William? Depois do que a gente viu tudo na semana passada, do esforço da campanha, da pré-campanha do Flávio Bolsonaro para não reagir intempestivamente, para tentar controlar, uma coisa era o que era dito em público.

Outra coisa é como se dava toda essa construção dentro do PL, inclusive a irritação imensa na pré-campanha de Bolsonaro, desculpa, de Flávio Bolsonaro, e também na cúpula do PL. O argumento é que Michele Bolsonaro, ela é muito ideológica. E o principal argumento inclusive usado, e talvez isso tenha, o Sérgio possa comentar também, ele já até disse isso, mas um pouco tenha tido uma percepção da direita, de modo geral, que o posicionamento da Michele neste momento, ainda que haja algum tipo de apoio a ela, há uma percepção de que ajuda muito mais ao Lula e prejudica o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O que me disse uma importante fonte do PL é o seguinte: a declaração de Michele parece que ela esquece que a única chance de livrar Bolsonaro de cumprir a pena de 27 anos e 3 esses meses por tentativa de golpe de Estado é o filho dele, primogênito, ser eleito presidente da República. Então é nesse sentido que Michele, neste primeiro momento, não teve um apoio tão expressivo. A campanha de Flávio Bolsonaro vem monitorando as reações e já imaginava há algum tempo, até pelo que se dava nos bastidores da família, que ela não se engajaria na campanha de Flávio.

Portanto, já vinha precificando. A diferença é que agora está explícito. A ver como Michele vai se comportar daqui para frente, porque ela deixa a presidência do PL mulher e, portanto, fica inclusive mais livre para fazer críticas ao enteado.

?Voz A

Você podia elaborar um pouco mais nesse ponto que a Jussara já mencionou, Sérgio De Nicoli? Como que a postura da Michele foi vista não só dentro do espectro bolsonarista, direita, mas se a gente puder falar numa direita mais ampla.

SDSérgio Denícoli

Então, William, é importante a gente ressaltar que a Michelle, ela já vinha sendo atacada pela direita há algum tempo. A gente fez uma pesquisa recente, a gente constatou que 25% dos ataques que eram feitos à Michelle antes desse episódio vinham de parte da direita. É uma direita que se incomoda com o discurso mais feminista da Michelle, entende que ela tá tendo um discurso feminista que é mais apto à esquerda. Condena isso, acha que a Michelle não deve ter voz.

Enfim, há um ambiente muito machista que acaba por colocá-la numa situação de que não pode se pronunciar sem ser de acordo com os pares dela, no caso os enteados e o marido. Então esse tipo de ataque já vinha sendo feito, tanto que ela refere isso quando ela grava os vídeos, né? E realmente são ataques muito duros. É a direita bolsonarista, quando ela se manifesta em torno de alguém para tentar criticar essa pessoa são manifestações realmente muito pesadas.

Imagino que ela ficou bastante ofendida com isso. E de uma forma geral, a direita em si entende que a Michele é uma voz importante, né, a direita não bolsonarista, digamos assim. Ela tá um pouco ressentida disso, principalmente as mulheres de direita. A gente tem visto muita manifestação dessas mulheres incomodadas pelo que elas entendem como sendo uma voz sendo calada. De uma representante importante, elas entendem o lado da Michelle, elas tomam esse lado da Michelle, como eu falei, é o núcleo de defesa dela, mas de uma forma geral a direita não tá dando muita importância a esse caso.

A gente observa, por exemplo, que o Flávio, que vinha sendo defendido muito pela direita mais radical, ele já começa a ser defendido por uma direita mais moderada também, até porque o caso Márcio, como eu falei, ele perdeu um pouco de peso, então o Flávio começa a dialogar melhor com esse público, mas a gente não observa como suficiente neste momento, porque os dados dele têm melhorado, mas ainda não estão os dados que ele tinha antes da crise do Márcio.

Então ele precisaria realmente desse apoio, principalmente desse voto feminino. Eu acho que agora fica mais difícil para ele conquistar esse núcleo. Ele vai ter que fazer um trabalho muito interessante aí com as mulheres para tentar mostrar que a Michelle não foi calada, né, que ela criou um contexto aí que evitou aí uma aproximação dos dois, se é que eventualmente não se aproximem, né? Eu acho que neste momento parece que essa conciliação é muito difícil, mas em política tudo é possível.

Estamos falando aí de um núcleo familiar que de repente consegue acertar as pontas para tocar em uma campanha, talvez no segundo turno. Enfim, eu acho que há um sentimento da direita anti-Lula e anti-petismo que talvez proporcione um outro ambiente no segundo turno, mas nesse primeiro turno acho que as coisas estão muito complicadas.

?Voz A

Não sei se foi a intenção da Michele, Jussara, mas ela acabou criando uma situação curiosa em política. O silêncio dela é um problema e se ela falar pode ser ainda pior. O que ela quer?

?Voz B

Olha, é a pergunta que os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro se fazem. Há uma percepção a sensação de que Michele Bolsonaro, ao entender que ela não é vista como uma parte integrante da família Bolsonaro, que ela começa a dar um encaminhamento a um projeto próprio para política. Isso é importante porque, já até mencionei aqui em outra oportunidade, William, o fato que a família não vê, os filhos de Bolsonaro não veem Michele como uma parte integrante da família, é sempre uma agregada.

Jair Bolsonaro está preso. Caso haja uma derrota, caso Bolsonaro, o Flávio, não vença as eleições, a Michelle precisa dar um caminhamento ao projeto dela própria, desse projeto que ela vem fazendo com as mulheres, e ela sim exerce uma liderança entre as mulheres de direita, e ela tem outras pessoas junto com ela, candidatas a deputado, deputadas, senadoras, ela tem um grupo grupo de apoio forte, inclusive também pensa no futuro político dos próprios irmãos.

Então, a Michele Bolsonaro, quando ela decide sair do PL Mulher, em princípio se imaginava internamente que fosse temporária essa saída, e a nota dela, e depois seus aliados me confirmaram que é definitiva, ela vai mostrando o seguinte: que ela não vai se sujeitar. Então, Michele, nesse ponto, ela faz uma uma nota muito direta. E agora a grande questão, e isso preocupa muito a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, é quais serão os próximos passos dela.

Ainda não está definido o que ela vai falar daqui para frente. Como você disse, o silêncio dela preocupa, mas o que ela pode vir a falar com aproximação de fato do primeiro turno das eleições é que é surpreendente. Não há neste momento nenhum tipo de diálogo. E O PL ainda ontem já vinha bastante incomodado quando um aliado importante de Flávio Bolsonaro, conselheiro dele, Paulo Figueiredo, que mora nos Estados Unidos, fez uma declaração no vídeo dizendo que mulher vota mal.

E depois, confrontado com essa declaração, ele usou um palavrão nas redes sociais para reafirmar essa declaração, o que foi considerado extremamente desastroso pela pré-campanha de Flávio Bolsonaro. A grande questão aqui não Não é mais Michele Bolsonaro. A grande questão é como Flávio Bolsonaro vai tentar dialogar com eleitorado feminino, que vai fazer falta para ele se mantiver a rejeição que tinha ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

?Voz A

Eu tô encerrando esse segmento. Queria agradecer a você, Sérgio De Nicolis, CEO da Apesata e cientista de dados, a participação no programa. Boa noite, Sérgio.

SDSérgio Denícoli

Muito obrigado. Boa noite, Jussara.

?Voz A

Jussara, querida, igualmente obrigado. Boa noite para você aí em Brasília. Nós vamos vamos para o intervalo e depois falar da Suprema Corte americana derrubando a intenção de Trump de negar cidadania automática a quem nasce lá filho de imigrantes. Até já. Bom intervalo, estamos de volta. www.conoscoagora.com.br. Conosco agora no programa Vinícius Rodrigues Vieira, professor de economia da FAP e de relações internacionais da FGV, do IDP. Obrigado, Vinícius, está conosco. Boa noite.

VRVinícius Rodrigues Vieira

Eu que agradeço o convite, William. Muito obrigado, boa noite a todos.

?Voz A

Lourival, como sempre, enorme prazer tê-lo a bordo do WW. A Suprema Corte americana impôs nova derrota a Donald Trump nessa terça-feira. Os juízes derrubaram um decreto federal e mantiveram o direito à cidadania por nascimento nos Estados Unidos. Os detalhes com a correspondente em Washington, Mariana Giangiacomo.

?Voz 2

As decisões da Suprema Corte representam uma mistura de vitórias e derrotas para Donald Trump. Os juízes derrubaram um dos pontos mais importantes para Donald Trump, defendido por ele desde antes de assumir a presidência dos Estados Unidos pela primeira vez, que é o fim do direito à cidadania norte-americana para todos todos aqueles nascidos em território dos Estados Unidos. A primeira vez em que Trump falou sobre isso foi em 2015.

E agora, no primeiro dia do segundo mandato aqui na Casa Branca, ele assinou uma ordem executiva para acabar com esse direito, o que afetaria não só filhos de imigrantes sem documentação nos Estados Unidos, mas também os filhos daqueles que estão aqui legalmente, mas com vistos temporários para trabalho ou estudos. A Suprema Corte decidiu que a argumentação de Trump é inconstitucional e que esse direito é sim protegido pela 14ª Emenda da Constituição.

Donald Trump chamou a atenção e mostrou como esse caso é importante para ele quando, em abril, foi presencialmente à audiência da Suprema Corte que debatia esse tema. Não falou nada, mas ainda assim isso foi visto como um gesto de pressão de Donald Trump sobre os juízes. Ainda assim, dois dos juízes nomeados pelo próprio Trump votaram contra a ideia do presidente e junto com os liberais: Brett Kavanaugh e Amy Coney Barrett. Por outro lado, a Suprema Corte deu vitória para Trump em um outro caso muito importante para ele também, que é a questão dos atletas trans.

A Suprema Corte permitiu que dois estados, Idaho e West Virginia, mantenham leis que proíbem estudantes trans de jogarem em equipes femininas. Essa decisão, apesar de valer para esses dois estados, pode servir como precedente para que leis em mais de metade dos estados americanos dessa forma entrem em vigor. Antes disso, a Suprema Corte também já tinha determinado que os estados poderiam sim adotar leis proibindo as terapias hormonais para menores de idade.

E Donald Trump também proibiu pessoas trans de servirem no Exército dos Estados Unidos. De Washington, Mariana Janjákomo.

?Voz A

Ministro, eu vou separar um pouco os assuntos, vitória ou não de Trump aqui ou ali, e focar um pouco nessa questão das políticas anti-imigração. Elas têm sido recorrentes na história. Na história americana. Gente, para todo mundo que lê história dos Estados Unidos constata isso. Por exemplo, no final do século 19, quando é muito grande o fluxo de imigrantes, isso se repete no final dos anos 20 e 30, em parte por questões econômicas, volta a surgir com muita força.

Alguns comentaristas nos Estados Unidos têm dito que sim, que a decisão de hoje da Suprema Corte é um marco simbólico muito importante, porém impopular. Ou seja, a postura anti-imigração, ela vai além de Trump.

VRVinícius Rodrigues Vieira

Exatamente, William, porque hoje nós vivemos uma era mais nacionalista, uma era mais nacionalista, seja na questão cultural, comportamental, seja na questão econômica. Então a gente pega o caso dos Estados Unidos, mesmo latinos que são de primeira, de segunda geração, ou seja, pessoas que migraram ou cujos pais migraram, elas têm ali um amplo apoio a restringir a migração a novas pessoas. Porque aquela lógica: eu já conquistei aqui o paraíso, entre aspas, né, já estou aqui vivendo sonho americano, se mais pessoas entrarem, esse sonho americano ele vai ficar mais difícil para mim.

Então esse tipo de postura ela é normal nesse atual contexto. Podemos contestá-la aí por razões éticas, mas é esperado que o eleitor de apoio a isso. Isso vai fazer com que Trump ele possa jogar com essa decisão da Suprema Corte em relação ao seu eleitorado. É importante dizer, não apenas o eleitorado MAGA, esse é o eleitorado mais óbvio, né, o eleitorado ali que é aquela classe média baixa branca trabalhadora que perdeu com a globalização.

E já havia muito tempo, desde ali dos anos 90, pesquisas mostram, o imigrante, principalmente imigrante não branco, não cristão, ou mesmo latinos, aí sejam eles católicos ou evangélicos, como uma ameaça não apenas ao seu posto de trabalho, aos seus postos de trabalho, mas uma ameaça existencial aos Estados Unidos. Aqui me permita citar um artigo de 22 anos atrás do cientista político Samuel Huntington chamado O Desafio Hispânico.

O Huntington já ecoava isso, um professor de Harvard, a universidade com a qual O Trump costuma brigar, o Trump aí brigando com as universidades, mas mesmo no nível universitário, em nível universitário, já se discutia isso. Huntington, ele inclusive foi acusado ali na época de racista, enfim, e de fato ele fazia uma pergunta: se os Estados Unidos fossem formados em sua maioria por pessoas de fala hispânica, ele não seria os Estados Unidos, ele seria o México, ele seria, ele faz até uma pergunta retórica no artigo, ele seria o Brasil.

Então nós temos aí, William, muito mais do que o sentimento que ecoa na base trumpista, os nacionalistas brancos, de fato algo que deve ser feito para coibir a migração. E o Trump vai responder com políticas nesse aspecto ainda mais duras que as que nós estamos vendo via ICE.

?Voz A

Vamos entrar então agora no aspecto político, Lourival. Não deixa de ser uma derrota significativa para ele, é algo no que ele se empenhou com com muito vigor ao longo da linha do tempo. A gente vai sedimentando, ou seja, pondo uma em cima da outra, das decisões do Supremo que o desagradam, qual é o balanço?

LSLourival Sant'Anna

Bem, a gente já tem um padrão das decisões dessa Suprema Corte, da qual dos 9 ministros, 3 foram nomeados aprovados pelo Trump. E o padrão é que naqueles, principalmente no que diz respeito ao poder presidencial, ela costuma atender ao Trump, os 6 ministros conservadores costumam atender ao Trump, ela tem uma visão de um poder presidencial bastante dilatado e algo que No certo sentido, talvez o espírito da Constituição americana, talvez não, com certeza, o espírito da Constituição americana vai contra essa visão de um, que eles chamariam de um presidente imperial, porque é uma Constituição desenhada contra justamente a monarquia britânica, mas, por outro lado, é possível, é uma questão de interpretação.

Um pouco subjetivo que ela tem feito. Agora, aquelas coisas que estão claras na Constituição, que está escrito, como é o caso da 14ª Emenda, então esses ministros eles não cedem, a maioria deles não cede. O Alito e o Gorsuch, o Gorsuch foi nomeado pelo Trump, o Alito foi nomeado pelo Bush em 2006. Esses dois, que também são conservadores, votaram contra o voto da maioria e acharam— o Alito até disse que é perigoso, o Alito, interessante, porque tem um nome hispânico, que é perigoso essa leitura e tal do birthright, do direito à cidadania pelo nascimento.

Mas, principalmente no que diz respeito aos imigrantes, essa Suprema Corte costuma frustrar o Trump. Com relação ao poder presidencial, ela ainda foi— ontem ela permitiu, aceitou a demissão de uma diretora da Comissão Federal de Comércio, mas não aceitou a demissão de uma diretora do Fed, por considerar que ela não teve direito de resposta suficiente. Consciente e que o processo, e que a acusação não foi provada contra ela de fraude na declaração de residências que ela possui.

Mas deixou o caminho aberto para uma possível ainda litigação, uma possível apelação mais consubstanciada e até mesmo a demissão de uma diretora do Fed. Então assim, no poder presidencial, realmente essa corte é bastante condescendente com Trump.

?Voz A

Nós estamos vendo Trump reagir como alguém de braços amarrados, ministro?

VRVinícius Rodrigues Vieira

O Trump, ele sempre tenta, vamos assim dizer, aproveitando a Copa do Mundo, dar um drible na Suprema Corte. Se nós pensarmos no tarifácio, o que que o Trump ele fez? Ele recuou, ele aceita a decisão ele não vai entrar em confronto direto porque seria um custo político muito alto, principalmente levando-se em conta ali a base republicana no Congresso, que sim fatura em cima do movimento MAGA, Make America Great Again, mas não é parte essencial desse movimento.

Então eles são mais comedidos, seriam ali os conservadores de fato, né, que se alinham ali aos ministros da Suprema Corte, como o Lourival falou. Então nós temos aqui todo um processo em que faz com que o Trump ele repense as suas ações, mas ele nunca— interessante é que notar, ele não desiste. Então se a gente aplicar o que nós vimos durante o tarifácio como reação, né, ele aplicando agora novas tarifas, agora em julho será finalmente aí muito provavelmente anunciado, inclusive contra o Brasil, sempre importante lembrar. 25% extra de tarifa em função da Seção 301, mas práticas comerciais.

Então você tem ali toda uma série de buscas por, vamos dizer, elementos legais que façam com que esse estilo de presidência imperial acabe sendo consolidado. Então é interessante notar, por um lado, a Suprema Corte ela faz uma leitura ali estrita do que está na Constituição, mas ao mesmo tempo, ao referendar a lógica da presidência imperial, ela acaba por dar ali combustível para que o Trump busque alternativas jurídicas que até agora, por exemplo, nesse caso aí do tarifácio, elas dificilmente serão contestadas porque são instrumentos jurídicos claros que dão à presidência da República o poder ali emergencial de impor tarifas.

E não tenho dúvidas, obviamente é uma decisão muito recente, Trump vai buscar fazer o mesmo para satisfazer ali a demanda da questão migratória. E muito provavelmente ele vai nessa linha ali de tentar abrir um flanco para os estados mais conservadores implantarem suas próprias políticas, como a própria Suprema Corte já decidiu no caso antes dos direitos ali relacionados ao aborto, e agora, como a reportagem citou, também ali na questão dos atletas trans.

Ou seja, ele vai atacar nessas duas fontes: legislação federal por um lado, quando é possível, como foi no caso das tarifas, e delegar aos estados funções referendadas pela Suprema Corte dentro da lógica do federalismo americano, que chancelem esse estilo de política mais conservador de ultradireita.

?Voz A

A gente está discutindo todas essas questões, boas delas têm a ver com questões ideológicas, em parte tem que ver com a guerra cultural, em parte tem que ver com questões sociológicas importantes. E qual é a manchete que Trump ocupou agora nos Estados Unidos e fora? Donald Trump fez mais de 1 bilhão de dólares desde que ele voltou à presidência e, estou citando aqui, ganhou centenas de milhares de dólares licenciando Bíblias, relógios e perfume enquanto ocupa o cargo.

Mais ainda, o conglomerado da família e do presidente ganhou US$2 bilhões desde que voltou à Casa Branca. E isso não é interpretação de adversário político dele, isso daí é a divulgação de dados referentes a 2025, oficiais, incontestáveis. Eles têm uma extraordinária, sem paralelo, paralelos, sucesso em abrir novos negócios, em vez de acabar com os negócios que poderiam trazer conflito. Está aí a vitória do Trump. Isso aí chama-se, em bom português, corrupção.

LSLourival Sant'Anna

É, ele levou para aquela viagem à Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, levou o cunhado dele. Cunhado, desculpa, levou o genro dele, Jared Kushner, levou dois filhos, o Donald Trump Jr. e o— esqueci agora o nome do segundo filho dele, que é quem inclusive gerencia a organização Trump, e o Steve Witkoff, que é também—

?Voz A

Parceiro de negócios.

LSLourival Sant'Anna

Parceiro de negócios. E lá, enquanto ele se reunia com os governantes desses países, esses familiares e parceiros estavam ali junto também fazendo business. Aí tinha fundo de investimento, investimentos diretos, recebendo investimentos e tal. Então, e agora nessas Nessas idas e vindas do petróleo, existe investigação sobre inside trading, antes de começar...

?Voz A

Eles ganharam na bolsa um frango.

LSLourival Sant'Anna

É, porque cada coisa que ele diz, é só ele fazer o movimento de comprar ou de vender antes e você ganha centenas de milhões de dólares.

?Voz A

E a gente se preocupando com coisa séria. Queria, começando por você, alguns agradecimentos, em primeiro lugar a você. Professor Vinícius Rodrigues Vieira, professor de economia da FAP, Relações Internacionais, da FGV, do IDP. Obrigado por ter estado conosco. Boa noite, Vinícius.

VRVinícius Rodrigues Vieira

Muito obrigado, William. Muito obrigado, Lourival. Boa noite a todos.

?Voz A

Igualmente, Lourival. Muito obrigado por estar a bordo do WW. Vá, por favor, à nossa página no site da CNN, a página WW. Tem muito mais material para vocês sobre o que a gente trata aqui de internacional e doméstico. Essa edição fica por aqui. Obrigado e boa noite.

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