Trump falha em reeditar o "modelo Caracas" no Irã
- Relacoes EUA-IraVolatilidade extrema dos preços do petróleo · Bloqueio do Estreito de Hormuz · Risco geopolítico global · Impacto na China e países asiáticos · Subprodutos essenciais: enxofre, nitrogênio, gás natural · Ambivalência de Trump sobre objetivos da guerra
- Banco MasterContrato do escritório de Vivian Morais com o Master · Valores milionários e falta de transparência · Envolvimento de ministros do STF · Pedido de CPI por Alexandre Vieira · Crise de credibilidade do Supremo Tribunal Federal · Ética da advocacia e filhotismo · Pressão política para investigação
- Percepcao publica STFFalta de credibilidade da instituição · Vazamentos de informações confidenciais · Conflito entre poderes · Papel do Conselho da República · Falta de mediação entre poderes · Clima de desconfiança entre ministros
- Conflito EUA-IrãPolítica de preços da Petrobras · Pressão inflacionária · Arrecadação tributária aumentada · Déficit primário e contas públicas · Especulação no mercado futuro de petróleo · Competição entre refinarias privadas e Petrobras
- Preços de Combustíveis e PetróleoPressão para Petrobras segurar preços · Efeito psicológico do reajuste de preços · Ano eleitoral e impacto político · Competição refinarias privadas versus Petrobras · Possível responsabilização da Petrobras por danos
- Implicações estratégicas da guerra para China e ÁsiaDependência chinesa de petróleo iraniano · Importância do Estreito de Hormuz para comércio · Pressão diplomática da China · Possível intervenção econômica chinesa · Impacto em preços de energia na Ásia
- Inflação e Política MonetáriaCautela do BC ante volatilidade · Possível redução de juros · Incerteza sobre taxa Selic · Arbitragem entre controle inflacionário e crescimento · Pressão de custos de combustível na inflação
Boa noite, até a CNN Brasil e este é o WW. Donald Trump não encontrou ainda no Irã uma Delci para chamar de sua. Delci era vice-presidente da Venezuela quando Trump capturou o Nicolás Maduro e se mostrou disposta a transformar o país numa espécie de vassalo dos Estados Unidos desde que o regime continuasse no lugar. No Irã, a estratégia Venezuela não funcionou, pelo menos até agora.
objetivos declarados para ter iniciado com Israel a guerra contra o Irã. Descapitou o regime repugnante dos ayatollahs, devastou parte das forças armadas daquele país, mas parece agora procurar um caminho para declarar a vitória. Ao ensaiar isso hoje, Trump causou um recuo dos preços do petróleo que a guerra dele tinha jogado nas alturas, pois os mercados e os governos ao redor do planeta entendem que o fator
fundamental para se calcular o efeito da guerra sobre a economia global, fora o resto, o fator fundamental é o tempo de duração. Do jeito em que está, a curto prazo, os Estados Unidos sofrem menos do que a Europa e a Ásia. O Brasil fica dividido entre vantagens, pois exporta petróleo, e desvantagens, pois a energia cara aqui dentro pisa na inflação, pisa no Banco Central e pisa na popularidade do presidente disputando reeleição.
E como toda guerra de escolha, determinar quando e como vai acabar, dificilmente fica sob controle de quem começou. Em vez de uma adeucida Venezuela, o brutal regime iraniano escolheu para sobreviver e continuar mais uma figura de dentro do imenso aparato religioso, administrativo, econômico e militar. Trump queria até influir nessa escolha. Na Venezuela, tinha alguém para combinar o jogo.
Não. Vamos tratar nessa edição do Petróleo e o Brasil com a guerra no Irã e do escândalo do Master. Antes aos participantes da roda. Nosso time completo, não vou falar mais nada, é tão bom ver o time completo que vira notícia. Daniel Ritner em Brasília, boa noite. Thaís Herédia voltando, que bom ter você de volta, Thaís. Boa noite. Caio Junqueira, boa noite também. Vamos ao primeiro assunto. O senador Alessandro Vieira disse que protocolou
Hoje, o pedido de abertura de uma CPI que mira a conduta dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do STF, no escândalo do Master. Hoje, pela primeira vez, o escritório da Mulher de Moraes falou sobre a relação com o banco de Daniel Vorcaro. A reportagem é de Carol Rosito. O escritório Bárcio de Moraes disse que atendeu o Master de fevereiro de 2024 até novembro de 2025, quando o banco foi liquidado.
três escritórios sob sua coordenação e listou as atividades que teriam sido executadas à luz do contrato com o banco. 79 reuniões presenciais na sede do Master, 13 reuniões com a presidência do banco, sendo duas presenciais, 36 pareceres jurídicos. O escritório detalhou as áreas de atuação, entre elas, governança, política de relacionamento com o poder público
regime próprio da Previdência Social. A nota afirma, no entanto, que nunca atuou em causas do Master no Supremo Tribunal Federal, onde um dos ministros é Alexandre de Moraes, marido de Viviane. Também não fala no valor do contrato, já revelado, de R$ 129 milhões. Até hoje, as revelações do caso Master levaram Alexandre de Moraes e Dias Toffoli a emitirem 13 notas oficiais, expondo uma crise de credibilidade
precedentes para o STF. Uma ala do Supremo vê, inclusive, como insuficientes as explicações de Moraes para conter a crise. As suspeitas sobre Toffoli e Moraes levaram a um movimento liderado pelo senador Alessandro Vieira pela abertura de uma CPI específica para apurar as condutas dos dois ministros. O colegiado teria um escopo diretamente apontado para o Supremo,
Caso Bancomaster como um todo. Vieira disse que já conseguiu 29 assinaturas, número mais que suficiente para a instalação da CPI, mas a iniciativa enfrenta a resistência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. A crise no STF se amplia pelo incômodo do decano Gilmar Mendes com vazamentos que ocorreram na operação cujo relator é André Mendonça.
Bom, todo mundo que lida com política em Brasília atribui mínimas chances dessa CPI decolar, mesmo tendo as assinaturas necessárias, sendo protocolada e tudo mais. Há alguma esperança?
Daniel Rittner, que a CPI decolhe? William, política é como nuvem. Você olha em um momento, ela está de um jeito, você olha logo depois, está de outro. A preços de hoje, certamente é muito difícil de esta CPI sair. Aliás, eu estava olhando aqui a lista dos senadores que já assinaram essa CPI de iniciativa de Alessandro Vieira, você não acha nenhuma assinatura de senadores do PT, nem, obviamente, de Ciro Nogueira. Esse é um detalhe que é bom comentar.
Agora, Tavia Columbre é uma figura muito próxima de alguns ministros do Supremo, principalmente de Alexandre de Moraes. É um senador e um presidente do Congresso que está de olho na sua reeleição em fevereiro do ano que vem e precisa fazer aceno para muita gente e não quer comprar brigas. E a gente tem ali outros dois fatores.
tem uma série de cargos nos quais ele tem interesse, então quer fazer alguns acenos para o governo também. E é um momento ali do ano legislativo em que você tem, na prática, mais dois meses e meio de Congresso funcionando. Estou contando aqui que junho a gente tem festa junina e Copa do Mundo o Congresso já para. A partir de julho, então, nem se fala, já começa a campanha de todo mundo. Nasceu morta a CPI?
Sim, para esse ano é muito difícil, praticamente impossível, William. O que vai mover o caso Master esse ano? São dois fatores, Polícia Federal e André Mendonça, o que é bastante coisa, se considerar que a classe política, o establishment, a cúpula dos três poderes, não quer que essa investigação avance. Então, para 2026, André Mendonça e Polícia Federal. Para 2027, depende, claro, do resultado da eleição, muito provavelmente se a oposição ganha a eleição, Flávio Bolsonaro, Davi Alcolumbo não deve ser o presidente do Senado,
deve ser um outro nome, talvez a Tereza Cristina, talvez algum outro nome alinhado ao Flávio Bolsonaro. E aí, com o Senado majoritariamente à direita, aí essa agenda deve andar. Mas essa agenda, do ponto de vista criminal, só anda neste ano com esses dois, do ponto de vista político, a eleição. Porque a eleição vai cobrar o peso do Master e o peso dos envolvimentos dos seus candidatos com o banco. Bom, se a gente olhar para o outro fato hoje,
que teve grande divulgação, Thais, foi ao escritório da Mulher do Moraes, fazendo uma lista detalhada de serviços prestados dentro desse... Como é que eu vou caracterizar? Astronômico. Astronômico, não tem um nome. 130 milhões de reais, nenhum escritório de advocacia recebeu. Ela só levou 80, né? Porque o contrato foi interrompido. Porque fecharam o banco. Agora, ao contrário do que se espera, ou que se calculava,
A divulgação não parece ter tornado a crise mais amena, ao contrário, ela levanta mais perguntas. Pelo contrário, William, hoje eu conversei com advogados, tanto que atendem o setor financeiro, quanto os que atendem, que são criminais. Ninguém consegue chegar num valor nem na metade, nem num terço desses 80 milhões de reais. Se a gente já questionava que esse contrato, que não existia referência de nada parecido,
isso. Aí hoje, por exemplo, um advogado me disse assim, olha, vamos supor que uma grande empresa vai fazer um IPO, uma abertura de capital, que envolve alguns bilhões. E aí você contrata grandes escritórios de advocacia, que inclusive precisa de mais de um escritório. E na hora de repartir o ganho do IPO, você pode chegar a cifras desse tamanho. Mas não para o tipo de atendimento, ainda mais agora, depois que explicou o tipo de atendimento, não faz nenhum sentido.
A palavra mais leve que eu ouvi hoje foi ofensivo. A explicação é ofensiva. A explicação leva ao debate da conduta da ética e da conduta ética da advocacia para os advogados. Então, a gente já recebeu o Leonardo Sica aqui, presidente da UAB de São Paulo, que a gente questionou sobre isso com ele e tem esse ponto.
das conversas que eu tive hoje, é que eles me disseram o seguinte, olha, então a advocacia vai ter que discutir como agir. Agora, as empresas também vão passar a se perguntar qual é o grau de risco moral que eu tenho a fazer contratos com certos escritórios. Porque contratar escritório de filho e parente de ministro foi o hit dos últimos anos. E os escritórios com parente de ministro cobravam
muito mais do que qualquer outro. Então, qual é o risco moral de você realmente achar que pagar mais caro só porque ele é parente de ministro e isso acabar se transformando num escândalo, o quanto que isso pega também na reputação da empresa? Então, a discussão sobre a ética da advocacia, nem vou falar da ética do STF, que isso é outro assunto, e uma discussão também sobre, não a ética, mas qual é a gestão de risco que as empresas vão passar a adotar,
na hora de achar que contratar um parente de ministro pode até sair mais caro, mas vai resolver tudo. Mas a maioria dos contratantes do filhotismo são grandes empresas. Outro dia eu almocei aqui com um grande advogado, ele me disse que a advocacia hoje está dividida entre o filhotismo, metade são dos filhos e a outra metade virou lobista, os advogados. Porque os advogados hoje, que é aquela advocacia clássica, da tribuna, do parlar e do falar,
do direito, do código, isso aí, esses que atuam nesse sentido, que é a advocacia clássica, perderam espaço para os filhos, mulheres e para os lobistas, que muitos viraram lobistas. O Daniel quer falar? Perdão. Gente, só para continuar na toada da Thais aqui, eu proponho aqui para a nossa audiência, sem encher de números, uma aritmética relativamente simples. O contrato da Viviane Barsi foi interrompido quando ela já havia embolsado praticamente 80 milhões
Vamos supor que metade disso ela recebeu por pareceres, que foram 36. Então dá mais de um milhão por parecer. E aí o restante foi por reuniões presenciais ou semipresenciais. Divide o restante do dinheiro por essas reuniões e a gente vai ter por cada reunião dezenas de milhares de reais em pagamento. O que isso mostra para mim? É aquele ditado que o sapo não pula por boniteza.
durante semanas, um ministro do Supremo, Toffoli, escondendo que era sócio do Tayhaya, quando todo mundo estava falando disso. Preferiu esconder, preferiu não virar público. E a gente passou três meses aqui discutindo um contrato que muitos diziam que sequer existia. Então, o Supremo se apequena com tudo isso. Não é só a Viviane Barsi, é o Supremo.
de primeira instância, por exemplo, se os ministros do Supremo estão cercados de suspeitas, verdadeiras ou não. Isso mostra, no fundo, no fundo, eu gosto muito daquele ditado de um historiador que dizia o seguinte, a Constituição deveria ter dois artigos só. Primeiro artigo, todo brasileiro deveria ter vergonha na cara. Segundo artigo, revogam-se todas as disposições em contrário. Curiosamente, é sobre esse efeito multiplicador. Não é efeito multiplicador.
É o efeito imitação, que o relator do caso Master no Supremo tem falado em público. Comentamos isso, ele fechou o evento no qual ele participou lá em Frankfurt na semana passada, o ministro André Mendonça, dizendo o seguinte, o que preocupa de grande forma as pessoas que olham para o que a gente já mencionou, crise de credibilidade, legitimidade do Supremo, é o fato das pessoas olharem para lá, para essa instituição, sem a qual sabemos que não existe convívio social,
possível. Não dá para imaginar um país sem Judiciário, sem Supremo. Mas as pessoas olham para essa instituição e pensam assim, ué, se eles andam assim, por que eu vou andar certinho? Então, no caso dessa crise, é óbvio que há uma enorme dificuldade, eu estou querendo colocar isso no plano mais teórico, em estabelecer os limites da relação entre o Judiciário e o Parlamento. No caso do Brasil, o Parlamento se queixa do Judiciário extrapolando suas funções. O Judiciário, o Parlamento agora propõe uma CPI para
investigar o judiciário. Nós estamos indo para a guerra de todos contra todos? É, então, e quem vai ser o mediador dessa confusão, né, William? Porque hoje, por exemplo... Um presidente fraco e sem poderes, esse vai ser o mediador. Então, mas com qual legitimidade? Com qual legitimidade? Quem deu ao presidente da República a legitimidade de atuar numa mediação de conflitos entre os poderes? Vocês vão se lembrar aqui no governo de Jair Bolsonaro que criou-se aquele Conselho da República. Vocês se lembram disso ou não? Inclusive,
Coordenado por Dias Toffoli. Depois daquele ataque que Bolsonaro fez, dizendo que não ia cumprir decisão do Alexandre de Moraes, o Michel Temer entrou na história. Criou-se o tal do Conselho da República, como se os presidentes dos poderes sentassem juntos, tomassem um café e tudo fosse resolvido. Agora não é assim. Hoje, por exemplo, tem a apuração de que tem gente no Congresso Nacional, tem bancada no Congresso Nacional,
Querem entrar com o mandado de segurança no STF para investigar o STF. Então, é um roteiro inédito em que os papéis estão se misturando e você não consegue dizer assim, tá, mas quem é que vai ser esse mediador? É o Conselho Nacional de Justiça? É o Procurador-Geral da República? Quem é que vai dizer, olha, agora você fala, agora você fala, agora você apresenta as provas? Com quem está o ônus da prova e com quem está a prerrogativa?
tentativa de desempatar o jogo. Em Brasília, hoje, Daniel Ritino, como é que caiu essa nota do escritório da Moliago Moraes? No Supremo, se a gente for analisar, eu me lembro quando começou a chegar ali a investigação do 8 de janeiro, e eu vou fazer referência a isso porque eu queria comparar com o que a gente está vivendo hoje, havia um clima de cooperação entre os gabinetes dos diversos ministros. Então, muitos até discordavam se o caso deveria
no Supremo, se ali os arruaceiros deveriam ir para a primeira instância, mas havia, isso sim, um clima de cooperação. Qual fosse o caminho a seguir, os ministros se dispunham a mobilizar suas equipes, a trabalhar juntos. Hoje o que a gente vê no Supremo não é isso, é um clima de desconfiança, de consternação, de cada um ou pequenos grupos falando por si e nisso
A nota não aliviou. Do lado do Congresso, existe um desejo ainda minoritário e dependendo dos presidentes da Câmara e do Senado para avançar, que são as CPIs. Tem recado já do Supremo dizendo assim, não, não, não, está no regimento interno do Supremo, que CPI não pode investigar a justiça. CPI só pode investigar outros fatores. Quem investiga o Supremo é o próprio Supremo. E no governo existe uma sensação muito mista.
um medo ali de olhar Flávio Bolsonaro chegando cada vez mais perto nas pesquisas e de dizer, caramba, vamos ficar longe desse escândalo que está fazendo muito mal para a gente. Mas tem uma ala pequena do governo, no final das contas, que defende que, olha, a gente tem menos a perder do que outros, então vamos adiante. Vai pegar só o PT da Bahia, quem sabe? Vai pegar o Rui Costa, vai pegar o Jax Wagner? Então está pagando para ver. No final das contas, me parece que a gente está num clima ali.
redes sociais, de um apontando para o outro, a gente vive mais esse clima. O que o governo acha que pode fazer no meio desse tiroteio? Bom, a tentativa, William, é de vincular o escândalo à direita. Até agora é infrutível? É, até agora não conseguiram, porque a ideia lá atrás sempre foi essa, né? Quando a gente lia, inclusive, os mais alinhados ali ao governo, eles colocavam muito essa... que o caso massa iria pegar o Centrão.
Pega o centrão. Pega a direita. Mas esses personagens que são pegos no centrão e na direita até agora, eles não são candidatos a presidente como o presidente Lula é, que recebeu o Daniel Vercaro cinco vezes, cujo ministro da Justiça o filho tinha contrato com o Daniel Vercaro, cujo ex-ministro da Fazenda era consultor do Daniel Vercaro, cujo ministro que ele indicou para o Supremo Tribunal Federal era o advogado do PT, o Dias Toffoli, cujo principal aliado do governo no Supremo é o Alexandre de Moraes, que também está diretamente envolvido. Então pega mais.
O governo ensaia esse discurso de dizer que é um caso da direita, que o problema focal é do Daniel Vercaro com a direita. Agora, não tem conseguido neutralizar o envolvimento dos seus com o Master e nesse cenário do Flávio Bolsonaro empatando, que está deixando o governo tudo extremamente tenso com essa situação. Caio, eu vou encerrando esse segmento aqui.
Boa noite por hoje. A gente vai para o intervalo. Na volta, vamos tratar os reflexos da guerra no preço do petróleo e a escolha do novo líder supremo no Irã. Até já. O WW está voltando do intervalo. Conosco agora participando do programa, Davi Zilberstein, professor do Instituto de Energia da PUC do Rio, ex-diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis. Davi, obrigado por estar conosco. Boa noite aí no Rio.
Obrigado. Boa noite para você, William, e para todos. E o nosso Lorival Santana. Boa noite, Lorival.
Passou dos 100 dólares. É uma barreira psicológica, mas significativa o preço do barril de petróleo hoje. Depois voltou. Voltou porque da mesma maneira que o petróleo subiu a beça graças a Donald Trump, ele voltou a cair no mercado depois que o presidente americano andou dizendo, primeiro numa entrevista para a CBS, depois ele corrigiu-se um pouco, mas ficou no ar a ideia desse breve alívio para os investidores
olha, próximo da gente conseguir o que queria. A frase dele é um pouquinho diferente. A guerra está quase completa. Dá para traduzir como está próximo do que eu queria. E isso, essa, digamos, possibilidade que a greve, que a greve, perdoem, olha só que bobagem que eu estou falando, que a guerra possa ser enterrado é que deu um respiro aos mercados. Confira. Trump insistia que a alta nos custos do combustível seria curta e um mal necessário.
O financeiro não vinha comprando a versão da Casa Branca. Pela primeira vez desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022, o preço do barril do tipo Brent, referência para o mercado internacional, ultrapassou os 100 dólares. No fim do dia, o mesmo produto chegou a bater menos de 85, uma variação de mais de 20 dólares ao longo do pregão, algo tratado como incomum. O alívio temporário nos custos veio por causa de declarações de Trump de que a guerra teria um fim próximo.
No entanto, a incerteza persiste. Isso porque ainda não há sinais claros da abertura do Estreito de Hormuz pelo governo do Irã. Uma parte importante do combustível comercializado pelo planeta passa, ou costumava passar pelo local. No dia 5 de março, somente seis embarcações passaram por ali. Dez dias antes, em 25 de fevereiro, foram 152.
e dos preços. Outros países também pensam em planos para a reabertura da passagem.
do Charles de Gaulle para a região como forma de garantir a segurança de embarcações do país. Em um hangar militar, o presidente francês Emmanuel Macron diz que prepara, em conjunto com países aliados, um projeto para a reabertura do estreito.
O resultado do bloqueio já é sentido nas bombas de abastecimento de diversos países, inclusive os Estados Unidos. A média nacional para a gasolina atingiu o maior nível para ambos os mandatos de Trump. Isso é uma preocupação para o republicano, já que ele foi eleito com a promessa de reduzir e manter baixos os custos do combustível.
Consumidores europeus também sentiram efeito e já começam a ver um aumento nas contas de gás, produto também afetado pelo conflito. No Brasil, refinarias privadas alertam que caso a Petrobras tente segurar o repasse da alta do petróleo, o resultado seria uma desorganização no mercado de combustíveis. Sem conseguir competir com os preços abaixo do mercado da estatal, importadores deixariam de trazer combustível para o país.
E as empresas privadas poderiam reduzir os volumes de produção, visando reduzir perdas. Davi, todos entendemos que a magnitude desse choque depende do tempo de duração da guerra. Que até aqui há indicações, porém não muita certeza de que seria curto. Mesmo assim, e olha que é uma premissa para a gente começar a conversa. Mesmo assim, pode-se avaliar a profundidade e a abrangência do choque até aqui?
primeiro, você tem um paradoxo aí, se você pegar pela ordem, quem são os principais prejudicados pelo que está acontecendo no State de Almoço, o primeiro prejudicado é o Irã, porque o Irã exporta 90% do petróleo dele para a China, ele depende, é praticamente toda a sua pauta das exportações ao petróleo, e 40% do PIB iraniano, então o Irã, de alguma maneira, está dando, não é nem um tiro no pé,
lados vai estar sendo prejudicado. O segundo prejudicado, o principal, é a China. Porque é a China que importa 70% do seu petróleo e 40% desse petróleo, quase 50% desse petróleo, também passa pelo Estreito de Hormuz. E o terceiro são os países produtores da região. Então, você tem aí esses impactos que foram elencados agora na reportagem, mas você vai ter agora, eu entendo, uma pressão muito forte de países, e eu diria principalmente a China, que tem
interesse também que esse conflito termine rapidamente. A China não vai intervir, não é hipótese, pelo menos diz a racionalidade que a China vai intervir militarmente. Então ela pode intervir diplomaticamente e economicamente no Irã, que é um estrangulamento da principal fonte de divisas do Irã também. E completando, acho que você tem outras questões aí que não são, a gente está vendo bomba de gasolina, está vendo aquecimento, mas você vai ter problemas na exportação de subprodutos
essenciais, como, por exemplo, o enxofre para você fazer ácido sulfúrico, que é necessário para a mineração no mundo inteiro. Praticamente todo enxofre sai de lá. Você tem problemas de abastecimento de gás de países, como Taiwan, por exemplo, que 10% da energia elétrica vem do gás natural e a maior parte dos 3 diormuz. Você tem os nitrogênios para fertilizantes. Então, a questão é muito mais abrangente do que parece e eu diria que os prejudicados, de alguma maneira, vão ter que
dar uma solução para isso, independente até do conflito, de alguma maneira, terminar ou não em curto prazo. Dorival, seria o que o Davi nos está descrevendo, talvez, uma possível forma de se entender as palavras do Trump hoje? Acho que o Trump continua sendo bastante ambivalente. Não é possível fazer isso, ou seja, não dizer que vai elevar em 20 vezes os ataques,
Ao Irã não é uma forma de tranquilizar os mercados, de apaziguar a situação. Por quê? Porque é muito fácil fechar o Estreito de Hormuz. Não é preciso ser militarmente superior, não é preciso nem sequer ter um regime funcionando. Um grupo como os Hutis, por exemplo, poderiam fazer isso. Com minas marítimas, com toda sorte de desestabilização. E esse é um mercado muito sensível.
E olhando para a geografia do que está acontecendo, fica fácil entender por que o Mohammed bin Salman, que é o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, foi o principal incentivador do Trump para realizar esses ataques, porque o petróleo e gás liquefeito da Arábia Saudita sai também pelo Mar Vermelho e a elevação dos preços favorece muito quem continua no jogo.
Bin Salman advertiu o Irã com palavras muito fortes, sem precedentes, de se o Irã continuar, a Arábia Saudita vai entrar e vai revidar. Então, o quadro não é de estabilidade, não é de estabilização, existe um jogo geopolítico que converge para o recrudescimento dessa crise. William, deixa eu pegar aqui carona no que o Lorival está falando, porque esse cenário que ele descreve é o que explica,
a altíssima volatilidade dos mercados hoje. O mercado não suporta o grau de volatilidade que viveu hoje. Começar ontem à noite, à madrugada, com o petróleo disparando 20% e terminar o dia hoje no aftermarket, mesmo depois que os negócios fecharam, mas ainda tem negócio, com o petróleo em queda, com a referência da sexta-feira. Esse é o grau de volatilidade que o mercado internacional não suporta, porque o descolamento do fundamento,
para a tomada de decisão, para a formação de preços, ele é muito radical. Então, só que assim, se a gente esticar a corda, o agente da volatilidade é o mesmo. É Donald Trump que fez a guerra começar e provocou uma instabilidade nos mercados e uma piora no preço do petróleo. E aí, quando ele fala que ele vai proteger o Estreio de Hormuzi e que a guerra está acabando,
mercado. Então, esse duplo papel de Trump como provocador, ele já fez isso quando ele atuou na guerra comercial e ele faz isso agora num conflito dessa natureza que por si só já é imprevisível. Nós estamos falando aqui de questões pontuais, de necessidades pontuais e tal, mas hoje a Georgina, esqueci o sobrenome dela, do FMI, diretora gerente do FMI, ela disse o seguinte, olha, embrace for impact, se protejam
para o impacto, porque o que a gente está vendo hoje e os efeitos disso na economia podem ser muito maiores, porque a fonte, o agente da imprevisibilidade continua atuando. Ela usou aquela frase famosa do Captain Sully quando pousou o Airbus sem motores no Rio Hudson, mas foi em Nova York. Brace for impact. É brace, não é embrace. É brace for impact. Só que ali todo mundo se salvou.
brasileiro está vendo essa situação. William, curioso, hoje eu tentei, até falei com o secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, que me pediu, olha, eu só consigo fazer uma análise daqui a alguns dias, tamanho o grau de volatilidade que a Thais bem descreveu. Mas se a gente pega algumas simulações das instituições financeiras, o BTG Pactual calcula, por exemplo, que mantida a atual taxa de câmbio, 5,20 por dólar, e com um Brent a 100 dólares, claro que não dá para a gente prever, mas se esse patamar, porventura, se estabiliza,
o governo consegue zerar seu déficit primário e aí levando em conta pagamento de precatório, gasto que é excetuado para investimento em defesa, etc. Porque você tem basicamente R$ 45 bilhões a mais de arrecadação adicional com tributos, royalties, participações especiais e R$ 10 bilhões a mais de dividendos da Petrobras sem levar em conta o acionista minoritário, ou seja, só para o Tesouro Nacional mesmo.
são capazes de transformar um déficit primário de meio ponto do PIB em zero. Agora, tem uma pressão de custos também. Isso significa mais inflação e até mais dificuldade para o Banco Central de baixar os juros. Então, existe um temor, paralelamente, por parte, por exemplo, das refinarias privadas e dos importadores de combustíveis, de que a Petrobras segure os preços, porque, afinal de contas, é ano eleitoral. E isso prejudica demais a atuação dos importadores,
ver sentido nessa operação, das refinarias privadas que ficam inviabilizadas de competir com a Petrobras e incorrem, pode haver inclusive mais adiante, uma própria responsabilização da Petrobras por esses danos causados. A chave da questão se o petróleo segura sim é a política de preços da Petrobras, se vai ser repassado para o mercado interno ou não, o que ninguém sabe porque afinal não existe uma regra clara para ninguém depois do fim do PPI.
Como você está vendo esse impacto no Brasil, Davi? Em boa parte, primeiro, só uma observação em relação ao que a Thais colocou, esse mercado futuro é muito especulativo. Eu entendo que você tem a volatilidade efetiva em relação à oferta e demanda, mas vocês podem ter certeza que muita gente ganhou dinheiro com isso. Quando a gente fala em petróleo, a gente está falando em papel na maior parte do tempo e você compra um índice de petróleo.
a 90 e vendeu a 120 e por aí vai. Então, é difícil precisar quanto é exatamente isso. Agora, em relação ao que o Daniel falou, ele tem toda a razão, porque o grande desafio do governo vai ser arbitrar exatamente isso, ou seja, ele vai apostar em fechar o déficit que, de alguma maneira, pode acarretar até a redução de taxa de juros, que é bom para a sociedade, de uma maneira geral, mas, por outro lado, você tem, do outro lado, são vasos comunicantes, você tem quase certeza de que
vai ter um aumento de inflação pelo peso dos combustíveis. Quer dizer, essa arbitragem do governo deve estar, de alguma maneira, mexendo muito com a cabeça do pessoal da fazenda, mas principalmente em relação à Petrobras. Quer dizer, a gente teve no passado esse movimento de segurar os preços de uma maneira artificial e a Petrobras chegou à beira, ela não quebrou por ser uma empresa estatal com o poder, a força que ela tem. Aquela história a gente está mencionando,
to fail, quer dizer, mas ela foi muito próxima desse limite, quer dizer, a lição deve ter sido entendida, eu acho que quem está lá na Petrobras é gente, na minha opinião, é gente responsável, e eu acho que essa arbitragem vai ser uma coisa muito do acionista principal, controlador, que é o governo, o conselho de administração da empresa, que também tem muita responsabilidade em relação a isso, e essa questão do balanço dos vasos comunicantes, como foi colocado aqui, você arbitra por um lado, a questão de você
O que é um presente, uma dádiva, você poder zerar o déficit em função de um fator externo que não tem nada a ver com nenhuma política interna. Por outro lado, ter que ver até que ponto você aguenta a inflação que vem junto com isso aí. Qual é a sua pegada? Vou só continuar um pouquinho mais na Petrobras e volto. O que você acha que vão fazer até isso? William, a fórmula para segurar a Petrobras está dada. A defasagem no preço do diesel está gigante.
Exato, já começa, tem movimentos especulativos gigantescos com o preço do diesel mexendo na bomba já. O Fernando Nakagawa hoje trouxe assim, na mesma cidade você tem o litro sendo vendido a R$ 9,00 e a R$ 5,00. Então, a especulação que o Davi lembra aqui do mercado de petróleo, ela também existe na bomba de gasolina, a pressão vai aumentar.
governo, que é o Banco Central. Porque hoje o mercado recuou na aposta de uma redução de 0,5% da taxa de juros na semana que vem. Porque será que o Banco Central, que está em modo de cautela, está agindo sob cautela, vai aumentar a dose de cautela diante do grau de imprevisibilidade e de incerteza? Porque essa volatilidade que eu citei aqui do preço do petróleo, no petróleo ela é especulativa, é especulativa também no mercado
de forma diferente. A volatilidade e a imprevisibilidade são um fator hoje predominante nos mercados em geral. Então, se de qualquer forma isso provocar uma reação mais contida do Banco Central, aí o governo vai ter que escolher, vai brigar com quem? Vai brigar com a Petrobras ou vai brigar com o Banco Central? Quem está definindo isso no governo, Daniel? Desculpa, William, não consegui te escutar. A pergunta parece simples, mas era maldosa. Quem está definindo isso no governo? Olha, William,
É tão nova essa volatilidade, pelo menos da gente falar. Primeiro, o petróleo estava em 65 dólares, passou para a faixa dos 80. Agora, indo para 100, se ele se mantiver, é muito difícil ponderar isso dentro do governo, porque é um fator extremamente novo. Não me parece que o governo consiga resistir, num ano eleitoral, a segurar, ou pelo menos tentar segurar os preços e evitar um repasse integral.
por parte da Petrobras para a bomba de gasolina. Agora, tem um ponto ali, sem falar especificamente sobre essa questão, que é o papel de Sidonio Palmeira. Em vários temas, incluindo aquele aumento de imposto para bits e BK, celulares, emerge sempre a voz de Sidonio dizendo, olha, vai por aqui, vai por lá. Então, ele, em grande parte, passou a ser também um formulador, em última instância, de política econômica.
Último, Davi, temos o secretário de marketing político do governo determinando o preço da Petrobras? Faz sentido, faz sentido, porque em ano eleitoral, o preço da gasolina, antigamente, vocês devem lembrar, é que o preço era tabelado. Hoje o preço, até está falando, porque hoje o preço na bomba não é mais tabelado, é um preço liberado. Quando o preço era tabelado, e na hora do jornal das oito, dizia assim, o governo acabou de autorizar o aumento a partir de amanhã,
centavos no preço da gasolina. É psicológico. As pessoas saem correndo, enchem o tanque e, às vezes, perdem mais tempo numa fila, gastando combustível, esperando para abastecer. Isso era no passado, diga-se o passado. Isso está comprovado. Você tem estudos que mostram que o fator é psicológico em termos de tendências ou de percepção em relação ao consumo de combustível. Isso é muito importante. Isso pega claramente em termos eleitorais. Não tenha dúvida nenhuma
tem a ver com marketing sem eleitoral. Uma questão interessante que eu acho que vale a pena colocar é que se eventualmente, como falou o presidente dos Estados Unidos, houver uma interrupção da guerra e se eventualmente o mercado voltar ao normal e até com a entrada do Irã com mais força no mercado, a gente pode esperar uma montanha, ou seja, um mergulho do preço do petróleo quase imediatamente com muito mais força do que ele subiu recentemente.
estava antes, quer dizer, se houver uma estabilização. E aí também, também não é ruim, é ruim para as contas públicas, mas vai ser bom também nessa questão dos aumentos na bomba de gasolina. Davi, queria começar por você. Davi Silberstein, meu agradecimento. Davi é professor do Instituto de Energia da PUC do Rio. Davi, muito obrigado por ter participado do programa Boa Noite. Obrigado, um abraço a todos. Eu me despeço também de ver os colegas aqui.
Estou recolhendo já meu caderninho, estou indo. Estou vendo, um ar demonstrativo assim.
Boa noite, Daniel. A gente continua junto. Deixei um pouquinho para lá a nossa parte internacional. Tinha essa coisa forte nos preços do petróleo aqui. Nós vamos abordar o seguinte agora. Numa entrevista à CNN, o conselheiro de política externa do líder supremo do Irã, Kamal Karazi, disse que o regime tem condições de manter a guerra contra os Estados Unidos por, palavras dele, muito tempo. Confira.
ocorreu nesta segunda-feira, em Teherã. A CNN opera no Irã com permissão do governo iraniano, mas mantém total controle editorial sobre o conteúdo que reporta.
o jogo não seria simplesmente o fim da guerra, mas os Estados Unidos e Israel concluírem que não podem mais pressionar e atacar Teherã, como tem feito. No último domingo, clérigos xiitas elegeram o novo líder supremo do Irã, Mostavá Khamenei. Ele sucede o próprio pai, morto ainda nas primeiras horas de ataques de Estados Unidos
e Israel contra Tehera. Mostabá chega ao mais alto cargo da República Islâmica após ter perdido não apenas o pai, mas também a esposa e a mãe nos ataques. Sua formação teológica ocorreu em Gom, o principal centro de formação xiita do Irã, de onde também saíram seu pai e o líder da Revolução Iraniana, o Ayatollah Khomeini. Ele ainda não é um ayatollah, mas um clérigo de nível intermediário,
Eu estava decepcionado porque...
Segundo a mídia estatal iraniana, o comandante da Força Aérea da Guarda Revolucionária, Majid Mousavi, disse que o país vai aumentar não apenas a intensidade do lançamento de mísseis, como também o alcance destes ataques. Conosco agora no programa, Michel Guerman. Michel é historiador, professor de sociologia, coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, AUFRJ.
Obrigado, Michel. Segundo meu, boa noite. Boa noite, Michel. Boa noite, tudo bom? Vamos lá, né? Tudo bom. Hoje a pergunta é difícil. Michel, está mais ou menos claro para quem lida com assuntos internacionais os objetivos políticos de Israel nessa guerra com o Irã. Em relação aos Estados Unidos, há uma discussão forte entre analistas. Quais são, afinal, os objetivos? Estamos próximos de uma decretação de vitória por parte do presidente americano?
retórico do termo. Ao que tudo indica, há um avanço em direção à percepção de que qualquer agenda a priori estabelecida não é conquistada, não é conquistável pelo menos num período de tempo em que os custos políticos para o Trump não sejam tão altos. Aí uma narrativa a ser construída baseada na eliminação
de lideranças do Estado, do Estado Islâmico do Irã, ele tem repetido isso, matamos o suficiente, matamos mais, matamos quem nós queremos matar. Eu acho que essa vai ser, por assim dizer, a saída honrosa dos Estados Unidos numa decretação de vitória que, na verdade, é o adiamento de um debate muito importante em termos de cenário internacional, que é o destino do Estado Islâmico do Irã
contexto que ele vai ser mais complexo na saída dessa guerra do que na entrada dela. Esse ponto que o Michel está levantando é muito relevante, me parece, Norival, porque se há algo que se discutiu no começo dessa ofensiva ou dessa guerra, como se quiser chamar, é a capacidade que ela teria de trocar o regime. Até aqui, a própria escolha do filho do Khamenei como sucessor dele sugere que o regime tem absolutamente segurança do que faz nesse sentido e que,
contra, na resistência ao que Israel e Estados Unidos façam, a sua razão de existir, na verdade, sua grande identidade nacional. Então, na verdade, o que se programava conseguir está longe? É, acho que quando o Trump postou, em meados de janeiro, incentivando os manifestantes iranianos a continuar as manifestações, porque a ajuda ia chegar, ele se comprometeu com esse objetivo.
de mudança de regime, mas o Trump tem uma enorme habilidade de mudar os próprios objetivos e só defini-los, no sentido de dizer, no fim, quais são, depois do desfecho. Então, é a posteriori que ele define os objetivos, ou redefine, de acordo com os próprios resultados, para dizer que venceu, para dizer que alcançou.
Ele faz isso há décadas, ele descreve esse método no livro dele, a arte de negociar, isso aí não sou eu que estou adivinhando, é o método dele. Agora, vai ficar complicado, porque, tá, eu destruí o Irã, parabéns, você destruiu um país, e aí? Quer dizer, é meio difícil transformar isso numa vitória, transformar isso num ganho político,
Eu estou curiosíssimo para ver como ele vai se sair dessa. Existe em Israel, Michel, que é um país, um contexto político histórico que você conhece tão bem, existe uma ideia desse dia seguinte no Irã? Olha, a guerra contra o Irã é uma arquitetura muito bem sucedida de Nathaniel. Nathaniel estabelece a relação entre sobrevivência do Irã e sobrevivência de Israel.
a revolução iraniana é vitoriosa, Israel está sob ameaça existencial. Essa narrativa construída nos últimos 20 anos por Nathaniel estabelece três elementos fundamentais. O primeiro elemento é que os Estados Unidos precisam evitar um acordo diplomático com o Irã. O segundo elemento é o elemento de que toda a política israelense, oposição e situação, tem que estar comprometidos com a derrota
no Irã. E o terceiro elemento é que o Irã pode voltar a ser um aliado de Israel quando a revolução iraniana for derrotada. Agora, esses três elementos, eles estão baseados nessa arquitetura de consciência de um povo inteiro que Nathaniel conseguiu fazer. O que eu quero dizer, em última instância, é que tal qual Orival falou sobre Trump, Nathaniel também tem uma narrativa bastante
bem sucedida, de mudar objetivos de acordo com a situação. Nesse sentido, Nataniel fala de que a revolução está por um triz. Os jovens estão na rua. A população está na rua. Se nós ajudarmos, a revolução cai. É claro que ele não está imaginando o que vai acontecer no dia seguinte. Até porque ele não necessariamente ganha efetivamente se a revolução
cair. O que ele está jogando é efetivamente para dizer o tempo todo que a revolução está por um triz. O problema dele, Nathaniel, é que essa revolução estando por um triz fortalece a sua posição de centralizar o debate sobre Irã na política israelense. Efetivamente não interessa Nathaniel o dia seguinte no Irã, tal qual não interessava Nathaniel o dia seguinte em Gaza. O debate de Nathaniel
É um debate sobre estética da guerra, não sobre projetos políticos do depois da guerra. Ok, Michel. Mas aí eu acho que é a questão que se impõe tanto a você quanto ao Lourival. Independentemente do que a gente possa considerar que sejam as vantagens que um dirigente político comunitário espera para si mesmo, pelas decisões que ele toma, as decisões que ele toma têm consequências. Como o Lourival vinha dizendo, os Estados Unidos vão lá e devastam o Irã,
Sobre qualquer perspectiva. E aí eles têm que lidar com um dia seguinte. Com qual eles estão tendo que lidar nesse momento, Lorimão? Eu tenho um meme de hoje que é muito bom, uma ironia, que diz assim, os Estados Unidos demoraram 20 anos para substituir o Talebã pelo Talebã. E gastaram trilhões de dólares. E trilhões de dólares. Agora eles levaram nove dias para substituir um Khamenei por um Khamenei.
presidente mais efetivo da nossa história. Não há o que questionar sobre a eficácia desse presidente, né? É genial isso aí. É. Assim, é claro que essa história não acabou ainda, né? Israel vai fazer tudo que puder para matar o Mostaba. E já vimos que Israel era bom nisso. Mas, tá. E aí? Eu lembro de uma música do Raul VI, né? Você mata a mosca e vem outra em meu lugar, né? Como é que você substitui o regime iraniano? Sem tropas no terreno.
sem realmente uma operação militar parruda, de grande envergadura. Não consegue. A Guarda Revolucionária, com seus 190 mil soldados e os Bassidis, com seus 600 mil a um milhão de, vamos chamá-los de agentes, de policiais, estão lá para controlar esse povo desarmado, desarticulado politicamente, sofrido, muito sofrido com repressões,
sangrentas. Então, está faltando aí um elo fundamental nessa corrente. Agora, Michel, voltando a esse ponto da sobrevivência do regime iraniano, em janeiro, Israel tem grandes especialistas em Irã, há mais de 30 anos, por sinal. Vários deles vieram a público, a imprensa israelense é vibrante, super competitiva, e disseram o seguinte, o que vai acontecer no Irã é, eles vão matar quantas pessoas forem necessárias,
para sobreviver e este cenário perdurará. O que é que se diz agora? Você está escutando os bons especialistas, porque o atual governo de Israel escuta os outros especialistas, aqueles que dizem basicamente aquilo que o governo quer escutar, que é basicamente a revolução está por um triz, basta matar as suas lideranças que o povo sairá às ruas para colocar de novo o filho do chá,
uma nova alternativa. Esses especialistas comprometidos com análises mais sérias, eles continuam dizendo que a situação é uma situação muito complexa, o Estado é um Estado muito complexo, a Revolução Iraniana é uma revolução estabelecida e a possibilidade que esse regime caia tem a ver com processos muito difíceis de serem estabelecidos, inclusive com tropas no terreno. E aí eu tenho escutado os especialistas israelenses
sobre isso, dizendo basicamente que essa é uma guerra estética, que essa é uma guerra de discurso, que essa é uma guerra para fortalecer a posição de Netanyahu, que arquitetou a ideia central de Irã como ameaça existencial para Israel, como a ideia fundamental de manutenção dele no poder. As tentativas repetidas de que não houvesse nenhum acordo com o Irã e que a revolução iraniana fosse derrotada militarmente,
é uma narrativa de mais de 20 anos de Nathaniel. Então Nathaniel escuta especialistas que fazem soar música aos seus ouvidos. E são esses especialistas que garantiram a Nathaniel que matando um, ou dois, ou três lideranças, Kamenei, não viria um outro Kamenei no seu lugar. Eu escutei hoje uma entrevista de um grande especialista não israelense, mas palestino, um dos maiores historiadores palestinos vivos, Rashid Khalid, que dizia,
Basicamente que essa narrativa de Israel de que matando uma liderança ele conseguiria derrotar o inimigo é uma narrativa mal sucedida desde os anos 80. As novas lideranças que vêm depois da morte da liderança anterior são piores do que ela e não melhores. Nesse sentido, o que se faz não é acabar com uma guerra, mas produzir a eternização delas.
O conflito em Gaza, onde a quantidade de lideranças do Hamas mortas é impressionante e o Hamas continua administrando a faixa de Gaza nesse sentido. O que acontece hoje no Irã não tem a ver com Gaza, mas na narrativa que Israel tem, ele corre o risco de repetir no Irã aquilo que ocorreu em Gaza.
Núcleo de Estudos Judaicos, lá da UFRJ. Muito obrigado, Michel, e boa noite. Boa noite, obrigado pelo convite. Lourival, igualmente. Prazer tê-lo a bordo do WWW. Boa noite. Essa edição fica por aqui. Boa noite e obrigado, pessoal.