Mendonça prende Vorcaro e expõe PGR
- Banco MasterOrdem de prisão do ministro André Mendonça · Morte de Felipe Morão em custódia · Grupo Aturman e milícia do banqueiro · Intimidação de jornalistas · Operações do grupo criminoso · Lavagem de Dinheiro
- Crise InstitucionalCrítica à Procuradoria Geral da República · Prazo de 72 horas insuficiente · Dúvidas sobre robustez de evidências · Papel do PGR em investigações · Decisão de Mendonça expõe PGR
- Manobras processuais do ministro Gilmar MendesRessurreição de processo arquivado há 3 anos · Invocação indevida de prevenção · Interferência na relatoria de André Mendonça · Decisão sobre mandado de segurança · Apropriação de relatórias
- Segurança OperacionalRelatoria de Alessandro Vieira · Objeto da CPI definido · Quebra de sigilo de empresa de família Toffoli · Vencimento de prazo da CPI · Possível instalação de nova CPMI
- Relacoes EUA-IraBombardeios americanos · Objetivos declarados do conflito · Fechamento do Estreito de Ormuz · Danos ao comércio global de petróleo · Pressão política interna americana
- CorrupçãoCooptação de funcionários · Chefes do departamento de supervisão bancária · Afastamento de servidores · Serviços prestados para Vorcaro
- Conflito EUA-IrãRisco de desintegração do Irã · Histórico de intervenções que resultaram em colapso · Monarquias do Golfo como afetadas · Potencial para negociação futura · Responsabilidade internacional por consequências
- O caso MasterInvestigação no Banco Central · Tribunal de Contas · Senado Federal · Polícia Federal · Múltiplos procedimentos em andamento
- IA Operacoes MilitaresAumentar custo da guerra · Ataques a infraestrutura de petróleo · Tolerância à dor · Preservação do regime · Atuação através de proxies
- Delação Premiada INSSLei 12850 de 2013 · Vedação para chefes de organizações criminosas · Conhecimento de outras organizações criminosas · Benefício processual potencial · Rastreamento de fluxos financeiros
Boa noite, SSN em Brasil. Este é o WW. Agora tem uma morte no escândalo do Banco Master acrescentando ainda mais dramaticidade ao caso. Suicidou-se ao entrar na cadeia o homem que, segundo a Polícia Federal, executava alguns tipos de serviços sujos para o banqueiro Vorcaro, indiminação, empionagem, subornos, roubo de dados. Vorcaro também foi preso hoje, por ordem do ministro André Mendonça,
Polícia Federal e aprofundando a crise do Supremo e ameaçando agora arrastar também a Procuradoria-Geral da República, pois ao justificar a decisão de mandar prender o banqueiro e mais quatro pessoas, Mendonça deu uma forte bronca pública no Procurador-Geral da República, que tinha se manifestado contrário ao pedido de prisão. Ele, o PGR, considerou muito curto o prazo dado por Mendonça para se pronunciar,
Comenta-se, tinha dúvidas sobre a robustez do material apresentado pelos investigadores da PF. Ocorre que no sistema brasileiro é o Procurador-Geral da República o personagem-chave caso a Polícia Federal faça em relação a Alexandre de Moraes o que já fez em relação ao ministro Dias Toffoli e confeccione um relatório com material contra o ministro. O que levou Vorcaro de novo à cadeia é considerado apenas ponta do iceberg,
mas não há no momento outros detalhes. Mesmo assim, o veneno já é bem forte. Contaminou as entranhas do STF, solidificou suspeitas mútuas entre alas do Ministério Público e alas do Supremo e aumentou já enormes suspensos sobre o que a Polícia Federal, afinal, tem consigo. O ministro André Mendonça tem profundas convicções religiosas e encara a relatoria do escândalo do Master como uma espécie de missão.
por muitos motivos diferentes. Está todo mundo rezando. A guerra do Irã é outro assunto nesta edição. Vamos dando-se aos participantes da nossa roda neste momento. Agradeço ao senador Alessandro Vieira, do MDB de Sergipe, relator da CPI do Crime Organizado, à disposição de fazer parte do programa. E boa noite, senador. Boa noite, é um prazer estar com vocês, William e a equipe. Daniel Ritner, em Brasília, boa noite. Caio Junqueira, igualmente. Boa noite aqui ao meu lado, em São Paulo.
voltou para a prisão nesta quarta-feira. A ordem do ministro do STF, André Mendonça, veio após a Polícia Federal apontar a existência de uma espécie de milícia ligada a Borcaro para atacar e intimidar críticos, adversários, entre eles jornalistas. O líder desse grupo, Felipe Mourão, morreu há pouco em um hospital em Minas Gerais após, segundo a polícia, ter atentado contra a própria vida quando estava preso. A reportagem é de Thaísa de Medeiros, de Brasília.
A prisão que levou Vorcário de volta à prisão mostra a relação do dono do Banco Master com um grupo chamado A Turma. As investigações apontam que, sob a articulação de Felipe Mourão, o sicário, o grupo recebia até um milhão por mês de Vorcário. Os pagamentos seriam operacionalizados pelo cunhado do dono do Master e pastor da Igreja Lagoinha, Fabiano Zetel. O grupo atuava constrangendo jornalistas e pessoas que Vorcário considerava desafetos.
Para alcançar esse fim, a turma realizava ações de monitoramento, coleta clandestina de dados em sistemas sigilosos e atos de intimidação. Em uma troca de mensagens, Mourão conversa com Vorcaro sobre o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, devido à publicação de notícias que contrariavam os interesses do dono do máster. Mourão pergunta ao banqueiro se deveria tomar alguma atitude em relação ao jornalista.
Seguindo esse cara. Em outra conversa, Vorcaro sugere uma ação mais agressiva. Quero mandar dar um pau nele, quebrar todos os dentes num assalto. Em nota, a assessoria de Vorcaro negou qualquer ação do banqueiro contra um jornalista e que mensagens mostrariam um tom de desabafo em privado, sem qualquer objetivo de intimidar quem quer que seja. Outro esquema revelado pelas investigações está relacionado a servidores do Banco Central
Dois nomes são citados na decisão do ministro André Mendonça, Beline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza. Eles teriam atuado com Vorcaro enquanto ocupavam postos de chefia no Departamento de Supervisão Bancária do BC. Ambos já estavam afastados do Banco Central desde janeiro. A decisão de Mendonça também registra críticas do ministro à Procuradoria-Geral da República.
favoravelmente aos pedidos das medidas cautelares contra a Vorcaro e outros investigados formulados pela Polícia Federal, o que o ministro relator classificou como algo a se lamentar. A PGR havia dito que o prazo de 72 horas para se manifestar era exíguo, já que os pedidos envolviam medidas drásticas. Além disso, segundo a Procuradoria, não haveria perigo iminente e imediato que justificassem tais medidas preventivas.
dos ilícitos e a urgência para a adoção das medidas requeridas estão fartamente reveladas na representação da PF, ainda mais diante da concreta possibilidade de ataques à integridade física e moral de jornalistas e autoridades. Senador Alessandro Vieira, vamos começar por um aspecto que nos parece central do ponto de vista do relacionamento entre essas três instituições, Polícia Federal, Supremo Tribunal e Procuradoria Geral da República.
O ministro André Mendonça, quando atende ao pedido da Polícia Federal e manda prender o vorcário, se queixa de que a Procuradoria-Geral da República não havia seguido o mesmo caminho. Sabemos que a Procuradoria-Geral da República duvida da robustez das evidências. Quem tem razão? De certa forma, a gente vai ter que esperar um tempo, William, quando a gente tiver o julgamento disso tudo. Mas alguns fatos saltam os olhos.
A organização criminosa desse grupo, há muito tempo eu digo que é uma organização criminosa estruturada para cometer crimes, para se infiltrar nas instituições através de corrupção, compra de apoio, sedução de autoridades. E a PGR, me parece que especificamente nesse caso, alega que 72 horas é pouco tempo para apreciar um pedido de buscas e de prisões. Quando a gente vê o histórico em outras oportunidades,
sentido, de achar que é pouco tempo para avaliar um pedido de prisão. A regra é que esse tipo de pedido seja apreciado e as manifestações venham com muita rapidez, porque são, naturalmente, pedidos urgentes. Eu lamento muito esse estado de coisas. Você tem claramente um relacionamento não republicano entre o grupo comandado por Vorcaro e grandes autoridades. Dentre eles, infelizmente, ministros da nossa Suprema Corte. A gente vai ter que avançar nessas apurações.
para que, de fato, os brasileiros possam ter acesso à verdade e que a gente também, que está em posição de decisão, consiga melhorar esse sistema, responsabilizando criminosos, mas, ao mesmo tempo, fechando portas para a corrupção. Senador, o fato de ter dois ministros do Supremo Tribunal Federal potencialmente envolvidos, direta ou indiretamente, nesse caso Masser, não é hoje o maior obstáculo, tanto para a Polícia Federal e para o sistema de justiça, quanto para o sistema político, evoluir nas apurações?
Sem dúvida. Esse é o meu problema. As maiores pressões e ameaças hoje vêm de integrantes da Suprema Corte. O trabalho que é necessário fazer e que nós vamos fazer através do Senado, na Comissão Parlamentar de Inquérito, é de dar luz para essas coisas todas. É você mostrar o que está acontecendo. A gente tem que recordar que todo esse processo é atravessado por medidas, por decisões, no mínimo atípicas de ministros.
da defesa do Vorcaro de uma forma absolutamente atropelada, atípica. Como relator, ele toma certas decisões que prejudicam as investigações, ele escolhe peritos, ele limita acesso a provas, ele retarda perícias, ele escolhe o delegado. Depois que a Polícia Federal aponta as relações já demonstradas nos autos entre familiares do ministro Toffoli e Vorcaro, e aí ele está falando de relações financeiras, ele está falando da transferência de alguns valores na casa das dezenas de milhões de reais,
o colegiado do Supremo se reúne e, novamente, numa decisão atípica, que não tem previsão jurídica nenhuma, não está em nenhuma lei, não está na Constituição, a gente testemunha a devolução da relatoria. O Dias Toffoli não é declarado nem pedido nem suspeito, ele devolve a relatoria. E aí, no sorteio, isso vai para André Mendonça. Segue o processo, André Mendonça retoma o trâmite natural das investigações e a gente é surpreendido depois de uma decisão da CPI de quebra de sigilo da empresa dos familiares, do ministro Toffoli,
que aí ultrapassa o limite da definição de atípica. Ela é absurdamente descabida. O ministro Dilma ressuscita o mandato de segurança arquivado há três anos para, nesse mandato de segurança, conceder um habeas corpus para uma pessoa jurídica. Isso é ilegal de caba-raba. E a gente está já apresentando os recursos necessários para que a Suprema Corte possa retificar esse absurdo. Mas o retrato final, William, Caio, enfim, é que tem muita gente poderosa hoje em Brasília com medo. E o medo está levando à tomada de decisões equivocadas
que expõem cada vez mais a justiça do Brasil. Daniel, eu queria insistir nesse ponto dessa decisão do ministro Gilmar Mendes. Você quer fazer a pergunta? Prefere que eu faça? Você quer seguir nessa linha? Eu só queria pegar esse gancho, William, que o senador disse que tem muita gente com medo do que vem pela frente em Brasília. Dentro desse universo político, quem é que parece ter mais medo na visão do senador?
O escândalo do Márcio é ecumênico, ele não tem lado ideológico. A compra de influência, a compra de acesso se deu indiscriminadamente. Nós teremos seguramente mais adiante a divulgação de nomes de figuras relevantes da esquerda, da direita e do centro do espectro político brasileiro, assim como teremos a revelação de autoridades de outros poderes envolvidas diretamente com esse grupo criminoso. A gente tem que ter a cautela de não fazer condenações prévias,
mas ao mesmo tempo tem que ter a firmeza de apontar que todos os fatos indicam o cometimento de crimes gravíssimos por grandes autoridades. Senador, deixa eu voltar a essa questão dessa decisão do ministro Gilmar Mendes. Há alguns advogados, alguns operadores do campo de direito que veem nessa medida uma brecha importantíssima na relatoria de André Mendonça. Qual seria essa brecha? É a seguinte, a relatoria está com André Mendonça, como foi destacado na sua resposta agora há pouco,
assumir a relatoria, a investigação segue, nas suas palavras, o rumo natural. Produz os resultados que a gente viu hoje. Agora, quando pelo princípio da prevenção, ou seja, quando algum integrante do Supremo já tratou de uma questão, e essa é a questão levantada agora, daquele processo ressuscitado dos arquivos mortos, que permitiram cancelar um pedido de quebra de sigilo, qualquer outro pedido nessa direção cairá por regime internacional.
nas mãos do mesmo Gilmar Mendes. Então teria condições, se o plenário referendal que ele fez, de intervir na relatoria de André Mendonça? Ou isso daí é elucubração de advogado com medo? Não, de fato você teve, usando uma expressão popular, para quem acompanha a gente entender, o ministro Gilmar Mendes sequestrou a relatoria. E a gente tem que resgatar o refém. É tão absurdo, William, que deixa eu fazer uma cronologia dos fatos.
da enquete do Senado, quebra o sigilo da Marit e faz a convocação dos seus proprietários, os irmãos, dois irmãos do ministro Toffoli. Até aquele momento, não tinha o reconhecimento expresso do ministro Toffoli de que ele era sócio oculto da empresa. Mas, enfim, convocamos os dois irmãos, quebramos o sigilo da empresa. Os dois irmãos buscam a justiça para não ser ouvidos, para ser dispensado da audiência. E eles seguem o rito normal.
Eles apresentam a petição, habeas corpus, ao ministro relator, que é o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça,
inclusive concede o direito deles não comparecerem porque seriam investigados, então tem direito de mentir, de ficar calado, poderia não comparecer. Mas no dia seguinte, a empresa de propriedade dessas mesmas pessoas aciona a justiça, mas aí ela não vai a André Mendonça, que é o relator do caso. Ela inventa uma prevenção junto ao ministro Gilmar Mendes. O ministro Gilmar desarquiva um procedimento que estava arquivado há três anos e simula uma prevenção, porque a prevenção é um instituto que existe para evitar decisões que conflitem, ou seja,
Dois ministros, ao mesmo tempo, discutindo a mesma coisa e tomando decisões diferentes. Não é o caso, porque o ministro Gilmar decidiu nesse processo anterior, há três anos atrás, era o tempo da pandemia. Não há nenhuma conexão, do ponto de vista nenhum jurídico. Qualquer criança que passou pela porta da escola de direito sabe que o que o ministro Gilmar fez é um absurdo completo. Para mim, esse é um retrato, é uma confissão do tamanho do problema, do tamanho da agonia que eles estão tendo lá para tentar, de alguma forma, acobertar o que aconteceu.
Mas não vão conseguir, porque o escândalo é grande demais e porque, no que depender da minha vontade e de outros parlamentares, ele vai continuar forçando essa corda aí para que a verdade prevaleça. Então, os dois recursos que apresentamos através da advocacia do Senado, um deles é o agravo, ele passa necessariamente pelo próprio ministro relator Gilmar, o relator fake Gilmar, mas o outro não. O outro é diretamente direcionado para o ministro Fachin, presidente da corte, para que ele reestabeleça a lógica. Não é possível.
que a partir de agora no Brasil, qualquer julgador possa ressuscitar um caso do passado e se apropriar de relatorias para fins que não parecem ser fins republicanos. É tudo, repito, muito brago. Senador, como o senhor acredita que eles não conseguirão barrar as investigações? Eu, olhando daqui, também, o tempo de cobertura, eu apostaria numa tendência desse grupo do Supremo Tribunal Federal,
ao avanço das investigações, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e o ministro Gilmar, conseguirem. E acho que estão conseguindo. Porque a hora que chegar, vamos supor que potencialmente haja uma descoberta sobre o contrato da mulher do Alexandre de Moraes. Completamente atípico, fora dos padrões de qualquer contrato de advocacia no Brasil. Inclusive aqui em São Paulo, na advocacia de elite. Quando se chegar perto do Dias Toffoli, os pagamentos da Maridit para ele. Para mim, está muito claro que,
Vai ter algum tipo de freio de arrumação nisso? E que não será feito, com todo respeito, por senadores como o senhor ou pelo próprio Congresso Nacional e pelo próprio presidente do Supremo, Edson Fachin? Olha, a gente tem no Brasil uma regra estabelecida de que poderoso e rico nunca vai responder por nada que faz. Isso é fato. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem que pressionar essa linha histórica para que se chegue finalmente a uma apuração.
esse avanço. Ninguém vai conseguir esconder o escândalo. Ninguém vai conseguir esconder essas relações. Porque elas estão vazando por diversas pontas. Você tem investigação em andamento no Banco Central, no Tribunal de Contas, no Senado, você tem na Polícia Federal. E os dados estão surgindo em volume impressionante. Uma coisa ostensiva. Então, na medida em que isso vai tendo visibilidade, você vai forçando o sistema a construir soluções. As soluções colocadas de pé até o momento, que foi primeiro a relatoria atípica
Toffoli, ela foi derrubada no momento em que a polícia deu visibilidade à relação do Toffoli com o Banco Master. Então, agora nós temos uma nova batalha, que é essa decisão do ministro Gilmar Mendes, totalmente equivocada, insustentável juridicamente, que vai ser confrontada. E aí, Caio, tem um momento que cada um se confronta com a sua biografia. As pessoas vão ter que colocar a sua digital. Quem pensa sempre em abafar escândalos, normalmente prefere o escurinho ali dos gabinetes. E essa batalha vai se dar à luz do dia. As pessoas vão estar
acompanhando através da imprensa profissional, através do trabalho do parlamento, o que está acontecendo. E o julgamento final, e esse talvez seja um ponto que as pessoas não estão observando, o julgamento final da conduta eventualmente criminosa de ministros, ele não vai ocorrer lá na Suprema Corte, ele vai ocorrer aqui no Senado. É um julgamento jurídico-político. Então, são campos de batalha diferentes que se conectam. O nosso arranjo constitucional exige esse equilíbrio de forças, então um fiscaliza o outro,
eventualmente, corrija os erros do outro. E o Senado tem apenas dois séculos de omissão. Talvez tenha chegado a hora de trabalhar para isso, talvez tenha chegado a hora de romper essa omissão. Senador, hoje com a prisão nova, a prisão do Daniel Vorcaro e o envolvimento de parentes dele, inclusive do pai, cresceu muito a especulação em torno de uma delação premiada do banqueiro. Agora, se você vai observar ali a Lei 12.850, de 2013, que estabelece o mecanismo
da colaboração premiada, esse instituto é vedado para chefes de organizações criminosas. Daria para enquadrar Daniel Vorcaro de uma outra forma ou, por tudo que vimos até agora, já se configura uma situação em que ele pode ser encarado como chefe de uma organização criminosa, portanto, não apto a fazer uma colaboração premiada?
ainda públicos, mas me parece evidente que sim, Daniel Bocaro é o líder desta quadrilha, desta organização criminosa, mas ao mesmo tempo também é claro que ele tem profundo conhecimento sobre a atuação de outras organizações criminosas, outros braços criminosos que a gente verifica atuando, especialmente no poder público. Então ele detém uma série de informações relevantes que podem ser avaliadas e aí uma construção junto à polícia, ao Ministério Público e depois uma homologação pela Justiça, mas
sem dúvida nenhuma ele tem contribuições a dar que podem resultar em algum benefício processual para ele. Mas a boa notícia para os brasileiros é que você tem fonte de informação já disponível, o que foi operacionalizado de investigação até agora e o que será em breve, provavelmente mais do que suficiente para identificar toda essa ramificação. É muito dinheiro. Esse dinheiro não fica escondido debaixo do colchão, esse dinheiro circulou por fundos, por fintechs, ele fez todo um processo de lavagem,
mapeável, é rastreável. Então, essa informação não está isolada em um lugar que alguém possa dar uma canetada e trancar tudo. Isso está em vários procedimentos espalhados pela investigação e a gente tem expectativa positiva de que isso venha à tona e a gente possa ter efetivamente a condenação, a identificação, processamento e condenação das grandes figuras responsáveis por tanto crime. A gente tem que lembrar que a gente fala muito de números e as pessoas despersonalizam, mas o que o grupo criminoso do Vorcaro
fez foi roubar dinheiro do público em geral. Ele roubou dinheiro do povo aqui do Distrito Federal, ele roubou dinheiro de fundo de pensão, de investidores diversos, milhares de investidores, e essas pessoas, elas precisam de uma resposta, de uma reparação. Senador Alessandro Vieira, a sua definição do banqueiro e o que ele montou como uma organização criminosa lhe dá o objeto da CPI, a investigação do crime organizado. Objeto esse que lhe foi negado em algumas decisões
dizendo que não podem requerer o que estão requerendo porque isso está fora do objeto deles. Então isso resolve um problema para o seu lado. Agora, ocupando-se da questão, como está evidente na sua resposta que é a sua intenção, como vai ser investigada essa morte hoje? A gente já fez uma cobrança pública e eu fiz um contato com a direção da Polícia Federal no sentido de que toda essa investigação seja rápida e o mais transparente possível.
comete suicídio. A gente tem que ter clareza, transparência para que as pessoas compreendam o que aconteceu. Era um arquivo vivo, era uma figura importante dessa engrenagem criminosa. A gente vai ter que acompanhar isso com muito cuidado, porque é mais uma demonstração do tamanho daquilo que a gente está enfrentando. É uma estrutura com características mafiosas, ou seja, a infiltração é profunda nos três níveis da federação. Você tem prefeituras, estados, governo federal,
problemas de envolvimento, você tem autoridades em diversos escalões com envolvimento e você tem uma pessoa que é presa, aparentemente não tem nenhum problema de saúde mental e em questão de horas comédia o suicídio. É uma coisa que exige uma atenção, uma transparência, vai ser objeto de questionamento formal através da CPI. Eu tenho muita confiança no trabalho da Polícia Federal, tenho muita confiança nos profissionais que conduzem investigação e espero que eles façam valer essa confiança trazendo
os dados e as informações referentes a esse caso. Você sente essa blindagem também em relação à investigação das fraudes do INSS, especialmente em relação ao filho do presidente? A gente teve uma decisão hoje do ministro Dino, e a gente tem que separar um pouco as decisões do Supremo. Acho que sempre a gente tem que ter uma lealdade institucional e uma lealdade técnica. Então, quando a justiça dá uma decisão no sentido de que um investigado está dispensado de comparecer a uma sessão, ou está dispensado de falar,
ele pode ficar em silêncio, você está respeitando a lei, está respeitando a jurisprudência, não tem problema com relação a isso. Mas quando a justiça dá decisões que interferem no funcionamento das comissões, em nível de detalhe e desrespeito cada vez mais crescente, aí você tem um problema gravíssimo. Então, a decisão do ministro Dino, eu tive o cuidado de ler a decisão para poder me manifestar sobre ela, é uma decisão, novamente, me parece profundamente equivocada, mais ilustrada do que a decisão do Gilmar, mas equivocada. Por quê?
do ministro Dino para desconstituir uma decisão soberana do Senado, do Congresso Nacional, a CPI mista, é alegar que o processo de votação, o rito de votação, não corresponde àquele que ele acha adequado. Mas esse achar dele está na cabeça dele, não está na Constituição, não está na lei, não está no regimento, não está em lugar nenhum. Ele questiona a votação em bloco. Porque, veja, quando você fala de quebras de sigilo, qualquer medida cautelar relevante, você tem que ter a fundamentação, você tem que ter a individualização.
não posso fazer uma quebra de sigilos no atacado, por exemplo. Eu faço uma lista com centenas de nomes e aprovo a quebra daquela centena. Não posso. A justiça já definiu e a lei também veda isso. Mas, no caso específico, o que foi feito foi a votação de requerimentos individualizados em bloco. Os requerimentos estavam individualizados, a fundamentação estava feita. Os parlamentares tiveram acesso à fundamentação e endossaram essa fundamentação mediante votação, me parece que simbólica. Então, qual a razão da decisão do ministério?
do gênero. E é um ministro que foi parlamentar, ele foi deputado federal, foi senador da República. Ele sabe perfeitamente e toda a jurisprudência do Supremo até hoje é no sentido de questões regimentais, são internacópolis, ou seja, elas são resolvidas pelo próprio Congresso. E o presidente do Congresso, que é o presidente do Senado, Davi Alcolume, apreciou essa questão e validou a votação. Então, novamente, equívocos, abusos, eles vão se acumulando e eles vão minando a credibilidade da justiça.
é importante para a gente separar as duas coisas. Quando a gente faz aqui a crítica, a crítica é expressamente direcionada às pessoas, aos ministros, porque a justiça é fundamental, não é república, não é democracia. Mas uma justiça na qual as pessoas não podem confiar, ela serve por muito pouco. Daniel, posso pedir sua licença, que eu queria insistir só num ponto específico do que o senador está nos trazendo. Senador, a gente tem a sensação clara, nas justificativas apresentadas, sobretudo pelo ministro,
Flávio Dino, que uma boa parte do Supremo acha que as pessoas no Legislativo não têm uma ideia apenas difusa do ponto de vista do direito que elas podem ou não podem. Eles têm razão? De fato, você tem parlamentares com diferentes níveis de formação e experiências, mas, ao mesmo tempo, o poder, o poder legislativo, conta com assessoria qualificada. Eu sempre acho, William, que é muito mais importante na hora de escolher o meu representante, escolher alguém que tenha qualificação para fazer o
trabalho. É uma regra que você tem para contratar quem vai pintar a sua casa, você deveria usar a mesma regra para escolher quem vai legislar por você, quem vai definir os rumos do país por você. Mas isso não acontece. As pessoas elegem formações diversas, pessoas diversas. E, de fato, você tem hoje uma assimetria entre os poderes. A Constituição diz que são iguais e que se equilibram. Mas, na verdade, hoje não. De forma assimétrica, o judiciário se impõe em relação aos outros dois poderes e o faz muitas
vezes, ultrapassando qualquer limite legal. E a gente tem persistido nessa luta, que eu acho que é uma luta virtuosa, que é uma luta democrática, dentro dos limites da lei, usando os instrumentos da lei para que a gente possa fazer valer a verdade. E, por isso, me dispõe a fazer esse enfrentamento, que é um enfrentamento incômodo. Ninguém gosta de ter inimigo, ministro do Supremo, que vai ficar sentado na cadeira por 30 anos, como é o caso de alguns deles.
Mas é fundamental para o Brasil. Eu preciso explicar para as pessoas que, olha, o ministro decidiu isso aqui, mas não faz nenhum sentido,
As pessoas têm que entender, para depois poder perguntar, mas por que o ministro fez isso? Por que os colegas dele validaram ou não validaram? Eu imagino que algumas dessas decisões serão revistas pelo colegiado, porque elas ultrapassam qualquer limite do razoável, elas não fazem o menor sentido. E acho que a gente vai ter que avançar como sociedade, cada vez mais, no sentido de botar todo mundo debaixo da mesma lei no Brasil.
Ou é isso, ou é reconhecer que nós somos uma democracia. Daniel, para a gente encerrar, a última palavra é sua.
ambos que sejam rápidos. CPI do crime organizado tem mais 30 dias de funcionamento, pouco mais do que isso. CPMI do INSS termina agora em março. CPMI do caso Master não está saindo. O Congresso vai se municiar como de elementos para continuar investigando esse caso? Eu imagino que CPIs em andamento terão pedidos de prorrogação do seu funcionamento e a hipótese de instalação de uma nova CPI não pode ser descartada se ela for necessária.
utilizar as ferramentas até o limite técnico que elas podem emprestar. E acredito que essas CPIs têm um papel muito importante para a sociedade brasileira, para a nossa evolução, e vamos trabalhar para que isso aconteça. Mas não se encerra aqui. A gente tem instrumentos e armas para continuar nessa luta por bastante tempo.
completamente de assunto. Boa noite a ambos os meus colegas e até amanhã. A gente vai para o intervalo na volta. Guerra no Irã é o nosso assunto. Até já. O WW está voltando do intervalo. Vamos lá, nossos participantes agora na roda. Queria agradecer muito ao diplomata Sérgio Florencio. Você viu na Embaixada do Brasil em Teherã, em 1979, durante a Revolução Iraniana. Sérgio Florencio, que bom ter você de volta ao programa e boa noite. Boa noite, é um prazer. Obrigado pelo convite, Wira.
E o Lourival Santana, a gente se encontra depois das suas férias. Que bom ter você de volta aqui. Que bom ter você de volta. Tudo o que está acontecendo, Lourival. Nossa, eu estava em Frankfurt participando de um evento jurídico. Pois é. Coração aqui. Vamos lá. Está indo para o sexto dia, a guerra com o Irã. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda está, digamos, tentando definir,
Cada vez ele fala uma coisa um pouco diferente. Quais são, afinal, os objetivos declarados do conflito? Enquanto isso, forças israelenses e americanas estão ampliando consideravelmente as operações militares na região. Confira. Aliados e conselheiros de Trump temem que uma guerra muito prolongada contra os iranianos acabe gerando danos políticos ao Partido Republicano em um ano de eleição de meio de mandato. O conflito já custou vidas americanas e traz um aumento no custo da gasolina para o país.
Diante disso, Trump e aliados demonstram dificuldades para justificar as operações, algo que já acontecia antes. Trump prometeu durante a campanha eleitoral que não colocaria os Estados Unidos em uma nova guerra. Com isso, os bombardeios contra o Irã frustram a própria base do republicano, que, por outro lado, não parece dar ouvidos.
Em mais uma demonstração de força, os americanos afundaram uma embarcação iraniana. Esse foi o primeiro bombardeio dos Estados Unidos com um torpedo desde a Segunda Guerra Mundial e resultou na explosão do navio Soleimani. 87 pessoas morreram. O secretário da Defesa, Pete Hexet, comemorou os resultados das operações e destacou o envio de novas forças para a região.
Um dos focos de Washington é a reabertura do Estreito de Hormuz. Cerca de 30% do petróleo comercializado no mundo passa pela região, mas desde a última segunda-feira poucas embarcações cruzaram o local devido a um bloqueio iraniano.
O fechamento do estreito depois dos ataques americanos já era previsto. No entanto, o governo americano não havia montado um planejamento para evitar ou reduzir os danos dessa decisão. A porta-voz da Casa Branca, Caroline Levitt, afirmou que agora Washington trabalha em um plano para normalizar a situação.
A resposta iraniana segue mirando em países vizinhos. O míssil foi lançado em direção à Turquia, país-membro da OTAN. As defesas aéreas da Aliança Militar derrubaram o projétil no sul turco. É a primeira vez que a OTAN intercepta o míssil de Teheran no conflito. Segundo o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, a organização está em consulta constante desde o incidente e disse que os países-membros estão pedindo
claramente que algo desse tipo não aconteça outra vez.
Meios devastadores. De fato, uma demonstração de superioridade bélica imensa. Em que medida isso altera a índole, a mentalidade, o pensamento estratégico do regime iraniano? Sem dúvida, esses ataques tão devastadores fragilizam muito o Irã do ponto de vista militar,
transformação da índole, da atitude do Irã com relação às superpotências, a capacidade de isso se transformar a partir de ataques militares devastadores, eu diria que é ainda um ponto de interrogação, mas um ponto de interrogação que deve levar
consideração muito histórica do Irã. É um país que no século XIX teve invasão russa, no século XX foi ocupado pela União Soviética, teve depois o golpe de Estado contra o Mossadegh, depois a hegemonia dos Estados Unidos e a Revolução Iraniana e que
revolução, é essa que sobreviveu à guerra na Iraque, a diversas outras dificuldades monumentais. Eu diria que a alma iraniana é muito contra a dominação estrangeira. Eu acho que isso é um fulcro da identidade iraniana.
fragilização do regime terá um efeito sobre uma enorme parcela da população que hostiliza o ex-regime atual, que talvez tenha apoio de 15%, 20% da população. Mas, indo diretamente à sua pergunta, eu diria que a alma iraniana ainda valoriza
Entidade iraniana, cultura iraniana e uma hostilidade, seja ao leste ou ao oeste. Olival, a gente parece ter, quando houve pronunciamentos do governo israelense, uma ideia mais clara de qual o objetivo a ser atingido. É acabar com o Irã como potência militar na região. E as declarações que vêm do governo israelense são realmente muito transparentes nesse sentido.
Não importa nada o que vai acontecer com eles depois. O que nos importa é tirar deles qualquer capacidade de qualquer tipo, de qualquer tipo, de atacar vizinhos e muito menos de atacar Israel. O que não parece estar muito distante de ser atingido. Do lado americano, a gente tem tido dificuldades de entender exatamente qual é o objetivo político dessa enorme, maciça ação militar. Como é que os dois se combinam?
Os Estados Unidos foram claramente arrastados para essa guerra por Israel. E quem disse isso foi o próprio Trump e o próprio Marco Rubio. Basta interpretar o que eles disseram. O Marco Rubio foi muito infeliz quando disse que os Estados Unidos entraram na guerra porque Israel ia entrar de qualquer forma, o que demonstra então que os Estados Unidos são liderados por Israel.
atacar Israel. Isso também não conserta exatamente a situação. E a interpretação dos americanos foi de muita frustração diante dessa situação de, como eles dizem, put the troops on the harm's way, colocar que já morreram soldados, inclusive que estavam num makeshift acampamento, num lugar que nem tinha uma proteção adequada para eles lá no
no Kuwait. Então, essa guerra é excelente para Israel. Sim, Israel, junto com os Estados Unidos, tem essa capacidade de desmantelar os arsenais iranianos, a marinha iraniana. Tem essa capacidade, é indubitável. Mas, do ponto de vista político, eu interpreto isso de acordo com a escala de tolerância à dor. Quem tem a maior tolerância à dor é, obviamente, o Irã.
nessa escala Israel, e depois Estados Unidos, e finalmente as monarquias árabes do Golfo, que tem zero tolerância à dor. Eu vou entrar no assunto das monarquias já, já. Queria trazer o Sérgio Florencio para nos ajudar a entender algo que me parece relevante quando a gente pensa o Irã, Sérgio. É muito comum, é natural, pelo nível de informação geral que a gente tem a respeito de um país como esse, que a gente considera o Irã uma coisa só. Quando, na verdade, é um país,
quase mosaico do ponto de vista étnico, sobretudo. Nós temos diversas regiões ocupadas por diversas etnias e sempre foi um esforço consistente de qualquer regime iraniano manter a unidade do Estado iraniano pela força. Agora vem a CIA e diz que vai fomentar uma revolta de curdos que ocupam uma parte relevante do Irã em fronteira com a Síria, em fronteira com o Iraque, no chamado Kurdistão. Que possibilidade eles têm?
Essa iniciativa da CIA de apoiar o movimento curdo, eu considero uma lose-lose game. Porque, na verdade, além desse mosaico de etnias que é o Irã e que, como você falou, conseguiu essa unificação sempre graças a governos fortes,
Essa unificação está questionada hoje não só pela diversidade étnica que você ressaltou, mas também pela divisão do país entre uma classe média, uma sociedade civil muito vibrante
muito autoritária e que ao longo, desde 1979, o que houve em termos, digamos, do jogo político, você sempre teve uma rivalidade entre os presidentes eleitos pelo povo, a maioria deles com um corte
liberal e um presidente escolhido pela hierarquia religiosa. Então, você teve esse jogo dicotômico e, ao longo dos anos, você teve vários governos, Bazargan, Sanjani, Ratami, Rouhani, todos esses de corte liberal e que procuravam
posições mais moderadas, mais integradoras da sociedade. E, do outro lado, o líder supremo, escolhido pelo clero, sempre, digamos, impedindo que essa evolução mais liberal da sociedade iraniana prevalecesse.
A comprovação disso é que os dois únicos presidentes que tiveram uma forte identidade com o líder supremo foram dois, Ahmadinejad e Raisi, todos dois eleitos por fraude.
O que eu quero dizer com isso é que a sociedade irânia tem um movimento de transformação liberal que não é desprezível, mas ele é bloqueado sempre pelo clero religioso e mais ainda pelos guardas revolucionários.
é que com a fragilização do Irã do ponto de vista geopolítico, com a perda dos proxys, do Hamas, do Hezbollah, dos Houthis, das influências das milícias na Síria e no Iraque, e com as evidentes derrotas do país
ataque às instalações nucleares, essa fragilização, ela cria uma janela de oportunidade para essa classe média que tentou várias vezes transformar o sistema político e que sempre esbarrou por oposição do clero e por oposição dos vários funcionários. Deixa eu pegar exatamente esse ponto. Se é uma janela de oportunidade para uma transformação radical, a gente pode pensar em qualquer cenário.
Os israelenses deixaram claro, se aquele cenário for um cenário de desintegração do país, pouco nos interessa, contanto que eles só consigam atacar a gente com estilingue, se for o caso. Agora, do ponto de vista dos americanos, superpotência com interesses por toda parte, deveria parecer razoavelmente claro que caos de desintegração de potências com a localização geopolítica do Irã causam maiores problemas ainda.
das monarquias no Golfo, que conseguiram ser uma espécie de dobradiça para o futuro, até pelo gás, energia razoavelmente mais limpa que as outras, como polos de turismo, como polos de atração financeira, como polos de diplomacia entre os blocos, vendo isso se arrebentar ao lado deles. Pois é, e esse é o objetivo exatamente do Irã, desfazer, cobrar esse alto custo
O custo dessa guerra, você se lembra que depois da guerra, da invasão de 2003 no Iraque, foram 20 anos, duas décadas em que essas monarquias usufruíram de uma estabilidade, uma segurança, uma prosperidade e até uma certa tentativa de projetar poder brando, sofisticação, reformas na Arábia Saudita, mais direitos para as mulheres e assim por diante.
extremamente relevantes, tudo isso para projetar esse poder brando e se vender como um lugar que pode haver investimentos e que pode investir também em várias partes do mundo. Enquanto que o levante pegava fogo, Síria, Iraque, Palestina, Israel, Líbano com guerras e tal, primavera árabe e assim por diante. E foi tudo isso que se desfez com essa campanha.
É intrigante que uma apuração do Washington Post, que ouviu quatro fontes, acredito que do governo americano, que disseram que o Mohammed bin Salman, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, foi quem mais insistiu com o Trump que fizesse essa campanha. Por considerar que o Irã, realmente, esse regime precisa chegar a um fim para que aquela estabilidade da qual eu falava perdure.
Israel, em 7 de outubro de 1923, pôs fim a uma estratégia da Arábia Saudita de normalizar relações com Israel. Tinha acabado de receber ali três ministros israelenses, estavam muito próximos dessa normalização, que a Arábia Saudita considera estratégica para consolidar um Oriente Médio... Dentro dos acordos de Abraão. É, um Oriente Médio estável e próspero. Então, eles falam, olha, nós temos que cortar essa cabeça dessa serpente.
Passou drones na refinaria de Ras Tanura, que recebe 500 mil barris de petróleo por dia para refinar. Mas os danos foram pequenos. Então, aparentemente, a estratégia do Bin Salman nesse sentido pode ainda ter um bom efeito no futuro. Mas olhando a região como um todo, realmente não está sendo muito bom para eles o que está acontecendo.
A sua apreciação é algo realmente especulativo, Sérgio. Confesso, é realmente especulativo. Mas é em cima do que você vinha dizendo na sua intervenção agora há pouco, sobre a janela de oportunidade para uma classe média iraniana, cosmopolita, identificada há muitas décadas com vários países ocidentais, de proceder, não sei se você conseguiu concluir teu raciocínio, eu concluo teu raciocínio colocando essa especulação.
Conseguem? Certamente não vai ser fácil, mas eu vejo uma série de elementos que favorecem a possibilidade de que essa classe média que tanto lutou, tanto se sacrificou por causa dessa autocracia, desse regime sanguinário,
violentos, etc., a possibilidade que eu vejo é que eu não vejo condições de um regime change a partir de ataques aéreos, não vejo qualquer perspectiva de que o regime venha a cair. Mas, ao mesmo tempo, não interessa aos Estados Unidos um prolongamento,
desse conflito. Se não interessa aos Estados Unidos prolongar o conflito e ao Irã tampouco sofrer as consequências desses ataques, desses bombardeios, eu penso que em algum momento haverá um espaço para negociação. Obviamente, negociação que os Estados Unidos querem que ocorra a partir de um Irã,
extremamente fragilizado, mais ainda do que já está. E, mais que interessa ao Irã, sobretudo preservar o regime. E, chegando a esse momento de negociação, eu penso que, de alguma forma, se abre uma janela de oportunidade para
um regime não tanto ditatorial, não tanto sanguinário, de um regime que aceite uma moderação maior e onde os liberais que sempre tiveram representatividade como na presidência da república, que eles possam ter um poder maior no país.
utopia, né, Sérgio? O outro cenário seria esse do qual nós estamos tratando, de uma desintegração. Deixa eu passar para o Lourival agora para encerrar o segmento. Lourival, todas essas situações recentes no Oriente Médio que resultaram na quebra, não só no Oriente Médio, a gente tem que lembrar a Iugoslávia. Todas essas situações de um Estado Nacional que se parte nas suas partes constituintes, sobretudo nas suas minorias étnicas ou em determinadas divisões religiosas,
Em todas elas. Em todas elas. Alguém teve ou alguém foi puxado para aquele furacão para tentar impor algum mínimo de ordem. Os americanos não fizeram outra coisa no Afeganistão, se não isso, devolveram para o Talibã, que derrubaram 20 anos antes. Tiveram que fazer isso, de certa forma, na Síria, no Iraque. Ou outra potência foi lá e fez. É diante desse cenário que nós estamos?
lembra onde as repercussões disso ainda estão lá muito vivas. Essa responsabilidade existe, por mais que o Trump ou o Netanyahu queiram escapar dela de forma retórica, mas o mundo inteiro vai cobrar essa responsabilidade. Nós não estamos falando de um país pequeno. O Irã é um país complexo, montanhoso, com 90 milhões de habitantes, rico em petróleo, com uma tradição milenar, uma cultura persa muito respeitada,
o grande eixo do xiísmo, da corrente xiita, do Islã, enfim, com uma influência fortíssima, uma posição geográfica extremamente relevante entre a Ásia Central e o Oriente Médio, ali fazendo fronteira com a antiga União Soviética, enfim, com o Afeganistão, enfim, uma região extremamente delicada.
do presidente Trump. Eu não sei se o presidente Trump tem noção do atoleiro em que ele se meteu. Eu acho que ele não tem nenhuma, mas a gente vai acompanhando. Eu queria agradecer ao diplomata Sérgio Florencio, ele serviu na Embaixada do Brasil em Teherã, em 79, durante a Revolução Iraniana. Quando nos conhecemos lá, Sérgio, quantas memórias, hein? Muito obrigado pela participação aqui no programa e boa noite. Obrigado pelo convite. A você e o Olival. Olival, igualmente.
Obrigado aqui, sempre ótimo tê-lo a bordo. Essa edição fica por aqui, pessoal. Boa noite, obrigado.