Episódios de WW – William Waack

Apelo populista do fim da escala 6x1 domina políticos

19 de maio de 202653min
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A não ser para quem ache que os fins justificam quaisquer meios, as deliberações para aprovar na Câmara dos Deputados o fim da escala 6x1 estão caminhando da pior maneira possível. Por mais meritórios que sejam os objetivos a serem alcançados com essa alteração – na jornada e na escala de trabalho – a maneira como isto está sendo feito promete criar enorme confusão. O âncora da CNN William Waack, Thaís Herédia, analista de Economia, Caio Junqueira, analista de Política, Daniel Rittner, diretor editorial de Brasília, e Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, debatem o tema. Também participam deste episódio Marcello Brito, diretor da FDC Agroambiental e ex-presidente da Abag, Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas, e Lourival Sant'Anna, analista de Internacional.
Assuntos6
  • Fim da escala 6x1Apelo populista e eleições · Câmara dos Deputados · Senado Federal · PEC da escala 6x1 · Regra de transição · Confederação Nacional da Indústria · Fiesp · Paulo Skaff · Investigações sobre Davi Alcolumbre · Hugo Mota · Lula · José Pastore · CLT
  • Fenômeno El NiñoImpacto na safra 2026-2027 · NOAA · Bradesco · Produção de grãos · Preços de commodities · Rio Grande do Sul · Fertilizantes · Marcelo Brito · Fundação Dom Cabral Agroambiental · ABAG
  • Negociações EUA-IrãDonald Trump e a NASA · Irã · Estados Unidos · Catar · Arábia Saudita · Emirados Árabes Unidos · Programa nuclear do Irã · Estreito de Hormuz · Credibilidade de Trump · Eleições nos EUA · Inflação nos EUA · Dani Zahreddine · Lourival Sant'Anna
  • Problemas financeiros no setor agrícolaRenegociação de dívidas · Banco Central · Ministério da Fazenda · Renan Calheiros · Frente Parlamentar da Agropecuária · Lei de Responsabilidade Fiscal · Crédito direcionado · Taxa de juros · Inadimplência · Planejamento e gestão no agro
  • Conflito Israel-Hezbollah no LíbanoHezbollah · Israel · Líbano · Netanyahu · Guerra em Gaza · Base eleitoral de Trump · Eleitorado evangélico
  • Energia ElétricaEnel
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Boa noite, STSNN Brasil. Este é o WW. A não ser para quem ache que fins justificam quaisquer meios, as deliberações para aprovar na Câmara dos Deputados o fim da escala 6x1, elas estão caminhando da pior maneira possível. E por mais meritórios que sejam os objetivos a serem alcançados com essa alteração, na jornada e na escala de trabalho, a maneira como isto está sendo feito promete criar enorme confusão.

Cabe lembrar aqui as palavras do professor e sociólogo José Pastore, um renomado especialista nas relações de trabalho e que vem apontando erro atrás de erro no que se pretende fazer. O principal deles é tentar enquadrar todas as atividades humanas em uma única regra constitucional.

A diversidade do mundo do trabalho, argumenta o professor Pastore, é muito maior do que a do, por exemplo, mundo dos impostos, onde se tentou o mesmo caminho durante a reforma tributária e as leis complementares de novo sugerem um cipoal. No caso da CRT, centenas de novos artigos se somarão aos já existentes 922.

O Brasil abriga, lembra ele, 2.422 ocupações diferentes, cada uma com suas peculiaridades. O governo contribuiu bastante para empobrecer o debate, acusando quem aponta problemas dessa ordem como inimigo da classe trabalhadora ou coisa pior. Mas o apelo populista na hora de eleições domina a classe política como um todo.

Principalmente quando oligarquias regionais, como a que representa o presidente da Câmara, enxergam nessa questão um trunfo irresistível. Vale para essa questão um velho ditado que políticos no Brasil desprezam solenemente, contanto que tenham alguma vantagem imediata. Reduzir jornada por meio de regra constitucional cria mais problemas do que soluções.

Nessa edição vamos tratar também do El Nino e as dúvidas e dívidas do agro. E de Trump dizendo que mandou cancelar o ataque a Irã, que estava previsto para as próximas horas. Antes aos participantes da nossa roda, queria agradecer a Cristiano Noronha, cientista político, vice-presidente da consultoria Arco Advice.

anunciar agora ao nosso público, Cristiano, que acabamos de firmar uma parceria de conteúdo no nosso site do www, no portal da CNN, justamente com a Arco A de Vais. Depois eu faço uma relação lá no final, todos os nossos parceiros de produção do conteúdo, bem-vindo a bordo, Cristiano, boa noite. Boa noite, William, é um prazer estar aqui com vocês, nessa parceria também, boa noite, Thaís, boa noite, Daniel, boa noite, Caio, boa noite a todos.

Cristiano já entrou no clima, já apresentou todo mundo. Pronto. Perfeito. Mó ritmo. Daniel, boa noite para você em Brasília, Thais, querido, e Caio comigo aqui em São Paulo. O governo espera ansioso pela leitura do parecer da PEC da escala 6x1 na Comissão Especial da Câmara. O Planalto quer que o tema avance rápido. Claro que está no alvo, são possíveis ganhos eleitorais. Reportagem de Luciana Amaral.

A articulação entra numa semana decisiva na Câmara dos Deputados. O relator, Léo Prates, vai apresentar o parecer da proposta nesta próxima quarta-feira. A ideia é votar o texto na comissão especial na terça da semana que vem e no plenário da Casa no dia seguinte. Em acordo com o Planalto...

A PEC vai estabelecer 40 horas semanais de trabalho com dois dias de folga, sem redução de salário. A questão agora gira em torno de uma possível compensação às empresas, da carga horária para atividades consideradas essenciais e de um período de transição para a implementação das novas regras. Alguns setores desejam que a mudança leve 10 anos, enquanto o governo quer que comece imediatamente.

A Confederação Nacional da Indústria diz que a discussão está sendo assodada e defende que as quatro horas semanais a serem reduzidas fiquem a cargo de negociações coletivas.

A redução sustentável da jornada deveria ser consequência de ganhos de produtividade e não um ponto de partida. Para o governo, o esqueleto que o relator propõe já cumpre o papel de capitalizar a medida como vitrine eleitoral. De todo modo, mantém o próprio projeto de lei como elemento de pressão para a tramitação andar. O projeto com urgência constitucional vai servir também para adequar casos específicos da legislação existente à PEC.

A maior preocupação é quando a PEC chegar ao Senado, dado o desgaste na relação entre Lula e Davi Alcolumbre, presidente da Casa. Mas governistas apostam no apelo popular da medida. Pesquisa Quest, divulgada nesta segunda, mostrou uma leve queda dos que aprovam o fim da escala 6x1, de 72% para 68%. Ainda assim, número suficiente para demover qualquer pensamento dos parlamentares.

de enterrarem a pauta antes das eleições. A estratégia do governo para melhorar a popularidade de Lula não se limita a matérias que dependam do Congresso. Pelo contrário, a gestão petista tem reforçado o uso de medidas provisórias que driblam o parlamento e aceleram os gastos federais, sendo parte delas em crédito extraordinário, portanto, sem verbas antes previstas no orçamento desse ano.

Ao todo, o governo já liberou ao menos 27 bilhões de reais dessa maneira. O montante está especialmente voltado ao crédito e à ajuda governamental para os mais vulneráveis. Cristiano, como está essa ânsia, como descreveu a nossa Luciana Amaral do governo? Como é que está essa tramitação?

Bom, William, aparentemente muito bem endereçada, porque, como a gente viu aí, tem um apelo popular muito forte. O governo, em várias oportunidades, cita a questão da escala 6x1 como uma das prioridades da sua agenda. Isso começou no ano passado, inclusive no tradicional discurso de final de ano.

O presidente Lula fez um pronunciamento em cadeia de televisão, ressaltando a aprovação desse projeto, a tramitação da redução da escala 6x1. Fez isso também no Dia Internacional.

da mulher também. Então, esse é um tema que o governo aposta muito para melhorar seus índices de popularidade. E também a gente percebe um interesse muito forte das lideranças.

da Câmara dos Deputados em avançar com esse projeto. Tanto é que o presidente da Câmara, Hugo Mota, traçou um cronograma bastante até otimista, que já prevê, inclusive, a votação desse texto no plenário da Câmara dos Deputados já na próxima semana. O grande desafio, como bem disse a reportagem...

é justamente no Senado Federal. Mas a expectativa com quem a gente conversa é de que o Senado também deve dar uma tramitação rápida a esse tema, dado o apelo popular, que é muito forte, isso lembra um pouco também a tramitação, inclusive, do projeto de lei do Imposto de Renda. Então, o governo está jogando todas as fichas para melhorar seus índices de popularidade, não apenas...

na escala 6x1, mas se você for considerar todas as propostas que o governo já endereçou nos últimos meses, ela já ultrapassa a escala dos 150 bilhões de reais.

Daniel, a gente sabe, a grosso modo, sintetizando muito a situação, nós temos um texto básico que está sendo elaborado agora, no qual se pretende que as linhas gerais disso sejam definidas. E aí, por uma série de leis complementares, então, que é onde mora o diabo, os detalhes seriam aí contidos. O que você tem de apuração sobre isso?

William, na quarta-feira o deputado Léo Prats, que é relator da PEC, deve apresentar um texto bastante enxuto. Nesse texto existem ainda algumas dúvidas e o texto está sendo muito bem costurado com o presidente da Câmara, Hugo Mota. Qual que é o principal ponto agora de discussão? Regra de transição. O governo diz publicamente que quer início da vigência de forma imediata para evitar um ganho, mas não levo.

mas topa nos bastidores uma transição de dois anos. Hugo e o relator têm falado em um tempo de transição em torno de cinco anos e a bancada ruralista, que é muito forte, frente ao parlamentar da agropecuária, conseguiu assinaturas suficientes para apresentar uma emenda, emenda em PEC, que precisa de 171 assinaturas, apresentou uma emenda com 10 anos.

Outro ponto que fugiu ali do radar ou da discussão pública é que houve uma série de debates, estes sim públicos, nos estados para discutir a PEC. Fora dos debates públicos, a conversa que mais marcou o relator do projeto foi uma reunião com o presidente da Fiesp, Paulo Skaff, em que Skaff apresentou uma lista de 14 setores.

tidos como os mais sensíveis entre os já sensíveis que poderiam sofrer com a redução da jornada e com o fim da escala 6x1. Esses 14 setores teriam algum tratamento, obedecem a regra geral, mas teriam algum tratamento diferenciado pelo projeto de lei que está em tramitação. Exemplo.

Companhias aéreas, aeronautas têm uma carga horária de trabalho que não dá para você adequar exatamente no que diz a PEC. Então ainda tem esses ajustes, mas o Gumota absolutamente decidido. Na semana passada, eu até testemunhei na Câmara, ordem do dia ali, porque precisa cumprir um rito de sessões para ganhar tempo e poder votar PEC. Ordem do dia sendo aberta e fechada em menos de um minuto.

Esse é o tamanho da pressa. E, por outro lado, no Senado, Davi Alcolumbre já manifestou para algumas pessoas que pretende tocar essa votação ainda em junho. Na verdade, o Hugo Mota deu para o presidente Lula uma agenda expressa, fast track, e ganhou de volta o apoio do Lula à campanha do pai para o Senado. Essa foi a negociação política. Agora, hoje eu falei, você citou o Paulo Skaff, eu falei com ele hoje de manhã.

Ele desistiu, ele tinha sido convidado, essa reunião foi na semana passada aqui na Avenida Paulista, na sede da Fiesp. E aí ele ouviu do relator ali as questões todas e apresentou essa lista. E aí a comissão convidou o Skaf para ir nessa audiência de hoje, lá em Brasília, e ele mandou um ofício dizendo que esse debate está muito assodado. Acho que a expectativa toda do setor produtivo é o Senado.

e esses projetos de lei regulamentando ou abrindo essas exceções ou colocando, por exemplo, a prioridade do negociado sobre o legislado, que é algo que a própria CLT também determina em alguns pontos. Mexer com o FGTS, mexer com o desconto do INSS. Eu sinto que o setor produtivo está tentando essas duas linhas.

Projetos de reglamentação, emendas como essa da FPA e Senado, porque tentar convencer o Mota a retardar um pouco esse processo, eles já decidiram, tanto que o presidente da Federação da Indústria do Estado deixou de ir para Brasília hoje, dizendo oficialmente no ofício que o debate está assodado e que não ia lá só para fazer figuração. Mais um debate assodado, né?

O que a gente registra com certa consternação é que o tipo de ambiente político no qual a gente vive praticamente interdita qualquer debate mais profundo e racional. Mas vamos lá, Thais.

William, falando em racionalidade, acho que você destacou um ponto que acaba prejudicando muito essa conversa, que é a demonização de quem apresenta ressalvas e de quem apresenta problemas que podem surgir. O Brasil já é um país que adora fazer legislação da exceção. Portanto, quando... Aqueles dois acabaram de dizer, o Daniel e o Caio. Exatamente. Já vamos para a exceção.

Nós já vivemos, por exemplo, há décadas sob um regime tributário, que é o pior do mundo, não é pela carga tributária, é pela tentativa hercúlea de compreender para quem você deve o que e quanto você tem que pagar. Então, a mesma coisa vai acontecer com o mercado de trabalho.

Então, assim, qual é o... Acho que o professor José Pastore tentou dar um pouco de tamanho nisso, da quantidade de artigos que vão aparecer. Quer dizer, como é que uma empresa, e eu sempre lembro isso aqui, que o Brasil é uma economia formada por pequenas e médias empresas.

Qual é o tipo de legislação, qual é o tipo de contato que as pequenas e médias empresas vão ter com essa legislação, qual é o grau de judicialização que isso vai acontecer. Há quantos anos a gente debateu aqui o tamanho da justiça no trabalho no Brasil, uma tentativa de reduzir.

essa judicialização depois da reforma trabalhista 2017, agora com todas as mudanças de entendimento nos tribunais de trabalho, esse trabalho já se perdeu. Então, é uma pena, porque o Brasil tem uma população jovem, tem um mercado de trabalho formado majoritariamente pelos setores que empregam muito, que é o caso dos serviços, que é um setor de baixa produtividade, em que o principal custo é o salário. Então, qualquer...

Esse choque de custos que signifique mais salários para este setor de serviços, que é o principal da economia, além da gente estar falando da composição do mercado de trabalho, a gente pode estar falando de um potencial choque inflacionário.

Deixa eu só fazer uma nota técnica aqui. Nós somos da velha guarda, Cléris, estou a quem merece. Esses números que eu citei, em vez de um artigo publicado pelo professor José Pastor esse fim de semana, pelos colegas do Poder 360. É ali que estão esses números. 922 artigos na CLT, centenas de novos artigos, se as coisas caminharem como parece que caminharão.

Um texto base, depois um cipoal de medidas complementares, tentando pegar todas as peculiaridades de todas as atividades humanas. É um esforço brasileiro realmente tentar fazer dar certo, que já não deu certo no caso de impostos, por exemplo. Agora, Cristiano, até que ponto na sua avaliação o Senado topa enfrentar essa onda?

Olha, William, é importante lembrar o seguinte, o Senado, pelo menos a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, ela aprovou no final do ano passado uma proposta de emenda à Constituição exatamente com esse objetivo. E a proposta lá do Senado, ela estabelece uma regra de transição de quatro anos, quer dizer, de 44 iria reduzir.

uma hora por ano, portanto, quatro anos, até cumprir essas 40 horas semanais. Então, aparentemente, lá no Senado também, o debate já andou no ano passado, andou justamente para pressionar a Câmara, então, hoje, parece depender muito mais dessa relação entre o governo e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Mas aparentemente já há um ambiente também propício para que isso avance. Vai depender também esse ritmo de tramitação de como é que sai o texto da Câmara, dos deputados. Se ele sair com um nível de consenso relativamente bom...

é possível que ele ande no Senado também de uma forma rápida. Agora, essa questão da escala 6x1, e a gente vai falando de puxadinho, mas é justamente resultado disso, porque essas discussões acontecem justamente de forma assodada.

Então, como não tem tempo para se calcular exatamente o impacto para as empresas e saber exatamente os efeitos que isso vai ter no mercado de trabalho, aí já vai se falando de puxadinho de áreas consideradas essenciais que devem ser tratadas de uma forma ou de outra. E é uma mania nossa também de importar coisas que estão sendo feitas em países desenvolvidos.

mas lá quando a produtividade já está num patamar que a gente ainda não conseguiu chegar. Então, enfim, a gente importa essas coisas, mas com muito dever de casa ainda a ser feito. E isso acaba gerando, obviamente, um custo adicional para o setor empresarial. Daniel, o que nós temos de novo sobre essa hipótese? Até aqui é uma hipótese de compensação às empresas.

William, tem um grupo de parlamentares na Câmara e no Senado, mas principalmente na Câmara, não é um grupo muito numeroso, mas ligado a frentes parlamentares do setor produtivo, que vinha trabalhando numa ideia de desoneração da Folha. Isso poderia vir, inclusive, como uma emenda ou como um destaque na hora da votação e caso passasse, não poderia ser vetado.

pelo Palácio do Planalto, porque se trata de uma PEC, sem parecer final do Presidente da República, ela é só promulgada.

No entanto, foi se percebendo ao longo dos meses, e esse é um discurso do Ministério da Fazenda, que uma desoneração precisa ter fonte de compensação muito bem apontada. Isso é princípio básico da lei de responsabilidade fiscal. E não existe, não existe uma forma de compensar a desoneração da Folha. Então, se o governo levasse ao Supremo, e provavelmente levaria, seria uma causa praticamente ganha.

Agora está se falando numa coisa que não agrada absolutamente o setor produtivo, é migalha para os empresários, mas é de qualquer forma o que tem se falado em termos de compensação, que é brotar ali no texto final, você vai ter uma transição, digamos que você tem ali, digamos, quatro anos para reduzir de 44 para 40 horas semanais.

Tudo que excede as 40 horas passaria a não ter encargos trabalhistas. Então, a não ter ali sistema S em cima, não ter despesas previdenciárias, não ter nenhum tipo de recolhimento do governo. É alguma coisa que ajuda muito pouco o setor privado, mas de qualquer forma é a compensação realista que tem sido entregue. Muito ganho de apelo popular e pouca compensação para o empresariado.

Bom, a gente vai encerrando esse segmento. Muito obrigado, Cristiano Noronha, cientista político, vice-presidente da consultoria ArcoAdvice, nossa mais nova parceira de conteúdo no site, na WW. Boa noite, Cristiano. Boa noite, William. Prazer estar aqui com vocês. Colegas, a gente vai para o intervalo depois. Os impactos do El Nino no agro brasileiro. Até já.

Estamos voltando do intervalo WW, conosco agora Marcelo Brito, professor e diretor da Fundação Dom Cabral Agroambiental. Marcelo foi presidente da ABAG, Associação Brasileira do Agronegócio. Marcelo, obrigado por estar conosco e nosso boa noite. Boa noite, William, Caio, Thaís, Daniel. Prazer estar aqui com vocês novamente.

A meteorologia prevê um elnino de forte intensidade para os próximos meses, assim, tipo quase 100% essa probabilidade. Projeções do mercado evidentemente apontam para um impacto direto na safra 26, 27 no Brasil. Confira.

Os dados apontam para uma chance de 67% de aquecimento das águas do Pacífico em até 2 graus e foram reunidos por um dos mais avançados centros do mundo, a Agência de Monitoramento da Atmosfera e Oceanos dos Estados Unidos, conhecida como NOA. Mesmo que daqui a algum tempo a gente tenha as atualizações do relatório do NOA indicando que ele não será tão forte assim lá no Pacífico,

Por conta das mudanças climáticas, por conta do planeta estar mais aquecido, isso vai potencializar os efeitos do fenômeno de qualquer forma. As informações servirão de base para um alerta do monitoramento do agro do Bradesco. A expectativa é de um balanço da safra de grãos 2026-2027 mais apertado, deixando os preços mais caros do que nas safras passadas.

Os últimos episódios de forte intensidade mostram riscos para a qualidade do trigo no Brasil, para a produção de milho segunda safra e perda de produtividade de soja no Mato Piba, região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Em contrapartida, Estados Unidos e Argentina tendem a ter safras de milho e soja mais positivas.

O El Ninho leva ao mesmo tempo seca e calor para algumas regiões e excesso de chuvas em outras, como visto em 2024, quando o sul do país enfrentou a maior enchente da história. O clima se junta a uma combinação de fatores ruins do setor, alta nos custos de produção, juros elevados, que puxaram a inadimplência, com a consequente alta nos pedidos de recuperação judicial.

Marcelo, eu sei da dificuldade agora. A gente tem fatores difíceis a gente colocar em relação um com o outro, mas é exatamente o que eu vou te pedir. Guerra no Oriente Médio, El Nino, dificuldades de crédito. No que isso vai dar? Bom, William, não faltava mais nada, porque as estrelas do mal estão todas alinhadas para a produção agrícola brasileira. Começamos o ano aí.

já com inadimplência alta, juros altos, aumento de custos, queda de preço. Depois veio a guerra do Irã, aumento expressivo dos fertilizantes, falta de fertilizantes, vai faltar fertilizantes.

na próxima safra, e agora o El Ninho. Eu venho acompanhando isso de perto, então, assim, os percentuais vêm crescendo mês após mês, nós noticiamos aí na CNN, em fevereiro nós falamos sobre El Ninho, ainda era ali uma previsão baixa, vem subindo, então a chegada do El Ninho é 100%, o Super El Ninho vem aumentando cada vez mais. Mas tem um detalhe importante, o Ida e demais,

o União não se comporta de forma igualitária. A gente fala, na região central do globo, a gente vai ter secas e chuvas nos extremos. Não necessariamente. Tem impactos diferenciados, por exemplo, dentro da Amazônia, impactos diferenciados também dentro do Centro-Oeste.

África geralmente tem um impacto muito forte, mas de qualquer maneira vai impactar a produção agrícola, não só no Brasil, mas no mundo, e sejam elas culturas sazonais ou culturas perenes de longo prazo. Como é que isso está batendo em Brasília, Caio, de Poisoniano?

Bom, Brasília tenta, a bancada Frente Parlamentar da Agropecuária, aprovar um projeto de lei que já veio da Câmara, que trata de renegociação de dívidas. Amanhã tem uma conversa, o senador no Senado, o relator no Senado é o senador Renan Calheiros, que deve ter uma reunião nesta terça-feira com outros senadores e com o Ministério da Fazenda, porque tem uma trava ali.

O Ministério da Fazenda tentando restringir o alcance desse projeto de renegociação de dívidas, enquanto o Senado e a bancada ruralista do agronegócio tentando melhorar as condições dessa renegociação. Só para você ter uma ideia, William.

Hoje, segunda-feira, só a bancada do Rio Grande do Sul, ligada ao agronegócio, apresentou 30, 40 emendas a esse projeto, que eles estão tentando apreciar ou nessa semana ou na semana que vem, justamente para tentar reduzir o impacto de tudo que a gente está falando aqui. Daniel. William, tem uma tendência até grande de que esse projeto seja votado já amanhã na Comissão de Assuntos Econômicos. E é um projeto que nasceu...

como uma forma de renegociar dívidas dos produtores no Rio Grande do Sul, por causa de tudo que a gente já sabe, e acabou se estendendo além das divisas gaúchas. Isso pode afetar dívidas no valor total de quase um trilhão e meio de reais.

E aí a gente está falando de taxas de juros que, pelo relatório do senador Renan Calheiros, vão de 3,5% a 7,5% com 10 anos de prazo e 3 anos de carência. São condições muito facilitadas. A gente não está querendo dizer aqui que é injusto. A gente sabe da dificuldade do agro, recuperações judiciais em nível absolutamente recorde, na dimplência altíssima.

Mas é sempre preciso ponderar, se alguém vai ter taxas de juros menores, isso de certa forma, Thaís sabe muito melhor explicar do que eu, é crédito direcionado e significa que o restante da economia vai ter que pagar mais. É isso.

William, o ambiente para dificultar o Banco Central de promover uma nova redução da taxa de juros, ele está piorando muito. Tem a questão toda da guerra e tal, mas essa tentativa do governo de colocar o país no contraciclo que...

O Banco Central tenta promover, o Banco Central sobe a taxa de juros para reduzir concessão de crédito, reduzir demanda da atividade econômica. O governo está na direção contrária, turbinando o crédito direcionado, portanto, com uma taxa de juros menor. Como eu sempre digo, só tem um dinheiro na economia. Qualquer dinheiro na praça que está pagando menos, alguém está pagando a diferença. Quem paga a diferença é o Tesouro Nacional em primeiro lugar.

E, em segundo lugar, quem está fora do crédito direcionado, porque a política monetária precisa dobrar o peso sobre quem restou fora do benefício para ter o mesmo efeito esperado. Então, o ambiente de distorção que se cria e cria um ciclo de retroalimentação negativa, porque faz sentido o juro estar desse tamanho ou não estar, é justo com setores altamente produtivos.

que já inclusive tem um processo de financiamento já bastante seguro na economia, chegarem ao grau de inadimplência que estão, de exposição que estão. Então, nós chegamos num ponto de estrangulamento ali da solução, porque o governo insiste em dobrar a aposta na distorção. Você vai falar, mas o mérito, o setor agrícola precisa sair dessa, a inadimplência está muito alta. O mérito acaba se perdendo nessa conjuntura.

Marcelo, eu me lembro agora há pouco, a primeira pergunta a você era justamente quando se juntam esses vários componentes e formam a situação como você usou a expressão, as estrelas do mal estão alinhadas. Agora, usando a expressão da Thais, estrangulamento. Nós temos um estrangulamento de crédito, nós temos um estrangulamento de fertilizantes e nós temos também o estrangulamento trazido pelas condições climáticas. Na sua avaliação, qual deles é o mais urgente neste momento?

William, quando a gente chega num ponto desse estrangulamento, que a gente lembra que tem um outro, que é sempre esquecido, que é o estrangulamento da inteligência, do planejamento e da gestão. Isso falta. Quando a gente olha a questão da inadimplência, nesse exato momento, ela tem sim uma boa parte pelos juros altos, mas tem muito com a deficiência de gestão do setor.

Tem ditados que são muito antigos, quem planta juros alto colhe inadimplência, ninguém quebra na baixa, quebra na alta. São ditados antigos do agronegócio que a gente insiste em seguir. Então, é um país que é gigante no agro, mas ainda preso a uma mentalidade de que a agricultura tropical é baseada em clima estável.

Coisa que não existe mais. A gente olha para o Rio Grande do Sul, a quantidade de extremos climáticos dos últimos 10 anos, já mapeados há mais de 15, 20 anos atrás, que tipo de planejamento não fizemos? Nenhum. Que tipo de estruturação de seguro rural foi colocado para valer nesse país? Nenhum. Então, agronomicamente, o agro brasileiro é um show, dentro da porteira é maravilhoso, mas a gestão e o planejamento do setor continua muito pobre.

muito fraco. E assim a gente entra nessas crises, a gente carrega o tesouro, cria aqui uma renegociação de dívidas pesadas para a conta do brasileiro, de todos os brasileiros, e daqui a alguns anos nós vamos estar fazendo de novo, e daqui a alguns anos nós vamos estar fazendo de novo, porque não tem planejamento. Só um ponto importante, William, um dos maiores produtores de grãos desse país, em 2024, uma entrevista disse o seguinte.

Se no ano que vem, se na safra 25, 26, a gente tiver uma produção tão grande quanto a desse ano, nós vamos depreciar os preços. Nós tivemos. E agora ele voltou de novo e falou, se no ano que vem a gente tiver outra safra desse tamanho, nós vamos depreciar ainda mais os preços. E só não terá por conta do El Nino e da Guerra do Irã. Porque senão nós estaríamos plantando novamente naquela expectativa que sempre alguém compra. Mas essa não é a realidade.

de um mundo onde o balanço dos estoques está equilibrado e não tem mais aquela pressão de crescimento fora da faixa orgânica quando existiu nos anos anteriores. Então, assim, urge profissionalização e planejamento num setor que é tão grande na economia brasileira.

Nós não temos lá, justamente no Congresso, uma representação parlamentar tão, estou falando em termos relativos, bem organizada como a FPA? É, mas ela não consegue fazer tudo, né? Ela pode muito, mas não pode tudo. Tem questões regulatórias, questões...

até do volume de recursos do plano safra, questões de juros que ela não controla. Ela consegue exercer uma pressão política muito forte, muito intensa e que consegue dar resultado, mas ela não consegue tudo. Aliás, uma informação, a reunião de amanhã da bancada do agro lá no Ministério da Fazenda, não é com o ministro da Fazenda, porque ele está em Paris para uma viagem de ministros das finanças do G7. Daniel.

William, só queria mencionar que esse fenômeno climático ao Ninho, muito potente, mais inclusive do que das vezes anteriores, tem preocupado uma série de outros setores. A gente está falando da agricultura, mas o pessoal da energia elétrica tem demonstrado muita preocupação, porque a gente lembra que aconteceu em 2023, 2024 e 2025, na região metropolitana de São Paulo, estou falando da Enel, que está no processo de perda da concessão na Agência Nacional de Energia Elétrica, e isso tudo foi sem ao Ninho.

E com El Ninho, chuvas, ventanias, adversidades climáticas muito mais intensas, existe ali um risco real de pequenos ou nem tão pequenos blackouts espalhados não só para São Paulo, mas em todo o país, que vai demandar muitíssimo essa questão nova que é a resiliência das redes de energia. É isso para encerrar.

William, então, nós estamos tratando aqui de um problema de potencial de choque de oferta, um problema potencial de choque de energia e, portanto, um problema potencial de choque de preços. E o Congresso Nacional, porque eu acabei falando do governo, mas o Congresso Nacional também não ajuda, porque no afã de tentar resolver problemas setoriais, acaba alimentando esse ambiente de distorções.

meio de 2026 para o começo de 2027 é um período preocupante para comportamento de preços, para manutenção da taxa de juros em patamar elevado. Se o câmbio não estourar com eleição e tudo, a gente tem até algum alívio, mas o ambiente não é bom.

Tá isso, começando por você, obrigado. Boa noite, até amanhã. Mas queria agradecer agora muito ao Marcelo Brito, professor e diretor da Fundação Dom Cabral Agroambiental, ex-presidente da BAG, Associação Brasileira do Agronegócio, pela participação. Marcelo, obrigado, boa noite. Boa noite, prazer. Igualmente a você, Daniel e Caio. Obrigado, boa noite. Vamos para o intervalo. Na volta, Trump anuncia mais uma vez que desistiu, por enquanto, de atacar o Irã. Até já.

WW, voltando do intervalo, conosco agora Dani Zahredin, professor em Relações Internacionais, diretor do Instituto de Ciências Sociais da PUC de Minas. Dani, obrigado por estar conosco. Boa noite. Boa noite, William.

E o nosso Lourival Santana, boa noite, Lourival. Presidente, Donald Trump disse hoje que adiaria um ataque, até agora ele adiou, porque era para ser hoje. Ele teria atendido, segundo ele disse, a pedidos de países da região que acham que negociações sérias com o Teherã estão acontecendo.

Trump, a gente já viu ele falar isso mais de uma vez. Ele tem dito, repetiu hoje, que o entendimento pelo fim da guerra pode ser alcançado. Acompanhe.

Donald Trump afirmou que líderes sauditas do Catar e dos Emirados Árabes solicitaram que os Estados Unidos adiassem um ataque contra o Irã que estava programado, segundo Trump, para esta terça-feira. Mesmo indicando que havia um ataque com data certa para acontecer, Trump voltou a falar que há negociações sérias em andamento e que há confiança de aliados no Oriente Médio de que um acordo aceitável será alcançado.

Ainda assim, o presidente dos Estados Unidos disse que instruiu o comando militar a estar preparado para realizar um ataque de grande escala a qualquer momento contra o Irã, a depender do rumo das negociações. A publicação de Trump veio após os Estados Unidos receberem, na noite do último domingo, mais uma proposta do Irã para acabar com a guerra em curso no Oriente Médio. Mas não há qualquer sinal de que Washington ou Teherã estejam cedendo no que consideram como linhas vermelhas para as negociações.

O Irã propõe um desbloqueio do Estreito de Hormuz em uma primeira fase, deixando discussões sobre o programa nuclear do país para uma segunda etapa do acordo. Já os Estados Unidos querem que o Irã entregue todo o material nuclear enriquecido a níveis próximos à confecção de ogivas nucleares.

Nem Donald Trump aceita se contentar inicialmente com uma reabertura do Estreito de Hormuz, nem as autoridades iranianas concordam em transferir urânio enriquecido para outros países. Em meio ao impasse, o Irã tem ativado sistemas de defesa aérea nos últimos dias, como em Sfahan, onde há um complexo de pesquisa nuclear, e em Keshen, uma ilha na saída do Golfo Péssico pelo Estreito de Hormuz.

Dani, está em jogo algo que é muito importante do ponto de vista histórico, quando estamos falando de superpotências como os Estados Unidos. Chama-se credibilidade. Onde está de Trump?

É muito difícil, porque a reputação nas relações internacionais representa quase que tudo. E os recuos constantes do presidente Trump revelam o problema que os Estados Unidos se meteram do ponto de vista estratégico e do ponto de vista político.

o Irã não vai dar ao presidente Trump aquilo que ele quer, que é uma declaração de vitória, de uma guerra que saiu como planejado. Ao contrário, a estratégia iraniana é de criar frustração no presidente Trump e de alongar o tempo. Porque quanto mais o tempo passa, mais improvável dessa guerra continuar acontecendo.

Agora, nomear um terceiro pela minha decisão também é uma alternativa triste, ao dizer que o ataque que poderia acontecer hoje ou amanhã não vai acontecer a pedido da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar. Então isso revela uma dificuldade tremenda de criar uma saída aceitável.

para que a reputação, a imagem, seja minimamente tratada após todos esses meses de uma guerra sem fim, de uma guerra que ninguém aguenta mais.

Engraçado, o Trump está dizendo, ele está meio que terceirizando a questão das negociações. Ele entrou, ele se engajou em negociações diretas. A primeira delas, inclusive, via o vice-presidente dos Estados Unidos, que chegou até a entrar no avião e descer do avião depois.

Whitcoff e Jair Adkutin estiveram diretamente envolvidos nessas negociações. Agora, desta vez, olha o que ele está dizendo. Ele está dizendo que são os líderes do Catar, Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos que pediram a ele que adiasse, porque eles, esses três líderes árabes, acham que conseguem algum tipo de acordo que satisfaça os Estados Unidos?

Bem, essa versão é inverossímil porque o secretário de Defesa, Peter Hegset, estava nesse domingo no Kentucky fazendo comício para um deputado, um pré-candidato a deputado, que está desafiando um atual deputado republicano.

que por sua vez é um desafeto do Trump, porque pressionou pela liberação dos arquivos Epstein. Então, não faz sentido o secretário de defesa estar fazendo campanha na antivéspera de uma ofensiva contra o Irã.

Já não faz sentido o secretário de Defesa em nenhum momento fazer campanha, isso é totalmente contra a liturgia política dos Estados Unidos. Não é ilegal se ele, como disse, pagou pelas despesas da ida dele, não foi como um funcionário, mas o secretário de Defesa fica afastado dessas questões político-partidárias, exatamente para proteger o cargo do Departamento de Defesa.

Mas, sim, é óbvio que a Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar sentem que são eles que mais sofrem diretamente com as represálias iranianas, toda vez que há ataques de Israel e Estados Unidos contra o Irã. Mas o ponto mais importante que está pressionando o Trump são dados como o que saiu hoje, a pesquisa do Instituto Siena New York Times.

64% dos americanos acham que essa guerra foi uma decisão errada. Só 30% acham que foi certa. E o dado mais importante, 22% dos republicanos acham que foi errada. 73% dos eleitores independentes.

acha que foi errado. E você combina isso com o dado da inflação que saiu na semana passada. 3,8% de inflação nos últimos 12 meses. Quando era de 2,4% antes de começar a guerra e já estava em um patamar muito alto.

Então, isso é chequemate politicamente contra o Trump, que precisa encontrar uma saída que dê um mínimo de sentido para essa guerra e que seja minimamente vantajosa com relação ao acordo que o Barack Obama tinha conseguido mediante negociação e que era um bom acordo. Essa que é a realidade. Os iranianos dizem...

que estão vendo uma posição mais maleável dos Estados Unidos, aceitando liberar um quarto dos ativos bloqueados, bancários, aceitando a ideia de que o Irã possa retomar um programa nuclear pacífico e falando na possibilidade de suspender as sanções durante as negociações. Esse último ponto foi negado por uma fonte americana. Mas, enfim, o Trump está...

buscando um acordo. Foi lá em Pequim, foi o primeiro pedido dele ao Xi Jinping, voltou de mãos vazias em relação a isso. Agora, você se refere a uma situação política desfavorável a ele do nosso ponto de vista. Aí precisamos entender se do ponto de vista dele ele vê essa situação da mesma maneira como nós aqui estamos colocando os fatos. A inflação que se pega direto foi uma das grandes causas da derrota do Biden para ele.

Nós estamos vendo pesquisas de opinião e informação de voto particularmente negativas nos grupos que decidem eleições. Por outro lado, ele está comemorando uma série de redesenhos de mapas eleitorais que tornaram mais árduo para os democratas reconquistar, por exemplo, o controle da Câmara. Em que medida, Dani, Trump está, de certa forma, pouco ligando para o que está acontecendo?

Eu acho que essa guerra já acabou no 40º dia. O Lorival aponta uma questão importante, que é os sauditas, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, não querem ver bombas caindo nas suas refinarias.

E você toca outro ponto. É como que o presidente Trump vai ressignificar, criar algum ponto de pegada, né? Para que ele possa fazer o que ele quer. O que ele quer? Ele quer não sair como o presidente mais desastroso da história dos Estados Unidos.

A fala dele dá a entender isso, né? Que ele não está muito preocupado com essa guerra, no sentido de que outros vão resolver a guerra para ele. Então, é uma situação complicada. Mas, por outro lado, William, eu vejo o seguinte.

Não é fácil negociar com vendedor de tapete. Os vendedores de tapete são hábeis negociadores. E os iranianos perceberam que essa guerra foi ganha na geografia, no estreito de Hormuz e sufocando o mundo com sede de petróleo. E a partir disso, eles vão dosando.

Eu também concordo que o acordo com Barack Obama era um bom acordo, mas que o que ele busca agora é uma janela maior de ausência de enriquecimento de urânio dentro do Irã.

o Trump busca algum elemento para poder justificar o fim dessa guerra, uma guerra que já acabou. Eu acho que ele está preocupado com as eleições de novembro e preocupado com a sucessão que ele vai fazer. Eu acho muito difícil. Essa guerra é muito imprevisível, mas eu acho muito difícil dessa guerra recomeçar. Há uma curiosidade a ser acentuada.

Quando a gente tenta, como estava tentando o Dani agora, você e eu, tentar entender qual é o raciocínio do Trump nessa situação, que a gente identifica como adversa para ele do ponto de vista político doméstico, sobretudo. E aí ele vem e faz uma declaração, os tapafúrdia, para dizer o mínimo, dizendo que ele não está preocupado com a situação financeira dos americanos. E aí os repórteres chamam ele à razão, dizem, peraí, como é que você não está preocupado com isso, se esse é o ponto que todo mundo aqui...

Os republicanos, inclusive, apontam como um perigo. Ele disse, não, eu reitero o que eu falei, porque a minha declaração é perfeita. É como dar um chute na boca do eleitor. Ele chegou a informação de fontes de que ele estaria dizendo que não se importava mais com as midterms. Não estava preocupado com as midterms.

Em janeiro ele tinha dito que estava muito preocupado porque se os democratas ganhassem a Câmara e o Senado ele poderia sofrer impeachment e tal. E aí recentemente vem essa nova ideia de que ele não está ligando para as midterms.

E acho que aí é uma confluência de coisas. Em primeiro lugar, ele não estará no ballot box, ele não estará na cédula eleitoral. Então, ele alegará isso? Não, os republicanos perderam porque eu não estava na cédula eleitoral. Ok.

Ele está calculando que, com isso que você mencionou antes, essas decisões da Suprema Corte em favor do gerrymandering, da manipulação dos distritos eleitorais em favor dos republicanos, combinada com uma decisão da Suprema Corte da Virgínia.

que derrubou um gerrymandering em favor dos democráticos. Tudo isso eles consideram que ganharam no mínimo oito cadeiras na Câmara, chances melhores de eleger oito deputados e que isso contrabalançaria a impopularidade e que o Senado acham que está garantido. Então não há impeachment nesse quadro um pouco otimista.

Ele acha que com a nomeação do novo presidente do Banco Central, também ele terá um aspecto de uma relação com a inflação mais tranquila nos juros. Eu acho que isso não vai acontecer. O Kevin Walsh é, sim, conservador nos juros. Mas o Trump está com esse cálculo de que não pode ser humilhado pelo Irã, de forma alguma.

e que as midterms ele consegue controlar. Então, acho que é aí que está. Mas a gente está vendo, por outro lado, ele tentar uma negociação. Ele está, sim, cedendo ao Irã de forma discreta e está, sim, tentando chegar a um acordo. Nós fomos quietos em relação a Israel. É impossível entender o primeiro passo de Trump nessa guerra, lá no final de fevereiro.

sem a influência, até diria até mais, alguns dizem até mais, decisiva de Israel. O que está acontecendo em Israel, Dani?

É interessante porque quando o Líbano se torna uma moeda de troca entre Israel, Irã, Hezbollah, governo libanês e Estados Unidos, isso complexifica um pouco mais o quadro. Eu vejo que a posição de Israel hoje é de preocupação de como vai lidar com as comunidades do norte de Israel com relação aos ataques do Hezbollah.

E, ao mesmo tempo, como que afasta a possibilidade de um acordo com Hezbollah de uma influência daquilo que está sendo negociado entre Estados Unidos e Irã. Traduzindo, como que Israel vai conseguir matar dois coelhos com uma cajadada só? A primeira, mostrar internamente que vai conseguir assegurar ao israelense de que as comunidades do norte, lá da Galiléia,

não serão afetadas mais por aquele grupo e que aquilo não é resultado de uma negociação do Irã em favor do Hezbollah, mas sim da força, da capacidade desse novo Churchill, como ele gosta de se colocar, que é o primeiro-ministro Netanyahu, de negociar com o Líbano, duro com o Líbano, apoiado pelos Estados Unidos.

De forma a dizer que o cessar-fogo com o Líbano será fruto da nossa pressão e não da pressão iraniana. Na verdade, eu vejo que Israel e esse governo, vamos falar assim, que esse governo busca uma forma de garantir os louros de janeiro desse ano.

no momento em que a manutenção desses ganhos vai depender do resultado de uma guerra que foi mal conduzida e de uma guerra que gerou resultados políticos negativos para Israel e para os Estados Unidos. Por último, vamos puxar essa questão de Israel para o lado americano.

Extraordinário a gente registrar como em toda aquela esfera de informação em torno do Trump, a atmosfera em relação a Israel virou radicalmente. Alguns dos principais apoiadores de Trump, nas franjas da própria direita, passaram a ver Israel como culpado de decisões equivocadas. Isso tem consequências eleitorais?

Para o Trump? Para o Firmes, sim. Exato, porque uma base, uma parte importante da base do MAGA, da base dos republicanos, é o eleitorado batista, que está muito associado à Israel, à defesa de Israel. É um eleitorado evangélico, conservador, que vê o seu destino, a sua visão de mundo associada à Israel. Isso...

Esse amálgama está se desmontando dentro do MAGA porque eles sentiram que o presidente Trump foi arrastado para uma guerra por uma ilusão que o Netanyahu conseguiu vender para ele de que era um low hanging fruit, um quick win, era fácil derrubar o regime e entrar para a história com isso.

Então, isso não aconteceu. Então, é claro que Israel é algo muito maior do que o primeiro-ministro Netanyahu, mas as coisas politicamente estão misturadas na cabeça dos republicanos e agora realmente a tentativa é de tentar distanciar Trump de Netanyahu. Dani Zaredin, professor de Relações Internacionais, diretor do Instituto de Ciências Sociais da PUC de Minas. Obrigado, Dani, pela participação aqui. Boa noite. Prazer todo meu. Um abraço, William.

Igualmente, Lourival, obrigado, sempre um prazer tê-lo a bordo. Antes de terminar, temos mais um anúncio, aliás, um anúncio que a gente faz com muito orgulho também. A gente quer comunicar que a Arco Advice, a consultoria da análise política e relações governamentais, se junta ao nosso time de parceiros no site do WW. A Arco agora se junta à Eurasia, ao Inspiragro, ao Grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP e à Timelands.

Confira, tem muito material para vocês, além do que a gente transmite. Visite a página do www.nc.br. Agora sim, essa edição fica por aqui. Boa noite, obrigado.