Episódios de Em directo da redacção

Homenagear Frida Kahlo e revisitar Racine no Festival Off Avignon

14 de julho de 202611min
0:00 / 11:23

Neste programa vamos conhecer Ana Lorvo que sobe ao palco em duas peças no Festival Off Avignon: “Libre de Cojear” e “Andromak”. A primeira é inspirada na vida de Frida Kahlo, foi co-escrita por Ana Lorvo e Alice Schwab, e é um solo interpretado pela nossa entrevistada. A segunda é “Andromak”, uma releitura contemporânea do clássico de Racine, numa encenação de Cyril Cotinaut.

Ana Lorvo tem uma fascinação por Frida Kahlo desde criança, quando foi visitar a Casa Azul da pintora, na Cidade do México, e de lá não queria sair, como gosta de contar o seu pai. Desde então, a admiração pela artista não parou de crescer até chegar à criação desta peça “Libre de Cojear” que está no Festival Off Avignon. O texto foi escrito a quatro mãos, em espanhol e em francês, com a encenadora Alice Schwab. Em palco, Frida é interpretada por Ana Lorvo, num solo habitado pelos fantasmas do aparatoso acidente de autocarro que fez do seu corpo martirizado a origem e o centro da sua pintura, assim como a fonte da sua fúria de viver.

“É uma peça sobre Frida Kahlo, sobre a sua vida, mas não é uma autobiografia. O objectivo era realmente incarnar a personagem e é em espanhol. A gente quis falar da vida dela antes de ser uma artista, quando era uma jovem que andava na escola de medicina, que tinha um outro namorado, que era o Alejandro e não o Diego [Rivera]. E depois mostrar o acidente, mostrar como essa mulher quebrada continua a querer viver, a querer combater e viver a sua vida com muito amor. Antes do acidente, ela fazia estudos de medicina e sem o acidente talvez Frida Kahlo não tivesse sido uma artista, mas uma grande médica. Para nós, era muito importante falar disso e mostrar que um evento na vida de uma pessoa pode mudar toda a história. Ela utilizou essa tragédia para ser a mulher mais incrível do mundo”, conta Ana Lorvo.

Em palco, há cadeiras em cima das quais estão pernas de pano que representam diferentes personagens com quem ela dialoga: o pai, o namorado, a filha que ela nunca pôde ter, uma bailarina que personifica a morte.  “A gente, quando criou as marionetas, o objectivo era só ter os pés e não todo o corpo para mostrar a diferença quando Frida não conseguia mais caminhar, mostrar que ela só tinha os seus pés para caminhar. Ela joga com marionetas em todo esse cenário e essas marionetas representam pessoas importantes de sua vida”, acrescenta Ana Lorvo.

A peça “Libre de Cojear” é apresentada na sala Le Studio da Scierie até 25 de Julho.

A outra peça em que Ana Lorvo sobe ao palco é “Andromak”, que está no Théâtre des Carmes André Benedetto até 25 de Julho. O espectáculo, encenado por Cyril Cotinaut da companhia Kourtrajmé, parte da tragédia escrita por Jean Racine em 1667 para olhar para os dias de hoje.

“O trabalho do Cyril é muito interessante porque ele começa a trabalhar um drama que é um clássico de Racine que muita gente já leu ou já viu no teatro, mas ele quer realmente trazer as personagens a cada pessoa, por exemplo, eu interpreto Cléone e como Cléone tem algo de mim. A gente começou por escrever monólogos para passar da língua de Racine à língua da Ana [Lorvo], que pode falar sobre a sua vida, sobre as suas próprias tragédias. Para mim, foi muito interessante o trabalho, porque Racine parece uma língua às vezes difícil, que as pessoas não entendem, mas o objectivo é mostrar que Andrómaca, que é uma peça muito velha, é muito actual hoje, que as personagens, as guerras, os combates, são combates de hoje em dia”, acrescenta a actriz.

Ana Lorvo já conhecia o Festival de Avignon, o In e o Off, enquanto espectadora e agora está a viver o seu primeiro Off enquanto actriz, no evento que conta com mais de 1700 espectáculos e milhares de artistas.

“Estou muito feliz. São duas peças que eu defendo e que eu gosto muito de poder interpretar. Estou muito feliz, é um ritmo muito intenso porque actuo às 15h, depois às 22h, mas eu estou feliz porque eu amo fazer teatro e estou realizando um dos meus sonhos”, conclui.

Homenagear Frida Kahlo e revisitar Racine no Festival Off Avignon | Castnews Index — Castnews Index