"Vou para Angola": Jéssica Lima recupera memória familiar de São Tomé para Angola
"Vou para Angola", Jéssica Lima parte da viagem da avó, que deixou São Tomé e Príncipe com quatro filhos, para interrogar as marcas da migração nas gerações seguintes. A curta documental, com 14 minutos, cruza arquivos e memórias familiares e é apresentada esta sexta-feira, 2 de Outubo, no FESTin, em Lisboa, precisamente no dia em que a avó da realizadora completaria 93 anos.
Em "Vou para Angola", a cineasta são-tomense Jéssica Lima regressa ao percurso da avó entre São Tomé e Príncipe e Angola para compreender não apenas uma deslocação geográfica, mas aquilo que esse movimento transmitiu às mulheres que vieram depois: a mãe, a tia e, por fim, a própria realizadora.
Produzida em 2026, a curta documental de 14 minutos integra a programação do FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, que decorre em Lisboa de 1 a 11 de Outubro e reúne este ano 60 filmes de diferentes geografias do espaço lusófono. A 17.ª edição coincide com os 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
A ideia do filme nasceu de uma memória antiga, mas ganhou forma recentemente. Jéssica Lima cresceu a ouvir falar de Angola nos almoços de família: da comida, de Luanda, dos anos que a mãe ali passou até aos nove anos. Quando regressou a São Tomé e Príncipe, depois de viver 11 anos em Inglaterra, uma conversa familiar devolveu-lhe essas histórias e despertou uma curiosidade que vinha da infância.
“Quis reconectar-me com a minha família, principalmente com a linhagem feminina: a minha avó, a minha tia mais velha, a minha mãe e agora eu”, explica. Ao começar a investigar a partida da avó, percebeu que aquela história íntima pertencia também a uma realidade mais ampla: a circulação de sucessivas gerações de são-tomenses entre as ilhas e Angola.
A investigação acabou por aproximar a realizadora da própria experiência migratória. Jéssica Lima também saiu cedo do país, no seu caso para estudar artes em Inglaterra, e reconheceu no percurso da avó algumas das questões que acompanhariam mais tarde a sua própria vida: a procura de oportunidades, a adaptação, a saudade e a possibilidade do regresso.
“Aprendi com ela a resiliência”, afirma. A herança que identifica na avó é sobretudo a capacidade de recomeçar: “Não ter medo de ir à procura de uma vida melhor, mas também não ter medo de regressar ou de começar de novo, tantas vezes quantas forem necessárias.” É uma experiência que a realizadora vê repetir-se na família, primeiro na avó, depois na mãe e agora nela própria.
Para Jéssica Lima, a migração deixa uma necessidade de adaptação, mas também perguntas sobre pertença e identidade que podem atravessar gerações. Angola surge, por isso, não apenas como o lugar onde a avó viveu, mas como uma geografia que permanece inscrita na memória familiar. A realizadora acredita que ela própria voltará e que as gerações seguintes poderão, de alguma forma, refazer esse caminho.
Para reconstruir um passado de que restavam relatos fragmentados, recorreu a fotografias guardadas pela avó e a imagens de arquivo de Angola. “As histórias que a minha tia e a minha mãe contavam eram como retalhos, pequenos depoimentos e memórias”, explica. “O arquivo foi essencial para remontar esse quebra-cabeças e interpretá-lo à minha maneira.” As imagens permitem ao filme estabelecer uma ponte entre a Luanda que permanece na memória da família e o presente a partir do qual essa história é interrogada.
É também nesse movimento do particular para o colectivo que Jéssica Lima situa o seu cinema. A realizadora diz preferir começar por uma experiência concreta, próxima, antes de procurar uma leitura mais ampla. Depois das primeiras exibições, percebeu que espectadores sem ligação à sua família se reconheciam noutra dimensão do filme: a urgência de perguntar aos pais e aos avós pelas histórias que ainda podem contar. Outros reconheceram nas imagens de arquivo a Angola de uma época que conheceram.
A apresentação no FESTin tem ainda uma coincidência particularmente, uma vez que o filme é projectado em Lisboa, cidade onde Jéssica Lima nasceu, no dia 2 de Outubro, data em que a avó faria 93 anos. Para a cineasta, mostrar esta história num festival dedicado às cinematografias de língua portuguesa levanta a possibilidade de pensar as relações entre países que partilham uma língua, mas sobretudo histórias de circulação, partida e regresso.