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Luís Represas (1956-2026) deixa legado de cinco décadas à música popular portuguesa

23 de julho de 20265min
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O músico português Luís Represas morreu nesta quarta-feira aos 69 anos, vítima de doença prolongada, deixando para trás uma longa carreira que faria cinco décadas este ano. Foi a voz de Trovante, banda que ajudou a renovar a música de intervenção do pós-25 de Abril, e na sua carreira a solo, teve grandes êxitos pop. Luís Represas também marcou os espíritos além das fronteiras portuguesas, como testemunha Timor, canção de 1996 dedicada à luta pela independência do povo timorense.

Luís Represas celebrava este ano cinco décadas de carreira, estando a preparar dois concertos nos Coliseus de Lisboa e do Porto marcados para Abril de 2027. Foi o vocalista de Trovante, banda de relevo do pós-25 de Abril que reflectia do fervor político dos primeiros anos após a Revolução dos Cravos.

Voz dos Trovante

Trovante contribuiu  para a actualização da música de intervenção, utilizando também elementos da música folclórica, numa abordagem moderna à música tradicional, tal como explica à RFI o musicólogo Pedro Félix.

O Luís Represas, enquanto membro dos Trovante, que é o grande contributo da sua actividade enquanto músico, representou uma passagem na área da música popular em Portugal – quando digo música popular, é a música não erudita – em resposta ao que se pretendia ser uma música nova, jovem, mas politicamente mobilizada. 

O disco Chão Nosso (1977) é talvez o melhor exemplo desse desse repertório, onde ele inclusivamente vai buscar alguns elementos musicais que eram associados à canção de protesto.

A canção "Engrenagem" do álbum Chão Nosso, foi um exemplo dos inícios de Trovante, com elementos da música de intervenção e da música folclórica:

O Chão Nosso (1977) e o Em Nome da Vida (1979) são dois discos claramente políticos do grupo Trovante, onde há uma dimensão programática muito intensa. Havia um interesse de apelar a uma camada jovem – as letras não apelavam tanto à luta, tanto à luta, como é o caso do Grupo de Acção Cultural de José Mário Branco – mas havia uma grande preocupação poética para para veicular um discurso com consciência de grupo, para não dizer de classe.

Carreira a solo

Em 1993, Luís Represas inicia a sua carreira a solo, aproximando de uma vertente mais pop, como ficaram marcadas os últimos anos de Trovante.

Há uma outra carreira dos Trovante, que começa com o Terra Firme (1987), em particular com um single de enorme sucesso, o 125 Azul.

Tal como no trabalho a solo do Luís Represas, onde perde-se um bocadinho aquela aquela dimensão interventiva política e passam a temáticas eventualmente mais românticas, reflexivas, quase biográficas, pessoais.

A música Feiticeira (1993), com a participação do compositor cubano Pablo Milanés, é uma das mais emblemáticas do período solo de Luís Represas.

Pela causa timorense

Em 1996, gravou a canção Timor, dedicada à luta pela independência do povo timorense, importante no seu reconhecimento internacional, especialmente no mundo lusófono.

O Presidente timorense, José Ramos-Horta, em declarações a Miguel Martins, conta como esta canção foi um canto-grito poderoso de solidariedade, esperança e resistência. 

Uma das manifestações culturais, musiciais que teve mais  impacto, e que fez chorar corações foi a canção "Timor", de Luís Represas. A letra é bonita, é de partir o coração e fazer chorar as pessoas mais insensíveis, ou fazer reflectir as pessoas mais sensíveis.

Luís Represas veio a Timor-Leste, obviamente depois da independência, várias vezes. Era uma pessoa extraordinária: a simplicidade das grandes pessoas !

A perda dele cria uma grande tristeza para aqueles que o conheceram e para aqueles que se habituaram a ouvir a letra "Ai Timor"

Para além de ter sido reconhecido pela crítica e o público, conheceu também o reconhecimento institucional, com a condecoração com a Ordem de Mérito da República Portuguesa, em 2005, pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio. 

Ouça aqui na íntegra a entrevista ao musicólogo Pedro Félix sobre o legado musical de Luís Represas.

Mateus Santa Rita