Cappuccino: O Livro das Emoções, de Bel Cesar
Neste Capuccino, Júlia Scheibel recebe Bel Cesar e Carolina Ávila para um diálogo profundo e acolhedor sobre “O Livro das Emoções – Reflexões inspiradas na psicologia do Budismo Tibetano”.
Ao longo da conversa, as convidadas exploram o papel das emoções na experiência humana, refletindo sobre como elas surgem, como influenciam nossas ações e como podemos desenvolver mais consciência e equilíbrio diante do que sentimos.
Um encontro sensível que conecta teoria e prática, convidando à escuta interna e ao cultivo do autoconhecimento no cotidiano.
Júlia Scheibel
Bel Cesar
Carolina Ávila
- Divisão de emoçõesReflexões sobre emoções · Psicologia do Budismo Tibetano · Autoconhecimento · Transição de vida
- Budismo e emoçõesPráticas budistas · Caminho do meio
- Autocuidado e corpoConsciência corporal · Técnicas de autocuidado
Olá, sejam todos bem-vindos ao Bistrô da Júlia. Aqui é um podcast de resumos de livros que eu chamo como o cardápio contemporâneo de conhecimentos. Hoje nós estamos falando sobre o livro das emoções. Então, inicialmente, eu quero agradecer a presença da Bel César, autora do livro, que faz a junção da psicologia ocidental com o budismo tibetano.
E eu quero agradecer muito a presença também da Carolina Ávila, uma grande amiga budista, que está aqui para a gente poder se aprofundar um pouco mais nesses conhecimentos, nessa alegria que é ter Bel César aqui com a gente. Então eu vou passar a palavra agora para a Bel e depois passo para a Carolina para elas se apresentarem.
E aí aproveita e peça, Bel, por favor, nos mostre a sua motivação nesse livro. Quanto que você, assim, nos deu um presente, porque ele é um oráculo de emoções. Eu tava até falando com a Bel aqui um pouquinho antes, aqui nos testes, que eu tô recomendando esse livro pros jovens. Eu tenho um filho de 19 anos. Quanto que as emoções, entender das emoções, traz, assim, acalanto e paz interior. Mas passo aqui a palavra, por favor, Bel.
Bom, muito obrigada por esse convite, Júlia. Oi, Carolina. Que bom que a gente vai ter essa conversa para compartilhar aquilo que a gente, no final, aprendeu, né? De todas as nossas vivências, de tudo que a gente reflete, sente, passa.
Bom, esse livro, ele nasceu justamente em 2003, quando eu estava fazendo uma transição da minha vida. Depois de 15 anos como presidente do Centro de Dharma da Paz, eu saí dessa presidência e fui fazer o Vida de Clara Luz junto com meu marido, Peter Webb.
Nesse processo, eu me vi com um quântum de experiência acumulada, de cadernos escritos, de insights e frases dos Lamas, e com uma intensidade de material interno muito grande. Então, nada melhor do que escrever, quando a gente tem essa ligação com a escrita. Eu comecei a escrever esse livro, no início, até de uma maneira um pouco mais formal, tentando dar uma introdução do que seria...
ao budismo tibetano, o que a gente pode entender por psicologia do budismo tibetano, que não existe uma psicologia, não existe essa área. Só que daí, na medida que eu fui escrevendo, foi me acontecendo tanta coisa. E era assim...
Eu precisava mexer com, queria mexer com um assunto, sonhava quando descia alguma coisa. O capítulo do medo, teve uma hora que o Felipe parar de escrever esse capítulo, porque estava me acontecendo uma situação depois da outra, em que eu tinha que realmente encarar o medo.
Eu sinto assim, esse livro, ele é um livro oráculo, porque é impressionante. Você pode fazer uma pergunta, você abre uma página, assim como faz a pergunta, se concentra, abre uma página e leia, e olha a frase que para mim saiu, farei com que minha vida seja significativa. É esse livro.
Até me emocionou, para ser sincera. Porque é isso que a gente quer, né? Eu, às vezes, pergunto, mas se você pode se apresentar? Do lado formal, eu posso me apresentar, que eu sou psicóloga, praticante do budismo tibetano há 39 anos, mãe do Lama Michel Rinput, que tantas pessoas têm ele hoje como referência, principalmente depois que o nosso mestre Lama Gancher Rinput faleceu.
E que há seis anos eu vivo aqui na Itália, do lado do Lama Michel, junto com meu marido Peter Webb e a minha filha também Fernanda Neves. Continuo trabalhando. Agora uma maneira de eu me ligar com o Brasil foi fazer um site, continuo gravando. Ou seja, se alguém perguntar quem é você, eu sou uma pessoa que gosta de compartilhar. Que maravilha! Sou eu, né, Ju? Por favor!
Que alegria poder estar aqui com vocês. Para mim é uma honra. Me chamo Carolina. Sou praticante do Budismo há 15 anos, que eu acho que é um tema que está aqui também, né? Nesse podcast. Então, acho importante trazer. A linhagem que eu sigo é o Budismo Theravada.
E o da floresta apareceu para mim aqui em Brasília. Eu moro em Brasília, sou natural de Minas Gerais, Várzea da Palma. Tenho cerrado no meu coração, então eu acho que é isso que me liga a Brasília. E aqui foi quando o budismo apareceu. E desde então não larguei mais, no sentido de aprender a viver e ir atrás.
da libertação do que não me ajuda a viver com qualidade e em meu próprio benefício, em benefício de todos. Então, acho que eu colocaria o budismo nesse lugar de ser o farol, de ser a direção, de trazer um alinhamento, de trazer a regulação. Então, o budismo está nesse lugar para mim.
E o livro chegou, assim, num momento muito especial. Que honra poder ter contato com ele, porque ele chegou no finalzinho do meu naufrágio. E aí me ajudou a subir, sabe? Então todos os capítulos fizeram muito sentido pra mim.
faz muito sentido ser um oráculo e continuo usando ele porque é isso, nesse processo de a gente desce, afunda e sobe, é um processo. Então a gente tem as ferramentas e o livro está sendo uma ferramenta de me sustentar nessa evolução, é assim que eu me sinto agora. E aqui agradeço imensamente, Juju, pelo convite.
É meu primeiro podcast, minha primeira participação no podcast. Então, assim, fico muito feliz. Agradeço imensamente. Tenho certeza que essa conversa vai ser muito especial. Muito obrigada. Muito bom. E aí, o que eu sinto com tudo isso? Eu comprei esse livro, comprei impresso. Eu até falei pra ela, falei, Carol, comprei um livro. E só que tem budismo. E eu vou conversar, a autora aceitou conversar comigo. Eu preciso de alguém com budismo pra trazer um pouco mais. Pra eu não perder essa oportunidade da conversa com Bel.
E aí que eu vi o Riponchei e lembrei das reportagens. Eu fui pelo livro, Bel. Eu não te conhecia, eu fui pelo livro. Das emoções, também estava passando por momentos na minha vida, de transformação, uma separação, né? Da minha filha pequenininha. Então, assim, era uma profunda dor, quase como um luto. A gente pode olhar também da mesma forma, porque muitos psicólogos fazem essa comparação da separação com um luto, né? Na vida, em vida.
E assim, isso vai me trazendo muito de mim mesma, porque a psicologia faz isso, faz a gente ter esse autoconhecimento. A espiritualidade também é um caminho, mas o meu olhar não estava na fé, ele estava nas emoções. E aí você me trouxe o budismo, que já foi um caminho também, né? Eu gosto muito da meditação, tive esse caminho com o Carol durante um tempo. Falei, Carol, vem aqui perto e vamos conversar, vamos aproveitar toda essa profundidade.
E aí, lendo sobre as emoções, assim como eu tenho um filho mais velho, eu falei, eu fui vendo como você junta uma emoção negativa, como uma vergonha, ela pode ser vista como parte de um processo de aprendizado, como um caráter seu, e algumas coisas que você fez errado, está ali causando essa percepção. Então, essa ligação das emoções, ao mesmo tempo que elas nos transformam, ou nos mexem através das nossas próprias ações, ao mesmo tempo...
a gente não conecta ela, ela não é a gente, deixa as suas emoções virem e passarem. Eu queria que você falasse um pouco sobre tudo isso, porque assim, você traz uma percepção da emoção como passageira e ao mesmo tempo ela é uma fonte de aprendizado sobre o nosso caráter, sobre a gente mesmo.
Muito obrigada por essa pergunta, eu vou ver de onde que eu consigo trazer alguma coisa. A primeira coisa que eu queria dizer é que as emoções são afetos. E muitas vezes a gente sente amor pelas pessoas, deseja que elas sejam felizes, mas tem dificuldade de sentir afeto.
dificuldade de sentir afeto, eu quero dizer, aquilo que acontece com o outro afeta comigo. E aí é mais do que empatia, é a vontade de compreender aquilo que está acontecendo com o outro e participar, não de uma maneira invasiva, dependente, nada disso, mas participar com o coração, como a gente fala. Então, todas as emoções, elas nos afetam.
Todas as emoções são afeto. Então, a gente tem, em geral, preconceitos com as emoções, porque elas levam a gente para um mundo um pouco desconhecido, principalmente a vergonha, a vergonha ligada à culpa. Vai um mundo um pouco mais difícil de entrar. Mas quando você traz para você essa disponibilidade de dizer, ok, entre eu comigo mesmo, eu vou me escutar.
E esse livro tem muito disso, de eu mostrar as minhas dificuldades, como que me entrei nessas emoções e dizer assim, bom, o que essa tristeza quer me dizer? O que essa raiva está pedindo que eu faça? O fato é que a gente começa a ter uma conversa com a gente e com isso a gente inaugura uma coisa totalmente nova, que é de não encontrar nós mesmos.
É impressionante como a gente vai contra nós mesmos, seja implicando com a gente, dizendo que a gente ainda não é suficiente, que devia ter feito mais isso e aquilo. E o budismo tibetano e o budismo, enfim, essa proposta de ter afeto para consigo mesmo.
é justamente de se abrir, abrir e falar, bom, o que eu estou sentindo agora? E isso precisa ocorrer através do corpo. É uma coisa que quando eu escrevi o livro das emoções, eu ainda não tinha essa formação que eu tive depois, em 2014, 10 anos depois, o livro foi escrito em 2003, 2004.
que é com a experiência somática. Então, toda essa capacidade da gente de perceber aquela emoção, não via o julgamento, mas via a sensação corpórea, de simplesmente colocar uma mão no peito, uma na barriga, estar ali e não conversar com a emoção antes de ser só sentido. Isso é confortável ou desconfortável.
Como eu sei que essa emoção é confortável, e aqui não tem nenhuma filosofia, é confortável não porque eu concordo, porque me faz bem, é confortável que minha barriga relaxou, eu senti que o peso do meu corpo soltou, de alguma maneira eu estou me sentindo mais presente para mim, com mais disponibilidade, com mais vitalidade para isso.
E como eu sei que é desconfortável, eu fiquei com uma sensação de me mover, não sinto que eu consigo estar sentada e entregue com o meu corpo nessa cadeira, estar aqui para mim. E aí eu vou ver aonde que está essa urgência no corpo. Se eu sinto ela no peito, eu vou dizer, ok, aqui é onde eu sinto essa urgência e desconforto.
E aonde que ela está bem? Qual é a parte do meu corpo de, apesar de tudo isso, que eu ainda sinto um certo conforto? Como se eu pudesse entrar lá e ficar. Eu brinco que a orelha está sempre relaxada. Então, a gente fecha os olhos e leva, escaneia e fala, ah, aqui eu posso ficar.
E aí a gente alterna, ora angústia onde está, ora onde está confortável, e ali a emoção começa a se transformar naturalmente. E não porque a gente ensinou para ela que ela estava certa ou errada, ela começa a ter uma autorregulação.
E como a gente sabe que isso está acontecendo? Porque a gente começa a ter pequenas descargas. Seja você já, seja dar uma tremidinha, seja uma onda de calor. Enfim, a gente começa a sentir assim que, ah, um suspiro. Então...
Eu acho que a emoção é realmente um chamado para a gente se sentir vivo. Só que se a gente seguir só o lado difícil, a gente vai contra nós mesmos. Então, por isso que eu quis dar esse convite no corpo, já para aproveitar, para saber como lidar com as emoções, de uma maneira que a gente possa acolher e direcionar.
trazer um olhar curioso também pra gente, né? O questionamento é um olhar curioso, né? E trazer pro corpo, eu tava pensando aqui, é uma comprovação científica, muito fácil, porque tá aqui com a gente, né? Como ir contra o que o meu corpo tá apresentando, né? Então, a prova é muito real, né? Então, se a gente traz esse olhar curioso para o que o corpo tá mostrando através da emoção, é muito maravilhoso mesmo, assim, não é fácil.
Não é nada fácil, né? Porque a gente esquece. E muito interessante, semana passada uma amiga me convidou para fazer três aulas de atividades terapêuticas psicossomáticas mesmo, vou até abrir, que chama Sobre Ser Corpo. Não sei se você já ouviu falar, Bel.
É muito legal. Sobre-se corpo é um sistema brasileiro de educação somática. Eles são de São Paulo e eles combinam terapia corporal com práticas bioenergéticas, meditações ativas, enfim. Mas falando sobre o corpo, a gente...
A partir daí a gente não se conhece, não conhece todo o corpo. Então exercícios que a gente fazia com a boca, com a língua, pequenas partes do corpo ou partes grandes também que a gente esquece. E quando a gente traz esse olhar curioso para o próprio corpo, que está aqui, é de graça, é nosso, é muito bom. Assim, é libertador, ajuda bastante. Então é fantástico, é isso que eu tenho para dizer, é muito bom.
E a gente falando de corpo, eu faço uma referência direta ao que eu tô vivendo, porque eu sou mãe agora de uma neném de um ano. Então, assim, eu já sinto as dores aqui, porque eu tô o tempo todo ela carregando aqui na carcunda, né? Então, eu já me vejo nessa árvore de sustento daquele fruto que vem. E é...
Ela demonstra emoção no corpo inteiro, porque com um ano de idade que não sabe falar, mas sabe entender tudo que a gente fala. Quando eu falo pra ela, vamos tomar banho, vamos pra água, ela já vai indo pro chuveiro andando. Então assim, ela não fala nada, né? Ela não expressa as palavrinhas. Mas o corpo inteiro, quando ela tá animada, é o corpo inteiro que mostra excitação quando tá feliz. Então a gente tem isso sem barreiras quando é criança.
Quando a gente vai ficando, né? E eu vejo até que eu tô sendo esse suporte pra ela como mãe. Então, assim, a gente vai criando dores e raízes, né? E, assim, algumas, elas não são ruins. Isso que eu vejo, assim, a psicanálise que você traz aqui um pouco, um ponto ou outro, por uma frase, a psicanálise, ela mostra as nossas sombras, mostra essas emoções, tudo aquilo que ficou aguado e parado. Até você faz uma referência do oceano, né?
E o tão interessante que eu gosto no budismo é essa visão do coletivo, desse interdependente, dessa gaia que estamos todos unidos. Que quando a gente consegue trazer isso pra nossa vida, mesmo em situações de dores difíceis, porque muitas vezes a gente se isola, e aí a gente pode olhar no coletivo, né? Na pandemia, quanto num luto.
Quando a gente se isola, a gente esquece dessa interdependência, dessa naturalidade dos acontecimentos da vida, né? Então, eu vejo muito isso expresso na prática do corpo da minha filha. Coincidências, né? Porque é o que eu não acredito nas coincidências, mas eu e Carol estamos fazendo cada um uma casinha de veraneio.
Ela tem uma na Chapada, se chama Casa Moinho, na Chapada dos Veadeiros. E eu tô montando um flatzinho em Pirinópolis, menorzinho. Então, assim, a gente tá ao mesmo tempo vivendo essa coisa do simbólico do de fora. E fazer uma outra casa é desapegar das nossas coisas, porque a gente se reorganiza fora.
E organiza dentro, né? Então, assim, tá sendo muito bonito observar essas convergências de acontecimentos, vamos dizer, para não dizer coincidências, essas convergências de acontecimentos da vida de Carol, que eu puxei ela, vamos ali falar, e aí foi acontecendo tudo isso, e a gente foi se contando da vida, que a gente tava alguns anos já, sem contato presente. E aí eu vejo o simbólico da casa de fora, da casa de dentro, e o quanto o nosso corpo, às vezes, é casa e morada dessas emoções, às vezes, aguardas, né? Então, assim...
é respirar. Eu acho que as pessoas estão olhando com um olhar muito polarizado até para as curas e para as percepções de projetos. Porque o corpo da gente, uma decisão, ela muitas vezes é feita sem a racionalidade, né? Até você mesmo fala, a minha escolha do budismo não foi racional, foi um acontecimento. E se a gente não deixar que esses acontecimentos, ainda que sejam adversidades, preservem, aconteçam, possam passar pela nossa vida...
a gente não deixa viver as alegrias das coisas simples no próprio processo da vida, né? É isso que eu acho interessante. O budismo me dá essa coletividade, o budismo me dá a percepção das emoções sem me arraigar nelas e, ao mesmo tempo, sem uma polarização entre o que eu devo e não devo, o tal do caminho do meio, né? O caminho do meio, eu acho que vocês poderiam me explicar um pouco sobre isso, porque...
Aqui eu tô resgatando realmente essa coisa da espiritualidade, do budismo nos trazer emoção. E trabalhar a emoção de uma forma, né? Assim, por isso que eu falo, a gente não joga fora o que é ruim. A gente transforma. E aí, logo no começo do livro, você fala... Eu não vou lembrar o nome, porque eu não consigo nem citar esses nomes. De dois métodos da psicologia budista. Sim, sim. O Hinayana e o Tantrayana. Isso.
Um, você quebra para um modelo positivo, todo negativo, você coloca um ritual positivo, e outra, você adentrar esse sentimento negativo e transformá-lo. São duas formas diferentes, né? Aí eu posso até fazer referência para a psicologia ocidental. Se eu fosse falar do que eu boto um positivo, é como uma psicossomática.
Como você transforma aquele momento de dor, você põe um positivo até esse positivo virar um hábito no seu cérebro. E se você for para o mais adentro, eu poderia olhar para uma psicanálise, o que Freud vai trabalhando do libido, de onde que a gente está a nossa vitalidade. Eu não sei, eu estou fazendo essa referência aqui com vocês.
Vai, Carolina, toca você. Vai, vai. Nossa. Muitas coisas, Ju. Muitas coisas aí, né? Eu estava pensando aqui, né? Na casa. Então, só para contextualizar a Bel, eu adquiri um pequeno pedaço de terra na Chapada dos Veadeiros em 2023 e foi assim...
Foi muito fenomenológico, foi uma coisa também, é uma outra história esse terreno. Mas com muita alegria, consegui esse pedaço de paraíso. E ano passado, comecei a construir uma casa, minha primeira obra estrutural.
Essa casa demorou seis meses para ser construída. Quando eu pensei nela, eu pensei para morar, mas aí a vida trouxe outros caminhos e hoje ela está metade uma moradia de temporada para mim, metade moradia de temporada para outras pessoas. Mas durante o processo da obra, que foi quando eu estava no olho do furacão...
nas minhas emoções, muitas emoções negativas, muitas emoções negativas, eu entrei nesse lugar que é muito comum para todo mundo. Quem nunca entrou nisso não está vivendo aqui, porque é isso, a gente se sente incapaz, inútil, não vai dar conta, por que eu estou fazendo isso, por que eu estou adquirindo, é mais uma coisa para carregar, é lidar com dinheiro, lidar com muitas coisas. Aí eu entrei num lugar muito difícil.
Porque aí teve também questão emocional, emocional, assim, teve muitas questões emocionais e questão pessoal, emocional pessoal, emocional profissional, vários departamentos aqui. E eu cheguei a levar para o divã, por que eu fiz isso? Por que eu aceitei? Por que eu estou levando isso adiante?
E a resposta é as emoções. As emoções movem a vida. A vida acontece aí. A vida acontece nesses instantes. Para para pensar. E a minha psicanalista me ajudava. Veja, você mesmo coloca, tudo fluiu. Assim, de verdade, o meu testemunho sobre obra não é referência, não é um comum, porque eu não tive nenhum P.O.
Os poucos problemas que eu tive durante a obra foram mínimos, perto do que a gente comumente escuta. De que, ah, paguei, não fez o serviço, a pessoa sumiu, deu errado. Não tive esse problema. E a obra aconteceu, o nome da casa é Refúgio, porque ela é no meio da mata.
Ela traz uma calma, uma serenidade, uma tranquilidade. Ela proporciona banho de floresta. Ela proporciona contemplação. Ela está na zona rural da cidade principal da Chapada, que é Alto Paraíso. Então ainda é um lugar muito protegidinho, com pessoas muito queridas.
que moram ali, que tem me ajudado nesse processo assim, lindamente então é isso, a vida acontecendo aí, mas pra eu chegar nesse olhar, foi um processo e tive comigo ferramentas muito boas ainda assim, tiveram muitos dias que eu achei que
Não, eu não sei. Então a gente passa por isso mesmo. E aí, de novo, no início da nossa conversa, eu acho que é importantíssimo trazer o olhar da curiosidade pra gente mesmo. O que isso quer dizer? O que isso está mostrando? Eu estou diante disso aqui. Eu me coloquei. Tá bom, porque eu falo assim, eu me coloquei nesse lugar, como é que eu saio? Tá, eu me coloquei. E agora? Eu tenho o quê?
qual é o melhor caminho, né? E aí vai indo, assim, vai abrindo, vai abrindo, a gente vai despertando e vai vindo. E aí esse depois, esse início do depois é muito gostoso. E a gente começa a dar umas risadas de que, nossa, como que eu pensei isso? Olha o que eu tenho à disposição, não só minha, mas de várias pessoas. Que a vontade mesmo, nesse momento de vida em que estou, que eu também estou falando de uma...
transição de carreira, eu acho que eu posso dizer assim, a vontade de colocar essa casa à disposição para muita gente. Para que as pessoas que se estiverem nesse momento de uma emoção negativa muito ruim, ou estiverem num momento de um estresse, um burnout, cheguem ali e possam começar a sentir, sabe, uma tranquilidade.
Mas isso falando nesse contexto específico da casa, eu acho que talvez traga para a Ju também, que é obra, obra é um processo, é a obra divina da nossa vida, é a obra se materializando na casa, né? Eu acho que o que eu tenho para contribuir sobre isso é isso, Juju. E, Bel, eu queria que você falasse um pouquinho sobre o sítio Vida de Clara Luz.
Então, eu estava pensando, enquanto a Carolina falava, eu estava pensando, o sítio Vida de Clara Luz, ele começou a partir da vontade de realizar um sonho que seria fazer um hospice, uma casa para pacientes terminais. Mas isso no ano 1999 e 2000, quando nem a palavra cuidados paliativos ainda era conhecida.
E, enfim, o que eu acho que é interessante é que você falou da casa, vocês duas da casa, a gente está falando da casa interna, e a gente está falando também da casa, então, simbólica, porque a casa interna é esse símbolo vivo, que você consegue sentir alguma coisa dentro, e você busca essa ressonância fora de você, né?
O que me lembrou, Carolina, quando você estava falando, é que quando eu decidi fazer o Vida de Clara Luz, e então achei o sítio, comprei, e aí o Lama Gantirimpo te falou de trazer, nós trouxemos 22 toneladas de estátuas da Indonésia para fazer o sítio, isso e aquilo. E eu estava casada com uma pessoa que não era conectada com nada disso. O sonho era meu.
E aí, quando eu comprei o terreno, vamos fazer e tudo, e uma pessoa viu que eu ia trazer as estátuas e falou pra mim assim, tá no livro das emoções isso. E falou pra mim assim, aqui você vai precisar de permacultura, né? E foi quando, fazendo a história muito resumida, o Pitch entrou na minha vida.
E, assim, depois, infelizmente, o meu ex-marido, que ele era casado, era casado, os dois se separaram. E aí, meu ex-marido se matou. E foi uma coisa, assim, muito lógico, violenta. E aí, eu fui fazer uma terapia. E o terapeuta virou pra mim e falou assim, olha, Bel, você é uma pessoa que é muito empática.
E durante esse período que ele estava mal, você não podia sentir o mal dele, porque senão você não ia ter forças para continuar no seu caminho. E é agora que você está no seu caminho, e é um caminho, sem dúvida, que gerou tantas mudanças, né? Ele falou, é porque é um caminho autêntico. E quando a gente entra num caminho verdadeiro, todo mundo que não tem a ver com aquele caminho cai fora.
não entra mais em ressonância. E olha, eu posso dizer para você, caiu fora desde o contador, o dentista. Foi uma mudança, assim, enorme na minha vida. E realmente, assim, o sítio trouxe o Pitch, que é um amor na minha vida. Nós dois estamos juntos há 24 anos.
Super apaixonados, felizes, eu acredito na parceria, no amor, numa boa relação, que dá a base para fazer mais coisas, né? Então, assim, foi a partir da sincronia, vamos dizer, a partir do momento que eu me sintonizei e assumi o meu desejo. A verdade é que eu não consegui fazer nada disso no sítio. A lei não estava pronta, um monte de situações eu vi que não podia.
E a gente fez, então, várias outras coisas com ecopsicologia, com plantio, com luta em natureza. E agora que eu estou aqui em Albaniano, a gente está fazendo um hospital, um lugar, um quarto para receber pessoas em fase final.
Então eu me vejo voltando numa nova casa, e o sonho de fazer de novo esse lugar volta de novo na minha vida. Então acho que a gente tem, cada um tem um chamado que é aquilo que é mais forte que você. Você fala assim, não, isso aqui, por mais que eu diga que não tem a ver ou não poderia, isso volta.
Então eu acho que é isso que a gente tem que ter, abraçar aquilo que volta, aquilo que... Nossa, isso me dá energia. Eu sempre falo assim, se eu posso compartilhar alguma coisa, é tenha os seus brinquedos. Não brinque com o brinquedo dos outros.
Quais são os seus brinquedos? O que que quando você faz, você perde a noção do tempo, do espaço, e você se sente presente em você? Porque quando a gente tem essa sensação de se...
de autoridade interna, de estar em si. Quando você convida o outro para brincar com você, você compartilha. Você não pode entrar demais no brinquedo do outro, nem o outro pode entrar demais no teu, mas a gente encontra uma maneira de brincar junto. Eu acho que isso que eu tenho sempre buscado, uma leveza. Gente, já está tudo muito pesado, é muito pesado. A gente já sabe do pesado.
Então, como que a gente encontra esses momentos onde a gente cria esse espaço entre um mundo que não entra demais em você, mas que você também está permeável para receber o mundo dentro de você e trocar com ele? Brincando. Então, eu pinto, faço tricô, escrevo. Por isso que eu estou gostando de fazer o site, gravar. Eu mereço.
É tudo, é tudo com presença, por isso que eu acho que dá energia. Nossa, você como uma filha de um ano, não tem escapatória, né? Vive com ela essa presença o tempo todo, né? É agarrada ela, né? E assim, ela fica comigo 100% do tempo, né?
Eu trabalho presencial, ainda faço doutorado no NB. Tô fazendo essa casinha de veraneio exatamente pra sair de Brasília e ter um cantinho em que eu vou lá comer pamonha, ver o tempo passar devagar, botar uma cadeira fora ali na varandinha e ver o tempo passar. Eu gosto muito dessa coisa simples do interior.
E eu me vi nessa casinha, porque na verdade eu já tinha vontade de ter, eu gosto muito da região ali em Perinópolis, em outro extremo de Brasília, mas muito parecido, assim, tem essa ruazinha das pedras, aquelas casinhas simples, estilo praia também, né? Mas tem muitas cachoeiras aqui perto. E a Chapada também tem esse movimento, mas são 400 quilômetros. Então pra mim, com a minha bebê, 150 quilômetros, que é Perinópolis, que é menorzinho.
Dá pra eu ir, já precisei parar pra botar chupeta, porque chora, não é verdade, e ok, vamos.
E aí, a alegria de ter visto o seu livro. E aí, você fala de vida de Clara Luz. O nome da minha filha é Clara. Ah, que legal! E isso também foi uma questão, no final da... Assim, vários pontos de não conexão com o pai dela. Mas um deles era essa questão do nome. Eu queria muito saber Sofia como sabedoria. Mas Clara veio. E aí, o que eu digo? Ela veio Clara com essa claridade de luz que ela trouxe.
na nossa vida, na minha vida, na vida do irmão, somos todos apaixonados por ela, é um amorzinho, mas veio assim um ser maravilhoso, mas meio ao caos de uma separação do puerpério e tudo mais. Mas o quanto que a gente vai buscando se conectar, falando dessa coisa do brincar?
Isso me lembra muito o autor que é Maturana, que eu gosto muito, que fala muito sobre o amor biológico, sobre o brincar sem objetificar isso no sentido de transformar a coordenação motora, mas sem brincar por brincar, né? E aí eu acho que o ser humano perdeu muito disso também, com essa busca de produtividade demais.
descansar está sendo entretenimento, que não é descansar, né? A gente vê muito isso, que é mais informação, mais informação. Não tem nem tempo de contemplar a natureza, né? A gente tá aí falando sobre banho de floresta, oportunidade de parar e contemplar, e assim, se a gente não tirar esses estímulos da gente e até das nossas crianças no dia a dia...
a gente já vai entrando no caos da emoção, né? Eu vejo ela, fica brava, tira a chupeta, fica brava, você não consegue o brinquedo. Então, assim, é ir ajustando essa vivência, mas trazendo, é educando os mais novos, e eu acho que é, em aspas, pra botar em aspas, deseducando os mais velhos, pra gente poder sentir, né? Pra gente voltar a sentir, voltar a ter as emoções, porque eu acho que a gente botou muita barreira dentro da gente.
O livro, ele me fala, você tem o direito de ser feliz. E muitas vezes o cristianismo não diz que a gente tem o direito de ser feliz nessa vida, né?
Eu acho que a gente tem que carregar a cruz, cruz com alegria. Eu acho que tem ensinamentos nas ideologias que elas se convergem. Mas eu acho que ainda tem muita falta de clareza nas palavras sobre o amor, sobre esse sentimento do amor, seja de crítico, né? Seja o conhecimento do desapego das coisas.
eu tenho vivido muito essa questão da simplicidade. Eu sempre gostei muito do sol, Carol sabe muito, eu sou muito solar, né? Então eu tenho esse sentimento do desfazer de coisas, tem mais uma casinha pra ir, a oportunidade da gente entender a liberdade que temos, né?
Você está em detalhe, às vezes é uma percepção de outros países que a gente não tem, mas que a gente pode aumentar, expandir o nosso espaço, né? O nosso corpo é a nossa primeira casa, né? Respeitá-lo, né? Nossas emoções é parte das nossas experiências. E eu acho que a gente trazendo simbolicamente casa, a gente pode ver o quanto que a gente tem que respeitar, né? Respeitar esses sentimentos, respeitar essas nossas emoções, esse direito a isso, né?
E aí eu vou então fazer uma pergunta. Qual emoção você acha que está definindo...
muito esse tempo hoje pra gente. Ai, eu acho que é o contrário. Eu acho que o mundo tá ficando sem emoção. A gente tá ficando dissociado. Quer dizer, a gente eu não tô, nem vocês. Mas eu acho que tá havendo uma dessensibilização por esse excesso de estímulo. Acaba não se sentindo. Acaba se desconectando. Acaba não estando presente.
acaba não sentindo mais a tristeza de ver o que ela tem para dizer. E tudo se torna muito prático. Para que funciona? E não o que isso faz em mim. Então eu sinto que hoje em dia, para mim, eu sinto isso. Que existe um...
Um desinteresse, isso que a Carolina estava dando ênfase na curiosidade, eu acho que existe um analfabetismo em relação às possibilidades do mundo interno. É como se a gente pudesse entrar um pouco e depois para, não vai mais dentro.
Vai só ali, e ali fica o tempo todo muita ansiedade, irritação, e é falta de espaço, né? Falta de prazer. Por isso que eu volto pro brinquedo. A gente tem que voltar a brincar pra sentir prazer, pra achar legal, pra gostar.
e todo mundo tem o seu brinquedo porque todo mundo foi criança. Então a pergunta é, o que você fazia quando era criança que você perdia a noção do tempo e do espaço? Quem fala isso é o Joseph Campbell, num livro maravilhoso que ele fala sobre, um último livro biográfico dele.
E ele fala, é ali que está o que você veio fazer essa vida, porque você naturalmente já sabia fazer. Então, acho que é isso. A gente está com a ausência de uma emoção de afeto mesmo, sabe? Eu acho que isso... Outro dia eu vi um...
um negócio de Instagram, desses posts, que mostrava uma pessoa cutucando duas escadas rolantes, uma sobe, uma desce. A mulher com o homem cutucava alguém para fazer aquele sinal, para avisar que não estava bem. E ninguém respondia a ela. E o podcast era... O podcast...
O Rio era exatamente sobre isso, era dizendo, você pode pedir socorro, e todo mundo acha estranho, fala, nossa, isso não me afeta, isso não tem a ver comigo, né? Então, acho que é a gente voltar a se sentir mesmo, né?
Isso é o que você traz, a gente estuda muito isso na comunicação. Antigamente a gente não colocava tanta notícia, tanto estímulo. Hoje em dia, se você olhar no Instagram ou qualquer outro, é imagens sensíveis. Por ter tanta imagem sensível, por ver tanta coisa ruim, a gente vai ficando dessensibilizado. Tal qual fosse uma guerra. Se a gente estivesse numa guerra vendo tudo aquilo, e aí você vai perdendo, que é exatamente para conseguir sobreviver. Faz parte do...
psicológico, mas e é de uma forma só por estímulo, exatamente por foco em capitalismo, né? Que é, seja pra ter mais visualização, seja pra, né, gerar sem um objetivo, vamos dizer assim, mais humanitário, né? E aí, o que a gente pode fazer nesse caminho pra trazer esse equilíbrio emocional?
se a gente vê esse problema, não tem como não estar neste mundo, ainda que a gente busque esses refúgios, seja a casa na Chapada, seja em Perinópolis, mas a gente também precisa viver. E aí, como trazer esse equilíbrio? O livro fala muito disso, da gente buscar isso na vida prática, no cotidiano.
Aumenta-se os retiros espirituais, a gente pode ir para um retiro, lá a gente vive em sites, refaz a vida, repensa coisas, porque está vivendo como umas férias de um CLT, está vivendo aquele momento de descanso, do ósseo. Mas e como trazer esse equilíbrio emocional no dia a dia? Olha, eu vou falar para vocês uma coisa que a gente nunca faz.
Super fácil de fazer. Você já sentiu a espessura do seu corpo? Você já sentiu a espessura? A gente sempre se vê só de frente. No máximo, a gente olha no espelho e tenta ver as costas. Mas se a gente coloca uma mão no peito, no dorso da mão, nas costas, na mesma altura, estranhamente a gente sente a nossa espessura.
E se você fica ali, em todos esses exercícios, a gente precisa de pelo menos 20 segundos, um minuto vai, para começar a sentir alguma coisa. Mas se você fica ali, você vai perceber que quando você inspira, as mãos se elevam e quando você expira, elas abaixam. E se a gente volta para essa sensação de falar assim, bom, agora eu sou eu aqui comigo.
Aí a gente coloca, faz ao contrário, coloca a outra mão nas costas, uma no peito e vê o contrário, e vê se aqui foi mais confortável. Quando a gente faz isso, a gente dá um aviso para o nosso corpo de que é tudo bem tudo o que estiver acontecendo dentro dele.
E isso faz com que a nossa amígdala cerebral, que avisa o nosso corpo se alguma coisa não está certa e ativa a ansiedade, diga, olha, é verdade que você está frágil, mas você está aí? Então, não tem nada de perigoso acontecendo, então eu deixo você, não vou te incomodar. E aí a gente vai perceber que a ansiedade baixa, porque a amígdala se acostuma de que é possível aceitar o desconforto.
A gente não tem que sair correndo da gente mesmo, quando a gente sente ansiedade, procurando fazer alguma coisa aqui e ali. Pode ser bom estar aqui, mas isso ajuda, sabe, esse conter, né? Você, quando tem o bebê, tua filha, o bebê, ele fica entre o seu peito e você. Isso ajuda a dar essa sensação de sustentação, que é uma necessidade ontológica humana que a gente precisa se sentir sustentável.
Então, eu acho que isso ajuda muito. Olha, são duas coisas super práticas, mas que ajudam de verdade, ajudam muito. E independe se é budista, católico, somos humanos, somos humanos. Ai, fala aí alguma coisa, Carol. Tô emocionada, acho lindo que ela tá...
trazendo pra gente. Ai, não, eu acho que é isso. Eu agradecer a presença da Bel. Não tô finalizando, mas agradecer por essas dicas preciosas. E começamos falando do corpo e, né, estamos aqui falando do corpo. Então volta para o corpo, né? Que é isso, é o que a gente tem de mais concreto, é o que é de graça, né, tá aqui com a gente, é nosso.
a gente está sentindo ele, é através dele que a gente está vivo, então voltar para o corpo é uma excelente dica, muito bom, muito obrigada. E aí eu trago um pedaço do livro que você fala, Bel, que assim, é tão bonito quando você faz os relatos das pessoas que estão em luto, né? Tem uma história de uma menina com 19 anos que está com câncer e que você que leva para ela um texto, você fala acho que é uma poesia, não sei, não lembro se é um mantra.
quanto que ela está trazendo paz para você. Então, assim, a gente vê a mentora do luto falando que quem está trazendo paz é a paciente para você. E eu achei isso tão lindo, de uma humildade da sua parte, porque você nos transmite essa paz. E você, então, é encarregada desse momento, né? Dessa transição, desse rito de tantas pessoas. E aí você está dizendo ao outro aquilo que você nos traz também, né? Que é como espelho, essa paz interior.
Você está me dando a chance de falar que esse toque que a gente está falando, fazendo, ele tem um nome, ele se chama toque ráptico. No meu livro Viver Bem, Morrer Bem, tem um capítulo que eu explico sobre esse toque. E esse toque é um tato interno. Então, um cego...
Mesmo sem fazer sons para se referir se tem uma parede à frente dele, ele sente a presença da parede, esse toque interno. Isso eu já perguntei para ter certeza, é assim mesmo, mas eles dizem que o mais forte ainda é o som que eles fazem para se referir aonde eles estão, essa ressonância.
mas esse toque interno. E que, não importa agora porquê, nós não aprendemos sobre esse toque. E a qualidade desse toque, que é incrível, é porque é uma qualidade de uma sensação de duplo sentido. É uma qualidade de dar e receber ao mesmo tempo. Então, quando eu tenho uma relação... Primeiro, assim, vou esquecer que é dando o que se recebe, que isso... Não!
É o mesmo tempo, não é troca, não é troca, é o mesmo tempo.
É um acorde, não é um som depois do outro. É o mesmo tempo. Então, quando a gente pode treinar com a gente esse toque rápético, que eu só vou explicar porque a gente não tem mais tanto tempo, mas que é você colocar uma mão sobre você primeiro. Primeiro a gente tem que se conhecer na gente. E você vai perceber a palma da sua mão que toca o seu peito.
E você leva a sensação da palma da mão, os dedos que tocam o seu peito. E dali a pouco a gente vai fazer uma coisa diferente. A gente vai se concentrar no peito que recebe o toque da mão.
Também é outra dobradinha, assim, que a gente não contava com minha astúcia. Vamos lá, agora é o peito. E aí você ressente o peito recebendo amor. A vida é um dar e receber ao mesmo tempo. Isso é humano. Às vezes a gente fala, ah, eu dou tanto e recebo pouco. Ah, eu não sei receber, eu só sei dar. Ah, eu... Enfim, se a gente faz esses pequenos movimentos, Ainda não.
de aprender a dar e receber com a gente mesmo. Quando a gente toca uma pessoa, no caso, estou falando dos pacientes, mas quando você toca uma pessoa, você não toca mais com a intenção de organizá-la. Você toca pela sua presença de dar e receber ao mesmo tempo a sua energia com aquela pessoa.
Aí a gente sai de uma posição vertical e entra numa relação horizontal. E aí não tem mais quem sabe mais, quem sabe menos, ou quem já fez isso ou aquilo. Tem estar com.
Então, eu realmente, assim, sinto que essas pequenas coisas que a gente conseguiu conversar, elas são imediatas. Elas são, não é ainda como eu preciso me melhorar. Não, eu posso fazer isso e ter um resultado louco. Sim.
E aí eu até gostaria de lembrar só do curador ferido, né? Porque eu acho que quando a gente consegue trazer a cura por outra, é porque a gente também já ultrapassou isso, né? Então, a gente tem a maturidade pra poder oferecer alguma coisa. E esse seu olhar de que a gente tem troca, eu tô trazendo a minha percepção da sua fala.
É um olhar sem utilidade no outro, né? É só a troca em si das pessoas. Quando a gente não tem busca de utilidade. Que o mundo de hoje ainda pede utilidade em tudo. Até no descanso, né? Então, aí é o contraditório dessa percepção mesmo. Gostei, gostei.
Eu quero agradecer o tempo de vocês nesse sábado, o tempo, às vezes, de descanso. E, assim, por ter nos oferecido esse tempo de qualidade aqui pra nós duas, porque foi um convite. Eu agradeço porque, assim, a Carol disse que foi bom ter lido o livro e é assim, lê o livro comigo, vamos conversar, Abel. Eu, do meu jeito, tá aí meio infantilizado, que eu tenho um pouco dessa vitalidade infantil. Mas, assim... Igual, você deve ser uma pessoa que brinca bastante.
Então, pra mim, montava o Fletch, tá sendo uma brincadeira, né? Então, assim, e fazer anúncio, e aí eu botei Fletch da Júlia, seguindo o estilo do Bistrô da Júlia. Ah, a Carol sabe, quando eu vou, vamos fazendo. Assim, eu sou muito fazedora, sem ter muito conhecimento. Depois, a gente vai aprendendo no caminhar. Nada precisa ser perfeito, né? Fazendo já é diferente de quem não tá fazendo. Então, assim, é a coragem, cor e coração.
Eu quero agradecer, tocando no coração aqui, seu tempo, Bel, seu Carol também, por ter sido tão receptivo, assim, Boa noite.
E abrir as portas do bistrô, do flat, o coração de Clara que você tocou quando você fala da vida de Clara Luz. E ao mesmo tempo poder te levar um pouco dessa vitalidade com criança aqui, toda essa alegria, né? O cansaço, porque também é uma hipervigilância, é o que eu falo. Estou emocionalmente numa hipervigilância, porque deixar uma criancinha viva o tempo todo, trabalhando e cuidando é cansativo mentalmente, né? Mas eu estou muito feliz com a vida dela, eu estou muito feliz com a presença de vocês e estou muito feliz de poder contar.
Compartilhar coisas que podem ajudar as pessoas. Tão rapidamente. Carol, gostei muito de trocar nossos sorrisos. Sentir que a gente está mesmo no mesmo caminho. Também com você, Júlia. Eu só agradeço essa oportunidade. Muito obrigada.
E eu agradeço imensamente esse encontro, Julinha. Obrigada por ter proporcionado esse momento. Foi uma honra e é uma alegria enorme que eu sinto no meu coração de estar aqui com vocês, de conhecer a Bel. Esse presente lindo, livro das emoções. Quero ler todos os outros. Muito obrigada. Uma alegria estar aqui, viu? Um beijo grande no coração de vocês. Tchau, tchau. Um beijo. Fiquem com Deus. Tchau. Tchau, tchau.