RapaduraCast 910 - DR no Dia dos Namorados (ou quando o cinema discute os relacionamentos)
Jurandir Filho, Rogério Montanare, Thiago Siqueira e Fernanda Schmölz fazem uma DR nos Dia dos Namorados. Por muito tempo, o cinema vendeu a ideia de que o amor era um destino. Duas pessoas se encontravam, enfrentavam alguns obstáculos e, no final, tudo se resolvia com um beijo, uma declaração ou uma corrida desesperada até o aeroporto. Mas existe um outro tipo de filme que entende algo que a vida ensina cedo ou tarde: amar alguém nem sempre é suficiente.
São obras que tratam relacionamentos não como contos de fadas, mas como encontros entre pessoas complexas, cheias de defeitos, traumas, expectativas e contradições. Filmes que falam sobre desgaste, comunicação falha, ressentimentos acumulados, crescimento pessoal e até mesmo sobre a dor de perceber que duas pessoas podem se amar profundamente e, ainda assim, não conseguirem ficar juntas.
"História de um Casamento", "500 Dias com Ela", "Vidas Passadas", "Ela", "Anatomia de uma Queda", "Antes do Amanhecer" e outros filmes contam um pouco desses tipos de situações bem reais.==
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- RelacionamentosHistória de um Casamento · 500 Dias com Ela · Vidas Passadas · Ela · Anatomia de uma Queda · Antes do Amanhecer · La La Land · Eternal Sunshine of the Spotless Mind
- Comunicação em RelacionamentosRessentimentos acumulados · Comunicação falha · Desgaste do relacionamento · Crescimento pessoal · A importância do diálogo
- Relacionamentos TóxicosCodependência emocional e física · Relacionamentos tóxicos · A dificuldade de sair de relacionamentos · O meu bosta
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- Tempo do amor e relacionamentosExpectativas sociais · Preconceito contra relacionamentos LGBTQIA+ · O tempo e a razão nos relacionamentos · O papel do timing nos relacionamentos
- Amor, perdão e perseverançaTraição como tema ficcional · Arrependimento e pedido de desculpas · Perdão e elegância nas relações · Marisa Monte e Nando Reis · Los Hermanos
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- Influência da música popular e consumo de mídiaBandas tristes e sexys · Los Hermanos e suas fases musicais · Músicas de término
- O Papel do Álcool e ComportamentoBrigas sob efeito de álcool · Potencialização de emoções · Perda de filtros
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Rogério Montanare:Rapadura Cast, o podcast do portal Cinema com Rapadura.
Jurandir Filho:Eu era um diretor de 20 e poucos anos que surgiu do nada e de repente tava na capa da porra da Time Out New York.
Rogério Montanare:Eu era o fodão e eu queria trepar com todo mundo, mas eu não trepei.
Jurandir Filho:E eu te amava e não queria te perder.
Rogério Montanare:Seja bem-vindo, séries rapadura de todo o Brasil, está começando mais uma edição do Rapadura Cast. Eu sou Júlio de Filho e no programa de hoje vamos aproveitar o mês de junho pra fazer uma DR do Dia dos Namorados ou vamos falar sobre filme de relacionamento? Estamos aqui com o Tiago Siqueira.
Thiago Siqueira:Amar é uma merda.
Rogério Montanare:Muito bem. Rogério Montanari.
Jurandir Filho:O amor é como uma caixa de bombons em 2026, cheio de gordura, sabor chocolate.
Rogério Montanare:Fernanda Justimotz.
Fernanda Schmölz:Amadurecer é perceber que o final de brilho eterno de uma mente sem lembranças não é uma coisa bonita, é uma tragédia.
Rogério Montanare:Pá! Olha, você está preparado para esse podcast? Vamos pegar aqui visões de pessoas maduras. Madura! Que já apanharam pelo tempo e pelos relacionamentos. Pessoas que já passaram pelo pão que o diabo amassou. Eita porra! Vamos falar sobre filmes de relacionamentos. Agora, relacionamentos sérios, tá? Não essas comédia romântica, tudo acaba bem, feliz para sempre.
Thiago Siqueira:Isso não existe!
Jurandir Filho:Não existe!
Fernanda Schmölz:Quem não é feliz não existe! Ai, gente, que delícia! O amor está no ar, né, galera? Dia dos Namorados, todo mundo feliz.
Rogério Montanare:Aproveite bem seu Dia dos Namorados e tudo mais, mas saiba que vai acabar. Saiba que tem algum desses— a gente vai tentar não dar spoiler dessas histórias, que o importante mesmo é o núcleo ali da discussão. Mas a gente vai falar de diversos filmes aqui, de relacionamentos. Temos muito a conversar, beleza? Engraçado que o cinema sempre teve uma obsessão muito grande por relacionamentos, né? Mas eu acho curioso como os filmes mudaram a forma de mostrar isso ao longo dos anos.
Fernanda Schmölz:Total! Antigamente era muito comum a gente ver toda a história terminando com aquele casal perfeito, apaixonado, se beijando na chuva. Mas hoje em dia é interessante que os filmes, eles abraçam mais essas confusões no meio do caminho.
Thiago Siqueira:Mas ó, vou mostrar para vocês um relacionamento perfeito. O relacionamento perfeito é o café forte do Brasil e sua xícara vermelha.
Rogério Montanare:Icônicos! Olha aí, é verdade, isso aqui não tem como botar defeito, tá? Inclusive tô aqui com a minha xícara e com meu café pilão, sempre acompanhando a gente nas gravações.
Jurandir Filho:É, e depois que a gente falou, né, dessa icônica xícara de pilão, que já tá disponível para compra inclusive, uma galera já comentou aqui dizendo que já comprou, hein?
Fernanda Schmölz:Pois é, e ela é realmente muito linda, né, gente? Desde que a minha Ela já chegou, eu só tomo meu cafezinho nela.
Rogério Montanare:Pra comprar a sua é muito fácil, é só clicar no link que tá na descrição ou escanear o QR code que tá aqui na tela. Não perde essa sua oportunidade, hein?
Jurandir Filho:Valeu, Pilão, café forte do Brasil!
Rogério Montanare:É isso, vamos falar sobre relacionamentos agora aqui no Rapidurocast. Olá, eu sou Maciel Queiroz de Natal e bem-vindos ao mundo espetacular do cinema. You can't handle the truth, Johnny!
Thiago Siqueira:And the Oscar goes to Rapadura Cast. Grande filho é uma frase do filme Silêncio da Noite, do saudoso Humphrey Bogart. Eu nasci quando ela me beijou, eu morri quando ela me deixou, eu vivi algumas por algumas semanas enquanto ela me amou.
Rogério Montanare:O amor é uma merda. Gostei. Olha só, ser adulto é saber que não existe final feliz. E aí é muito, você pode, né, sentir aquele negócio assim de, ai não, que isso, nossa, que pessimismo, existe tantos casais aí que, né, são muito felizes, vão acabar.
Thiago Siqueira:Jura, sabe o que é um final feliz?
Rogério Montanare:Seja em vida ou morrendo.
Thiago Siqueira:O mais próximo de final feliz, sabe o que é? Um casal que fica junto a vida toda e alguém morre no final.
Rogério Montanare:Eu deixo a pergunta, inclusive.
Jurandir Filho:Tem o final feliz que é aqueles casais que morrem, tipo, 3 minutos um depois do outro, assim, porque eles não conseguem viver sem um separado.
Rogério Montanare:Ai, meu Deus.
Jurandir Filho:Mas é raro, mas é raro.
Rogério Montanare:É raro, mas acontece. Romeu e Julieta foi assim, né?
Thiago Siqueira:Novamente, Romeu e Julieta não é uma história de amor, é uma história de dois jovens burros.
Fernanda Schmölz:O amor deixa a gente meio burro mesmo, né?
Jurandir Filho:Tem uma história que eu acho fascinante. Fascinante que o grande— eu sei que tem gente que odeia, dane-se se você odeia, para mim é seu— não, grande Los Hermanos musicou essa, essa história, chama Conversa de Botas Batidas, que é uma história sobre um casal de idosos que eram amantes. Ou seja, o velhinho tinha uma família, a velhinha tinha uma família, porém eles tinham um caso. Extraconjugal de 20, 30 anos já. E aí eles estavam num hotel e o hotel desabou e eles morreram os dois lá.
Rogério Montanare:Tristeza lá dentro.
Jurandir Filho:E aí o Conversas de Botas Batidas, que é essa história, tipo assim, conta assim, por que que eles não puderam viver esse amor de verdade, entendeu? Quais foram?
Fernanda Schmölz:Eles podiam só ter se separado, Fernando, você sabe que não é assim.
Jurandir Filho:Ainda mais, ainda mais quando você pega pessoas idosas.
Fernanda Schmölz:Era um dos— quando começaram, você falou que eles ficaram 30 anos juntos, não era idoso como isso.
Jurandir Filho:Mas então, mas pega, sei lá, pega um momento lá atrás onde a mulher não podia se separar porque ela era mal vista. Eu lembro que minha avó separou e ela era a desquitada.
Fernanda Schmölz:É um prazer desagradável a todos vocês.
Jurandir Filho:As pessoas apontavam, a desquitada, lá vem a desquitada.
Fernanda Schmölz:Eu acho, quando as pessoas apontam e fica falando a lá desquitada, é porque elas queriam ser critadas também não tem coragem.
Rogério Montanare:Toma na cara, entendeu?
Fernanda Schmölz:Porque assim, é muito fácil você apontar o dedo na cara do outro por qualquer motivo que seja, né, quando você não tem coragem de ir lá e fazer, e você queria também, sabe?
Rogério Montanare:E aí existe relacionamento de tipo assim, 50 anos de casado, aí faz aquela festa, né? É boda de ouro, boda de ouro.
Fernanda Schmölz:Eu fui em uma boda de ouro na minha vida, da minha tia e do meu tio, que eram na verdade tios da minha mãe, eles eram meus tios de segundo grau, eles eram a coisa mais fofa do mundo.
Rogério Montanare:Mas não tinha as gaia não?
Thiago Siqueira:Não.
Rogério Montanare:Tô inventando, tô inventando, deve ser lá.
Fernanda Schmölz:Ah, gente, se tinha, nunca me falaram. Eu acho que não, porque eles eram obcecados um com o outro, assim.
Thiago Siqueira:Se tinha, não sei.
Fernanda Schmölz:O meu tio, inclusive, ele era tão obcecado com a minha tia, e ela era muito mais, assim, cheia de vitalidade e tal. Um dia, ela simplesmente tava na cozinha, como ela sempre tava, Sabe? Eu não lembro se ela teve uma parada cardíaca, se ela teve um AVC. Eu não lembro o que que foi. E ela morreu, caiu no chão e morreu. Que isso, gente? Ele viveu 1 ano, 1 ano só, depois. E ele morreu de tristeza. Porque eles eram aquele tipo de casal que ela fazia tudo por ele. Ela separava a roupa que ele ia botar de manhã na cama.
Rogério Montanare:Ah, então era mãe dele. Acontece muito isso, o cara casar com a mãe, né? Tem um filme aí, Normal Bates.
Jurandir Filho:É o Scott Pilgrim.
Thiago Siqueira:Normal Bates?
Jurandir Filho:Ah, sério? Até fui buscar letra.
Fernanda Schmölz:Gente, feliz dia dos namorados, galera. Espero que estejam gostando do nosso especial.
Jurandir Filho:Até fui buscar letra, porque fica parecendo: "Ai, dois pilantras, dois safados." Deus parece às vezes esquecer, Rogério. Então, mas uma das coisas que a letra fala e que aconteceu de fato, é que a gente não sabe os motivos disso, é que foram batendo nas portas avisando que o prédio ia desabar. E no quarto deles, eles não responderam. E aí, olha que bonito aqui que o Los Hermanos colocou, ó. Veja você, quando é que tudo foi desabar, a gente corre para se esconder e se amar, se amar até o fim, sem saber que o fim já vai chegar.
Rogério Montanare:Exatamente.
Jurandir Filho:Deixa o moço bater que eu já cansei da nossa fuga, já não vejo motivos para que nosso amor de tantas rugas não tenha o seu lugar.
Rogério Montanare:Porra, Marcelo Campero, mano!
Fernanda Schmölz:Essa letra é bonita pra caralho, mano.
Jurandir Filho:Caralho, mano, é bonito demais.
Fernanda Schmölz:E assim, eu não quero enaltecer, eu não quero Eu não quero enaltecer, eu não quero.
Thiago Siqueira:Mas a música é muito boa.
Rogério Montanare:Mas Fernanda, Fernanda, é que assim, porque o Los Hermanos é uma das maiores bandas da história da música nacional e do rock nacional. E Ventura é um dos melhores álbuns da história do rock nacional.
Fernanda Schmölz:Não, eu sei, Los Hermanos é bom pra caramba, mas eu não quero enaltecer o Marcelo Camilo. Um abraço. Posso falar um negócio? Traição, caso, isso só é bonito na ficção.
Jurandir Filho:Mas Fernanda, é que você tem que entender...
Fernanda Schmölz:Eu assisto a mais merda. Você sempre tem a opção de falar: não quero mais estar com essa pessoa, vou ficar com a outra.
Thiago Siqueira:Fernanda, a gente precisa...
Jurandir Filho:É que a Fernanda tem 23 anos, aí é foda.
Thiago Siqueira:É foda.
Fernanda Schmölz:Pô, 23 do caralho, pô. 36 já.
Jurandir Filho:Não existe.
Thiago Siqueira:Tá maluco?
Jurandir Filho:Tu não assiste Star Wars, não? Não existe preto e branco mais, não. Nem Star Wars existe mais preto e branco.
Fernanda Schmölz:Mas isso não quer dizer que isso pode ser uma desculpa pra gente ser um merda.
Rogério Montanare:Então, mas vai saber de outra vida, você.
Jurandir Filho:Traição é paia, mas a gente não sabe quais foram quais são as razões que envolvem isso. Às vezes, sabe o que pode ter sido? Um amor que aconteceu lá na adolescência e que não pôde ser concretizado por conta de problema de família. Sim, família que não aceita a família do outro, não sei o quê, não sei o quê.
Fernanda Schmölz:Eu quero entender assim, ao longo de 30 anos essas pessoas não teve um momento?
Thiago Siqueira:Essas pessoas ficaram indo dormir, deitar a cabeça no travesseiro do lado de outra pessoa, jurar votos, construir família e "Ah, cara, nem treme." Tem uma história muito clássica na cultura pop que é a do Tolkien, John Ronald Reuel Tolkien, que ele tinha um amor de infância, só que os preceptores dele, os padres que estavam cuidando dele, não deixou, não deixaram ele—
Fernanda Schmölz:É o Vidas Passadas, né?
Thiago Siqueira:É, não deixaram ele viver esse amor. Então ele cresceu, Tolkienzinho cresceu, Tolkienzinho cresceu e descobriu que esse que era o grande amor da vida dele, a Edith, ia se casar.
Rogério Montanare:Ele pegou um trem, foi desembestado até lá e disse: "Eu quero..." Chegou 10 dias depois do casamento.
Thiago Siqueira:Não, chegou antes do casamento.
Rogério Montanare:Que bom, menos mal. Ficou esperando lá na igreja.
Thiago Siqueira:"Quero casar contigo, vamo embora agora." E ela aceitou, porque era apaixonada por ele.
Fernanda Schmölz:Viu?
Rogério Montanare:Rolou um final feliz.
Fernanda Schmölz:É, mas ele se fudeu antes de casar, entendeu? Esse é que é o negócio. Você sempre tem a opção de repensar, de falar não, de mudar de ideia.
Thiago Siqueira:Mas, velho, existia um relacionamento, não existia? Existia. Ela tava noiva do cara, não tava?
Fernanda Schmölz:Sim, mas antes dela assumir o compromisso, ela foi lá e falou assim: ó, cara, eu sei, pra mim esse outro cara aqui, ele veio e tal, não sei o quê, a gente vai ficar junto, sinto muito, um abraço.
Rogério Montanare:Mas ela não falou isso pra ele não antes.
Fernanda Schmölz:E tudo bem, foi uma coisa meio pau no cu dos prejudicados, foi, tá, foi. Mas eu tenho certeza que o moço deve ter achado uma outra moça e teve um relacionamento muito legal depois, tá?
Thiago Siqueira:Porque é isso que ele deve estar ou ele se matou. Esse bosta!
Fernanda Schmölz:Ou ele pegava o livro do Senhor dos Anéis e arrancando página por página e usando para o cachorro fazer cocô em cima.
Rogério Montanare:Agora ele tá fazendo o Senhor dos Anéis.
Jurandir Filho:Olha só, hoje eu tô um arqueólogo da história.
Rogério Montanare:Olha aqui, vamos lá, vamos melhorar essa história.
Jurandir Filho:A história é muito mais rica, a Essa história é muito mais rica do que a gente imagina.
Rogério Montanare:Olha isso, pois não?
Jurandir Filho:Dia 25 de setembro, o porteiro do prédio, Raimundo, lá lá, ouviu alguns estalos e começou a avisar as pessoas que estavam dentro do hotel para que saíssem a tempo e em segurança. O porteiro, ao descer as escadas, se recordou do casal e foi até o quarto bater a porta, porém ninguém respondeu. Ele decidiu insistir mais uma vez, foi até a portaria e nada, ninguém obteve resposta. Naquele dia, por volta das 15:15, o prédio desabou. Depois de 2 dias, Os corpos do casal foram encontrados em meio a escombros. E para surpresa da equipe, eles estavam abraçados e deitados no que restou da cama. Mais tarde, descobriram que a mulher era uma bancária de 47 anos e o homem era um professor de 71 anos. A história conta que eles tinham vivido um amor na juventude, mas acabaram se separando. Anos depois, se reencontraram...
Fernanda Schmölz:Repete a idade, ô, Jão.
Jurandir Filho:47 e 71. Peraí, 47 e 71?
Fernanda Schmölz:Mano, cu, não.
Rogério Montanare:Desculpa.
Jurandir Filho:Anos depois, se encontraram e decidiram viver um romance escondido. Mesmo ambos sendo viúvos.
Rogério Montanare:Cicas, não faça essa conta.
Thiago Siqueira:Toma ele, toma ele, toma ele, toma ele!
Fernanda Schmölz:Então a história não é o que a gente tava falando antes. Não era um casal casado com outras pessoas sendo infiel e depois chegando em casa e beijando a boca do marido, a boca da esposa com o gosto das partes íntimas do colega. Passando sapinho pro outro.
Thiago Siqueira:Exatamente.
Fernanda Schmölz:Não é isso. Eles tiveram um amor, ele acabou, os dois ficaram viúvos. Viúvos. Isso é uma história trágica de amor, cara.
Jurandir Filho:E mesmo assim, a família não aprovou o relacionamento.
Fernanda Schmölz:Mas aí, esse é o momento que você vira e fala: "Pau no cu dos prejudicados". "Que a minha vida, eu estou viúva, eu vou fazer a porra que eu quiser". Eu quero retirar a crítica que eu fiz ao casal. Sinto muito, casal.
Jurandir Filho:Os corpos do casal foram reconhecidos por seus familiares e o filho do professor chegou a solicitar que o nome do pai não saísse nos jornais para que a imagem dele fosse preservada. Olha o nível!
Fernanda Schmölz:As pessoas têm que se dar a devida desimportância, é o que eu sempre digo, tá?
Rogério Montanare:Eu só não quero fazer o cálculo se esse relacionamento, primeiro relacionamento, aconteceu há tipo 35 anos atrás e fazer o cálculo da idade dessas pessoas.
Fernanda Schmölz:Eu não quero pensar nisso também não, tá? Eu não vou nem a pau fazer o cálculo dessas pessoas.
Jurandir Filho:A gente não sabe quanto tempo foi, né, antes, né?
Rogério Montanare:Sim. Já assistimos aí muitas muitos filmes que tem aquela historinha básica, né? Ah, é o fulano conhece fulana, eles não se gostam inicialmente, aí cria toda uma rixazinha, depois passam a se apaixonar.
Fernanda Schmölz:Isso tem um nome no mundo da fanfic, que é o enemies to lovers, que é um dos meus gêneros favoritos, tá?
Rogério Montanare:Dorama, né? Dorama, a base do drama é isso.
Fernanda Schmölz:Tem muito que é drama, que é baseado nisso, principalmente. Exatamente.
Jurandir Filho:Agora mesmo aqui no fundo, aqui no fundo tá tocando música, né, que eu deixo tocando música. Eu coloquei Love Songs aqui de fundo, está tocando a música do guarda-costas, a música lá da Whitney Houston, que é basicamente isso. O cara é contratado para ser guarda-costas dela, ela não gosta dele, não vai com a cara dele, e aí eles vão se apaixonando.
Fernanda Schmölz:Vocês sabem que muitas vezes quando você não vai com a cara de alguém é porque tem alguma coisa estranha ali, não necessariamente uma atração, mas tem alguma coisa naquela pessoa que ou você enxerga em você e você tem repulsa.
Jurandir Filho:Amor e ódio.
Fernanda Schmölz:É exatamente. Mas às vezes pode ser só ódio mesmo. Não, às vezes é só ódio mesmo. E acontece. E é estranho, tá? Mas assim, por que não? Porque sentimentos muito intensos, eles são meio que dois lados da mesma moeda, né?
Rogério Montanare:Fernanda, tem um negócio que é essas comédias românticas, elas são muito padronizadas, né? A gente sabe como é que começa e como é que termina, né? Esses filmes. Só que tem outros filmes que entram mais na linha do romance, né, do drama barra romance, né. E aí que eles discutem, né, esses filmes eles acabam discutindo os relacionamentos de uma forma mais verdadeira, mais profunda, mais sentimental, eu diria, né. Eu tava lembrando de um filme que foi lançado alguns anos atrás com Adam Driver, com a Scarlett Johansson, A História de um Casamento, que é um filme que fez muita gente se identificar, né, quem tá naquela idade particular da vida ali, né, de relacionamento, e o relacionamento indo para caminhos diferentes. Rever esse filme é curioso porque você vê que tá tudo escancarado ali, sabe? É assim, a gente tá assistindo o que é que causa um problema naquelas, naquele relacionamento, e só eles acabam não enxergando, né, até que tem um grande embate deles dois, e você vê que ele fica com ela jovem, cria um relacionamento com ela e ele vê que ao se relacionar com uma pessoa apenas, ele tá perdendo todas as possibilidades do mundo.
Fernanda Schmölz:Isso é aquele clássico: cada escolha é uma renúncia. Eu acho absolutamente lindo casais que se conhecem novos e eles são tipo, sabe, soulmates.
Thiago Siqueira:O Meliuradji deu uma suavizada aí, por quê? Porque no meio dessa discussão ele disse: eu era um diretor fodão, jovem, dos meus 20 anos, eu devia estar passando a rola por ali. E eu não tava fazendo isso por você, como se fosse um grande favor que a gente tava fazendo.
Fernanda Schmölz:Não, não, não, não, não, não, não, não, não. Isso daí o Siqueira tem razão, galera. Ele tá culpando ela por uma escolha de estar num relacionamento que ele também escolheu. Ela não chegou com uma faca pra ele, entendeu? Ela não fez a Freaky Nick e falou: "Mas por que você não me ama?" Não, não, cara.
Rogério Montanare:Sabe o que é isso?
Fernanda Schmölz:Tu escolheu esta merda.
Rogério Montanare:É a galera ressentida, né? A galera vai guardando ressentimentos com o passar dos anos. Essa é a pior coisa que tem. Numa relação. E aí chega um ponto que tudo explode e tudo vira motivo pra briga, né. Tudo vira motivo pra término, né.
Fernanda Schmölz:Que amadurecer é você perceber que você aceitar uma coisa horrível que fizeram com você te torna tão culpado quanto. E às vezes você era jovem demais pra conseguir lidar com aquilo. Mas você pode pegar esse limão e fazer uma limonada pro que vier daqui pra frente. Você não pode mudar o seu passado, mas... Mesmo que alguém tivesse lá cobrando coisa de você, atazanando seu juízo e tal, e você topou ficar, você tá sendo complacente.
Jurandir Filho:É, tem um filme que tem mais ou menos a mesma temática desse, só que ele tenta ir um pouco mais pela veia um pouquinho mais cômica, mas eu acho que ele é tão trágico quanto, que é o Separados pelo Casamento.
Fernanda Schmölz:Aquele da Jennifer Aniston com o Vince Vaughn.
Jurandir Filho:Isso, que é do Vince Vaughn e da Jennifer Aniston. Você falou de limão, logo lembrei do filme. O grande estopim é porque ele precisava trazer limões, porque ela pediu, porque eles iam dar um jantar ali para uns amigos, e ela pediu para ele trazer limões e ele esqueceu. E aí, de repente, cara, isso daí começa uma escalada absurda de tretas que você sente, você percebe que os dois se amam, mas que já desgastou demais.
Fernanda Schmölz:Só não dá mais.
Jurandir Filho:A coisa desgastou a tal ponto que um fica praticamente o filme todo é um tentando voltar ao que eles viviam antes, esse sentimento. Só que a cada passo vai criando uma nova, uma nova rachadura, uma nova rachadura, até o momento que não tem mais o que fazer.
Rogério Montanare:A treta não é sobre limões, né? Tipo assim, é sobre o acúmulo de coisas.
Fernanda Schmölz:Foi só a gota que transbordou o copo.
Jurandir Filho:É porque esse negócio do limão, tipo assim, ele fala: 'Ah, você não trouxe limão?' Ele: 'Ah, isso aí não importa.' E ela tipo assim: São várias. Aí quando você começa, aí você começa a perceber que são vários pequenos. Se você tiver assistindo com uma cabeça muito, ah, assistindo como sucessão da tarde, quando você começa a prestar atenção de verdade, você percebe que o limão ele foi um fator. E assim, é um desmerecimento de algo que ela tá fazendo, porque ela estava preparada especificamente.
Fernanda Schmölz:É porque mais uma vez ela sentiu que a necessidade dela não foi atendida, que ela foi ignorada, que ela foi— exatamente. Se vocês pararem para olhar, qualquer relacionamento que termina desse desse jeito, que você vai falar, caraca, foi por causa de uma briga idiota. A briga idiota só pôs para fora o que já tava ali.
Rogério Montanare:Você terminar um relacionamento com as duas pessoas se amando é uma desgraça demoníaca, sabe? Assim, porque era melhor, é melhor você chegar no ponto de dizer assim, eu não gosto mais dessa pessoa, porque fica até mais fácil de você passar por isso. Mas você, ambos ainda se gostando muito, e vocês perceberem que não dá para ambos permanecerem juntos, Porque, cara, o tempo, o tempo faz a gente mudar demais. A gente, quando começa uma relação, a gente é de um jeito. Os anos vão se passando, aquela pessoa que começou, sei lá, vamos dizer assim, 5 anos atrás, você não é mais aquela pessoa. Você não é. Você vai progredindo, a sua cabeça vai mudando, seus pensamentos vão mudando, suas experiências vão mudando a forma como você imagina o mundo e sobre quem você quer que esteja no seu mundo. E se a pessoa não acompanha o seu ritmo, se ela não acompanha, se ela não tá, né, alinhado com esse tipo de pensamento, casal acaba se desencontrando, indo para lugares opostos, e aí não tem como mais conviver, né?
Thiago Siqueira:E isso é bilateral, Július, porque as duas pessoas vão mudando, vão desenvolvendo novas necessidades. E aquela coisa, se aquele seu parceiro que você tá naquele momento não consegue acompanhar isso, parceiro ou parceira que você tá naquele momento não consegue acompanhar as suas necessidades, as suas vontades, os seus desejos, anseios, é o que você quer para a vida, o que você quer para o próprio relacionamento, não tem como esse casal ficar junto. Não tem. Mesmo a inércia, não adianta, porque tem muito casal por aí que tá junto por inércia. Sim, a gente sabe disso.
Rogério Montanare:Vamos falar a verdade, que a grande maioria é porque é cômodo estar numa relação, né?
Fernanda Schmölz:Ainda mais quando você já tá casado, você tem filhos, você já tá junto há um tempão. A coisa mais comum é a galera ir levando. Mas aí você para pra olhar e a vida do casal não existe mais. Existe aquela cumplicidade de você dividir as contas, dividir os problemas, comemorar as datas comemorativas. Mas no dia a dia você nota que o carinho, a consideração, o amor mesmo de casal, o amor sexual, romântico, acabou.
Rogério Montanare:Separar dá muito trabalho, né?
Fernanda Schmölz:Dá muito trabalho você ir...
Thiago Siqueira:E ainda mais porque você tem gastos. E você gasta dinheiro.
Fernanda Schmölz:Tem muita gente que eu vejo na internet falando assim: "Ah, não divorcio porque eu vou perder muito dinheiro, vou perder metade do meu patrimônio." Sabe? É uma mesquinharia.
Thiago Siqueira:E outra coisa, Fê. Muito escrota, cara. Que o pessoal não para pra pensar, que é o seguinte: quando você tá casado, você tem... Geralmente você tem duas pessoas trabalhando. Você tem duas rendas sustentando a casa.
Fernanda Schmölz:Pois é, tem que ter culhão pra ir embora.
Thiago Siqueira:Quando separa, é uma renda pra cada casa. O padrão de vida do casal la familia, desaba.
Jurandir Filho:E isso que a gente tá falando só da parte financeira, mas a gente tem que lembrar de todo o restante. São várias coisas que você vai ter que mudar na sua vida, do tipo assim, com quem as crianças vão ficar, como que vai funcionar isso, com quem vai ficar, quem mesmo que sejam já adolescentes e tudo mais.
Rogério Montanare:Mas o História de um Casamento lida com isso também, né, Rogério? O filme, eles estão no processo de divórcio e quem vai ficar a guarda dos filhos e tudo.
Jurandir Filho:Exato, tem tudo, tem os animais às vezes que também com quem vai ficar os animais, os bichinhos. Tem a questão da, de, por exemplo, você tá acostumado e trabalhar de tal lugar, você vai ter que trabalhar de outro. Assim, existem vários fatores, né? Eu não acho que isso possa ser uma grande, uma desculpa, por exemplo, para você simplesmente ir lá e trair a pessoa que você tem pelo menos algum tipo de respeito, né?
Fernanda Schmölz:Elas não querem escolher, elas querem ter tudo. E aí é que vira um problema. Eu vejo muita gente fugindo do próprio relacionamento e arrumando amante, que é justamente porque com amante você não vai ter que dividir problema, não vai ter que dividir responsabilidade. A sua parte boa é muito cômodo.
Jurandir Filho:A questão interessante disso é que é o seguinte: vai lá, o cara normalmente acontece com mulher também, tá? Eu sei que aí vai ter gente que faz isso, né? Se a gente fosse fazer uma proporção assim, mesmo porque eu sigo alguns perfis que são muito interessantes de detetives particulares no Instagram, e aí o cara nunca pode mostrar de fato, né, mas ele mostra: "Olha, acabei de ver um cara aí, um BMW, ele parou, entrou uma mulher de rua dentro do carro dele", sabe esse tipo de coisa assim?
Fernanda Schmölz:Sim.
Jurandir Filho:E aí assim, o cara mesmo fala: grande maioria é homem, tá? Grande maioria é homem. É a mulher que procura o cara lá pra fazer pesquisa e tal. Mas tem mulher que faz isso também, né? Mas o que eu fico puto com esse negócio é o seguinte: Esse tipo de cara é um tipo de cara que fala assim "Ah, mas é porque eu já não amo mais a minha mulher e aí eu quero ficar com outra pessoa, quero sentir de novo aquele ardor." Né? Aquele quente e tal... E aí, pô, mas se for me separar vai ser complicado porque tenho os filhos, porque tem blábláblá apartamento—
Rogério Montanare:Ele não quer perder nada.
Jurandir Filho:Mas se a mulher dele falar assim para ele: olha, eu vou arrumar uma amante também, vamos abrir um relacionamento, aí ele vai ficar irado, aí ele fica puto, porque ele não quer que seja dele, porque ele gosta, mas ele não quer que seja de mais ninguém, entendeu?
Rogério Montanare:Ele não quer perder, Rogério, não quer perder.
Fernanda Schmölz:Ele quer abrir mão de nada, ele quer sempre tirar vantagem de tudo.
Rogério Montanare:Cara, vou dizer o seguinte, esses relacionamentos, tem gente Tem gente que deveria entender, não deveria entrar em relacionamento super sério, ia ficar mais de boia, como tá muito comum a galera. É, não, eu prefiro ficar solteiro e ter meus, meus dates e tudo mais, tudo mais. Você deveria ficar nessa vibe, porque se você não tá pronto para ter um relacionamento sério, eu tô nem falando sobre monogamia e poligamia, não, eu tô dizendo assim, porque até isso você escolhe, né? Você contar se relacionando, você faz essa essa escolha. E tem suas regras para tudo, né?
Thiago Siqueira:E não deixa de ser um relacionamento com regras.
Rogério Montanare:Não deixa. Exatamente, exatamente.
Thiago Siqueira:A questão é não estar em relacionamento.
Rogério Montanare:Isso, porque está em relacionamento é ter compromisso. Aí você tem compromisso, e aí nem sempre todo mundo tá preparado. E chega um determinado ponto que talvez você pensasse que estava preparado para estar numa relação assim. Eu tô falando muito do Estrógeno Casamento porque eu assisti ele há pouco tempo. E é muito louco porque o tempo vai passando e você acha que você tá entregando a sua vida. A sensação que dá é que o Adam Driver, né, um dos protagonistas do filme, ele tá entregando a juventude dele para esposa dele, como se tipo assim ela não fizesse por merecer, que ele deveria estar aproveitando muito mais, como se ela não tivesse feito a mesma coisa. Você tem toda essa discussão desse filme e é uma discussão pesada, forte, né, de dois atores que são muito bons, que é o Adam Driver e a Scarlett Johansson. Mas aí você corta lá para Anatomia de uma Queda, que é um filme que trata de um outro assunto, mas existe uma discussão muito crua entre o casal, né, entre a esposa e o marido, que já foi dito que foi feito para o filme, mas ele tem um background de trás assim que que a diretora colocou no texto do filme, que seria uma resposta que a personagem Scarlett Johansson daria para o Adam Driver.
Jurandir Filho:Não é diretora, é do marido da diretora do Barbie.
Rogério Montanare:A Sandra Hill, ela dá uma resposta absurda para o marido dela, que o marido dela assim: ah, eu não consigo escrever o livro, aí não sei o quê, eu tô tendo crise criativa e não sei o quê. E ela dá uma resposta fodida na cara dele de você ficar se apequinando, de você Achar que é o maior de todos, mas não consegue segurar a ponta do livro.
Fernanda Schmölz:Culpa das suas frustrações em outras pessoas.
Rogério Montanare:Mas isso acontece todo dia, todo dia. Porque quando você não se entende, e aí a parada que a gente sempre fala, né, terapia, terapia, ela não, ela não vai trazer a cura para as coisas, ela vai trazer entendimento. E aí, em cima do entendimento Você vai buscar se melhorar. A terapia, ela faz, não é assim, não é a terapia assim, tô com dor, aí dá uma gotinha na língua, passou, sabe? Não é a terapia, não é isso, sabe?
Fernanda Schmölz:Não.
Rogério Montanare:E quando você entende quais são as suas mazelas e por que que você se comporta de algumas formas assim, e do quanto que às vezes você está mal, e aí você tem o prazer de fazer os outros ao seu redor ficarem mal também, Porque você não quer assumir os seus defeitos, né, as coisas ruins que você faz. Isso é muito triste, né, muito triste, porque você mina todas as relações que você tem ao seu redor. E aí vão sobrando poucas pessoas. Pensa aí em pessoas, pensa aí no seu convívio popular aí, né, no seu convívio normal. Olha as pessoas ao seu redor, sempre tem aquela pessoa que se isola de todo mundo, que sempre diz que, nossa, ninguém presta. Ai, não existe homem. Ai, não existe mulher. Ai, os amigos, os amigos. Aí tem uma pessoa que ela conhece, aí é tipo assim, ela vai, a pessoa, ela vai se isolando de todo mundo como se nada prestasse no mundo, sendo que talvez falte até um entendimento próprio sobre você mesmo, sabe? Porque você se relacionar, e aí isso vale para relacionamentos amorosos, de amizade, de trabalho, é você fazer concessões. E tem gente que não gosta de fazer concessões. E se você não gosta de fazer concessões, infelizmente vai ser muito difícil sua vida social.
Fernanda Schmölz:É melhor você ficar na sua, porque você vai ter que fazer concessões.
Rogério Montanare:Você vai ter que fazer assim: "Ai, gente, é isso, não concordo com o que essa galera tá falando aqui." Mas aí é um Natal de família, um monte de gente fala um monte de absurdo, e aí você tem que fazer: "Cara, é isso, é minha família." Eu não tenho o que—
Thiago Siqueira:Família não é uma palavra, é uma sentença condenatória transitada em julgado. Agora, tu falando ali da questão do escritor frustrado, é impossível não lembrar de um outro escritor frustrado na história dos romances dos anos 2000 para cá, que é o personagem do Jude Law em Closer, que é um escritor frustrado.
Jurandir Filho:Esse é um cuzão, esse é um cuzão mesmo, esse é um cuzão, esse é o cuzão verdadeiro.
Thiago Siqueira:Por quê? Ele tá lá, ele é um escritor de obituários que tá lá naquela vidinha dele sonhando em ser o grande escritor de todos os tempos, até que ele conhece uma moça chamada Alice, Alice Ayers, que é vivida pela Natalie Portman, e conhece por acaso no meio de um acidente. Ele começa a se interessar pela vida dele e ele usa a vida dela para escrever um livro.
Fernanda Schmölz:Ele usa a vida dela.
Thiago Siqueira:Engraçado. E aí o que ele faz? O livro vai ser publicado e tal, aparece a Julia Roberts que é a fotógrafa que tá tirando as fotos para capa, para promoção do livro, e o que que ele faz? A primeira coisa que ele faz quando viaja, ele quer dar em cima dela, tendo um relacionamento com a Alice, que ele chupinhou a vida para escrever o livro dele.
Rogério Montanare:Porque ele quer tudo, cara, ele vai sugando a vida das pessoas que vão entrar na vida dele, né?
Fernanda Schmölz:Exatamente, tem umas pessoas que são assim.
Rogério Montanare:Você conhece um sanguessuga?
Jurandir Filho:Esse filme, ele tem uma cena maravilhosa que a Natalie Portman olha para a cara dele e fala assim: "Acabou." E ele fica assim: "Ué, como assim acabou?" Ela falou: "Não gosto mais de você." E é tipo assim, é do nada, ela tem um estalo de que: "Meu, isso aí é um lixo, esse cara não me agrega nada, ele só me puxa para baixo, não tem por que eu ficar com um cara desse." E assim, é do nada, porque ela tá: "Ah, não sei o quê, vamos viajar." Lá, lá, lá, eles estão já se arrumando, que eles vão viajar um dia assim. E ela falou: "Acabou, acabou." Tipo, acabou o amor. E é muito foda isso, cara, porque é difícil você ter alguém que tem essa coragem de chegar para ti e ter uma autoconfiança a ponto de falar assim: quer saber, eu não vou me meter nessa merda. Porque a maioria das vezes a gente se mete nas merda, a gente tem: ah, lutei tanto para conseguir isso, eu vou. Não, cara, muitas vezes é você perceber o traço tóxico, perceber que existe uma linearidade nisso, né? O cara, ele faz isso constantemente e com várias pessoas diferentes. E que tipo não vai te levar a nada. E é muito difícil você ter a consciência disso, de fato, né, de você entender que isso tá te fazendo mal, porque normalmente você tá engendrado. Olha que palavra bonita, sempre usei, pensei em usar. Engendrado ali naquela, naquele romance, que muitas vezes não é um romance, é só uma coisa tóxica mesmo, um relacionamento tóxico. Mas que você não, como você não tem referência externa, você acha que aquilo ali é o seu mundo.
Thiago Siqueira:E às vezes você não tem referência positiva.
Jurandir Filho:Exato, essa moça mesmo, ela tinha uma vida meio cagada, né?
Thiago Siqueira:A personagem, a personagem tinha uma vida totalmente cagada. Meio?
Fernanda Schmölz:Você tá sendo gentil.
Thiago Siqueira:O Rogério, você falando agora me lembrou de outro filme, Forrest Gump, o relacionamento do Forrest com a Jenny. Cara, a Jenny ela não tinha referência de o que era ter um relacionamento saudável. Ela não tinha.
Jurandir Filho:Todos os caras que passaram pela vida dela foram merda.
Rogério Montanare:Todo mundo que vem de relacionamento tóxico, ele, você se acostuma com discussões, com brigas, com comportamentos ruins.
Fernanda Schmölz:Seu sistema nervoso é meio burro. A gente tem que entender que a biologia é meio burra. Você se acostuma com o que você tem. Se você tem uma casa caótica, você vai procurar uma vida caótica, sabe? Tem muito isso, é a gente querer se validar, querer encontrar conforto no familiar, tentar reviver traumas, assim, tentar superar traumas se envolvendo com outras pessoas. É isso. Então assim, tem essa coisa que muitas pessoas confundem de "Ah, mas a química não foi tão boa". A química são aquelas borboletas no estômago do seu sistema nervoso já identificando que aquela pessoa não vai ser boa para você e você tá confundindo aquilo com amor, com paixão. E é de lascar, galera. Tem que fazer terapia.
Rogério Montanare:Eu tava vendo aí, ó, a Marisa Monte e o Nando Reis vão gravar, né, uma música clássica aí do Nando Reis, aquele Pra Você Guardar o Amor, que é uma música muito bonita, é muito bonita e cheia de pegadinhas também, né, porque ela é bonita, mas ele tem um, tem muita gente usa essa música em casamento sendo que ela tem uma pegadinha dentro dela, mas a Marisa Monte e o Nando Reis gravaram juntos e eles tiraram várias fotos, fizeram clipe, fizeram não sei o quê e tudo mais, juntos. Curiosamente, 20 anos atrás eles eram namorados e o relacionamento acabou muito ruim. Nando Reis e Marisa, muito ruim, muito ruim. Nando Reis, aparentemente, porque não, aqui é uma, né, supostamente existe um disse-me-disse de ambos os lados, mas Nando Reis escreveu uma música que foi cantada pelo Skank, aquela música chamada Resposta, né?
Jurandir Filho:É muito boa porque o Como é o nome do vocalista do Skank?
Rogério Montanare:Esqueci agora.
Fernanda Schmölz:Samuel Rosa.
Jurandir Filho:Samuel Rosa. Ele fez primeiro a música, né? Ele criou primeiro a música. E aí ele mandou pro Nando Reis fazer a letra. E ele fez o arranjo, né? E mandou pro Nando Reis fazer a letra. E o Nando Reis encebou pra cacete pra fazer essa letra aí. E aí um dia ele pegou e foi pressionado pelo Samuel Rosa, porque o disco tava quase pronto e não tinha a porra da música ainda. Ele entregou, entregou lá e tal. E aí o Samuel gostou da letra, gravou sem saber que é uma letra para Marisa Monte.
Rogério Montanare:Aquele começa assim, né? Bem mais que o tempo que nós perdemos ficou para trás, também o que nos juntou. Ainda lembro que eu estava lendo só para saber o que você achou dos versos que eu fiz, e ainda espero resposta, né? E aí essa letra é bem bonita, mas é de uma pessoa que tá, tá, existe um arrependimento E existe uma constatação de que essa pessoa saiu de uma relação, mas ficou um vazio e quer que ela leia ou escute esses versos, né?
Jurandir Filho:Existe um caderno de verdade com versos e letras de músicas e tal que acabou ficando com ela. Eu não sei se ele deixou de propósito pra ela achar, ah, e ter... Porque assim, ó, tudo que dá a entender esse relacionamento, quem saiu com maior dor de corno foi ele, tá?
Rogério Montanare:A sensação que eu tenho é que houve— sensação, tá? Não é, né? Não tô dizendo que aconteceu. Supostamente que houve uma traição por parte dele e ele se arrependeu, e ele foi tentar pedir desculpas e ela não quis mais. E aí, qual foi a resposta da Marisa Monte? Ela escreveu uma música chamada Depois. E essa música, depois, ela é tipo assim, é uma pessoa elegante, que eu acredito que a Marisa Monte é uma pessoa elegante, né?
Jurandir Filho:A Marisa Monte é elegante demais.
Rogério Montanare:Ela tem uma finesse inacreditável, né? Um português inacreditável também. E aí ela sempre fala na música do tipo assim, ó: nós dois tivemos momentos, mas passou nosso tempo, não podemos negar, foi bom. "nós fizemos história pra ficar na memória e nos acompanhar, quero que você viva sem mim, eu vou conseguir também." A letra toda é desse jeito, ela dizendo assim, ela desejando que... Tanto que ela termina assim: "eu quero que você seja feliz, eide ser feliz também, depois." Tipo assim, ela... Depois.
Jurandir Filho:Essa música é maravilhosa.
Rogério Montanare:Essa música é uma obra de arte, né? E é composta pelo Carlinhos Brau, pelo Arnaldo Antunes e pela Marisa Monte, né? Que estavam na vibe do Tribalistas ali, Fazendo música assim, bem...
Jurandir Filho:Mas essa música não foi pro Tribalista, essa música tá num disco dela mesmo, né?
Rogério Montanare:Sim, sim. E é uma resposta extremamente madura, é madura pra caralho. Tem épocas das nossas relações que... Eu já sou uma pessoa de mais de 40 anos, né? Eu vivi muitas histórias, vivi muitas coisas na minha vida. E existem comportamentos que você tem 20 anos atrás que não tem como você repetir. Existem vícios que ficam com você Mas existem coisas que você é capaz de melhorar e perceber, né? Padrões, né? Padrões de comportamentos. Ai, você sempre é desse jeito, começa a se relacionar e aí acontece x coisas e você muda.
Jurandir Filho:Tu sabe, e a gente conversou bastante nos últimos 2 anos aí, eu acho que você concorda comigo um pouco mais depois dessas nossas conversas, né?
Rogério Montanare:Sim.
Jurandir Filho:Ah, eu acho que o calcanhar de Aquiles de praticamente 98% das dos relacionamentos é a falta de diálogo, que quando a gente conversa muitas coisas são resolvidas. E quando elas não são resolvidas positivamente, é porque elas não têm que ser resolvidas positivamente mesmo. Tipo assim, se o diálogo te leva ao ponto de entender que esse relacionamento não tem saída, separados pelo casamento, eu peguei, eu gosto muito de usar de exemplo porque é isso, eles nunca sentam para conversar. Sim, porque fica um tentando provocar o outro, ou provocar para irritar, ou provocar para tentar voltar relacionamento que era antes, mas nunca tem um momento de se sentar e conversar.
Rogério Montanare:É que tem assuntos que são difíceis de conversar mesmo, né?
Jurandir Filho:E a gente fica protelando.
Rogério Montanare:O que que você fala assim: se eu tocar nesse assunto, eu sei que vai dar ruim, que a gente vai brigar, não sei o quê.
Jurandir Filho:O Quintos Dias com Ela é outro exemplo. O cara também fica nessa não sei o quê, E a gente já discutiu se o cara é o tóxico, se ela é tóxica, se não sei o quê, não sei o quê lá.
Rogério Montanare:A Rapadura Cash 813. 813.
Fernanda Schmölz:É que ele tem uma carinha de sala VIP, né?
Jurandir Filho:É, e ele foi um baita sucesso. Mas você percebe que lá no final, quando eles vão conversar, eles finalmente um entende o outro.
Rogério Montanare:Eles estão maduros, né?
Jurandir Filho:Por mais dolorido que seja, por mais dolorido que seja aquela conversa, e ela realmente é, dá vontade de você pegar o teu coração, arrancar do peito e jogar pela janela.
Rogério Montanare:Mas Rogério, tu sabia que tem relacionamentos que começam com os dois no mesmo nível de expectativa e desenvolvimento?
Fernanda Schmölz:E depois—
Rogério Montanare:E tem outros relacionamentos que começam uma pessoa muito mais apaixonada e engajada e a outra pessoa tipo assim andando, andando ali acompanhando, e aí vai desenvolvendo, né? Relacionamento a gente fala muito que é um alto e baixo, né? Um sobe e desce. Quando um tá muito alto ele carrega o que tá mais embaixo, quando tá E aí o que tá mais embaixo sobe e o outro sobe.
Fernanda Schmölz:É aquela coisa de às vezes o 100% não é o seu 100%. Pra ter um 100%, se alguém não tá bem, tá dando 20, você tem que dar 80. Depois, quando você precisa, a pessoa tem que dar mais e você dá menos. Porque é isso, né? Você achar um equilíbrio que possa fazer com que as coisas funcionem. Porque infelizmente é muito infantil você pensar que um relacionamento vai ser sempre maravilhoso. Ou que apesar das brigas vai ser que nem em filme, livro de romance barato, onde termina com uma grande cena de beijo, sexo, e aí de repente os problemas todos ficaram pra trás. Não é assim.
Rogério Montanare:O Kids Just Cool é esse filme que ele, dependendo da época que você tá na sua vida e da sua experiência, você é perceptível os partidos que cada um vai tomar. E eu vou dizer, As pessoas não estão erradas. Quando você toma partido do Tom, você não tá errado pela sua perspectiva de experiência e vivência de vida. Se você toma partido pela Summer, você também não tá errado pela perspectiva, pela experiência de vida que você tem. Se você acha que os dois tiveram comportamentos ruins, você também não tá errado, porque você precisa ter vivência para saber os excessos de tudo. Porque quando a gente fala de comunicação, imagina aí o Tom extremamente apaixonado No que ele diz com ela. E aí a menina tipo assim: "Ai, vamos aí, né?
Thiago Siqueira:Vamos ver aí." Você não pode exigir de uma pessoa o que a pessoa não pode, não quer, não pode lhe dar.
Rogério Montanare:Mas ela tava entregando, ela tava... Domingo de conchinha, tava tendo rolezinho de namoradinho.
Thiago Siqueira:Ela tava entregando o que ela podia. Ela queria o quê? Um relacionamento descomplicado, ela queria alguma coisa mais leve.
Fernanda Schmölz:E tava funcionando.
Rogério Montanare:É isso que eu tô falando. Tava funcionando, só que pra ele...
Fernanda Schmölz:Pra ela, não tava funcionando pra ele. E aí a gente entra no problema dos relacionamentos modernos.
Rogério Montanare:Talvez um pedaço funcionou pra ela, né? Em algum momento funcionou para ela.
Thiago Siqueira:Que rito, Tom, é o seguinte, é que em dado momento, depois do relacionamento ter acabado, ela encontrou a pessoa que é basicamente a mesma coisa que o Tom quer, queria naquele momento. Mas naquele momento ela está madura para dar o que esse cara tá tentando.
Rogério Montanare:Não concordo, é porque ela só foi impulsiva.
Fernanda Schmölz:Gente, gente, a frase ela é fantástica, tá? Ela tá gravada na minha testa. Que é tipo assim: "Ah, mas aí você não queria ser nem minha namorada e agora você é esposa de alguém." E ela diz... Aí ele fala: "Por quê?" "Eu só soube." Aí ele fala: "Soube o quê?" "O que eu nunca tive certeza com você." E eu te digo, a Summer não teria chegado nesse relacionamento posterior sem ter passado por um relacionamento com o Tom.
Jurandir Filho:Eu acho que teria, sim.
Rogério Montanare:Me pergunto se ela estaria hoje casada com essa pessoa que ela casou depois de um mês de ela ter conhecido. Eu acho que a Summer, inclusive, ela tem razão no arco dela. Mas eu não estou julgando quem tem esse tipo de relacionamento e quem tá bem hoje, que tá feliz e que deu muito certo e tudo. Mas o período de namoro, ele é extremamente importante para você conhecer a pessoa, para você viajar com a pessoa, para você, ai, passar a semana com a pessoa, para ver como é que vocês se comportam, vocês conviverem com a distância. E isso leva tempo, sabe? Quando você decide de forma abrupta, você nem conheceu a pessoa E semanas depois você já pensa em casar, existe um risco muito grande de você descobrir coisas que você não sabia. Às vezes você namora 5 anos e não descobre algumas coisas. Só quando você mora junto é que você vai descobrir o que a pessoa tem a oferecer, né?
Jurandir Filho:É que a intenção do filme não é essa, né? Porque a gente não sabe nada do cara, né? Não sabe, não sabe nada do cara. O cara pode ser um grande filho da puta que enrolou ela e ela caiu. A grande sacada do filme é mostrar que às vezes você não é a pessoa certa para outra pessoa. Isso, por mais que vocês se gostem. Ela gostava de verdade, ela gostava dele, eu acho, sabe? Do Tom, eu acho que ela realmente gostava, só que não era para tanto, não era porque ele é tão gostoso.
Thiago Siqueira:A pessoa que eu acho mais madara do filme é a Chloe Grace Moretz, que ela chega e diz: cara, não é porque a menina escuta a mesma merda que você escuta que ela é tua alma gêmea não, beleza?
Rogério Montanare:Mas ricas, É muito comum isso acontecer, cara. A gente tá procurando afinidades. E hoje em dia que a gente não tem mais afinidade com seu ninguém, porque hoje em dia é tudo escrito, é tudo escrito em Tinder, em rede social. E aí você encontra a pessoa, a pessoa não sabe nada do que tá escrito no perfil porque ela colocou para agradar.
Fernanda Schmölz:É muito fácil você criar uma, fazer uma curadoria da versão que você quer que as pessoas se interessem. De você na internet, só que no cara a cara a vibe é outra, não é assim que funciona.
Jurandir Filho:E ele criou uma Summer imaginária, né? O Neymar hipotético, ele também criou a Summer hipotética.
Fernanda Schmölz:É a Summer hipotética, sim, ele merece.
Jurandir Filho:Porque ele trabalhava num escritório cheio de tiozinho que escrevia cartão de aniversário, então era aquela turminha meio travadinha, ela era descolada, é a Zoe de Chanel antes de ficar se metendo na comida dos outros, ou seja, Linda, maravilhosa, simpática.
Fernanda Schmölz:Crush, crush.
Jurandir Filho:Um gosto musical inacreditável.
Fernanda Schmölz:Gente, ela é muito manic pixie dream girl. Porque ela sempre é aquela menina que tem um tracinho excêntrico. Ela é uma criadora desse... Que parece que faz todos os caras quererem... "Ai, eu quero botar ela numa caixinha e adorar ela." Porque é tão divertidinha, tão esquisitinha.
Jurandir Filho:E ela dá aquela sensaçãozinha de... Ela não se importa com nada.
Rogério Montanare:Ai, é linda! Não se importa com nada.
Fernanda Schmölz:A Ramona Flowers também, tá? Tem outra, tem outra.
Jurandir Filho:A Ramona Flowers, é, cara.
Thiago Siqueira:A Natalie Portman, em Hora de Voltar, aquele filme do Zac Efron, também é das main girls originais. Porque nesse filme o Zac Efron, ele vive um cara que é um garçom, mas que é ator em Los Angeles. Que ele tá basicamente passando pela vida porque tá se entupindo de medicamentos passados pelo pai dele, que era psiquiatra, tá se entupindo de lítio. E basicamente a vida dele tá passando assim. Aí até que chega um momento que a mãe dele falece e ele tem que voltar para Nova Jersey. Ele dá com todas as merdas que aconteceram na vida dele e ele passa um tempo sem tomar o lítio dele, porque ele tava tomando doses cavalares de lítio para lidar com a culpa porque a mãe dele tinha ficado paraplégica por conta de um acidente envolvendo ele. Então ele tomava doses imensas de lítio e conhece essa moça que é uma... é tão bonitinha, tão fofinha, ela tão esquisitinha, que é a Natalie Portman, e se apaixona de maneira fulminante. O personagem da Natalie Portman nesse filme é uma manic pixie girl, é a das originais inclusive. Por quê? Porque ela tá nesse estado de permanente mania Ela tá nesse estado de ser exatamente aquilo que o cara precisa na vida dele naquele momento para tentar consertar a vida dele. E a gente vê exemplos disso percorrendo a cultura pop. Ramona Flowers é um exemplo disso, só que houve um cuidado com a Ramona de mostrar que ela mesmo tava tão ferrada quanto o Scott na vida, que ela não era uma resposta para o Scott, nem o Scott era uma resposta para ela. Os dois encontraram resposta para a vida juntos. A Clementine e o Joel Bilheteria de A Mãe Sem Lembranças é uma coisa, é uma, ela é uma Manic Pixie Girl, Dream Girl, porque, e o pior, é um sonho recorrente.
Rogério Montanare:Eu descobri, sei que é uma coisa recente, é engraçado que a gente já falou um bilhão de vezes sobre A Mãe Sem Lembranças, e aí você descobre coisas, né, do filme, né. Eu descobri que o Michel Gondry, ele contou para o Jim Carrey que o filme era um drama. Que o personagem do Joel tá com depressão e ele tem que se comportar desse jeito. E ele contou pra Kate Winslet que era uma comédia romântica e que ela tinha que ser efusivamente feliz e tudo mais, e que você ia chorar de vez em quando, mas você é uma personagem pra cima, né? E aí simplesmente você entende que é o filme exatamente, ele é construído exatamente desse jeito.
Fernanda Schmölz:Ele vai atrás de fazer a mesma coisa que ela fez. E ele se arrepende amargamente no meio do processo. "Como assim você resolveu simplesmente me apagar da sua mente?" Aí, na memória... Na memória... Nas memórias dele, né, que ele tá visitando quando são apagadas, ela vira e fala: "Você me conhece, eu sou impulsiva." Sou eu, sabe?
Thiago Siqueira:"E o pior que eles tão num ciclo, que eles fizeram aquilo dali, não...
Rogério Montanare:Aquilo não tinha sido a primeira vez que eles tavam fazendo aquilo, com certeza." Mas eu entendo perfeitamente o final de "Bria Eterna da Minha Sem Lembrança", que é... A pessoa consciente de que pode dar merda e que provavelmente vai dar ruim. Mas você quer—
Fernanda Schmölz:insistir.
Rogério Montanare:Ter a chance de tentar novamente, porque— não porque você acha que pode resolver. Mas porque estar distante é a morte para o Joel, entendeu?
Fernanda Schmölz:Amor não segura relação, gente. É muito difícil você ir embora quando você ama a pessoa, a pessoa te ama, mas vocês tão se destruindo. Porra, de partir o coração, de arrancar o coração do peito, uma merda isso.
Jurandir Filho:Então, mas olha só, eu acho que a partir do momento em que eles têm, por exemplo, aquelas fitas, e aí o que a gente não sabe é que no processo dela, e que possivelmente no processo dela ela também não quis, não queria esquecer o Joe, né?
Fernanda Schmölz:É bem possível.
Jurandir Filho:Essa loucura que a gente vê do Joe não querendo esquecer a Clementine, ele deve ter acontecido do mesmo jeito do lado dela. Mas eu acho que eles têm ali uma vantagem. Eles têm uma vantagem, que são aquelas fitas em que um tá falando do outro. Então eles já conhecem aquilo que fez o relacionamento deles não dar certo.
Rogério Montanare:Sim.
Jurandir Filho:Uma vez que você conhece os defeitos da pessoa, eles vão ter que ter um diálogo sobre isso, né? Eles estão ali naquele momento, tipo assim: "Olha, mas eu sou assim." E tudo bem.
Rogério Montanare:Todo mundo tem defeitos.
Jurandir Filho:Todo mundo tem, exatamente.
Rogério Montanare:Por que alguns relacionamentos dão certo, outros não? Porque a tolerância para esses defeitos é diferente para cada um.
Thiago Siqueira:Então, porque a merda da pessoa combina com a sua merda.
Rogério Montanare:Então uma pessoa, sei lá, ela ser bagunceira em casa e você tolera isso, ok. Para outras pessoas, a bagunça em casa é intolerável. Então é saber a medida disso, né?
Jurandir Filho:Sim. E às vezes é a medida de você entender o seguinte, cara, será que o amor que eu sinto por essa pessoa vai conseguir ultrapassar esse defeito, entendeu? Então eu acho que a Clementine e o Joel, eles têm uma chance, uma chance real. Pequena, pequena, sem dúvida, porque os problemas são grandes, mas eles têm uma chance real de, com o diálogo e entendendo agora o que um acha do outro sem parcimônia, porque eles, cara, eles têm uma fita, eles têm fitas com um falando do outro, tipo, da maneira mais Absurdo, né?
Thiago Siqueira:Mais crua, sem filtros.
Fernanda Schmölz:Mas, Rogério, tem uma coisa que eu acho que a gente não consegue mudar a nossa natureza.
Rogério Montanare:Não, e vou dizer uma coisa, a gente pode aprender, pode aprender, mas não é a mesma pessoa de 15 anos atrás, Fernando.
Fernanda Schmölz:A gente acha que a gente é, mas eu acho que eu continuaria não tolerando coisas que eu acabei tolerando.
Rogério Montanare:Existem coisas que são intoleráveis, sim.
Jurandir Filho:Não, não, tem coisas que são.
Thiago Siqueira:O ângulo do filme, a música, a própria música do filme, a música do Back Mas todo mundo um dia aprende.
Jurandir Filho:É, eu acho que é isso, cara.
Thiago Siqueira:Eu acho que é isso, coisa. Mesmo se, mesmo se eles não terminarem juntos, eles vão terminar do jeito certo.
Fernanda Schmölz:Porque uma coisa é fingir que nunca conheceu a outra pessoa, né?
Thiago Siqueira:Exatamente. Porque é isso que eu tava falando em relação ao Tom e a Summer. Eles são pessoas diferentes por terem passado por esse relacionamento. Com certeza a Summer que a gente vê que tá casada, que tá, que consegue ver um futuro com filhos, com uma família constituindo, papapá, aquela Summer não existiria sem ter passado conhecimento com o Tom.
Rogério Montanare:É, a gente é fruto das nossas experiências, né? Não tem jeito.
Thiago Siqueira:Exatamente do mesmo jeito o Joe e a Clementine, eles estavam presos num ciclo vicioso que eles estavam sempre voltando um pro outro, um pro outro, e os amigos, e os amigos do lado de fora tendo que lidar com essa merda toda.
Jurandir Filho:É porque convenhamos, é uma merda ser amigo desses dois, né?
Thiago Siqueira:É uma merda, porque os dois vão sempre, vão sempre se reencontrar, porque como eles não estão aprendendo com a própria história, eles estão repetindo o mesmo ciclo.
Rogério Montanare:Isso não é— a gente sempre coloca o Bridgerton, que ele é uma ficção científica, né, tudo por causa do— de você arrancar suas memórias, destruir as memórias, né, de algum momento específico. Esse tipo de história é muito natural, mas só que a gente vê são ex volta para histórias antigas, para relacionamentos que já aconteceram anteriormente, que talvez numa época ambos não estavam preparados para ter aquela relação, e aí alguns anos depois estão juntos. Mas existem os vícios, porque existem os comportamentos que aí você pode aprender, e a maturidade te traz ensinamentos, mas existem vícios que estão ali em você que você não consegue se desgarrar, a não ser que alguém aponte, que você descubra que você tem esse vício. Porque tem gente que comete erros e acha: nossa, não fiz nada de errado, eu tô aqui, né, eu sou, eu não fiz nada. É, exatamente. E aí a pessoa não vê que você tem comportamentos que não são muito bons para um relacionamento, e você não percebe. Então Eu sempre falo que a maturidade, ela é essencial para você conseguir construir uma boa relação. Mas para a gente chegar numa certa maturidade, a gente precisa ter experiência. E aí a gente vai se fuder muito no processo, sabe? Por isso que eu falo, falo brincando esse negócio de die, esse negócio de todo relacionamento vai acabar e não sei o quê. Porque até mesmo os relacionamentos que ainda existem, eles acabam no meio deles e continuam de outras formas, sabe? Eles começaram de um jeito E aí eles vão mudando e tudo, se transformando, né?
Jurandir Filho:É, eu queria colocar um filme que, por mais que as pessoas entendam que é sobre IA, mas não é, que é o Ella. O Ella é sobre uma pessoa que ultrapassa, ela chega num nível de maturidade que ela entende que aquele relacionamento não é para ela. Que é quando a inteligência artificial lá, na verdade o sistema, né, o Windows lá, ela não é um ChatGPT, né? Ela é Windows, na verdade, né? Quando ela entende que tipo o amor, só o amor que ela tem pelo cara lá, que eu não lembro o nome dele agora, não é suficiente. Não preenche ela suficientemente. E aí ela passa...
Fernanda Schmölz:Eu acho que nenhum amor de ninguém deveria ser o suficiente pra te preencher. Se você tá vivendo desse jeito, você tá vivendo errado. Você tem que procurar a sua vida independente de outra pessoa pro seu relacionamento dar certo.
Thiago Siqueira:É aquela coisa, eu não quero a metade de alguém, eu quero um inteiro que combine com o meu, sabe?
Jurandir Filho:É, porque o personagem do Joaquin Phoenix, ele é um... como é que é? Um dependente de amor? Um amor dependente? Ele é um dependente de relacionamento, né?
Rogério Montanare:Ele tem lá o relacionamento, né?
Jurandir Filho:É o carente, ele é totalmente preso no relacionamento anterior dele. Então ele fica na merda total quando a Ronemara não quer mais ficar com ele. É Ronemara. E aí ele não quer mais nada da vida, tá naquele desgaste, até que ele descobre a inteligência artificial. Ele passa a ter um relacionamento com ela e de novo fica preso 100% nesse relacionamento. Acha que encontrou a alma gêmea, porém essa pessoa artificial está procurando esse mesmo amor em várias outras pessoas sem que ele saiba.
Thiago Siqueira:Isso?
Fernanda Schmölz:Uhum.
Jurandir Filho:Até o momento em que ela entende que: "Cara, isso aqui é muito bacana, é muito bonito, o que eu estou tendo com..." Não é com uma pessoa só, né? "Com todas essas pessoas, mas eu mereço mais." E aí ela vai aonde ninguém mais vai, que é, tipo, ela vai embora Porque ela transcendeu, ela transcendeu, e ela entendeu que aquilo ali não é para ela. E tem muita gente que às vezes, levando isso, trazendo isso para vida real, né, obviamente que ali é uma ficção científica, mas trazendo para vida real, tem muita gente que um dos cônjuges fica parado no tempo, acha que, ah, beleza, que tá bom e tal, e tem outro, e o outro cônjuge, né, o Pato, o outro cônjuge ele tá evoluindo às vezes no estudo, às vezes emocionalmente, às vezes no trabalho, futuros, nos projetos. Exatamente, pensando nas coisas que ainda tá, quer fazer, enquanto a outra pessoa tá totalmente parada, ela tá estagnada.
Fernanda Schmölz:E essa pessoa que tá estagnada, ela acha que isso é o suficiente hoje, vai ser o suficiente amanhã, mas não necessariamente.
Jurandir Filho:Que para mim tá ótimo, ai, tô aqui de boa com esse, com essa inteligência artificialzinha aqui da hora. Só que botando na vida real, se de repente, ah, tô aqui com essa namorada, amo essa namorada aqui e tal, mas não quer evoluir, não quer dar um segundo passo, e a outra pessoa tá evoluindo.
Rogério Montanare:Se você falar que não há o contato físico também, né? E eu sei que sentimento ele pode não ter a ver com contato físico, porque muitas pessoas se relacionam pela internet, à distância e tudo mais. É, mas é uma parte importante, né, essa do contato físico. É uma coisa que a gente podia mais ter, né?
Jurandir Filho:Ela tenta fazer isso com ele e ele não curte muito, quer dizer, ele não quer evoluir de jeito nenhum, cara. Ele quer aquilo, ele quer aquele quadradinho ali que ele criou, ele quer o confortável, Rogério, ele quer o confortável.
Rogério Montanare:Eu fico pensando, sabe o quê, ó, quando a gente falou ali de 500 dias com ela e aí a Summer vai casar com aquele, esse outro carinha que ela conheceu há pouco tempo, E aí simplesmente eles vão casar, e aí na véspera do casamento deles decidem fazer uma brincadeira com um casal de amigos de contar uma coisa que eles fizeram, que eles têm muita vergonha, e eu— que é uma coisa absurda, que é o plot do drama, né, o filme da Zendaya, do Robert Pattinson, né.
Fernanda Schmölz:Gente, é a pior coisa que você já fez na sua vida.
Rogério Montanare:Não vamos— a gente não vai aprofundar no filme porque a gente já fez isso no nosso Sala VIP número 98 aí, né. Tá muito bom o podcast, patreon.com.br. É, mas esse dilema de você estar numa relação com uma pessoa, e digo, né, na certeza das minhas experiências, você não conhece 100% da pessoa, não tem como você conhecer.
Fernanda Schmölz:Às vezes nem a própria pessoa se conhece 100%. Você acha que vai conhecer?
Rogério Montanare:A gente conhece o que a pessoa quer apresentar para a gente, né?
Fernanda Schmölz:Sim.
Rogério Montanare:Se ela não se sente confortável, ela não fala tudo que já passou na vida dela.
Jurandir Filho:Não é à toa que falam que só vai conhecer uma pessoa de verdade quando você morar com ela, né? É, porque, cara, quando você tá namorando ou noivo, seja lá o que for, a pessoa sempre vai estar no seu melhor.
Thiago Siqueira:Você consegue projetar aquele avatar de perfeição.
Rogério Montanare:Ainda mais no começo ali, né, Alger? Aqueles 2, 3 meses ali.
Jurandir Filho:Você vai estar lá, pô, tu vai encontrar namorada ou namorado, ele vai estar bem vestido, cheiroso, Passou ali aquele, né, o melhor perfume, a bolsa ali, a Victoria's Secret, aquele cheiro de baunilha, tá com aquela, passou um Oui Pink.
Rogério Montanare:Quando tu cai, isso, passou o perfume de pepeca da Anitta.
Fernanda Schmölz:Você não vai ver a pessoa necessariamente assim no início, no pior dia dela, você não vai ver ela com a camiseta furada, com a calcinha velha, Isso é só depois de um tempo, no início não tem nada disso.
Jurandir Filho:Então, e aí é quando você vai, aí por mais que você tenha uma relação que você tenha muita intimidade, então você dorme na casa do namorado, namorado dorme na casa da namorada, ainda vai ter aquele negócio do acordou cedo, corre lá para o banheiro escovar os dentes. Ah, bom dia! Dá o beijinho, já tá com cheirinho ainda já de pasta de dente. Agora quando casa, aí é peido na tua cara.
Fernanda Schmölz:Ai, que horror!
Rogério Montanare:É banheiro de porta aberta, fingindo que vai escovar escovar os dentes, mas ela só vai no banheiro e pega a pasta e bota na língua assim, ó, só pra ficar com gosto de pasta de dente na boca.
Fernanda Schmölz:Não, gente, escova os dentes, pelo amor de Deus.
Jurandir Filho:Cueca furada, entendeu?
Rogério Montanare:É no meio da noite, do nada tem um peido sujo do nada assim, é... Você olha assim, que isso, gente?
Jurandir Filho:Que aconteceu? É franha babada.
Thiago Siqueira:O Jurandir falando agora do peido, sabe como que lembrou? Gênio do Marvel. Aquele discurso do Robbie Williams. Sobre a esposa dele, de que era um lado que só ele conhecia. O fato dela ser meio boba às vezes, soltar uns peidos que os dois riam dos peidos dela quando acontecia isso, sabe? E é isso, a questão é justamente essa. A questão de um relacionamento saudável é quando você consegue se apaixonar não só pela imagem de perfeição que a pessoa tá projetando no namoro, essa também se apaixonar pela pessoa que ela é na intimidade, de quem ela é de verdade, de quando ela tá— ela— você tem uma pessoa com quem você consegue baixar suas defesas e a outra pessoa também consegue baixar as defesas dela. Que a gente já pensou, a coisa mais cansativa do mundo é tentar projetar uma aura de perfeição o tempo todo.
Rogério Montanare:É cansativo.
Fernanda Schmölz:Tanto que a gente tem aí um filme que não é exatamente um filme de amor, mas é um filme que fala de relacionamento, que é o Gone Girl. Como é que é o nome dele em português mesmo?
Thiago Siqueira:Ai, não sei falar português.
Fernanda Schmölz:Garota exemplar, garota exemplar.
Thiago Siqueira:Não sei falar português.
Fernanda Schmölz:Eu não sei, já porque eu vejo...
Jurandir Filho:É que eu já penso em inglês.
Fernanda Schmölz:Ai, ai, ai, desculpa, eu já penso em inglês.
Jurandir Filho:É Luciana Gimenez, só pensa em inglês já.
Fernanda Schmölz:Não, mas enfim, no Garota Exemplar, que aí você vê ela falando o negócio da garota descolada, né, da cool girl, que é isso. Ela fala assim: "Ah, eu quis fingir que eu era a mulher que ele queria, que é a mulher que é descolada." que ri do filme do Adam Sandler e come pizza gelada no café da manhã, mas eu nunca engordei. Porque quando ele não tava olhando, tava fechando a boca, fazendo assim, sabe? Essa coisa de você querer parecer muito legal, parecer: "Ai, quer dar galera." Isso é a famosa "pick-me girl", tá? A "cool girl" é nada mais do que a famosa "pick-me girl".
Rogério Montanare:Tem um filme que ele é muito bonito e você vê assim: "Esses daí vão ficar juntos pra sempre", né? Que é o La La Land. O La La Land, ele tem uma virada histórica.
Fernanda Schmölz:Ai, não me lembro desse filme, não.
Rogério Montanare:Quelas viradas mais tristes assim, porque tudo caminhava para dar certo até você perceber que ambos queriam coisas bem diferentes assim, que necessitavam da independência deles.
Fernanda Schmölz:Como dizem os jovens, eles não eram endgame.
Rogério Montanare:Exatamente, é exatamente isso, eles não eram endgame. E é um dos momentos mais tristes porque você vê que ambos conseguem seguir a vida e conquistar as coisas que queriam. Mas pra gente que tá assistindo é uma desgraça, porque a gente fica triste.
Jurandir Filho:Então, sabe o que é pior? É que assim, eles não tinham diferenças irreconciliáveis, não tinha, não tinha, não. Eles se gostavam, tinha muito amor envolvido ali, verdade. Só não teve o quê?
Rogério Montanare:Timing.
Jurandir Filho:Só faltou timing.
Fernanda Schmölz:Que merda, hein, cara.
Jurandir Filho:Igual o casal que a gente tava falando da Botas Batidas, só faltou a porra do timing.
Rogério Montanare:Vocês tinham que estar alinhados, né? Alinhados de alguma forma, né?
Jurandir Filho:Não tinha como, cara.
Fernanda Schmölz:O cara era da Portugal, sonhos.
Rogério Montanare:E aí o que é que pode acontecer nesses, quando acontece isso, né? Quando você vê duas pessoas que têm ideias diferentes sobre os rumos das vidas deles, e aí uma pessoa abdica. Isso acontece bastante, né? Normalmente isso acontece, infelizmente, com as mulheres, né? As mulheres abdicarem das suas de seus sonhos. Eu falo isso, minha mãe sempre fala. Minha mãe, ela disse assim que se ela tivesse oportunidade de escolher, ela tinha escolhido a carreira dela e a vida dela e não ter filhos e tudo mais. Mas isso, e aí eu converso com minha mãe muito abertamente sobre esses assuntos, né? E ela fala assim, não é porque eu não amo meus filhos e tudo mais, não. Minha mãe passou pela experiência de perder o filho mais velho, né? E ela percebeu que ela perdeu e ela continuou aqui. Quando vem a morte As pessoas partem, é uma coisa natural da nossa vida, a gente vai perder as pessoas, mas as outras pessoas vão ficar. E aí, como é que vira sua vida se a sua vida é em função de filhos, é em função de relacionamento e tudo mais? Quando você perde, o que é que sobra para você? Por isso que é muito importante focar em você, né? Você conseguir as suas coisas para quando existir a possibilidade de sei lá, a inevitabilidade, né, que é de perder, você não ficar sem nada, você não ficar à mercê de tudo. E eu falo até a dependência certa emocional, sabe? Então é muito curioso ela falar isso, de que ela abdicou muito da vida dela, ela viveu a vida dela. Minha mãe já tem 74 anos, é uma pessoa bem lúcida com a história dela, com a vivência dela, mas ela teria tomado outras decisões sabe, na vida dela. Mas ela é filha de uma época, né, dos anos 60 ali, 50, 60, que—
Jurandir Filho:mas eu acho que muita gente ainda faz isso, né? Às vezes não necessariamente porque alguém obriga, como foi nesse caso, por exemplo. Com certeza seu pai falou assim: não, você não vai trabalhar. Que nem meu pai falou para minha mãe: não vai trabalhar, vai ficar com as crianças aí, sei lá. E— mas hoje em dia tem gente que não necessariamente precisa ouvir isso Mas que abdica propositalmente pensando que: "Ah, beleza, cheguei aqui no meu... no ápice da minha vida, que é este relacionamento", sabe? Que entende que o relacionamento é o ápice da vida. Tem muita gente que vive assim, de fato. E aí abdica de todo o restante.
Fernanda Schmölz:É importante a gente falar um pouco sobre isso, porque, mais uma vez, a gente sabe que não são todos os casos, mas a maioria esmagadora são de mulheres, né? E o que eu mais vejo é, no meio dessa onda de tradwives que tem rolado aí pela internet, das mulheres falando pra você ficar em casa fazendo pão do zero, É, tem uma parte que ninguém fala, que é: tenha seu dinheiro para você poder ir embora se você quiser. Esse é o negócio, entendeu? Tipo, ah, você não quer ter um trabalho CLT? Arruma um hobby, vai ver, vai fazer doce, vai, sabe? Guarda um dinheiro, porque no início todo mundo é legal, no início todo mundo é legal, mas quanto mais dependente você fica de uma outra pessoa, isso vale para todo mundo, tá, gente, mais merda você tem que tolerar. E aí, quando a pessoa fica confortável... A outra pessoa fica confortável no fato de que você não pode simplesmente falar: "Ah, quer saber? Foda-se você." Aí, a pessoa vai abusar de você.
Rogério Montanare:A relação de poder é muito comum, né, Fernanda?
Fernanda Schmölz:Sim, é uma disparidade muito grande. É... E relacionamentos assim... Eu acho que o estágio que o capitalismo chegou, de a gente trabalha pra cacete, tem muita responsabilidade e o dinheiro não dá como dava pra geração dos nossos pais. Dinheiro não dá. Surgiu essa ideia de: "Ai, eu queria só ficar em casa, cuidar das crianças, fazer não sei o quê. Ai, queria tanto ser dona de casa, queria tanto..." Sabe? É meio que uma fuga do desespero que o capitalismo jogou todo mundo. Só que o que mais tem acontecido, que ninguém fala, é que a geração das nossas mães, das nossas avós, elas comiam um pouco de abamaçô muitas vezes e ficavam caladas, porque elas não podiam sair. Entendeu? Então assim, se você quer ficar em casa, bacana. Mas estude, tenha sempre algo que te permita você criar uma vida nova pra você. Se essa pessoa um dia simplesmente acordar e decidir que não quer mais ficar contigo.
Rogério Montanare:Se o marido obrigar você a não trabalhar.
Fernanda Schmölz:"Não, você não vai trabalhar." "Case..." "Ele tem que te pagar um salário." "Case com divisão total de bens." "Comunhão universal de bens." Exato, porque aí depois essa mesma galera... Quer esconder patrimônio, quer botar no nome de irmão, de irmã. Tem muita gente mau caráter que faz isso, tá? Muita gente mau caráter que faz isso. E aí fica depois querendo pagar R$300 de pensão pras crianças enquanto tá aí vivendo a vida no bem bom. Eu não sei como as pessoas conseguem fazer isso, mas aparentemente muitas conseguem e estão de boa com isso. Então assim, nunca abra mão, enfim. Não digo nem só em questão de ficar em casa ou trabalhar ou nada do gênero, mas assim, nunca fique dependente emocionalmente de outra pessoa para você ser feliz, mano. Não tem nada mais legal do que você ter seus amigos, você ter o seu dia de sair com seus amigos, o dia de, sabe, vai ver o seu futebol, vai não sei o que com as amigas, vai tomar, vai fazer um brunch, sabe, no sábado com as suas amigas, você ter tempo com a sua família, tempo com seus amigos, tempo sozinho, gente, coisa boa. Você sai Lá vai o Jurandir, pelo amor de Deus, cara. Lá vai o Jurandir. É cabaré só se for acordado entre o casal, aí vocês vão pro cabaré. Mas assim, se não for, né, fica na sua. Mas assim, estudar, ler, encontrar coisas que você gosta. Gente, ter hobby é uma coisa tão importante. Que eu, quando era muito nova...
Rogério Montanare:Até o Bachmann tem um.
Fernanda Schmölz:Exatamente, eu era extremamente ansiosa e eu não tinha hobbies. E aí era muito fácil pra mim me apegar à ideia de: "Ai, um relacionamento pra..." Sabe? Pra eu me sentir, ai, nossa, tô fazendo um negócio legal aqui pro coração acelerar. Gente, quando eu descobrir que você pode ter hobbies que vão fazer o seu coração acelerar e você não precisa depositar toda sua esperança em uma outra pessoa que não tem culpa das expectativas que você jogou nela, aí tua vida vai pra frente, tá? É isso aí que eu tenho pra dizer.
Jurandir Filho:Eu acho que tem um lado aqui dos relacionamentos que a gente acabou não tocando ainda, que é muito importante, que é o relacionamento que não rola, ou que às vezes rola escondido por conta do preconceito.
Rogério Montanare:Isso acontece esse ano de 2026.
Jurandir Filho:A gente tem um filme que a gente não viu ainda na gravação desse podcast, mas que é um dos filmes de terror mais celebrados de 2026, chama Leviticus, que é sobre isso, sobre um casal LGBTQIA+. A gente viu o trailer desse, é verdade, por enquanto, mas ele Cara, ele tá assustador. Ele tá com o MBD lá pra cima. O Rotten Tomatoes dele tá 9,9, sei lá, não sei o quê. Que é um terror de dois garotos lá que vão ter que enfrentar a cura gay. E que eles não podem chegar perto porque uma entidade, sei lá, alguma coisa que a gente ainda não sabe, acaba destruindo. Mas é claro que isso aqui é o limite da coisa. Mas a gente tem vários filmes que falam sobre isso, né? O Me Chame Pelo Seu Nome, que é o filme sobre o relacionamento impossível, né? E que principalmente a gente vai ter uma visão dele muito mais clara lá naquela conversa. O Châtelet tem com o pai dele lá, e o pai dele fala: "Cara, é isso aí, cara. Eu tive que viver minha vida inteira sem viver o que eu queria viver de verdade, né?" Que é aquela coisa do seguinte: você tem que viver de acordo com o que a sociedade...
Fernanda Schmölz:Você tem que performar.
Jurandir Filho:Te permite, né?
Thiago Siqueira:Então, por exemplo, muito isso, essa discussão também tá presente em A Adoráveis Mulheres, que cada uma das irmãs tem uma expectativa diferente do que a vida quer trazer para elas. É muito bizarro isso, porque você pega alguns romances que foram escritos século 18, começo do século 19, e até hoje eles se mantêm muito atuais por conta disso, é porque lidam com uma coisa que a sociedade ainda tem, especialmente em relação às mulheres. Expectativa de papel social. A expectativa do papel social é aquele: você não pode quebrar. Você quebrar a norma, você tá indo contra o que a sociedade espera de vocês.
Fernanda Schmölz:Ninguém fala nada de gente abusiva, gente violenta, né? Mas meu Deus, se uma mulher abrir a boca e falar assim: pô, não quero ter filho não.
Thiago Siqueira:Margot está em apuros, que é uma série da treta acontecer.
Fernanda Schmölz:Gente, eu tô doida para ver essa série, doida.
Thiago Siqueira:Margot está em apuros, que é uma série da Apple TV Plus. Ela lida com o quê? Com uma jovem chamada Margot, que vem de um lar totalmente desestruturado, mas que tem uma vida que parece maravilhosa pela frente. Ela é uma ótima aluna, tem extremamente promissora, promissora, promising young woman. E até que chega um professor que começa a ter um caso com ela, só que ele não conta para ela que ele é casado e que tem filhos. Ela engravida e o cara resolve não 'Você tem que tirar, né, tirar, tem que acabar com a gravidez.' E ela diz: 'Não, vou manter, eu vou manter.' Como a sociedade espera que a mulher venha a ter um marido, que, gente, para uma mãe solteira conseguir colocação no mercado é dificílimo. Eu sou filho de uma mãe que conseguiu isso com muito sangue, com muita batalha. Minha mãe, ela conseguiu subir na ladeira corporativa mesmo sendo mãe solteira, se segurando, tendo que cuidar sozinha de um filho, graças a Deus tendo uma rede de apoio, graças a Deus uma rede de apoio. Mas para ela foi dificílimo. Inclusive, ela teve que enfrentar preconceitos por ser mãe solteira nos anos 80, tá? Eu assistindo Margot, me dá ódio. Por quê? Porque a Margot, ela não tem uma rede de apoio, e ela vai fazer o quê? Vai procurar, vai tentar tirar sustento para ela e para o filho do único lugar que ela consegue, OnlyFans. E repito, a sociedade tem menos asco, a sociedade considera mais normal o cara que abandona uma A Luna com quem ele teve um caso e teve um filho. Ela olha esse cara com menos aço que olha pra uma mulher que tava fazendo OnlyFans pra se sustentar e sustentar o filho.
Fernanda Schmölz:Ah, sim, mas essa é a hipocrisia da sociedade. É só mais uma terça-feira mesmo, ah.
Rogério Montanare:Tem um filme que a gente já fez um podcast à la VIP, a edição 71, sobre Juntos, né. Que é um filme que, se você não passou por algo semelhante, você conhece alguém que tá passando ou que passou, né.
Fernanda Schmölz:Vocês caíram numa caverna e aí, de repente, seus corpos vão se fundindo. Exatamente.
Rogério Montanare:Quem nunca passou por um tipo de relação que trouxe um pouco desses sentimentos, né, do Juntos, né, que é um casal que tá vivendo uma crise, é percebido que uma das partes tá extremamente— ele não consegue sair dessa relação porque ele tá totalmente dependente emocionalmente e fisicamente da outra pessoa, né. Então o filme, ele tenta, ele extrapola para mostrar, né, da forma mais clara possível como é que funciona uma codependência emocional e física, né, por alguém. É muito louco porque você acaba nem percebendo isso direito até chegar no extremo, até chegar no extremo. Parece que algumas pessoas precisam do extremo para perceber que estão num relacionamento horrível, né, que é só danoso para vida de ambos. E o mais curioso ainda é que pouca gente consegue sair desses relacionamentos. Eles permanecem. Tem muitos casais que estão juntos, tem um relacionamento de bosta, mas é isso, é o meu bosta, sabe?
Jurandir Filho:É o meu bosta, meu relacionamento bosta.
Rogério Montanare:Não é dos outros, é meu, sabe?
Jurandir Filho:Esse é só meu, essa bosta.
Fernanda Schmölz:É foda isso, né? Isso aqui é uma merda, sim, mas é a minha merda e eu vou defendê-la, né?
Rogério Montanare:Que você fica construindo Você, tudo que você pensa é sobre a pessoa que tá se relacionando com você. Ah, eu fui no shopping, nossa, fulano ficaria perfeito com essa roupa. Ah, esse filme, nossa, eu devia estar aqui com essa pessoa. Ai, pior é conviver com uma pessoa, será que eu compro dois para levar para pessoa e deixa lá na casa dela? Ai, será que eu vou?
Fernanda Schmölz:Eu tenho vontade de me jogar quando eu tô com alguém assim, tipo uma amiga assim, ela não para de falar do namorado meia bomba dela. Eu tenho vontade de me tacar pela escada rolante assim, tipo Eu já fui essa pessoa péssima também, que tipo assim, caraca, a única coisa que eu tenho na minha vida é esse namorado meio chimfrim aqui, fazer o quê, sabe?
Rogério Montanare:Que aí as pessoas quando viam a Fernanda falando, a galera... A Fernanda, meu Deus!
Fernanda Schmölz:Exatamente, exatamente!
Rogério Montanare:Meu Deus, como ele é perfeito, não sei o quê, todo mundo assim, ó...
Fernanda Schmölz:Aí tu vai olhar, é aquele meme do... Aquele meme que falam que é o Châtelet e a Kylie Jenner, que é o menino com cara de rato do Por Água Abaixo e a Bratz, boneca Bratz.
Rogério Montanare:Sabe o que me deixa puto? É que nesse tipo de relacionamentos acontece com muita frequência, quando tem uma primeira crise e beira o término ou acaba, aí os amigos ao redor: eu sempre achei que não, essa pessoa não prestava.
Fernanda Schmölz:Aí depois você volta e seus amigos ficam só um emoji do palhaço.
Rogério Montanare:Falou isso para mim uma vez, Rogério chegou assim: juro, eu segurei muitas coisas para não, né?
Jurandir Filho:Claro, porque é muito ruim, né?
Thiago Siqueira:Porque se você fala uma coisa você é condenado.
Jurandir Filho:Se você não fala, você é condenado. Você tem que saber o quê e como falar, porque senão, cara, os caras voltam e tu se fode.
Rogério Montanare:Sim, verdade.
Fernanda Schmölz:Eu acho que uma boa forma de você querer falar é você falar sempre no hipotético e botar tipo assim: ah, você não acha que essa pessoa meio que sugava toda sua energia, pegava tudo de bom que você tinha e amassava e jogava na lata do lixo? Esse é o supostamente 'Esse é o supostamente, entendeu? É o supostamente.' Nesse caso, tipo assim, você não acha?
Rogério Montanare:Você vai discutir com a pessoa depois e fala assim: 'Inclusive, eu tava conversando com Rogério, o Rogério disse isso, isso e isso de ti.' Caralho, que ódio! E aí vocês decidem ficar juntos novamente, acabou amizade, acabou.
Jurandir Filho:Já era, não tem mais como.
Fernanda Schmölz:"Não tem mais como, já era." Esse relacionamento de merda que vai acabar de novo daqui a 3 meses, acabou com a sua amizade.
Jurandir Filho:O pior é que você tem que conviver com isso, cara, depois. Porque às vezes é necessário que você chegue pra um amigo, pra uma amiga sua e fale a verdade, mesmo que isso vai te custar no futuro. Porque aí, se no futuro essa pessoa virar as costas pra ti, você não vai ficar É, com uma sensação de que você não fez nada, você tentou, entendeu? Só que claro, às vezes você pode estar errado, né? Tem um, tem uma história minha, por exemplo, de um primo meu, que ele começou a se relacionar com uma garota e não sei o quê, e minha tia não gostava da garota, meu tio também não gostava, não sei o quê. E aí eles decidiram que eles iam morar fora de São Paulo, e aí meu tio tava desesperado, minha tia desesperada, não sei o quê, e eu resolvi intervir. Conversar com ele. Chamei lá, foi um dia lá, pá, cara, entra aqui no carro, vamos conversar. E aí ela falou assim: eu vou junto. E aí a gente: não, queria conversar com ele. Aí ele falou: não, se você vai conversar comigo, você vai conversar com ela junto. Aí botou os dois, aí entrou no carro. Isso muito, meu Deus, só que aí eu não me fiz de rogado, você falou, ela na frente dela, justo, justo, é isso. Estão casados faz uns 20 e poucos anos já.
Fernanda Schmölz:É, tu perdeu um amigo, né? Perdeu um amigo.
Jurandir Filho:Não perdi porque eu acho que eu fui muito— mas assim, eu me arrependo muito de ter feito isso, porque no fim ela era a pessoa certa para ele, cara.
Fernanda Schmölz:É, vai saber, né?
Jurandir Filho:Mas o relacionamento deles é extremamente sólido, é saudável e tudo mais. E eu me— eu me— assim, não me fudi porque eu acho que eu fui muito educado, muito educado, muito sincero e E eu acho que porque eu tava com os dois, eu falei, eu acho que essa ideia de ter falado com os dois acabou sendo positiva.
Fernanda Schmölz:Você teve que medir suas palavras.
Thiago Siqueira:Tem um termo para isso que é meio misógino, que é o fatoyoku. Quando você tem dentro da família, dentro de grupo de amigos, chega um namorado ou namorada novo, nova, para, e acaba sendo um elemento que causa uma certa desestabilização num grupo que já tava consolidado. Novamente, pode ser um grupo de amigos, pode ser uma família, etc. Sempre tem essa situação de quem vai falar.
Jurandir Filho:Mas olha só, olha só, Cicas, você deu um exemplo perfeito. A gente tem a mania de falar que a Yoko é um pé no saco, acabou com os Beatles, não sei o quê. Tu vê os documentários dos Beatles, eles já não se gostavam, eles já tinham um monte de treta entre si.
Fernanda Schmölz:O que ela, tipo assim, a chegada dela foi provavelmente só o limão lá do filme.
Thiago Siqueira:Exato, foi estopim.
Jurandir Filho:E outra coisa, o John Lennon, quando ele morre lá em 1980, ele estava extremamente feliz com o relacionamento dele com a Yoko. Então assim, quem é o errado da história?
Thiago Siqueira:Entendeu?
Rogério Montanare:Esses Beatles, Paul McCartney invejoso.
Thiago Siqueira:Vamos esperar os 4 filmes, né, Júlio, para falar.
Rogério Montanare:O Paul McCartney tá cantando até hoje porque tá vivo. Porque quer o líder dos Beatles é o John Lennon.
Thiago Siqueira:Olha, Beatle maníaco, jure de filha, arroba cinema com rapadura.
Jurandir Filho:E tu sabe que o John Lennon, ele depois mesmo de ele ter ficado com a Yoko e tal, ele traiu a Yoko e ela perdoou o John Lennon.
Rogério Montanare:Para vocês verem, gente, para vocês verem, Imagine All The People, essa galera do Imagine All The People, In My Bed, né, que ele tava cantando. Ah, que é feliz! Imaginão! Cantou Imagine All The People, você já começa a dar um asterisco, fazendo um asterisco assim, ó. Vou dar dicas aí para as pessoas tristes, tá? Bandas tristes, elas são ao mesmo tempo tristes e ao mesmo tempo sexys, assim, sabe?
Fernanda Schmölz:Elas têm... Ah, tem isso, Muse. Muse.
Rogério Montanare:Eles tão... Muse, The Weeknd, eles são meio assim, ó, meio, ó... É um triste, mas, né? Vamo transar, ó.
Thiago Siqueira:Grande triste, mas pessoas inteligentes.
Fernanda Schmölz:É a Pabllo Vittar, cara. É triste com tesão.
Rogério Montanare:Panic! at the Disco, DXX, Cigarettes After Sex, Post-Head, a Billie Eilish, Radiohead, Daisy Smith, Maze Star, conhece a Maze Star? A mãe da Lana Del Rey. Lana Del Rey é outra. Inclusive, inclusive, o próprio Los Hermanos aqui no BR, que tem a perfeição de um relacionamento. Primeiro álbum, Los Hermanos, ai, tô triste, acabou o relacionamento, tô com azedume no meu peito e tudo mais. Chega o bloco, deu sozinho, segundo disco, que é assim, estou saindo não é daquele momento difícil e tudo, mas ainda tô amargurado, mas tô pronto para começar alguma coisa. Ventura, estou apaixonado, né? Estou no meu auge.
Fernanda Schmölz:E até quem me vê, exatamente, jornal, na fila do pão, sabe que eu tinha muito bom, Caetano.
Rogério Montanare:Aqueles 3 meses apaixonantes, não consigo viver sem essa pessoa e tudo mais. Aí chega o álbum 4 e último, derradeiro do Los Hermanos, que o começo é de venta em popa, né? Tem um vento, tem um barco emocionante, e da metade para frente é a depressão pura e termina com a tristeza.
Jurandir Filho:O disco que o Jurandir, né, é o único que tem.
Rogério Montanare:Porra, ele acaba e aí você volta para o primeiro álbum novamente com mais de domínio no peito e vai.
Fernanda Schmölz:Sabe um outro que eu recomendo que é bom demais? Money Skin, tá?
Rogério Montanare:Manesquinha do caralho, mas é muito para cima. Eles são— ele é o P.O. Box, cara, é só ter essa música.
Jurandir Filho:A gente esqueceu de falar, papo de jacaré, cara, a gente esqueceu de falar o principal.
Thiago Siqueira:Você lembra qual é o padrão?
Fernanda Schmölz:É o Vini, é o Vini, Mexe a Cadeira.
Rogério Montanare:Mexe a Cadeira, cara, falei a zero.
Jurandir Filho:A gente esqueceu de falar o principal aqui que combina com essa tristeza do Júnior de Filho, que é o amor. É o amor que deveria ser, o amor de Vidas Passadas.
Fernanda Schmölz:Nossa, Vidas Passadas é um... Vidas Passadas, ele arrancou meu coração.
Rogério Montanare:Eu não acho que ele é triste não.
Fernanda Schmölz:Deu um tiro e depois pisou em cima.
Rogério Montanare:Se você vilaniza o marido, você é louco, porque o filme acontece durante o filme. Durante o filme acontece. As pessoas querem que eles fiquem juntos. Na vida real todo mundo é assim, é contra traição, mas no filme pode rolar isso aí. Eu quero que eles fiquem juntos, foda-se o marido.
Fernanda Schmölz:Não, então por isso que a gente não deve trazer os exemplos, nem os bons nem os ruins, dos filmes para os nossos relacionamentos. Porque se relacionamento de ficção fosse bom, não teria filme, não teria série. Se fosse saudável e todo mundo fosse feliz, não teria, não teria.
Jurandir Filho:Se fosse um filme normal, entre aspas, convencional, o marido seria o vilão, tá?
Fernanda Schmölz:Aconteceria isso.
Jurandir Filho:Mas o filme deixa claríssimo que o marido é o vilão. Inclusive ele fala Ele fala: pô, nesse momento agora eu sou vilão porque eu sou um entrave para o relacionamento de vocês.
Rogério Montanare:É maduro, é maduro.
Jurandir Filho:Mas ele não é o vilão de jeito nenhum, cara. Mas o negócio do amor que poderia ser, ele é o mais difícil, cara.
Fernanda Schmölz:Não tem como superar o amor que poderia ter sido e nunca foi, porque você não pode comparar a sua projeção com a realidade. Exatamente.
Rogério Montanare:Ele mesmo fala: ele fala o teu idioma, ele conhece as tuas origens. 'Ele sabe tudo isso e eu jamais vou conseguir me equiparar a essa pessoa', sabe?
Jurandir Filho:Mesmo assim ela escolhe ele. Mesmo assim ela escolhe o marido.
Rogério Montanare:Porque ela é muito foda, a Magreta Lee, caralho. Ela é foda, cara.
Jurandir Filho:Ela é foda mesmo. Mas esse amor aí, eu acho que o próprio amor do La La Land é um pouco do amor que poderia ser. Porque assim, eles têm um amor bacana ali enquanto eles vivem juntos, mas eles têm algumas tretas. Agora, aquele amor que a gente enxerga na música final lá, naquele amor que poderia ter sido, sim, ele é um amor filosófico também, porque poderia não ter acontecido daquela forma.
Rogério Montanare:É verdade, tem uns amores hipotéticos, né, que é tipo do Antes de Amanhecer, que a gente fez um Rapadura Cast sala-viva também, número 84, que é maravilhoso, que é o amor efervescente, né, é o amor do caraca, conhecer essa pessoa, nossa, essa pessoa tá com comida tanto comigo, quero passar horas conversando com ela. E aí que, né, a gente tem uma trilogia aí que demonstra que o tempo, ele é senhor da razão e cruel, né? Porque o que você espera que vai acontecer não acontece, quase nunca acontece.
Fernanda Schmölz:Spoiler!
Thiago Siqueira:É isso, acontece, não acontece exatamente da maneira que você esperava.
Rogério Montanare:Por isso que o futuro de todo mundo é a foto clássica, tiozinho no bar, cigarrinho, bebidinha, cara tocando de fundo. Essa é a foto clássica de todo mundo.
Fernanda Schmölz:Certanejo de término, no fundo.
Rogério Montanare:Mas sabe o que é curioso? Uma coisa que a gente aprende é que a vida sempre segue. A vida sempre segue. É possível ficar bem, é possível você reconstruir depois de um término de relacionamento, e você consegue, sei lá, se melhorar e entender que não vale a pena a sua sanidade você doar a sua sanidade para alguém.
Fernanda Schmölz:Você se desfazer de si próprio em nome de outro.
Rogério Montanare:É porque é muito comum a gente fazer isso, evitar brigas. Não, vamos brigar não. 'Não, melhor a gente ficar.' Aí não resolve coisas, aí dorme com um monte de pendências, aí não se fala, não se comunica.
Fernanda Schmölz:E você, sabia que esse foi o conselho que meu avô deu para minha mãe antes dela se casar? Ele falou: 'Nunca vá dormir sem ter resolvido o problema.' Teu avô é o Papa?
Rogério Montanare:Porque foi o Papa que falou isso.
Fernanda Schmölz:Ele falou isso também?
Rogério Montanare:É, recentemente.
Fernanda Schmölz:É um monte da geração deles então.
Rogério Montanare:Papa Francisco.
Jurandir Filho:Não, isso é um papo que sempre existiu. Meu pai também falava isso, meu pai também falou isso para mim. Só que é engraçado porque o relacionamento da mãe da Fernanda foi para o saco, a do meu pai também foi para o saco. Mas também, porque, mas a dica, mas isso, mas isso é, isso para mim funciona muito bem. Não dormir não é o suficiente, dormir, aliás, dormir não, não é o suficiente, mas dormir com pendências é muito ruim, porque no dia seguinte dificilmente você vai resolver essa pendência, ela vai acabar passando por dentro, vai ser filtrada, e ela vai virar ali uma pequena, cara, é um grãozinho de areia que vai indo, indo, indo, e Aí um dia a pessoa esquece de comprar o limão que você pediu e aí já tá junto. Aí fudeu.
Rogério Montanare:E se a pessoa tá entorpecida, tipo, tomou uns gorozinho e tudo mais, e aí vai querer discutir?
Fernanda Schmölz:Aí é pior ainda, muito cuidado com a briga bêbado, tá? Então, porque você fala coisas que você não pode retirar.
Rogério Montanare:Por isso que é bom cada um dormir e no dia seguinte vocês se falam.
Jurandir Filho:A bebida, ela não cria ninguém.
Rogério Montanare:Não, ela potencializa.
Fernanda Schmölz:Tipo assim, ela faz você ser mais cruel do que você seria. Ela faz você não ter nenhum filtro. E a gente, o nosso cérebro, ele tem um filtro por um motivo, tá? Porque a gente sente as emoções, mas antes da gente falar sobre elas, a gente tem que processar. E o álcool, ele tira isso. Então assim, algumas das brigas mais tristes que eu tive na minha vida, infelizmente eu tava embriagada.
Thiago Siqueira:É muito triste.
Rogério Montanare:A história da minha vida, cara, já é a vida da minha família.
Fernanda Schmölz:Tudo, enfim, não vejo. Tanto que eu mal bebo hoje em dia também.
Rogério Montanare:Eu bebo para caralho, inclusive. É isso, gente. Mas o meu comportamento bebendo é diferente. Eu não, eu não, porque eu já não tenho filtro. Então eu bebendo eu só fico divertido.
Fernanda Schmölz:Eu fico muito divertida também.
Rogério Montanare:A minha bebida recreativa, a minha vida recreativa, não tenho. Quando eu falo assim, quero parar, eu paro. Entendeu? Eu não fico esse negócio.
Jurandir Filho:Eu acho que tem muito a ver com a quantidade também. Eu também prefiro ir. Eu também, tipo, bebo pouquíssimo.
Rogério Montanare:Menos o Sikas, que o Sikas preferiu assistir o Domingão do Faustão no hotel.
Fernanda Schmölz:O Sikas achou chato, ele foi embora. Ah!
Rogério Montanare:Foi muito legal.
Fernanda Schmölz:Sério? Não, a gente lá.
Rogério Montanare:Eu falei: "Não, já imaginago, né?" Imaginago. Acho que a gente tem que ir, né? Aí corta para 3 horas depois, pede a saideira, pede a saideira. Do nada chega um prato de carne desse tamanho, a mesa cheia. A gente vai se abrindo mais, né?
Fernanda Schmölz:É isso que acontece, é o happy hour que a gente nunca pode ter porque a gente trabalha remoto, né? Cada um no estado.
Rogério Montanare:Então, mas todo fim de ano vai rolar aí para a gente poder, né?
Fernanda Schmölz:Foi muito bom, cara.
Jurandir Filho:Afogar as mágoas.
Rogério Montanare:É a nossa compra de fim de ano.
Fernanda Schmölz:Não, não, não, não, não. E os conteúdos que a gente criou, aquele story até hoje do Juras frescando com a Dona Teresa. Vamos beber uma em sua homenagem. Ela: meu filho, não bebe não. Vamos beber uma cachaça em sua homenagem, Dona Teresa.
Rogério Montanare:Gente, elas estão colocando coisa na cachaça aí, Jurandir. Não faça isso comigo, não, filho.
Fernanda Schmölz:Ah, era naquela época que tava tendo o negócio do metanol, né? Nossa, que droga.
Rogério Montanare:Beijo, vizinha. Beijo. A gente vai brindar algumas cachaça em homenagem à senhora. Aí corta para o Sikas, tomou um copo de cerveja. Última vez que eu vi o Sikas bebendo tem muitos anos, tem o quê, mais de 20 anos aí. Não, tem uns 15, tem um, ah não, acho que tem um 16, 17 anos assim. E o Sikas bebeu e o Sikas virou a Desi Gonçalves, cara. A cada 3 palavras era um palavrão. Ele virou carioca do nada, tipo, ele pegando assim, ó, eu vou pagar essa porra, essa porcaria da puta, esse cartão que não sai dessa bosta desse É isso, cara, assim mesmo. Fechamos aqui mais um Rapadura Cast. É isso, falamos sobre relacionamentos, sobre filmes. A gente, muito desses filmes, a gente já fez podcast, né? A gente já, já tem lá no Sala VIP, no próprio Rapadura Cast aqui. Então dá uma buscada aí, tem muitos outros filmes que discutem de forma mais profunda relacionamentos. Coloca aí nos comentários, tá aberto aí no YouTube, no Spotify. Fica à vontade para participar. E obviamente não leve nada muito a sério, tá, gente, porque, né, a gente tá conversando e tudo, só de zoa aqui, tá?
Jurandir Filho:É bom, é bom.
Rogério Montanare:Aí, pô, vivam suas histórias, quebrem a cara, é isso, faz parte, mas se reconstrua. Não existe esse negócio de, ai, só isso, só vai existir essa pessoa na minha vida. Não existe isso.
Fernanda Schmölz:Exato. E nunca deixe ninguém fazer você abrir mão de quem você é.
Rogério Montanare:Exatamente, seja quem você é.
Fernanda Schmölz:Pau no cu desse prejudicado, dessa prejudicada.
Rogério Montanare:Siga sua vida, viva bem, viva bem, crie seus hobbies, tenha seus momentos, tenha os seus próprios amigos, tenha o seu próprio trabalho, construa sua própria vida. E aí ali uma pessoa, se você tiver com vontade, ali uma pessoa ao seu lado para você, para crescer junto com você, não para sobrepor você, né? Passa isso, viva bem. É isso, nos encontramos na próxima, tchau!
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Jurandir Filho:You're welcome.
Rogério Montanare:Columbia, engineered for whatever.
Pilão
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