Odontologia do cuidado - Prof. Diego Diniz
O Universidade Aberta Odontologia é um podcast de divulgação científica do Programa de Mestrado em Ciências Odontológicas, da Universidade de Araraquara – UNIARA. A jornalista Luciane do Valle conversa com pesquisadores, professores e mestrandos sobre suas pesquisas e estudos.
Luciane do Valle
Diego Diniz
- Programa Juntos Pelo CuidadoSalvar dentes e transformar vidas · Odontologia corretiva vs. preventiva · Identidade do paciente e autoestima · Relação profissional-paciente · Visão sistêmica da saúde bucal · Diego Diniz
- Escolha da OdontologiaVisão humanizada do paciente · Odontologia como missão transformadora · Acolhimento e escuta ativa · Comparação com a relação ginecológica
- Modo Sobrevivência e Exaustão EmocionalLidar com gente antes de dente · Gentista vs. Dentista · Propósito e paixão pela profissão · Diferença entre dentista e protético
- Medicalização e Mudanças no Tratamento de SaúdeDoenças sistêmicas e saúde bucal · Diabetes e cicatrização · Melhora na qualidade de vida · Redução no consumo de medicamentos
A partir de agora, a rádio Uniara FM passa a transmitir Universidade Aberta, um projeto de extensão do Centro Universitário de Araraquara, Uniara. Olá, eu sou a jornalista Luciane Duvalli e no programa Universidade Aberta Odontologia de hoje, eu converso com o professor Diego Diniz. E eu vou conversar com o professor Diego sobre o que ele está chamando de odontologia do cuidado.
que ele está dizendo para a gente que salvar dentes é também transformar vidas. E é claro que eu começo agradecendo a oportunidade de conversar mais uma vez com o professor Diego. E professor, já vou a partir do seu tema aí para a minha primeira pergunta. Quer dizer então que se a gente salva dentes, a gente tem a possibilidade, é claro, de transformar vidas? É isso mesmo? Muito obrigada.
Imagina, eu que agradeço. E respondendo a sua pergunta de bate pronto, sim, é isso mesmo. Mais uma vez, obrigado pela oportunidade de estar junto, de estar aqui falando e compartilhando um pouco do que a gente sabe com vocês e com seus telespectadores e ouvintes.
A gente acha que a odontologia basicamente é uma odontologia corretiva, uma odontologia que só vai corrigir o problema. Durante muito tempo, a odontologia era ensinada de um jeito muito simples.
tá com problema, tá com dor, tira o dente e depois coloca uma prótese ou deixa assim. Por muito tempo se viveu dessa forma, né? Não tem solução do dente, extrai e tudo mais. Hoje a gente já...
vivenciam a odontologia com essa tecnologia muito mais fácil e muito mais curativa, vamos dizer assim. A gente consegue preservar muito mais e antever muitos problemas. Cada dente aí não é só uma estrutura, não é só uma função, uma estética, é também a identidade do paciente.
Então, a gente acaba transformando mesmo de maneira positiva ou de maneira negativa, dependendo do caminho que a gente leva o tratamento. Eu não estou dizendo que isso está errado, que você achar um dente e não tem mais o que fazer. Tudo bem, quando não tem mais o que fazer, tudo bem, a gente extrai.
Tem tantas alternativas e a gente consegue usar algumas técnicas muito ao extremo para manter o dente. E isso mantém a tua identidade. Imagino que você, Luciane, quando se vê no espelho com os seus dentes, por melhor que eu faça uma prótese, por melhor que eu faça um outro dente aí...
O seu dente é aquilo que era nosso, mas o meu dente tinha um pouquinho mais torto para a esquerda, quando eu sorria, eu me via desse jeito, eu lembrava o sorriso da minha mãe, da minha avó, eu acho que é por aí. Eu comecei a enxergar a odontologia de uma outra forma, devido a essas situações que nós encontrávamos no consultório, a gente passa a ter uma odontologia do cuidado mesmo, de ver o ser humano como um...
todo, para a gente não chegar nesse ponto de ter que extrair o dente. Então, realmente, transformar mesmo a vida da pessoa para um lado positivo, para que a gente tenha uma recuperação, uma aceitação.
do tratamento em si, eu acho que é muito legal pensar nisso. Da outra vez a gente falou sobre uma boa vida e uma vida boa na odontologia. Eu acho que aliar aquilo que eu gosto de fazer com o desafio de te entregar algo que você espera que eu faça, isso é satisfatório quando a gente consegue chegar.
E a gente é inspirado por grandes técnicas, por grandes professores, e a gente faz hoje uma odontologia bem mais preventiva do que curativa, do que simplesmente tem um buraquinho, tampa um buraquinho, essas coisas assim.
E Diego, justamente você, desde o comecinho aqui da nossa conversa, você está falando muito, dando o exemplo, que eu acho que é o extremo mesmo, como você disse, o ponto final, digamos assim, que é a extração. Quero crer que é realmente, não há mais o que fazer. Mas aí o nosso tema aqui, que você propôs, você está falando justamente de salvar dentes.
Esse é como a nossa conversa com o ponto final, né? Quando não dá para salvar o dente, né? Não dá mais para salvar o dente. E aí eu queria saber de você, se você consegue dar alguns exemplos, exemplos práticos mesmo, né? Do que que significa esse salvar dentes? Você está falando de o dentista, se é possível, né? Vamos lá no mundo real, né? Que eu sempre falo aqui, infelizmente, nem todo mundo tem acesso, né? Ao dentista, etc, etc.
eu vou falar do mundo ideal, não do real, me corrigindo mesmo, do ideal. Esse salvar dentes tem a ver com ir ao dentista pelo menos duas vezes ao ano, fazer limpeza, fazer higiene em casa corretamente, esse é o caminho? Ou você está falando de algo mais específico ainda?
Eu acredito que não só ir ao dentista duas, três vezes ao ano, isso se faz necessário por uma questão muito da saúde mesmo. Nós temos que fazer uma manutenção e tudo. Mas deixa eu tentar te explicar isso de uma maneira bem simples.
Imagina que o seu dente é como se fosse uma casa, e se aparece um problema, de repente você quer demolir a casa para resolver esse problema, e não fazer uma pequena reforma para ajustar isso.
A questão é, você vai buscar alguém que está disposto a investigar, a procurar com mais detalhe o que está causando esse problema na tua casa, por exemplo, ou realmente você vai num cara que realmente já chega lá e fala, olha, está com vazamento, arrebenta a casa e a gente faz outra.
essa questão, essa situação, ela vai muito além de ir somente ao dentista, e sim da própria postura do dentista em si. É muito mais simples, teoricamente e tecnicamente, tirar um dente do que sair investigando por que aquele dentista...
aquele dente está dando problema? Sim, é mais simples, mas buscar alguém que está comprometido contigo nesse processo é mais difícil, é alguém que está ali junto contigo para manter o dente na tua boca da melhor forma possível, sem que a gente tenha que transformar isso, sem que a gente tenha que mexer na estrutura do dente. Um dente hoje na boca ele é muito importante.
não só para as questões que a gente falou agora, a estética, da mastigação, mas para que você se entenda e se veja como pessoa, como cuidado mesmo. Eu acho que é muito importante esses cuidados.
eu preciso cuidar do meu dente, preciso higienizar o meu dente, mas o profissional olhar com carinho e entender muito mais a fundo.
Por que o dente está inflamado em si? Por que temos aquele problema dentário? Olhar para um todo, olhar para um sistêmico, olhar para uma saúde mesmo. Às vezes uma pessoa com uma desbiose, aí vamos pensar em uma doença mais delicada, por exemplo, como a diabetes.
ela causa grandes problemas na boca, já é difícil de cicatrização, tem uma imunidade diferente. E se você simplesmente pensar na correção do dente e esquecer que aquele processo é um processo de um corpo todo, você acaba sendo muito simplista no teu cuidado. É interessante isso que você está falando? De novo, me corrija se eu estiver errada, porque assim...
É sério o negócio, porque eu fico pensando que você está falando da formação desse profissional, de como ele se formou, o que ele pensa da profissão dele, muitas aspas, da missão dele enquanto dentista, o significado que tem isso, que é o que você está falando de autoestima.
que é um negócio que não é balela, né? Uma coisa é essa questão estética, né? De você melhorar. Outra coisa é a autoestima mesmo, né? Ela tá num outro andar aí da nossa vida, né? Então, assim, você tá falando também de autoestima.
Você está falando dessa relação profissional-paciente, que ela é bastante complexa, né? Porque aí você tem uma pessoa que entende muito o que está acontecendo, com outra, que é o paciente, que não entende nada do que está acontecendo. E aí eu vou até usar uma palavra forte, porque de certa forma, a gente, né? Paciente, pensando em mim, a gente meio que vira refém, né? Porque como é que eu vou...
dizer para o dentista, não, você está errado, meu caso não é distração, você tem que fazer isso, aquilo, aquilo outro. Quer dizer, é muito complicado, né? Você está falando de tudo isso, não está, Di? Exatamente, até porque quando você cuida de um sorriso, você mexe em algo muito maior. Como você mesmo mencionou, a gente mexe com autoestima.
com o próprio relacionamento, e aí a gente pode pensar em relacionamento com paciente e dentista, mas a gente pensa num relacionamento como um todo, de você para com teu esposo, para com tua sociedade, o meio que você convive, a coragem de poder falar, de sorrir, às vezes até de recomeçar uma vida que foi mais privada por conta da situação estética do dente, vamos pensar assim.
E é nesse sentido que tudo muda, que a gente começa a ver um ser ali, não mais um monte de dentinhos. Quando você entende que você não está só tratando dentes, você está cuidando ali de pessoas. E isso...
o seu nível de energia muda, o nível de energia da pessoa muda, as pessoas, inclusive eu que me coloco nesse processo, eu acordo diferente, pensando que eu posso fazer uma mudança, uma pequena mudança no mundo onde eu estou. Eu acho que tem três tipos de pessoas que vivenciam, e aí só um parênteses para ilustrar isso, que eu acho que eu gosto muito desse exemplo.
que você tem aquela pessoa que vai ao banheiro, por exemplo, ela pode simplesmente entrar, usar o banheiro, dar a descarga e lavar a mão, e sair, deixar do jeito que ele encontrou. Você pode deixar esse banheiro pior do que você encontrou.
Ou você pode deixar isso melhor, às vezes você pega, tá lá, lavou a sua mão, a pia tá molhada, você pega aquele resto do papel que você tá secando a sua mão, você limpa e seca a pia e deixa isso melhor. Então, o que você pode fazer de diferente na vida das pessoas? E aí sim, a gente começa a fazer uma...
uma introspecção e realmente verificar se o profissional que você está indo te olha como uma pessoa, não como uma bolsa cheia de dinheiro ou uma boca cheia de dentes. Eu acho que isso começa a despertar uma odontologia do cuidado.
onde esse dentista realmente está afim de fazer algo transformador. Não só deixar os meus dentes mais brancos, mas deixar a Luciane talvez melhor do que ela entrou naquele momento.
naquela sala, naquele ambiente. E isso deixa de ser uma profissão, a partir de um certo momento, e vira uma missão, que é uma missão realmente de transformar vidas. Eu quero deixar isso muito claro, porque depende de cada profissional, mas eu acredito que se o paciente entender...
ser escutado e a dor dele precisa ser entendida. Então, ah, mas eu não entendo de odontologia? Ele nem tem que entender, mas tem que entender de acolhimento, de sentimento, de sentir-se abraçado naquele momento. E o profissional tem muitas formas de fazer.
Tem a forma que a maioria das pessoas sentem e convivem e conviveram, que é aquela velha história do abre a boca, fecha a boca e beleza, está tudo certo, anestesiou, fez, mas o que você fez? Ah, eu tirei uma cárie. Tá, mas da onde? Como assim? Foi uma coisa muito invasiva. Desculpa a comparação, mas é tão intimista a relação...
paciente dentista, de entrar na tua boca, eu acredito que beira algo próximo ao ginecologista, de ter tamanha intimidade com você, não é para todo mundo que você sai abrir a boca, mostrar a língua, esse processo todo precisa ser mais explorado. Entende?
e mais bem executado pelo dentista. Tá, agora eu vou fazer o contrário, né? Eu tava falando bem desses profissionais, né? Que é assim que eu penso e tal, mas aí eu vou te perguntar o seguinte, né? Fazendo um pouquinho aqui do contraditório, digamos assim, né?
De repente vai ter um profissional, ótimo profissional, de ótima formação, que executa direitinho o seu trabalho, e aí ele vai falar assim, tudo bem, Diego, tudo muito bonito, tudo muito legal, mas isso me dá um desgaste emocional absurdo, porque acaba, é óbvio, né? A gente se envolve com as questões do paciente. Aí ele vai falar assim, eu não sou pago para isso, a minha formação não foi para isso, eu faço o meu direitinho aqui, ok, ok, ok, não preciso disso.
Porque realmente, eu acho que você vai concordar comigo, tem um desgaste emocional aí bastante forte, né? Uma doação, digamos assim, desse profissional, até o tempo que você leva numa consulta, enfim. E aí, que resposta você dá para essa pessoa?
Olha, Luciane, a gente passa, e eu gosto muito desse trocadilho, a gente lida com gente. Eu sou dentista, ok, eu fui treinado a...
olhar dente, tampar buraquinhos, ok. Mas eu lido com gente antes de qualquer coisa. Antes de chegar na parte técnica, que é simples, eu lido com gente, então eu acabo virando gentista, não mais dentista. E esse processo de que a pessoa faz...
porque ela só faz o técnico bem feito, eu acho que é muito simplório. É aquela história que nós conversávamos antes de entrar no ar aqui. Você tem um propósito, você tem algo, faz algo que você gosta. Se você gosta de gente, gosta de cuidar de dentes...
Vai ser dentista. Agora, se você gosta só de cuidar, de fazer dente, vai ser protético, vai fazer o melhor dente do mundo, vai esculpir o melhor dente do mundo. Não lida com dente, lida com manequim, com gesso. Agora, na tecnologia, você vai lidar com impressora 3D. Exatamente. Faça isso. Então...
Para você vivenciar essas questões, precisa ter gente, precisa ter carinho. Não é todo mundo que senta na sua cadeira e que você abre a boca, tem três caras, vamos fazer aqui, pega o motor, anestesia e pronto. A odontologia do futuro, que eu vislumbro, é essa odontologia humana, mais conservadora.
que é mais inteligente. Se você trazer o paciente para perto de ti, o resultado e a colaboração dele vai ser muito interessante, como se a gente estivesse trabalhando numa manufatura, um processo de produção. Um entra outro, um entra outro. Ah, mas e a questão financeira que eu não tenho tempo, que eu não tenho isso e tudo mais? As pessoas vão começar a te olhar de uma maneira diferente.
e você vai entregar para ela um tratamento diferenciado, que realmente vai transformar vidas. Eu tenho pacientes que melhoram a quantidade da glicemia cuidando do dente, pacientes que consomem menos medicamentos porque começaram a olhar um sistêmico junto com a boca.
Isso, pra mim, é cuidar, é melhorar a qualidade de vida e é transformar a vida da pessoa. Você tomava cinco remédios, agora você toma três, isso quer dizer que você melhorou. Sim, com certeza. E o pior das hipóteses, você ainda continua doente, mas é um doente melhorado, vamos dizer assim, é inconstante cuidado. Precisamos ter esse olhar de pessoas que realmente cuidam mesmo.
Eu acho que isso respeita o ser humano, o indivíduo, não só como um objeto de tratamento, alguma coisa assim. Acho que isso fica mais tangível e factível. É gostar, né? Essa odontologia que é, antes de você pensar em tirar, vislumbrar todas as técnicas que você...
salvar um dente, eu acho que isso faz todo um sentido na minha cabeça, assim, como dentista, como profissional da saúde que cuida de pessoas. Tá certo, bom, só posso agradecer mais uma vez a oportunidade de conversar com o professor Diego Diniz, e professor Diego, de novo, sempre muito bom conversar com você, muito obrigada pela entrevista.
Imagina, eu que agradeço. Uma boa noite e agradeço demais a oportunidade de falar com você. E espero nos encontrarmos em uma outra breve. Com certeza. Muito obrigada. Eu que agradeço. Tchau, tchau. Tchau. A Rádio Uniara FM apresentou Universidade Aberta.