Restaurações de Amálgama - Profa. Luara Aline Pires
O Universidade Aberta Odontologia é um podcast de divulgação científica do Programa de Mestrado em Ciências Odontológicas, da Universidade de Araraquara – UNIARA. A jornalista Luciane do Valle conversa com pesquisadores, professores e mestrandos sobre suas pesquisas e estudos.
Luciane do Valle
Luara Aline Pires
- Restauração dos altares de oraçãoO que são restaurações de amálgama · Composição das ligas metálicas · Mercúrio em restaurações · Segurança e toxicidade do mercúrio · Legislação sobre mercúrio · Indicações para substituição · Substituição por estética · Bruxismo e força mastigatória
- Gestão de MateriaisResinas compostas · Sistemas adesivos · Implantes dentários
A partir de agora, a Rádio Uniara FM passa a transmitir Universidade Aberta, um projeto de extensão do Centro Universitário de Araraquara, Uniara.
Olá, eu sou a jornalista Luciane Duvali e no programa Universidade Aberta Odontologia de hoje, eu converso com a professora Luara Aline Pires. Nós vamos falar sobre um tema que eu comentei com ela antes da gente começar a gravar, que eu tô super curiosa e ansiosa pra conversarmos, que é o seguinte, né? As restaurações de amálgama, que ela vai explicar direitinho o que é pra gente poder identificar, mas eu acredito que quase todo mundo tem, né? Enfim, aí a pergunta é justamente...
essa, né? Quando que elas precisam ser substituídas? Ou melhor, elas precisam, né, ser substituídas? Claro que eu vou perguntar tudo isso para a professora Luara, mas não sem antes, é claro, agradecer a oportunidade de conversar com ela aqui na Universidade Aberta Odontologia. Luara, muito obrigada pela entrevista e eu acho que a primeira pergunta, talvez, né, o que são, né, essas restaurações de amálgama? Que o nome é meio complicadinho, mas eu acho que é aquilo que eu falei, né, todo mundo tem uma pra chamar de sua aqui na nossa boca, né? Muito obrigado.
obrigada novamente. Primeiramente, olá a todos. Primeira coisa, então, em relação à restauração de amálgama, o que é? São aquelas restaurações escuras, metálicas, que se faz há muito tempo, né? São restaurações mais antigas aí, de ligas metálicas, né? E...
Ainda é utilizada até hoje, a gente pega nesse tema ainda, porque na parte de sistema público de saúde, a gente ainda tem essas amálgamas, atualmente na parte de clínica particular, a gente acredita que já está meio que em desuso, na parte estética e tudo mais. Mas nada mais é do que uma liga metálica.
que é inserida aí nas cavidades, né? Desde muitos anos atrás. E aí, Luara, elas são escuras, né? Digamos assim, porque na época que elas foram desenvolvidas, não tinha, digamos assim, tecnologia para deixar... Porque hoje em dia, quando a gente está...
especialmente num consultório particular, aí o dentista pega, tem várias tonalidades de cor, pega que se aproxima mais da cor dos nossos dentes, para não ficar tão diferente, etc. É por isso, é única e exclusivamente, por isso que naquela época, antigamente, por isso que eu brinquei que todo mundo pode ter uma para chamar de sua aqui, exceto as crianças, os mais jovens. É por isso, porque não tinha a tecnologia que tem hoje para elas terem essa cor?
Com certeza, né? O que acontecia antigamente? Essa liga metálica, o que se tinha contato nessa época em que surgiu, era ainda o melhor material que se adaptava, a gente não tinha ainda a parte de resinas compostas, que hoje em dia a gente trabalha com materiais que são...
adesivos e menos invasivos, mas a gente precisava antigamente de uma certa conformação de cavidade, anatomia, para receber também essas amálgamas, essa liga metálica, a gente precisava de uma certa profundidade, de uma certa largura para fazer essas restaurações. E era uma época, obviamente, que não se tinha...
tanta preocupação estética e também não se tinha contato ainda com materiais que a gente chama de adesivos, né? Que a partir de sistemas adesivos, que seria...
a cola da resina, né? E a resina, as resinas em si, elas foram modificando, né? Foram se atualizando aí, melhorando, mas até um certo tempo, não muito distante, a amálgama era considerada aí restauração padrão ouro pra gente, né? Ainda tinha comparação de que antes uma restauração de amálgama do que uma de resina, e a gente sabe que hoje em dia as resinas estão...
atingindo aí parâmetros, se não equivalente, melhores, né? Então, em relação principalmente à parte estética também. E aí, Luara, desde o comecinho aqui da nossa conversa, você está falando, né? Ligas metálicas, ligas metálicas. Então, assim, o ouvinte e eu também, é claro. Então, quer dizer que quem tem amálgama tem metal no dente? Isso é bom? Isso é ruim? Isso é preocupante?
É assim, existem várias ligas metálicas, nada mais é do que uma mistura de metais, tem muito, até metal, que às vezes não tem coloração de metal e que a gente tem no nosso dia a dia em vários produtos aí, não só na odontologia. Mas as ligas metálicas em si, a amálgama faz parte delas, o que a gente tem uso na odontologia, é uma mistura, obviamente, de metais diferentes. Tem...
algumas que tem prata na composição, tem mercúrio, tem cobro, tem zinco, tem vários materiais aí nessa mistura. Só que aí são, obviamente, materiais que uma vez que está cristalizado, que a gente fala, que é endurecido no caso do amálgama,
Não tem risco nenhum, né? Quais outras ligas metálicas que a gente tem na odontologia que é de uso extremamente rotineiro aí? Implante, por exemplo.
Sim, que tem o pino, né? Isso, exatamente, né? E a gente sabe que é uma liga que não gera toxicidade, não gera prejuízo aí na hora do contato com a cavidade onde ele é inserido, né?
Você citou aí uma palavrinha, né? Que antes da gente começar a gravar, a gente também conversou sobre ela, né? Você falou da questão do mercúrio. Eu acho que quem ouviu aí, porque a gente liga o mercúrio, não sei se sou eu na minha loucura, mas muitas pessoas, eu acho que podem ter a mesma loucura que eu, de pensar, lembra dos termômetros, né? Que tinha mercúrio e aí foram substituídos, porque era muito perigoso se quebrasse, etc, etc.
E aí você fala assim, não, as amálgamas podem ter mercúrio. A gente fala, nossa, e aí a gente está carregando no corpo.
Esse mercúrio... Isso é, na verdade, um tabu e uma coisa da qual alguns profissionais, infelizmente, estão gerando essa desinformação em relação à questão do mercúrio. O mercúrio, ele sempre vai estar presente na parte do amálgama, porque ele é a parte, vamos dizer assim, líquida que se mistura...
com o pó que é feito nessa liga, né? Certo. E, obviamente, que o mercúrio em si, ele é um componente aí tóxico, né? A gente sabe, tanto é que tem vários produtos aí que já saíram do mercado por causa do risco do mercúrio e é justamente termômetro, né? Que a gente antigamente quebrava e pegava aquilo na mão, né? Sim.
E aí, obviamente, que foi descoberto que ele tem essa certa toxicidade e, obviamente, prejuízos neurológicos e tudo mais, né? Só que, e assim, existe já a sanção de uma lei que é retirada de mercúrio da maior parte dos produtos de forma geral, né? Certo.
E aí isso ainda não entrou em vigor aqui no Brasil, né? Da gente que chama até, que foi feita uma convenção de Minamata por causa de uma cidade que teve uma contaminação da água, os peixes ficaram contaminados e a população acabou tendo uma contaminação indireta ali de mercúrio por causa do peixe, né? Certo. E aí por causa desse episódio específico, desde 2020 que já tem
essa lei aí, mas aqui a gente ainda não proibiu totalmente o uso de qualquer produto aí que tenha o amálgama em si, né? Mas é importante a gente ressaltar que a dosagem do amálgama e principalmente hoje em dia, como está sendo utilizada aqui em cápsula, né?
A maioria do que a gente vê hoje em dia, antigamente até não, né? Porque às vezes a dosagem saía errada, existia um risco de contaminação do profissional, um risco de contaminação ambiental, que é uma preocupação até hoje também, né? Do descarte desse material. Mas uma vez que é misturada o pó com esse mercúrio de maneira exata, né? Na quantificação deles.
não é para ter liberação de mercúrio de forma nenhuma. E obviamente que as restaurações têm que ser feitas bem isoladas, por isso a preocupação sempre com isolamento absoluto correto.
fazer o maneseio desse material corretamente, uma vez que ele é inserido na cavidade, cristalizado, endurecido e nas suas proporções corretas, isso não vai ter prejuízo nenhum, porque aí se formou essa liga metálica.
O mercúrio teve a interação deles com os outros componentes e não tem liberação desse mercúrio no organismo. Então, isso já está mais do que fundamentado dentro da literatura também, de forma segura. Inclusive, o CFO já deu uma...
já fez uma chamada, já colocou uma notificação também em relação a isso, quando surgiu essas falas de preocupação de que tem que tirar todos os amálgamas, porque os amálgamas têm mercúrio e vai ser prejudicial a parte de saúde.
a gente sabe que isso está totalmente fora de questão e não é um perigo, né? Então, as pessoas podem ficar despreocitadas em quem tem restauração de amálgula, que não tem problema nenhum, gente. Mantenha, né? Só para esclarecer, CFO é Conselho Federal de Odontologia. Isso, exatamente. Só para não ficar dúvida aí, né? Do que é um CFO. Mas aí, vem a pergunta, que inclusive é o nosso tema aqui, né?
Então, quando que elas precisam ser substituídas e, estendendo aí, elas precisam ser substituídas? Exatamente, pegando o gancho do que a gente estava falando aí, exatamente. Não há necessidade de substituição das restaurações ou amálgama se não tiver uma indicação precisa. Onde entram essas indicações?
Cáries, né? Se a gente teve uma cáries secundária que por um acaso surgiu entre o amálgama e dente, né?
Se tiver infiltração marginal, que às vezes formou fenda entre o dente, essa restauração também, é uma preocupação às vezes de locais onde vai ter um pouco mais dificuldade de higienizar, vai ter um manchamento, então a gente tem que avaliar de forma específica cada dente, cada restauração ali, essa parte.
de cáries, infiltrações, se existe falha anatômica que vai ser um prejuízo também na parte funcional. Quais outros fatores também? Se a gente observa que tem fratura dessa restauração, se tem fratura dentária também envolvida, que justifica então essa substituição.
Na parte estética, que pode ser uma questão de incômodo para os pacientes, então isso também se torna importante, porque algo que se tornou funcional também hoje em dia é a parte estética. Obviamente que a gente sempre vai orientar os pacientes a não ficar trocando amálgama de forma desnecessária, a gente vai fazer a substituição quando for algo que realmente for um incômodo.
aí plausível para o paciente, né? Então, for algo fundamental. Quando a gente tiver a parte periodontal envolvida também, né? Vamos supor que essa restauração se tornou uma justificativa que dificulte higienização, passagem de fio, né? Por alguma maneira, por alguma causa aí, ela seja a causa.
de uma dificuldade na parte de higienização e, consequentemente, um problema ali ao redor desse dente, que é a parte periodontal, que a gente chama de engiva, osso. Então, a gente também acaba tendo essa preocupação de substituir esse amálgama. Luara. Oi.
Uma dúvida, você está dando vários exemplos aí de situações nas quais deveriam ser trocadas, mas aí tem a pergunta ao contrário, se não tivesse acontecido nada dessas situações e for questão estética mesmo, propriamente dito, tem problema trocar se for só questão estética? Deveria mexer, digamos assim, nesse dente? Tem algum problema em fazer isso só por questão estética?
É problema, não tem, né? É aquilo que eu falei pra vocês, que a questão das resinas que a gente tem no mercado hoje em dia, não todas elas, porque também há de se cuidar tanto com resina quanto sistema adesivo, que é o aderente dessa resina no dente.
a gente tem que ter a preocupação em relação à técnica e também a qualidade desses materiais na substituição. Por quê? A gente vai estar, obviamente, tirando tecido sadio quando vai fazer a remoção de um amálgama. Não existe isso de que não interfere em nada, não vai mudar nada. Alguma coisinha em relação ao prejuízo ali de...
estrutura a gente vai acabar tendo. Então, a nossa, na minha opinião especificamente, do que a gente sabe, é que o ideal é a gente não fazer substituição somente por motivo estético, só quando for algo que realmente incomode. Principalmente as instaurações muito grandes de amálgama, que está ali fazendo, às vezes, uma função de dar resistência naquele dente.
Às vezes a gente vai tirar essa amálgula, vai ficar uma estrutura fragilizada e que às vezes a gente tenha que fazer uma conduta que vai ser mais invasiva para esse dente que estava ali quieto. Falando principalmente de dentes de fundo lá... É, que é onde aparece, num sorriso mais aberto assim, onde vai aparecer. Isso, é assim que a gente fala que quanto mais na frente for ali, e quanto menor for essas restaurações...
Obviamente que não tem prejuízo nenhum da gente fazer a substituição, trabalhando com técnica e material depois de qualidade, obviamente. Mas a minha orientação sempre com os pacientes é se for aquele último dente lá do fundo, gente, que nem dá para ver. Às vezes tem uma restauração muito grande de amálgama.
e que não aparece no sorriso e tudo mais, a gente tem que ver esses prós e contra, né? Sim. De tirar ou não esse amálgama. Mas, como eu falei pra você, né? Tendo uma técnica adequada, materiais de qualidade, a gente vai fazer essa substituição, obviamente, de forma a ter uma longevidade dessa restauração também, né? Alinhada com o cuidado específico do paciente também.
E ainda não desenvolveram uma tecnologia aí que dá para pintar esse amálgama? Sem ter que tirar? Podia ter, né, Luara? Porque assim você pintava o bichinho lá, né? Fazia um planeamento do amálgama, né? Não é então, gente? Ficaria com certeza bem mais fácil, mas...
Infelizmente, infelizmente não tem, né? E o que a gente fala hoje em dia também, às vezes de forma preventiva para se trocar esses amálgamas também, né? E é o que está acontecendo hoje em dia também com mudanças que a gente vê nos pacientes de forma...
social, psicosomática, parte fisiológica também. Tem muita gente desenvolvendo problemas que às vezes não era rotineiro, né? A gente fala do marco às vezes de um pós-pandemia que as pessoas passaram a ter um nível às vezes de ansiedade, de estresse maior, né? E não excluindo partes fisiológicas no geral, mas o surgimento do conhecido bruxismo, por exemplo. Sim.
E aí, o que acontece? Tem pacientes que estão chegando para a gente, que às vezes tem esses amalgamas 20, 30 anos na boca, e de repente começou a quebrar, fratura a dente, e estava ali quietinho. E aí você vê, não é falta de cuidado do paciente em relação à higienização, mas às vezes algum hábito do paciente que passou a ficar diferente por algum motivo. Pode ser a parte, obviamente...
psicosomática, né? Sim, emocional, né? Emocional relacionada, mas a gente tem fatores fisiológicos também que pioram o bruxismo, como o refluxo gastroesofágico e apneias, né? Então, vai gerar, e a gente fala principalmente do bruxismo e do apertamento em si, né?
dessa tensão, quando você tem materiais como um amálgama, por exemplo, que é um metal e que ele tem uma boa resistência, a gente está gerando uma força fora do normal em cima desse material. E aí quando você aperta, quando você range e distribui essa força no dente, alguém vai sofrer com essa...
São de força. Sim. E aí pode ser quebra do amálgama, mas pode ser quebra do dente também. Então, uma das coisas que a gente observa nos pacientes também, a caráter aí preventivo, às vezes é ver trincas começando a ser formadas em alguns dentes. Se o paciente já vem de um histórico...
de quebrar dentes que não quebrava antes, a gente tem que pensar sim também, daí de uma questão preventiva de substituição de amálgama por resina, porque aí vem a questão de propriedade dos materiais, a comparação de uma resina com amálgama. O amálgama é um material muito mais rígido e às vezes ele vai dissipar essa força.
para o dente de uma forma diferente, enquanto a resina seria um material mais maleável e que suporta essa força de uma maneira diferente do que a amálgama. Então, ela se comporta um pouco mais igual à estrutura dentária, distribuindo essa força de forma mais homogênea, vamos dizer assim.
A gente pode pensar nessa questão de substituição da amálgama também de forma preventiva em alguns pacientes, sim, que a gente vê essa questão de trincas sendo formadas ou então histórico do paciente já tendo essas quebras. Só posso agradecer mais uma vez a conversa com a professora Luara Aline Pires. De nada, eu que agradeço, foi um prazer falar com vocês novamente.
A Rádio Uniara FM apresentou Universidade Aberta.