Ep. 242 - O erótico e a decolonialidade
O erótico pode ser mais do que desejo ou estética: pode ser também linguagem política, memória e território de resistência.
Para discutir o eros e a decolonialidade, neste episódio do Papo no Auge!, conversamos com a escritora, roteirista, artista boudoir e doutora em planejamento urbano pela UFRJ Rita Alves, do Mulheridade Preta, coletivo que discute o erotismo decolonial para negras.
Curtiu a temática? Ouça o episódio 242 do podcast Papo no Auge!
Se gosta do nosso trabalho, associe-se ao nosso podcast.
Ao se tornar um patrocinador de nosso programa, você nos habilita a conversar com mais professores e pesquisadores mundo afora, levando conhecimento a mais gente.
Nos apoie via plataforma Catarse de financiamento coletivo.
Link para o Catarse: https://www.catarse.me/vamosproauge
- Descolonização e arteO erótico como linguagem política e território de resistência · A definição de erótico segundo Audre Lorde · A relação entre erotismo, religião evangélica e corpo feminino · O erótico como ferramenta de autoconhecimento e prevenção de violências · A decolonialidade como desconstrução de estruturas racistas · O erótico decolonial como direito ao gozo da mulher negra
- Trajetória de Rita AlvesFormação em arquitetura e planejamento urbano · Estudo das megachurches evangélicas · Experiência com ensaio boudoir · Estudos decoloniais e o coletivo Mulheridade Preta · Influência do protestantismo na infância e adolescência
- Ações educativas anti-racistasFotografia erótica como ferramenta de educação antirracista · O cinema e o audiovisual na representação do corpo preto · A história da arte e a subalternização dos corpos pretos · A desconstrução de enquadramentos negativos sobre mulheres negras
- Mulheres NegrasA perda da branquitude com a reivindicação do erótico por mulheres negras · O erotismo negro como negociação com a branquitude e suas assimetrias · Mulheres negras reivindicando o direito de amar, desejar e gozar · O amor e o gozo como ferramentas de luta antirracista
- O Clube do Batom e o direito ao desejarO Clube do Batom como produtora de eventos femininos · A proposta liberal e exclusiva para mulheres · Parceria com movimentos sociais e inclusão de mulheres periféricas · O Clube do Batom como espaço de reconfiguração política do corpo
- Obediência e DesobediênciaO erotismo como campo de estudo acadêmico · O erotismo como gesto de resistência e desobediência em contextos religiosos · A inclusão do erotismo em eventos e atividades de igrejas evangélicas · A penetração do erotismo em comunidades evangélicas através de sex shops
Fala minhas amigas, fala meus amigos, tudo jóia? Eu sou Saulo Novaes e você está no Papo no Auge, um programa voltado à troca de ideias, gerando conteúdo muito inteligente por essas ondas sonoras, sempre um especialista por episódio, muito conhecimento sendo gerado de modo a amplificar a voz da ciência, a voz docente, a voz da educação. Esse é o nosso propósito. Vamos para o Auge em 2026.
O erótico pode ser mais do que desejo ou estética. Pode ser também linguagem, política, memória e território de resistência. Neste episódio do Papo no Auge, conversamos com Rita Alves, do Mulher e Idade Preta, coletivo que discute o erotismo decolonial para negras, mulheres negras.
Rita é também autora do livro Urbanidade Gospel, Megatemplos Evangelicos na Experiência Urbana, pelo Ateliê de Humanidades Editorial de 2023. É estudiosa das megachurches evangélicas brasileiras. É doutora em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
e mestra em comunicação social pela PUC do Rio. Realizou estágio pós-doutoral em planejamento urbano, cujo tema de pesquisa foi a experiência dos membros e frequentadores do Megatemplo Evangelico com as políticas de urbanidade gospel e racionalidade neoliberal.
Suas produções acadêmicas durante a última década têm por interesse as corporações evangélicas como agentes estratégicos na produção das megachurches, tendo como bases fundamentadoras a formação da urbanidade.
a gestão urbana e a produção de arte, ingredientes que retroalimentam a crescente e escalar adesão ao cristianismo evangélico nas metrópoles brasileiras. Rita é ainda curadora de arte, roteirista audiovisual e ensaísta boudoir.
Nesta conversa, vamos falar sobre como o corpo, o prazer e a imagem podem desafiar heranças coloniais e produzir novas narrativas sobre liberdade, identidade e autonomia. Um diálogo sobre arte, pensamento decolonial e os sentidos profundos do olhar sobre o corpo negro. Doutora Rita.
Seja muito bem-vinda aqui ao Papo no Auge. Eu estou muito curioso, né, para o que vai ser o nosso papo de hoje. Satisfação imensa poder conversar com você. Como primeiras perguntas, o que lhe levou ao mundo da arquitetura, ao estudo das mega igrejas, ao ensaio boudoir, e eu quero saber o que é isso, e aos estudos decoloniais, uma profissional e estudiosa super eclética, vale salientar. Seja bem-vinda, tá?
Oi, Saulo. Olá, público que nos ouve. Muito obrigada, Saulo, pelo convite, pela oportunidade de não só falar, mas também esclarecer, enegrecer esse outro lugar de fala e de existência de nós mulheres negras.
Essa live aqui eu acho que vai ser muito importante para a gente situacionar esse momento histórico que nós vivemos de exercício, de direito, de luta pelo nosso corpo erótico no mundo, que é algo que foi muito apagado e negligenciado ao longo dos séculos.
Bom, antes de mais nada, para você entender como que se dialoga esse lugar entre erotismo, evangélicos, como é que essa relação germinou, eu primeiro preciso situar quem eu sou e de onde eu vim. Eu sou uma mulher negra do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense. Para quem não conhece, Baixada Fluminense aqui no estado do Rio de Janeiro é uma região metropolitana periférica.
que compreende municípios como Duque de Caxias, São João de Meritini, Loco, Lisbelfor Rocho, Magé. Então, quem conhece aqui a região metropolitana do Rio de Janeiro sabe que a Baixada Fluminense é a área das quebradas, também, além das favelas cariocas. Então, eu venho dessa região. Esse é o lugar onde mulheridade preta se forma.
E lógico, como em muitas expressões regionais brasileiras, o evangelicalismo está muito presente na Baixada Fluminense. E eu preciso também situar...
enquanto uma mulher religiosa, né? Eu sou cristã até os dias de hoje. Eu praticamente, não digo que nasci em berço evangélico, mas eu entrei na religião evangélica a partir de cinco anos de idade, quando da conversão da minha mãe. E desde então, minha mãe me formou, formou toda a minha infância e adolescência no protestantismo.
E isso é uma coisa interessante de situar, porque da mesma maneira em que eu atravessei algumas opressões no protestantismo, por outro lado, o protestantismo me livrou de outras opressões urbanas. Como, por exemplo, foi através do protestantismo que eu adquiri um gosto pelos estudos, pela leitura, pela arte.
porque eu entrei primeiramente na Assembleia de Deus e depois migrei para a Igreja Metodista, que é uma igreja de formação mais tradicional, muito voltada para a leitura, para o conhecimento, para a produção teatral, músicas. Então, o meu ambiente de infância e adolescência foi nesses territórios. Então, isso foi gerando em mim um outro olhar sobre a cultura, um gosto diferente pelo saber, pelo conhecimento.
E a partir dessa formação e desse gosto, eu, por exemplo, nunca quis me envolver com drogas, nunca fui muito, assim, de passar, de virar à noite na rua, embora a rua também seja um lugar de aprendizado e de muitas experiências, mas, assim...
eu tive uma trajetória diferente do geral das adolescentes do meu território. Então, por isso aí que eu também considero o protestantismo que foi uma célula de captura e de escape para muitas outras opressões que as mulheres negras vivem até hoje, no tempo presente. Então, só que por eu viver o protestantismo na década de 90...
eu sou de 88, eu faço 38 anos daqui a alguns dias. Então, a minha adolescência foi nessa década de 90, e esse período é um período que, inclusive, eu situo histórica e epistemologicamente no livro Urbanidade e Gospel, que é o período de maior cisma, digamos assim.
dos discursos religiosos. Quando a gente está entrando nas novidades do século XXI, os discursos conservadores começam a se chocar com essas novidades modernas e contemporâneas que estão acontecendo. E vão acontecer, sobretudo, na temática do corpo feminino, das roupas que as mulheres vestem, dessa apresentação da mulher evangélica do mundo.
E eu ali, adolescente, já, eu sempre, eu considero que eu sempre fui muito artista nesse sentido, porque mesmo eu sendo, né, de Assembleia de Deus e tal, eu já gostava muito, assim, de performar, de atuar como apresentadora de televisão. Eu brincava disso na rua, né, de apresentadora de televisão, de paquita. Então, eu tinha, assim, essas ousadias, né, sempre tive. De dançar na escola, eu considero que era algo, assim, muito...
subversivo para uma menina adolescente daquele contexto.
E é nessa emergência aí que eu acredito que o erotismo, a sensualidade, ela começa a abordar, despertar dentro de mim. E essa subversão, ela vai aparecer, por exemplo, nas minhas vermelhas, como as que estão aqui, nos brincos grandes, na maquiagem. Então, tudo isso foram pequenas estratégias de mudança que as meninas evangélicas Já faz isso.
passaram a adotar para contrapor esse discurso conservador do corpo. O quanto o corpo feminino foi reprimido nas suas expressões e apresentações. E o quanto isso trouxe, por exemplo, de consequências deletérias para as mulheres. Que consequências deletérias são essas que eu cito? Por exemplo, casamentos arranjados, a impossibilidade de escolher os seus parceiros.
a impossibilidade de programar uma gravidez, um planejamento familiar, sabe? Então, isso aí são interseccionalidades que foram atravessando a minha vida e a vida de muitas outras mulheres negras. E quando eu entro na universidade, eu sou formada em ciências sociais, a minha formação de base, é um momento que eu começo a contestar, a entender tudo aquilo que eu estava passando e vivendo.
e a refletir a respeito disso. Então, embora eu não tenha tido uma ruptura ali naquele momento com a religião evangélica, isso é uma coisa até rara, porque geralmente as pessoas do evangelicalismo, quando entram na universidade ou quando entram com...
em contato com outras epistemes, elas geralmente rompem com essa lógica. Mas eu sempre fui uma pessoa que quis transformar essa lógica. E foi a partir daí, dessas travessias, dos relacionamentos amorosos que eu fui vivendo, que também foram grandes pontos de aprendizado para mim.
que eu comecei a construir a persona mulheridade preta. Eu digo que é uma persona porque é algo que pouca gente consegue fazer como eu faço. E aí digo sem falsa modéstia. Porque foi um aprendizado mesmo que foi vivido a partir das interações, desses relacionamentos que eu tive, da interação com o universo da arte, e também a partir dessa observação e ação que eu fui tendo no universo evangélico.
Quando o Megatemplo chega para mim, e aí foi algo mais recente, há cerca de 10 anos, 2026 está fazendo exatamente 10 anos, que o fenômeno, o objeto Megatemplo chegou até mim, foi quando eu estava para a seleção do doutorado na UFRJ, no IPUR. Foi o doutorado em Planejamento Urbano, que eu cursei que foi um divisor de águas na minha formação.
porque o urbanismo é uma ciência que nos coloca muito frente a frente com as desigualdades sociais. E aí são desigualdades que nos atravessam de múltiplas maneiras. E um dos campos em que eu fui perceber isso de forma mais...
premente e urgente, foi esse atravessamento estético da mulher negra no campo erótico, nos relacionamentos, entendeu? Eu fui começando a perceber e entender quais eram os atravessamentos de classe e renda que afastavam as negras de certas experiências eróticas. Eu fui entendendo por que que na minha adolescência, início da juventude, eu não vivi certas experiências eróticas que outras meninas brancas, por exemplo, vivem.
e sempre viveram. E é algo que a gente vai falar um pouco mais à frente, o que diferencia tanto essa experimentação erótica da negra no mundo. Foi o urbanismo que me deu essa base, a partir desse entendimento do território, esse distanciamento das mulheres negras, as principais fontes de prazer, de cultura, de leitura, de conhecimento.
Então, a territorialidade, eu digo que é um dos ingredientes basilares para essa transformação de vida da mulher preta. Isso eu fui aprender no urbanismo e também nas megachurches, porque o que acontece? Os megatemplos brasileiros hoje...
geralmente estão concentrados em zonas urbanas, de uma malha de transporte, uma malha viária intensa. Muitos deles são como verdadeiros shopping centers, onde ali você tem acesso a múltiplas coisas, múltiplos serviços. É uma estratégia de encapsulamento tão grande das pessoas evangélicas que é como se eles não precisassem sair do mega tempo para nada. Não precisam sair nem mesmo para encontrar os seus relacionamentos.
porque muitas dessas igrejas, inclusive, elas promovem suas festas, seus encontros. Então o Megatemplo é um grande objeto de estudo para você entender a transformação das lógicas linguísticas, estéticas da religião evangélica hoje, porque eles foram entendendo que precisavam fazer isso para se manter no mundo, porque senão ninguém ia mais querer ser crente.
Então, o meu estudo do mega templo, ele também foi me aproximando desse outro entendimento das transformações estéticas que as mulheres evangélicas foram paulatinamente fazendo, absorvendo, contradizendo, entendeu? Então, hoje você vai no mega templo, você não vê mais diferença nenhuma da mulher que é de fora da igreja e de dentro da igreja, em termos estéticos, que eu digo.
não necessariamente em termos de valores, mas a estética hoje está bem mais igualitária, bem mais clean, mais democrática para todas nós, o que é muito bom.
É muito bom para as mulheres ter esse direito à escolha de como se maquiar, de como se pintar, de como se vestir. Então, isso foi uma grande libertação, uma emancipação que eu digo que as mulheres evangélicas conseguiram viver. E apesar da grande moralidade que a gente vê em algumas correntes evangélicas, eu digo algumas correntes evangélicas porque a gente sabe que o protestantismo não é igual,
nem nas correntes, nem nas filosofias e nem nos territórios. Se você for nos territórios populares, você vai ver estratégias femininas e feministas muito mais diferentes do que nas classes médias e altas, mas ainda assim as igrejas evangélicas e algumas megachurches têm sim protagonizado uma...
diferença estética para as mulheres nos dias de hoje. Então, é importante frisar isso, que a persona Mulheridade Preta, o projeto estético Mulheridade Preta, ele vai nascer nesse contexto de protestantismo como uma forma, uma linguagem de existência, de revelar a existência da mulher negra nesse lugar evangélico e da mulher negra bonita e sensual, na igreja também.
Então essa foi a minha intenção quando eu criei essa personagem, que nasceu na pandemia, Saulo. Foi assim, em 2019, eu fui convidada por um fotógrafo, o Felipe Campos, a fazer um ensaio sensual. Eu não conhecia exatamente o que era o boudoir, e aí você me pergunta, o que é o termo boudoir? O boudoir é um estilo de fotografia sensual, onde a mulher está como num quarto de vestir.
geralmente os ensaios de Boudoir são feitos só com lingerie. Ele tem essa proposta. E eu lembro muito bem que era o mês de dezembro de 2019, o Felipe Campos tinha alugado uma casa lindíssima, onde ele fez um projeto de fotografar mais de 10 mulheres em um dia só. E eu fui a última mulher daquela noite.
Eu fui a última mulher, não que seja propositalmente, mas era porque o horário possível. E aquilo foi muito bom para mim, porque como o meu ensaio foi o último ensaio, já estávamos muito mais relaxados, entendeu? O fotógrafo já tinha fumado bastante e tal, então estava uma vibe muito livre. E foi a primeira vez que eu me permiti ser fotografada só de lingerie por alguém.
porque até então eu nunca tinha experimentado isso. E eu gostei dessa experiência, sabe? Eu fui entendendo assim, poxa...
se eu mando nudes para fulano, ciclano, beltrano, por que eu não posso fazer um ensaio tão sensual e tão bonito para mim mesma? Me redescobrir a partir dessa fotografia, a partir desse momento. E quando ele me trouxe o pacote de fotos editado, até então eu nunca tinha tido acesso a uma fotografia profissional daquele jeito, com toda aquela...
expressão de beleza, isso para mim foi assim um acontecimento, um grande acontecimento mesmo, porque ali eu pude entender a bela mulher que eu era, e como eu gostaria de transmitir isso para outras irmãs pretas também, o quanto elas são bonitas, o quanto elas são maravilhosas, o quanto elas podem se descobrir a partir da fotografia. E aí, timidamente, naquele período de pandemia, março, abril de 2020,
Para ocupar o tempo, comecei a postar no Instagram essas fotos desse ensaio que eu fiz.
E eu lembro, assim, que as pessoas ficavam chocadas, maravilhadas, porque na minha rede pessoal, as pessoas nunca tinham visto fotos de mulheres negras assim, só de lingerie. Olha que eram lingeries assim, gospel. Eu digo lingeries evangélicas que eram calcinhas mais fechadinhas, eram body de renda. Quem for acompanhar o perfil Mulher Idade Preta no Instagram vai ver que as primeiras fotos eram assim.
E aí as pessoas começaram a achar aquilo tudo lindo, maravilhoso, e me pediam para postar mais. Eu comecei a postar, postar, e rapidamente o Instagram foi dispersando as minhas fotos para um monte de gente. Entendeu? Nesse um ano eu fui experimentando um crescimento grande da minha rede de engajamento, e vinha gente de várias partes do Rio e do Brasil acessando o meu perfil.
E aí o mesmo fotógrafo, que ele é muito meu amigo, o Felipe, me deu a ideia, ele falou assim, vamos fazer o segundo, vamos fazer o terceiro. E aí nessa de fazer um e outro ensaio, ele me deu a ideia de criar o OnlyFans. E foi quando eu criei o OnlyFans que o projeto estético teve uma expressão maior. Porque foi quando eu comecei a acessar o erótico para valer.
mas sempre também recorrendo a todas as epistemologias do planejamento urbano e entendendo também como que esse corpo negro podia se apresentar eroticamente. O que eu queria transmitir a partir desse meu erótico? Qual o erótico que eu quero mostrar? Que eu acho que tem a ver também com outras perguntas que você vai fazer. Então, basicamente, esse é o link.
que se faz entre o projeto Eu, o Urbanismo e a Mega Church, eu resumiria essa pergunta dizendo que essa passagem dos anos 2000, século XXI, é um momento de expressão estética diferenciada das mulheres evangélicas, é um momento onde as mulheres evangélicas estão dizendo somos mulheres, somos pessoas desejantes.
namoramos, casamos, transamos. Então, a gente também quer falar sobre isso. A gente também quer entender, ouvir e experimentar a respeito dessas temáticas. Então, imbuída dessa energia...
é que eu criei o perfil Mulheridade Preta, o projeto, né? Que hoje eu diria, sim, que é um coletivo porque é algo que vem tendo a aderência bem grande das mulheres, pelo menos assim, das mulheres no meu território, as mulheres da universidade com quem eu transito, eu sempre sou convidada também a palestrar e a falar sobre isso, a convidar outras mulheres a fotografar comigo também. Então, tem sido, assim, uma militância muito grande e muito importante aqui no Rio de Janeiro.
Que maravilha, doutora Rita, que maravilha, sensacional esse assunto, e de fato instiga a curiosidade, porque de fato a gente não imagina, e eu fiz questão de ler todo o seu currículo acadêmico, que é gigante, é gigante.
E as pessoas não costumam associar você, doutora, pós-doutora, com essa bagagem, né? E ter esse olhar cuidadoso pra estética, né? Pra esse lado, eu vou usar esse termo erótico, né? Como algo genuíno, singular, né? E tem a ver com a pergunta que eu vou fazer agora. Porque eu quero saber de você o seguinte, e pra gente ser bem didático, doutora.
O que significa o erótico? Uma palavra que causa frissom entre conservadores e puritanos. O que significa também decolonialidade para ouvidos leigos. Sim, sim, sim. Eu sei que o termo erótico causa muito frissom.
pelo fato das pessoas sempre associarem o erótico ao pornô. Tem muito essa confusão erótico e pornografia. A pornografia também pode ser erótica. Isso é a primeira coisa que eu quero explicar. Um vídeo, uma foto, onde está ali explicitando as zonas erógenas, os órgãos remitais das pessoas.
Nem sempre vai ser só cornô, ele pode ser erótico também. E eu gosto muito da definição que a Audre Lorde, que foi uma afrofeminista negra, dá sobre o erótico. Ela vai falar sobre isso no livro Cicero Outsider. Eu acho que ela é uma das primeiras teóricas que vai narrar toda uma epistemologia a respeito do erótico. Para a Audre Lorde, o erótico é a intensidade e completude do que sentimos ao fazer.
Então, tudo aquilo que se expressa com intensidade, com completude, com razão de ser e de existência, isso é erótico. E não apenas uma fotografia ou uma cena de transa de sexo.
Você fazer uma comida intencionalmente para a sua pessoa amada, isso também é erótico. Você redigir cartas amorosas, você perfumar o ambiente, preparar todo o ambiente amorosamente para uma pessoa, tudo isso é erótico, porque isso é intensidade, isso é completude, isso é energia entrega. Então, o erótico está muito mais associado à entrega do que necessariamente você explicitar ou não.
É um órgão genital. Eu acho que essa clareza no conceito, na expressão, é muito importante a gente deixar claro, entendeu? E eu sei que hoje no Instagram, felizmente, tem muitas feministas, tem muitos perfis dispostos a esclarecer a respeito disso.
O erótico está presente em muitas áreas da vida, em muitas áreas da nossa existência, até mesmo no seu trabalho, nos seus estudos. A energia erótica está presente. É o nosso instrumento de força e de coragem. E para as mulheres negras, eu acho que exercer o erótico, viver o erótico é algo muito importante.
não só para o campo do prazer, mas também como uma fonte de conhecimento, de apropriação do seu corpo, de conhecimento pessoal. Eu acho fundamental acessar o erótico, conhecê-lo, exercitá-lo, experimentá-lo.
porque ele é uma epistemologia para nós, é uma fonte de conhecimento e muitas vezes é até uma fonte de salvação, Sal. O que eu vou dizer isso?
Esse 8 de março e toda essa semana que a gente está, de Semana da Mulher, infelizmente é a primeira vez que eu tenho a sensação de a gente estar vivendo uma semana de imprensa marrom. Porque em todos os lugares só se fala de violência contra a mulher, violência doméstica, combate à violência doméstica. Aqui no Rio de Janeiro teve um episódio lamentável da moça vítima de estupro, uma menina, uma jovem.
E assim, eu me recordo que na minha adolescência, início da juventude, quando eu não conheci o erótico, quando eu não acessava essa força erótica dentro de mim, eu já passei por circunstâncias muito ruins.
E se uma mulher é educada no seu erótico, se ela é ensinada a acessar esse recurso, essa força, ela pode se prevenir, se precaver de muitas violências. Como, por exemplo, se eu sou uma menina muito jovem como essa que passou por esse episódio, se eu sou convidada a ir num encontro...
E eu tenho um conhecimento erótico sobre mim, sobre o outro, sobre o meu corpo, sobre essas experiências. Se eu sei que aquilo não vai ser algo muito seguro para mim, eu não vou.
Então, isso é um insight poderoso que vem de dentro de você. O nosso corpo, ele avisa. O nosso corpo, ele tem uma energia erótica que ele consegue sustentar, sabe? Então, por isso a importância de você falar sobre sexualidade, de você falar sobre erotismo, sobre o conhecimento do seu corpo, sobre o que é o sexo, como é transar, como é se envolver com uma pessoa, porque isso é fonte de conhecimento.
Não é só fonte de prazer, é fonte de conhecimento, de salvação. É aquilo que ajuda uma adolescente a reduzir os riscos de uma gravidez indesejada, de gestações não planejadas, de casamentos arranjados. É aquilo também que vai ajudar muitas mulheres a escaparem de situações de violência. Entende? Então eu acho muito importante a gente pensar o erótico de uma outra maneira.
E não apenas como algo associado aos vídeos pornográficos disponíveis na internet. É muito mais do que isso, sabe? É uma intensidade que nasce de dentro de você e que você aprende ao longo da vida como exercê-la da melhor maneira, certo? E agora, sobre decolonialidade. Como é o erótico decolonial? Antes de falar de decolonialidade, é muito importante situar o conceito de raça.
nesse esquema. Porque o que é a raça? A raça é o grande operador das relações capitalistas, ecológicas, das relações de espaço, também das relações afetivas. Esse conceito de raça é aquilo que vai alocar pessoas brancas e pessoas negras em determinados contextos diferentes, de privilégios, de desprivilégios.
Então, a raça é aquilo que vai formar toda a colonialidade do poder, de tudo aquilo que a gente vê hoje. E a decolonialidade é o conjunto das práticas que hoje fazemos no sentido de desconstruir essas estruturas racistas que foram impostas pela colonialidade. Então, quando eu penso no erótico decolonial, é exatamente um erótico que se propõe
a reivindicar esse lugar da sexualidade da mulher negra, porque historicamente, na escravidão e no pós-escravidão, servíamos apenas...
A serviço do outro, o nosso corpo era apenas para ser servido ao outro. Seja através de gestações não planejadas, não quistas por nós, seja através do trabalho mal pago ou não remunerado. E onde está o prazer? Onde está a existência, o conhecimento de nós? Das nossas zonas erógenas.
daquilo que gostamos, daquilo que desejamos. Então, isso foi muito negligenciado a nós ao longo dos séculos. O erótico decolonial é aquele que vai reivindicar o direito à mulher negra de gozar. Eu sempre falo isso muito no meu perfil.
É exatamente isso, é essa proposta que eu venho trazendo para as pessoas que me veem, que me assistem, nos vídeos, que são até inclusive muito engraçados, todo mundo gosta de ver, de assistir, porque é uma forma das pessoas se reconhecerem. Poxa, eu não fazia isso, mas eu quero fazer também, eu quero viver esse gozo dessa maneira também. O erótico decolonial é isso, é o direito à mulher negra de gozar.
Melhor definição impossível, doutora Rita. Melhor definição impossível. Veja, e em cima dessa sua fala, eu queria que você explicasse para a gente, por exemplo, o que é o clube do batom. O Manifesto pelo Direito ao Desejar e Experimentar. Como é que ele surge? A quem ele é endereçado?
Experimentar, nesse caso, é o que exatamente? Novas estéticas, novas narrativas sobre o corpo ou novas formas de existir socialmente? Quando você reivindica o direito de desejar experimentar, está falando apenas de liberdade sexual ou de uma reconfiguração política do corpo dentro de uma sociedade marcada por colonialidade e racismo?
Perfeito, Saulo. Na verdade, é uma reconfiguração do corpo, sim, e um direito à justiça social erótica das mulheres, sabe? Novas formas de elas existirem socialmente. Primeiro é importante explicar que o texto Clube do Batom, esse que você viu e faz referência aqui,
Ele, na verdade, foi uma experiência etnográfica que eu vivi na festa Clube do Batom, que hoje, na verdade, se tornou uma produtora aqui no Rio de Janeiro de eventos femininos. Super recomendo que toda menina, mulher que estiver no Rio de Janeiro vá nesse local, Clube do Batom, que fica em Botafogo, na Rua Mesconde de Caravelas, só eu fazendo uma propaganda aqui.
E é um lugar, assim, que é muito bacana para mulheres de todas as idades, inclusive as 50 a mais, 60 a mais, 70 a mais, que, porventura, foram alijadas da experiência erótica de alguma maneira, também visitarem. A produtora e mentora do Clube do Batom, ela se chama Júlia Ferraro.
Foi uma pessoa que eu conheci também nesses idos de pós-pandemia. Foi em 2022. Eu já conhecia o local por ser também uma boate para casais em outros horários, em outros momentos. Também já transitei muito em eventos de casais liberais aqui no Rio de Janeiro. E o Clube do Batom tem essa proposta de ser um local liberal só para mulheres. Para que as mulheres possam extravasar nesses idos de ser realmente nesses idos de ser realmente nesses idos de ser realmente nesses idos de ser realmente nesses idos de ser realmente nesses idos de ser realmente nesses idos de ser realmente nesses idos de ser realmente
todos os seus sentidos sensuais ali. E ele é restrito a mulheres mesmo, só pode entrar mulher, viu? E é legal porque é um happy hour que começa às seis da tarde.
E eu lembro que nessa época que a gente estava saindo da pandemia, o Clube do Batão estava com uma proposta muito interessante de parceria com movimentos sociais de favelas e de áreas periféricas e ele estava oferecendo ingressos para que mulheres de periferia também pudessem participar do clube. E no dia que eu fui, que eu conheci, realmente tinha muita menina da Baixada.
muita menina da Maré participando do Clube do Batom. E a Júlia me falou, vai sim, porque a gente está com essa atividade e tal, você vai sentir uma coisa diferente lá para a sua escrita, para a sua divulgação.
E aquilo fez todo sentido para o meu projeto, porque ver mulheres negras participando de um evento assim, erótico, com Google Dances, com dança, com música, onde elas podem dançar.
beijar à vontade, agarrar quem quiser. Isso foi muito legal, muito bacana de se ver, porque é algo importante você trazer essas experiências para o cotidiano das mulheres. Quem conhece a realidade urbana aqui no Rio de Janeiro, sabe, se você entra num metrô, num trem, o que você vai ver? Majoritariamente mulheres negras ou mulheres pobres, vindo de longas distâncias, de longos deslocamentos.
Essa é a realidade urbana das mulheres por aqui, da grande maioria. E o tempo que sobra não é um tempo em que elas vão necessariamente se alegrar nesse sentido. Pode até ter aqui e ali, mas uma das coisas que eu postulo muito também no trabalho do projeto Mulheridade Preta é que o tempo é um referente muito importante para a sua experiência sexual e sentimental.
Quanto mais tempo qualitativo você tem, mais possibilidades de você viver essa área da sua vida melhor, de forma mais plena, de forma mais dedicada. A ausência de tempo, essa retirada do tempo...
O que o capitalismo faz às mulheres negras é algo muito ruim, porque nos impede de participar de festas, de eventos, de encontros, de conhecimento com outras pessoas, sabe? Então, essa oportunidade que eu tive de conhecer no Clube do Batom, que o Clube do Batom foi ofertando para as mulheres pobres e mulheres negras, foi algo muito importante mesmo.
até mesmo para tornar esse tipo de experiência conhecida nesses outros territórios, porque até então era um evento muito frequentado pela classe média carioca, como se só as mulheres de classe média ou classe média alta pudessem ter o direito de se divertir.
Eu sei que os bailes funk também têm uma proposta semelhante, mas ali no baile funk não é só para mulher, entendeu? O Clube do Batom é um evento exclusivamente dedicado às mulheres, onde elas vão dançar, onde elas podem beber, conversar, se divertir, ter experiências eróticas, entendeu? De massagens, experiências sensoriais.
maquiagem, cosméticos, e também no Clube do Batom é possível fazer chá de lingerie, despedida de solteira, despedida de casada, então é uma produtora hoje que cresceu muito voltada para essa redescoberta do corpo feminino.
para essa outra forma de a mulher existir socialmente, sabe? Então é uma reconfiguração do corpo, do direito ao gozo, muito bacana, muito legal, e que eu super recomendo, cara, para toda mulher que estiver no Rio de Janeiro, tirar um dia e conhecer esse clube do batom, porque ele realmente é muito bom.
Que legal. Veja, e aí eu me dirijo aqui todo mundo que está vendo e ouvindo a gente, o capitalismo é foda, né? Porque nos tira, inclusive, o tempo de gozar com qualidade. Isso é foda. Isso é foda.
Ô, doutora Rita, veja, esse olhar colonial, ele construiu uma longa história de hipersexualização do corpo negro, como também regulou quem pode ser desejado e quem deve ser disciplinado. A minha pergunta é como transformar o erótico em potência de autonomia sem reproduzir os mesmos enquadramentos que, historicamente, objetificaram esses corpos negros, hein?
Sim, sim, sim. Eu acredito que a principal ferramenta de transformação dessa lógica hoje é a educação antirracista. Sabe, Saulo? E educação antirracista utilizando múltiplas ferramentas. A minha fotografia erótica, eu acredito que ela é sim uma ferramenta de educação antirracista. Por quê? Porque você abrir o seu celular ou o seu computador.
Ver fotos, vídeos sequenciais de mulher preta bonita, de mulher preta expressando o seu prazer e o seu gozo, isso já traz um olhar diferenciado.
para o que você pensa a respeito da mulher negra, sabe? Muitas vezes as pessoas veem o corpo preto como um corpo a serviço, como um corpo que está apenas para servir ao outro. Você mostrar o corpo preto feliz, um corpo preto bonito, interessante, sorrindo, se divertindo, se alegrando e gozando, isso já é uma ferramenta de educação antirracista.
E quanto mais outras ferramentas puderem ser associadas a essa educação, a essa linguagem, isso é muito bom. Isso é muito importante, sabe? Para retirar justamente o corpo feminino negro dessas caixinhas, desses enquadramentos. E eu acredito que também o cinema, o audiovisual são ferramentas muito interessantes nesse sentido, de você estar vendo cantoras.
rappers, poetisas, né? Falando sobre o corpo preto, sobre o erótico, tudo isso é muito legal. Mas eu acho que também o campo de produção da arte, ele tem uma missão muito importante de retirar esse enquadramento negativo das mulheres negras, sabe? Eu acho que eu acho que
O campo de produção da arte foi, principalmente nos séculos 18 e 19, ele construiu um lugar subalternizado para os corpos pretos. Isso quem estuda a história da arte sabe. As pinturas de Debré, as pinturas de outros artistas, as fotografias das expedições europeias.
vindo principalmente fotografar os ritos africanos, de religião africana. Então, tudo isso, toda essa iconografia, construiu um lugar subalternizado aos corpos pretos. Então, por isso hoje tem tantos fotógrafos, tem tantos curadores, militando, trabalhando para contracolonizar toda essa linguagem depreciativa que foi construída sobre o corpo preto. E você vê, na história da arte,
Você, antiga, né? Você não consegue ver um corpo negro feliz. Um corpo negro gozando. Mesmo na produção de arte erótica. Você vai ver quem sempre o corpo branco.
gozando, sensualizando, é sempre esse corpo branco, nunca é o corpo da mulher negra. Então isso também prejudicou muito a concepção, o senso comum e perceber esse corpo como um corpo também desejante, sabe?
Então, eu sei que, por exemplo, as revistas masculinas como Playboy sempre foram historicamente muito criticadas por isso, mas é importante isso aqui, a gente situar que a Playboy foi uma das primeiras estratégias iconográficas de trazer corpos de mulheres negras.
mostrando a sua sensualidade, a sua beleza. Isso aí já foi um gesto disruptivo, sabe? E a partir daí você foi construindo um estranhamento, mas também...
um outro entendimento, poxa, esse corpo está aparecendo, e por que ele está aparecendo, sabe? Então, é ao longo das décadas que a gente vai estranhar, mas também perceber esse outro modo de existir, sabe? Então, por isso que eu acredito que a educação antirracista e, sobretudo, o uso da arte na educação antirracista é muito importante.
para a gente desmistificar, desconstruir essa lógica e passar a perceber, entender e respeitar o corpo negro como também um corpo que deseja, um corpo que sente, um corpo que goza, um corpo que experimenta.
Maravilha, respeitemos, respeitemos. Veja, você falou em arte, a próxima pergunta tem a ver com isso, porque você é um artista boudoir, você já explicou o que é isso, e o boudoir, enquanto linguagem estética, nasce em contextos europeus específicos. E, doutora Rita, nesse contexto, o erótico funciona mais como linguagem artística, como método de pesquisa ou como ferramenta de libertação subjetiva?
Ou tudo junto? Sim, sim, sim. São as três coisas. Ele funciona das três formas, Saulo. Como uma linguagem estética, como um método de pesquisa. E eu já expliquei aqui o porquê que o uso do erótico, porquê que a fotografia erótica é uma ferramenta de conhecimento.
do nosso corpo e das nossas possibilidades de circulação no mundo e é também uma ferramenta de libertação e autonomia. Mas eu diria além. Eu acho que o boudoir brasileiro...
especificamente. E aí, por que eu estou pontuando o boudoir brasileiro? Quem é curioso, quem gosta de arte erótica, pode pesquisar em diversas redes, como, por exemplo, o Birense, que é uma rede que eu participo já há um bom tempo. Lá tem artistas boudoirs de todo o mundo. Você vai ver artistas boudoirs de toda América Latina, da Europa, asiáticas também.
Então, é possível fazer essa comparação de como se apresenta a arte erótica nesses diferentes países, nesses diferentes contextos. Eu acho que o erótico boudoir brasileiro tem uma especificidade, e sobretudo o boudoir preto e negro, que é o quê? Que é...
explicitar as nossas curvas e a nossa intensidade como um método de pesquisa, um método existencial muito singular. Todo mundo que vai notar a expressão estética buduar brasileira e, sobretudo, a negra, vai perceber isso.
quando é bem feito, quando é bem direcionado, sabe? A nossa arte tem esse poder de trazer um discurso, uma narrativa mais sensível e diferenciada quando você está observando com atenção esse corpo negro, essa intensidade negra, sabe? E não é um clichê eu dizer isso, Saulo, muito pelo contrário.
é realmente uma forma de tocar, de sensibilizar as pessoas de uma maneira diferente, sabe? Então, eu acredito que funciona dessas três maneiras, como uma linguagem estética, como um método de pesquisa, como uma ferramenta de libertação e autonomia, mas sempre referendando esse boudoir brasileiro negro como algo...
que performa, materializa essa nossa abolição de todos os dias. Eu acho que isso é muito importante de você olhar essa fotografia erótica negra com essa atenção.
Muito legal, doutora. Obrigado por mais essa explicação super abalizada. Veja, eu já tratei desse tema aqui algumas vezes, inclusive sobre educação sexual e tal, e toda vez que a gente fala de erotismo, eu venho de uma casa em que o erótico era reprimido.
inclusive pra mim que era menino, a gente sabe que existe uma certa permissividade pros homens e pras mulheres há uma repressão bem maior no que diz respeito ao erótico e a sensualização e a liberdade dos corpos
E falar de erotismo ainda causa desconforto em muitos espaços, inclusive acadêmicos e também, obviamente, religiosos. Esse incômodo revela apenas conservadorismo moral ou também o medo de perder certos mecanismos históricos de controle sobre os corpos, e aí não tem como eu não me lembrar de Foucault. Até que ponto explorar o erotismo pode se tornar um gesto de desobediência epistemológica? Doutora Rita Alves.
Muito bom, excelente pergunta. Eu não sei necessariamente se a exploração do erotismo pode ser um gesto de desobediência. Eu acho que a gente pode lutar para que o erotismo seja mais uma epistemologia.
para que ele seja incluído como um cânone, um campo de assunto a ser discutido, a ser aprofundado. E hoje, felizmente, pelo menos nos circuitos acadêmicos que eu transito, existem linhas de pesquisa de professoras e pesquisadoras que estão...
tratando, narrando exatamente sobre o erotismo. Cito aqui, por exemplo, a professora Maria Elvira Dias Benítez, do Museu Nacional, que ela coordena estudos e linhas de pesquisas voltadas especificamente para o erotismo. Pessoas, alunos de pós-graduação, mestrado e doutorado podem pesquisar, escrever.
dissertações e teses, defendê-las no Museu Nacional, falando só de erotismo, sabe? Então, eu acho que o erotismo hoje está se tornando mais uma episteme. As pessoas estão começando a entender que esse é um assunto necessário, premente a ser discutido, a ser tratado. Creio que nas igrejas evangélicas, nos campos religiosos, ele ainda assim...
É um gesto de resistência, de desobediência. Aí sim, eu diria. Porque, mas de uma certa forma, as próprias igrejas evangélicas, por exemplo, elas estão encontrando o seu jeito.
de o erotismo penetrar de uma forma ou outra. Sabe por quê, Saulo? Tem muita igreja evangélica fazendo evento para casal, sabe? Por mais que tenha toda uma ideologia de família nuclear, etc., etc., mas eu acho que é uma compreensão, ainda que ingênua, talvez, mas é uma compreensão para o fato de que o erotismo é uma coisa que você tem que nutrir.
você tem que falar, sabe? Mesmo que seja com base na Bíblia. Mas você tem que colocar ele na pauta do dia, sabe? Então, por isso que quando chega o mês dos namorados, o mês de junho...
Tem muita igreja hoje em dia, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, na zona metropolitana, o quanto que tem de igreja fazendo jantar de casal, retiro de casal, evento de casal, está uma coisa impressionante, que na minha época, por exemplo, de adolescência, eu não via.
nem pensar. Você fazer, assim, um retiro só para casais, sabe? Um evento, uma festa só para casais, isso não existia. E hoje em dia existe. Então, para você ver, né? As igrejas, mesmo que ali, né? No seu moralismo, no seu conservadorismo...
com as suas nuances, elas estão entendendo que o erótico é uma pauta que você tem que colocar na mesa também. Então, aí sim, ele começa a ser, paulatinamente, um gesto de desobediência. Eles estão entendendo que você tem que falar de erótico de alguma forma. Ou trazendo um pastor, uma pastora, sei lá. Tem até algumas igrejas mais para frente, progressistas, que até fazem chá de lingerie.
que permitem com que as mulheres organizem os seus eventos internos, e aí as moças vão lá e levam os produtinhos de sex shop, mas isso ainda é um número bastante tímido, tá, Saulo? Mas acontece, quem conhece o meu trabalho, o meu perfil, sabe que a gente gravou um podcast da Erótica com o casal Ana e Cláudio, do sex shop 69 Sexline, que é uma rede de sex shops que tem aqui no Rio de Janeiro.
E entre o público deles tem muito pessoal evangélico, sabe? Eles conseguiram, assim, encontrar também um jeito, uma linguagem de penetrar entre essa camada evangélica. Então, quem diz que evangélico não frequenta o sex shop, ó, tá mentindo, tá muito enganado, porque frequenta sim.
Até porque evangélico também faz papai e mamãe, né? Claro, com certeza. E muito.
Que maravilha. Doutora, veja, para a gente finalizar aqui esse regozijante bate-papo. Veja, se a gente pensa o erótico como território decolonial, que tipo de transformação cultural pode emergir quando mulheres negras passam a narrar, produzir e dirigir suas próprias imagens de desejo? Quem perde e quem ganha quando mulheres reivindicam o direito de desejar abertamente, de gozar tranquilamente?
Sim, eu acho que quem perde é a branquitude. Totalmente, sabe, Saulo? Em todos os sentidos. Porque olha só, vamos lá, vamos pensar assim, quais são os campos em que a branquitude, falando assim nessa relação de gênero, em que ela mais se manifesta? Eu acho que é no âmbito doméstico, né? É um âmbito assim que você vai ver de forma mais radical essas assimetrias de gênero e de raça.
Então, quando você tem uma mulher negra passando a existir sexualmente, reivindicando o seu erótico, você vai, por exemplo, ver essa mulher negra querendo sair mais cedo do seu trabalho, para poder ir a uma festa, para poder ir ao baile, para poder encontrar com o seu amado ou a sua amada. Entende?
Então, são momentos em que o erotismo negro vai começar a negociar com essa branquitude, com a existência dessa branquitude. Então, à medida que as mulheres negras vão se encontrando eroticamente, reivindicando esse lugar, esses espaços, quem perde é a branquitude.
Não só nessas relações capitalistas também, mas eu acho que até mesmo nas relações culturais, educacionais, as mulheres negras começam a transitar mais por outros espaços, começam a serem mais percebidas, desejadas.
ter mais direitos de escolha. E aí, nesse trânsito amoroso, nesse mercado amoroso, se tem mais mulheres negras namorando, amando, desejando, quem perde é a branquitude, né? Porque antes eram só elas que tinham esse direito.
De exercer o amor. E agora não. As mulheres negras estão aqui na pauta da vida e reivindicando também essa existência. Eu tenho visto, por exemplo, no Instagram um movimento que tem sido muito legal, de muitas influências negras, postando fotos, sim, sabe? Namorando, amando, gozando, viajando. Porque, segundo elas, elas dizem o quê?
que por serem militantes, por estarem atuando nas frentes de luta negra, muitas pessoas acham que postar fotos do seu gozo, ou do seu namoro, ou delas com roupas decotadas, sexys e tal, isso é como se estivesse vulgarizando a luta negra, quando na verdade não é nada disso, muito pelo contrário. Quando a mulher negra está gozando, está vivendo, está amando, está ali.
se fortalecendo para a luta antirracista. Eu acho que as pessoas precisam começar a entender isso, que a gente não é só militância, nós não somos só frentes de guerra, muito pelo contrário.
A gente é amor, gozo, liberdade também. Eu acho que quando a gente está nutrindo essas outras áreas, a gente está se fortalecendo a cada dia para combater o racismo, sabe? O amor, o gozo, o erotismo são, sim, ferramentas.
de luta antirracista. Então, quanto mais a gente exerce esse lado, esses direitos, a gente está se fortalecendo enquanto coletivo e quem perde é a branquitude, sabe? Então, é por aí que a gente vai conquistar mais universos.
Muito bom, deixa eu mais uma vez falar aqui pra audiência, né, antes da gente finalizar, transe, pra você ter mais energia pra lutar, é isso, né? Ratificada aqui na fala da doutora... Ratificada é isso. Na fala da doutora Rita Alves.
E depois desse grande bate-papo aqui, erótico, pomposo, regozijante, a gente infelizmente chega ao fim do Papo no Auge de hoje. Eu conversei com a doutora em Planejamento Urbano pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, artista visual e escritora Rita Alves, autora do Mulher e Idade Preta, erotismo decolonial para mulheres negras, na pauta o erótico e o decolonial. Doutora Rita, enorme, enorme satisfação conversar com você. Obrigado pela partilha.
generosa aqui com a gente e por sua presença em nosso podcast. Quem quiser saber mais sobre a temática e sobre seu trabalho, onde lhe encontrar, brigadão, viu? Obrigada a você mais uma vez, Saulo, pelo convite, pela oportunidade de estar aqui abrindo um pouco mais, né? Essas energias, esses canais eróticos.
para todos os seus ouvintes. Bom, quem quiser me conhecer melhor e encontrar mais do meu trabalho, podem acessar Facebook e Instagram arroba Mulher Idade Preta, né? Lá vocês vão ver.
todas as minhas fotos e vídeos e muito mais do meu material, e também textos reflexivos a respeito de tudo isso que a gente falou aqui. Quem quiser conhecer mais do meu trabalho acadêmico, do trabalho das megachurches, reportagens que eu já participei sobre o discurso estético feminino negro, podem ir no doutora Rita Alves, de DRA Rita Alves, arroba DRA Rita Alves.
E também tem o meu YouTube, onde eu lá posto vídeos, podcasts e demais informações a respeito desses temas, erotismo e evangelicalismo. Vocês podem encontrar no YouTube doutora Rita de Cássia Gonçalo 1204.
Muito massa, ela é muito fera, ela é muito fera. Obrigado mais uma vez, doutora Rita, muito, muito obrigado. E se você gostou desse conteúdo, não esqueça de avaliar o podcast Papo no Auge nos principais agregadores de áudio, também nos siga nas mídias sociais, no Instagram, arroba Papo no Auge, no LinkedIn, estamos lá no Saulo Novaes, no YouTube também, a gente está no YouTube, onde a gente está integralmente e também nos tocadores de podcast, que esse é um parceiro do Papo no Auge.
se associe ao nosso programa por meio da plataforma Catarse de Financiamento Coletivo e nos ajude a conversar com mais professores e agentes pedagógicos como a doutora Rita Alves que também abrilhantou este programa. Um grande abraço para todo mundo. Bora para o auge e bora transar, galera. Valeu. Isso. Beijo, galera. Beijos imensos e invenso. Tchau, tchau. Tchau, Saulo. Um excelente ano. Valeu, doutora. Obrigado.