Falar em público é um privilégio? Maria Castello Branco
A voz como herança, não como talento: quem a dá, e o que acontece a quem não a recebe
O que se perde em trinta segundos: a rapidez mediática e o custo da ideia pontiaguda
A técnica televisiva: porque começa sempre pela conclusão, e o que isso revela sobre comunicação
Rádio vs. televisão: o peso da imagem e a intimidade do ouvido
O problema do racionalismo: porque a razão não chega quando o medo já chegou primeiro
O pensamento clássico chinês: a coexistência do nada e do algo, e o que Aristóteles não consegue explicar
Portugal e a falta de cultura cívica: Tocqueville, o bowling e o vizinho que não conhecemos
O ego domado pelo absurdo: como se vive com o erro em público
Os tribunais medievais de animais: e o que o Descartes matou quando criou o sujeito moderno
"O maior privilégio de todos é sentir que a minha voz importa."🔗 Episódio: https://perguntasimples.com/falar-em-publico-e-um-privilegio-maria-castello-branco/
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Maria Castello Branco
- Voz Batista para CriançasA voz como herança, não como talento · Autorização para falar · Educação de meninas e meninos
- Comunicação e rapidez mediáticaO que se perde em trinta segundos · Técnica televisiva · Rádio vs. televisão
- O absurdo da existênciaPorquê que existimos? · O mito de Sísifo · Aceitação do destino
- Contradição e pensamentoDefesa da contradição como método · Aristóteles vs. pensamento chinês
- Liberdade de ExpressãoAutocensura e responsabilidade · Incomodar vs. causar dano · Imigração e criminalidade
- Tomada de DecisãoIntuição como método · Decisões intuitivas vs. racionais · Carisma em políticos
- Racionalismo e pensamentoO problema do racionalismo · Descartes · Filosofia ocidental vs. oriental
- Filosofia metafísica chinesaWang Bi · Coexistência do nada e do algo · Teoria da não-contradição
- Gestão do EgoO ego domado pelo absurdo · Admitir o erro em público
- Tribunais medievais de animaisTribunais de animais na Idade Média · Descartes e o sujeito moderno
o maior de todos é mesmo sentir-me ouvida, sentir que a minha voz conta e isso foi-me dado tanto na escola onde eu estudei durante 12 anos como na minha família em casa acerca das ideias mais do que outra coisa mas é a questão de se tu queres dizer alguma coisa se tens alguma coisa para dizer, diz e isso até pode influenciar eu conto-me uma história que já fica ridículo tantas vezes que é repetida mas sempre que falo sobre isto falo sobre aquilo sobre esta história e
E que não é nada de mães, mas marcou-me imenso, porque eu escrevi uma carta ao Daron Barroso com oito anos, porque a minha mãe disse, pá, escreve. Andava chateada com o chacos de plástico. Minha mãe disse, escreve, a Presidenta da Comissão Europeia, que por acaso é português, pode escrever em português. E eu disse, ok. Então escrevi, muito arrogante, com oito anos, não é? Tipo, se eu fosse o senhor, não quero ser, não sei o quê, mas eu fosse o senhor, como fazia, era isto. Tipo, eu, claro. E os meus pais amorosos não mudaram nada.
Escrevei à mão, mandei e recebi uma resposta, por céus. E eu acho que a cena de ter recebido uma resposta foi espetacular. Marcou-me mesmo, fiquei, ah, eu posso falar. E mesmo que isto não mude, claro que não se para o Chaco, evidentemente, mas as pessoas estão-me a ouvir.
E isso com oito anos é muito fixe, ter os adultos à tua volta que te dão essa sensação. Acho que a maior parte das pessoas não têm, principalmente as raparigas, que quando estão a crescer não têm essa sorte. E eu por acaso estive, portanto eu costumo dizer, isto não é nada meu, é só porque me deram esta oportunidade, percebes? É mais sorte mesmo, da vida, fortuna.
Será que eu posso falar? É talvez a pergunta que quase nunca fazemos, não sobre o que dizemos, sobre quem nos disse que podíamos dizer, mas quem decidiu que a nossa voz valia a pena ser ouvida? Quem nos deu essa autorização antes de qualquer argumento, antes de qualquer competência?
A maioria das pessoas nunca recebeu esta autorização. Cresceu a aprender a falar, mas não a falar em público. A ter opiniões, mas não a defendê-las. A pensar, mas não a dizer o que pensa realmente. Desta conversa ficou-me uma frase que não foi dita como conclusão, foi dita quase de passagem. Diz Maria Castelo Branco, o maior privilégio de todos é sentir que a minha voz importa.
Não a inteligência, não a formação, não a exposição, a voz. A sensação de que tudo o que se diz pode chegar a alguém e fazer qualquer coisa lá dentro. Essa sensação, não se aprende na universidade, é dada muito antes disso. Uma espécie de autorização tácita. Ou então não é dada e depois tenta-se compensar a vida inteira.
Maria Castelo Branco tem 26 anos. Comenta política na rádio, na televisão, na escrita. Estuda filosofia e metafísica chinesa. Defende a contradição como método. Desconfia de Descartes e tem um ego que, diz ela, tenta dominar com o absurdo. Mas a pergunta que lhe faço não é sobre política, nem sobre filosofia. É sobre o que acontece antes de qualquer opinião. Como se forma uma voz pública? O que se ganha quando uma ideia acaba em 30 segundos?
E o que se perde? Estas são perguntas sobre comunicação, sobre o espaço que existe ou não existe para pensar devagar num mundo que recompensa a rapidez.
Viva, Maria Castelo Branco, a maioria das pessoas normalmente estuda durante uns anos, prepara-se, faz uma carreira e depois lança-se no espaço público a dizer coisas. E tu és exatamente o contrário. Tu decidiste tomar conta do espaço público e fazer tudo ao mesmo tempo.
Quanto é que tu decides começar a dizer coisas ao mundo? Essa é uma ótima pergunta. Eu não sei se... Olha, não foi decisão nenhuma, nem a tomar conta do espaço público, nem a decisão nenhuma. É só... Eu costumo dizer isto, que é... Eu tenho imenso privilégio em imensas coisas.
E o maior privilégio de todos é que os meus pais deram-me uma sensação, desde muito miúda, de que a minha voz importa. Ou seja, que eu posso dizer coisas. És uma mafaldinha.
faldinha. No fundo, eu vou dizer alguma coisa e vou ser ouvida por isso e tenho a capacidade de poder dizer. Muito mais insuportável do que uma faldinha. Muito mais? Muito mais. Então, mas porque és impertinente. Sim, sempre fui. Como desporto? Dizem, agora vou conseguir incendiar aqui a mesa aqui dos tios, aqui no Natal para ver o que é que acontece e vou-me sentar enquanto... Eu adorava ter discussões...
adorava ter discussões à mesa, adorava, adorava, adorava com os adultos todos, pronto, e o meu pai e a minha mãe achavam piada a isso têm os dois académicos, portanto ajudavam-me a pensar e às vezes diziam tipo eu costumo dizer que a minha coisa na vida dá de issues o Freud explica, mas é ganhar uma discussão ao meu pai, tu caso lá
E o meu pai mandava-me estudar Dizia-me a minha mãe também Mas de uma forma muito engraçada e eu adorava aquilo Que era, pá, Maria, sim Tudo ideias muito interessantes, sabes, aquela coisa Tipo, sou miúda, acho que Não, é aquela coisa de Descobri isto E isto agora é a verdade universal Obviamente, tipo, é isto, é x, y, z E era uma epifania Sim, e eles diziam, sim, é muito engraçado Olha, já há uma extensa literatura Sobre o assunto consulta e depois vão falar connosco E eu, cá está bem fã
Nunca conseguia, sabes? E isso é muito giro Porque ao mesmo tempo nunca foi uma coisa meio condescendente Nunca foi, trataram-me sempre de igual para igual nesse sentido Portanto eram exigentes contigo Obrigavam, te estimulavam Te davam de pistas para entender o mundo Eu fazia aquilo um bocado só Ou seja, eu gostava daquilo Se eles não fizessem isso eu ficava um bocado aborrecida Eu durava aquilo
Então deixa-me entrar na tua cabeça. E o que é que tu pensavas no teu íntimo... Não sei em que idade é que tu tiveste consciência do gozo que te dava convencer aqueles dois seres que eram os teus pais e, portanto, que te davam essa liberdade. Quando é que tu tens essa consciência? Não sei. Não sei se tenho consciência. Acho que é completamente...
Mas eu desde mesmo muito pequenina, eu gostava muito de discutir. Eu gosto imenso de discutir, eu gosto de discutir por desporto, de discussão. Às piada. E os meus irmãos são iguais, portanto aquilo é em casa. Então é sempre, é quase todos os jantares são uma grande discussão sobre alguma coisa. E entre todos, e depois é engalfanhar-me-nos um bocado, mas é sempre sobre, nunca é sobre as pessoas em si, é sempre sobre meio as tuas ideias, não é?
E é o gozo da argumentação, o gozo quase aristotélico do argumentário, ou a ideia de ganhar? As duas coisas. Eu não sei se consegues separar. És competitiva, hein? Super.
insuportável queres ganhar sempre? quero, mas não, sim mas eu tenho tenho humildade para reconhecer que às vezes não dá, pronto mas a maior parte das vezes não dá e depois uma pessoa cresce e fica menos insuportável mas isto eu estou a pensar nesta fase em que tu me estás a perguntar estás-me a trazer lá atrás e por isso eu estou a responder lá atrás queria imenso ganhar, lá está, eu disse a minha grande coisa é ganhar uma discussão ao meu pai, não consigo e é ótimo, não conseguir, eu gosto e é ótimo, não consigo
Não consegues porquê? Porque ele te troca as voltas? Porque ele sabe mais coisas e tu estás sempre a entrar no campo dele? Como é que isso funciona? É porque eu escolhi a minha área. Eu escolhi a área do meu pai, que é a filosofia política. E, portanto, nós temos muitas discussões sobre filosofia política. O que é que ele te disse quando tu escolheste a área dele?
A área dele que agora é tua, não é? Ficou assim, tipo, o que é que estás a fazer à tua vida, Maria? E, mas pronto, deixou. Lá deixou. E tu lá foste? Lá fui. És uma espécie de filhinha do papá ou não?
Sim, de certa forma Ou perturba-te essa ideia Desse rótulo de ser Finhinho do papá? Sim, intelectualmente sim Nós tivemos sempre uma relação mais Durante o início Tenho uma relação hiper-umbilical com a minha mãe Hiper-emocional, hiper-umbilical Com o papai sempre um bocadinho mais Intelectual até assim Ao meio da minha adolescência E depois Agora tivemos uma relação mais emocional Também bastante forte, é ótimo Obrigado
O que é que eles te dizem? O que é que eles me dizem quando? Todos os dias, sim Quando te veem na televisão No fundo na tua performance diária São os queridos, são os meus maiores fãs É uma coisa muito querida Não te dão na cabeça, não te dizem Bom, me tens aqui numa molhada de brócolos Zero Dão-te mesmo essa Minha meditude, é um amor Olha, tu tens os pais que te apoiam Então e aqueles que achavam que tu devias Era estar calada?
tens esses amigos também? dizem, pá, Maria, não digas isto não isto vai dar-me uma grande confissão não de todo fala-me do teu processo mental como é que tu constróis as tuas ideias para as dizer como é que é o teu processo de gravidez mental
Isso é linda, essa expressão. Eu imagino, quer dizer, uma das razões para nós gravarmos esta conversa e que era a pergunta implícita que eu nunca disse, disse-te imediatamente antes de começarmos a gravar, é possível pensar bem em público? Se é possível ou não é possível? E eu quero entender muito do que é que alguém que nos tem que explicar a realidade, o filtro da realidade, com mil assuntos que estão a acontecer.
Como é que funciona? Como é que funciona a tua máquina de lavar mental? Não sei, é muito intuitiva Eu acho que sou muito intuitiva E é uma coisa às vezes um bocadinho confusa Mas às vezes sai-me Tenho intuição É uma coisa muito estranha Eu não consigo bem explicar, mas às vezes tenho intuições É isto
E depois às vezes digo, mas porquê que eu estou a achar que é... Mas porquê? E depois, isto não só no comentário político, que às vezes é uma coisa mais... Mas eu a escrever a minha tese de mestrado, que é uma tese em filosofia metafísica, que é uma coisa um bocadinho mais pesada, se quiseres, não é preciso entrar aí, mas eu tinha intuições... É preciso, porque eu quero saber o que é a filosofia... Como é que é? Da metafísica.
É mais metafísica, é assim, é a filosofia antiga chinesa, que eu apaixonei-me pelo Wang Bi, que é um homem que morreu aos 23 anos na dinastia Han na China, que há uns bons milhares de anos, e ele escreve os textos mais influentes sobre os textos clássicos chinenses, e ele morre aos 23.
E deixou uma obra Incomensurável Atrás E eu apaixonei-me por ele mesmo Dos únicos homens porque eu me apaixonei na vida Eu apaixonei-me por mulheres, não por homens E portanto Dá jeito porque ele já não está cá, não é? Se não ficavas em dúvida, não Claro
mas ele é assim fabuloso e eu quis mesmo estudá-lo e tinha coisas que era tipo como é que eu vou explicar que eu estou com uma intuição que a filosofia ocidental não consegue explicar o nada a indesistência porque não tem uma concepção
com uma filosofia oriental do infinito ou confunde o infinito com a eterna são ideias que eu tenho e depois tenho que lá chegar mas é uma intuição e depois tenho que lá chegar e é quase como se eu estivesse a partir pedra para tentar chegar e depois quando chego é uma felicidade imensa e depois fico, que chatice, agora já acabou
E depois tens um pequeno problema É como possível, percebes? Não sei se é que é Como é que depois tu pegas numa ideia complexa Que ainda por cima nasce de uma intuição E a consegues explicar a um grande público Que não tem os teus referenciais Que não tem a tua intuição Mas, no fundo Pagam-te para explicar o mundo Que é complexo Sim, felizmente não pagam para explicar Esta coisa da metafísica Porque eu acho que tinha muito mais dificuldade Porque são São...
Eu acho que tu tens que... Não sei. Eu gosto muito de comunicar, gosto muito de falar. Desde pequenina sou muito faladora. Às vezes até demais falo pelos cotovelos. Olha, e a diferença entre falar e ser ouvida? Também a sentes? Claro. Sempre. Sentes-te ouvida?
Sinto, mas é isso, eu acho que é um grande privilégio, o maior de todos, tendo existido muitos, evidentemente não é isso, mas é que o maior de todos é mesmo sentir-me ouvida, sentir que a minha voz conta. E isso foi-me dado tanto na escola onde eu estudei durante 12 anos, como na minha família em casa.
acerca das ideias, mais do que outra coisa mas é a questão de se tu queres dizer alguma coisa, se tens alguma coisa para dizer diz, e isso até pode influenciar eu conto muito de uma história que já fica ridículo tantas vezes que é repetida mas sempre que falo sobre isto, falo sobre aquilo sobre esta história
E que não é nada de mães, mas marcou-me imenso, porque eu escrevi uma carta ao Daron Barroso com 8 anos, porque a minha mãe disse, pá, escreve, andava chateada com o cheque de plástico. Minha mãe disse, escreve, a Presidenta da Comissão Europeia, que por acaso é português, pode escrever em português. E eu disse, ok. Então escrevi, muito arrogante, com 8 anos, não é? Tipo, se eu fosse o senhor, não quero ser, não sei o quê, mas eu fosse o senhor, como é, era isto. Tipo, eu, claro. E os meus pais amorosos não mudaram nada.
Escribi e à mão mandei e recebi uma resposta. Eu acho que a cena de ter recebido uma resposta foi espetacular. Marcou-me mesmo. Fiquei, ah, eu posso falar. E mesmo que isto não mude, claro que não se para o chaco, evidentemente, mas as pessoas estão-me a ouvir.
E isso com oito anos é muito fixe Teres adultos à tua volta que te dão essa sensação Acho que a maior parte das pessoas não tem Principalmente as raparigas Quando estão a crescer não têm essa sorte E eu por acaso estive Portanto eu costumo dizer isto não é nada meu É só porque me deram esta oportunidade É mais sorte mesmo da vida, fortuna Principalmente as raparigas O que é que isso quer dizer?
Há uma diferença gigante na forma como nós educamos os rapazes e as raparigas Enorme Ah? Claro Tu tens irmãos? Tenho, dois irmãos mais novos E então, fala-me disso Amos São as minhas melhores amigas Mas eles também beneficiaram dessa forma cultural de educação? Claro, beneficiam todos Beneficiam e depois têm coisas boas e coisas más Na forma como educam os rapazes e as raparigas
Porque são duas formas muito diferentes e têm as duas formas, os seus senãos. A forma que tu educas... Dou o teu exemplo. Eu acho que toda a gente vai perceber mais ou menos isto. Se tu estiveres num parque de crianças, com crianças de 4 ou 5 anos, a facilidade que tu tens de elogiar um rapaz pela sua coragem...
porque é um corajoso, porque é um guerreiro, é não sei o quê, vai nananã, está a descer os corregas, sem medo. É muito maior do que a facilidade de tu tens de elogiar uma rapariga exatamente pela mesma coisa. Provavelmente tu vais elogiar sem querer. E acho que toda a gente cai nisso, eu própria cai nisso, e tenho que desconstruir. Provavelmente eu vou elogiar uma rapariga porque ela é muito querida, porque é muito princesa, porque é muito bonita. E, portanto, quando tu cresces a ter a validação externa,
associada à tua coragem versus a tua bondade ou ao teu cuidado ou ao teu bom comportamento o teu bem-estar ou o saber-estar ou a tua beleza isso difere, isso faz com que tu fiques diferente em sociedade, porque tu aprendes que as pessoas valorizam mais uma coisa ou outra
Agora deixa-me provocar-te, tu estás no universo Mediático também, porque obviamente falas bem Porque obviamente te articulas Obviamente és de uma nova geração E as televisões decidiram começar A colocar mulheres, jovens Inteligentes a comentar Mas tu és bonita e obviamente A televisão gosta de pessoas bonitas A falar na televisão
Sim, talvez. Portanto, no fundo, o que tu me estás a dizer é que, por um lado, nós temos uma fórmula de tratar rapazes e raparigas, de uma forma ou de outra, mas com ideocinacias próprias. O que te pergunto é, é possível ter uma liberdade, não é uma autonomia, uma liberdade absoluta e tratar igual os géneros, da mesma maneira?
Se é possível teoricamente ou se é possível, ou seja, as pessoas fazem isso. Se isso fazem, podemos ir fazendo cada vez mais. Claro que podemos ir fazendo cada vez mais. Sim, acho que há... É assim, em última instância, não é tratar toda a gente da mesma forma porque senão de repente somos autómatos, não é? Ou seja, eu vou tratar de uma forma diferente que trataria outro homem porque tu és uma pessoa muito específica e ainda bem na tua individualidade.
E eu também, portanto, cruza-se aqui uma coisa que surge uma interação que é única. Só existe entre mim e ti, como só existe entre mim. Essas coisas, evidentemente, que acontecem. Agora, podes é tentar reduzir esta diferença na educação, principalmente na educação na infância, que depois leva a que os rapazes, por exemplo, só possam ser corajosos e não possam ser frágeis.
Não podem chorar. Exatamente. Ou que as raparigas só podem ser cuidadoras e bonitas e não podem ser muito inteligentes. Porque como assim uma rapariga bonita e inteligente? Não faz sentido, não é? Tens imenso isso ainda hoje em dia. E as pessoas têm estes preconceitos, que não são...
A responsabilidade delas em última instância, porque lhes foram impregnadas, por usar a tua brincadeira da gravidez das ideias, tiveram gravidez de ideias muito cedo, ideias que não são delas, que são passadas e passadas e passadas a longas gerações, e é bom ir desconstruindo porque não ajuda ninguém, não ajuda nem os rapazes que não podem chorar, nem as raparigas que não podem argumentar.
Olha, voltamos às ideias complexas e ao mundo complexo e que nós não conseguimos entender, quanto mais controlar. O que é que se perde quando se tem que transformar uma ideia complexa numa coisa que muda a nossa vida em 30 segundos, num som de baita, na rádio ou na televisão? Giz, perde-se tudo, perde-se a complexidade.
toda, perdes tudo repara a rapidez permite permite uma como é que eu vou pôr isto a rapidez permite que as ideias sejam mais ásperas
mais pontiagudas, se quiseres. Ou pelo menos, para passares uma ideia em 30 segundos, é obrigatório quase para ela passar mesmo e para ficar num soundbite, como tu dizes, que ela seja áspera e pontiaguda. Mas se ela é áspera e pontiaguda, perde os contornos que a fazem ser disponível para ser dissecada, não é? Perdemos as nuances, no fundo.
Sim, exatamente. Tu pegas numa ponta de uma faca, quase ou de um vidro, cortas, porque sabes que isso vai produzir um efeito, vai produzir uma reação, e compactas imediatamente ali a ideia, e tu sabes que ela vai ficar. Sim, eu acho que sim. Repara, por exemplo, na televisão é uma coisa que eu tenho vindo a perceber, ao longo destes dois anos que eu estou a fazer isto, que é, se eu começar com a conclusão e depois explicar, agarro muito mais as pessoas do que se eu começar com o meu processo mental.
Faz sentido O que acontece normalmente é que A conclusão às vezes até pode ser Um bocado polémica, até é bom que seja Em televisão é bom dar boa televisão Se eu disser assim Eu acho que não dá só boa televisão Eu acho que dá um gozo tremendo fazê-lo
Eu adoro Eu gosto às vezes de picar às pessoas Acho piada Eu vou picar aqui o engravatado que está aqui do lado direito Eu acho que isso te dá gozo Sim, também Não dá a toda a gente Eu acho que dá Eu acho piada Mas depois tens de ter sustentação Não é ser polémico por ser polémico Isso eu não acho tanta graça Acho que é um estilo Eu acho que é um estilo
Mas ser tipo Do contra só por ser de contra Mas às vezes Eu acho piada dizer assim A conclusão e a conclusão às vezes é tipo Oh, espera, e depois chegas lá e é ok E tudo aquilo é explicável Pela racionalidade? Não, de tudo Eu odeio o racionalismo Eu não gosto mesmo Estas pessoas ficam, olha lá está Estás a ver? Isto é um hot take
Isto é um hot take, isto tem zero nuance, isto é pontiagudo. As pessoas ficam assim, como assim, ela odeia o racionalismo. Pronto, e depois eu até posso explicar, mas isto é um exemplo. Sim, perto de imensa coisa. Se eu só dizer isto e não se planar, as pessoas acham que eu sou, tipo, não sei o quê. Tens que explicar. Pronto, exato. Depois tens que explicar sempre, não é? Mesmo que não seja um argumento racional, pode ser um argumento emocional, pode ser uma sensibilidade.
Sim, mas há tanta coisa que não cabe na racionalidade. Sei lá, há tanta coisa que não cabe na razão. Tanta, tanta, tanta coisa no mundo que não cabe na razão. E se tu tentares explicar pela razão, perdes completamente a coisa. O comentário pode ser epidémico? Pode ser uma coisa quase de repulsa ou de paixão? Claro. E normalmente é, sei lá, a política é uma coisa de paixão. Eu não acho que a política seja assim tão racional como as pessoas tentam fazer. Fala-me da política. Explica-me a política. Não sei.
Não sei explicar, a besiga existe... Opa, ia-se passar, lá está, olha, pronto. Mas eu acho que a política é muito totalizante, acho que a política está em todo lado. Isto é uma coisa até bastante marxista, vem de uma ideia marxista, mas não concordante com o que o Marx... Porquê que o Marx diz isto?
eu acho que ele tem alguma razão na conclusão a que chega, lá está a conclusão e depois a explanação, a política está interlulada nós estamos a fazer política de certa forma, não é? o facto de eu ter uma voz e de tu teres uma voz implica tem implicações políticas interessantes
Ou de nós, ou podes até não ter uma voz, mas tens uma interação na rua com uma pessoa que depois tem repercussões nessa pessoa, que depois vai ter repercussões na família dela, que depois vai ter repercussões na família, na sociedade, etc. A política é a polis, é a tua vida em comunidade. E, portanto, acho que há muitas coisas que não são racionais, tal como há tantas coisas que não são racionais, na interação pessoal. Tipo, acho que a política, como é feita, tem interações pessoais, é muito pouco racional.
Olha, e o que é que é um bom político? Depende. Podemos desenhar um retrato robô? Não, em que sentido?
Em todos? Quer dizer, vamos lá ver. Podemos medir isto com enquanto sucesso? É aquele que ganhou as eleições? É aquele que conseguiu convencer os outros de que as suas ideias são melhores? É aquele que ocupa mais espaço e mais tempo? Ou é aquele que faz coisas que verdadeiramente mudam a nossa vida? Eu posso ser mais específico na pergunta.
Há uns políticos que nos parecem bons na forma, mas que fazem muito pouco. E há outros que fazem coisas extraordinárias e que toda a gente está a dizer mas ele não presta para nada. Forma e conteúdo.
Pois, mas... Isso é uma boa questão, mas eu não tenho resposta. Como é que tu escrutinas os teus... Estou a imaginar-te a ti, tu eleitora, a escrutinar com toda a tua complexidade, a escrutinar o momento em que vais votar numas eleições.
Qual é a tua régua? Como é que é a tua régua? Como é que tu medes? O que é que tu procuras? Intuição. É um bocado intuitivo, não te sei explicar, mas... Ok, um bom político, não sei, porque acho que tens bons políticos, podes fazer uma política com uma arte da política, não é? Que não sei bem o que é que será, mas assim é uma coisa de... Sabem, são bons em retórica, têm muito carisma.
são pessoas com ideias muito fortes que conseguem, com fortes capacidades de liderança, com fortes capacidades interpessoais, etc, etc são bons líderes isso é um bom político, também podes dizer, sim um bom político também é uma pessoa que como tu disseste, pode não ter essas coisas mas que depois é uma pessoa com imensa visão e que consegue transformar o país eu acho é que uma pessoa com imensa visão e aí
e que tenha muito boas ideias se não tiver as outras coisas todas não consegue transformar o país a não ser que tu vivas numa tecnocracia portanto eu acho que tens de ter as duas coisas porque precisa de convencer os outros sim, por si tu usaste a palavra carisma o que é o carisma? não sei definir
Não sei definir racionalmente. Mas eu acho que presento-se o carisma das pessoas. Portanto, vamos lá ver se eu consigo entender a tua cabeça. Tu és alguém que analisa o mundo, que dizes que a intuição é ótima, que até me permite ter um vislumbre sobre a realidade. Os políticos racionais ou as ideias são umas coisas assim, são muito importantes, mas eu quando vou votar, aquilo que na realidade vejo é uma intuição e um carisma e aquilo que eu sinto mais do que eu penso? Ou estou a ser injusto?
Não, não é o que eu sinto mais do que eu penso É as duas coisas Eu não consigo dissociar Eu acho que há um problema Que nós temos deste sujeito cartesiano Se quiseres Quando eu digo que não gosto do racionalismo Eu não gosto do racionalismo filosófico Eu não gosto do Descartes Vamos já matar o Descartes Sim, é um hot take Quer dizer, eu gosto, mas eu estou a ser Proposentadamente provocadora Calma, se as pessoas estiverem a ouvir Ficam tipo, é aí, não
São só os três filósofos. O Desidério Murcho é que pode eventualmente comentar se tu não gostares de um determinado filósofo. Pode comentar. Eu acho que toda a gente... Repara, a minha questão é... Eu não gosto de... Mentira. Eu gosto de alguns filósofos racionalistas, mas eu não acho que tu possas separar a razão e não acho que tu possas separar... Não acho que possas separar a razão da corporalidade. Do corpóreo.
E, portanto, não acho que tu sejas só esta coisa... Não acho que as melhores decisões sejam decisões puramente racionais, não acho. Acho que as duas coisas podem coexistir. Acho que podes ter uma decisão que é muito intuitiva e que tem também um elemento de racionalidade, evidentemente. Não é tipo, ah, agora gosto tanto desta pessoa, vou votar nela, mas ela quer acabar com, sei lá, as mulheres. Mas tenho ali uma atração para esta pessoa. Não é isso, não é?
Mas hoje em dia nós temos... Eu estudo programas eleitorais e gosto muito de estudar programas eleitorais. Atenção. Então és tu. Tu és aquela pessoa que lê mesmo os programas eleitorais? Epá, mas por defeito de profissão. Tipo, eu tenho que ler, não é? Mas eu acho piada. Do que tu não lês os programas eleitorais? Eu leio alguns, mas depois a grande parte daquilo parece-me palha. Honestamente. Pois é, é completamente. Depois há ali umas coisas que são interessantes.
E há ali algumas coisas que são interessantes, mas que não estão escritas para eu entender.
Sim, também, verdade. A linguagem que lá está escrita, a linguagem, no fundo, até se me ocorre uma pergunta para ti, que é... Olha, lá está, mas isso responde, desculpa, mas isso responde à tua questão, que é às vezes podes ter uma linguagem tecnocrata que até pode ter uma ideia brilhante, até pode ser, tipo, a melhor visão para o país que tu podes imaginar. Tu até concordarias com ela 100% se ela tivesse explicada de outra forma.
Mas é a melhor ideia do mundo. Mas está explicada de uma forma que é completamente tecnocrata.
E, portanto, não, tu não consegues ter só um bom político só porque tem boas visões e depois não tem respondida à tua pergunta, mas depois não tem capacidade nenhuma de comunicar. Porque aí vai-te acontecer sempre isso. Vais estar a olhar para ele e vais estar a ver, tipo, aí, está feito uma linguagem que é suposto, tipo, eu não entender. Exato. Aqui o ponto é, se aquilo está feito porque eu não entendo e não tenho capacidade intelectual para entender, ou se aquilo está escrito...
de uma determinada maneira, com uma linguagem tão precisa que não me permite chegar ao âmago dessa questão. Além dos programas eleitorais, da esquerda à direita, eu diria que eu consigo concordar com 95% dos programas todos, do que lá está escrito. Pois há 5%. Ah, porque são muito, tipo... Nas grandes áreas. Contra as coisas boas e... Não, a favor das coisas boas e contra as coisas más.
Busca do bem comum, vamos por aqui. É, é, consegues concordar tanto com o programa eleitoral do Bloco de Esquerda como da Inicidade de Liberdade. Eu consigo ler ideias lá que eu diria, ok, eu... 90% um e 90% outro. Eu faria uma espécie de buffet. No fundo, pegava no meu tabuleiro e dizia, pronto, deste eu quero isto, deste eu quero aquilo, daquele... Se calhar é uma forma... Depois a pergunta que se me ocorre é dizer assim, ok.
quem é que vai conseguir fazer isto? Como é que vai fazer isto? Em quanto tempo é que vai fazer isto? E que opção é que vai tomar? Mais depressa ou mais devagar? Essa é uma pergunta que eu me ponho, não é? Porque os países avançam. Quer dizer, nós às vezes pensamos que as coisas não mudam, não é? E está sempre tudo igual. Não, as coisas vão progressivamente evoluindo. Mas no aspecto das ideias que lá estão, muitas delas são...
Ou encriptadas Ou tão genéricas que dão para tudo Sim, a maior parte das vezes tão genéricas que dão para tudo Já entraste num estúdio Sem te teres preparado Para o que ias fazer ou comentar Vamos Maria, é indireto Junta-te para Para comentar o mundo Já porque o que acontece É mesmo muito tipo em cima E portanto sim, mas a maior parte das vezes não
Ou seja, sei lá, às vezes há coisas que acontecem Não sei Por exemplo, a última coisa que eu me lembro Que eu entrei mesmo assim É que eu estava a ter um jantar em minha casa E a ministra da administração interna Demitiu-se E ligaram-me, tipo, consegues estar aqui em 20 minutos E eu fiquei, não, não consigo Porque literalmente demoro 20 minutos E depois há uma parte muito chata que as pessoas não veem Que é tipo, estás uma hora, quando és mulher Estás tipo
Não é chata porque elas fazem magia God bless Fatih, que me maquilha quase todos os dias é a Fatih ou então é a Lúcia, tipo à noite e são mágicas e o Dani também é mágico a fazer o meu cabelo, etc
É incrível, só que é tipo uma hora Do tempo deles e do meu tempo No sentido em que se eles disserem assim Entra daqui a 20 minutos Não, não posso, estou irreconhecível Se eu entrar assim na antena vão ficar tipo Quem é esta gaja? E eu fiquei tipo, não consigo E eles...
mas a ministra acabou de se demitir e eu percebo estava num jantar na minha casa era um bocado intenso emocionalmente de outras coisas que não vale a pena e eu fechei-me no meu escritório liguei o Skype para entrar e entrei preparei-me, não não me preparei porque é impossível preparei-me um bocado, já sabia que provavelmente a ministra se ia demitir, mas não sabia que ia ser ali nem sabia como é que ia ser portanto há coisas que tu não estás preparado e aí
E naqueles minutos antes, tu vais à procura de ler coisas, organizas um bloquinho de notas para tirar duas ou três notas, o fundamental? Sim, sim, eu preciso escrever à mão as coisas. Tipo, eu tenho um tico qualquer que é, sempre que estou a entrar na antena já posso ter escrito tudo, uma outra, posso ter escrito tudo já, mas preciso estar a escrever mesmo antes de entrar, que é para ter a certeza que tenho as coisas na minha cabeça e quase para me lembrar.
Mas isso é charme para a Câmara te apanhar a escrever? Não, porque não apanha, não apanha. Não apanha, juro que não. Podia ser charme para os meus amigos pivôs ali, mas não é sequer. E a Câmara faria um zoom, tu levantarias os olhos e produzirias uma... Se repente é completamente cinematográfico. Porque era isso. Poderava, podes falar com os realizadores a dia a dia. E dizer, não, dá-me aqui logo um plano de não sei o quê, ou um ar escandalizado e depois uma produção de uma declaração de licor doce.
Sim, uma coisa assim, tipo... Ou então uma coisa muito itch-cock. E eu olhar assim para a câmera. Tu brincas com a câmera? Brinco, brinco. Mas sem querer, pá. Sem querer. Sem querer. Já me disseram que sim. Mas é que não é de propósito. Não sei explicar. Olhas para a câmera? É pá, olho. Porque às vezes estou a olhar para o tempo.
E eu estou tipo, às vezes estou a olhar para a minha imagem e estou a pensar será que eu estou bem ou será que estou com uma figura horrorosa porque às vezes já me aconteceu estar assim com o cabelo para aqui e eu não estou a perceber que está, não é? Às vezes olho porque aquilo tem assim um mini ecrã por baixo e às vezes sim Faz um espelho feito câmera
Sim, mas as pessoas dizem-me que às vezes faço ar para a câmera. Não é mesmo propósito. Às vezes fica assim e as pessoas gozam um bocado com isso. E tu estás a dizer... Lá está, porque... Mas tu quando estás a produzir uma ideia... Sei lá, eu tenho uma câmera aqui à frente. Tu achas que estou a brincar com a câmera? Não sei. Eu às vezes posso olhar, mas não sei. Mas é que as câmaras da rádio são câmaras discretas. São câmaras que não são o objeto principal.
Quer dizer, o objeto principal aqui são os microfones. Nós, em princípio, gravamos em vídeo, mas estamos a falar ao ouvido das pessoas.
Eu gosto muito disso, sim. Tu agora estás na telefonia, tu agora estás no contraditório aqui na Antena 1. Como é que é a experiência de comentar na telefonia? Adoro. Eu tenho um podcast feminista com duas amigas minhas, de três mulheres jovens, a falar de política, da concorrência. E eu gosto muito. Nós começámos na rádio e era muito giro. E depois passámos para um...
jornal e é muito giro voltar à rádio numa coisa completamente diferente, porque é muito diferente mesmo, é mais giro, eu acho que fico muito mais solta a falar. Primeiro posso sentar-me como estou sentada agora, para as pessoas que só estão a ouvir, eu estou completamente torcida na cadeira, na televisão não posso fazer isso e é chato, posso-me descalçar, na televisão não posso sempre descalçar, às vezes posso.
O que é ótimo. Olha, a experiência do podcast versus a experiência da rádio mais formal muda alguma coisa na tua cabeça? Isso também muda, porque sim há uma coisa mais formalidade mas também porque nós no podcast o público é mais jovem
O nosso público é bastante mais jovem. E tu consegues saber quem é o público também? Tem essa vantagem nos podcasts? Sim, sim. Sim, pelo Spotify, pelas coisas que tens análises. E, portanto, sei que o nosso público era maioritariamente feminino, mais jovem.
E depois nós somos as três melhores amigas e portanto estamos assim é muito informal, às vezes esquecemos-nos que estamos a gravar e às vezes saem-nos coisas um bocado às vezes temos de pedir mesmo para cortar aquilo, não é? Porque aquilo não dá para ali Porque é demasiado bárbaro? Porque te arrependes?
Porque é demasiado íntimo Por acaso eu esqueço-me Mas há uma intimidade na rádio também Aqui também, que eu não consigo ter Em televisão e eu própria sinto Eu já comentei Por acaso acho que nunca comentei com a Luísa Na RTP, mas já com o António E com a Natália E há uma diferença até de química Eu sinto
aqui nesta mesa onde nós habitualmente gravamos até às vezes noutro sítio mas aqui há uma diferença de química aqui versus na televisão porque as câmaras estão lá de facto como tu dizes, porque a luz é diferente porque há uma maior gravidade em que tu sentes que estás a entrar em casa das pessoas pela sala não sei explicar do que tipo estás no carro para mim é um bocado diferente Sentes esse peso?
O peso da imagem, sim. Há um peso da imagem muito grande. Eu quando ouço rádio, quando estou a ouvir a telefonia, sinto-me parte daquilo. Quer dizer, eu estou lá, há ali umas pessoas que estão a conversar comigo, mas eu estou mais tranquilo. Se calhar a televisão tem essa gravitas.
Tem, tem. Eu acho que sim. Eu acho que ainda tem essa... Há uma morte anunciada da televisão há mesmo tempo, mesmo na minha geração e tal. Mas eu acho que a televisão ainda tem uma pila diferente. Se é uma coisa... Tu próprio sentes... Eu próprio sinto-me um bocado mais... Eu sinto-me diferente, mas eu gosto mais... Sinto-me mais à vontade se for para falar de ideias e se for para estar à conversa e se for ao sei o quê. Eu prefiro o à vontade de rádio.
desta conversa. Olha, fala-me dessa química. Essa química com a rádio, com o microfone, com as pessoas, depende também de quem é a tua contraparte?
Quando é que não depende de quem é que é a contraparte? Não sei. Depende sempre? Sim, mas acho que no geral, não? Como toda a gente, tu não sentes isso. Eu sento, mas quer dizer, eu tento sempre... Mas isso é um defeito jornalístico, não é uma qualidade, é um defeito, que é o defeito da neutralidade, não é? O princípio de que tu mantens sempre uma distância em relação a outra pessoa, em relação à sua ideia, uma neutralidade também. Acho que isso é tão português, pá. Uma asépsia? Acho que isso é tão português.
Devemos ser mais implicados? Ah, completamente. Nós tratamos a política... Por acaso escrevi sobre isso no outro dia. Eu acho que nós tratamos a política como se fosse um pecado. Como se fosse... Nós em Portugal. Não é tipo nós humanos. É nós em Portugal temos um problema com a política que eu acho que vem do Salazar. Ou se calhar antes até. Não pensei sobre onde é que virá. Mas há uma...
Toda a gente quer sempre manter esta ilusão Do assético, sim, tu disseste bem Do puro, da neutralidade Não diz que é neutro Tu vais a Inglaterra, eu tive a ver a Inglaterra Tu vais a Inglaterra à BBC Vês as entrevistas a que os políticos são sujeitos É uma coisa extraordinária Não é nada neutro
Nem em Inglaterra, nem em França. Os senolistas franceses são muito implicados. A sociedade francesa é hiper implicada, a sociedade inglesa também. Eu estou a dar estes dois exemplos, reconheço melhor. Mas aqui ao lado também, em Espanha, nós somos, é sempre quase como se nós tivéssemos que manter uma distância em relação à política, porque a política é suja. E tudo o que não se fala de política à mesa. Não se fala de política nem de religião.
Isto é uma coisa tão portuguesa. Eu acho pequenino, de Portugal, acho uma coisa... Porque nos bloqueia.
Não, porque eu acho que nós não temos uma cultura democrática. Nunca tivemos. Acho que nós não temos uma cultura democrática. Acho que o 25 de Abril foi um milagre em Portugal. Mas acho que o nosso país não tem uma cultura assim tão... Obviamente a comprar com a Inglaterra ninguém tem, não é? Carta magna. Mas acho que não temos. Acho que não temos uma cultura cívica. Acho que não temos uma comunidade suficientemente...
ou bem calibrada o suficiente com o que a democracia precisa ainda acho que ainda estamos em construção porque temos o medo de discutir publicamente determinadas coisas ou porque dá um jeitaço aos poderosos no geral que as pessoas não tenham uma voz própria
As duas coisas, mas reparem, há um tipo que eu adoro, que é o Tocqueville, e ele escreve sobre a democracia na América, e o que ele fala é entre várias coisas que ele escreve. Pode deixar de ter emprego rapidamente. Incrível, olha, é um filósofo até... exato, coitado. Ele, se ele estivesse vivo, não sei o que é que ele...
Dava voltas na tumba Mas adorava saber o que é que ele tinha para dizer sobre isto Por acaso adorava, adorava, pagava Tens um chinês e um americano já No Reinos do Além E este americano até é bastante da modernidade Eu não desgosto todos os filósofos racionalistas Só para as pessoas não ficarem tipo Esta gaja é maluca mesmo Já ressuscitamos outro Não, ressuscitámos, podemos ressuscitar este Também gosto muito de mulheres filósofas Simone Bovard Coroa
Adoro, adoro, adoro, adoro. Mas é quase. Anna Arendt. Ah não, ela é. Então não. Simone é super filósofa. Super. O mais importante, aliás, acho que foi do século XX. Ela é muito importante no existencialismo. Mas ela, então, mas espera. O Tocqueville vai à Inglaterra francês e pensa assim. Porquê que a democracia em Inglaterra despedida nos Estados Unidos funciona tão bem? E uma das coisas, conclusões a que ele chega é por causa da sociedade civil. A sociedade civil nos Estados Unidos, naquela altura...
é hiper é hiper estimulante e porquê? mas ele não diz só a sociedade civil não é só política não é só porque as pessoas votam muito não, a sociedade civil para ele é o bowling
É associações. As pessoas fazem associações para tudo e mais alguma coisa. Tanto que há um romance, um livro muito interessante, a meio do século XX, que é lançado, que se chama Bowling Alone, sobre a queda da cultura democrática nos Estados Unidos, precisamente por causa dessa associação de bowling, que era a maior associação dos Estados Unidos, e onde as pessoas têm a cultura de vizinhança.
E tem a cultura da associação cívica, mesmo, em que tu fazes coisas, sei lá, nós vemos imenso nos filmes, não é? Tipo, o vizinho que se muda, não sei o quê, e tu vais lá oferecer um bolo. Há laços comunitários que são criados, em Inglaterra, também em França, de certa forma, nos Estados Unidos, que o Tocqueville vê isto de forma muito evidente no início da democracia americana, e que tu nunca estiveste em Portugal. Tu não tens sociedade civil em Portugal.
Não tens grande cultura associativa. Agora tens mais, mas nunca estiveste muito.
De resto quase nunca conhecemos até o próprio vizinho ali do lado Quer dizer, há quase uma fronteira Não, e depois as pessoas que estupigam Agora vai fazer um ano do apagão E as pessoas estão, ah, eu conheci os meus vizinhos É pá
Jesus! É verdade. Eu também meio que escrevi quase isso e depois dei um... Escrevi isso, um dos meus antigos, acho que também foi meio sobre isso e depois pensei, epá, estou a ser tão clichê, mas eu senti aquilo. Mas eu faço-me a culpa quando estou a criticar os portugueses, não estou só a criticar os portugueses. Tu fazes parte, não é? Obviamente. Olha, agora tu estavas a falar de um filósofo norte-americano, já falamos de um filósofo chinês, mesmo depois deles terem morrido, é possível manter um diálogo com esta gente? Sim, sim, sim, sim.
Eu acho que era o Dante que dizia que falava com os mestres todos, que gostava muito de estar a ler livros de filosofia, porque os mestres dele eram todos os mortos já. Sim, sim, completamente. E eu falo imenso com eles. É muito giro, é muito engraçado. Que perguntas te inquietam?
Ai porra, tantas, não tenho resposta para nenhuma Pronto, por isso é que elas Podes, claro Aqui não há álcool Para limpar as coisas Portanto
Não somos portugueses aqui, pode ser? Não, podemos ser outra coisa qualquer Podemos fingir que somos outra coisa qualquer Mas depois a gente gosta Eu gosto de ser português Exato, eu também ia dizer Porque as pessoas hoje me conhecem Eu sou muito patriota, gosto muito do meu país Não estou a dizer isso Podemos gostar do país e não gostar dos portugueses Não, também não, estou a brincar A gente gosta das pessoas A lista das grandes perguntas Que me perturbam Gostava de ter resposta para estas Para você
Tantas Ok Tenho tantas Não consigo escolher uma A primeira é É evidente Conto a gente Porque é que
Porquê que Porquê que estás aqui? Porquê que alguém existe em vez de não existir? É a pergunta fundamental da filosofia Porquê que alguém existe? Porquê que as coisas existem? Então eu acho que essa é a essencial E acho que depois irradia Para tudo o resto Eu acho que sumariza tudo o resto
Porquê que existes? Porquê que não existes? Porquê que estás aqui? Sim, porquê que... Porquê que existe alguma coisa ao invés de não existir nada? Porquê? Qual é a razão? Que é logo a pergunta mais difícil, não é? É absurdo, sim. E essa ideia do absurdo perturba-te? Ou é apenas uma coisa que tu observas delicadamente e que dizes deixa esse comboio passar?
Não, olha, já me assustou imenso, já me chateou imenso e eu depois percebi que estava a ler o Camus, nunca sei como as pessoas, pronto, olha, a vossa preferência escolheram, é por ver, como o interpretar, eu percebi que estava a interpretar completamente mal, o muito decisivo, eu te percebi mesmo e fiquei super contente com isso.
Portanto, o do Camus. O livro do Camus e não o original. Não, não. Sim, sim. O livro dele. O original, já agora, para as pessoas que não tropeçaram ainda no sísifo. É o humano empurrar a pedra pela montanha acima e os reis dos deuses, quando ele está quase a chegar, dão um piparote na pedra e repetimos. No fundo, a história da nossa vida.
E ele diz assim, vocês têm que imaginar um Sissifo feliz. E eu acho que ele está a tentar responder a esta pergunta que é, porque é que há...
Porque é que há alguma coisa rather than nothing, ao invés de não existir nada, e é a nossa pergunta de significado. E ele diz que a nossa existência está sempre neste problema, que é que tu estás sempre à procura de significado porque és humano, portanto precisas de significância, precisas do símbolo, e o universo não te dá respostas. Para não vai dar. E eu acho que é muito tranquilizador. É assim uma coisa...
que eu gosto cada vez mais, que é, ok, então eu posso só imaginar o Sissi feliz, eu posso imaginar que o Sissi tira algum prazer de aceitar que aquela vai ser, que aquela é o seu destino, é empurrar a pedra até lá acima e depois repetir. E há alguma coisa bonita na repetição e tu podes ver coisas muito bonitas até na repetição, por acaso, coisas muito incríveis na repetição. Portanto, não, já não me inquieta muito o absurdo, tipo, não ter respostas. Não sei, adorava ter respostas, mas eu acho que não vou ter.
E portanto ficas confortável com isso Mais ou menos Estou a tentar, não sei se percebes que isto é um cope Vamos lá ver, há aqui uma coisa Isto é um cope gigante Há aqui uma coisa que eu adoro em ti Tu és tudo e o teu contrário Gosto muito disso Um bocadinho, não é? Não é muito querido nada Não faço a mente aí como é que se vive numa pele Sendo tudo e o seu contrário
Porque tu também achas tudo e eu sou contrário. Pronto, mas eu estou mais pacificado, quer dizer, eu acho que isso é normal. Pronto, exato, eu acho que toda a gente é muito isso, eu acho muito bonito quando as pessoas conseguem ser isso, eu acho bonito, portanto, acho querido dizeres isso, porque eu gostava de ser isso, porque eu acho que as pessoas todas têm imensas contrariedades e eu acho que o que faz as pessoas bonitas é as contrariedades e quando elas assumem as contrariedades.
Quando aparecem assim. Olha, estamos num mundo das ideias. Tu já trouxeste muitas para aqui. Isto porque eu não gosto do Aristóteles, desculpa. Sério? Também queres matar o Aristóteles? Quero. Porque ele interpretou mal o Platão de propósito. Olha, ele é um dos principais coisas das fake news sobre o Platão. Ele interpretou mesmo mal o Platão de propósito. Tenho a certeza que foi de propósito. É chato. Ele fez góssip sobre o Platão. E espalhou fake news. Epá, é chato, mano.
Tu sabes que eu tive uma conversa com o filósofo Cusidério Murcho e ele estava-me a dizer que até Sócrates, o original, o verdadeiro, lá atrás, foi o primeiro filósofo verdadeiro, que era o tipo que perguntou mas vocês como é que sabem isto? E ele diz que antes disso, que a filosofia na realidade era um conjunto de histórias que eles inventaram para tentar justificar isto, para encontrar um significado. Lá está.
Isto é uma visão super-ocidental que eu não adoro. Então, o que é que diz o teu... Como é que te chamam, não sei o que, do tarô? Liberal do tarô, já. Verdade. As tuas colegas de painel. Verdade, verdade. É a libertária do tarô ou não? Liberal, eu não sou libertária. Não me ofendas, pá. Acabaste-me de elogiar, agora tinhas... Lá está, é a contrariedade. Uma não querava estar na ferradura, não é? Claro, sempre. Mas teve efeito, porque tu reagiste. Reagi, reagi. Já estou a aprender contigo. Odeio o libertarismo, estás a ver?
Só aprendi contigo. Primeiro uma facada e depois a seguir um contexto. Exato. Então tu és a liberal do Targo. Como é que é isso?
Olha, também não sei, lá está uma contrariedade Sim, porque Eu gosto muito de bruxas Gosto muito da época medieval Adoro bruxas Sou meio bruxinha Adoro tarô Por causa dos arquétipos Eu gosto muito de arquétipos São simbólicos? São, lá está os símbolos O que é que tu aprendes com os chineses? Que o Aristóteles estava errado
dos Aristóteles também. Não, porquê? Porque o Aristóteles, agora a sério, é por causa da teoria da não-contradição, ou da regra da não-contradição que ele tem, tipo, que é uma das bases da filosofia ocidental, é que se X diz uma coisa e Y diz o seu contrário, uma das coisas tem que estar errada. A verdade tem que ser absoluta e una. Pronto, exatamente. E tu achas que não. E não pode haver contrariedade.
Não, eu tenho a certeza que não. Isto é mesmo tipo daquelas coisas que eu acho mesmo que está errado e acho que nós não conseguimos pensar em imensa coisa na filosofia metafísica por causa disso. Pronto, essa é a minha grande cena. E o que eu acho é que...
Tu tens a filosofia oriental, ou filosofia, quer dizer, eu não sei se lá está, eu não gosto muito de chamar filosofia, chame só para as pessoas perceberem o que é que eu estou a dizer, mas o pensamento chinês, porque a filosofia é mesmo grega, tem regras e não sei o quê, o pensamento clássico chinês é exatamente o contrário, é, existe o nada, existe o nothingness e existe o somethingness, existe o algo, e eles estão em constante dança mútua.
Não há nenhuma prioridade ontológica, ou seja, não há nenhuma prioridade do nada sobre o algo ou algo sobre o nada. Eles existem em... eu estou a fazer aqui uns gestos com as mãos, quase como um mar, não é? Não existe nada antes. São fluidos. Exato, o que é que é primeiro? É a galinha ou o ovo? A onda ou o mar? Portanto, eles resolveram o problema logo, rapidamente. Tudo está misturado.
Qual é que é o problema? Isto é uma das formas que tu acederes ao Dao, a perceberes isto, enfim, isto é muito complexo. Estou a simplificar, evidentemente, só para explicar. E qual é que é o problema? Os chineses, quando começaram a ver o Japão a desenvolver-se imenso no século XIX, pensaram, epá, isto nós vamos ter que ocidentalizar aqui um bocadinho também, porque o Japão está a ultrapassar-nos, o grande competidor regional da China.
E então começam a ocidentalizar-se também através da filosofia. E há uma escola chinesa dos anos 20, anos 10, 20, que diz porquê é diferente eu discordar do Shuangsa, que é um dos filósofos deles, ou discordar do Aristóteles. Não há diferença. Na verdade, falam os dois metafísica, falam os dois não sei o quê. Portanto, eles começam a confundir conceitos. Ou seja, a metafísica chinesa começa a ser equiparada à metafísica ocidental. Isto significa...
que eles tratam os filósofos de forma igual. Qual é que é o problema? Se tu, no Aristóteles, dizes... Se uma coisa diz X e a outra coisa diz Y, uma das coisas tem que ser mentira. Não aceitam a contradição. Isto quer dizer que matam a filosofia chinesa. Se tu tentares interpretar a filosofia chinesa com olhos aristotélicos, que foi o que eles fizeram os próprios chineses... É uma aculturação. Tu matas... Sim.
É uma colonização de pensamento, mas foi feita por eles. E eles não conseguem... Há ali um problema mesmo, mas eles tentam fazer isto para se ocidentalizarem. E, portanto, há muita filosofia ainda hoje feita na China e no Japão, que esteve a estudar os clássicos chineses durante o Mao, porque era impossível estudar os clássicos chineses durante o Mao.
bem que o Mao salvou grande parte do Tao Te Ching, porque encontraram manuscritos na altura e ele preservou-os, apesar da revolução cultural, porque ele até gostava do Lao Tse, dessa malta toda, em privado. Mas, quando eles chocam, isto quer dizer que há parte do entendimento da filosofia antiga da China que é apagado, porque aí sim entras mesmo numa contradição. Se tu lês com aqueles olhos, não consegues perceber.
Portanto, precisas ter um outro contexto, um outro prisma, uma outra maneira de pensar o mundo. Precisas, precisas. O que é que te ajuda a pensar bem? Isso. Pode haver um prisma? Pode haver uma perspectiva? Olha, ajuda-me a pensar bem. Não sei, eu não sei se penso bem. Não sei se penso bem. Nem sei, é uma pergunta de sorte. Não sabes? Não. Estás a fazer número comigo.
Não estou, não estou mesmo. Não sei mesmo se penso bem. Não sei. Tu não testas o teu pensamento sempre contra outros seres pensantes? Testo contra mim própria também. Tipo, faço a advogada do IAB constantemente. Portanto, lá está. Não sei se penso bem. Isto é, eu acho que tenho bom raciocínio. Não estou a dizer isso. Eu só não sei se o meu raciocínio leva a conclusões que estão certas. Eu acho que sim, mas eu posso mudar de opinião daqui a cinco minutos. E tens um problema com isso? Não. Já mudei-me essas vezes em público até.
E tens por lá algum problema com o erro? Com a possibilidade de não acertar? Tenho. Não vou dizer que não. Chateia-me, se eu estiver errada. Chateia-me, não é? E se tiver que admitir que estou errada em público, ainda mais chato. Tenho ego. Eu tenho um ego forte. Grande? Sim, eu tento que ele seja mais pequenino. Como é que o domas? Com o absurdo.
Juro-te. Que é tipo, ah, também calma. Tipo, tu achas que sou o quê? A última Coca-Cola do deserto? Não interessa. Isto é tudo demasiado grande. Ninguém quer saber de mim. É porque é essa coisa. Tu achas, tipo...
Tu pensas assim, ei, dei um ganda gafo que eu dei agora, já fiz gafo sem televisão mesmo, tipo em direto e não sei o que, já fiz. E depois as pessoas ficam, aquilo de repente fica meio viral no Twitter e parece que é o teu mundo inteiro é aquilo. E depois tu tens de pensar assim, também ninguém quer muito saber, estão ali a falar, mas tu estás de lavar imensa importância a ti própria.
E de repente és o quê? Tipo, que é o centrismo também. Sei lá, o que eu estou a dizer não interessa para nada, percebes? Ou seja, na última instância quem vai querer mais saber é a minha mãe ou o meu pai. Interessa na medida em que tu podes influenciar os outros e que o facto de tu dizer alguma coisa fora do bom senso pode contagiar outros.
Mas eu depois... Não, calma, calma. Eu estou a pensar em algumas figuras públicas que, volta e meia, produzem pensamentos... Não, o que eu estou a dizer é tipo erro, tipo... Factual? Sim, sim. Estou a falar mais disso. Ou seja, eu depois faço um bocado do género. Aí, estava errada. Ok. Isso é muito chato. Eu odeio isso, porque obviamente isso magoa o moleque. Outra coisa é o ter...
medo de ter, eu quando vou falar de coisas que sei que são sensíveis a nível social tenho medo tenho mesmo medo de errar por causa das consequências que isso traz pode-se dizer tudo outra coisa é tipo boa pergunta, em televisão? sim, em tua casa imagino que sim mesmo assim depende não acho que se possa não há coisas que não, não podes dizer tudo eu nunca digo tudo nunca digo tudo o que acho
E tudo o que sabes, partilhas? Não, não posso também. Está uma fronteira, não é? Tu vais sempre afinando esse processo.
Sim, às vezes é chato, porque às vezes tu sabes coisas que são de fontes que tu tens, tipo, tu como jornalista saberás isso melhor. E que dava um jeitaço de contar a toda a gente. E que dava um jeitaço, mas tu não podes ir ali. E aliás, às vezes é tipo, ui, não posso ir aqui. Às vezes é aquela coisa de esta informação que eu sei, isto é público ou não? Não sei se já te aconteceu, já deve ter acontecido. E portanto, sim, tens que ter sempre algum cuidado e tens que ter cuidado com o outro. Acho que nunca podes dizer tudo, no geral, na tua vida, não é?
E onde é que tu pões o limite dessa tua autocensura? No fundo, tu que és uma liberal, posso até dizer de uma forma muito ampla, esse mecanismo de autocensura, eu acho que faz todo sentido, não te estou a criticar, estou aqui a pensar, como é que alguém que é uma alma livre, depois percebe e sabe...
Que há um condicionamento e que tu tens uma responsabilidade de não ir para além daquilo que achas que é aceitável. No fundo, como é que tu tornas a tua faca menos afiada ou quando é que tu não usas a tua faca? Quando acho que é gratuito, eu não faço.
O porquê sim? O porquê sim. Se eu achar que vou magoar... Não é magoar. Se eu achar que isto vai causar dano... Porque às vezes tu tens... A liberdade de expressão tem como pressuposto que tu podes incomodar pessoas. E incomodar pessoas não é necessariamente errado. Aliás, a política está sempre a comodar toda a gente. Por pressuposto. Recebes isso? Recebes de volta? Recebem-me.
Olá, não gostei nada do que disseste sobre mim Sim, sim Não me trataste tão bem Imagina, eu gosto do fair play Na coisa que é isto, não é nada pessoal Eu não estou nunca Por acaso às vezes é pessoal Eu vou para o anúncio e tenho uma pessoal
Porque ele não me cumprimenta na rua Mas eu acho que por falta de educação já disse isto Num podcast e tudo Um dia digo-lhe em pessoa Há pessoas com quem tu tens essa relação Mas é bem, eu brinco, estou a brincar Mas há pessoas que eu acho que são Más pessoas na política Mas na política no geral da vida Acho que há pessoas que não têm bons princípios Mas a maior parte das pessoas Eu não quero ser gratuita, não estou a implicar Só por implicar É mesmo porque eu acredito naquilo Acho que estão a fazer uma coisa mala Para você, você pode estar lá
Mas muitos dos assuntos, enfim, polémicos ou difíceis de gerir, são normalmente assuntos delicados, independentemente do que seja. Tópicos que sejam polarizados ou de confronto são sempre tópicos que há uma sensibilidade, independentemente de tu dizeres a coisa mais honesta, mais equilibrada. São hiper emocionais. E porque eu hoje recebo de maneira diferente, não é? Quer dizer, eu acho que se tu dizes uma coisa que é completamente contrária a mim e eu tendo...
bem fica-se porting, no fundo, das ideias. E isso torna mais difícil de gerir para quem tem que ajudar a entender o mundo? Sim, eu acho que não tento ajudar a entender o mundo. Eu acho que estou só, tipo, a partilhar o que eu acho e, graças a Deus, tenho, sei lá, uma sorte das pessoas acharem mais ou menos pertinente. Ou, às vezes, poderem irritar e é por isso que eu também estou lá, não sei. Mas, por exemplo...
Acho que há uma... Eu tento mesmo, e isso eu gosto de fazer, que é como é que eu vou explicar a minha ideia da forma mais simples possível para conseguir ser dissecada por pessoas que não têm tanto tempo como eu tenho para ler sobre isto, porque podem estar a fazer trabalhos a sério. Porque eu dou trabalho de maneira séria.
Estou a brincar, é uma coisa meio... É uma coisa portuguesa, lá está, nós temos trabalhos sérios em que nós estudamos e coisas formais e consideramos que há trabalhos que não, que são leves. Que não trabalho. Eu tenho a sorte de um trabalho sem meio dar a minha opinião. É uma coisa muito gira, eu gosto disso.
E que te dá gozo? Só uma coisa, por exemplo, em relação à imigração Eu tento sempre As pessoas dizem Ah, percepções, não sei o que, era muito mais fácil E se calhar dava muito mais engagement Nas redes, não sei o que Ah sim, sensações e gozar E também faço, mas eu tento sempre Eu arranjei uma forma de explicar Que eu acho que não é má Quando eu explico pessoalmente Às pessoas, ou já expliquei Apenas
já tenta fazer isto na televisão, eu acho que funciona, acho que há algumas pessoas que ouvem, que é certo, tu podes ter a sensação de que existe mais criminalidade associada à imigração, porque normalmente é porque foste exposto a numa narrativa com mais medo. Exemplo, eu acho que isto é um bom exemplo, que é, se tu tiveres a ver um filme de terror em casa, sozinho,
Tu quando acabares o filme de terror Vais estar em pânico A não ser que sejas meio psycho Vais estar em pânico Ou que adores Ou que adormeças a ver filme de terror Eu se calhar podia ser aquele O mau Exato Isso é meio sinistro
Não vou comentar, estou em pânico agora Estou aqui fechada nesta sala contigo E agora comecei a ter Não sei Jorge O que vai acontecer à nossa relação Não, mas imagina Em princípio vais estar em pânico a seguir Pronto, menos tu E isso não quer dizer Que o ambiente em tua casa tenha mudado Não quer dizer que os sons em tua casa tenham mudado Quer dizer que a tua O teu Tu foste disposto a uma narrativa Que amplifica Que amplifica
a tua perceção, vai estar, a perceção dos barulhos. E do medo, porque é isso que é que nos acontece, não é? Exato. E quando ficamos com mais medo, mais impressionais. Eu acho que esta metáfora ajuda as pessoas a perceber porque as pessoas depois dizem, mas então porque é que eu sinto, se isto não é real, porque é que eu sinto?
E eu acho que isto ajuda as pessoas a perceber. E eu gosto quando tenho essa possibilidade de estar a pensar como é que eu vou tentar explicar. Por exemplo, aqui eu acho que estou certa. Acho mesmo, acho que estou certa. Acho que as pessoas que associam estão erradas. Mas por causa de dados mesmo a justificar isso. Se depois de repente vierem dados a dizer epá, não estás mesmo errada, eu fico pronto, olha-me a culpa. E siga para bingo. Olha, o que é que ninguém nunca te pergunta?
Eu ia dizer uma coisa muito estúpida agora. Eu ia mesmo fazer uma piada, não vou fazer uma piada, porque isto até pode ser mal interpretado. Mas, não sei. Ninguém? Tipo, numa entrevista ou no geral? No geral. As entrevistas são sempre ambientes artificiais. Sempre condicionados. O que é que nunca me perguntam? Nunca me perguntam sobre tópicos que eu gosto de falar, tipo tribunais de animais.
Tribunais de Animais? Mas para condenar o cão e o gato? Ou os donos do cão e do gato? Sim, na época medieval.
A sério? Sim. É incrível. Eu adoro esta... Se eu entrar aqui, Jorge, tu não me calas. Não posso. Não, nós temos 30 segundos para fechar isto. Então, pronto, olha, não posso. As pessoas que vão pesquisar... Condena o gato por ele ter... Sim, havia tribunais mesmo a sério feitos pela Igreja e tudo. Em França e Inglaterra já falei imenso destes dois países, não sei porquê eu já acordei assim, obcecada com eles. No século XIII, no século XIV, em que levavam os animais ao julgamento e eles tinham direito a advocado de defesa.
É mesmo incrível. Esse era verdadeiramente o tempo em que os animais falavam. Exatamente. Porque não havia sujeito cartesiano ainda. Estás a ver? O Descartes matou. Matou isto tudo. Matamos o Descartes. Maria Castelo Branco, obrigado. Obrigada eu. Pergunta simples. Um programa sobre comunicação. Para quem quer boas respostas.