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Centenário de Milton Santos: o mundo pelo olhar da Geografia

05 de maio de 20266min
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Maio de 2026 marca os cem anos do geógrafo baiano Milton Santos, um dos pensadores mais autênticos da história do Brasil. Em sua memória, preparamos uma série de quatro reportagens que abordam a trajetória de vida e acadêmica, a obra e as contribuições do pesquisador para a sociedade. No primeiro episódio, ouvimos Nina Santos, jornalista e neta do intelectual, e Fábio Contel, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um de seus orientandos.
Reportagem: Brenno Almeida
Edição: Brenno Almeida e Thiago Kropf
Participantes neste episódio3
B

Brenno Almeida

Reporter
F

Fábio Contel

ConvidadoProfessor da Universidade de São Paulo (USP)
N

Nina Santos

ConvidadoPesquisadora
Assuntos4
  • Centenário de Federico FelliniMilton Santos · Geografia urbana · Globalização · Desigualdades sociais · Urbanização em países periféricos · Pensamento decolonial
  • Legado do Santo Irmão AldoNina Santos · Fábio Contel · Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia · Uma Geografia Nova · Uma Nova Globalização · Território e Sociedade
  • Trajetória profissional e acadêmicaUniversidade de Strasbourg · Universidade Federal da Bahia · Universidade de São Paulo · Jornal A Tarde · Golpe civil militar de 64
  • Prêmios e ReconhecimentoPrêmio Internacional de Geografia Ventrelud · Professor emérito da USP
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Rádio UFRJ. Informação e conhecimento. O ano de 2026 marca o centenário do nascimento do geógrafo brasileiro Milton Santos. Ele completaria 100 anos neste mês de maio. Falecido em 24 de junho de 2001, vítima de um câncer, o intelectual deixou um importante legado inovando a geografia urbana e transformando debates no campo acadêmico.

Milton Santos foi um notável crítico, escritor e leitor. Foi responsável pela publicação de cerca de 40 obras, como Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia, de 1953, por Uma Geografia Nova, de 1978, por Uma Nova Globalização e Território e Sociedade, ambos de 2000. Nina Santos, que é neta de Milton, olha para a obra do avô como um convite a visões alternativas de mundo.

acho que a obra de Milton Santos, ela é uma obra que primeiro nos convida a pensar alternativas para as dificuldades da realidade atual, seja ela qual for. Então, no caso dele, ele analisou muitos processos sociais, vou citar um deles a globalização.

mas sempre com um viés de crítica muito forte, mas com um viés de construção de uma possibilidade alternativa. Qual é a alternativa que se apresenta e como é que a gente faz para que esse processo possa ser construído de uma maneira diferente.

Milton Almeida dos Santos nasceu em 3 de maio de 1926 na Bahia. Neto de pessoas que sofreram as mazelas da escravidão e filho de professores, formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1948, mas não chegou a exercer a profissão.

Ele se aproximou da geografia de maneira humanitária, colocando as periferias urbanas no centro da análise para revelar os avanços das desigualdades sociais. Acreditando que os territórios periféricos eram possibilidade de futuro, defendeu que, abre aspas, a periferia não é ausência, é outra forma de presença. Fecha aspas.

No final dos anos 50, realizou o doutorado na Universidade de Strasbourg, na França. Após esse período, retornou ao Brasil e fundou o Laboratório de Estudos Regionais da Universidade Federal da Bahia. O professor do Departamento de Geografia da USP, Fábio Contel, foi orientando por Milton Santos durante o mestrado. Ele acredita que um dos maiores impactos do trabalho do professor foi repensar a urbanização nos países periféricos.

Ele foi o primeiro intelectual a pensar a urbanização dos países do terceiro mundo sem as visões consolidadas dos países da Europa ou dos Estados Unidos. Então, antes mesmo do pensamento decolonial ou pós-colonial surgir, ele foi um autor muito anti-eurocêntrico. Ele foi um autor que sempre se preocupou, é óbvio.

beber das boas fontes das ciências sociais dos países do centro do sistema, mas sempre partindo de uma visão interna, seja do Brasil ou dos países da periferia, para criar uma teorização sobre a urbanização muito original e muito colada à realidade concreta desses países periféricos.

Milton Santos também atuou como jornalista. Ele foi correspondente e editor do jornal à tarde entre 1954 e 1964. Com a ascensão do golpe civil militar de 64, foi preso e se auto-exilou. Retornou à França e começou a carreira como professor universitário.

Além da França, ministrou aulas em diversos países, como Peru, Venezuela, Canadá, Tanzânia e Inglaterra. Quando retornou ao Brasil em 1977, ministrou aulas de Geografia Humana na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Posteriormente, foi para a Universidade de São Paulo, onde permaneceu até se aposentar.

Mesmo depois de aposentado, continuou pesquisando e escrevendo seus livros. Fábio Contel, que atua na pesquisa sobre dinâmica financeira e mundial a partir da geografia, também faz uma análise sobre o olhar de Milton Santos sobre as desigualdades. Então ele tem uma formação humanista muito sólida e, portanto, uma formação filosófica muito sólida.

todos os debates da geografia no século XX com muita clareza também. E a inserção dele nesses debates sempre foi muito crítica em função dessa formação filosófica muito sólida dele. Ele sempre se preocupou com temas centrais das ciências sociais porque ele acreditava que a geografia era fundamentalmente uma ciência social, uma parte das humanidades.

Em 1994, Milton Santos recebeu o Prêmio Internacional de Geografia Ventrelud, considerado a maior honraria da área. Ele é, até hoje, o único cidadão do Hemisfério Sul e da América Latina a conquistar esse lugar.

Já em 1997, recebeu o título de professor emérito da Universidade de São Paulo. Responsável por revolucionar o campo da geografia, aprofundou seus estudos em temas como urbanização, geografia humana e geografia crítica.

O Informação e Conhecimento faz em maio uma homenagem ao centenário do geógrafo Milton Santos. Ao longo do mês, falaremos sobre a trajetória dele e o impacto das contribuições que deixou para as pesquisas sobre espaço, população e desenvolvimento. Neste primeiro episódio, conversamos com a neta do geógrafo, Nina Santos, e com um dos orientandos do professor, Fábio Contel.

No próximo episódio, o assunto é a globalização, um dos temas discutidos pelo intelectual. Para nos ajudar a entender melhor, vamos conversar com o professor Diego Zirqueira, da Universidade Federal Fluminense. Da Rádio UFRJ, reportagem de Breno Almeida.