Defesa da autonomia profissional e sustentabilidade do sistema
Maria de Fátima Gauí
Rafael Kaliks
- Autonomia profissional na oncologiaDesafios da autonomia médica · Impacto da verticalização
- Sustentabilidade do sistema de saúdeDesigualdade entre saúde pública e privada · Pressões financeiras sobre médicos
- Ética na oncologiaConflito de interesse · Defesa do paciente
- Formação de oncologistasDiminuição de candidatos à residência · Importância da pesquisa na oncologia
- Desafios financeiros dos médicosRemuneração dos oncologistas · Pressões do mercado de trabalho
Olá, eu sou a Lucilena, estou aqui no 26º Congresso da SBOC. E o que será que está mudando na oncologia que está impactando na autonomia do profissional de saúde, na autonomia do médico?
Para discutir um pouco essa questão, eu tenho aqui a doutora Maria de Fátima Gauí, que é professora oncologista clínica e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e também doutor Rafael Kallix, oncologista clínico, voluntário do Instituto Oncoguia e médico do Einstein Hospital Israelite em São Paulo.
Bom, eu queria saber justamente isso. O que está acontecendo? No Congresso, toda hora a gente ouve falar dessa questão importante da autonomia. O médico oncologista, o oncologista clínico já não tem mais autonomia de antes?
Eu queria primeiro tentar contextualizar, quer dizer, eu represento dentro da SPOC um comitê de defesa profissional. Então, a gente montou esse evento aqui dentro da SPOC para justamente a gente discutir.
essas questões. O que vem desestimulando aos médicos se formarem oncologistas clínicos? A gente tem percebido esse movimento, uma diminuição, por exemplo, do número de oncologistas que se candidatam na residência de oncologia. Isso é um movimento...
A gente se preocupa bastante, já que existe uma demanda nacional de oncologistas para mais especialistas. Claro que a gente sabe que existe uma outra discussão do quanto esses médicos estão concentrados em centros e menos desses especialistas no interior, mas eu acho que esse não é exatamente o foco da nossa discussão aqui.
trouxe essa discussão para avaliar o que tem acontecido para estimular os médicos a se tornarem oncologistas. A gente sabe que a oncologia é uma...
uma especialidade onde você lida com muito estresse, muito sofrimento, e você precisa de muitos contrapontos para poder compensar todo esse estresse que você vive.
E sempre a carreira médica é uma carreira que existia autonomia, ele era um profissional liberal autônomo, os médicos em geral. E foi existindo todo um movimento de hospitalização, de tornar o médico...
Mas para tirar o médico do consultório e integrar o médico dentro do hospital e agora, mais recentemente, dentro de empresas médicas. Então, o médico tem tido muita dificuldade de manter essa autonomia. Existem protocolos, guidelines que são...
sugeridos e o médico não consegue mais ter uma certa liberdade óbvio que dentro das boas práticas clínicas, ninguém quer que o médico tenha liberdade de usar alguma coisa offline, não é isso, mas ele não tem
uma liberdade em geral, nem de protocolos e mesmo de atuar junto ao paciente da forma que ele acha adequado, em termos de tempo, de atendimento, de um contato mais estreito, mais direto com o paciente, passa sempre por uma estrutura e uma empresa. Não sei o que é o papel que é. Se eu puder complementar um pouco o que a Fátima falou.
A oncologia é uma especialidade relativamente nova, a oncologia clínica. A oncologia cirúrgica já existia há mais tempo, embora fosse uma coisa bastante rudimentar inicialmente. E quando eu falo nova, eu estou falando aqui de 50 anos para cá, na melhor das hipóteses, provavelmente mais próximo de 40 anos para cá. E a velocidade do desenvolvimento da especialidade foi avassaladora.
Avasaladora no sentido de descobertas de novos tratamentos, de compreensão do que é o câncer, de modificação da cirurgia, modificação da radioterapia, modificação dos tratamentos sistêmicos ao longo do tempo. E, lamentavelmente, isso veio acompanhado do encarecimento brutal da prática da oncologia, tanto no meio cirúrgico, radioterápico, quanto...
quanto do tratamento sistêmico. E um colorista clínico se viu numa situação onde, em questão de 20 anos, ele passou a prescrever medicações que você podia comprar na farmácia, de tão baratas, vamos dizer que fossem, para medicações de altíssimo custo.
E esse custo não pôde ser absorvido pelo sistema público no Brasil. E aí se separaram dois grandes mundos, o da medicina privada para 20% da população e o da saúde pública de 80% da população. Enquanto na saúde pública a gente continuou usando medicações extremamente antiquadas, na medicina privada...
Essa velocidade avassaladora veio se traduzindo em ganhos de curabilidade, ganhos de longevidade para os pacientes em geral. E isso gerou dois mundos muito separados no que tange à satisfação do profissional com o que ele estava fazendo.
Então, num primeiro momento, enquanto muita gente trabalhava meio período na clínica privada, meio período no SUS, com o tempo as pessoas foram se frustrando com trabalhar no SUS e literalmente foram abandonando o SUS, com raras exceções. E quem podia se encaixava na saúde privada, porque teria uma possibilidade melhor de ajudar o paciente.
E isso durou durante uma geração, vamos trabalhar na saúde suplementar, porque lá a gente pode fazer algo muito bom, só que o custo começou a subir de maneira tão exponencial que mesmo na saúde suplementar foi necessária alguma limitação, porque não é só o médico, o médico é um dos elos.
desse sistema, mas os outros elos são as operadoras ou o governo, vamos chamar o Ministério da Saúde como uma operadora com os 80%. Claro, provedor. Provedor e os hospitais. E as operadoras começaram a ver que elas não conseguiam arcar com esse custo. O governo começou a ver que não conseguia arcar com o seu custo, mesmo oferecendo algo muito inferior ao que a saúde suplementar oferece. E nesses três elos, o elo mais fraco é o médico, sempre foi.
O elo mais fraco ser o médico é o que fez o SUS ficar desassistido de médicos, ninguém queria trabalhar lá. Agora está todo mundo na saúde suplementar e mesmo na saúde suplementar ele é o elo mais fraco e está se rompendo. Então a gente tem que balançar a satisfação do médico com o que ele faz, com a sustentabilidade do sistema, e essa sustentabilidade do sistema é tanto o governo, o Ministério da Saúde, quanto as operadoras. E nesse processo das operadoras...
ocorreu o que a gente chama de verticalização, que aí sim faz o que a Fátima estava descrevendo, que é essa determinação de protocolos a serem seguidos rigidamente pelos médicos contratados nessa operadora. Eu fico imaginando que tratar, na verdade, tratar qualquer condição de saúde, mas sobretudo câncer, que é uma entidade, o senhor mesmo trabalha com câncer de mama. A população leica fala o câncer de mama, mas são vários tumores, olha de perto, eles são muito diferentes.
É um estado de arte ali, de escolher o jeito adequado de tratar. Quando você tem esses protocolos, não necessariamente você está olhando para o seu paciente de uma maneira individualizada, por mais que o discurso aí seja o da medicina personalizada e tudo mais. Seria um pouco isso, doutor? Perfeito.
Isso, na verdade, é um lado da questão. Como você comentou, o câncer de mama é extremamente heterogêneo. A gente necessitaria ter recursos para tratar especificamente cada tipo de câncer de mama. No privado, a gente tem condição.
Mas no público isso não existe. Até para diferenciar esses tipos de câncer é difícil, né? Por métodos de exames no público. Mas, assim, isso é uma questão, né? Quer dizer, você tocou na questão da individualização do tratamento.
Eu levei para um exemplo extremo para falar da situação de que você tem um protocolo rígido e que ele não tem ali jogo de cintura para sair dele. É claro que eu fui para a INSS. Mas eu acho que você foi perfeita, porque o que a gente vê num público é que a gente trata todo mundo de forma muito parecida. A gente não consegue dar esse tratamento específico para cada tipo, por exemplo, de câncer de mama assim como para qualquer outra patologia estou usando câncer de mama
porque foi o câncer que você citou, mas isso acontece para trato gastrointestinal, para milhões de outros tumores. Às vezes a gente não consegue nem a identificação de que tipo de tumor que a gente está tratando. Quer dizer, essa especificação, a individualização que você está comentando que existe. Então isso é uma questão. Então eu acho que isso passa mais...
Pensando nesse aspecto que você colocou, que também é uma frustração médica por uma questão de tecnologia, da incorporação de tecnologia. Aí a diferença entre o privado e o público, apesar da gente saber que existe, pela Constituição, uma questão pública.
Acesso teoricamente igualitário para isso na prática não é verdadeiro. Então isso é uma questão, sem dúvida nenhuma, que eu acho que frustra imensamente o médico. Ele aprende na teoria que ele deve tratar dessa forma e quando ele se depara numa realidade que ele não tem a menor condição de...
de fazê-la, de concretizá-la e, mais ainda, na diferença entre o que ele está oferecendo pelo público e pelo privado. Isso tangencia não só a satisfação do médico ou a defesa profissional, mas tangencia uma outra área, que é a área do meu comitê na ISBOC, que é da ética. Então, imagina o grau de falta de ética que é um médico não poder defender o melhor interesse do seu paciente.
Porque o elo principal de tudo que nós estamos falando deveria ser o paciente. O paciente é o centro de tudo. O centro de tudo não deveria ser o hospital, a operadora, o médico, a droga, o laboratório. O centro de tudo deveria ser o paciente. Só que o médico acaba sendo o elo que pega o que é possível fazer e aplicando para o paciente isso.
E se o médico sabe que existe uma droga boa para um paciente, e essa droga está aprovada pela Anvisa no Brasil, ele ser tolido da possibilidade de prescrever essa droga, isso é antiético. Ele não defender o interesse do paciente é antiético. Só que aí a gente tem as outras facetas da vida, que são o médico precisa de um emprego, ele precisa trabalhar, ele precisa ter uma certa...
remuneração pra poder sustentar sua família. E aí você começa a entrar nessa questão ética das pressões que existem de todos os lados e lamentavelmente o elo mais fraco não é o médico, o elo mais fraco é o paciente, na verdade. É o paciente, né? Eu ia até comentar isso.
E eu fico, até quando o senhor fala no elo mais fraco, fico muito curiosa do que passa na cabeça dos senhores sobre qual seria a saída. Porque não dá para dizer, meu mundo caiu, porque existe a radicalização e isso parece que está posto. Quais seriam as saídas que vocês aqui na Esboc, inclusive, discutem?
para devolver um pouco da autonomia, será que passaria um pouco por, sei lá, um pouco dando asas ao pensamento, se valeria esse médico se tornar talvez mais protagonista dessas decisões, não sei se é um pouco o mundo de fantasia, mas com as fontes pagadoras, como é que poderia criar uma solução para isso? Porque senão...
A SBOC já criou guidelines, e guidelines talvez até mais reais do que guidelines estrangeiros, que talvez pudessem ser mais aplicáveis, mais maleáveis para a nossa realidade. Então, acho que nesse ponto a SBOC contribui, mas sem dúvida nenhuma passa por uma conversa, por negociação, negociação da categoria.
os oncologistas, tornando assim um pouco mais protagonista, sem dúvida nenhuma, dessa negociação com as operadoras, com os provedores, seja ele público ou privado, as fontes pagadoras e de mãos dadas com os pacientes. Então a criação.
O Oncoguia ou outras advocacias que a gente conhece, que existem no país, nos ajudam nesse combate. E essa própria discussão que a gente está tendo aqui, que a gente espera que os médicos assistam, e por isso aquela brincadeira de poder divulgar, porque eu acho que é isso, a gente tem que fazer uma certa denúncia dessa dificuldade.
Nós todos trabalhamos, durante a minha vida toda, trabalhei em hospital público. Então, assim, eu não tenho dúvida de que a gente conhece bem a realidade, mas a gente precisa que minimamente ela mude. A gente faz o que é possível em termos de melhorar a gestão. A gente estava há pouco discutindo algumas navegações, acompanhar um pouco mais o paciente, empoderar o paciente.
para que ele também possa estar lutando com a gente. Então, eu acho que existem algumas pequenas ações que podem ajudar nesse processo. Mas, assim, sem dúvida nenhuma, passa pelos gestores negociarem, por exemplo, o preço de medicamento, preço diferenciado, talvez, para o público, do privado.
quebra de patentes ou algum outro tipo de negócio. O que você acha, Rafael? Para complementar, eu acho que a função das agências reguladoras era perpetuar a sustentabilidade de um sistema em qualquer área, no petróleo, na medicina, etc.
E, pelo menos na saúde suplementar, a agência reguladora, que é a ANS, não tem feito o seu papel de maneira adequada. E óbvio que ela sofre pressões de todos os lados, das operadoras, dos laboratórios, disso, daquilo, e dos médicos também, da classe médica, mas ela não tem exigido...
as inovações que trazem diferença para a vida do paciente da maneira como ela deveria. Ela não foca no paciente, ela foca no aspecto econômico de sustentabilidade de empresas em volta.
E aí você vai dizer, não, mas não é função da ANS focar no paciente. Mais ou menos, eu acho que na verdade deveria ser sim. A Agência Nacional de Saúde, é a saúde do paciente. Então quando ela não faz o seu papel adequadamente, isso prejudica o paciente. Agora, vamos falar dos 80% da população, que é mais importante do que só falar dos 20%. Aí quem não faz o seu papel é o governo.
E as agências dentro do governo, a Conitec, por exemplo, que é responsável por determinar o que é que vai ser oferecido de tratamento para os pacientes. Vai ser incorporado de tecnologia. Incorporado. Lamentavelmente, na oncologia se criou uma regra separada de todas as outras especialidades décadas atrás e se criou uma forma de remuneração ou de ressarcimento de custo por medicamentos ou por procedimentos aos hospitais do SUS.
que acabou atrasando a incorporação de inúmeros tratamentos, e isso significa em câncer, vidas perdidas ou anos de vida perdidas. A incorporação é muito lenta no nosso país. É muito lenta e é inadequada muitas vezes, e nada sai do...
do que é oferecido. Então, tem medicamentos que a gente acaba aprendendo que eles são prejudiciais. Em vez de retirar esses medicamentos, por não ter alternativa, eles perpetuam aquilo. E falam para o médico, nos diz, olha, é isso aqui que você pode prescrever. Eu vou dar um exemplo de uma doença chamada melanoma. Quem está nos assistindo, provavelmente, é um oncologista clínico, eles vão entender do que eu estou falando. Então, o que se recomende dar da carbazina para melanoma é um crime, basicamente.
que é perpetuado porque a Conitec não fez o seu trabalho de negociar em tempo e de incorporar em tempo imunoterapia e outras drogas, terapias álcool para melanoma. E quando é incorporado um novo tratamento, muitas vezes, o senhor me corrija, se eu estiver errada, demora meses ou anos para que ele...
Então você tem um primeiro atraso, uma defasagem, depois uma segunda etapa de espera, é isso? Sem falar de uma descontinuação, porque vários desses medicamentos às vezes são providos pelo governo e que existe uma interrupção em determinado momento, falta.
existe transparência nesse processo quando falta as vezes até eu já até assisti uma confissão de culpa mas isso não os pacientes ficaram sem mas é tão simples quanto isso?
É falta de organização, às vezes as pessoas que estão nas posições-chave para essas compras não são as pessoas mais adequadas e assim por diante. Mas vamos desviar um pouco o foco das mazelas do sistema e voltar para a questão do médico-oncologista e o que está acontecendo, porque acho que esse é o foco da Spock.
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica tem por função defesa profissional do oncologista clínico. E nesse sentido, eu acho que a repercussão dessa falta, dessa progressiva falta de autonomia do oncologista, está levando a uma deterioração da qualidade da experiência de ser oncologista, que se transmite para candidatos potenciais à residência de oncologia. O interesse pela residência de oncologia está começando a decair. O que foi o que a senhora falou?
Seria essa, na visão de vocês, a grande razão?
dessa derrocada da busca pela especialidade? É uma das razões. A outra razão, a meu ver... Essa seria a principal. Eu acho que essa tem um peso muito grande, sem dúvida nenhuma. Mas a gente está comentando também da questão salarial. Atualmente, com essa verticalização, o médico passou a ser empregado.
inclusive, dessas empresas. E como existiu uma migração do público para o privado, o salário anterior era um salário muito mais favorável, muito mais estimulante do que o salário que está existindo. Quer dizer, está existindo...
Ele está se tornando assalariado, o médico. Isso aconteceu em outras especialidades, como, por exemplo, a radiologia. O médico passou a ser um funcionário de uma empresa, onde ele fazia um serviço quase que mecânico, um fast food de imagens.
e que hoje em dia ainda tem até ameaça da inteligência artificial para substituí-lo. Então, a questão financeira é um outro lado. Então, eu acho que não é uma coisa isolada. Existe essa questão da autonomia, a questão salarial, o estresse, essa questão ética, essa diferença entre o público e o privado. Eu acho que é um conjunto de coisas.
Eu estava curiosa para saber o que uma sociedade como esta pode fazer para atrair esses jovens talentos da medicina, esses estudantes, para uma residência em oncologia. Como é que vocês pensam em...
Porque o problema existe, vocês estão pensando em soluções que não são fáceis e não são de uma hora para outra. A demanda por oncologistas, eu suponho que seja cada vez maior. A gente está sempre noticiando, como na minha coluna, os meus colegas que cobrem saúde, que o câncer vai passar, as doenças cardiovasculares já está quase passando. Já passou em vários municípios do estado já.
A gente precisa de oncologistas e a tendência é termos ainda menos, precisamos cada vez mais, a tendência é termos ainda menos oncologistas clínicos. Então, como é que...
eu fico imaginando que é um jogo de pratinhos. Eu estou olhando para vocês e falando, não queria estar na pele dos doutores, porque como é que vocês... Tem que fazer várias coisas ao mesmo tempo. Como é que vocês, nesse meio tempo, enquanto tentam aliviar esse embrólio que vocês mostraram muito bem aqui nessa conversa, como é que dá para atrair esses jovens talentos para...
É, assim, médico de uma forma geral, além da questão financeira, que é uma questão real de sustentabilidade, eles são muito encantados pela questão de pesquisa, de ensino, não digo, mas pesquisa principalmente. Então, acho que a SBOC desenvolve...
diversas atividades e estimula muito a inclusão de pacientes em estudos clínicos, que o médico cada vez participe mais de pesquisa clínica. Eu acho que isso é uma cenourinha.
para o médico. É um lado que, sem dúvida nenhuma, é estimulante. Acho que eu não conheço um oncologista que não gosta de estudar e que não tenha esse brilho pela pesquisa. Eu acho que esse atrativo da evolução da ciência na oncologia é um atrativo intelectual incomparável com qualquer outra especialidade, eu acho. Então, o que eu aprendi há cinco anos atrás não vale mais, eu tenho que aprender outras coisas que mudam.
Então esse atrativo ainda existe. Agora, como atrair um jovem médico? Eu acho que a gente tem que dar um passo atrás em relação a essa admiração por tudo que é tecnológico e começar a valorizar o humano e pessoas em posições-chave.
tem que dar o exemplo sobre a valorização do humano no que tange a relação com o paciente oncológico. Pelo menos a geração de pacientes atuais que vão ter câncer, eles ainda vão precisar da interface humana para passar pelo tratamento de um câncer ou para vir a falecer depois de muitos anos de um câncer. Pode ser que a geração das minhas filhas se satisfaça com a interação com o aplicativo, mas esta geração de agora, de pessoas acima de 50 anos...
Então, nesse salário, vou levar o salário. Então, nesse salário, vou levar o salário.
vai precisar de uma interface com o humano. E cabe a nós, um pouco mais velhos que a média dos oncologistas no Brasil, mostrar o valor disso e valorizar isso todo momento que a gente puder, em detrimento de ficar valorizando o novo aplicativo que pode aparecer e que vai dizer que droga usar. Porque que droga usar é uma coisa.
Eu vou te dizer, inteligência artificial nada mais é do que um bom guideline, só que na palma da minha mão. A inteligência artificial vai me dizer, Rafael, dê a droga A, depois C, depois B, exatamente da mesma maneira que eu aprenderia se eu abrisse um guideline.
Então, a decisão terapêutica, não vou dizer que o humano sabe melhor que o guideline com a inteligência artificial, mas a tradução disso para o paciente e a aplicação disso no paciente depende do humano. E é isso que nós temos que focar, se é que vai existir alguma coisa que ainda vai atrair alguém para fazer a oncologia. Mas se isso não vier atrelado com o mínimo de satisfação salarial, as pessoas não vão fazer a oncologia. Elas vão preferir tentar virar blogueiras ou tentar virar influencer, entendeu?
É a realidade, é triste dizer isso, mas olha o que aconteceu com a dermatologia. A dermatologia hoje é quase inexistente, a dermatologia de patologia clínica. Ninguém tem interesse, as pessoas querem ser blogueiros e influencers de dermatologia. Ninguém quer cuidar do vasiloma, do melanoma, nem da psoríase, nem da...
A dermatite atópica. Só resgatando algumas questões que eu achei super importantes que o Rafael colocou. A primeira, como professora, eu acho que a gente tem que encantar os alunos. Então, a gente tem que ensinar oncologia nas faculdades. E eu não tenho exatamente esse número, mas são poucas as escolas médicas que você tem a disciplina de oncologia. E eu não tenho nada.
Então, eu acho que ampliar o estudo, não as faculdades de medicina, que pelo contrário, elas estão se ampliando até demais. Mas, assim, a disciplina de oncologia, eu acho que ela tem que ser introduzida, introduzida por médicos, talvez mais sênios, que valorizem justamente essa relação médico-paciente, porque a diferença da máquina...
é que o humano consegue ver detalhes, ele consegue individualizar o paciente, ele consegue perceber coisas que, infelizmente, a máquina tem que ser digitada e entregue a ela. Eu adorei a figura de linguagem, que é um guideline na palma de sua mão, mas no fundo...
Essa interação é insubstituível. E eu sei que não é o tema da nossa conversa aqui, mas o senhor me deixou desesperada. Quer dizer que estamos... O senhor falou brincando, é sério. O senhor acha que da mais uma geração a medicina será substituída por uma... A oncologia clínica. Vamos até fechar. Eu não sei se é oncologia, porque ela é extremamente fragmentada.
Então ela é difícil de você traduzir mais. De colocar tudo numa caixinha só. Uma caixinha só. Mas muitas especialidades eu não tenho dúvida nenhuma. Aliás, a própria dermatologia, o diagnóstico dermatológico, hoje a pessoa aponta para si a câmera do celular, de um bom celular, e uma ferramenta de inteligência artificial vai dar o diagnóstico.
Então, assim, eu acho que muita coisa vai ser determinada por ferramentas eletrônicas. E a grande pergunta é a geração que hoje tem 10, 15, 20 anos de idade, essa geração, ela quer a interação humana? Hoje eu acho que sim, mas pode ser que minha filha me conte, ou minha neta futura me conte que não. Que ela não está ligando muito, ela quer fazer o que é certo. Se o celular falou que o certo é tomar ACB, ela vai tomar ACB. E aí eu pergunto...
E, de novo, fugindo um pouco do nosso assunto, mas eu volto na questão seguinte, se, eventualmente, essa tecnologia toda, já que ela veio à tona no seu exemplo, ela deveria, ela poderia funcionar de uma outra maneira, até para liberar esse tempo que é exíguo, a senhora colocou ali no começo da nossa conversa, também nessa verticalização para quem está no tempo de consulta determinado.
por esse patrão, por essa empresa, deveria liberar o médico para olhar mais para o olho do paciente, deveria ser um facilitador para ele no que interessa, que é o olho do paciente, a mão no paciente ou não. Sim, deveria se criar um aplicativo que desligue tudo que é eletrônico num raio de 3 metros, enquanto o médico está com o paciente. Eu vou querer um desse na sala de jantar da minha casa, doutor, vou querer um desse na sala de jantar da minha casa.
E por fim, eu preciso fazer essa pergunta, sabendo que eu estou fazendo um monte de perguntas que não existem respostas prontas para elas, mas já que tocamos na questão salarial, o que pode ser feito para melhorar a remuneração dos oncologistas clínicos?
dentro da ética, de tudo. Eu vou te falar o que acontece na Europa. Na Europa, os salários, grosso modo, a Europa, os salários para médicos em geral são comparativamente muito baixos a outras profissões, ou pelo menos não são desproporcionalmente mais altos como são aqui na América Latina e nos Estados Unidos.
E lá, o que os oncologistas acabaram fazendo, e eu estou falando de gente muito boa do ponto de vista científico, é que todos eles acabam virando parcialmente empregados ou funcionários da indústria farmacêutica que desenvolve as drogas, que financia o desenvolvimento das drogas que eles próprios usam.
Então eles viram speakers, eles viram palestrantes quase profissionais para as diversas farmas, para os diversos laboratórios farmacêuticos. E com isso eles ganham do laboratório que está produzindo a droga, porque eles trazem para a América Latina, para outros lugares do mundo, palestras para ensinar a nós a usar a medicação. Desculpa não deixar interromper. Mas parcialmente eles viram speakers profissionais para essa indústria farmacêutica.
E eles mesmos abertamente me falam, Rafael, eu ganho mais dando aula do que eu ganho da minha prática médica.
E a grande pergunta é, se isso acontece também no Brasil, não vai ter para quem dar essa aula, se todos os oncologistas de repente começarem a virar speaker, vai dar aula para quem, se todo mundo é speaker, entendeu? Então a gente teria que achar alguma alternativa para isso, e é muito fácil a gente dizer, ah, é só falar com o chefe da operadora verticalizada, embandar ele aumentar os salários. Bom, para isso precisaria uma greve encabeçada pela ESBOC para os oncologistas se recusarem, não é isso que a gente defende, entendeu?
Então, assim, eu não tenho a solução, eu realmente não tenho a solução, mas vai ter que se encontrar um meio termo, porque daqui a pouco não vão existir oncologistas para a operadora verticalizada contratar se ela não tomar cuidado. O SUS já não está tendo gente que quer trabalhar no SUS, já é um problema gravíssimo. Então, o primeiro passo, se eu tiver que dar uma sugestão, é que o governo crie um plano de carreira para médico, vamos falar, oncologista.
Dentro do SUS, dentro de existir um plano de carreira.
onde a cada 5 ou a cada 10 anos exista um incremento salarial e isso tem que ser regionalizado, áreas menos assistidas têm um salário maior do que outras e assim por diante. Tem que existir um plano de carreira assim como existe no direito, existe para advogados, juízes. Sim, sim. Sem isso, e isso representa a cobertura de 80% da população nossa, não haverá oncologistas no SUS em poucos anos porque a Fátima está lá por idealismo.
eu não tive esse idealismo, o meu idealismo durou menos que o da Fátima, então eu trabalhei no SUS e parei. No final, o senhor deu uma solução, está vendo? Uma possível solução. Eu acho que as possibilidades são diversas, eu concordo plenamente, eu acho que eu sempre tive em mente essa questão da carreira médica, e mesmo para resolver o problema da regionalização.
Eu fico vendo médicos do exército, da marinha e etc. Podiam perfeitamente cobrir determinadas regiões e determinados momentos. Então eu acho que solução existe. Precisa de uma vontade política.
Nós, professores das faculdades públicas, a gente vive também de bolsa de pesquisa. Então, isso também complementa o salário. Mas, de novo, eu acho que nem todo mundo se encanta pelas mesmas coisas.
Uns se encantam e necessitam, sei lá, questões... Então, que bom! Então, a gente tem que achar soluções também para as diversas demandas dos profissionais, né? O que que encanta aquele profissional? O que mantém ele naquela especialidade? Então, eu acho que a pesquisa, para mim, é uma coisa que me encanta.
É ensinar é outra coisa que me encanta. Os próprios pacientes. Agora eu não faço mais assistência, mas durante muitos anos eles me encantaram muito. Então, acho que as soluções são diversas, mas sem dúvida nenhuma precisa minimamente de um sustento.
Então, eu acho que isso é o seu... Eu só espero que todos eles não resolvam virar porta-vozes, speakers. Minha cara que eu não segurei é porque isso também teria... Tem um conflito de interesse. Em ética, um viés. Conflito de interesse. Porque eu vou falar de um medicamento que não necessariamente é aquele que eu acho que é o melhor, mas aquele que paga o meu salário. Eu queria agradecer vocês dois, foi muito rico.
Saber que existem todas essas dores, a questão da autonomia, a frustração, a questão salarial, mas que a SBOC está pensando nisso, está preocupada com isso e está se movimentando por isso. Queria que cada um desse uma palavrinha final sobre esse assunto, um recado para quem está nos assistindo.
Eu gostaria de convidá-los a assistir a sessão que vai acontecer aqui na SBOC. Nós não seremos os palestrantes, então acredito que eles talvez possam trazer contribuição importante para esse tema. Então eu gostaria que vocês assistissem a esse evento.
Se eu fosse deixar uma mensagem para alguém que está se formando na especialidade agora, eu diria o seguinte, o que você sabe hoje vai mudar nos próximos 5 anos, e daqui a 5 anos o aplicativo do celular vai te dizer o que fazer. Mas a forma como você interage com o paciente, nenhum aplicativo vai te ensinar. Então preserve e cultive isso.
E se isso virar um desafio para você, cada paciente na sua frente, embora para você seja repetitivo tratar o milésimo câncer de mama, para aquela paciente é a primeira vez que ela tem um câncer de mama, se esse desafio do humano crescer dentro de você, ele vai ser tão interessante quanto aprender a parte científica. E eu acho que isso é verdade, só que você tem que ter um meio que te permita ajudar essa paciente da melhor maneira possível.
Essa é a medicina na sua essência. Eu queria agradecer e convidar vocês a acompanhar as outras entrevistas que estamos fazendo aqui, diretamente do 26º Congresso da SPOC, no nosso canal.