Pelé
O maior jogador de futebol de todos os tempos teve uma vida grandiosa mas também teve contradições. Se estivéssemos falando de um ser humano comum, a conversa seria completamente diferente. Mas não estamos. Edson Arantes do Nascimento dividiu o futebol entre antes e depois dele. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história e a carreira do Pelé.
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:
- CASTRO, Ruy. Estrela Solitária: Um Brasileiro Chamado Garrincha. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
- FLORENZANO, José Paulo. A democracia corinthiana: práticas de liberdade no futebol brasileiro. São Paulo: EDUC/FAPESP, 2009.
- AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou Morrer: Futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: FAPERJ/Mauad, 2002.
- MORAES, Denis de. A esquerda e o golpe de 64. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
- Copa do Mundo de 1958Maracanaço de 1950 · Lesão no joelho · Desempenho na final · Recorde de jogador mais jovem
- CIA e Copa do Mundo 1970Melhor time da história · Tensão interna pré-copa · Defesa de Gordon Banks · Gol de Carlos Alberto
- Possível Transição para Ditadura MilitarUfanismo e propaganda · Encontro com Médici · Silêncio e contradição · Comparação com Muhammad Ali
- Legado e InfluênciaLei Pelé · Questão racial · Filha Sandra Arantes do Nascimento · Dificuldades financeiras · Debate Pelé vs Maradona vs Messi
- Santos e BragantinoChegada ao Santos · Estreia profissional · Campeonato Paulista · Lealdade ao clube
- Estadia nos Estados UnidosNew York Cosmos · Popularização do futebol · North American Soccer League · Legado da semente
- Santos Futebol Clube· EsportesFutebol-arte · Excursões internacionais · Tesouro Nacional
- Pelé· EsportesTrês Corações, Minas Gerais · Bauru, São Paulo · Dondinho (pai de Pelé) · Apelido Pelé
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Existem poucas coisas coisas na vida que praticamente não tem debate. Na política tem debate, em questões sociais tem debate, até na religião as pessoas debatem. Mas praticamente nunca sobre quem foi o melhor jogador de todos os tempos as pessoas divergem. É praticamente um consenso. Hoje eu quero te contar a história do homem por trás do mito, a história de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Eu quero falar de onde que ele veio, o que que ele fez dentro e fora do campo.
Eu quero falar das suas contradições e também sobre o que a história dele nos diz sobre o Brasil. Meu nome é Vitor Soares, eu Eu sou o professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. Primeiramente, nós temos que entender a origem do nosso personagem. Pelé nasceu em Três Corações, que fica no sul de Minas Gerais, no dia 23 de outubro de 1940. Seu nome de batismo era Edson Arantes do Nascimento, uma homenagem do seu pai ao inventor Thomas Edison.
A família se mudou para Bauru, no interior de São Paulo, quando ele era ainda uma criança, e foi Foi lá que o pequeno Edson cresceu. O contexto que ele vivia era de grande pobreza. O seu pai, João Ramos do Nascimento, conhecido como Dondinho, também era jogador de futebol. E ele até tinha talento, mas nunca chegou ao topo. Infelizmente, uma lesão grave no joelho interrompeu a sua carreira quando ele era ainda bem jovem. E com isso, ele ficou para sempre no futebol de cidade do interior, ganhando pouco, sustentando a família com bastante dificuldade.
Pelé engraxava os sapatos nas ruas de Bauru para ajudar em casa e fazia uns bicos aqui ou ali. Desde pequeno, Edson demonstrou gosto pelo futebol. A sua primeira bola foi uma meia com trapos, porque uma bola de verdade custava bem caro para ele. O apelido Pelé tem uma origem que ele próprio nunca conseguiu explicar com certeza. Surgiu ainda na infância, em Bauru. A versão mais aceita é que veio do nome de um goleiro local chamado Bilé, que o jovem Edson admirava, e ele pronunciava errado, saindo como Pelé.
O curioso é que ele odiava esse apelido quando ele era criança, tanto que ele brigava com quem o chamava assim. Ele chegou a ser suspenso da escola por brigar por por conta do apelido. E justamente o nome que ele desprezava acabou se tornando a palavra mais conhecida do futebol mundial. O pai, Dondinho, foi a maior influência técnica da vida de Pelé, mesmo sem nunca ter chegado ao topo. Dondinho era um jogador habilidoso e ensinou o filho tudo que sabia.
O Pelé falava com admiração do pai até o fim da sua vida. Aos 15 anos, em 1956, o Pelé chegou ao Santos por uma indicação de um olheiro chamado Valdemar de Brito. Um ex-jogador da seleção que havia se impressionado com o menino em Bauru. A chegada ao Santos não foi fácil. Existia uma forte resistência interna em permitir que um garoto de 15 anos estivesse no time profissional. O técnico Lula foi quem insistiu e manteve o Pelé no elenco.
Em poucos meses, ficou claro que a resistência estava errada. O Pelé estreou no profissional do Santos em setembro de 1956 e marcou um gol logo na estreia. No ano seguinte, aos 16 anos, ele foi artilheiro do Campeonato Paulista. A convocação para a seleção Então, era uma questão de tempo. Também vale entender o que era o Santos naquele momento. O Santos Futebol Clube era um time importante do litoral paulista, mas definitivamente não tinha a dimensão nacional e internacional que ganharia com o Pelé.
O Santos não tinha o mesmo peso nacional dos grandes clubes dos centros de Rio e São Paulo, mas já era uma força relevante no futebol paulista. O que tinha era uma estrutura que apostava em jovens talentos e um presidente, Athié Jorge Cury, que foi inteligente o suficiente para perceber o que tinha em mãos quando o Pelé chegou. O Santos construiu um time ao redor do Pelé, não foi o contrário. Foi uma decisão administrativa que rendeu frutos por uma década inteira.
E o Pelé, por sua vez, ficou no Santos por toda a sua carreira brasileira, mesmo recebendo propostas incríveis de vários clubes diferentes. A lealdade ao clube que o revelou foi uma característica rara no futebol de qualquer época. O Brasil de 1958 chegava à Copa do Mundo da Suécia com uma mistura de ambição e até trauma. Naquele momento, a gente nunca havia vencido uma Copa do Mundo. E não menos importante, a gente carregava a cicatriz do Maracanaço de 1950, quando o Brasil perdeu a final para o Uruguai no próprio Maracanã, diante de quase 200 mil pessoas.
Foi uma derrota que entrou para a história brasileira como uma das maiores tragédias do esporte nacional. A seleção de 58 tinha jogadores excepcionais, como Garrincha, Didi, Vavá, Nilton Santos, mas a grande dúvida era sobre um menino de 17 anos que havia sido convocado e que havia chegado na Suécia com uma lesão no joelho. Uma lesão que preocupava a comissão técnica. O Pelé não jogou as primeiras partidas da Copa. Ele entrou nas quartas de final contra o País de Gales e marcou o único gol do jogo com uma jogada que já antecipava o que estava por vir.
Ele recebeu uma bola de costas para o gol, controlou, girou para se livrar da marcação e chutou para marcar o único gol do jogo. Na semifinal contra a França, ele fez 3 gols. E na final contra a Suécia, marcou 2, incluindo um dos gols mais bonitos da história do futebol. Onde ele matou no peito, deu um lençol no zagueiro e finalizou de forma incrível. O Brasil venceu por 5x2 e o Pelé, com 17 anos apenas, se tornou o jogador mais jovem a marcar numa final de Copa do Mundo.
Um recorde que existe até hoje, enquanto eu gravo esse episódio. A cena do choro de Pelé após o apito final, abraçado ao goleiro Gilmar, é uma das imagens mais reproduzidas da história do futebol. O Santos dos anos seguintes foi uma das maiores máquinas de futebol que o mundo já viu. Com o Pelé no centro de tudo, o clube conquistou 5 títulos nacionais consecutivos pela Taça Brasil, entre 1961 a 1965. O 6º título brasileiro daquela geração viria em 1968, no Torneio Roberto Gomes Pedrosa.
Ele também conquistou 2 Mundiais Interclubes, em 1962 e 1963, vencendo o Benfica de Eusébio e o Milan de Gianni Rivera. Em 63, porém, o Santos decidiu o título contra o Milan sem o Pelé na partida final. O Santos não era um time de futebol comum, era um verdadeiro espetáculo. Os clubes ao redor do mundo pagavam fortunas pra receber o Santos em excursões, porque era uma garantia de um estádio lotado. O que a gente tá vendo se formar nesse momento é uma identidade do tal futebol-arte, que encanta todo mundo que assiste jogos do Brasil.
O Pelé jogou em dezenas de países, foi visto pessoalmente por milhões e milhões de pessoas, e tudo isso em uma época em que a televisão ao vivo era um privilégio de poucos. Foi nesse contexto que em 1961 o governo Jânio Quadros tentou barrar a saída do Pelé pro exterior, o tratando como uma espécie de Tesouro Nacional. A ideia era impedir a sua transferência pra clubes estrangeiros, mas a medida teve caráter político e simbólico.
Não foi, obviamente, uma incorporação literal ao patrimônio do país. A medida foi uma resposta direta às propostas que chegavam da Europa, onde principalmente o Real Madrid e a Juventus já haviam feito ofertas concretas. O governo brasileiro entendeu que perder o Pelé pra Europa seria uma perda simbólica e comercial inaceitável. Era uma intervenção bem incomum do Estado brasileiro no futebol, Mostrando o peso que o Pelé já tinha pro país.
As Copas de 62 e de 66 foram frustrações de formas diferentes. Em 62, no Chile, o Brasil venceu o torneio, mas o Pelé lesionou logo na segunda partida e não jogou mais. Foi o Garrincha quem carregou o time. Inclusive, esse é um outro jogador que tem uma história incrível. E eu vou falar mais sobre ele no episódio exclusivo pros apoiadores dessa semana. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, É só assinar o apoia.se/historiamehora.
Bem, em 1966, a Copa na Inglaterra foi bem pior. O Brasil caiu ainda na primeira fase e o Pelé foi o principal alvo das faltas brutais dos adversários. Contra Portugal especificamente, ele foi derrubado várias vezes sem que o árbitro interviesse com firmeza. O Pelé saiu machucado e com muita raiva, inclusive. Ele falou que não voltaria a jogar uma Copa do Mundo. Pra nossa sorte, é claro, ele voltou atrás na sua decisão. Em 1969, o Santos fez uma excursão pela África e jogou na Nigéria.
Naquele momento, a Nigéria vivia uma das guerras civis mais sangrentas da história africana. O conflito entre o governo federal nigeriano e a região separatista de Biafra havia começado em 1967 e já havia causado entre 1 a 3 milhões de mortes. Em grande parte por fome, num dos maiores desastres humanitários do século 20. Era uma guerra com raízes étnicas com o grupo ígbo do leste do país tentando se separar e com potências externas envolvidas nos dois lados.
Quando o Santos desembarcou em Lagos para jogar contra o clube local, a situação era de conflito ativo. E o que aconteceu naquele momento entrou para a história, mesmo que muitos detalhes desse evento envolvam debate. A versão mais divulgada, que o próprio Pelé confirmou em entrevistas ao longo da vida, é que as duas partes do conflito concordaram em um cessar-fogo de 48 horas para que os nigerianos dos dois lados pudessem ver o Pelé jogar.
A versão popular afirma ainda que houve uma foi temporária durante a passagem do Santos pela Nigéria. Mas é sempre bom lembrar que o episódio é extremamente debatido. De fato, há registro da excursão em meio à Guerra do Biafra, mas não tem consenso de que tenha ocorrido um cessar-fogo formal nacional provocado pelo Pelé. É um relato que soa improvável de tão incomum, mas definitivamente nos ajuda a entender o tamanho do Pelé. Jornalistas e historiadores debatem se foi um cessar-fogo formal ou se foi uma trégua localizada.
Mas o certo é que o Santos jogou naquele país no meio de uma guerra, e que o jogo aconteceu com públicos de ambos os lados do conflito, e que o Pelé foi recebido como uma figura acima de qualquer fronteira política ou étnica. A história, mesmo que parcialmente lendária, diz algo real sobre o que o Pelé representava para o mundo naquele momento. Não era a primeira vez que o futebol atravessava as fronteiras de um conflito, mas era a primeira que um único atleta, pelo peso do seu nome, tinha esse poder.
O Pelé não era apenas o melhor jogador do mundo, Ele era um dos seres humanos mais reconhecidos do planeta. Numa época em que reconhecimento global era algo muito mais raro do que hoje em dia. Crianças da Nigéria, do Japão, da União Soviética e, claro, do Brasil, sabiam muito bem quem era o Pelé. De todas as Copas do Mundo que o Pelé participou, definitivamente foi a de 70, no México, a mais importante. O Brasil que chegou naquele torneio é considerado por muitos historiadores do futebol como o melhor time da história.
O melhor time de todos, comparando com qualquer time. Tinha o Pelé, Rivelino, Tostão, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto. Cada posição era ocupada por um jogador que seria titular absoluto em qualquer outro time do mundo. E o entrosamento entre eles produzia um futebol que parecia algo difícil de se explicar. Um detalhe que muita gente não sabe é que havia uma tensão interna antes da Copa sobre a participação do Pelé. Como eu disse, ele havia falado que não voltaria a jogar Copas do Mundo depois de 66, quando ele foi derrubado sem proteção do árbitro.
O técnico João Saldanha, que havia montado a base do time, foi demitido em março de 1970. 78 dias antes da Copa, em meio a conflitos com dirigentes, desgaste interno e uma tensão política com o próprio regime militar. João Saldanha era comunista declarado e é claro que ele não se dava com Médici. Inclusive, eu tenho um vídeo aqui no YouTube que eu conto melhor essa história, é no meu outro canal, o canal História com o Prof. Vitor Soares.
Bem, no lugar do Saldanha, o técnico Zagallo foi chamado e ele já tinha uma experiência como jogador. Ele venceu as Copas de 58 e 62. Zagallo aproveitou a base construída pelo Saldanha, mas fez ajustes importantes na equipe e levou aquele grupo ao México. O Pelé foi convencido a voltar e chegou ao torneio na melhor forma da sua carreira. Com 29 anos, já veterano, ele tava ainda em altíssimo nível técnico e físico e mostrou isso do primeiro ao último jogo.
O jogo mais famoso da Copa não foi nem a final, foi o Brasil contra Inglaterra na fase de grupos, que terminou 1 a 0 para o Brasil. Nesse jogo aconteceu a defesa que muitos consideram a melhor defesa da história. O Pelé cabeceou com tanta força que já tava comemorando o quando o goleiro inglês Gordon Banks se lançou contra o chão. Ele alcançou a bola quase na linha e desviou por cima do travessão. O Pelé parou, olhou, e mais tarde disse que xingou o Banks, mas disse que xingou por ter se impressionado com a defesa.
Também foi nesse torneio que aconteceu o lance em que o Pelé saiu em velocidade pelo lado esquerdo e o goleiro uruguaio Mazurkiewicz saiu para interceptar, e o Pelé deixou a bola passar sem tocá-la, deslocando o goleiro completamente. Ele correu pela outra direção e chutou. O gol, infelizmente, não saiu por centímetros. Mas a jogada entrou pra história como o símbolo do que aquele jogador era capaz de imaginar e fazer em campo.
Na final contra a Itália, o Brasil venceu por 4x1. E o Pelé marcou de cabeça no primeiro gol. Em uma das jogadas mais elegantes da Copa. O quarto gol veio de uma construção coletiva iniciada no campo de defesa. O Pelé recebeu a bola perto da entrada da área, virou pra direita e rolou no tempo certo pra Carlos Alberto. Que chegou pela direita e finalizou. Pra muitos, foi o gol mais bonito de uma Copa do Mundo. E já estamos falando de uma Copa do Mundo cheia de golaço.
O Brasil venceu a terceira Copa do Mundo e ficou com a taça Jules Rimet. O Pelé, aos 29 anos, no auge da sua forma, era reconhecidamente o melhor jogador de todos os tempos. Mas essa Copa tinha uma sombra, algo que envolve futebol, política e muita violência.
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O golpe de 64 havia derrubado o presidente João Goulart e o regime que assumiu endureceu a violência e a repressão política de uma forma progressiva, chegando ao seu momento mais brutal em 1968 com o AI-5, que permitiu fechar Congresso, caçar mandato, suspender direito político e restringir garantias como o habeas corpus em crimes políticos, aprofundando a repressão num contexto em que a tortura praticada por agentes do Estado acabou se intensificando.
Estudantes desapareceram, jornalistas eram presos e artistas foram para o exílio. O Brasil vivia um dos períodos mais sombrios de sua história republicana. E nesse contexto, a verdade é que o futebol foi uma ferramenta política na mão do governo. A Copa de 70 foi um marco da transmissão ao vivo via satélite aqui no Brasil. Houve experiências e exibições em cores para alguns públicos restritos, mas a transmissão oficial em cores da TV brasileira só se consolidaria a partir de 1972, A maioria dos brasileiros viu a Copa em preto e branco.
A seleção foi recebida pelo Médici no Palácio do Planalto logo após a conquista, com uma cobertura massiva da imprensa oficial. A música Pra Frente Brasil, criada para a Copa de 1970, acabou virando o hino informal da seleção e foi incorporada ao clima ufanista explorado pela propaganda do regime. Nesse cenário, o general-presidente Emílio Garrastazu Médici conhecido por ser um dos mais duros no chamado Anos de Chumbo, foi um dos maiores entusiastas da seleção de 1970.
Slogans como Ninguém mais segura este país e Brasil, ame-o ou deixe-o circularam no período e foram associados ao governo Médici. O rádio tocava músicas patrióticas misturadas com celebrações dos gols. A imagem de Médici sorrindo com a camisa da seleção foi amplamente divulgada. A conquista da terceira Copa do Mundo era apresentada como uma espécie de prova de que o Brasil estava no caminho certo, principalmente sob a liderança dos militares.
O futebol servia como uma válvula de escape das tensões sociais e como uma demonstração de que o Brasil ia bem sob o comando dos generais. Na leitura de autores como Roberto da Mata, o futebol pode funcionar como um espaço simbólico em que a sociedade brasileira dramatiza hierarquias, pertencimento nacional e ideias de igualdade que nem sempre existem na vida cotidiana. Beleza, mas e o Pelé? O Pelé não se colocou publicamente como um opositor da ditadura, aceitou participar de alguns rituais oficiais do regime após a conquista.
Ele não usou a vitória como um palanque para criticar o governo ou algo do tipo. Depois de vencer a Copa do Mundo, ele se encontrou com Médici e foi fotografado ao lado do ditador. O silêncio do Pelé em relação ao regime militar é para muitos a maior contradição da sua trajetória pública e a ferida que mais demorou para cicatrizar na sua relação com parte do povo brasileiro. A defesa do Pelé era de que ele era um atleta e não político.
O argumento é que ele não entendia de política e também que não era o lugar dele se manifestar. É uma posição que muitos atletas adotaram e ainda adotam. O problema é que o silêncio em situações de opressão nunca é neutro. E o Pelé não ficou apenas em silêncio, ele também ficou ao lado do ditador. Outros artistas e atletas negros dessa mesma época fizeram escolhas diferentes, com muito mais risco pessoal. Muhammad Ali, por exemplo, nos Estados ele recusou o serviço militar durante a Guerra do Vietnã e chegou a perder o título mundial por isso.
Claro que o Muhammad Ali não vivia numa ditadura e isso com certeza fez diferença. Mas mesmo aqui no Brasil, artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso viveram a censura, a perseguição, a prisão, o exílio ou o autoexílio. O Pelé escolheu diferente e essa escolha foi cobrada por muitas décadas, principalmente por ativistas negros que esperavam que o maior símbolo negro do Brasil usasse a sua voz de forma ativa. Mas voltando a falar de futebol, o Pelé se despediu oficialmente do Santos no dia 2 de outubro de 1974, em um jogo contra a Ponte Preta na Vila Belmiro.
O Santos, que pelo menos durante uma década era o melhor clube do mundo, nunca mais voltaria a ser o que foi. Nos bastidores desse período, a vida pessoal do Pelé era tão movimentada quanto a sua carreira. Ele havia se casado com Rosemary Chobe em 1966 e teve 3 filhos com ela: Kelly Cristina, Edinho e Jennifer. Oliver. Edinho seguiu no futebol como goleiro profissional e anos depois foi condenado por lavagem de dinheiro ligada ao tráfico de drogas, caso no qual ele negou o envolvimento direto com o tráfico.
Bem, de qualquer forma, foi um episódio que o Pelé viveu com sofrimento público e que humanizou a figura de pai perfeito que o mito construiu. O casamento com Rosemary terminou em 1982. Ele teve outros relacionamentos ao longo dos anos e se casou mais duas vezes, primeiro com a psicóloga Círia Lemos, Delícias, em 1994, com quem teve gêmeos, e também com Márcia Cibele Aoki, em 2016. Casamento esse que durou até a morte. Bom, a aposentadoria durou pouco.
Em 1975, o New York Cosmos, clube dos Estados Unidos, financiado pelo Grupo Warner Communications, fez uma proposta milionária para que o Pelé jogasse nos Estados Unidos por 3 anos. As cifras variam bastante, mas algumas fontes dizem cerca de 4 a 7 milhões de dólares. Era uma quantia absurda para E havia um projeto por trás: usar o Pelé como uma alavanca para popularizar o futebol no país, um lugar que historicamente resistia ao esporte mais popular do mundo.
O Pelé aceitou e foi para Nova York. O experimento funcionou, pelo menos parcialmente. A North American Soccer League, que era a liga que o Cosmos jogava, cresceu em público e em visibilidade com a chegada do Pelé. O Giants Stadium em Nova Jersey, que era o estádio do Cosmos, chegou a receber mais de 70 mil pessoas para ver o Pelé jogar. Depois vieram os craques europeus, como Franz Beckenbauer e o Giorgio Chinaglia. Os estádios encheram.
A mídia dos Estados Unidos cobriu tudo e o futebol apareceu nas capas de revistas como a Time e a Sports Illustrated. As crianças norte-americanas começaram a jogar futebol em parques e em quintais em uma quantidade que não tinha precedente até então. Mas quando Pelé se aposentou definitivamente em 1977, o movimento perdeu força. A liga entrou em crise financeira e depois fechou em 1984. O futebol nos Estados Unidos teria que esperar quase duas décadas para ganhar uma nova liga de primeira divisão.
A MLS foi estruturada nos anos 90 e começou a jogar em 96, após a Copa do Mundo de 94 nos Estados Unidos. O legado de Pelé nos Estados Unidos foi plantar uma semente que demorou a germinar, mas acabou germinando. A última partida do Pelé foi no dia 1º de outubro de 1977, em um amistoso entre o Cosmos e o Santos. O Pelé jogou o primeiro tempo pelo Cosmos e o segundo tempo pelo Santos. Era uma forma de homenagear os dois clubes que haviam definido a sua carreira.
Antes do jogo, ele discursou e pediu ao público que repetisse a palavra love 3 vezes. O Pelé tinha 36 anos. Pela contagem tradicional, que inclui amistosos e excursões, ele encerrou a carreira com 1.281 gols em 1.363 jogos. Em contagens restritas, a partir das oficiais, os números são menores e variam conforme o critério, é claro. Fora do campo, o Pelé foi uma figura mais complicada do que o mito deixa ver. Em 1995, ele aceitou ser Ministro Extraordinário do Esporte no governo de Fernando Henrique Cardoso.
O seu principal legado no cargo foi a Lei Pelé, de 1998, que modernizou o futebol brasileiro e acabou com a Lei do Passe, que era um mecanismo que prendia os jogadores aos clubes mesmo após o término do contrato, e estabeleceu novas regras para gestão dos clubes. Mas a sua gestão no ministério também teve críticas. O Pelé não era administrador e tinha dificuldade com os meandros da política. Há quem diga que o seu nome serviu mais para dar visibilidade ao ministério do que para produzir uma política pública eficaz.
Ele saiu do cargo em 1998 sem ter conseguido aprovar todas as reformas que ele havia proposto. A relação do Pelé com a questão racial foi uma outra fonte de tensão ao longo da sua vida. Pelé era um homem negro em um Brasil que raramente tinha figuras negras em posições de visibilidade, mas as suas declarações sobre racismo foram frequentemente consideradas insuficientes ou até mesmo problemáticas por alguns ativistas. Em entrevistas, o Pelé muitas vezes evitou o enfrentamento direto do tema racial ou até tratou o racismo brasileiro de forma mais branda do que os ativistas gostariam.
E é claro que isso gerou críticas. Ao mesmo tempo, documentos e pesquisadores também registram ações e declarações suas contra o racismo, o que torna essa relação mais ambígua do que simplesmente omissa. A vida política do Pelé em geral foi bem ambígua. A imagem pública do Pelé do Pelé foi muitas vezes apropriada como símbolo do mito da democracia racial brasileira. Uma outra polêmica envolvendo a sua vida pessoal foi a história da sua filha Sandra Arantes do Nascimento, filha que teve com Anísia Machado, uma mulher que ele se relacionou durante os anos de Santos.
Por décadas, o Pelé negou a sua paternidade. A Sandra cresceu sem o reconhecimento do pai e tentou durante anos que ele a reconhecesse. Essa batalha judicial se arrastou muito tempo. Sandra Regina, nascida em 1964 de um relacionamento com Anísia Machado, teve a paternidade reconhecida judicialmente. O reconhecimento ocorreu em 1996. A justiça permitiu que ela incorporasse o sobrenome do Pelé. É claro que o episódio foi amplamente criticado e é um dos pontos mais difíceis de entender na trajetória humana do Pelé.
Mesmo com a fama mundial, o Pelé enfrentou algumas dificuldades financeiras ao longo da sua vida. Ele ganhou muito dinheiro, mas também perdeu muito em negócios mal feitos e também em investidores desonestos. Ele chegou a ter problemas sérios de caixa em diferentes momentos da sua carreira e da vida adulta. Depois de aposentado, ele continuou explorando a sua imagem em publicidade, tanto pelo valor enorme de sua marca quanto por questões financeiras.
Tem um outro ponto que não chega a ser uma polêmica na sua carreira, mas depois que ele se aposentou, o Pelé ganhou rivais simbólicos no debate histórico, especialmente o Maradona e mais recentemente o Messi. Os debates não são apenas sobre quem é é melhor, mas também sobre qual estilo de jogador é mais eficiente. O Pelé representa o atleta disciplinado, conciliador, produto da ascensão social pelo mérito, sem conflito aberto com o poder.
Já o Maradona atua em outra lógica. Ele apresenta o atleta rebelde, politicamente engajado, com uma história de autodestruição que acabou prejudicando a sua saúde. O Pelé marcou mais de 700 gols oficiais, dependendo do critério, enquanto o Maradona teve números bem menores, mas é lembrado pela sua genialidade, liderança e impacto esportivo, especialmente na Copa de 86. Nos últimos anos, Lionel Messi também entrou nessa conversa de forma definitiva, especialmente depois de vencer a Copa do Mundo com a Argentina em 2022, o único título que faltava para sua coleção.
Com Messi, o debate virou uma triangulação. E o interessante é que alguns europeus e alguns argentinos tendem a colocar o Maradona, ou atualmente o Messi, acima do Pelé. Mas para o resto mundo, o Pelé continua sendo a referência absoluta. Nos seus últimos anos, o Pelé teve que lidar com muitos problemas de saúde. Ele teve uma cirurgia no quadril e precisou usar cadeira de rodas e depois um andador em aparições públicas. No dia 29 de novembro de 2022, o Pelé foi internado no Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo.
Foi uma reavaliação do tratamento contra o câncer de cólon e também o tratamento de uma infecção respiratória. Em dezembro daquele ano, os boletins indicaram uma progressão da doença e também uma necessidade de de cuidados relacionados a disfunções renal e cardíaca. O seu estado foi se agravando ao longo das semanas de dezembro. Próximo do Natal de 2022, a família anunciou que o quadro era de cuidados paliativos. No dia 29 de dezembro de 2022, Pelé morreu aos 82 anos.
O velório aconteceu no estádio da Vila Belmiro, em Santos, onde o Pelé fez a maior parte da sua carreira. O caixão ficou exposto no centro do terminado, milhares de pessoas fizeram fila por horas para se despedir. Crianças e idosos, pessoas de toda parte do mundo. O cortejo fúnebre passou pelas ruas de Santos e as pessoas colocaram camisas do Santos nas grades. Muitas flores foram jogadas e muita gente chorava. O corpo foi sepultado no Memorial Necrópole Ecumênica, cemitério vertical de Santos.
O jazigo fica no 9º andar e tem uma vista para Vila Belmiro, perto do estádio onde o Pelé fez história. Era o lugar que ele mesmo havia escolhido. O Pelé havia sido o maior atleta da história brasileira, e mesmo após a sua morte, o seu nome ficou imortalizado na memória coletiva de diferentes gerações em todos os continentes do planeta. Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui do História em Meia Hora, que você pode procurar aqui no feed do podcast, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir.
O primeiro episódio se chama Ditadura Militar no Brasil, o segundo se chama Mal e o terceiro se chama Tortura na Ditadura Militar. E agora bora fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje. Vamos lá! Quando falamos do Pelé, estamos falando de simplesmente Edson Arantes do Nascimento, nascido em Três Corações em 1940, criado em Bauru na pobreza e filho de um jogador que nunca chegou ao topo e que engraxava sapatos nas ruas para ajudar a família.
Ele chegou ao Santos aos 15 anos e aos 20 anos era patrimônio nacional. Ele também se tornou o jogador mais jovem a marcar em uma final de Copa Mundo aos 17 anos. Isso ocorreu na Suécia em 1958. Com o Santos, ele foi bicampeão mundial de clubes e venceu 6 Brasileiros. Sua passagem pela Nigéria durante a Guerra de Biafra deu origem à história que hoje em dia é debatida de que ele teria provocado uma trégua temporária. Na Copa de 70, no México, ele fez parte do que muitos consideram o melhor time de futebol da história e conquistou a terceira Copa do Mundo para o Brasil.
Mas essa Copa tinha uma sombra da ditadura militar, que usou a conquista como propaganda E o Pelé, em vez de resistir, se posicionou publicamente ao lado do General Médici. Ele foi para os Estados Unidos em 1975 e ajudou a plantar uma semente para o crescimento do soccer, que é o nosso futebol jogado com os pés. E ele se aposentou definitivamente em 1977 com mais de 1.200 gols. Fora do campo, ele foi ministro, ele deixou a Lei Pelé, negou uma filha por anos e foi criticado por uma postura de pouco combate diante do racismo no Brasil.
Ele morreu no dia 29 de dezembro de 2022 e foi velado no gramado da Vila Belmiro. O caso do Pelé mostra como o ícone nacional pode ser admirado e ao mesmo tempo criticado pelas suas ações, ou até por não ter ações, diferentemente de alguns atletas como o jogador Vini Júnior, que se posiciona constantemente contra o racismo e infelizmente paga o preço por isso. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.