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Capela Sistina

04 de julho de 202628min
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Um dos lugares mais impressionantes que a humanidade já produziu possui séculos de história, muitos segredos escondidos e seu teto é marcado pelos pinceis de Michelangelo. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história da famosa Capela Sistina.

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Apresentação: Prof. Vítor Soares.

Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)

REFERÊNCIAS USADAS:

- KING, Ross. A Batalha de Michelangelo. Tradução de Berilo Vargas. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

- HIBBARD, Howard. Michelangelo. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

- DE VECCHI, Pierluigi. The Sistine Chapel: A Glorious Restoration. New York: Harry N. Abrams, 1994.

- PARTRIDGE, Loren. Michelangelo: The Sistine Chapel Ceiling, Rome. New York: George Braziller, 1996.

- HALL, Marcia. Michelangelo: The Frescoes of the Sistine Chapel. New York: Harry N. Abrams, 2002.

- CONDIVI, Ascanio. Vida de Michelangelo. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Prefeitura do Rio, 2011.

- VASARI, Giorgio. Vida dos Artistas. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

Participantes neste episódio1
V

Vítor Soares

HostProfessor de história
Assuntos5
  • Capela do Corpo Santo· ReligiaoPapa Sixto IV · Papa Júlio II · Papa Paulo III · Papa Clemente VII · Michelangelo Buonarroti · Sandro Botticelli · Domenico Ghirlandaio · Pietro Perugino
  • Juizo FinalReforma Protestante · Saco de Roma · Biagio da Casena · Daniele da Volterra
  • Técnicas de PercussãoBuon fresco · Giornata
  • Percepção e interpretaçãoCérebro humano na Criação de Adão · Humanismo e Neoplatonismo · Médici · Marsílio Ficino · Pico della Mirandola
  • Viagem para a ItáliaInclusive Travel · Operação Barbarussa · Vogalizando a História
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VSVítor Soares

Você entra por uma porta pequena, é empurrado pela multidão, um guarda pede silêncio em 5 idiomas diferentes. E então você levanta os olhos. Nesse momento você para, você fica no meio do corredor com o pescoço pra trás e a boca aberta. Você para porque o que tá no teto acima de você é uma das coisas mais extraordinárias que um ser humano já fez. Mais de 500 metros quadrados de afresco. Mais de 300 figuras humanas. A mitologia sobre a criação do mundo, do pecado, do dilúvio, da aliança entre Deus e os homens, tudo pintado por um artista em apenas 4 anos, num andaime de 20 metros de altura e num ofício que ele mesmo dizia não dominar.

O homem se chamava Michelangelo Buonarroti, e o que ele deixou naquele teto mudou o que entendemos por arte. Hoje eu quero te contar a história de como que a Capela Sistina foi criada, como que nasceu uma das obras de arte mais impressionantes mundo. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. A Capela Sistina é um desses lugares que a maioria das pessoas conhece pelas imagens, mas poucos conhecem pela história.

Eu acredito que boa parte das pessoas que passaram pela escola já devem ter visto aquela imagem de Deus tocando o dedo de Adão. Essa pintura faz parte da Capela Sistina, mas a questão do que hoje é. Você sabe quem mandou pintar esse quadro? O que que ele significa? Quanto custou? Enfim, são detalhes que hoje eu quero falar um pouquinho mais sobre. Mas vamos começar pelo básico: a Capela Sistina não é uma catedral, o que significa que ela não é aberta ao público para as missas regulares.

Esse ambiente é, na prática, uma das salas mais importantes de todo o Vaticano. Ela cumpre algumas funções ligadas à atuação do Papa. Inclusive, a Capela Sistina é a capela privada do Papa, onde ele celebra as liturgias mais importantes do calendário eclesial e é o local do conclave, aquela reunião secreta dos cardeais para eleger um novo Papa. Por exemplo, no próprio conclave, a fumaça branca que todo mundo vê pela televisão quando um novo Papa é eleito sobe de uma chaminé que está justamente na Capela Sistina.

A capela recebeu esse nome por conta do Papa Sixto IV, por isso o nome em latim Sistina, com X. A antiga Capela Magna foi reformada entre 1477 até 1480. A decoração começou em 1481 e terminou em 1482, e a capela foi consagrada no ano seguinte, em 1483. Sixto IV era um homem de grande ambição política e cultural. Foi ele quem formalizou e institucionalizou a Biblioteca Apostólica Vaticana, retomando um projeto iniciado por Nicolau V, e ajudou a transformar Roma em um dos grandes centros artísticos do Renascimento.

A Capela Sistina era parte desse projeto maior de afirmação do poder papal, em um momento em que Esse poder estava sendo contestado de várias direções. Dentro desse contexto, até a construção da capela seguiu uma lógica muito bem pensada. A capela foi projetada com proporções que remetiam ao Templo de Salomão, que está descrito no Antigo Testamento: 40,5 metros de comprimento, 13,5 metros de largura, 20,5 metros de altura. Era uma espécie de declaração teológica através da arquitetura.

Quando os turistas de hoje em dia entram na Capela Sistina, quase todos levantam imediatamente os olhos justamente para o teto. E é perfeitamente compreensível, afinal o teto é pintado por Michelangelo e tem aquelas imagens famosas que eu falei no início do episódio. O que muita gente acaba ignorando é que a Capela Sistina não tem obras apenas no teto, mas também nas paredes laterais. Sisto IV convocou para Roma um time que hoje seria equivalente a reunir todos os melhores artistas do mundo num único projeto: Sandro Botticelli, o pintor do Nascimento de Vênus e da Primavera, Domenico Ghirlandaio, que anos depois seria que seria mestre de Michelangelo, Pietro Perugino, que seria mestre de Rafael, Cosimo Rosselli e outros.

Esses pintores trabalharam em ciclos paralelos nas paredes laterais da capela. Do lado esquerdo, as pinturas retratam fases da vida de Moisés. Do lado direito, episódios da vida de Cristo. E aqui nós já temos uma questão teológica bem importante, que era simbolicamente apresentar Moisés como alguém que representava Jesus no Antigo Testamento. As pinturas das paredes são obras-primas por si mesmas, mesmo que poucas pessoas as vejam com atenção.

O artista Pietro Perugino deixou uma das cenas mais célebres da capela, a entrega das chaves a São Pedro. E a sua oficina participou de obras como o Batismo de Cristo. O pintor Cosimo Rosselli também deixou a sua marca com a história de Moisés. E mesmo que todas essas imagens sejam incríveis do ponto de vista artístico, é evidente que é o teto quem chama mais atenção. Mas eu queria que vocês soubessem que quando Michelangelo chegou, em 1508, esses afrescos já estavam lá.

Parte da dificuldade da sua tarefa era dialogar com essa herança sem apagá-la. Mas falando um pouco sobre o autor, o Michelangelo Buonarroti tinha 33 anos quando o Papa Júlio II o convocou para Roma, em 1505. O artista já era famoso na Itália e tinha obras expostas em diferentes lugares da Europa. A escultura de Davi estava em Florença desde 1504. E a Pietà estava em São Pedro desde 1499. O Michelangelo se via bem mais como um escultor do que como um pintor.

Quando Júlio II o contratou, o projeto original era bem ousado. Envolvia fazer um túmulo funerário papal de proporções faraônicas, com mais de 40 estátuas em mármore. Michelangelo passou meses em Carrara selecionando blocos de mármore para a obra. E então, Júlio II mudou de ideia. Em 1508, o Papa convocou Michelangelo e disse que o projeto do túmulo estava suspenso. Em vez disso, que ele pintasse o teto da Capela Sistina. O que tinha no teto antes era uma pintura simples de céu estrelado sobre fundo azul, e Júlio II queria algo bem maior.

Michelangelo resistiu e argumentou justamente que era escultor e não pintor. Ele disse que a encomenda deveria ir para Rafael, que era o grande pintor da moda em Roma. Ele também falou que não tinha experiência com afrescos em uma escala tão grande como a que o Papa queria. Mas o Júlio II insistiu e Michelangelo aceitou, continuando a afirmar que era escultor. Júlio II era um Papa bem interessante de se conhecer. Ele era chamado de "Il Papa Terribile", no sentido de que inspirava temor.

Ele era um papa guerreiro, famoso justamente por se envolver diretamente em campanhas militares, algo que era possível dentro da política italiana da época, mas definitivamente marcante o bastante para fazer dele uma figura singular. Além disso, foi ele quem iniciou a demolição da velha Basílica de São Pedro para erguer a nova. Essa basílica vai voltar a aparecer na história porque foi aquela que o Martinho Lutero visitou e ficou escandalizado com tanto luxo.

Inclusive, esse luxo era uma marca do Papa, conhecido por ser um dos mecenas que mais encheu Roma de arte, ao mesmo tempo que tinha uma relação tensa com muitos desses artistas. A própria relação com Michelangelo era bem conflituosa, afinal, a gente está falando de duas personalidades bem fortes. Tem relatos de que o Júlio II bateu no Michelangelo com um bastão durante a obra e que o Michelangelo ameaçou abandonar Roma em resposta, mas nada disso é comprovado.

Algumas cartas de Michelangelo a amigos descrevem o Papa com termos bem desrespeitosos para a época. Mas, apesar dos conflitos, ele trabalhou na capela. O trabalho começou em maio de 1508 e terminou em outubro de 1512. Michelangelo projetou e supervisionou a construção de um andaime que percorria o comprimento da capela, a 20 metros de altura, permitindo que ele trabalhasse de pé, com o pescoço e os braços inclinados para cima.

Existe um mito de que ele pintou deitado, mas isso é só uma história inventada. Michelangelo pintou de pé, curvado para trás, com a tinta escorrendo sobre o seu rosto. Em uma carta famosa escrita para um amigo durante o trabalho, ele descreveu com precisão o estado físico em que ele se encontrava, citando o pescoço rígido, costas arqueadas, barriga projetada para frente e a visão tão afetada pela posição que, durante um período, ele só conseguia ler colocando os papéis acima da cabeça.

A decisão sobre o que seria pintado e em que ordem foi desenvolvida concebido pelo próprio Michelangelo em consulta com teólogos do Vaticano, mas ele teve uma autonomia criativa que era incomum para as encomendas papais da época. O teto é dividido em zonas que agrupam diferentes narrativas. No centro, em 9 painéis, estão as cenas do Gênesis: a separação da luz das trevas, a criação do sol, da lua e dos planetas, a separação das águas, a criação de Adão, a criação de Eva, o pecado original e a expulsão do paraíso, O Sacrifício de Noé, O Dilúvio e a Embriaguez de Noé.

Cada um dos nomes que eu citei aqui são afrescos que podem ser analisados isoladamente como quadros próprios. Michelangelo os pintou em ordem inversa à narrativa bíblica, começando pelo Dilúvio e terminando com a separação da luz das trevas. Nos tronos pintados ao longo das bordas do teto estão os 7 profetas do Antigo Testamento: Jeremias, Isaías, Ezequiel, Joel, Zacarias, Daniel e Jonas, alternados com as 5 sibilas da tradição clássica greco-romana: a Líbica, a Eritreia, a Délfica, a Cumana e a Pérsia.

A inclusão das Sibilas com figuras pagãs da antiguidade, justamente ao lado dos profetas hebreus, era uma espécie de afirmação teológica de que a sabedoria divina se manifesta em diferentes tradições. E as Sibilas, como os profetas, haviam anunciado a vinda de Cristo. E claro, nós temos a criação de Adão. Essa é provavelmente a imagem mais reproduzida da história da arte ocidental. O que essa imagem comunica? Continua sendo objeto de debate entre os historiadores da arte.

O mais óbvio é o ato de transmissão de vida com toque divino que anima a criação humana. Mas há também uma simetria nas posturas entre Adão e Deus, que espelham um ao outro. É como se a criatura refletisse o criador. Michelangelo estava explorando uma relação muito elevada entre o humano e o divino, em diálogo com o humanismo e o neoplatonismo. Mas é melhor a gente tratar essa leitura como interpretação e não como uma prova de desafio direto à ortodoxia. 23 anos depois de terminar o teto, Michelangelo voltou à Capela Sistina.

Ele tinha 61 anos quando o Papa Clemente VII o comissionou para pintar a parede do altar, que é basicamente a parede frontal, a maior superfície da capela. O projeto foi interrompido pela morte de Clemente VII e retomado pelo Papa Paulo III. Michelangelo trabalhou na obra entre 1536 a 1541, e o resultado foi o Juízo Final. Uma obra tão diferente do teto que parece ter sido feita por outro artista. O contexto histórico entre as duas obras explica muito da diferença.

Quando Michelangelo pintou o teto, entre 1508 a 1512, a Igreja Católica estava no auge da sua confiança renascentista. Já quando ele pintou o Juízo Final, entre 1536 a 1541, o mundo havia mudado muito. A Reforma Protestante de Martinho Lutero havia dividido o cristianismo europeu a partir de 1517. Além da própria questão teológica, a Reforma colocou a Europa em um cenário de muitos conflitos civis, conflitos envolvendo justamente a religião.

Por exemplo, em 1527, a capital romana vivenciou o famoso Saco de Roma, que foi um evento marcado pelas tropas do imperador Carlos V invadindo e saqueando a cidade por dias. Foi um episódio bastante violento e chocou o mundo cristão. Afinal, era um imperador aliado da Igreja Católica que estava atacando adversários políticos, mas que agora também eram rivais religiosos. Michelangelo viveu as consequências políticas e até espirituais daquele período de crise italiana, marcado pelo saque de Roma e pela instabilidade que também atingiu Florença.

Ele tinha agora uma visão bem mais sombria da condição humana e do destino da civilização. Talvez por isso que O Juízo Final seja uma obra de angústia. Em vez da ordem geométrica e das zonas narrativas, que ficam bem claras lá no teto, existe uma turbulência de corpos nus, com mais de 300 figuras em movimento, subindo e descendo. Alguns sendo salvos e outros condenados. Todo esse caos era pra transmitir a emoção do fim dos tempos.

O Cristo que tá ao centro não é o Cristo meigo dos afrescos medievais. É uma figura musculosa, imponente, com o braço levantado em um gesto que parece ao mesmo tempo corpo de bênção e de condenação. A Virgem Maria ao seu lado está com o rosto voltado para baixo, como se não conseguisse suportar o que vê. Na parte inferior direita, os condenados são arrastados para o inferno pelos demônios, em um barco que lembra bastante a barca de Caronte, a figura da mitologia grega que transportava a alma dos mortos.

Mais uma vez, como no teto com as sibilas, o Michelangelo integrava a tradição clássica pagã ao universo cristão.

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VSVítor Soares

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Roma, Grécia, filosofia, impérios, guerras, democracia. Vamos falar de tudo isso pessoalmente contigo, andando por onde aconteceu. A gente começa em Roma, depois vai pro Vaticano, depois pra Pompeia, Grécia, Atenas, Delfos, enfim. Aqui embaixo tem um link com o roteiro da viagem bonitinho. E tem um detalhe importante, essa viagem vai ser o momento pra você desligar a cabeça, você vai só curtir. E o motivo é que praticamente tudo tá incluso no pacote.

Você não vai precisar se preocupar com deslocamento, com logística, nada disso. A gente vai ter guias de viagem acompanhando o tempo todo, além de claro nós três te explicando sobre a história daquele lugar. São várias viagens dentro de uma só: Roma, Pompeia, Grécia, as ilhas gregas, tudo já bem organizado para você só aproveitar. O História e Cinema, que é o nosso canal, tá organizando essa viagem junto com o pessoal da Inclusive Travel.

E vai ser um prazer enorme ter você junto com História em Meia Hora, com Vogalizando a História, com Operação Barbarussa, vivenciando vários episódios, só que dentro deles. Então anota na sua agenda, em outubro a gente se vê numa viagem no tempo inesquecível. Clica aqui embaixo no link pra você ter mais informações e qualquer dúvida manda mensagem pra Inclusive Travel, que eles têm uma equipe preparada pra te ajudar. A gente se vê em outubro, gente, valeu!

A pintura do Juízo Final, como vimos agora a pouco, marcou uma mudança muito grande na forma que os elementos religiosos foram apresentados. E não se engane, tá? A polêmica começou ainda antes da obra ficar pronta. O mestre de cerimônias papal, Biagio da Casena, viu os esboços e declarou que aquele monte de nuvens era mais adequado a uma taverna do que uma capela papal. O Michelangelo respondeu da única forma que um artista podia responder: ele pintou Biagio da Casena no inferno, com orelhas de burro, enrolado por uma cobra entre os condenados.

Da Casena A Madonna reclamou ao Papa Paulo III, que respondeu, segundo a tradição, que a sua autoridade não chegava ao inferno. Mais uma anedota que a gente infelizmente não tem como comprovar. Mas a polêmica sobre os nus não terminou com o bom humor papal. Após a morte de Michelangelo em 1564, o Concílio de Trento havia endurecido as regras sobre a representação religiosa e um pintor chamado Daniele da Volterra foi contratado para pintar panos e folhas sobre as partes íntimas das figuras.

Algumas dessas coberturas removidas na restauração do século 20, já outras permaneceram. A Capela Sistina é um dos lugares do mundo que mais gera teorias, interpretações e especulações. Algumas academicamente sólidas, outras totalmente fantasiosas. E eu acho que vale a pena apresentar as principais teorias, com honestidade, claro, sobre o que é confirmado e sobre o que é especulação. A teoria mais famosa e amplamente discutida é a do cérebro humano na criação de Adão.

Em 1990, o médico Frank Lynn Mashburger, publicou no JAMA um artigo defendendo que o manto e as figuras ao redor de Deus no afresco da criação de Adão formariam uma imagem compatível com o corte do cérebro humano, incluindo o tronco cerebral, a hipófise e os lobos frontais. Se verdadeiro, o argumento seria que o Michelangelo, que inclusive havia dissecado cadáveres para estudar a anatomia humana, algo bem incomum e delicado para época, Estava sugerindo que Deus não transmite a Adão a vida física, mas sim a inteligência, o intelecto, a capacidade de pensar.

É uma interpretação radicalmente humanista, o que colocaria o Michelangelo muito mais próximo do neoplatonismo florentino do que da teologia mais conservadora. Os historiadores da arte estão divididos nesse ponto. Alguns a consideram convincente, mas outros a tratam como uma projeção moderna numa obra do século XVI. O que é historicamente mais seguro de afirmar é que Michelangelo foi profundamente influenciado pelo ambiente humanista e neoplatônico de Florença, especialmente no círculo dos Médici.

Ele havia crescido na corte de Lorenzo de Médici, em Florença, onde entrou em contato com o ambiente intelectual com os maiores filósofos neoplatônicos da época, como Marsílio Ficino e Pico della Mirandola. O neoplatonismo florentino acreditava na possibilidade de ascensão da alma humana em direção ao divino, Justamente através do amor, da beleza e do conhecimento. Essa filosofia está presente meio que em toda a obra do Michelangelo.

Nas Sibilas pagãs, ao lado dos profetas hebreus, na dignidade e na beleza dos corpos humanos e na igualdade entre a postura de Deus e Adão na obra da criação. Uma outra teoria bastante presente é a de que vários personagens do Juízo Final são retratos de pessoas reais, sejam inimigos de Michelangelo colocados entre os condenados ou até admiradores colocados entre os salvos. Salvish. Como eu disse, o caso de Biagio da Cesena é documentado e a tradição é bem sólida, apresentando esse caso do auxiliar do Papa que se incomodou com os nus como verdadeiro.

Mas historiadores identificaram outras possíveis figuras reais entre os condenados, embora com bem menos certeza. O Michelangelo era conhecido pela sua memória visual extraordinária e a sua capacidade de retratar fisionomias específicas, e tinha inimigos o bastante para inserir ali. Para entender melhor a grandeza que o Michelangelo criou, entendeu, é preciso entender também o que é pintar um afresco. E não menos importante, por que que é uma das técnicas mais exigentes da história da arte.

O termo "buon fresco", que em tradução livre é "afresco verdadeiro", se refere ao processo de pintar com pigmentos diluídos em água sobre uma camada de gesso ainda úmida. Quando o gesso seca, os pigmentos se integram quimicamente à parede e se tornam permanentes. E a durabilidade é impressionante. Os afrescos da Capela Sistina ainda existem depois de 500 anos. Mas por outro lado, você de mencionar que o processo não perdoa erros.

O artista precisa calcular exatamente quanto tempo tem antes do gesso secar, que geralmente é algo em torno de 6 a 8 horas, dependendo bastante de acordo com a temperatura e com a umidade. Aquilo que não for pintado nesse intervalo precisa ser removido. O gesso é arrancado e refeito no dia seguinte. Cada seção diária de trabalho, chamada de "giornata", é visível nos afrescos, porque se você olhar bem de perto, aparecem pequenas descontinuidades na superfície.

E é claro que não chega a ser um erro, Mas dá pra perceber que se trata de uma pintura que é feita em momentos diferentes. Nas áreas de detalhes de rosto e de mãos, essas marcas são menores, mas ainda estão lá. De certa forma, esses trabalhos diários acabam sendo uma forma da gente ver o passo a passo de uma construção gigantesca. Michelangelo começou o teto com uma equipe de assistentes formada por pintores florestinos que ele havia contratado para ajudar.

Mas em poucos meses, ele dispensou quase todos, insatisfeito com o trabalho deles. Ele passou a maior parte dos 4 anos sozinho, com apenas muitas vezes um ou dois ajudantes para misturar o gesso e pigmentos e manter o andaime. Embora ele contasse com ajudantes em algumas tarefas auxiliares, o projeto e a execução principal ficaram concentrados de maneira extraordinária no Michelangelo. O que isso significa em termos de volume de trabalho é difícil de imaginar, afinal estamos falando de mais de 500 metros quadrados de afresco, mais de 300 figuras pintadas por um único homem em condições físicas bem complicadas.

Como eu citei algumas vezes ao longo do episódio, o Michelangelo escreveu cartas enquanto produzia as obras da Capela Sistina. E esses arquivos são excelentes para conhecermos mais sobre a obra e sobre o artista. Em uma delas, ele descreveu como que a sua visão havia sido afetada durante um período. Os textos que ele lia precisavam ser segurados acima da cabeça. Em outra carta, ele registrou dores no pescoço e nas costas que o impediam de trabalhar por dias.

Em um poema escrito durante a pintura do teto, ele descreveu com humor ácido a sua barba apontando para o céu, tinta escorrendo pelo "Estômago comprimido sob o queixo e costas curvadas como um arco." Ou seja, a partir desses relatos, eu acho que dá para ver como Michelangelo se dedicou tanto para concluir a capela, levando seu próprio corpo a um limite quase insustentável. Mas mesmo assim, ele continuou. Durante séculos, o teto da cistina ficou progressivamente mais escuro.

Velas, incenso, poeira, fumaça das cerimônias religiosas e vestígios produzidos pelos turistas criaram sobre os afrescos uma camada de escurecimento que foi sendo interpretada como intencional. Críticos e historiadores da arte desenvolveram teorias sofisticadas sobre o uso deliberado de sombras e de meios-tons pelo Michelangelo. Foi então iniciada uma restauração em 1979, financiada pela emissora japonesa Nippon Television Network Corporation em troca de direitos exclusivos de filmagem.

E o que foi revelado nessa restauração simplesmente chocou o mundo da arte. Sob a fuligem de 5 séculos havia cores que ninguém esperava. O Michelangelo que apareceu após a restauração não era o mestre do esfumato e das sombras profundas que a crítica havia descrito por gerações. Era na verdade um colorista bem audacioso, com uma paleta extremamente colorida, que usava cores contrastantes e não diluídas para criar efeitos de profundidade e movimento.

Foi uma situação extremamente curiosa, porque o que essa restauração mostrou obrigou os especialistas na obra de Michelangelo a refazerem muitas de suas teses já consolidadas. Mas a restauração também gerou uma das maiores controvérsias da história da arte contemporânea. A restauração foi duramente criticada por nomes como o historiador da arte James Beck, enquanto Gianluigi Colalucci, restaurador-chefe do projeto, defendeu os métodos adotados pela equipe do Vaticano.

Beck argumentou que a equipe de restauração havia removido não apenas a sujeira dos séculos, mas também as camadas de retoque que o próprio Michelangelo havia aplicado sobre o gesso já seco, o que fazia parte da obra original. Se correto, o argumento significaria que a restauração havia na verdade destruído havia perdido parte da intenção original do artista. A equipe responsável negou e o debate continua sem resolução definitiva entre os especialistas.

Mas o que a restauração confirmou de forma inequívoca foi a escala da façanha técnica. Com o teto limpo e iluminado, se tornou possível estudar cada elemento com precisão, identificar as mudanças de direção do artista, ver onde ele corrigiu e onde ele direto. E o que os pesquisadores encontraram foi uma progressão clara de aprendizado. As primeiras seções pintadas, como o dilúvio, são mais densas, mais detalhadas, com figuras menores e composição mais complexa.

As últimas seções, como as cenas de Deus separando a luz das trevas, são mais livres, mais amplas, com figuras maiores e uma confiança que não existia no começo. 4 anos e meio de trabalho são visíveis na superfície teto, uma curva de aprendizado documentada em gesso e em pigmento. Ao todo, 6 milhões de pessoas visitam a Capela Sistina todo ano, e esse ano finalmente eu vou ser uma delas. A Capela Sistina é um dos espaços mais visitados do mundo, ao lado do Louvre e do Coliseu.

O fluxo é contínuo, de manhã à tarde, e a visitação regular ocorre de segunda a sábado, com aberturas específicas no último domingo do mês. Os visitantes entram em grupos, são orientados por guardas a não fotografar, e passam em média entre 15 a 20 minutos na sala. No final, eles saem pela porta oposta. Quem é mais purista da arte afirma que a Capela Sistina apresenta um paradoxo, que é o fato de ter sido criada para silêncio, contemplação e oração religiosa, mas acabou se tornando um dos destinos turísticos mais icônicos do mundo.

O Vaticano tem lidado com esse paradoxo de formas variadas. Em algumas ocasiões, ele organiza visitas noturnas com número limitado de pessoas, em silêncio, com iluminação especial, criando uma experiência diferente da visita diurna massa. Há debates recorrentes sobre limitar o número de visitantes diários, como já fazem outros pontos culturais ameaçados pelo turismo. As cavernas de Lascaux na França, por exemplo, foram fechadas ao público e substituídas por uma réplica, para proteger as pinturas rupestres.

Por enquanto, a Sistina permanece aberta e a sua função original, que é receber o conclave, continua de pé. Quando um papa morre ou renuncia, os cardeais se reúnem na Sistina, as portas são fechadas, as comunicações com o exterior são cortadas e o mundo espera pela fumaça. O ritual é o mesmo há séculos e acontece exatamente em frente ao Juízo Final, sobre os salvos e os condenados de Michelangelo, sobre Cristo com o braço erguido sob angústia do fim dos tempos, pintada por um artista que não acreditava que as instituições humanas fossem eternas.

Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Renascimento Cultural, o segundo se chama Reforma Protestante, e o terceiro é do homem, o episódio pode se chamar Michelangelo. E agora bora fazer aquele resumão de um minutinho pra você relembrar o que você aprendeu hoje?

Vamo lá! Quando falamos da Capela Sistina, estamos falando de um espaço construído entre 1473 a 1481 pelo Papa Sixto IV, com as dimensões exatas do Templo de Salomão. Essa é a sala mais importante do Vaticano, onde se elege o Papa e onde a Igreja celebra os seus rituais mais íntimos. Suas paredes foram pintadas em 1481 e 1482 pelos maiores artistas do do Renascimento, como Botticelli, Ghirlandaio e Perugino, em uma proposta teológica que comparava Moisés a Jesus.

Em 1508, o Papa Júlio II tirou Michelangelo de uma obra que ele estava esculpindo para pintar o teto da Capela Sistina, em uma encomenda que o artista resistiu, mas ele acabou aceitando. Em 4 anos e meio de trabalho praticamente solitário, em um andaime de 20 metros de altura, Michelangelo pintou mais de 500 metros quadrados um afresco com as 9 cenas do Gênesis, 7 profetas, 5 sibilas e mais de 300 figuras. A criação de Adão é uma das imagens mais reproduzidas da história da arte ocidental. 23 anos depois, no contexto da reforma protestante e da crise da igreja, o Michelangelo voltou para pintar o Juízo Final, uma obra bem mais sombria e angustiada.

A restauração de 1979 a 1999 revelou cores impressionante que ninguém esperava e reescreveu a crítica da obra. Hoje em dia, milhões de visitantes todo ano enchem a sala que foi feita para o silêncio, mostrando que na modernidade o que foi feito para ser sagrado acabou se tornando mercadoria, prova do capitalismo tardio que a gente está vivendo. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.

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