Lima Barreto
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
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REFERÊNCIAS USADAS:
REFERÊNCIAS USADAS
- BOTELHO, Denílson. A República na biblioteca de Lima Barreto: livros, leituras e ideias. Cadernos de História, Ouro Preto, v. VIII, n. 2, p. 34-50, dez. 2009.
- BARBOSA, Francisco de Assis. A Vida de Lima Barreto. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
- BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Brasiliense, 1956.
- BARRETO, Lima. Triste Fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Brasiliense, 1956.
- BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Brasiliense, 1956.
- BARRETO, Lima. Diário do Hospício / Cemitério dos Vivos. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
- BARRETO, Lima. Impressões de Leitura. São Paulo: Brasiliense, 1956.
- SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: Triste Visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
- Vida no presídio de TremembéInfância e juventude no subúrbio do Rio de Janeiro · Educação e a Escola Politécnica · Trabalho no Ministério da Guerra · Biblioteca pessoal (Limana) · Recordações do Escrivão Isaías Caminha · Triste Fim de Policarpo Quaresma · Clara dos Anjos · Diário do Hospício
- Representante da República nos AçoresTransição da Monarquia para República · Consequências da nova política · Crítica social na literatura · Representação de pessoas negras na literatura · Abolicionismo
- Racismo e segurança pública no BrasilEstruturas de exclusão pós-escravismo · Racismo cotidiano na Primeira República · Exclusão da Academia Brasileira de Letras · Preconceito de cor · Mulher negra periférica · Mistura de racismo e machismo
- Impacto da IA na saúde mentalDoença mental do pai de Lima Barreto · Alcoolismo de Lima Barreto · Internações no Hospício Nacional de Alienados · Condições precárias do hospital · Tratamento desumano de pacientes
- Literatura BrasileiraExclusão da Semana de Arte Moderna · Ruptura com o academicismo · Voz aos silenciados pela tradição literária · Renovação da literatura brasileira
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Se você entrar em uma livraria e pegar um livro de ficção, romance ou terror, você diria que é possível aprender história a partir dele? E se eu te disser que sim, isso é possível? Hoje eu quero conversar com vocês sobre a figura de Lima Barreto, um dos nossos maiores escritores, e ao mesmo tempo usar sua biografia e trajetória para falar sobre a história do Brasil e como que o nosso país fez a transição da monarquia para república, além de falar quais foram as consequências dessa nova forma de fazer política. Lima Barreto usou a estaria para escancarar algumas verdades sobre nós.
E vamos ver se o Brasil teve coragem para ouvir tanta verdade.
Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história, e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora.
A primeira coisa que eu quero fazer com vocês hoje é bater em um ponto que pouca gente sabe, mas literatura e história são duas coisas que andam lado a lado.
Muita gente acha que, por se tratar de obras ficcionais, a produção literária não tem alguma relação com o estudo da história.
Na verdade, a literatura é uma ótima fonte histórica e a produção de Lima Barreto é uma das provas disso. Por exemplo, Lima Barreto foi um dos primeiros grandes escritores brasileiros a colocar personagens negros e pobres no centro da crítica social da literatura, com nome, história, subjetividade e voz própria.
Antes dele, a literatura nacional frequentemente tratava pessoas negras como tipos sociais, figuras secundárias ou presenças apagadas, embora existam exceções importantes, como Maria Firmina dos Reis, no século XIX, mas que teve um impacto bem menor do que Lima Barreto.
Essa mudança na forma de representar pessoas negras na literatura brasileira teve como estímulo os debates sobre abolicionismo, como no caso da Maria Firmina dos Reis, mas principalmente porque, no final do século XIX, a escravidão foi abolida e a posição desse indivíduo teve que ser repensada a partir de então.
Como nós vamos ver, o Lima Barreto discutiu justamente isso. Bom, mas antes, vamos olhar para sua vida e, a partir dela, a gente vai conseguir conseguir amarrar essas pontas soltas. Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, exatamente 7 anos antes da abolição da escravidão.
Ele nunca deixou de notar que o fim formal de um sistema não significa o fim dos seus efeitos.
Ou seja, ele nunca deixou de notar que o Brasil pós-abolição mantinha intactas as estruturas de exclusão que o escravismo havia construído.
Seu pai, João Henrique de Lima Barreto, era tipógrafo, funcionário público e mantinha ligação com o Visconde de Ouro Preto, último presidente do Conselho de Ministros do Império, que se tornaria padrinho do Lima Barreto. Essa relação de proteção burocrática era um dos retratos do Brasil da época. Afinal, estamos falando de um homem negro talentoso dependendo da benevolência de um homem poderoso, um homem branco, para sobreviver nas instituições.
Já a mãe de Lima Barreto era Amália Augusta, E, diferentemente do seu marido, era professora do primário. Infelizmente, ela morreu de tuberculose quando Lima tinha apenas 6 anos. E tanto a ausência da mãe quanto a dependência do pai marcariam toda a sua trajetória. A família morava no subúrbio do Rio de Janeiro, uma área periférica que vivenciava a realidade de uma cidade que havia declarado o fim da escravidão e imediatamente abandonado os ex-escravizados à própria sorte.
O Rio de Janeiro da virada do século 19 para o 20 era uma cidade em grande transformação. Depois da abolição da abolição em 1888 e da Proclamação da República um ano depois, em 1889, a Capital Federal passou por um projeto de modernização que se intensificou especialmente entre 1902 e 1906, com Pereira Passos, quando o centro foi reformado, avenidas foram abertas e a cidade tentou imitar modelos europeus, sobretudo Paris. Ao mesmo tempo, essas reformas forçaram a população mais pobre a ir para as áreas periféricas mais distantes da cidade.
Bem, apesar da pobreza, o jovem Lima Barreto recebeu educação de qualidade, em parte graças à influência do Visconde de Ouro Preto, que o acolheu como afilhado. Ele estudou em boas escolas, aprendeu francês e demonstrou desde cedo uma inteligência literária fora do comum. Em abril de 1897, Lima Barreto entrou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, beneficiado pela educação que recebera e pela rede de proteção ligada ao Visconde de Ouro Preto.
Lima Barreto era a grande promessa da família. Ele seria engenheiro, subiria na vida e superaria as limitações impostas pela sua origem. A Escola Politécnica era um dos espaços mais elitistas do Brasil da época, frequentada principalmente pelos filhos da aristocracia rural e da alta burguesia urbana. Pessoas brancas, bem vestidas, com futuro garantido desde o nascimento.
Lima Barreto não se encaixava naquele ambiente.
E não era questão de inteligência, até porque intelectualmente ele superava boa parte dos colegas. Em um ambiente onde o que se esperava dos estudantes era reproduzir os valores e os gostos da elite brasileira, Lima Barreto era um corpo estranho e indesejado. Bem, se isso já não fosse problema o bastante, o seu pai, João Henriques, começou a dar sinais de desequilíbrio mental, uma doença que ficaria cada vez pior ao longo dos anos e que os médicos da época diagnosticavam de forma vaga como "loucura".
O impacto financeiro e emocional sobre a família foi imediato. Lima Barreto, como filho mais velho, assumiu a responsabilidade de sustentar o pai e os irmãos mais novos.
Em 1902, ele abandonou a Politécnica sem concluir o curso.
O sonho da engenharia havia encerrado e a vida real havia começado. Em 1903, Lima Barreto conseguiu uma vaga como amanuense no Ministério da Guerra.
Esse era um cargo de baixo escalão na burocracia pública, que consistia basicamente em copiar documentos e atender ao expediente. Era um trabalho monótono, mal pago e sem perspectiva de avanço, mas era estável o suficiente para sustentar a família e deixar as tardes e noites livres pro que realmente importava: ler e escrever.
Nesse período, Lima Barreto mergulhou na leitura com um apetite que o historiador Denilson Botelho documentou muito bem.
O professor Denilson analisou o inventário da biblioteca pessoal do escritor, a chamada "Limana", nome que o próprio Lima Barreto atribuiu ao seu acervo. Em 1917, Lima fez um inventário metódico dos 707 livros que ocupavam 4 estantes e 2 mesas de trabalho no seu quarto. A Limana era uma biblioteca de maioria francesa. 423 dos 707 títulos estavam em francês, mostrando a enorme influência cultural francesa sobre o Rio de Janeiro.
Entre os autores preferidos estavam Balzac, Rousseau, Tolstói, Taine e uma coleção de pensadores socialistas e anarquistas: Kropotkin, Malatesta e Benoît Malon. No jornalismo, Lima Barreto encontrou ao mesmo tempo sustento e um lugar para expor as suas ideias.
Ele escrevia para revistas e jornais cariocas, publicava crônicas e artigos e mergulhava na vida intelectual da capital.
Olha só o professor Denilson Botelho falou sobre esse aspecto da vida de Barreto: "A grande maioria dos periódicos nos quais Lima Barreto publicava os seus textos era de pequena expressão, resultado de iniciativas coletivas marcadas pela carência de recursos, com distribuição precária, além de baixas tiragens, ou seja, não faziam parte do que poderia denominar como grande imprensa da época." Em 1907, junto com amigos, ele fundou a Floreal, uma pequena revista literária que durou apenas 4 números, mas que atraiu chamou a atenção do crítico José Veríssimo, um dos mais respeitados das letras brasileiras na época.
Veríssimo leu os textos de Lima Barreto na Floreal e os elogiou publicamente. Foi um dos primeiros reconhecimentos que o escritor recebeu de alguém com peso no campo literário. Mas o apoio não seria suficiente para abrir as portas que a literatura brasileira mantinha fechadas para ele. Em 1909, Lima Barreto publicou seu primeiro romance em volume, não no Brasil, mas em Portugal.
Ele publicou pela A.M.
Teixeira e Companhia, da Livraria Clássica Lisboa.
O livro se chama Recordações do Escrivão Isaías Caminha e era simplesmente a obra que mudaria para sempre o que a literatura brasileira podia ser.
O protagonista, Isaías Caminha, é um jovem negro do interior do estado do Rio de Janeiro que cresce ouvindo que ele é inteligente, que tem futuro, que pode chegar longe. Com essa promessa, ele parte para a capital com esperanças de estudar, trabalhar nas letras e construir uma vida digna. Entretanto, o que ele encontra no Rio de Janeiro é o racismo em todas as formas que o Brasil da Primeira República havia envolvido. Não o racismo explícito da escravidão, que havia sido abolida 20 anos antes, mas o racismo da humilhação cotidiana, da porta que se fecha na hora que um homem negro aparece.
Você está entendendo o que eu estou falando? O que Lima Barreto fez com Isaías Caminha era raríssimo na literatura brasileira. Ele colocou um jovem negro como centro da experiência narrativa e fez do racismo cotidiano da República um tema frontal do romance. Ele deu a um personagem negro um nome completo, uma história de origem, uma família, sonhos, pensamentos articulados e uma voz narrativa em primeira pessoa.
Isaías Caminha não é o preto que aparece como cenário nas páginas dos romances do século 19.
Isaías é o protagonista. O mundo é visto pelos seus olhos.
Para a gente entender o quanto revolucionário foi isso, é preciso lembrar como a literatura brasileira tratava as pessoas negras até então. Em O Cortiço, de Aloísio de Azevedo, publicado em 1890, os personagens negros existem como tipos sociais, raramente como sujeitos de fala. Na tradição romântica de José de Alencar, o centro da imaginação nacional costuma ser ocupado por indígena idealizado e por personagens brancos.
A população negra raramente aparece como um sujeito central dessa nação imaginada. E até na obra de Machado de Assis, que é um escritor negro, a questão racial aparece muitas vezes por caminhos indiretos, nos silêncios, nas ironias e nas estruturas sociais que ele desmonta.
Lima Barreto, por outro lado, a transforma em denúncia bem mais geral.
Barreto foi o primeiro a escancarar esse problema. Bom, o seu livro recebeu uma série de críticas. A crítica literária carioca era dominada pelos mesmos círculos sociais que Lima Barreto denunciava no romance e acabou recebendo o seu livro com indiferença e algumas pessoas até com uma certa hostilidade.
Havia quem dissesse que era um ajuste de contas pessoal disfarçado de ficção, já que o jornal retratado no romance tinha semelhanças óbvias com a Gazeta de Notícias. Também havia quem simplesmente ignorasse.
Mesmo com as críticas, Lima Barreto não parou de escrever. Entre 1911 e 1915, Lima Barreto escreveu e publicou o romance que seria o seu maior sucesso em vida: Triste Fim de Policarpo Quaresma. Publicado em folhetins no Jornal do Comércio em 1911 e depois em livro em 1915, o romance conta a história de Policarpo Quaresma, um funcionário público que acredita de forma sincera e ingênua nos ideais da república e do nacionalismo. E que vai sendo sistematicamente destruído por um Brasil real que não corresponde com o Brasil sonhado.
Quaresma aprende tupi para valorizar a língua indígena e é internado como louco.
Ele vai para o interior para tentar desenvolver a agricultura nacional, mas só encontra latifúndio e abandono.
Ele chega a apoiar o governo do Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada, acreditando estar servindo o país, mas ele termina preso e condenado como traidor pelo próprio governo que queria defender.
É um romance sobre a ingenuidade de quem acredita que as instituições funcionam de forma justa. E Lima Barreto, profundamente desconfiado da República e das suas elites, escreve Quaresma com ironia, compaixão e, claro, muita raiva.
Nesse período, Lima Barreto também publicou As Aventuras do Doutor Bogólov e também textos em várias publicações cariocas.
A sua produção jornalística era muito forte, com artigos, crônicas e até sobre crítica literária. No arquivo da Biblioteca Nacional, pesquisadores encontraram centenas de textos em publicações da época. Ele era um escritor de imprensa tanto quanto um romancista, e os dois papéis se alimentavam. Enquanto o jornalismo dava ao Lima Barreto um acesso direto às contradições do Rio de Janeiro no dia a dia, que ele transformava em ficção, a ficção dava densidade poética e simbólica a tudo que ele via e vivia.
Porém, infelizmente, a vida pessoal do Lima Barreto começou a entrar em um cenário bem complicado. A saúde do seu pai tava indo de mal a pior. O trabalho no Ministério da Guerra, que Lima Barreto nunca amou, consumia horas que ele preferia dedicar à escrita. E o alcoolismo, que havia começado como hábito social, tava se tornando uma dependência que ele mesmo reconhecia, e sobre a qual escrevia com a mesma honestidade brutal com que escrevia sobre tudo.
Em 1914, Lima Barreto foi internado pela primeira vez no Hospício Nacional de Alienados do Rio de Janeiro, a instituição que em poucos anos se dificultaria o cenário de um dos seus textos mais importantes. A sua estadia durou alguns meses e foi motivada por uma crise de alcoolismo agudo, combinada com o estado extremo de esgotamento em que o escritor se encontrava. Para você entender o que levou Lima Barreto a esse ponto, é preciso entender o que era ser um escritor negro no Rio de Janeiro da Primeira República.
Não era apenas pobreza, tanto porque havia escritores pobres e brancos que eram recebidos nos salões literários, que eram publicados pelas principais editoras, que eram eleitos para a Academia Brasileira de Letras. Para Lima Barreto, essas portas simplesmente não se abriam. As redações onde ele trabalhava o toleravam como colaborador externo, mas não o contratavam em posições de prestígio. Os círculos literários da cidade o mantinham numa posição marginal, de figura curiosa, mas não plenamente integrada.
A Academia Brasileira de Letras, que ele chamava de "mausoléu de glórias", era um clube praticamente inteiro de pessoas brancas, onde a sua candidatura seria repetidamente ignorada.
Lima Barreto escreveu sobre esse racismo com uma clareza que era incomum para a época. Em artigos e crônicas, ele nomeava o preconceito racial brasileiro com uma precisão que constrangia os que preferiam chamá-lo de outra coisa.
Num texto de 1911, ele escreveu sobre o modo como o Brasil tratava os seus cidadãos negros: "Não sei bem o que foi a escravidão, mas sei que o preconceito de cor foi forjado em parte por ela." "e que ainda resiste ao tempo". Fechais, pois? Era uma declaração direta, sem meia volta, como era de costume da literatura e da imprensa brasileira.
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Pessoal, deixa eu abrir um parêntese aqui rapidinho, porque o que eu vou falar agora tem tudo a ver com história, mais especificamente história de família.
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Ele publicou Numa e a Ninfa em folhetins em 1915 e em 1917 em livro.
Ele também publicou Vida e Morte de M.J.
Gonzaga de Sá em 1919, inclusive com o apoio do Monteiro Lobato. Monteiro Lobato, que era amigo pessoal dele. Monteiro Lobato vai editar esse livro pela Revista do Brasil.
A relação com Monteiro Lobato era uma das mais produtivas da sua vida literária.
Existia uma admiração mútua e um respeito de verdade, mesmo com diferenças políticas importantes sobre questões como a reforma agrária. E sem entrar na discussão das opiniões extremamente racistas que Monteiro Lobato tinha nessa época. Bem, nesse período, o Lima Barreto começou a escrever o que vai ser um dos documentos mais importantes de toda a literatura brasileira, a escrever, o chamado "Diário Íntimo".
Não era um diário, pelo menos não no sentido convencional.
Era um laboratório de observação e reflexão onde Lima Barreto anotava praticamente de tudo: impressões do cotidiano, leituras, conversas, raiva, planos literários, análises políticas e até confissões pessoais. O diário vai revelar um escritor em constante tensão entre o que o que ele queria transformar em literatura, entre a consciência da própria genialidade e o peso do reconhecimento que simplesmente não vinha. É também nesse período que ele escreve Clara dos Anjos, que seria publicado após a sua morte, primeiro em folhetins, entre 1923 a 1924, e depois em livro, em 1948.
Nesse livro, a Clara é uma jovem negra do subúrbio de Inhaúma, uma região social e geograficamente próxima do universo suburbano em que Lima Barreto viveu.
Ela era filha de um de um carteiro mulato e de uma mãe negra, cercada pela modéstia e pela decência de uma família que acreditava no trabalho e na honestidade. Clara é seduzida e abandonada por Cassi Jones, um jovem branco, de classe média, que percorre o subúrbio com um violão e com muitas promessas, deixando um rastro de meninas negras e pobres completamente destruídas. Clara dos Anjos é o romance em que Lima Barreto deu nome e história a uma figura que a literatura brasileira havia tratado como invisível até então: a mulher negra periférica.
O livro é também uma análise da mistura entre o racismo e o machismo, com uma precisão que antecipava em décadas os debates que a sociedade brasileira ainda está tendo hoje em dia. Nos anos finais da década de 1910, Lima Barreto foi apresentando mais o seu lado político. Ele inclusive chegou a tecer críticas aos Estados Unidos em algumas cartas aos seus amigos, criticando a forma que os Estados Unidos tratavam as pessoas negras.
Além disso, Lima Barreto também se aventurou a tratar de política de forma bem mais aberta, como disse o professor Denilson Botelho: Podemos observar também que, a partir de 1916 e 1917, intensifica-se a sua presença em vários pequenos jornais e revistas, através dos quais exercerá a sua militância literária, tornando-se cada vez mais um intelectual engajado na luta política por mudanças que levassem o Brasil a viver uma revolução nos moldes que ocorreram na Rússia de 1917.
Ou seja, de caráter socialista. Contudo, há que se ressaltar: Lima Barreto jamais aceitou submeter-se a qualquer doutrina política. Em dezembro de 1919, Lima Barreto foi internado pela segunda vez no Hospício Nacional. Ele recebeu alta dia 2 de fevereiro de 1920, depois de mais ou menos um mês de internação. O segundo internamento foi uma ruptura mais profunda que o primeiro, e Lima Barreto o interpretou, aliás, o viveu de uma forma bem diferente.—
não como vítima passiva, mas como observador.
Pessoal, eu repeti algumas vezes a palavra "hospício" aqui no episódio, e é um conceito que nem é muito usado no Brasil hoje em dia, mas que fez parte considerável da nossa história.
E por isso eu quero conversar com vocês sobre esse cenário no Brasil, no episódio exclusivo para os apoiadores dessa semana.
Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se/historiamedia. Meia hora. Bem, o texto que ele produziu a partir dessa experiência, o chamado Diário do Hospício, é um dos documentos mais extraordinários da literatura brasileira.
Enquanto estava internado, o Lima Barreto observou com uma precisão jornalística, mas também literária, tudo o que ele via.
Ele escreveu sobre as condições precárias do hospital, o tratamento desumano dos pacientes mais pobres, a diferença entre os que tinham família e recursos para exigir tratado e os que simplesmente eram depositados numa cela e esquecidos. Ele observou um negócio que, enfim, o perturbou bastante. A maioria dos pacientes sem recursos, sem família, sem ninguém para interceder por eles, era negra e pobre. Entretanto, o Diário do Hospício não é uma obra para você sentir pena, é uma obra de análise.
Lima Barreto olha para dentro de si com a mesma forma em que olha para fora. Ele fala sobre o seu próprio alcoolismo, sua fragilidade, a sua própria desordem interior. E, ao mesmo tempo, registra o Brasil que aquele hospício revelava: um país que tratava os seus cidadãos mais vulneráveis com a mesma lógica que havia tratado os escravizados, ou seja, como corpos a serem contidos, não como pessoas que devem ser curadas. A obra seria publicada após a sua morte, junto com o inacabado romance Cemitério dos Vivos, que se baseava na mesma experiência.
Após deixar o hospício, o Lima Barreto tentou retomar a vida e a sua produção literária.
Ele continuou escrevendo artigos e crônicas para jornais e revistas, como a Careta a ABC e a Gazeta de Notícias. Mas a sua saúde estava realmente muito pior e isso claramente o atrapalhava.
O coração estava debilitado pelo alcoolismo crônico e pelas condições de vida. Os amigos que conviviam com ele nesse período descrevem um homem que ainda tinha a mesma inteligência e a mesma lucidez analítica, mas que estava fisicamente esgotado.
Lima Barreto vai tentar ingressar na Academia Brasileira de Letras em 1917, em 1919 e depois em 1921.
Em 1917, a sua inscrição foi desconsiderada.
Em 1919, ele vai receber apenas 1 voto. E em 1921, ele vai retirar a sua candidatura um pouco antes da eleição. A Academia Brasileira de Letras, a ABL, era, nos termos do próprio Lima Barreto, um clube de medalhões, homens com conexões, títulos e posições sociais estabelecidas. Lima Barreto tinha a obra literária mais original e mais corajosa da sua geração. Formação, mas não tinha os títulos, as conexões e nem a cor de pele que os membros da academia se sentiam mais à vontade.
E outra, o Lima Barreto também carregava no seu histórico passagens por instituições que não eram bem vistas pela sociedade. A exclusão da ABL era apenas o símbolo mais visível de uma exclusão que havia marcado toda sua vida. Lima Barreto nunca teve ilusões sobre o motivo.
Ele escreveu sobre isso com a mesma clareza com que escrevia sobre tudo: "Tenho "Tenho notado que não me consideram escritor.
Sou encarado como uma espécie de animal curioso que sabe fazer frases." Apesar disso tudo, nesses últimos anos, ele produziu muitos textos que foram importantes em sua carreira. Lima Barreto continuou com a sua crítica literária em uma obra que hoje é conhecida em dois volumes: "As Impressões de Leitura" e "Bagatelas". Num artigo de 1919 para a revista Contemporânea sobre Machado de Assis, Lima Barreto mostrou uma generosidade intelectual admirável.
Ao invés de diminuir o maior nome das letras brasileiras, como era comum dos críticos de Machado, Lima Barreto propôs um método mais justo para compreendê-lo, que era estudar as condições concretas de vida do escritor: o seu nascimento humilde, a sua cor e o seu acanhamento social. Muitos especialistas apontam, de forma irônica, que esse mesmo método deveria ser aplicado ao Lima Barreto. Lima Barreto morreu no dia 1º de novembro de 1922, aos 41 anos.
Muito jovem. Em seu atestado de óbito constavam gripe torácica e colapso cardíaco, em sua casa, no subúrbio de Todos os Santos. Foi nesse mesmo ano que, em São Paulo, se celebrou a Semana de Arte Moderna, o evento que seria canonizado como o marco fundador do modernismo brasileiro, com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Anitta Malfatti no centro. Lima Barreto não foi convidado para a Semana de Arte Moderna, ele não estava na lista dos modernistas.
Ele era um chamado outsider em relação movimento que reivindicava para si a renovação da literatura brasileira. Um movimento dominado por intelectuais de famílias abastadas de São Paulo, alimentado por viagens à Europa, por manifestos e por uma certa ideia de vanguarda que não tinha espaço para um escritor negro do subúrbio carioca. Um escritor que havia renovado a literatura brasileira bem antes, a partir da experiência concreta do Brasil invisível.
Há uma ironia nessa coincidência. No mesmo ano em que o Modernismo Brasileiro era proclamado em São Paulo, morria no Rio de Janeiro o escritor que havia feito o que o Modernismo dizia querer fazer, que era basicamente romper com o academicismo da língua, trazer o cotidiano urbano para a literatura e dar voz aos que a tradição literária havia silenciado. Lima Barreto havia feito isso com Isaías Caminha, em 1909, com Policarpo Quaresma, em 1915, com as crônicas, com os artigos e com o seu diário.
Ele morreu excluído do movimento que reivindicava exatamente essa ruptura. Após a sua morte, a sua biblioteca pessoal, a tal "Limana", foi entregue a José Mariano Filho, que havia custeado o enterro. Segundo Denilson Botelho, o acervo foi abandonado no porão de uma chácara em Jacarepaguá e acabou destruído por traças e cupins. Outras fontes mencionam uma destruição por uma enchente, mas o ponto central é o mesmo: a biblioteca de Lima Barreto se perdeu quase que completamente.
Entretanto, o reconhecimento viria, mas ele viria tarde e de forma bem lenta.
Nas décadas seguintes, críticos e pesquisadores redescobriram a sua obra. Nos anos 50, Francisco de Assis Barbosa teve um papel central na recuperação de Lima Barreto. Ele publicou a sua biografia e organizou, com colaboração de Antônio Ruaz e Manuel Cavalcante Proença, a edição de suas obras pela Editora Brasileira. Em português. Sérgio Buarque de Holanda também escreveu sobre ele e Francisco de Assis Barbosa publicou a primeira biografia séria.
Mas foi principalmente a partir dos anos 80 e 90, com a expansão dos estudos literários afro-brasileiros e com o debate crescente sobre racismo e representação, que Lima Barreto começou a ocupar o lugar que ele sempre mereceu, como fundador de uma tradição literária que o Brasil havia recusado reconhecer por décadas. Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui podcast, que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir.
Beleza? O primeiro episódio se chama "República da Espada", o segundo se chama "Carolina Maria de Jesus", e o terceiro se chama "Machado de Assis".
E agora, bora fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje?
Vamos lá!
Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, filho de um tipógrafo e de uma professora que morreu muito cedo.
Ele cresceu no subúrbio de um Rio de Janeiro que proclamava a república e a modernidade enquanto abandonava os seus cidadãos negros e pobres à própria sorte.
Ele entrou na Escola Politécnica como promessa da família e saiu sem diploma para sustentar o pai, que sofria de doenças mentais.
Ele se tornou um funcionário público no Ministério da Guerra e também um escritor, por necessidade e vocação.
Lima Barreto construiu uma biblioteca de 707 livros seu quarto e leu tudo o que o mundo intelectual da época produzia. Em 1909, com Isaías Caminha, ele fez o que praticamente nenhum escritor brasileiro havia feito até então, que era colocar um personagem negro no centro da narrativa, com nome, com história e com voz em primeira pessoa.
Ele escreveu sobre o racismo brasileiro com uma clareza que constrangia, enquanto o adoecimento mental do pai mudava profundamente os rumos de sua vida.
Lima Barreto se perdeu no alcoolismo e acabou sendo internado duas vezes em Instituições psiquiátricas.
De lá, ele conseguiu escrever um dos relatos mais originais da nossa literatura. Lima Barreto se candidatou à Academia Brasileira de Letras e foi ignorado.
Ele morreu aos 41 anos, em 1922, no mesmo ano da Semana da Arte Moderna, outra instituição que também o excluiu. Após a sua morte, a sua biblioteca foi comida por traças e o Brasil demorou décadas para entender que havia perdido um dos seus maiores escritores. Sua história mostra que, apesar de muitos debates, o racismo está inserido em diversas estruturas para além da economia. E até hoje, pessoas em posição de poder no Brasil são majoritariamente brancas, mesmo que a população brasileira seja composta mais da metade por pessoas negras. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.
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