História do Haiti
Antes de falar dos problemas sociais desse país, você precisa conhecer a sua história. Tudo vai fazer sentido. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a História do Haiti.
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Apresentação: Prof. Vítor Soares.
Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)
REFERÊNCIAS USADAS:
- JAMES, C. L. R. Os Jacobinos Negros: Toussaint L'Ouverture e a Revolução de São Domingos. Tradução de Afonso Teixeira Filho. São Paulo: Boitempo, 2000.
- DUBOIS, Laurent. Haiti: The Aftershocks of History. New York: Metropolitan Books, 2012.
- HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções: 1789-1848. Tradução de Maria Tereza Lopes Teixeira. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
- MOREL, Marco. A Revolução do Haiti e o Brasil escravista: o que não deve ser dito. Paco Editorial, 2017.
- Crise no HaitiRevolução Francesa · Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão · Vincent Ogé · Bois Caimans · Dutty Bookman · Toussaint Louverture · Jean-Jacques Dessalines · Henri Christophe
- Independência e Dívida FrancesaIndependência do Haiti · Jean-Jacques Dessalines · Dívida de 150 milhões de francos-ouro · Carlos X da França · Jean-Pierre Boyer · Thomas Piketty · Emmanuel Macron
- Colônia Francesa Saint-DomingueSaint-Domingue · Produção de açúcar e café · Mão de obra escravizada africana · Hierarquia racial · Grandes Blancs · Petits Blancs · Affranchis · Gens de couleur
- Ditadura DuvalierFrançois Duvalier (Papa Doc) · Jean-Claude Duvalier (Baby Doc) · Tonton Macoute · Vodu haitiano · Barão Samedi
- Governos Pós-Duvalier e Terremoto de 2010Jean-Bertrand Aristide · Golpe militar de 1991 · MINUSTAH · Terremoto de 2010 · Epidemia de cólera · Jovenel Moïse
- Instabilidade política no CearáAssassinato de Dessalines · Reino Negro do Norte · República Mulata do Sul · Ocupação dos Estados Unidos · Porto Príncipe · Constituição haitiana de 1804
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Existe um país no hemisfério ocidental que fez algo que nenhum outro país no mundo havia feito: uma revolução liderada por escravizados, que venceu, expulsou os colonizadores e que fundou uma nação livre. E isso ainda aconteceu lá atrás, em 1804. Eu tô falando de um país que, por um lado, fez algo que nunca foi visto antes na história, porém, algumas décadas depois, se tornou um dos países mais pobres do mundo. Eu tô falando do Haiti.
E a pergunta que fica é: como que essas duas coisas convivem na mesma história? História. Hoje eu quero te contar a história desse país e fazer um panorama sobre vários assuntos que vão desde soberania nacional, libertação de pessoas escravizadas, até mesmo hipocrisia política. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. A história do Haiti é extremamente importante, mas infelizmente é uma das menos conhecidas.
Para entendermos Para falar do Haiti de hoje, a gente precisa começar com o nome que os seus habitantes originais deram à ilha, um nome muito antes de qualquer europeu aparecer. Ah, e antes de qualquer coisa, eu tô falando de uma ilha bem pequena que fica no meio do Caribe, caso você não esteja localizado geograficamente. A origem do território que hoje conhecemos como Haiti tá ligada a um grupo chamado Taínos. Eles pertenciam ao povo que habitava a ilha há pelo menos 3.000 anos e eram parte do grande grupo linguístico e cultural Arawak, que ocupava as demais no Caribe.
Os Taínos chamavam a sua ilha de Ahyiti, que em sua língua significava "terra das montanhas altas". Eles viviam em comunidades organizadas em torno dos cacicados, cultivavam mandioca, milho, batata-doce e algodão. Eles pescavam, faziam cerâmica e construíam canoas que eram capazes de fazer longas travessias pelo Caribe. Infelizmente, nós não temos vestígios escritos sobre esses povos, e muito do que a gente sabe sobre eles tem relação com os vestígios materiais e o que foi escrito por europeus depois que eles chegaram na ilha.
No dia 5 de dezembro de 1492, Cristóvão Colombo chegou à costa norte da ilha e a batizou de La Española, que os portugueses e depois todo o resto do mundo chamariam de Hispaniola. Infelizmente, o que aconteceu nos 50 anos seguintes é uma das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade. Os taínos, cuja população na ilha de Hispaniola é estimada de formas variadas pelos historiadores, foram dizimados em poucas décadas por doenças, doenças, por trabalho forçado, por violência colonial e desestruturação das suas formas de vida.
As estimativas variam entre centenas de milhares até 1 milhão de taínos. Em meados do século XVI, a sua presença como sociedade autônoma havia praticamente desaparecido, embora heranças e descendências indígenas tenham sobrevivido. As causas foram múltiplas e foram desde doenças europeias, para as quais eles não tinham a imunidade, como varíola, sarampo e gripe. E, como eu disse, o trabalho forçado, que matou muita gente. Além disso, houve violência direta dos colonizadores e até fome causada pela destruição da agricultura para abrir espaço às fazendas europeias.
Em 1550, os taínos haviam praticamente desaparecido. Com a população taína drasticamente reduzida e as comunidades indígenas desestruturadas pela colonização, os espanhóis passaram a depender cada vez mais da mão de obra africana escravizada. Pois é, a solução escolhida pelos europeus foi a mão de obra escravizada, africanos trazidos à força através do Oceano Atlântico. Embora a colonização europeia da ilha tenha começado com a Espanha, a presença francesa cresceu, sobretudo no oeste de Hispaniola, até que, pelo Tratado de Ryswyk, em 1697, a Espanha reconheceu a posse francesa daquela parte da ilha.
Os franceses a chamaram de Saint-Domingue e transformaram aquele território em um grande produtor de açúcar. No final do século Em 1808, Saint-Domingue era responsável por aproximadamente 40% do açúcar e 60% do café consumidos em toda a Europa. Essa colônia sozinha, que inclusive é um pouco maior que a metade do estado do Rio de Janeiro, gerava mais riqueza que todas as colônias britânicas da América do Norte juntas. Era a joia da coroa do Império Colonial francês, chamada de a Pérola das Antilhas.
Mas essa riqueza tinha um custo humano muito alto. Pra manter essa máquina funcionando, os franceses importaram mais de meio milhão de escravizados africanos. As condições de trabalho nas plantações de cana eram tão brutais que a expectativa de um escravizado recém-chegado era de aproximadamente 7 anos. O sistema se mantinha não pela reprodução natural da população escravizada, mas pelo fluxo constante de novos africanos capturados e trazidos pra morrer trabalhando.
A Sociedade de São Domingue era organizada em uma hierarquia racial com 4 camadas: No topo estavam os chamados grandes blancs, os proprietários brancos, donos de plantações, que controlavam a economia e queriam autonomia política em relação à metrópole. Abaixo deles estavam os petits blancs, que eram brancos pobres, artesãos, comerciantes, que tinham como único grande privilégio a cor da sua pele. Em seguida, estavam os affranchis, que eram libertos, frequentemente mestiços, filhos de senhores brancos com mulheres escravizadas, que podiam ter propriedades e até alguns direitos, mas eram excluídos da vida política.
Apesar de pagarem impostos. E na base da sociedade da Ilha de São Domingos estavam as pessoas escravizadas, que representavam mais de 500 mil pessoas, cerca de 90% da população total da colônia. Esse elemento da sociedade colonial é muito importante para a gente entender o território. Deu para perceber a diferença absurda na proporção de pessoas escravizadas para senhores de escravos? Por isso, a violência era algo tão comum e usado até como forma de doutrinar as pessoas escravizadas para evitar gerar justamente grandes revoltas.
Se liga só no que o professor Marco Morel falou sobre essa distinção, tanto social quanto racial. Abre aspas: "Tal fronteira racial marcou a sociedade que ali se constituía. Em meados da década de 1770, havia pequenas e médias fortunas entre libertos e descendentes de escravos já nascidos na colônia, genericamente chamados de gens de couleur", significa mulatos ou negros livres. "A esses não era dado direito político e os direitos civis tornaram-se restritos, sem contar a hostilidade cotidiana dos preconceitos, ou seja, criaram-se condições sociais e econômicas visivelmente entravadas pela organização política.
Somando-se estas características, como entrada massiva de africanos, riquezas acumuladas, elite negra e mestiça discriminada e colonos que se consideravam superiores, temos um quadro potencialmente gerador de uma revolução social. O temor na época por parte dos defensores da ordem era que o mesmo poderia ocorrer em outras colônias nas Américas. Fecha aspas. Aqui fica claro que existia uma elite não branca que era livre, ou uma camada de libertos e descendentes de escravizados com alguma riqueza, com alguma educação, mas principalmente com acesso aos debates políticos do Atlântico, embora continuasse discriminada e excluída de direitos políticos plenos.
E no final do século XVIII, como vocês devem saber, a França se tornaria o centro de um dos eventos mais importantes de toda a nossa história, A partir da queda da Bastilha, em 1789, começava a Revolução Francesa. Logo no início da Revolução, um documento chamado "Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão" foi aprovado, afirmando princípios de igualdade jurídica e atacando os privilégios tradicionais da nobreza e do clero.
Porém, ao mesmo tempo em que esse documento é um grande marco político, ele traz uma clara contradição. O que os franceses queriam para si tinham sérias limitações em relação às suas colônias. A Declaração dos Direitos Dos Direitos do Homem e do Cidadão proclamava que "os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos". Mas, ao mesmo tempo, a Assembleia Nacional Francesa se recusava a abolir a escravidão nas colônias por conta dos interesses dos donos de terra nas colônias.
Os afranches de São Domingue enviaram representantes a Paris exigindo que a declaração também fosse aplicada a eles. Um desses representantes é Vincent Ogier, que voltou a São Domingue em 1790. E liderou uma revolta que foi esmagada pelos colonos brancos. Ogé foi capturado, torturado e executado publicamente. Tava bem claro que esse papo de liberdade era só pros europeus, não pros colonizados. Mas o Vincent não era o único a querer mudanças.
Tamo falando de uma ilha com mais de 500 mil escravizados. E as tentativas de libertação tavam só começando. Na noite do dia 14 de agosto de 1791, em uma floresta chamada Bois Caimans, líderes escravizados de diferentes plantações se reuniram numa cerimônia cerimônia que misturava religião africana e juramento político. O sacerdote vodou Dutty Bookman conduziu o ritual. Segundo relatos, foi feito um pacto de morte ou liberdade.
Uma semana depois, no dia 22 de agosto de 1791, a maior revolta de escravizados da história colonial havia começado. Plantações foram incendiadas pelo norte da colônia e em semanas o fogo se espalhou por toda São Domingos. E dentro desse processo, um nome ganhou destaque: e se tornou o principal nome da ilha. Eu estou falando de Toussaint Louverture. Nascido escravizado por volta de 1743, Toussaint foi educado de forma incomum para alguém que não era livre.
Ele conhecia francês e crioulo, teve contato com leituras religiosas, políticas e filosóficas, e ao longo da Revolução demonstrou uma enorme capacidade estratégica e militar. Ele foi libertado pouco antes da Revolução e havia trabalhado como feitor em uma plantação. Quando a revolta começou, ele tinha quase 50 anos, uma idade que poucos muitos esperariam o surgimento de um líder militar, mas o Toussaint revelou um talento estratégico e político também extraordinário.
Ele organizou as pessoas escravizadas em unidades militares extremamente disciplinadas, estudou os manuais de guerra europeus, estabeleceu alianças e as rompeu quando foi conveniente. Ele derrotou exércitos franceses, espanhóis e britânicos em sequência. No ano de 1801, ele controlava toda a ilha de Hispaniola e proclamou uma Constituição que aboliu a escravidão e o nomeou governador por vitalício. A essa altura, quem governava a França era Napoleão Bonaparte, que obviamente não aceitou a ruptura.
No ano de 1802, ele enviou uma frota com mais de 20 mil soldados, comandada pelo seu cunhado, o general Leclerc, com ordens de retomar a colônia e restaurar a escravidão. Toussaint foi convocado para negociações, sob uma promessa de salvo conduto, mas acabou sendo preso. Levado acorrentado pra França, ele foi jogado em uma fortaleza nas montanhas do Jura, o Forte de Toussaint Louverture, onde morreu de frio, fome e pneumonia em abril de 1803.
A frase atribuída a Toussaint, dita após a sua prisão, resume bem o seu legado. Ele teria dito que, abre aspas: "Ao me derrubarem, derrubaram apenas o tronco da árvore da liberdade negra. Ela crescerá de novo pelas raízes, porque são profundas e numerosas", fecha aspas. Com Toussaint preso, a liderança da revolução passou para Jean-Jacques Dessalines e também para Henri Christophe. A febre amarela devastou o exército francês E Leclerc foi uma das vítimas.
A batalha decisiva foi travada em novembro de 1803, na cidade de Vertières. Os franceses foram derrotados e evacuaram a ilha. No dia 1º de janeiro de 1804, Jean-Jacques Dessalines proclamou a independência do novo estado. E ele escolheu o nome que os tainos haviam dado à ilha: Haiti. Era tanto um ato de memória quanto de ruptura, ao mesmo tempo. Um gesto que dizia que aquela terra pertencia às pessoas que nela viviam. Não aos colonizadores, que a haviam batizado de outra forma.
O Haiti se tornava a primeira república negra independente do mundo e o segundo país das Américas a conquistar a independência, logo depois dos Estados Unidos. Mas a sua liberdade custou caro. As potências escravistas do mundo olharam para o Haiti com grande preocupação. Os Estados Unidos, que haviam se libertado da Inglaterra há pouco tempo, também tinham sua economia baseada em princípios escravistas e por isso se recusou a reconhecer a independência haitiana por algumas décadas, temendo que o exemplo se espalhasse para suas próprias plantações ao sul.
Já a França vai exigir uma indenização extremamente pesada. O Haiti estava cercado e isolado, e por isso ele acabou aceitando um acordo que o condenaria ao subdesenvolvimento por mais de um século, como eu vou explicar daqui a pouquinho. Em 1825, o rei Carlos X da França vai enviar uma frota de guerra ao Haiti com uma proposta que na prática era um O Haiti pagaria 150 milhões de francos-ouro, o que seria equivalente hoje a algo em torno de 20 a 30 bilhões de dólares, como indenização pelos prejuízos sofridos pelos colonos, principalmente com os proprietários de escravos.
Teoricamente, um prejuízo causado por conta da Revolução, um preço pela sua liberdade. E em troca, a França reconheceria a independência haitiana. O presidente haitiano, Jean-Pierre Boyer, aceitou. Ele não tinha escolha. Afinal, uma nova invasão francesa era uma possibilidade propriedade real. E nenhum outro país no mundo estava disposto a ajudar o Haiti. O Haiti pagou essa dívida, mas ele pagou por 122 anos. O último pagamento foi feito em 1947.
E para financiar as primeiras parcelas, o Haiti pegou emprestado de bancos franceses. E é claro, passou décadas pagando juros sobre a indenização que pagava à França. Uma pesquisa do New York Times, publicada em 2022, estimou que o Haiti transferiu o equivalente a entre 21 a 115 bilhões de dólares modernos para ao longo de todo esse período. Imagina só, gente, eu tô falando de um dinheiro que não foi investido em escola, em hospital, em estrada, em infraestrutura para os próprios haitianos.
O Haiti foi punido por querer a sua liberdade. O economista Thomas Piketty, autor de O Capital no Século 21, é um dos que afirmam que a dívida francesa é uma das principais explicações estruturais para o subdesenvolvimento haitiano. A França finalmente reconheceu publicamente o problema depois do do terremoto que ocorreu na ilha em 2010, mas nunca devolveu o dinheiro. Em 2022, o presidente Emmanuel Macron reconheceu que a dívida havia sido injusta, mas se recusou a qualquer forma de restituição financeira. Esse é um dos casos em que o termo dívida histórica cabe como uma louca.
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E do outro lado, ao sul, tinha o que é chamado de República Mulata. Em 1820, o Haiti foi reunificado e ele passou pelas décadas seguintes com uma sucessão de presidentes que chegavam ao poder pela força e eram derrubados da mesma forma. Ou seja, era golpe atrás de golpe. Entre 1843 a 1915, o Haiti teve mais de 20 chefes de estado, a maioria deles terminando o mandato exilado, preso ou morto. A instabilidade não era apenas política, era claramente também econômica.
A dívida francesa sugava os recursos, a agricultura estava em declínio e a infraestrutura praticamente não existia. O Haiti foi ficando para trás num mundo que estava se industrializando, No dia 28 de julho de 1915, fuzileiros navais dos Estados Unidos desembarcaram em Porto Príncipe e iniciaram uma ocupação que duraria até 1934. A justificativa oficial dos Estados Unidos era a instabilidade política e a proteção de vidas e propriedades americanas.
Mas a justificativa real, que a gente sabe, era que os Estados Unidos queriam um controle estratégico do Caribe, além de acesso às riquezas naturais haitianas. E não menos importante, eles queriam impedir qualquer influência europeia. Especialmente alemã. A região era muito visada durante a Primeira Guerra Mundial. Durante os 19 anos de ocupação, os estadunidenses controlaram as finanças haitianas, reorganizaram o exército, construíram algumas estradas e escolas e reinstauraram o trabalho forçado para obras públicas.
Os Estados Unidos também reescreveram a Constituição haitiana para permitir que estrangeiros possuíssem terras, algo que a Constituição original de 1804 34 proibia explicitamente. Era uma espécie de proteção contra o retorno do colonialismo. Bem, após a saída dos Estados Unidos em 1934, o Haiti continuou a sua trajetória de instabilidade, até que em 1957 chegou ao poder o homem que governaria o país por 14 anos e construiria uma das ditaduras mais violentas da história haitiana: François Duvalier, médico rural que havia trabalhado em campanhas de saúde pública, que usava o apelido carinhoso de Papadóki, foi eleito em uma eleição com amplo apoio popular.
Ele se apresentava como representante da maioria negra do Haiti contra a elite mulata que havia dominado a política por décadas. Essa retórica de libertação rapidamente se converteu numa ditadura. Papadóki construiu seu poder sobre 3 pilares. O primeiro era o terror. Ele criou uma milícia paramilitar chamada de Voluntários para Segurança Nacional, conhecida popularmente como Tonton Macoute. Macutes, uma referência ao Homem do Saco do folclore haitiano, um ser que basicamente sequestrava crianças na madrugada.
Os Tonton Macutes não usavam uniforme oficial, não obedeciam à lei e não respondiam a nenhuma autoridade além do Duvalier, do Papadoc. Assassinavam, torturavam, extorquiam e aterrorizavam a população com total impunidade. Estima-se que o regime Duvalier tenha matado entre 30 a 60 mil pessoas. O segundo pilar era o vodu. O Papa Doc era iniciado nas práticas do vodu haitiano e cultivava a imagem de que tinha poderes sobrenaturais.
Ele associava a sua imagem ao Barão Samedi, uma figura ligada aos mortos no vodu haitiano, usando roupas, gestos e símbolos que reforçavam essa associação. Ele usava uma cartola preta, ternos escuros e um óculos de fundo de garrafa, que faziam referência a essa entidade. Era o uso político da religião popular para criar uma fama de que ele não era vulnerável. O terceiro pilar era o controle da Igreja Católica e das Forças Armadas, ambas subordinadas ao poder pessoal do Duvalier, através de nomeações, expurgos e intimidação.
Quando o Papa Doc morreu, em 1971, ele transmitiu o poder ao seu filho, Jean-Claude Duvalier, de apenas 19 anos, que ficou conhecido como Baby Doc. Baby Doc era menos ideologicamente comprometido que o pai e mais interessado em carros e festas do que em política. Porém, o aparato repressivo continuou funcionando. O regime se tornou mais abertamente corrupto e, embora em alguns momentos ele tenha reduzido a intensidade do terror político em comparação ao período do Papa Doc, mas não se engane, ele continuou autoritário, repressivo e muito violento.
Em 1986, uma onda de protestos populares que varreram o país forçou o Baby Doc a fugir para a França num avião providenciado pelos Estados Unidos, e ele deixou para trás um país devastado, sem instituições funcionais, sem classe política capaz de governar e, não menos importante, com uma economia arrasada. O período após a queda do Baby Doc foi de transição tumultuada. Governos militares se alternaram. Em dezembro de 1990, naquelas que costumam ser descritas como as primeiras eleições livres e competitivas da história haitiana, o povo do Haiti elegeu com 67% dos votos um candidato chamado Jean-Bertrand Aristide, um padre salesiano que havia sido expulso sua ordem por pregar a Teologia da Libertação, que tinha uma base eleitoral esmagadora nos bairros pobres de Porto Príncipe.
Inclusive, eu vou fazer um episódio exclusivo para os apoiadores do História em Meia Hora lá na Pois sobre essa vertente do catolicismo, a chamada Teologia da Libertação. Esse é o episódio da semana, e toda semana vai ter mais um, como eu já falei. Se você quiser ouvir esse episódio e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se/historiameiahora. Bom, Aristide representava uma ruptura real com a ordem estabelecida, e por isso ele durou poucos meses no poder.
Em setembro de 1991, após apenas 7 meses de governo, Aristide foi deposto por um golpe militar liderado pelo general Raoul Cedras. Os 3 anos seguintes foram de repressão contra os partidários de Aristide, estimativas apontam para 3 a 5 mil mortos. A comunidade internacional impôs sanções ao Haiti. Os Estados Unidos, durante o governo Clinton, negociaram um retorno de Aristide, que voltou ao poder em outubro de 1994, escoltado por 20 mil soldados dos Estados Unidos.
A ironia era que o mesmo país que havia ocupado o Haiti por quase 20 anos, um pouco antes ainda, no século 20, agora o libertava, em um processo que muitos haitianos olhavam com desconfiança. Bem, o Aristide governou até 1996 e foi reeleito nos anos 2000 em 2000, numa eleição contestada, mas ele foi deposto novamente em 2004, dessa vez com participação ativa de uma rebelião armada financiada por setores da elite haitiana e, segundo Aristide, com pressão direta dos Estados Unidos e da França para que ele renunciasse.
O Aristide sempre afirmou que ele foi sequestrado num avião dos Estados Unidos e levado ao exílio à força, mas Washington sempre negou. Seja como for, ele partiu e o Haiti mergulhou em um período de forte presença internacional, com a missão Ocupação de Paz da ONU, a MINUSTAH, atuando de 2004 a 2017. Às 4:53 do dia 12 de janeiro do ano de 2010, um terremoto de magnitude 7,0, com epicentro a 25 km de Porto Príncipe, sacudiu o Haiti por 35 segundos.
E parece pouco tempo falando assim, menos de 1 minuto, quase metade de 1 minuto. Mas o que esses 35 segundos deixaram para trás é difícil difícil de descrever. As estimativas variam, mas muitos estudos trabalham com algo em torno de 100 mil a 160 mil mortos, enquanto o governo haitiano chega a falar em mais de 300 mil mortos, mas é importante lembrar que é um número contestado. De qualquer forma, mais de 1,5 milhão de pessoas acabaram desabrigadas.
O Palácio Nacional, o Parlamento, a Catedral, ministérios, hospitais, escolas, prisões, tudo foi destruído ou totalmente mercado. Porto-Príncipe era uma das cidades mais densamente habitadas das Américas e não tinha infraestrutura básica. Agora, tava ainda pior, tava em ruínas. Bem, a resposta internacional foi massiva. Mais de 13 bilhões de dólares foram prometidos em ajuda, mas a história de como que essa ajuda foi ou não foi usada é uma história de fracasso institucional, corrupção, descoordenação e boa vontade que não se traduziu em resultados.
Organizações humanitárias construíram campos de refugiados que se tornaram permanentes. Contratos foram dados a empresas estrangeiras em vez de empresas haitianas. E em um episódio que se tornou símbolo da tragédia da ajuda internacional mal gerida, tropas do Nepal, da missão de paz da ONU, introduziram no Haiti uma cepa da cólera à qual os haitianos não tinham imunidade. A epidemia matou mais de 10 mil pessoas e infectou centenas de milhares.
A ONU levou anos para admitir a responsabilidade. Nos anos seguintes ao terremoto, o presidente Jovenel Moïse Moïse, que havia assumido em 2017, governou por decretos após o colapso do parlamento. E ele se recusou a deixar o cargo, alegando divergências sobre quando seu mandato terminava. No dia 7 de julho de 2021, Moïse foi assassinado por um grupo de mercenários dentro da sua própria residência particular em Porto-Príncipe. O assassinato nunca foi completamente esclarecido e mandantes e financiadores permanecem não identificados oficialmente.
O vácuo de poder que se seguiu não foi preenchido por um governo legítimo, mas sim por gangues armadas que, segundo o Observatório de Direitos Humanos, controlam a maior parte de Porto-Príncipe e de sua região metropolitana, cerca de 80 a 90%. O Haiti de hoje em dia é um estado de colapso funcional. Não há eleição há anos. O primeiro-ministro Ariel Henry, que assumiu após o assassinato de Moïse, renunciou em março de 2024, após gangues bloquearem o seu retorno ao país.
Uma missão multinacional de segurança, iniciada pelo Quênia e apoiada pela ONU, foi enviada para apoiar a polícia haitiana, mas enfrentou falta de recursos, um efetivo insuficiente e teve resultados limitados. A população civil vive sob o controle de gangues que cobram pedágio por qualquer movimento, que sequestram, que matam. Segundo a ONU, mais de 1,4 milhão de haitianos foram deslocados de suas casas pela violência, segundo dados humanitários mais recentes.
Existe um debate histórico político sobre as causas da pobreza haitiana, que vale a pena apresentar com honestidade, porque ele diz muito sobre como que interpretamos a história e a responsabilidade coletiva. Uma vertente de análise associada principalmente a certos economistas mais conservadores e popularizada por figuras como David Brooks atribui o subdesenvolvimento haitiano primariamente a fatores culturais e institucionais internos.
De acordo com essa linha, a instabilidade política crônica é resultado da corrupção econômica, das práticas do vodu, que supostamente desencorajam o desenvolvimento econômico, e da falta de capital social. Eu não preciso nem dizer que essa análise é cheia de problemas, vamos chamar de problema, porque faz uma hierarquização das tradições culturais do Haiti e as classifica como essencialmente negativas. Uma outra vertente, que é defendida por historiadores como Laurent Dubois, Alex Dupuy e C.L.R.
James, aponta para causas estruturais e externas que acabaram se acumulando ao longo de 2 séculos: a dívida francesa de 150 milhões de francos que o Haiti pagou por 122 anos, o isolamento diplomático e econômico imposto pelas potências escravistas, que viam o Haiti como uma ameaça ao sistema escravista global. Eles citam também o embargo dos Estados Unidos, que durou décadas, a ocupação dos Estados Unidos de 1915 a 1934, que inclusive reescreveu as leis do país para benefício governo próprio e os 29 anos da Ditadura do Valier, que foram tolerados e em diferentes momentos apoiados pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, principalmente porque, adivinha, o governo do Papadóki se apresentava como anticomunista.
Além disso, existiram também as intervenções que depuseram líderes eleitos. E claro, os desastres naturais, que atingem com muito mais força um país sem infraestrutura do que um país desenvolvido. A pergunta não é por que os haitianos são pobres, como se a pobreza fosse uma característica do povo. A pergunta é: o que foi feito ao Haiti durante mais de 2 séculos que impediu sistematicamente o seu desenvolvimento? E quando a gente formula a pergunta dessa forma, as respostas apontam tanto para fora do Haiti quanto para dentro.
O país que fez a única revolução de escravizados bem-sucedida da história foi punido por isso, por séculos. Reconhecer esse tipo de coisa não é isentar o Haiti de responsabilidade pelos seus próprios problemas de governança, é colocar esses problemas no contexto que os gerou. Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza?
O primeiro episódio se chama Revolução Francesa, o segundo se chama Revolução Haitiana, e o terceiro se chama Leão. E agora bora fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você acabou de aprender. Vambora! Quando falamos da história do Haiti, estamos falando de uma ilha que os tainos chamavam de Haiti, que na língua original significa terra das montanhas altas. Uma ilha que foi devastada pelo colonialismo espanhol em menos de 50 anos, exterminando os seus habitantes originais.
A França transformou a metade ocidental em Saint-Domingue, a colônia mais lucrativa do do mundo, sustentada por meio milhão de escravizados africanos em condições de trabalho extremamente cruéis. A contradição entre as ideias iluministas da Revolução Francesa e a manutenção da escravidão nas colônias produziu a única revolução de escravizados bem-sucedida da história, que teve como líder Toussaint Louverture e foi concluída por Dessalines em 1804.
O preço pela revolução, o preço pela liberdade, foi uma dívida imposta pela compensa que o Haiti de fato pagou por 122 anos. O isolamento internacional, a ocupação dos Estados Unidos de 1915 a 1934, os 29 anos da ditadura do Papa Doc, os golpes contra os presidentes eleitos, o terremoto de 2010, a epidemia de cólera trazida pela ONU e o colapso do Estado diante das gangues compõem uma história de exploração contínua que explica muito mais do que qualquer suposta maldição cultural.
O Haiti é o país mais corajoso e mais traído das Américas. Entender por que que ele tá onde tá é uma questão de justiça histórica, que só não é feita porque os europeus sabem que no dia que um país africano, um país asiático, um país americano que conseguir vencer na justiça, e a tal justiça histórica não vai chegar sem o pagamento da dívida histórica. E assim como o mundo escravista tinha medo que o que aconteceu no Haiti pudesse se repetir por todo mundo, a elite mundial de hoje também tem medo do pagamento de uma dívida porque sabe que no dia que um país tiver que pagar para outro por conta do que aconteceu durante a escravidão, durante o colonialismo, durante o imperialismo, todos os outros países também vão cobrar. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.
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Prof. Vítor Soares
Livro "História em Meia Hora - Grandes Civilizações"