Episódios de História em Meia Hora

Gladiadores

13 de junho de 202634min
0:00 / 34:15

Uma das figuras mais marcantes da história romana possui uma origem bem diferente do que as pessoas pensam! Fora que morrer lutando no Coliseu era bem mais raro do que os filmes nos ensinaram. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história dos Gladiadores.

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Apresentação: Prof. Vítor Soares.

Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)

REFERÊNCIAS USADAS:

- HOPKINS, Keith; BEARD, Mary. O Coliseu. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

- WIEDEMANN, Thomas. Emperors and Gladiators. London: Routledge, 1992.

- KYLE, Donald G. Spectacles of Death in Ancient Rome. London: Routledge, 1998.

- GOLDSWORTHY, Adrian. César: A Vida de um Coloso. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2007.

- BEARD, Mary. SPQR: Uma História de Roma Antiga. Tradução de Rogério Bettoni. São Paulo: Crítica, 2017.

- FUTRELL, Alison. Blood in the Arena: The Spectacle of Roman Power. Austin: University of Texas Press, 1997.

- JUNKELMANN, Marcus. Das Spiel mit dem Tod: So kämpften Roms Gladiatoren. Mainz: Von Zabern, 2000.

Participantes neste episódio1
V

Vítor Soares

HostProfessor de história
Assuntos12
  • Gladiadores como Ferramenta PolíticaPanem et circenses (pão e circo) · Popularidade e prestígio · Júlio César e os jogos · Augusto e a regulamentação · Imperadores participando dos jogos · Calígula · Cómodo
  • Categorias de GladiadoresMirmilão · Reciário · Secutor · Trácio · Oplomachus · Eques · Design de entretenimento
  • Quem eram os GladiadoresEscravizados · Prisioneiros de guerra · Condenados criminais · Homens livres (auctorati) · Fama e pobreza como motivação · Infames e celebridades
  • Legado e Autoridade CulturalPintura do século 19 · Filme Spartacus (1960) · Filme Gladiador (2001) · Série Spartacus (Starz) · Videogames · Academias e CrossFit · Simbolismo de força e coragem
  • Viriato Guerras Lusitanas· SociedadeFuga do ludus de Capua (73 a.C.) · Espartaco (líder trácio) · Crescimento da rebelião · Derrotas romanas · Esmagamento por Marco Licínio Crasso · Crucificações
  • Jogo do bicho e conflitosMunus (organizador: editor) · Pompa (desfile de entrada) · Combates preliminares e principais · Execuções e caças de animais · Summa rudis (árbitro) · Mitius (pedido de misericórdia) · Gesto do polegar (debate)
  • Origem dos GladiadoresRituais funerários itálicos · Munus · Primeira menção em 264 a.C. · Transformação em espetáculo
  • Fim dos Jogos GladiatoriaisCristianização do Império · Medida de Constantino (325 d.C.) · Proibição de Honório (399 d.C.) · Crise econômica e instabilidade política · Sobrevivência das caças de animais
  • Treino e saúdeLudi (escolas) · Lanista (proprietário/empresário) · Dieta (cevada, feijão) · Doctores (instrutores veteranos) · Sacramentum Gladiatorium (juramento)
  • Rafael Lacerda· SociedadeColiseu (Anfiteatro Flavio) · Anfiteatro de Pompeia · Anfiteatro de Capua · Hierarquia social nos assentos · Subsolo do Coliseu (hipogeu)
  • Gladiadoras e Outros EspetáculosGladiadoras (mulheres lutadoras) · Venationes (caças de animais) · Bestiarii (caçadores de animais) · Naumáquias (batalhas navais)
  • Expectativa de vida e mortalidadeTaxa de mortalidade menor que a do cinema · Custo de um gladiador treinado · Motivos para negar misericórdia
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Vítor Soares:Imagine que você vivia na Roma Antiga e você foi a um estádio com quase 50 mil pessoas ao seu lado. Ao invés de você torcer pra algum time, você grita nome de lutadores que podem sair dali cobertos de glória ou às vezes até sem vida. Pois é, hoje eu vou te contar a história dos Gladiadores. O cinema e a cultura pop em geral amam esse tipo de categoria de personagem, mas a história real dos Gladiadores é muito mais complexa, mais humana e até mais perturbadora perturbadora do que qualquer filme já conseguiu contar. E é justamente essa história que eu vou resumir aqui pra você hoje. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. Pessoal, é muito provável que os gladiadores sejam a figura mais conhecida de toda Roma Antiga e ao mesmo tempo talvez a mais mal compreendida. O que pouca gente sabe é que os combates gladiatoriais romanos parecem ter raízes em povos itálicos anteriores ou vizinhos de Roma, embora, claro, vai ser Roma que vai transformar essa prática numa instituição espetacular própria. As tais raízes do chamado combate gladiatorial estão nos rituais funerários de povos que viveram na Itália antes da expansão romana. A ideia central era que um guerreiro morto merecia ser honrado, e honrado com derramamento de sangue, e não o sangue de um animal sacrificado, e sim o sangue de um combate entre homens. Esse ritual funerário era chamado de munus e era realizado bem ao lado do túmulo, na frente da família do falecido. A primeira menção documentada de um combate gladiatorial em Roma data de 264 a.C., quando os filhos de Décimo Júnior Brutupera organizaram, em homenagem ao pai morto, um combate funerário no Forum Boário em Roma. Nesse evento, 3 pares de lutadores combateram em homenagem ao morto. Não tinha nada de arena, não tinha nada de Coliseu ou algo mais grandioso. Ao longo dos séculos seguintes, os rituais Os funerários foram crescendo em escala e também em frequência. Famílias nobres competiam entre si para oferecer os jogos mais impressionantes na morte dos seus parentes. O que era apenas uma oferenda acabou virando demonstração de prestígio e de status social. E quando a aristocracia romana percebeu que a população romana adorava assistir esses combates, a lógica política também vai entrar em cena. Quem organizava os melhores jogos ganhava popularidade, ganhava apoio, ganhava votos. A transformação Ficou mais evidente quando o tal munus deixou de ser organizado apenas em velórios e passou a ser um evento por si só, um espetáculo desconectado da origem funerária que havia lhe dado sentido. Beleza, uma vez que a gente agora entende a origem dessa mudança, eu acho que dá para começar a investigar melhor quem vão ser as pessoas que vão ficar conhecidas como gladiadores. Pessoal, quem eram os homens que lutavam nas arenas romanas? E a resposta é bem variada. Boa parte dos gladiadores era formada por escravizados comprados ou destinados a essa função. Mas as arenas recebiam prisioneiros de guerra, condenados criminais e até homens livres que se submetiam por contrato. Um outro tipo de escravizado que podia ser comprado para luta era o escravo doméstico. Mas isso só em casos em que a pessoa tivesse uma aptidão física para luta. Uma segunda categoria importante eram os prisioneiros de guerra. À medida que Roma expandia o seu território, os homens capturados em batalhas como franceses, germânicos, tráceos, norte-africanos e britânicos eram frequentemente destinados às arenas. Uma outra categoria eram os condenados criminais. Alguns eram enviados a escolas gladiatoriais para lutar como pena e outros eram simplesmente executados na arena, sem serem gladiadores profissionais no sentido estrito da palavra. Ah, e tinha ainda uma outra categoria de lutadores que essa é até um pouco curiosa. Eu tô falando dos lutadores voluntários. Pois é, pessoas que escolhiam viver nas arenas. Esses eram chamados de auctorati, que por contrato entregavam a sua liberdade a um treinador em troca de pagamento, acomodação e, claro, possibilidade de fama. Afinal, por que que um homem livre escolheria ser um gladiador? As razões eram variadas e revelam muito sobre a sociedade romana. Alguns eram movidos pela pobreza extrema. A vida no centro de treinamento, chamado de ludus, garantia alimentação, abrigo e até cuidado médico, que muitos dos homens livres pobres simplesmente não tinham. Já outros eram simplesmente atraídos pela fama. Gladiadores bem-sucedidos eram celebridades. Eles tinham fãs que escreviam os seus nomes nas paredes, fãs que compravam objetos com seus rostos pintados, que os ovacionavam nos estádios. As escavações em Pompeia revelaram grafites que elogiam gladiadores por nome, como Selados o Tráceo, faz as meninas suspirarem, e Crescens o Récio, senhor das garotas noturnas. Esses são dois exemplos reais que foram encontrados nas paredes da cidade. Existia aqui também uma leve contradição. Juridicamente, o gladiador perdia os seus direitos civis ao assinar o contrato gladiatorial. Ah, isso também valia para aquele que se voluntariou. O gladiador era classificado como infamis, junto com atores, prostitutas e outros grupos que eram considerados desonrosos. Isso não significava ausência total de fama, e sim perda de honra cívica e restrições importantes na vida pública e jurídica romana. Ao mesmo tempo, era um objeto de adoração popular, de poesias, de pinturas. Mulheres muitas mulheres de famílias nobres tinham casos com gladiadores famosos. Alguns desses romances ficaram tão famosos que até autores romanos escreveram sobre isso. O treinamento gladiatorial acontecia nas escolas gladiatoriais, chamadas de ludi. Essas instituições eram empresas comerciais geridas por um proprietário chamado de lanista, que era o proprietário ou empresário dos gladiadores. Ele podia enriquecer com o espetáculo, mas era socialmente mal visto pela elite, porque afinal ele lucrava com corpos submetidos à violência. Muitas vezes ele era equiparado ao traficante de escravos. O lanista comprava, treinava, alugava e algumas vezes até vendia os seus gladiadores. A sua riqueza dependia de manter os seus homens vivos e em forma. Ter um gladiador morto era sinônimo de um investimento perdido. A maior e mais famosa escola gladiatorial da República era a de Capua, que ficava onde atualmente é o sul da Itália. Na época imperial, o maior complexo de treinamento ficava em Roma, logo ao lado do próprio Coliseu, o Ludus Magnus. Os arqueólogos fizeram parte do Ludus Magnus e identificaram uma pequena arena central de treinamento, além de áreas de alojamento e estruturas ligadas à rotina dos gladiadores. Sabemos também por outras evidências que os gladiadores recebiam cuidado médico relativamente especializado. Análises de ossos de um cemitério gladiatorial em Éfeso, descoberto em 1993, indicam uma dieta majoritariamente vegetal, rica em cevada, feijões e outros grãos. Isso vai combinar com o apelido romano "hordeari", que significa comedores de Bem, enquanto alguns treinavam, os iniciantes começavam com armas de madeira e alvos de palha, evoluindo progressivamente para armas reais à medida que desenvolviam a sua técnica. Os instrutores especializados, chamados de doctores, eram gladiadores veteranos, de certa forma aposentados. O treinamento não enfatizava a luta selvagem, mas o controle técnico, compostura, golpes precisos e a tentativa de evitar movimentos desnecessários. Ao entrar no ludus, o gladiador prestava um juramento chamado de sacramentum Gladiatorium, declarando aceitar ser queimado, acorrentado, chicoteado e até morto pela espada. Um dos aspectos mais interessantes dos jogos gladiatórios é a complexa divisão entre os lutadores. Existiam diferentes categorias de lutadores. Não era algo selvagem, e sim com cada lutador inserido em uma divisão com características próprias. O chamado mirmilão usava um elmo pesado decorado com uma crista de peixe. Ele usava um escudo bem grande, retangular, e uma espada curta chamada gladius, palavra da qual do qual deriva o termo gladiador, que significa literalmente algo como homem da espada. Era o arquétipo do lutador pesado, mais protegido, só que mais lento. O adversário meio que natural do mirmilão era o reciário, do latim retiarius, que lutava de forma totalmente diferente. Ele não tinha elmo, somente um dos ombros era protegido, e como arma ele tinha uma rede e um tridente para golpear o adversário. O reciário era mais leve, mais ágil, e a sua luta acabava ficando bem mais teatral, ou seja, a plateia O Secutor era projetado especificamente para combater o Reciário. O seu elmo era liso, sem saídas para onde a rede pudesse se prender, e a sua viseira vinha com pequenos furos para não oferecer presa ao tridente. O combate entre o Reciário e o Secutor era um dos confrontos mais interessantes dos jogos. Já o chamado Trácio usava um pequeno escudo redondo e uma espada com lâmina curvada, e geralmente ele combatia o Mirmilão. O chamado Oplomachus era inspirado nos guerreiros gregos, com lança e um escudo redondo. O Jimmacherio, que inclusive é menos documentado, parece ter lutado com duas lâminas sem escudo, num estilo que parecia mais agressivo e arriscado. E tinha também o Eques, que entrava na arena a cavalo antes de descer para lutar. Agora, por que que essa divisão foi elaborada? A resposta tá no espetáculo. O evento exigia uma variedade nas lutas e na narrativa, algo que envolvesse a população. O público de Roma não ia querer ver o mesmo tipo de luta repetida 50 vezes. O povo queria ver o rápido contra o o armado contra o ágil, a rede contra a espada, o escudo grande contra o escudo pequeno. Cada combinação criava uma dinâmica própria, com as suas apostas e tensões específicas. Era, em muitos aspectos, um precursor do que hoje a gente chamaria de design de entretenimento, ou seja, um sistema pensado para maximizar o engajamento emocional da audiência. Bem, nenhuma discussão sobre os gladiadores está completa sem antes a gente falar sobre os espaços onde eles lutavam. E claro, o mais icônico deles, o Coliseu. O Coliseu que tinha como nome oficial "Anfiteatro Flávio". Sua construção começou sob Vespasiano, por volta de 70 a 72 d.C., e foi inaugurado por Tito, em 80 d.C. E mais tarde vai receber alterações importantes sob Domitiano. Vespasiano escolheu esse lugar porque ficava exatamente no espaço onde o Nero havia construído a Domus Aurea, a sua casa dourada. Ao construir o Coliseu ali, o Vespasiano estava fazendo um gesto político, que era devolver ao povo romano o espaço que o Nero havia privatizado. Uma coisa legal é que os números do Coliseu ainda impressionam quase 2.000 anos depois. Tamo falando de uma construção que contava com 50.000 lugares. A estrutura oval media 188 metros no eixo maior e 156 no eixo menor, com uma altura de quase 50 metros. A fachada externa era composta por 80 arcos em cada um dos 3 andares, com colunas de ordens diferentes. A construção usou mais de 100.000 metros cúbicos de travertino, tufa, tijolos e concreto romano. O interior era tão grandioso quanto a fachada. Como eu disse, 80 entradas numeradas permitiam que o público de 50 mil pessoas preenchesse e esvaziasse o anfiteatro em pouquíssimo tempo. Os lugares eram distribuídos por hierarquia social. A primeira fileira, o chamado podium, era reservada para o imperador, senadores e vestais. Acima vinham os cavaleiros, depois a plebe livre, e lá em cima, nas áreas superiores, ficavam os grupos de menor prestígio social. Incluindo parte da plebe, mulheres em setores separados e pessoas de status inferior. Em sua fase posterior, sobretudo após aquelas reformas associadas a Domitiano, o subsolo da arena passou a contar com um complexo de corredores, celas, mecanismos e até espaços para animais, permitindo entradas espetaculares por alçapões. Inclusive, eu vou para o Coliseu em outubro e eu quero ir com você, mas daqui a pouquinho eu falo melhor sobre isso. Mas o Coliseu não era o único espaço de espetáculo. Roma tinha uma longa tradição de anfiteatros que antecedem a construção do Anfiteatro Flávio. O Anfiteatro de Pompeia, datado de cerca de 70 a.C., é o mais antigo anfiteatro permanente que conhecemos e foi o palco de um dos episódios mais documentados de violência de torcida da antiguidade. Em 59 d.C., uma briga entre torcedores de Pompeia e Nucéria deixou mortos e feridos e resultou em uma proibição de 10 anos dos jogos na cidade, imposta pelo próprio Senado O anfiteatro de Capua era quase tão grande quanto o Coliseu. E espalhados por todo o Império, havia anfiteatros de diferentes tamanhos, em Cartago, em Leão, em Nimes e em El Djeh, na atual Tunísia. Isso mostra que a luta de gladiadores não era algo tão específico do centro do Império, e sim uma prática bem espalhada. E como que funcionava um dia de jogo? Olha, vou te falar que a organização era bem mais elaborada do que muito evento moderno de hoje em dia. O evento era chamado de munus e o seu organizador era chamado de editor. Na República, os editores eram magistrados, usando os jogos para ganhar popularidade. No Império, o maior editor era o próprio imperador, e os jogos imperiais tinham escala e sofisticação que nenhum editor privado tinha chance de igualar. O dia dos jogos começava com a pompa, que é o desfile de entrada. Os gladiadores entravam na arena em fila, se exibindo para o público antes do combate. Depois podiam vir combates preliminares ou até exibições técnicas, às vezes com armas de treino e acompanhamento musical, antes confrontos principais. Os combates principais vinham no período da tarde, depois do intervalo do meio-dia, que era preenchido com execuções de condenados e caças de animais. O combate em si era arbitrado por um summa rudis, um árbitro experiente que geralmente era um gladiador veterano aposentado, que podia interromper o combate, separar os lutadores ou até declarar um vencedor. As regras existiam e elas eram bem respeitadas. Quando um gladiador estava ferido ou exausto a ponto de não poder continuar, ele podia pedir mício, que significa misericórdia, levantando o dedo indicador. Nesse momento, o árbitro parava o combate e a decisão passava para o editor e para o público. E aqui a gente chega numa famosa questão, que é o polegar. O gesto popularizado por Hollywood, que basicamente é polegar para cima, pode viver, e polegar para baixo, pode matar, provavelmente simplifica demais essa questão. As fontes até citam isso, elas falam de policiverso que significa polegar virado, mas não dizem com clareza para qual direção esse polegar tá virado. Uma interpretação influente sugere que o polegar estendido para cima ou para frente simbolizaria uma espada e, consequentemente, a morte. Assim ou assim, joinha ou joinha para frente. Enquanto o polegar recolhido ou até escondido indicaria misericórdia. Então seria algo como: pode matar e não, deixe viver. Mas a real é que o gesto esse relato continua debatido. A confusão vem principalmente de uma pintura do século 19 do artista Jean-Léon Gérôme, que popularizou a versão invertida e que influenciou toda a iconografia que veio mais tarde. Beleza, existia a possibilidade de morte, né? Mas qual que era a taxa real da mortalidade nos combates? A resposta é que era muito menor do que os filmes sugerem. Estudos baseados em inscrições funerárias de gladiadores e registros de jogos indicam que a maioria dos combates terminava com a derrota gladiador sem a sua morte. E a explicação é até um pouco óbvia: matar um gladiador era algo extremamente caro. Um gladiador treinado era um investimento imenso do dono do gladiador ou até dos organizadores dos jogos. Matar um deles de forma desnecessária era literalmente um desperdício. Algumas estimativas para contextos e períodos específicos sugerem que algo em torno de 1 a cada 10 combates podia terminar com a morte do ao gladiador, mas essa taxa variava bastante conforme a época, local, tipo de jogo, etc. Ah, e quando a "mício" era negada, a misericórdia, isso só costumava acontecer quando o gladiador havia lutado de forma covarde ou indigna, desrespeitando o código não escrito do combate. E se eu te disser que dá para viajar no tempo? E digo mais, é viajar no tempo comigo, com o João Pedro do Operação Barbarossa e com o Vogel do Vogalizando a História. Nós três temos um canal chamado História e Cinema e Junto com a Inclusive Travel, a gente tá te convidando aqui oficialmente pra uma viagem pra Grécia e Roma. No dia 15 de outubro, a gente vai sair do Brasil e atravessar milênios de história. E não vai ser somente uma viagem turística, vai ser a gente andando por onde a história aconteceu. Roma, Grécia, filosofia, impérios, guerras, democracia. Vamo falar de tudo isso pessoalmente contigo, andando por onde aconteceu. A gente começa em Roma, depois vai pro Vaticano, depois pra Pompeia, conhece, Atenas, Delfos, enfim, aqui embaixo tem um link com o roteiro da viagem bonitinho. E tem um detalhe importante: essa viagem vai ser o momento para você desligar a cabeça, você vai só curtir. E o motivo é que praticamente tudo tá incluso no pacote. Você não vai precisar se preocupar com deslocamento, com logística, nada disso. A gente vai ter guias de viagem acompanhando o tempo todo, além de, claro, nós três te explicando sobre a história daquele lugar. São várias viagens dentro Roma, Pompeia, Grécia, as ilhas gregas, tudo já bem organizado pra você só aproveitar. O HistoriCinema, que é o nosso canal, tá organizando essa viagem junto com o pessoal da Inclusive Travel. E vai ser um prazer enorme ter você junto com o História em Meia Hora, com o Vogalizando a História, com Operação Barbarossa, vivenciando vários episódios, só que dentro deles. Então anota na sua agenda, em outubro a gente se vê numa viagem no tempo inesquecível. Clica aqui embaixo no link pra você lugar para você ter mais informações e qualquer dúvida manda mensagem para a Inclusive Travel que eles têm uma equipe preparada para te ajudar. A gente se vê em outubro, gente, valeu! Pessoal, eu falei sobre a tradição, falei sobre a fama que envolve o nome dos gladiadores, mas nada se compara à história e a lenda de Espartaco. No ano 73 a.C., no ludus de Capua, um grupo de cerca de 70 gladiadores, um número que inclusive varia dependendo um pouco da fonte, escapou usando utensílios de cozinha como armas. Esse grupo matou os guardas e fugiu para as encostas do Monte Vesúvio. À frente do grupo estava um gladiador trácio chamado Espartaco. Espartaco era trácio, uma região antiga que abrangia partes da atual Bulgária, Grécia e até a Turquia Europeia. Ele havia servido como auxiliar no exército romano antes de se tornar escravo, por razões que não são totalmente claras, e acabou no ludus de Capua, onde se tornou um gladiador experiente. Plutarco o descreve como um homem de inteligência e cultura superiores, "al que se esperaria de sua condição". E essa descrição também revela o olhar elitista das fontes romanas. Quando um escravizado demonstrava liderança e inteligência militar, os autores antigos tratavam isso como algo surpreendente. Bem, o que começou com 70 fugitivos se tornou em poucos meses uma rebelião de dezenas de milhares de escravos. Escravos agrícolas das propriedades do sul da Itália abandonaram os seus donos e se juntavam ao exército de Espartaco. Em 2 anos de guerrilha e depois de batalhas campais, Espartaco derrotou vários exércitos romanos enviados para esmagá-lo. As fontes antigas falam em dezenas de milhares de seguidores, às vezes chegando a números como 70.000 ou até mais. Mas esses dados são incertos e provavelmente incluem combatentes, famílias e outros fugitivos que só acompanhavam a revolta. Explicar o que ele queria com essas revoltas não é algo fácil. Algumas fontes sugerem que ele queria cruzar os Alpes e permitir permitir que os seus seguidores voltassem para suas terras de origem. Já outros sugerem que ele tinha um projeto mais ambicioso, como a tomada de poder. Mas os escravos vindos de tantas origens diferentes dificilmente poderiam ter um projeto político coeso. O que é certo é que a rebelião foi esmagada no ano 71 a.C. pelo general Marco Licínio Crasso, e que cerca de 6 mil prisioneiros foram crucificados ao longo em Tricápua e Roma, criando uma paisagem de terror cuidadosamente pensada como aviso político. Espartaco morreu em combate e seu corpo nunca foi encontrado. A rebelião de Espartaco não libertou os escravos de Roma, mas deixou uma marca profunda na memória romana. Os senadores que votaram leis sobre a escravidão nas décadas seguintes tinham em mente o que um grupo de gladiadores havia quase conseguido. Mas voltando a falar dos jogos, né, os jogos em si, é importante destacar que os jogos gladiatoriais nunca foram apenas entretenimento. Desde o início, também foram política. A famosa expressão de Juvenal, "panem et circenses", que é o famoso "pão e circo", aparece em tom satírico, mas resume bem uma percepção romana. Distribuição de alimentos e espetáculos eram ferramentas centrais de controle e prestígio e de negociação política. Os jogos eram parte estrutural desse contrato Na República, a corrida para oferecer jogos cada vez mais espetaculares chegou a níveis que preocupavam o Senado. Júlio César, antes de se tornar ditador, gastou fortunas em jogos para ganhar popularidade. Eram jogos caríssimos em memória do pai, apresentando 320 pares de gladiadores com armaduras prateadas. O Senado chegou a passar leis limitando o número de gladiadores que um organizador privado podia apresentar. Essa inclusive foi uma tentativa frustrada de conter uma escalada que tava transferindo o poder político real para quem tivesse mais dinheiro para gastar em espetáculos. Bem, com o advento do Império, o Augusto regulamentou os jogos. Ele limitou o número de munos por ano, estabeleceu regras sobre quem podia organizar os jogos e em que situações, e reservou para o próprio imperador o papel de editor supremo. Ao fazer isso, Augusto não estava apenas controlando os gastos, ele também estava monopolizando o instrumento o político mais poderoso de Roma. A partir de agora, era o imperador que dava os melhores jogos, era o imperador que o povo amava. Mas tinham imperadores que iam além de simplesmente organizar os jogos. Alguns queriam participar deles. Segundo fontes antigas, o Calígula chegou a obrigar ou pressionar membros da elite, como senadores e cavaleiros, a participar de espetáculos de arena, algo apresentado pelos autores romanos como uma humilhação pública da aristocracia. Inclusive, o Calígula é uma das figuras mais icônicas de Roma, e eu vou falar mais sobre ele no episódio exclusivo dessa semana para os apoiadores do História em Meia Hora. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios que já tem por lá, é só assinar o apoia.se/historiameiahora. Bom, o Cómodo, que é o imperador que o Joaquim Phoenix interpreta lá no filme Gladiador, fez isso, só que levou ao extremo. Ele associou a sua imagem ao Hércules e desceu pessoalmente à na arena, lutando em combates encenados para sua vitória e também em exibições contra animais. O Cômodo inclusive até renomeou Roma como Colonia Commodiana e declarou que a cidade devia ser refundada com ele sendo o seu novo fundador divino. Uma das revelações mais surpreendentes para quem estuda os gladiadores com rigor histórico é a existência documentada de gladiadoras, mulheres que lutavam na arena, e a evidência vem de vários tipos de fontes. Uma das evidências mais famosas é um relevo de mármore encontrado em Halicarnasso, na atual Turquia, e que hoje fica no Museu Britânico, que mostra duas gladiadoras chamadas Amazon e Achilla em posição de combate. O historiador romano Suetônio menciona gladiadoras nos jogos do imperador Domiciano, mas quase sempre como algo excepcional, escandaloso ou até digno de comentário moral. Tácito e Juvenal criticam com indignação a participação de mulheres nobres nas arenas. O imperador Septímio Severo proibiu os combates femininos no ano 200 depois Cristo, o que implica que eles eram praticados o suficiente para justificar uma proibição formal. Além das gladiadoras, os jogos romanos incluíam uma variedade de espetáculos que vai muito além do combate entre dois lutadores humanos. As chamadas venationes eram caças de animais exóticos. Eram tão populares quanto os combates gladiatoriais, e algumas vezes até mais. Leões, tigres, elefantes, rinocerontes, hipopótamos, girafas, crocodilos— todo tipo de animal era morto na arena por caçadores especializados. Domesticados, chamados de bestiarii. Historiadores naturais estimam que os jogos romanos contribuíram para a extinção de populações inteiras de leões no norte da África e de elefantes lá na Síria, embora extinções e desaparecimentos regionais tenham causas complexas. Havia também as naumáquias, batalhas navais encenadas. Júlio César inundou artificialmente um lago no Campo de Marte para encenar uma batalha naval com 16 galés e 4.000 remadores. O imperador Cláudio organizou uma naumáquia Lago Fucino, com 19.000 homens condenados à morte, que lutariam até a derrota total de um lado. E segundo algumas fontes, a arena do próprio Coliseu era capaz de ser inundada para embarcações menores. Algumas dessas fontes antigas sugerem que o Coliseu, na sua fase inicial, que era antes da instalação definitiva do hipogeu, pode ter recebido espetáculos aquáticos menores. Mas esse é um ponto debatido, porque a estrutura posterior do subsolo tornaria esse tipo de inundação extremamente difícil. O O que podemos comprovar com isso é que a escala do entretenimento romano imperial não tem paralelo na história antiga. O fim dos jogos gladiatoriais foi um processo bem longo, não foi uma decisão abrupta. O fator mais frequentemente citado é a cristianização do Império Romano a partir do século IV. Constantino, associado ao Edito de Milão de 313 d.C., concedeu tolerância legal ao cristianismo e ajudou a mudar profundamente profundamente a sua posição dentro do Império. Em 325 d.C., Constantino emitiu uma medida contra os combates gladiatoriais. Essa medida é frequentemente tratada como uma tentativa de proibição, mas ela teve uma eficácia limitada e os combates continuaram acontecendo mesmo depois dela. Na prática, a proibição foi ignorada. Vai ser o imperador Honório que vai proclamar o fim dos combates gladiatoriais no ano 399 d.C. A.C., mas as datas precisas ainda são debatidas pelos historiadores, e há evidências de que os combates continuaram depois dessa data em várias partes do Império. A Igreja Cristã, que se formou dentro do Império, se opunha aos jogos, e isso por razões tanto morais quanto teológicas. Afinal, o derramamento de sangue como espetáculo era incompatível com a ética cristã. Mas havia também razões econômicas e políticas. A crise do século III havia devastado a economia romana, e o custo dos grandes jogos imperiais era absolutamente insustentável. A instabilidade política, fiscal e militar com as chamadas invasões bárbaras dos séculos IV e V, junto com a fragmentação do poder imperial no Ocidente, tornou cada vez mais difícil financiar e abastecer espetáculos de grande escala, e as legiões que antes forneciam prisioneiros de guerra pras arenas estavam agora lutando pra manter o próprio império de pé. As caças de animais sobreviveram aos combates gladiatoriais por mais de 2 séculos. O último registro de uma venatio em Roma data de 523 d.C., mais de 100 anos depois do fim teórico dos combates de gladiadores. A arena não morreu de uma vez, ela foi se esvaziando, perdendo financiamento, perdendo público, perdendo o contexto imperial que lhe dava sentido. O Coliseu foi gradualmente abandonado, usado como pedreira para construção medieval, habitado por famílias nobres que construíram as suas residências dentro das arcadas. O que o tempo que os terremotos e os construtores medievais não levaram, acabou sobrevivendo para se tornar hoje um dos monumentos mais visitados e reconhecíveis do mundo. Poucos aspectos da Roma Antiga geraram uma indústria cultural tão duradoura quanto os gladiadores. A fascinação é antiga, já no século 19, pintores acadêmicos como o próprio Jean-Léon Gérôme, além do Lawrence Alma-Tadema e o José Moreno Carbonero, criaram telas enormes e bem pesquisadas de combates gladiatoriais que acabaram moldando o imaginário de gerações e que ainda hoje circulam como referência visual. Mas foi o cinema que transformou o gladiador num ícone global. O filme Spartacus, do Stanley Kubrick, lançado em 1960, com Kirk Douglas no papel principal, foi um dos filmes mais caros já produzidos até então e definitivamente um sucesso monumental. 40 anos depois, o Gladiador do Ridley Scott, com Russell Crowe, ganhou o Oscar de melhor filme no ano de 2001. Esse filme relançou o interesse popular pelos romanos, algo que não se via desde o filme do Kubrick. O filme tem problemas históricos sérios, o cômodo não matou o seu pai Marco Aurélio, e a cena do polegar provavelmente está invertida, mas a sua perspectiva visual dos jogos, da arena e da política imperial capturou algo da grandiosidade e da brutalidade do período que resiste à crítica histórica. Gladiador 1 é um filmaço. Ridley Scott voltou ao tema recentemente em Gladiador 2, no ano de 2024, mostrando que o apetite cultural pelo assunto não diminui. Na televisão, a série Spartacus da Starz, exibida entre 2010 a 2013, levou a violência e a sexualidade dos jogos para um patamar que o cinema mainstream não ousava. Os videogames também exploraram extensamente o tema, desde Rise: Son of Rome até Assassin's Creed Origins, passando pelos incontáveis jogos de luta com gladiadores, como o personagens. E também tem uma dimensão da cultura pop que vai além da ficção. Tem um monte de academia de musculação chamada Gladiador, ou que tem um gladiador na logo. Existem equipamentos de CrossFit que são inspirados no treinamento romano. Tatuagens com elmos de mirmilão. Restaurantes temáticos em Roma que vendem a experiência gladiatorial para os turistas. O gladiador virou uma marca, um símbolo de força, de virilidade, um símbolo de combate que a cultura contemporânea continua reapropriando cansar. Talvez o Gladiador não toque em algo apenas histórico, mas também em um simbolismo que ronda a nossa sociedade. Falar dos Gladiadores é falar de um combate individual, de coragem diante da morte, de um destino nas mãos de outros e, claro, da glória depois da luta. São temas recorrentes em muitas culturas: combate, coragem, morte, fama, violência e espetáculo. Roma criou uma das versões mais institucionalizadas e visualmente poderosas desse extraordinário, um legado tão poderoso que 2000 anos depois eu tô aqui agora falando sobre isso. Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Império Romano, o segundo se chama Espartaco, e o terceiro se chama Queda do Império Romano. E agora bora fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje.

Voz D:Vamos lá!

Vítor Soares:Quando falamos de gladiadores, estamos falando de uma instituição uma tradição romana que provavelmente nasceu de ritos funerários de povos itálicos associados por diferentes tradições, como etruscos, campanos, lucanos ou samnitas, e que chegou a Roma como oferenda aos mortos em 264 a.C. Chegou com apenas 3 pares de escravos e cresceu ao longo de séculos até se tornar o maior espetáculo de massa da antiguidade. Os gladiadores eram escravos, prisioneiros de guerra, condenados criminais e voluntários homens pobres que buscavam fama e sustento. O treinamento nos chamados ludi era rigoroso e especializado. A dieta era principal de cevada para criar uma gordura protetora, e o sacramentum transformava o homem em uma propriedade legal. Havia diferentes categorias de lutadores: o mirmilão, o recius, o secutor, o trácio e outros, cada um com armamento específico, criando dinâmicas de espetáculo O Coliseu foi um dos principais palcos dessas lutas, mas não foi o único. Por todo o Império Romano tinham arenas pros combates. Espartaco mostrou, no ano 73 a.C., que o sistema tinha falhas, e que podiam se tornar guerras. Imperadores usaram os jogos como instrumentos de poder, e alguns, como o próprio Cómodo, queriam ser gladiadores. O cristianismo e a crise imperial acabaram com os jogos lá por volta do século 5º, mas a fascinação nunca acabou, atravessando séculos até chegar no Stanley Kubrick, no Ridley Scott e até nas academias de crossfit do século 21, mostrando que a história sempre pode virar um produto lucrativo, e as falsificações históricas se aproveitam muito disso, como quando os espartanos e outros guerreiros gregos são tratados como grandes símbolos masculinistas heterossexuais, sendo que a realidade era bem diferente, mas isso já é um papo para uma outra meia hora.

Voz E:Ryan Reynolds aqui para a Mint Mobile. Eu não sei se você sabia, mas qualquer um pode ter o mesmo plano de internet premium por $15 por mês que eu tenho. Não é só para celebridades, então faça como eu fiz e tenha one of your assistant's assistants switch you to Mint Mobile today. I'm told it's super easy to do at mintmobile.com/switch.

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