Episódios de História em Meia Hora

Pentecostalismo

06 de junho de 202633min
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Você conhece bem uma das vertentes do Cristianismo que mais cresceu nas últimas décadas? Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história do Pentecostalismo.

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Apresentação: Prof. Vítor Soares.

Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)

REFERÊNCIAS USADAS:

- CAMPOS, Leonildo Silveira. Pentecostalismo e Protestantismo "Histórico" no Brasil: um século de conflitos, assimilação e mudanças. Horizonte, Belo Horizonte, v. 9, n. 22, p. 504-533, jul./set. 2011.

- MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: os pentecostais estão mudando. São Paulo: Loyola, 1999.

- MENDONÇA, Antonio Gouvêa. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Edusp, 2008.

- ALVES, Rubem. Protestantismo e repressão. São Paulo: Ática, 1979.

- HOLLENWEGER, Walter. El pentecostalismo: história e doutrinas. Buenos Aires: La Aurora, 1972.

- FRESTON, Paul. Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao Impeachment. Tese de Doutorado. Campinas: Unicamp, 1993.

- BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985.

Participantes neste episódio1
V

Vítor Soares

HostProfessor de história
Assuntos4
  • Origem do pentecostalismoMetodismo de John Wesley · Movimento de Santidade · Charles Fox Parham · Glossolalia · William Joseph Seymour · Rua Azusa
  • Evangelicismo BrasileiroLuís Francesco · Congregação Cristã no Brasil · Daniel Berg · Adolf Gunnar Wingren · Assembleia de Deus · Contexto brasileiro de 1910
  • Função Social da ReligiãoCrescimento numérico · Mercado religioso competitivo · Adaptação à cultura oral · Bancada evangélica · Economia cultural gospel
  • Teologia e DoutrinasDeclínio da glossolalia · Centralidade da teologia da prosperidade · Monetização do sacrifício · Centralização do poder no pastor · Abandono de proibições morais
Transcrição5 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

Voz A:Ready to soundtrack your summer? With Red Bull Summer All Day Play, you choose a playlist that fits your summer vibe the best. Are you a festival fanatic? A deep-end DJ? A road dog? Or a trail mixer? Just add a song to your chosen playlist and put your summer on track. Red Bull Summer All Day Play. Red Bull gives you wings. Visit redbull.com/brightsummerahead to learn more. See ya this summer.

Vítor Soares:Study and play come together on a Windows 11 PC. And for a limited time, college students get the best of both worlds. Get the Unreal College Deal. Everything you need to study and play with select Windows 11 PCs. Eligible students get a year of Microsoft 365 Premium and a year of Xbox Game Pass Ultimate with a custom color Xbox wireless controller. Learn more at windows.com/studentoffer. While supplies last. Ends June 30th. Terms at aka.ms/collegepc. Eu sei que você já deve ter visto alguma igreja com uma música muito alta, com pessoas gritando, e essas pessoas parecem que elas falam outra língua ou algo do tipo. Se você não é desse meio, talvez você ache tudo isso um pouco estranho. Mas isso é um fenômeno religioso que começou nos Estados Unidos e veio até o Brasil. E aqui ele modificou até mesmo a forma que nós fazemos política. Eu tô falando do pentecostalismo. Hoje eu quero te dar um panorama bem completo sobre essa expressão religiosa, quero te falar sobre como que é o Brasil contemporâneo e também levantar alguns debates que têm sido feitos nos dias de hoje. Meu nome é Vitor Soares, sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. História em meia hora! Primeiramente, eu quero deixar muito claro que eu vou analisar um fenômeno religioso pelo prisma da história. A minha ideia aqui hoje não é fazer nenhum tipo de reducionismo ou estereotipar nenhuma religião. Como eu disse, vou falar da história do movimento pentecostal, da sua origem até o seu espalhamento aqui no Brasil. Quem conhece melhor esse tema sabe que o pentecostalismo surgiu nos Estados Unidos, na chamada Rua Azusa. Mas esse fenômeno não surgiu do nada. Podemos voltar pelo menos 150 anos da história do protestantismo para a gente entender as origens do que viria a ser o Pentecostalismo. Esse processo que eu estou citando começa com o Metodismo do pastor anglicano inglês John Wesley, no século 18. Wesley pregava que a conversão cristã não era um evento único e definitivo, mas um processo que incluía uma segunda experiência espiritual, o que ele chamava de santificação. Esse processo era definido como um estado de graça em que o crente seria purificado dos seus pecados e preenchido pelo Espírito Santo. Essa ideia de uma segunda experiência espiritual posterior à conversão ajudou a formar o terreno teológico que no fim do século 19 e no início do século 20 seria reinterpretado pelos pentecostais como batismo no Espírito Santo. A ideia aqui era que existia uma comprovação visível e evidente de que uma pessoa foi tocada pelo Espírito Santo, tá ligado? No século 19, principalmente nos Estados Unidos, o movimento do John Wesley chega na América recebeu o nome de Metodismo. E a partir dele surge um grupo que tenta buscar uma pureza espiritual ainda maior. É daí que vem o nome de Movimento de Santidade. Grupos de cristãos passaram a buscar com cada vez mais intensidade essa experiência de santificação através de reuniões de oração cada vez mais longas, de jejuns e até de vigílias. Enquanto isso estava acontecendo, essas comunidades cristãs criaram grandes eventos ao ar livre, em reuniões que traziam milhares de pessoas de todas as partes do país. Nesses acampamentos, uma cultura religiosa de experiências fortes, curas milagrosas e até manifestações físicas do Espírito Santo se tornaram algo tidos como comuns. O movimento tava acontecendo. O que faltava era um nome que daria coesão a tudo isso. No final do século 19, um professor de Bíblia chamado Charles Fox Parham concluiu, a partir do estudo do livro de Atos dos Apóstolos do Novo Testamento, que esse sinal bíblico do batismo no Espírito Santo Seria o que ele chamou de glossolalia, ou seja, o falar em línguas estranhas. Antes de continuar, deixa eu explicar alguns conceitos para a gente estar na mesma página. Lembra o movimento do John Wesley? Então, ele defendia a ideia de uma segunda experiência espiritual posterior à conversão, ligada à santificação. Mais tarde, o pentecostalismo reinterpretaria essa busca por uma experiência mais profunda com Deus na linguagem do batismo no Espírito Santo. O que não é necessariamente aquele que as pessoas fazem geralmente nas águas, né? O que o Charles Parham vai acrescentar aqui, baseado nos seus próprios estudos, é que falar essas línguas estranhas é essa prova do batismo no Espírito Santo. Beleza, mas como assim línguas estranhas? Pessoal, o relato de Atos, no capítulo 2, conta que os discípulos de Jesus estavam reunidos em Jerusalém após a sua morte para comemorarem uma festa judaica chamada Pentecostes. Por ser uma festa religiosa, tinham judeus de diferentes lugares do mundo. Logo, eles não falavam a mesma língua. De acordo com o texto sagrado dos cristãos, o Espírito Santo desceu ali e os discípulos passaram a falar de uma forma que pessoas de diferentes regiões conseguiam compreender em suas próprias línguas. Esse episódio depois seria associado, dentro da tradição pentecostal, a glossolalia, o falar em línguas como manifestação espiritual. O Parham entendeu que o falar em línguas seria a evidência visível do batismo no Espírito Santo. E eu acho que já deu você entender de onde que vem o nome pentecostalismo. Em fevereiro de 1906, um aluno de Parham chamado William Joseph Seymour foi para Los Angeles pregar em uma pequena congregação negra. Seymour era filho de escravos libertos e havia crescido no sul segregacionista dos Estados Unidos. Ele não era exatamente o perfil que alguém da época imaginaria para o líder de um movimento mundial, mas a sua atuação foi essencial para a formação de um novo movimento. A pequena congregação que o convidou logo o rejeitou, porque as ideias do Seymour sobre a glossolália eram estranhas demais. Ele passou a realizar reuniões na casa de um casal de convertidos, e foi ali, em abril de 1906, que manifestações de fala em línguas começaram a acontecer entre os presentes. O grupo cresceu e mudou para um antigo prédio da igreja, que depois havia sido usado como depósito e estábulo, na Rua Azusa 312. O que aconteceu nos meses seguintes chocou e atraiu fiéis curiosos e missionários de várias partes do mundo. As reuniões na Rua Azusa duravam horas, às vezes dias. Pessoas caíam no chão, riam, choravam e, claro, falavam em línguas. E eu sei que esse efeito sobrenatural pode ser um dos pontos que mais chamam a atenção, mas existia uma coisa nesses cultos que era praticamente inédito em todos os Estados Unidos. Nessas reuniões, brancos e negros oravam juntos no mesmo espaço. E não se esqueça que eu tô falando de uma época de segregação racial no país. Brancos e negros não ocupavam os mesmos espaços, mas a origem do pentecostalismo estava se formando em um ambiente bem mais diverso. A notícia começou a se espalhar pelos correios. Seymour publicava um pequeno jornal chamado A Fé Apostólica, que era enviado gratuitamente para milhares de endereços. Missionários de outros países vieram a Los Angeles para ver o que estava acontecendo e voltaram para os seus países carregando a mensagem. Em poucos anos, o pentecostalismo havia chegado à Europa, América Latina, África e Ásia. O pesquisador Walter Hollenweger, que fez um dos estudos mais completos sobre o pentecostalismo mundial, estimou que a Rua Azusa foi o ponto de espalhamento mais importante de um movimento que se tornaria global em algumas décadas. Beleza, mas qual era então a mensagem central do pentecostalismo clássico? Eu acho que posso resumir em alguns pontos. O primeiro é a crença em uma experiência espiritual direta pessoal com Deus, evidenciada pela glossolália, que é falar em línguas. Além dessa experiência, as curas físicas também seriam uma prova dessa presença de Deus na vida cotidiana. Um segundo ponto muito importante na teologia pentecostal é a crença na volta de Cristo à Terra. E assim, esse é um princípio de todo o cristianismo, mas o diferencial pentecostal é acreditar que essa volta tá bem perto de acontecer. Pode ser a qualquer momento. Um terceiro ponto muito importante na prática pentecostal é a ênfase na vida comunitária. Os membros compartilhavam não só a fé, mas redes de apoio, ajuda mútua, sociabilidade e acolhimento, especialmente em contextos de pobreza, migração e desamparo urbano. Era uma religião de experiência, não de teologia acadêmica. O Brasil recebeu o pentecostalismo quase que ao mesmo tempo. Da explosão nos Estados Unidos. Segundo o professor Leonildo Campos, foram 3 os pioneiros do que ele chama de pentecostalismo clássico no Brasil. O primeiro foi Luís Francesco, um italiano imigrante nos Estados Unidos que havia se convertido ao pentecostalismo em Chicago. Em 1910, Francesco chegou ao Brasil e iniciou o seu trabalho entre colônias de imigrantes italianos em São Paulo e no Paraná. Sua obra vai dar origem à Congregação Cristã no Brasil. Essa denominação ainda atua no Brasil e tem práticas bem interessantes, como não possuir pastores remunerados. No começo, não usavam instrumentos musicais e tinha uma forte ênfase na glossolália. Eles queriam manter uma separação do que chamavam de coisas do mundo. Os outros dois fundadores foram os suecos Daniel Berg e Adolf Gunnar Wingren, também imigrantes dos Estados Unidos e também vindos de Chicago. Em 1910, Berg e Wingren chegaram a Belém do Pará, onde iniciaram seu trabalho entre membros de Congregação Batista. A nova mensagem pentecostal gerou uma tensão com os batistas locais. Acabou rolando uma divisão e o grupo que aderiu ao pentecostalismo acabou saindo para formar uma nova congregação. Essa congregação seria o embrião do que se tornaria a Assembleia de Deus, que hoje é a maior denominação evangélica do Brasil e uma das maiores expressões pentecostais do mundo. O contexto brasileiro que recebeu essa mensagem era muito específico. O Brasil de 1910 era um país predominantemente rural, com uma enorme população pobre, analfabeta e profundamente religiosa, no molde do catolicismo popular. Um catolicismo de santos, de promessas, de benzedeiras, de festas e de intermédios entre o sagrado e o profano. Vale lembrar que alguns anos antes, Antônio Conselheiro abalou os primeiros anos da República, sendo um grande líder religioso, extremamente carismático. As cidades do Sul e do Sudeste estavam recebendo ondas de imigrantes europeus e de imigrantes do interior. O protestantismo chamado de histórico, como os presbiterianos, metodistas e batistas, havia chegado na segunda metade do século 19, mas havia se enraizado principalmente entre camadas com alguma escolarização. O pentecostalismo chegaria para falar com uma outra camada muito mais ampla. Leônio do Campos aponta um dado bem interessante, abre aspas: em 1930, os pentecostais, representavam apenas 9,5% dos evangélicos brasileiros. Nos anos 2000, esse número era de 68,6%. Ou seja, dos 26 milhões de evangélicos brasileiros naquele ano, quase 18 milhões eram pentecostais. Fecha aspas. A trajetória desse crescimento não foi linear e nem pacífica. Foi marcada por conflitos, rupturas, adaptações e transformações que só são possíveis de entender olhando para as mudanças do próprio país. Como eu disse, as igrejas históricas já estavam por aqui há um bom tempo. Os presbiterianos haviam chegado em 1859, metodistas em 1836, batistas em 1882. Essas denominações haviam construído escolas, faculdades de teologia, jornais denominacionais, uma cultura religiosa baseada na palavra escrita, na formação intelectual, e numa certa distância das práticas emocionais. E esse é um dos motivos que ajudam a entender as diferenças e até as críticas dos históricos em relação aos pentecostais. A reação inicial foi de desconfiança e depois de hostilidade aberta. Em 1919, o jornal presbiteriano independente O Estandarte publicou uma série de artigos chamada Invasões Pentecostistas, escrita pelo pastor Manuel Machado, que estava na linha de frente do confronto do Norte e Nordeste. O tom dos artigos era de que o pentecostalismo era visto como um fenômeno emocional descontrolado, teologicamente errado e socialmente desorganizado. Para as lideranças do chamado protestantismo histórico, os pentecostais eram os fanáticos praticantes de uma religiosidade inferior. Mas havia uma contradição no interior do próprio protestantismo histórico. Ao mesmo tempo em que rejeitava o pentecostalismo, ele sentia que algo estava errado consigo mesmo. Leonildo Campos diz o seguinte: "O protestantismo envelheceu muito antes de fecundá-lo com aquilo que de mais criador possuía. Envelheceu prematuramente. Ainda menino, ficou senil." O professor quer dizer que existia um sentimento entre os protestantes de cansaço, de crescimento lento e de necessidade de um reavivamento. Pastores e outras lideranças históricas organizavam campanhas de oração e jejum pedindo o avivamento. Mas quando esse avivamento aparecia, geralmente vinha com características pentecostais, coisas que as igrejas históricas não sabiam como absorver. Eles queriam mudança, mas não estavam satisfeitos com a forma que essa possível mudança estava se apresentando. Esse paradoxo se tornaria ainda mais evidente na década de 50, quando uma nova onda pentecostal chegaria ao Brasil, dessa vez de forma ainda mais barulhenta e que mexeria ainda mais com as denominações já estabelecidas. Mas antes da gente chegar até lá, vale entender por que que o pentecostalismo cresceu onde o protestantismo histórico não conseguiu. O professor Leonildo Campos aponta um elemento essencial para isso: a capacidade de falar com a cultura popular brasileira. O protestantismo histórico propunha uma ruptura com a cultura popular, com catolicismo popular, com as práticas mágicas e com a religiosidade mais emocional. Já o pentecostalismo, mesmo que também propusesse conversão e mudança de vida, falava uma linguagem que as massas reconheciam, usando milagres, cura, intervenção divina direta no dia a dia. E um dos pontos mais importantes: comunidade acolhedora para os que chegavam perdidos da roça para a cidade grande. A formação de comunidades daria a força necessária para o crescimento De uma das maiores denominações do mundo.

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Vítor Soares:O que mantém o História em Meia Hora no ar é a nossa campanha de financiamento coletivo. Se você assinar agora o apoia.se/históriaemmeiahora, você recebe acesso a um monte de conteúdo exclusivo. Tem um feed que você vai ter acesso, que conecta sua conta do Apoia.se com a sua conta no Spotify, e esse feed com mais de 200 e poucos episódios ele fica liberado pra você. A partir de R$10, você recebe acesso a ele. A partir de R$20, além do que eu já falei, você também recebe acesso ao nosso clube do livro. A gente vai se encontrar agora nesse fim de semana pra falar sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas. E aí, na semana que vem, a gente vai já decidir qual vai ser a nossa próxima leitura. Os nossos encontros são no Meet, no Google Meet. A gente faz uma chamada, cada um troca uma ideia sobre o que achou do livro. E a gente vai conversando num grupo lá do Telegram. Sobre o que tá achando, né, durante a leitura também. 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Foi nesse contexto que chegaram ao Brasil dois pregadores dos Estados Unidos que mudaram o panorama religioso do país. Harold Williams e Raymond Boltrite. Eles iniciaram campanhas de avivamento com ênfase em cura divina em comunidades ligadas ao protestantismo histórico. Em março de 1953, Williams e Boltrite realizaram uma campanha no templo da Igreja Presbiteriana Independente, no bairro do Cambuci, em São Paulo. O resultado foi uma explosão midiática e de curiosidade por esse fenômeno. Manchetes de jornais da época, como Folha da Tarde, anunciavam: "Multidão de enfermos e pessoas piedosas acorrem ao templo em busca de milagres." O Última Hora estampou: "Cegos enxergando e paralíticos andando. É a repetição dos milagres de Cristo." E até o jornal Estado de São Paulo publicou uma fotografia da multidão que tomou conta da rua em frente ao templo. A intervenção policial foi necessária para controlar o trânsito de pessoas e de veículos. O resultado para Igreja Presbiteriana Independente do Cambusse foi um resultado meio triste. Praticamente 90% dos membros saíram e fundaram uma nova congregação bem ao lado do templo. Dali surgiram pelo menos 4 novas igrejas independentes. O protestantismo histórico logo fechou as portas para as campanhas de cura. Foi então que os pregadores dos Estados Unidos passaram a usar tendas de lona e por isso ganharam o apelido de tendeiros. E os locais de culto foram chamados de tendas divinas. O alcance era ampliado pelo rádio, com programas que chegavam a regiões onde não tinha nenhum templo. Era o nascimento de uma segunda onda pentecostal brasileira, que o Paul Freston chamou de pentecostalismo de segunda onda, e que gerou denominações como a Igreja do Evangelho Quadrangular, o Brasil para Cristo e a Deus é Amor. Bem, se a segunda onda foi marcada pelas tendas e pelas campanhas de cura, A terceira onda, que começou ainda nos anos 70 e explodiu nos anos 80, foi marcada pela televisão, pelo marketing e por uma transformação teológica radical. O sociólogo Ricardo Mariano e o próprio Leonildo Campos foram os primeiros pesquisadores brasileiros a usarem o termo neopentecostalismo para descrever esse novo fenômeno, que compartilhava a roupagem pentecostal, mas tinha características bem diferentes. O neopentecostalismo atingiu uma nova camada da população urbana, uma camada que eram as classes médias baixas e classes médias. Não eram apenas os pobres das periferias. Esse novo movimento adotou as estratégias dos televangelistas norte-americanos, criando o que o próprio Campos chama de marketing do sagrado. Aqui era a lógica do mercado, só que aplicada à religião, com segmentação de público, nichos de consumidores e produtos religiosos adaptados às necessidades de cada grupo. Os megatemplos substituíram as pequenas comunidades. A figura do pastor carismático e incontestável substituiu o governo congregacional. E o culto deu lugar ao espetáculo. Sem dúvidas, o caso mais estudado e também mais polêmico é o da Igreja Universal do Reino de Deus, a IURDINA, fundada pelo Edir Macedo em 1977, aqui no Rio de Janeiro. Pra muitos pesquisadores, a Universal é o exemplo máximo das mudanças do pentecostalismo que deu origem ao neopentecostalismo. A IURD mobiliza elementos simbólicos reconhecíveis no catolicismo popular e nas religiões afro-brasileiras. Mas o G significa, dentro de uma gramática cristã, de guerra espiritual. Por exemplo, as curas físicas vão ser feitas através do uso ou da apresentação ao pastor de óleo, copo d'água, foto do enfermo, pedaços de tecido. Sem falar na linguagem que trata muito de uma batalha espiritual contra demônios identificados e exorcizados publicamente. Em algumas práticas neopentecostais, objetos, espaços e rituais passam a ser apresentados como pontos de contato com o sagrado, como óleo, copo d'água, fotografias, tecidos e campanhas específicas de oração. Se no primeiro momento o protestantismo histórico tentou fazer uma ruptura com a cultura popular brasileira, o neopentecostalismo fez exatamente o oposto. Ao assimilar essa cultura, ressignificando os seus símbolos dentro de um vocabulário cristão e os devolveu para a população de uma forma reconhecível. O resultado, nas palavras do pesquisador Jean-Pierre Bastian, foi uma, abre aspas, "domesticação do protestantismo por meio de uma aculturação aos valores e práticas da cultura católica popular", fecha aspas. As transformações que o neopentecostalismo trouxe não ficaram restritas ao surgimento de novos líderes, como o caso do Edir Macedo, As mudanças foram também teológicas. Lembra que no Pentecostalismo clássico, a glossolalia, que é aquele negócio de falar em línguas, era o sinal central e visível do batismo no Espírito Santo? Era a experiência que definia quem havia recebido o batismo e quem não havia. Pois é, uma pesquisa do Pew Forum sobre religião e vida pública, realizada em 2006, mostrou que o falar em línguas continuava sendo uma marca importante do Pentecostalismo. Mas não era uma prática universal entre os fiéis. Em vários países pesquisados, uma parcela significativa dos pentecostais afirmava nunca falar ou orar em línguas. Isso mostra que a marca mais visível do pentecostalismo clássico estava desaparecendo. No neopentecostalismo, especialmente em igrejas como a Universal, a teologia da prosperidade passou a ocupar uma posição muito mais central do que a glossolália e da antiga expectativa pentecostal em torno do fim dos tempos. A ideia central dessa nova crença é que Deus quer que seus filhos sejam saudáveis, bem-sucedidos e, principalmente, ricos. Beleza, mas como que o cristão teria acesso a tudo isso? De acordo com a teologia da prosperidade, a fé, expressa através do dízimo e das ofertas, é um mecanismo que aciona as bênçãos divinas. O dízimo deixou de ser um ato de gratidão ou obediência e se tornou um como um investimento com uma espécie de retorno garantido. A sociologia descreve isso como a monetarização do sacrifício, ou seja, o dinheiro como forma privilegiada de negociação com o sagrado. As doutrinas centrais da reforma protestante do século XVI também sofreram abalos. Na crítica de autores como Leonildo Campos, práticas neopentecostais deslocaram a centralidade reformada da escritura para revelações individuais, objetos rituais, campanhas de fé e mediações pastorais. Em alguns casos, a própria Bíblia passa a ser usada quase como um objeto sagrado em si, e não como um texto de leitura e de interpretação. As doutrinas da salvação pela graça e pela fé foram limitadas pela ideia do esforço e sacrifício pessoal como condição para receber as bênçãos. Durante a Reforma Protestante, Lutero defendeu a ideia do sacerdócio universal dos crentes, ou seja, a noção de que todos os cristãos teriam acesso direto a Deus. Sem depender de uma mediação sacerdotal exclusiva. Mas em muitas igrejas pentecostais, principalmente em setores neopentecostais, passou a existir uma forte centralização do poder no pastor carismático, que se apresenta como autoridade espiritual privilegiada diante da sua comunidade. Leonildo Campos é direto ao analisar esse processo: "O neopentecostalismo havia se afastado tão radicalmente dos princípios da reforma, que a pergunta se tornava pertinente: "Ainda seria correto chamá-lo de protestantismo?" Além da teologia, a ética religiosa também sofreu transformações ao longo da história do pentecostalismo. O pentecostalismo clássico tinha um rigor ligado aos comportamentos bem rígidos. Não era permitido assistir televisão, usar roupa curta, ir ao cinema, ao teatro, consumir bebida alcoólica e outros. O neopentecostalismo abandonou a maior parte dessas proibições, adotando o Carlos Campos descreve como um estilo mais leve de autogestão moral. Para entendermos o impacto de tudo isso, a gente precisa olhar simplesmente para os números. Em 1940, 68,7% da população brasileira vivia no campo e os evangélicos representavam uma parcela pequena da população. Em 2010, o Brasil já era majoritariamente urbano, com 84,3% da população vivendo em cidades. E os evangélicos chegavam a 22,2% da população total, segundo o IBGE. E esse crescimento continuou. No Censo de 2022, considerando a população com 10 anos ou mais, os evangélicos chegaram a 26,9% dos brasileiros. Ou seja, a gente não tá falando de um fenômeno marginal, mas sim de uma das transformações religiosas mais importantes da história recente do país. Conforme o Brasil se urbanizava, o campo religioso mudava. E o pentecostalismo crescia exatamente onde o catolicismo e o protestantismo histórico perdiam terreno. É claro que pode existir o componente da fé e da conversão, mas a sociologia e a história vão contribuir com algumas ferramentas de análise e de interpretação. O sociólogo Peter Berger, por exemplo, vai analisar essa mudança como uma situação de mercado. Para ele, isso acontece quando a religião deixa de ter um monopólio social e passa a competir em um mercado aberto de opções simbólicas. Em outras palavras, o Brasil urbano do século 20 foi um mercado religioso cada vez mais plural e competitivo, onde o candomblé, umbanda, espiritismo kardecista, catolicismo renovado e múltiplas denominações evangélicas disputavam os mesmos fiéis. E nesse mercado, o pentecostalismo mostrou uma capacidade competitiva muito superior às das igrejas históricas. Pros pesquisadores, a razão dessas características estava na capacidade do pentecostalismo de se adaptar à cultura oral e popular brasileira. O protestantismo histórico era fundamentalmente uma religião do livro, valorizava a formação teológica acadêmica, a leitura da Bíblia, o sermão intelectualmente elaborado. Por exemplo, não era incomum você encontrar grupos protestantes históricos com pequenas escolas ou até cursos de alfabetização para adultos. Isso existia para incentivar a leitura da Bíblia. O pentecostalismo, por outro lado, era transmissível pela pregação mais emotiva, pela música, pelo rádio e pela televisão. Como analisa Quentin Schuetze, abre aspas: o pentecostalismo soube explorar o fato de que na América Latina a civilização do livro não havia lançado raízes profundas, sendo rapidamente superada pela civilização pós-letrada dos meios de comunicação de massa. Fecha aspas. Um século depois da chegada dos primeiros pregadores pentecostais ao Brasil, Leonil do Campos propõe 4 cenários possíveis para o futuro das relações entre pentecostalismo e o protestantismo histórico. E é interessante a gente entender isso porque mostra como que diferentes grupos no Brasil interagem. O primeiro cenário é o de um protestantismo pentecostalizado, ou seja, as chamadas denominações históricas sobreviveriam absorvendo elementos do pentecostalismo, como um culto mais emocionado e claro, com a música. O segundo fenômeno é o de um pentecostalismo protestantizado. Aqui o pentecostalismo se institucionalizaria, abrandando suas ênfases carismáticas e adotando estruturas de governo mais representativas, enquanto o protestantismo histórico simplesmente desapareceria no mapa religioso. O terceiro é a decadência do movimento pentecostal, uma vez que movimentos religiosos nascem e morrem ao decorrer da história, e nada garante que o pentecostalismo seja eterno. O quarto e mais radical é o que ele chamou de decomposição do campo religioso. Aqui existiria o fim das formas tradicionais de organização religiosa e o surgimento de espiritualidades mais fluidas e sem vínculo institucional,— os chamados sem-religião ou desigrejados. Inclusive, vou falar mais sobre esse fenômeno no episódio exclusivo que vou fazer essa semana para os apoiadores do História em Meia Hora. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se/historiameiahora. Bom, o que é inegável é que, 100 anos depois, o pentecostalismo transformou o Brasil de formas que vão bem além do campo religioso. O crescimento das igrejas evangélicas produziu novas redes de sociabilidade nas periferias urbanas, novos líderes comunitários e até novas formas de organização política. A bancada evangélica no Congresso Nacional hoje em dia é uma das mais influentes de todo o país. O vocabulário pentecostal, como batalha espiritual, unção, prosperidade e até dízimo, entrou na linguagem de dezenas de milhões de brasileiros. E o mercado de música gospel, de literatura cristã, de eventos religiosos representam uma fatia bilionária da economia cultural brasileira. Mas o pentecostalismo também carrega contradições que os seus críticos não deixam de apontar. A teologia da prosperidade é criticada como uma instrumentalização da fé em benefício dos líderes religiosos. Muitas vezes, essa centralização do poder nos pastores carismáticos é vista como autoritarismo religioso. O sincretismo simbólico do neopentecostalismo faz a pergunta sobre ainda ser protestantismo ou não. Bem, o que isso nos mostra é que o Brasil continua e aparentemente continuará sendo por muito tempo um país ligado às mais diferentes práticas religiosas. Pessoal, eu vou recomendar 3 episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Cristianismo, o segundo se chama Reforma Protestante e o terceiro se chama Bíblia. E agora bora fazer aquele resumão de 1 minuto resumidinho para você relembrar o que você aprendeu hoje. Vamos lá! Quando falamos de pentecostalismo, estamos falando de um movimento que nasceu das raízes do metodismo wesleyano e do movimento de santidade dos Estados Unidos do século 19. Ele explodiu na Rua Azusa, em Los Angeles, no ano de 1906, sob a liderança do pregador negro William Seymour. Essa nova prática religiosa chegou ao Brasil a partir de 1910, pelas mãos de Luiz Francescon, Daniel Berg e Gunnar Francisco deu origem à Congregação Cristã no Brasil, enquanto Berg e Wingren iniciaram em Belém o movimento que, em 1911, daria origem à Assembleia de Deus. Durante décadas conviveu em tensão com o protestantismo histórico, que o olhava com desprezo, mas depois com medo. Nos anos 50, uma segunda onda de pentecostalismo, marcada pela cura divina e pelas tendas de lona, abalou completamente o campo religioso e gerou novas denominações. Nos anos 70 e 80, o neopentecostalismo transformou impulsou o movimento ao adotar o marketing religioso, a televisão e, claro, a teologia da prosperidade. Tudo isso com uma assimilação profunda da cultura popular brasileira que o protestantismo histórico nunca havia conseguido. Ao longo do século 20, os pentecostais passaram de uma minoria dentro do campo evangélico para sua principal força numérica, chegando a representar quase 70% dos evangélicos brasileiros nos anos 2000. As mudanças teológicas foram grandes e o pentecostalismo é hoje um dos fenômenos mais pra gente entender a sociedade brasileira contemporânea, inclusive uma das principais responsáveis por ditar o ritmo das campanhas eleitorais. Mas isso já é um papo pra uma outra meia hora.

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