Episódios de História em Meia Hora

Alcorão

30 de maio de 202630min
0:00 / 30:08

Um dos livros mais importantes do mundo que fundamenta a fé de bilhões de pessoas. No mínimo é um belo motivo pra você conhecer melhor sobre ele, não acha? Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história do Corão ou Alcorão.

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Apresentação: Prof. Vítor Soares.

Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)

REFERÊNCIAS USADAS

- ARMSTRONG, Karen. O Islã. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

- ARMSTRONG, Karen. Muhammad: Uma Biografia do Profeta. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

- LEAMAN, Oliver. O Islão: Conceitos-Chave. Tradução de Vítor Antunes. Lisboa: Edições 70, 2009.

- SELLS, Michael. Approaching the Quran: The Early Revelations. Ashland: White Cloud Press, 1999.

- RIPPIN, Andrew. Muslims: Their Religious Beliefs and Practices. London: Routledge, 2005.

- ESACK, Farid. O Alcorão: Uma Breve Introdução. Tradução de Vera Caputo. São Paulo: Rosari, 2005.

- NASR, Helmi. O Alcorão: sua história e sua origem. Revista de história, v. 45, n. 91, p. 27-38, 1972. 

Participantes neste episódio1
V

Vítor Soares

HostProfessor de história
Assuntos3
  • Origem e Compilação do AlcorãoPenínsula Arábica no século VII · Jali-Riyah (período pré-islâmico) · Meca como centro religioso e comercial · Oralidade na sociedade árabe pré-islâmica · Revelações a Maomé · Suratas mequenses e medinenses · Compilação sob Abu Bakr e Ultimão · Códice Ultimânico · Leitura de Hafs
  • Estrutura e Conteúdo do Alcorão114 suratas e ayahs · Organização por tamanho, não cronologia · Bismillah e Al-Fatihah · Tawhid (unicidade de Allah) · Sequência de profetas · Visão sobre Jesus (Isa) · Dia do Julgamento (Yam al-Qiyamah) · Paraíso (Al-Jana) e Inferno (Jahanam) · Ijaz Al-Quran (inimitabilidade) · Questões cotidianas (ética, casamento, direito)
  • Interpretação e Legado do AlcorãoÁrabe corânico como língua sagrada · Intraduzibilidade e interpretação · Tajweed (recitação) · Tafzir (estudo de interpretação) · Diferenças Sunita-Xiita · Sufismo e interpretação mística · Abordagens histórico-críticas · Fundamentalismo e leitura literal · Influência na caligrafia, arquitetura, música · Legado filosófico e científico · Desconhecimento do Alcorão no Ocidente
Transcrição87 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Oi, eu sou a garrafa retornável. Sim, retornável. Enquanto outras garrafas vivem um relacionamento de curto prazo, eu volto, de novo, e de novo. E o melhor, sempre cheia de Coca-Cola, Phantom ou Sprite. Pra isso, é só me levar vazia até o mercadinho mais próximo e pagar só pelo líquido. Econômica e, sinceramente, icônica. Economize mais com as retornáveis de Coca-Cola.

Tenta adivinhar qual que é o livro mais lido do mundo. É possível que você tenha pensado na Bíblia, porque ela é geralmente apontada como o livro mais vendido da história. Mas é bem possível que o Alcorão talvez seja o texto mais recitado e memorizado da história.

Cerca de 2 bilhões de pessoas ao redor do mundo consideram ao Corão a palavra literal de Deus, transmitida ao profeta Maomé ao longo de 23 anos no século VII da Era Cristã. E hoje eu quero te contar a história desse livro sagrado, como que ele foi lido, compilado e interpretado ao longo da história. Eu tenho um outro episódio aqui no feed do História em Meia Hora sobre a Bíblia e eu quero tratar de outros livros e textos sagrados ao longo dos anos.

Eu quero deixar claro que a minha ideia não é atacar e nem defender a fé de ninguém. Eu quero só falar de história e para isso eu vou usar como fio condutor da narrativa o Alcorão. Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora.

Antes da gente começar, eu quero ser muito transparente sobre a abordagem que eu vou usar ao longo do episódio. Eu vou apresentar a tradição islâmica sobre a origem do Alcorão com o respeito que ela merece. Assim como eu fiz com o episódio sobre a Bíblia. Além disso, eu vou me basear em textos de historiadores e não só de teólogos. Isso é importante porque você vai perceber que, em alguns momentos, as visões são diferentes. E o motivo é que cada um está com um foco diferente.

Para a gente entender o Alcorão, pessoal, a gente tem que entender um pouco sobre o mundo em que ele surgiu. A Península Arábica, no início do século VII d.C., era um espaço de grande diversidade cultural e religiosa, dominado por uma sociedade organizada em clãs que era dividida em grupos nômades e seminômades.

As tribos beduínas organizavam a vida social em torno de laços de sangue, honra, hospitalidade e rivalidade. Era comum existirem disputas entre diferentes grupos. Esse período inicial é conhecido pela tradição muçulmana como Jali-Riyah, que se traduz como ignorância ou barbarismo. Hoje em dia, muitos historiadores preferem o termo período pré-islâmico para evitar a vinculação desses termos com os árabes em geral.

O centro religioso da península era Mecca, que segundo a tradição islâmica e parte da historiografia clássica, Mecca era uma cidade comercial relevante em rotas de caravanas. E o seu grau de prosperidade e centralidade comercial é bem debatido pelos historiadores modernos.

Meca ligava o Iêmen ao norte da Arábia e dali até as grandes potências do Mediterrâneo, como o Império Bizantino, a noroeste, e o Império Sassani da Persa, a nordeste. Meca era também um centro de peregrinação religiosa. Segundo a tradição islâmica, a Kaaba abrigava 360 ídolos.

De todo modo, as fontes indicam que ela era um santuário politeísta bem importante antes do Islã. A sociedade que se desenvolveu em torno da Caaba era politeísta, mas também tinha contato com povos monoteístas, como comunidades judaicas e cristãs na península. A tradição islâmica associa a Caaba a Abraão e a Ismael, e o ambiente religioso da Arábia do século VII também incluía referências judaicas e cristãs, referências que circulavam pela região.

Esse contexto é importante por alguns motivos. Primeiro, porque explica que existia um papel central da oralidade no contexto anterior à formação do Alcorão. A sociedade pré-islâmica possuía uma cultura oral bem sofisticada, com o uso da poesia. A memória era cultivada como arte.

Nesse ponto, a sociedade árabe pré-islâmica lembra algumas sociedades africanas que também tinham na tradição oral um pilar social. Quando o Alcorão surgiu como uma mensagem recitada e não escrita, ela estava se inserindo em uma tradição oral já conhecida. Em segundo lugar, o contexto nos mostra que as referências a Abraão, Moisés, Jesus e a outros profetas do judaísmo e do cristianismo, que aparecem inclusive no Alcorão, não eram referências a figuras desconhecidas.

Como eu disse, no caso do Abraão, eram figuras que circulavam no ambiente cultural da Arábia do século VII, ainda que com versões diferentes das que encontramos na Bíblia. De acordo com a tradição islâmica, as revelações que compõem o Alcorão começaram em 610 d.C., quando Muhammad ibn Abdullah, mais conhecido como Maomé, tinha aproximadamente 40 anos.

Maomé era um comerciante casado com Khadija, que era mais velha que ele, e por quem tinha um profundo carinho e respeito. Maomé era uma pessoa muito religiosa, e tinha o hábito de se isolar para fazer meditações no deserto.

Foi em uma dessas peregrinações que o Maomé, de acordo com a tradição islâmica, teve um encontro com o anjo Jibril, conhecido também como Gabriel. O anjo apareceu e ordenou Ikra, que significa recita ou ler. Maomé respondeu que não sabia ler. O anjo insistiu três vezes e então veio a primeira revelação, que são os primeiros cinco versículos da Surata Al-Alaq.

que não é o primeiro capítulo na ordem atual do Alcorão, mas é tradicionalmente considerada a primeira revelação. Em português, esse texto diz, abre aspas, "...recita em nome do teu senhor que criou, criou o ser humano de um embrião. Recita, pois teu senhor é o Generoso, que ensinou pelo cálamo, e ensinou ao ser humano o que ele não sabia." Fecha aspas.

A tradição conta que o Maomé voltou para casa perturbado. Khadija, sua esposa, o confortou e se tornou a primeira pessoa a aceitar a mensagem. Logo, ela se tornou a primeira muçulmana da história. A partir dessas revelações, a mensagem central anunciada pelo Maomé passou a ser a unicidade de Deus e a sua própria missão profética.

Você pode imaginar que o Maomé enfrentou uma série de desafios ao compartilhar a sua fé, principalmente por estar em uma cidade em que o politeísmo havia se tornado a prática comum do ponto de vista religioso. As revelações a Maomé continuaram ao longo de 23 anos seguintes, até a sua morte em 632 d.C.

Elas vinham em situações variadas, às vezes durante o sono, às vezes em estado de vigília, às vezes acompanhadas de sensações físicas sobrenaturais. Maomé as transmitia oralmente aos seus companheiros, que as memorizavam e algumas vezes as registravam em fragmentos de couro, ossos, folhas de palmeira e outros materiais disponíveis.

Os que memorizavam o Alcorão inteiro eram chamados de Rafizes, e a memorização do texto completo continua sendo uma prática religiosa muito valorizada até hoje, com milhões de Rafizes no mundo contemporâneo. Os estudiosos do Islã dividem as revelações em dois grandes grupos com características diferentes.

As suratas mequenses são as reveladas durante o período em que o Maomé ainda estava em Mecca, antes da sua fuga para Medina, em 622 d.C. Esses textos tendem a ser mais curtos, mais poéticos e de uma linguagem bem mais forte.

O foco desses fragmentos estão em temas teológicos centrais, como a unicidade de Deus, ou seja, o fato dele ser único, o dia do julgamento, a criação e a responsabilidade moral dos indivíduos. As suratas medinenses são aquelas reveladas após a formação da primeira comunidade muçulmana em Medina. Essas tendem a ser mais longas e mais voltadas para as questões práticas de organização social, direito, relações entre comunidades e conduta de guerra e paz.

Essa diferença entre o momento em que os textos foram revelados tem grande importância para a interpretação jurídica e teológica do texto sagrado dos muçulmanos. Maomé não deixou um Alcorão escrito e organizado quando ele morreu, em 632 d.C. O texto existia de forma fragmentada na memória dos Rafizes.

Essa situação criava um risco. A morte dos Jafises podia significar a perda da revelação divina. Se isso acontecesse, não tinha um rascunho, um backup. É o que resume o professor Elminasr, abre aspas. Apenas um ano após a morte do profeta, sentiu-se a necessidade de se recolher esses documentos espalhados numa só coleção maneável. Fácil de se consultar.

e na qual as partes de cada capítulo se ligassem conforme a ordem já fixada nas memórias, e sem uma solução de continuidade. Essa ideia foi sugerida por Omar ao primeiro califa, Abu Bakr, após a batalha de Yamamá contra o falso profeta Musa e Lama. Batalha essa em que foram mortos centenas de muçulmanos, incluindo 70 portadores do Alcorão.

Temendo uma diminuição progressiva do número desses portadores pelas eventuais guerras, os dirigentes ensejaram dessa forma a colocação da totalidade da fonte escrita em segurança e também a aprovação da forma desse documento, reunido pela autoridade dos leitores existentes e de todos os companheiros do profeta, os quais separadamente sabiam cada um determinadas partes do Alcorão. Fecha aspas. Desculpa aí pela citação um pouco longa, mas eu acho que ela era importante.

Foi o primeiro califa, Abu Bakr, quem tomou a primeira medida de preservação da revelação. Após a Batalha de Yamamá, em 633, onde morreram muitos Rafizes, o Abu Bakr ordenou que o Zaid ibn Tabith coordenasse a coleta e a compilação dos fragmentos existentes. Esse nome era importante porque estamos falando de uma das pessoas mais próximas de Maomé e um dos principais Rafizes.

O resultado foi um manuscrito guardado inicialmente com Abu Bakr e depois com sua filha Hafsah, a viúva de Maomé. A segunda e definitiva fase da compilação aconteceu sob o terceiro califa, o Timão Ibn Afan, por volta de 650 d.C. O Islã havia se expandido rapidamente além da Arábia, em regiões como Egito, Síria, Pérsia e até Mesopotâmia.

e em diferentes regiões circulavam versões do texto com variações. Ultimão formou uma comissão liderada novamente pelo Zaid ibn Tabith para estabelecer um texto padrão. O resultado foi o chamado Códice Ultimânico, a padronização do esqueleto consonantal do texto, que está nas bases das edições corânicas posteriores.

O Timão enviou cópias para as principais cidades do Império e ordenou a destruição das outras versões. Essa decisão de destruir versões divergentes é um dos pontos mais discutidos pelos historiadores modernos.

Para a tradição islâmica, ela garantiu a pureza e a integridade do texto. Já para alguns acadêmicos ocidentais, como o historiador alemão Theodor Noldeck, no século XIX, e pesquisadores mais recentes, como Fred Donner, da Universidade de Chicago, ela levanta questões sobre o que foi preservado e o que foi perdido.

Muitos dos acadêmicos contemporâneos reconhecem que o processo de compilação foi cuidadoso para os padrões da época, e que a consistência do texto ao longo dos séculos é bem segura. O texto estabelecido por Ultimão foi escrito originalmente sem vogais. As vogais foram adicionadas de forma gradual ao longo dos séculos VII e VIII, em um processo que também gerou debate.

A versão padrão do Alcorão, que é usada na maior parte do mundo muçulmano de hoje em dia, é a chamada leitura de Hafs, baseada na tradição de Hafs ibn Sulaiman do século VIII. Mas existem outras leituras canônicas, como a de Warsh, usada no norte e oeste da África.

Ao todo, o Alcorão tem 114 suratas, que são meio que capítulos, divididas em versículos chamados de ayahs. O total de ayahs varia entre 6.236 a 6.348, dependendo da contagem. A diferença vem de conversões sobre o que conta como versículo separado. A versão das suratas também varia. A mais longa, a al-Bakra, tem 286 ayahs. A mais curta, a al-Khautar, tem apenas 3.

Um aspecto que costuma surpreender quem abre o Alcorão pela primeira vez é a sua organização. As suratas não estão em horda cronológica de revelação. Elas estão organizadas aproximadamente do maior para o menor, com a exceção da surata Al-Fatihah, que aparece em primeiro lugar, apesar de ser bem curta. Essa organização foi uma escolha editorial, não narrativa.

E resulta em um texto que, para um leitor ocidental, habituado a uma estrutura linear da Bíblia, parece inicialmente desordenado. Os temas se repetem, se entrelaçam, retornam em suratas diferentes com perspectivas diferentes. Isso faz sentido.

quando se entende que o Alcorão não foi concebido como um livro para ser lido de capa a capa. Ele foi concebido como um texto para ser recitado, meditado e retornado de forma constante. Quase todas as suratas começam com a fórmula Bismillah, e Raman e Rahim, que significa, em nome de Allah, o clemente, o misericordioso.

Essa frase, chamada de bismillah, está tão enraizada na cultura islâmica que os muçulmanos usam antes de qualquer ação importante, antes de comer, antes de começar um trabalho ou antes de uma viagem. É a abertura do texto sagrado, mas também é uma prática cotidiana de orientação espiritual. A primeira surata, Al-Fatihah, que é a abertura, é um caso especial.

Seus sete versículos funcionam como uma oração e uma síntese do Alcorão inteiro. Todo muçulmano que reza as cinco orações diárias recita a Al-Fatihah pelo menos 17 vezes por dia. O texto diz, em tradução livre, abre aspas, em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.

Louvor a Allah, Senhor dos mundos, o clemente, o misericordioso, soberano do dia do julgamento. A ti adoramos e a ti pedimos socorro. Guia-nos pelo caminho reto, o caminho daqueles a quem concedeste graças.

não dos que incorreram em ira, nem dos extraviados". Fecha aspas. Em sete linhas estão os elementos centrais da teologia islâmica. A unicidade, a soberania de Allah, seus atributos de misericórdia, o dia do julgamento, a relação de adoração e dependência entre o ser humano e Deus.

e o pedido de orientação, que é, em última análise, o que o Alcorão inteiro pretende oferecer. Algumas suratas têm nomes que descrevem o seu tema central. Albácara é a vaca, nome de uma vaca mencionada em uma das histórias. An-Nisa é as mulheres, Al-Maidah é a mesa posta.

Al-Kaf significa a caverna, Al significa o ou a, é o artigo definido. Existem outros textos com nomes mais enigmáticos, como 29 suratas, que começam com letras isoladas, como Alif Lan Min ou Yasin, que o significado exato é considerado desconhecido pela tradição islâmica, ou seja, é um mistério reservado ao conhecimento divino.

Ao longo da história, diversos teólogos islâmicos propuseram diferentes interpretações, mas não existe um consenso sobre isso, e o debate permanece aberto.

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Muito bem, gente, o tema central de todo o livro, de todo o Alcorão, meio que o eixo geral em torno do qual tudo gira, é o conceito de Tawhid, a unicidade absoluta e indivisível de Allah. A surata Al-Iqlas é uma das mais curtas do Alcorão, com apenas quatro versículos.

Ela é frequentemente citada como a síntese perfeita dessa doutrina. Abre aspas. Dize, ele é Deus, o único. Deus, o eterno absoluto. Não gerou, nem foi gerado. E nada é igual a ele. Fecha aspas.

O Alcorão reconhece uma longa cadeia de profetas que precederam Maomé. Começa por Adão, incluindo Noé, Abraão, Ismael, Isaac, Jacó, José, Moisés, Davi, Salomão e Jesus. Todos eles são considerados muçulmanos no sentido etimológico da palavra, ou seja, aqueles que se submeteram a Deus.

A mensagem que cada profeta trouxe era, na essência, a mesma. Existe apenas um único Deus e todos precisam se submeter a ele. Se as mensagens anteriores foram distorcidas ou corrompidas pelos seguidores ao longo do tempo, o Alcorão é a mensagem final e preservada.

Esse é o argumento que o texto sagrado usa para explicar as diferenças em relação à Bíblia cristã e judaica, por exemplo. O tratamento que o Alcorão dá a Jesus, chamado de Isa em árabe, é bem interessante e normalmente surpreende os leitores ocidentais.

Jesus é um dos profetas mais mencionados no Alcorão, mais do que o Maomé, em alguns aspectos. É confirmado o seu nascimento virginal, os seus milagres, as suas sabedorias. Tem uma sorata inteira chamada Mariam, que é Maria, que narra a concepção e o nascimento de Jesus, escrito com muita beleza literária.

A interpretação islâmica majoritária entende que Jesus não foi crucificado, ele foi elevado por Deus. O versículo de Anisa afirma que eles não o mataram, nem o crucificaram, embora o sentido exato dessa passagem tenha gerado debates interpretativos. A Sorata Anisa diz que os judeus não mataram Jesus, não o crucificaram. Como eu disse, ele foi elevado por Deus pouco antes da crucificação.

Você pode imaginar que essa posição tem gerado debates teológicos entre muçulmanos e cristãos ao longo dos séculos. O dia do julgamento, chamado Yam al-Qiyamah, é outro tema recorrente, com presença intensa, especialmente nas suratas mequenses.

As descrições do Alcorão sobre o juízo final têm uma intensidade poética bem peculiar. Você lê sobre o céu se abrindo como um pergaminho enrolado, as montanhas se movendo como flocos de lã, os oceanos transbordando, cada alma confrontando o registro de suas ações. O paraíso, que se chama Al-Jana, e o inferno, que se chama Jahanam, são descritos com detalhes. O paraíso é descrito como jardins com rios de água, leite, mel e vinho. E aí

com companheiros puros e a presença de Deus. O inferno é descrito com fogo, água fervente e alimentos que sufocam. Esses elementos têm alimentado séculos de arte e literatura islâmica e, através do contato cultural, influenciaram a imaginação do além no mundo cristão medieval também.

Uma das doutrinas mais centrais do Islã em relação ao Alcorão é o conceito de Ijaz Al-Quran, ou seja, de que o Alcorão não pode ser copiado, reproduzido ou imitado. A ideia é que o texto é de uma qualidade literária, linguística e espiritual que nenhum ser humano seria capaz de produzir.

O próprio Alcorão lança esse desafio em uma passagem da surata Al-Baqarah, conhecida como versículo do desafio. Os adversários de Maomé são convidados a produzir uma surata comparável ao Alcorão, com a ajuda, inclusive, de todos os parceiros que quiserem, se duvidarem que o texto é de origem divina. A incapacidade de aceitar esse desafio seria, para os muçulmanos, a prova da origem sobrenatural do texto. O Alcorão também lida com questões mais cotidianas,

como ética, casamento, direito e comportamentos. Eu vou falar mais sobre como o Alcorão lida com essas questões em um episódio exclusivo dessa semana para os apoiadores. Se você quiser ouvir esse e os outros mais de 200 episódios exclusivos que já tem por lá, é só assinar o apoia.se barra história em meia hora.

O árabe do Alcorão, chamado árabe clássico ou árabe corânico, é considerado o árabe mais puro, mais rico e mais belo já produzido. Para os muçulmanos, o Alcorão não tem apenas uma mensagem, tem uma forma que é parte da própria mensagem. A musicalidade, o ritmo, a estrutura das frases, as figuras de linguagem, as repetições, tudo isso faz parte da experiência do texto.

Por isso que a tradição islâmica considera que o Alcorão é tecnicamente intraduzível. Qualquer versão em outro idioma é uma interpretação do significado, e não o Alcorão em si. As traduções são chamadas de traduções do significado ou interpretações, mas nunca o Alcorão em português, por exemplo, ou o Alcorão em inglês.

O único Alcorão autêntico é em árabe, e isso tem uma consequência prática. Muçulmanos de todo o mundo, da Indonésia ao Brasil, da Nigéria ao Cazaquistão, eles memorizam e recitam o Alcorão em árabe, mesmo que não falem o árabe no seu cotidiano. A recitação do Alcorão, chamada de Tajweed, quando feita com as regras fonéticas tradicionais, é considerada uma forma de adoração.

Existem competições internacionais de recitação corânica, com audiência de milhões e milhões de pessoas. A voz de um bom recitador do Alcorão, como o egípcio Abdul Bazit Abdul Samad, ou o saudita Mishari Rashid Alafazi, é reconhecida e admirada em todo o mundo muçulmano, com status comparável ao de grandes músicos.

O Alcorão é um texto para ser tanto ouvido quanto para ser lido. Uma coisa importante sobre o Alcorão é que todo texto precisa de uma longa tradição de interpretação. O estudo sistemático de interpretação do Alcorão é chamado de tafzir, que significa literalmente explicação ou comentário. Os primeiros comentários sistemáticos surgiram já no século VIII, e a tradição do tafzir produziu obras complexas e de grande densidade ao longo dos séculos.

Um dos mais influentes é o Tafzir al-Tabari, escrito pelo historiador e teólogo persa Muhammad ibn Jariq al-Tabari, no século IX. Inclusive, é uma obra de dezenas de volumes que ainda é uma referência fundamental. Talvez você já saiba que existe uma divisão muito forte dentro do Islã a respeito da sucessão do Maomé. Eu estou me referindo aos sunitas e aos xiitas.

Além das diferenças sobre como a liderança deve ser escolhida, essas duas vertentes também desenvolveram diferenças na interpretação do Alcorão. Para os chiítas, a interpretação autêntica do Alcorão passa pelos imames, os descendentes de Ali, primo e genro de Maomé, que têm autoridade para revelar os sentidos ocultos no texto. Já para os sunitas, a interpretação se baseia no consenso dos estudiosos e na autoridade das fontes clássicas.

As diferenças práticas na jurisprudência e na teologia entre as duas tradições derivam em parte dessas abordagens de interpretação diferentes. O Sufismo, conhecido como a tradição mística do Islã, desenvolveu uma abordagem interpretativa radicalmente diferente das escolas jurídicas.

Para os sufis, o Alcorão tem camadas de significado, um sentido exterior, literal, acessível a todo mundo. E também tem sentidos interiores e espirituais que só se revelam ao coração purificado pela prática espiritual. O poeta persa, Rumi, é o exemplo mais famoso de uma leitura sufista que encontra no texto corânico significados místicos sobre a jornada da alma em direção a Deus. Para Rumi e para outros sufis, o amor divino é o coração oculto de cada versículo.

O mundo contemporâneo trouxe novos desafios à interpretação. Pensadores como o egípcio Muhammad Abdul, no final do século XIX, e o paquistanês americano Fazlul Haman, já no século XX, propuseram abordagens histórico-críticas.

que distinguem entre os princípios eternos do texto e as aplicações históricas específicas ao contexto do século VII. Essa distinção abre espaço para reinterpretações de passagem sobre a condição da mulher, sobre as relações com não-muçulmanos, sobre a guerra e a paz.

Do outro lado, algumas correntes um pouco mais fundamentalistas, como o arabismo saudita, insistem numa leitura literal e atemporal do texto, rejeitando qualquer contextualização histórica. Esse debate não é apenas acadêmico e tem implicações políticas e sociais imensuráveis no mundo contemporâneo.

O Alcorão é, por qualquer métrica, o texto mais memorizado e mais recitado da história de todo o mundo. Estima-se que entre 10 a 15 milhões de muçulmanos tenham memorizado o texto integral, um feito que exige anos e anos de estudo dedicado, afinal, o Alcorão tem aproximadamente 77 mil palavras.

O Alcorão moldou a civilização islâmica de formas que vão muito além da religião. A caligrafia árabe se desenvolveu como arte precisamente porque o Alcorão exigia uma forma digna de ser escrito. E a caligrafia islâmica se tornou uma das tradições artísticas mais sofisticadas do mundo.

A arquitetura das mesquitas em todo o mundo tem versículos escritos nas paredes, nos frisos, nos minaretes. A música se desenvolveu, em parte, como contexto para recitação sagrada. A filosofia e a ciência, desenvolvidas em sociedades islâmicas medievais, traduziram, comentaram e transformaram heranças gregas, persas e indianas. E parte desse legado chegou à Europa por centros como Al-Andalus, Sicília e redes de tradução latinas.

Muitos filósofos, cientistas e teólogos do mundo islâmico dialogavam com o Alcorão e também com a tradição religiosa. Em um mundo em que as tensões em torno do Islã dominam tanto a agenda política e midiática, o Alcorão permanece desconhecido para a maioria das pessoas que opinam sobre ele. Muitas opiniões públicas sobre o Islã em países ocidentais são formadas mais por mídia, políticas e conflitos contemporâneos do que por uma leitura direta do Alcorão.

Muita gente nunca leu uma página do livro. Entender o Alcorão, o seu contexto, a sua estrutura, os seus temas, os seus personagens, a sua complexidade interna, não significa concordar com ele ou defendê-lo. Significa ser capaz de ter uma conversa honesta sobre o livro, um livro que molda a vida de um quarto de toda a humanidade. E essa conversa, como vocês sabem, é cada vez mais necessária.

Pessoal, eu vou recomendar três episódios aqui do podcast, que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora, e eles vão servir de complemento para esse episódio que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Islamismo, o segundo se chama Cruzadas, e o terceiro se chama Bíblia.

Agora, vamos fazer aquele resumão de um minutinho para você relembrar o que você aprendeu hoje. Vamos lá. Quando falamos do Alcorão, estamos falando de um texto que surgiu na Península Arábica do século VII, em uma sociedade oral politeísta e que se organizava em tribos. A tradição islâmica descreve a sua origem como uma revelação direta da palavra de Allah ao profeta Mohammed, através do anjo Gabriel, ao longo de 23 anos.

As revelações foram preservadas pela memória dos Rafizes e em fragmentos escritos, compiladas sob Abu Bakr e padronizadas definitivamente sob o califa ultimão, por volta de 650 d.C. O texto tem 114 suratas organizadas, predominantemente por tamanho, não por cronologia, divididas em ayahs, que são os versículos.

Suas suratas mequenses são as mais poéticas e teológicas, as medinências mais legislativas e sociais. Os grandes temas são o Tauríde, a unicidade absoluta de Deus, a sequência profética de Adão a Maomé, o dia do julgamento e a criação.

O árabe do Alcorão é considerado algo que não pode ser imitado, tornando o texto intraduzível, apenas interpretável. Ao longo de séculos, escolas de tafzir, a divisão sunita-xiíta e o misticismo sufi produziram leituras riquíssimas e divergentes.

Hoje, o Alcorão é o texto mais memorizado do mundo e a referência central para mais de 2 bilhões de pessoas. E entendê-lo é a condição para qualquer conversa séria sobre o mundo contemporâneo, principalmente em situações em que a islamofobia tem crescido pelo mundo, incluindo na Europa. Em um contexto europeu marcado por migrações, disputas identitárias, crescimento da extrema-direita, medo do terrorismo e debates sobre secularismo e integração. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.

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