Episódios de História em Meia Hora

Zoroastrismo

19 de setembro de 202628min
0:00 / 28:54

Uma religião fundamental pra entendermos não apenas o Irã e a Pérsia, mas também todas as três grandes religiões abraâmicas. Separe trinta minutos do seu dia e aprenda com o professor Vítor Soares (@profvitorsoares) sobre a história do Zoroastrismo.

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Apresentação: Prof. Vítor Soares.

Roteiro: Prof. Vítor Soares e Prof. Victor Alexandre (@profvictoralexandre)

REFERÊNCIAS USADAS:

- GNOLI, Gherardo. Zoroaster in History. New York: Bibliotheca Persica Press, 2000.

- HENRIQUES, Ana Cândida Vieira. Zoroastrismo da Pérsia e catolicismo romano: um estudo comparado entre concepções escatológicas. 2019. 

- MAZZAROLO, Isidoro. A Apocalíptica no Zoroastrismo, Judaísmo e Cristianismo. 2011. Tese de Doutorado. PUC-Rio. .

- SHAKED, Shaul. Dualism in Transformation: Varieties of Religion in Sasanian Iran. London: SOAS, 1994.

- NIGOSIAN, S.A. The Zoroastrian Faith: Tradition and Modern Research. Montreal: McGill-Queen's University Press, 1993.

Participantes neste episódio1
V

Vítor Soares

HostProfessor de história
Assuntos6
  • A influência do Zoroastrismo no judaísmo, cristianismo e Islãexílio babilônico e contato com persas·desenvolvimento da figura de Satanás·anjos com nomes próprios·ressurreição dos mortos e julgamento final
  • A origem e o contexto do Zoroastrismo no Planalto Iranianosurgimento no 2º milênio antes de Cristo·influência em religiões abraâmicas·povos indoarianos e politeísmo·Zaratustra e o monoteísmo
  • Os ensinamentos centrais do Zoroastrismo e sua ética universalAhura Mazda como ser supremo·Angra Mainyu como espírito destrutivo·oposição entre Asha e Druj·livre-arbítrio e ética Humata, Hukta, Hrvasta
  • A cosmologia e escatologia zoroastrista, incluindo a vida após a mortecriação do cosmos em duas etapas·julgamento na ponte Shingwat·paraíso Garuda Mani e inferno·Fraskart e a renovação do mundo
  • O declínio do Zoroastrismo na Pérsia e a migração dos Parsis para a Índiafim do Império Sassânida e islamização·status de dhimmis e pressão para conversão·emigração para a Índia e acordo com rei local·preservação da religião e tradições
  • O legado cultural e os desafios demográficos do Zoroastrismo contemporâneoFreddie Mercury como Parsi·Friedrich Nietzsche e Zaratustra·contribuição ao pensamento monoteísta ocidental·baixa taxa de natalidade e casamentos mistos
Transcrição11 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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VSVítor Soares

E se eu te falar de uma religião com mais de 3.500 anos que ainda existe até hoje e que essa mesma religião influenciou profundamente o judaísmo, cristianismo e o Islã e que por incrível que pareça a maioria das pessoas nunca ouviu falar? Essa religião nos deu conceitos fundamentais que estruturam as religiões monoteístas ocidentais. Eu tô falando do zoroastrismo e hoje eu quero te mostrar da onde que ela veio e de que forma que ela foi tão importante no desenvolvimento do mundo antigo.

Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor Eu sou professor de história e seja muito bem-vindo ao História em Meia Hora. Antes de eu continuar, se inscreve no canal, segue, deixa um like, comenta alguma coisa, que tudo isso ajuda muito o meu trabalho. Bem, pra gente entender o zoroastrismo, precisamos entender primeiro o mundo em que ele surgiu. Eu tô falando do 2º milênio antes da Era Comum, em algum momento entre 1500 até 600 antes de Cristo.

Existe um debate muito longo sobre essa data E esse é um debate que eu vou explicar melhor um pouco mais pra frente. Bem, o cenário em que essa religião surgiu foi o Planalto Iraniano e a Ásia Central. Uma grande região de estepes, montanhas e planícies que era habitada por povos indoarianos. Esses povos eram ancestrais comuns dos persas, dos medos e dos povos que migraram pra Índia. E lá desenvolveram as tradições védicas. Esses povos praticavam uma religião politeísta que tinha muita semelhança com a religião védica da Índia antiga.

O que faz muito sentido, afinal eles vinham do mesmo tronco cultural. Eles adoravam entidades divinas que se dividiam em duas categorias principais. A primeira era dos Arruras e a segunda dos Daivas. As cerimônias incluíam sacrifícios de animais e o consumo de uma bebida chamada Haoma, que é o equivalente ao soma védico. Havia também um sacerdócio especializado chamado de Atravans. Era uma religião adaptada à vida nômade e pastoril, voltada para prosperidade do rebanho, a fertilidade da terra e a proteção guerreira.

Foi nesse contexto que surgiu um homem que iria transformar completamente as bases do que se acreditava. Esse homem era Zaratustra, e o que O que ele fez foi tão radical que muitos estudiosos o consideram o primeiro pensador verdadeiramente monoteísta da história humana. E aqui chegamos logo de cara em um problema histórico que é importante de ser conhecido. A gente não sabe quase nada do Zaratustra, pelo menos não com certeza absoluta.

Não sabemos quando ele nasceu, onde exatamente que ele viveu, e não sabemos quais eventos biográficos são históricos e quais são lendas. As datações propostas pelos estudiosos variam. Alguns colocam o Zaratustra por volta de 1500 a.C. e outros por volta de 600 a.C. E há propostas pra praticamente todos os séculos entre esses dois extremos. Essa incerteza de quase 1000 anos é incomum mesmo pro mundo antigo, que é um período difícil de realizar datações.

Bem, o que temos são as Gatas, 17 hinos que compõem a parte mais antiga do texto sagrado zoroastrista, o Avesta. As Gatas são atribuídas diretamente a Zaratustra e são a nossa fonte primária sobre o que ele pensava, sobre o que ele pregava e sobre o que ele sentia. São textos de uma complexidade religiosa impressionante, poesia lírica e filosófica ao mesmo tempo. Escritas em uma forma arcaica do avéstico que os próprios sacerdotes zoroastristas já tinham dificuldade de entender completamente.

Através das gatas, vemos alguém que se descreve como um profeta rejeitado pelos poderosos do seu tempo, que clama por justiça, que relata visões divinas e que tá em conflito com os sacerdotes da religião tradicional. A narrativa tradicional da vida de Zaratustra, compilada em textos posteriores, conta que ele teve a sua primeira visão por volta dos 30 anos. O número 30 não é coincidência. Em várias tradições religiosas, é a idade em que um profeta profeta começa a sua missão pública.

A história diz que ao buscar água em um rio para uma cerimônia ritual, ele recebeu a visita de um ser luminoso que o conduziu à presença de Ahura Mazda, o Senhor Sábio. Ali ele recebeu a revelação da verdadeira natureza do cosmos e a missão de pregar a verdade. Zarathustra passou anos pregando sem conseguir converter praticamente ninguém. A tradição diz que apenas um parente próximo que se converteu logo nos primeiros anos. Foi somente quando ele converteu um rei local chamado Vistaspa, provavelmente um governante regional da Ásia Central, que o movimento ganhou proteção política e começou a se expandir.

O que o Zaratustra fez de mais radical foi pegar a religião que existia e virá-la de cabeça para baixo. Os Daivas, que eram entidades divinas adoradas na religião politeísta anterior, foram declarados demônios, forças do mal e seguidores do espírito destrutivo. Os Ahuras foram elevados e acima de todos estava um único ser supremo, Ahura Mazda, o Senhor Sábio, o único Deus verdadeiro. O ponto principal dos ensinamentos zoroastristas pode ser resumido em algumas proposições que eram totalmente totalmente novas pro mundo do 2º milênio antes de Cristo.

A primeira é a existência de um único ser supremo e bom, o Ahura Mazda, que na língua avéstica significa literalmente Senhor Sábio ou Senhor do Conhecimento. Ahura Mazda é a fonte de toda a luz, de toda a ordem, de toda a verdade. Ele criou o cosmos bom e quer que o bem prevaleça. A segunda proposição é a existência de uma força oposta, o Angra Mainyu, também chamado de Ahriman nas versões mais tardias. Angra Mainyu é o espírito destrutivo, a fonte do mal, da mentira e do caos.

E aqui é importante fazer uma distinção que muitos textos populares erram. O zoroastrismo não é um dualismo absoluto, no sentido de dois poderes iguais e eternos em conflito eterno. Na teologia zoroastrista, o Ahura Mazda é claramente superior. Angra Mainyu existe, é real e causa sofrimento, mas é uma força inferior, destinada à derrota. O conflito entre eles é real e presente no mundo, mas tem uma resolução. No fim dos tempos, o bem vencerá de forma definitiva.

O eixo moral do zoroastrismo é a oposição entre Asha e Druj. Zoro acha é a verdade, a ordem e a retidão, Druj é a mentira, o caos e a falsidade. Cada ser humano está num campo de batalha cósmico, mas não como uma vítima passiva. O livre-arbítrio é central nessa teologia. Cada pessoa escolhe a qual lado pertence por meio dos seus pensamentos, palavras e ações. A fórmula ética zoroastrista é simples e os próprios zoroastristas a repetem até hoje em avéstico: Humata, Hukta, Hrvasta, que significa bons pensamentos, boas palavras e boas obras.

O que torna essa ética diferente para o período que surgiu é o seu caráter universal. Não se trata de um código de conduta para um povo específico ou para uma casta. O zoroastrismo afirma que todo ser humano, independentemente da sua origem, tem o mesmo dever moral e a mesma capacidade de escolha. Em um mundo antigo onde a moral era frequentemente definida por pertencimento tribal ou por status social, esse universalismo ético era extraordinário.

Ahura Mazda não age sozinho no mundo. Ao seu redor estão os Ameshas Pentas, os chamados imortais benéficos. São 6 entidades que emanam de Ahura Mazda e que representam aspectos tanto divinos quanto éticos. O primeiro é o Vohu Maná, o bom pensamento. O segundo é Asha Vahista, a melhor retidão. O terceiro é Kishatra Vairya, o domínio desejável. O quarto é Spenta Armaith, a devoção santa. O quinto é Raúrvata, a integridade. E o sexto é Ameretat, a imortalidade.

Os Amesha Spentas são frequentemente comparados aos arcanjos das tradições abraâmicas. São seres intermediários entre o divino supremo e o mundo humano. Com funções específicas e personalidades distintas. O zoroastrismo tem uma das cosmologias mais elaboradas e influentes do mundo antigo. O cosmos foi criado por Ahura Mazda em duas etapas: primeiro em forma espiritual e imaterial, e depois em forma material e física. Angra Mainyu atacou a criação material, introduzindo o mal, a doença, a morte e o sofrimento.

A história do mundo desde então é o desenrolar dessa batalha, uma batalha que os seres humanos participam ativamente através das suas escolhas éticas. A vida após a morte no zoroastrismo é bastante complexa. Depois da morte, a alma permanece junto ao corpo por 3 dias, em um período de avaliação. No 4º dia, a alma viaja até a ponte Shingwat, a ponte do julgamento. Essa ponte é estreita ou larga dependendo dos atos da pessoa em vida.

Para os justos, ela se expande e é bem fácil de atravessar, levando até o paraíso. Mas para os ímpios, ela se estreita até se tornar uma lâmina de uma faca e a alma cai para o inferno. No momento da travessia, a alma é recebida por uma figura. Para os justos, é uma donzela muito bonita, que seria a personificação dos seus dos seus próprios bons atos. Para os ímpios, é uma figura muito feia e que dá nojo. E essa seria uma personificação dos seus próprios maus atos.

Esse elemento do julgamento pela própria consciência personificada é um dos mais poéticos e psicologicamente sofisticados de toda a escatologia do mundo antigo. O paraíso zoroastrista se chama Garuda Mani, que significa a casa do canto ou casa de Ahura Mazda. É um lugar de luz, alegria e comunhão com o divino. O inferno é o reino de Angra Mainyu e é um lugar de trevas, sofrimento e fedor. Existe ainda um lugar intermediário, para aquelas almas que os atos bons e maus se equilibram, um conceito que tem um paralelo com o purgatório cristão, embora os estudiosos debatam a relação entre os dois.

Mas o mais impressionante na escatologia zoroastrista é o que acontece no fim dos tempos. O zoroastrismo tem uma visão profundamente linear da história. Ela tem um começo, um meio e um fim, e o fim é bom. Esse fim se chama Fraskart, que podemos traduzir como a renovação. No Fraskart, o mal é finalmente derrotado, Angra Mainyu é destruído, os mortos ressuscitam em corpos físicos perfeitos e o cosmo retorna ao estado de perfeição que o Ahura Mazda tinha em mente durante a criação.

É uma escatologia, um fim do mundo otimista. O fim não é exatamente um fim, é uma restauração, um aperfeiçoamento. Para alguém que estuda as diferentes religiões, esse tipo de relato é um prato cheio, porque a estrutura básica do pensamento apocalíptico abraâmico, com juízo, ressurreição e renovação cósmica, tá toda aqui, séculos antes do judaísmo desenvolver seus conceitos em sua forma clássica. Como eu já citei no começo do episódio, o texto sagrado central do zoroastrismo se chama É uma coleção de textos em avéstico, a língua sagrada da religião, e uma língua iraniana antiga que não é mais falada fora do contexto religioso.

O Avesta inclui hinos, orações, códigos de lei ritual e textos litúrgicos. O problema é que o Avesta que nós temos hoje em dia é fragmentário. Os estudiosos estimam que representa talvez um quarto ou até menos do texto original. A maior parte teria sido destruída durante as conquistas de Alexandre Magno no século IV antes de Cristo e novamente durante a conquista árabe do século VII depois de Cristo. A parte mais antiga e mais importante do Avesta são as Gatas, os 17 hinos atribuídos diretamente a Zaratustra.

As Gatas estão inseridas numa obra maior chamada Yasna, que é a liturgia principal do culto zoroastrista. Além do Yasna, o Avesta inclui o Visperad, uma extensão litúrgica. Também tem o Vendidad, que contém o código de pureza ritual e mitologia. E por último, tem também os Yashtis, que são hinos às divindades e figuras heroicas. A transmissão do Avesta foi feita principalmente por via oral e durante séculos. Os sacerdotes memorizavam em contextos enormes e os passavam de geração em geração, o que garantiu a sobrevivência do conteúdo, mas também introduziu variações e perdas ao longo do tempo.

A forma escrita que temos foi compilada e fixada principalmente durante o período dos Sassânidas, entre os séculos 3 e 7 da Era Comum. Inclusive, a conexão entre o zoroastrismo e os grandes impérios persas da antiguidade é um dos temas mais fascinantes e mais debatidos da história das religiões. O primeiro grande império persa, o dos Aquemênidas, foi fundado por Ciro o Grande no século 6 antes de Cristo e foi responsável pelo maior império que o mundo já havia visto até então.

Esse império é frequentemente associado ao zoroastrismo, mas a relação é bem mais complexa do que parece à primeira vista. E eu vou explicar isso pra vocês daqui a pouquinho. Passando aqui rapidinho pra convidar você a conhecer a campanha de financiamento coletivo que mantém o História em Meia Hora no ar, o apoia.se/historiameiahora. A partir de R$10, você tem acesso a uma playlist com 250 episódios exclusivos. Toda semana eu publico Eu publico um episódio exclusivo por lá, além do episódio que tem aqui no História em Meia Hora.

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VSVítor Soares

Como eu tava falando, o zoroatrismo tem uma relação direta com alguns impérios. Dentre eles, uma das conexões mais conhecidas é com os persas. Ciro o Grande conquistou Babilônia Babilônia em 539 antes de Cristo e emitiu um decreto muito famoso que permitiu o retorno dos judeus exilados à sua terra. E é por esse motivo que ele é exaltado na Bíblia hebraica como um instrumento de Deus, uma homenagem fora do padrão para um não judeu.

Esse decreto é geralmente interpretado como reflexo de uma política de tolerância religiosa que era uma característica dos aquemênidas. Os aquemênidas não obrigavam os povos conquistados a seguirem a sua religião. Se essa tolerância tinha inspiração zoroastrista ou se era simplesmente pragmatismo político, os historiadores ainda debatem. Dário I governou entre 522 a 486 antes de Cristo e deixou uma das inscrições mais importantes da história antiga na rocha de Behistun.

Nela, Dário invoca Ahura Mazda várias vezes como o deus que o apoiou e legitimou o seu poder. Mas Dário também faz referência a outros deuses em alguns contextos, o que complica a leitura do seu zoroastrismo. Já Xerxes, o filho de Dário, é mais explicitamente iconoclasta em algumas inscrições, ordenando a destruição destruição de santuários de deuses estrangeiros, o que soa mais zoroastrista na postura em relação às divindades consideradas falsas.

O zoroastrismo se tornou religião de Estado de forma oficial durante o Império Sassânida, que governou a Pérsia entre 224 a 651 da Era Comum. Os sassânidas criaram uma teocracia zoroastrista e o rei era visto como representante de Ahura Mazda na Terra. O clero zoroastrista, os chamados Magi, tinha um grande poder político e econômico, e o Avesta foi sistematizado e escrito pela primeira vez em forma Foi também durante o governo dos Sassânidas que o zoroastrismo desenvolveu a sua forma mais elaborada de intolerância religiosa.

Cristãos, maniqueus e outras minorias sofreram perseguições em vários reinados. Era um zoroastrismo institucionalizado, burocratizado e politicamente poderoso, muito diferente de uma religião de um profeta nômade que havia pregado ética pessoal e livre-arbítrio. E esse é talvez o capítulo mais debatido de toda a história do zoroastrismo e também o mais delicado, porque toca na origem de um dos conceitos que bilhões de pessoas consideram revelação divina direta?

A pergunta é simples de formular, mas tem implicações graves. O judaísmo, e através dele o cristianismo e o Islã, absorveu ideias do zoroastrismo durante o período do exílio babilônico. Vamos entender do que eu tô falando. Os judeus foram levados cativos para Babilônia em 597 até 586 antes de Cristo pelo rei neobabilônico Nabucodonosor. Em 539 antes de Cristo, Ciro o Grande conquistou a Babilônia e emitiu o decreto que permitia o retorno dos judeus.

Esse decreto tá registrado tanto em fontes tanto nas escrituras persas quanto na Bíblia hebraica, onde Ciro é explicitamente chamado de ungido de Deus. A palavra usada em hebraico é Mashiach, o mesmo termo que vai dar origem a Messias. Os judeus exilados viveram por décadas em forte contato com a cultura e a religião persa, que era fortemente influenciada pelo zoroastrismo. O que os estudiosos observam é que vários conceitos que aparecem no judaísmo do Segundo Templo, o período após o retorno do exílio, simplesmente não estavam presentes ou estavam muito menos desenvolvidos judaísmo anterior ao exílio.

Um ótimo exemplo é a figura de Satanás. Nos textos mais antigos da Bíblia hebraica, o termo se refere ao acusador, um adversário no sentido jurídico, ainda dentro da corte celestial de Deus. Não é um ser do mal, um ser independente e oponente de Deus. É somente nos textos do período do Segundo Templo que o Satã começa a ganhar as características do ser do mal e poderoso que todos nós conhecemos. Inclusive, não há muito tempo eu lancei um episódio sobre demônio, depois você confere lá.

Anjos com nomes próprios como Miguel, Miguel, Gabriel e Rafael aparecem na literatura judaica, especialmente nos textos que foram redigidos após esse contato com os persas. A ressurreição dos mortos, o julgamento final e o apocalipse como conceitos que foram desenvolvidos também aparecem nesse mesmo período. A coincidência temporal existe e tem sido estudada. Esses conceitos se desenvolvem justamente no período em que os judeus tiveram contato intenso com o zoroastrismo.

O livro de Jó, provavelmente escrito durante ou após o exílio, apresenta Satanás em uma cena celestial de uma forma que é mais elaborada do que as aparições mais antigas. O Livro de Daniel, que também foi escrito no período do Segundo Templo, tem anjos com nomes e funções específicas, além de visões apocalípticas de impérios se sucedendo e um julgamento final. Eu tô falando de uma forma de pensar e organizar o fim do mundo que se conecta com o zoroastrismo.

A partir de um achado arqueológico moderno, os textos de Qumran, os chamados Manuscritos do Mar Morto, mostram uma continuidade judaica que elaborou o dualismo entre luz e trevas, filhos da luz e filhos das trevas, e um vocabulário confundível por ser parecido com a teologia zoroastrista. Para historiadores das religiões como Mary Boyce e Shaul Shaked, a influência zoroastrista sobre o judaísmo do Segundo Templo é óbvia e pode ser demonstrável.

Para outros estudiosos, os conceitos poderiam ter se desenvolvido independentemente, ou a relação de influência é menor do que parece. E já para aqueles que seguem as tradições abraâmicas, a questão é teologicamente sensível, porque levantar a possibilidade de influência persa sobre os conceitos considerados revelação divina é para alguns algo bem problemático. Mas o que podemos dizer com segurança é que a confluência existiu, o contato foi real, e o judaísmo de fato saiu do exílio babilônico com uma teologia mais elaborada do que quando entrou.

Se isso foi influência, paralelo, ou desenvolvimento interno acelerado por um período de crise, é um debate que a academia continua travando. Por séculos, o zoroastrismo havia sido a religião dominante de um dos maiores impérios do mundo. Os sassânidas controlavam muitos territórios, tinha uma civilização sofisticada, e o zoroastrismo era a sua religião oficial, e todo o aparato de Estado que isso implica. Em 642 d.C., a Batalha de Nehrawend colocou fim ao Império Sassânida.

As forças muçulmanas chegaram da Arábia e derrotaram os persas, iniciando uma islamização gradual do que hoje é o Irã. O processo não foi de conversão imediata e forçada em todos os lugares, foi mais gradual e mais longo do que isso. Os zoroastristas sob domínio árabe inicialmente tinham status de dhimmis, ou seja, povos protegidos que podiam manter a sua religião mediante, claro, de um pagamento de um imposto especial chamado de Gísia.

Mas a pressão social, econômica e política para conversão era constante. Ao longo dos séculos 8, 9 e 10, a população da Pérsia foi se convertendo ao Islã em ondas. O zoroastrismo foi recuando para áreas rurais, para grupos específicos, para famílias que resistiam à conversão por razões de identidade e herança. Houve também destruição material bem relevante. Templos do fogo foram convertidos em mesquitas, textos foram perdidos, e o clero zoroastrista foi progressivamente privado de poder e de recursos.

A própria língua avéstica, que nunca tinha sido uma língua do cotidiano, mas apenas uma língua litúrgica, foi ficando cada vez mais inacessível com o desaparecimento dos sacerdotes formados para transmiti-la. Parte da comunidade zoroastrista fez uma escolha radical, que é emigrar. Por volta dos séculos 9 e 10, grupos de zoroastristas deixaram a Pérsia e navegaram para a costa ocidental da Índia, se estabelecendo principalmente na região de Gujarat.

Esses refugiados ficaram conhecidos como parsis, uma palavra que significa literalmente persas na língua gujarati. Os parsis fizeram um acordo com o rei local, que recebeu uma bela expressão uma tradição parsi. O rei pediu ao líder dos refugiados que explicasse o que eram e o que queriam, e o líder disse que eram como o açúcar que se dissolve no leite, se misturariam sem destruir nem substituir, adoçando sem apagar. O rei aceitou e os parsis cumpriram essa promessa, se adaptando à Índia enquanto preservavam a sua religião, a sua língua litúrgica e as suas tradições, com uma fidelidade que dura mais de 1000 anos.

Os parsis da Índia são hoje uma das comunidades religiosas mais interessantes e mais estudadas de em todo o mundo. E aqui eu não tô falando de números, que inclusive é bem pequeno, mas da sua história, da sua coesão cultural e da sua influência sobre a vida econômica e intelectual da Índia. No auge da era colonial britânica, famílias parsis como os Tatas e os Vadias estavam entre as maiores fortunas industriais do país. O fundador do Grupo Tata, Jamset Tata, era parsi.

O fundador da India Air, o JRD Tata, também era parsi. A tradição de engajamento comercial e de educação que os parsis desenvolveram ao longo de séculos no Gujarat Resultou em uma elite econômica e intelectual de destaque. Das práticas oroa-tristas que os Parsis preservam, tem, por exemplo, o fogo sagrado. Um fogo que arde em templos chamados de Atash Berans e que nunca deve ser apagado. Ele é o símbolo da presença de Ahura Mazda e da verdade no mundo.

O tratamento dos mortos é talvez a prática mais conhecida e mais discutida fora da comunidade. Eu tô falando das Torres do Silêncio, ou Dakmas em avéstico. São estruturas elevadas, circulares, onde os corpos dos mortos são expostos pra serem consumidos por abutres. Lógico que é zoroastrista, uma vez que o corpo, após a morte, é considerado impuro e enterrá-lo ou cremá-lo contaminaria a terra ou o fogo, que são dois elementos sagrados.

A exposição ao céu aberto permite que os abutres façam a decomposição sem contaminar esses elementos. Em Mumbai, as Torres do Silêncio ainda existem, mesmo que a prática esteja sob pressão, porque a população de abutres na Índia colapsou nas últimas décadas. O Nowruz, que é o Ano Novo zoroastrista, é celebrado no equinócio da primavera, por volta de março. Ele sobreviveu não apenas entre os Parsis, mas em todo o mundo iraniano e até mais.

Hoje em dia ele é um feriado nacional no Irã, celebrado por muçulmanos e por zoroastristas, e é reconhecido pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial da humanidade. Líderes religiosos islâmicos iranianos tentaram ao longo dos séculos suprimir o Nowruz como heresia pré-islâmica, mas nenhuma dessas tentativas teve sucesso duradouro. A festa sobreviveu porque tava enraizada demais na cultura, no calendário e na identidade de persa para ser arrancada por decreto.

Por outro lado, o zoroastrismo enfrenta um problema demográfico muito sério. Estamos falando de uma religião que historicamente não praticava proselitismo, ou seja, não praticava a conversão de não zoroastristas. Na verdade, a tentativa de conversão não era incentivada e nem bem vista. O pertencimento à comunidade era definido pelo nascimento, especificamente pelo pai zoroastrista em algumas tradições, ou por qualquer um dos pais em outras.

Com uma comunidade pequena e uma taxa de casamentos mistos crescente, os números são preocupantes. Estima-se que haja apenas entre 100 a 200 mil zoroastristas no mundo inteiro hoje em dia, sendo a maioria parsis na Índia, concentrados principalmente em Mumbai, com comunidades menores no Irã, nos Estados Unidos, no Canadá e no Reino Unido. Nos anos 40, havia cerca de 115 mil parsis apenas na Índia Britânica. Em 2011, o censo indiano registrou menos de 58 mil.

A taxa de natalidade da comunidade é baixa, a de casamentos mistos é alta, e a imigração para países ocidentais acelerado. Existe um grande debate interno na comunidade sobre se a religião deveria começar a aceitar convertidos ou se manter as regras tradicionais. É parte essencial da identidade que preservou a religião por milênios. Bem, antes de eu encerrar, eu quero falar do legado cultural do zoroastrismo em algumas direções que muita gente não associa a essa religião.

A primeira é mais surpreendente para a maioria das pessoas: Freddie Mercury, o vocalista do Queen, era Parsi. Seu nome de nascença é Farrokh Bulsara e ele nasceu em Zanzibar, de família Parsi originária de Guzarat. Ele foi criado Ele acreditava na tradição zoroastrista, frequentou cerimônias em templos parsis e quando ele morreu em 1991, ele foi velado segundo os ritos da comunidade. Ele é um dos maiores artistas de rock da história e era membro de uma das menores religiões e mais antigas comunidades religiosas do mundo.

A segunda direção que talvez alguns de vocês já tenham conectado é filosófica. Em 1883, Friedrich Nietzsche publicou Assim Falou Zaratustra, uma das maiores obras da filosofia ocidental. Uma obra em que o filósofo alemão coloca em cena um personagem chamado Zaratustra como uma espécie de porta-voz das suas ideias sobre eterno retorno, sobre além do homem e muitas outras. O Nietzsche explicou a escolha do nome. Zaratustra havia sido o primeiro a formular o problema do bem e do mal na história humana, portanto seria o próprio Zaratustra que deveria ser o primeiro a superá-lo.

É uma espécie de homenagem à importância histórica do profeta, ainda que o Zaratustra do Nietzsche não tenha quase nada a ver com o fundador histórico do zoroastrismo. A terceira direção é a mais importante e a mais invisível. Eu tô falando da contribuição ao pensamento monoteísta ocidental. Sem o zoroastrismo, o judaísmo do Segundo Templo provavelmente seria diferente. E sem esse judaísmo, o cristianismo seria diferente. E sem o judaísmo e o cristianismo, o Islã também seria diferente.

Cada uma dessas tradições tem naturalmente a sua própria revelação e a sua própria fonte de verdade. E a influência zoroastrista não diminui a profundidade ou a autenticidade dessas tradições. Mas pensar no zoroastrismo nesse contexto é, no mínimo, um exercício intelectual interessante. Como teria sido o monoteísmo ocidental sem o contato com a Pérsia? Sem o zoroastrismo, a gente teria um conceito de um ser do mal personalizado?

De anjos com nomes e funções específicas? De um julgamento após a morte com paraíso e inferno claramente distintos? De uma ressurreição final e de uma renovação cósmica apocalíptica? É óbvio que não tem como a gente saber. Mas a questão nos força a reconhecer que a história das religiões é uma história de encontros, de trocas e de transformações. E que uma das influências mais profundas sobre o mundo monoteísta vem de uma religião que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.

Pessoal, vou recomendar 3 episódios aqui do podcast que você pode procurar aqui no feed do História em Meia Hora e eles vão servir de complemento pra esse que você acabou de ouvir, beleza? O primeiro episódio se chama Judaísmo, o segundo se chama Império Persa e o terceiro se chama Islamismo. E agora bora fazer aquele resumão de 1 minutinho pra você relembrar o que você aprendeu hoje? Vamo lá! Quando falamos de zoroastrismo, estamos falando de uma religião com mais de 3.500 anos fundada pelo profeta Zaratustra em uma região que hoje corresponde ao Irã e à Ásia Central.

Zaratustra transformou a religião politeísta existente ao proclamar Ahura Mazda como o único deus verdadeiro, e ao classificar as antigas divindades como demônios. O zoroastrismo é organizado em torno da oposição entre Asha e Druj, a verdade e a mentira, e coloca o livre-arbítrio humano no centro da batalha cósmica entre o bem e o mal. Tem uma escatologia elaborada, com julgamento após a morte, paraíso, inferno e uma renovação final do mundo, chamada de Fras Kart.

Os textos sagrados reunidos no Avesta sobreviveram de forma fragmentária. A religião se tornou poderosa durante os impérios persas, especialmente sob os sassânidas. O contato dos judeus exilados na Babilônia com a cultura persa gerou influências que moldaram o judaísmo do Segundo Templo e, através dele, o cristianismo e o Islã. A conquista árabe no século 7 levou ao declínio do zoroastrismo na Pérsia e à migração dos parsis para a Índia, onde preservaram a religião por mais de 1000 anos.

Hoje em dia, a comunidade zoroastrista conta entre apenas 100 a 200 mil pessoas no mundo e enfrenta desafios demográficos sérios. O zoroastrismo nos mostra que nem toda fé é original, por mais que todas compartilhem quase as mesmas condutas éticas e morais. Porém, o que tem em comum com outras religiões É o fato de conseguir ser usado politicamente, onde tanto judaísmo, cristianismo e Islã também são usados. Isso não é uma exclusividade que acontece só do outro lado do mundo.

Isso também acontece aqui com o cristianismo. Mas isso já é um papo para uma outra meia hora.

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